Dos Devoristas ao Gang do Avental
Há poucos dias, Paulo Pinto publicou no Observador um artigo intitulado “Maçonaria: os Devoristas”, um texto que vale a pena ler porque toca num tema que acompanha a Maçonaria há muito tempo, a relação entre Maçonaria, poder, influência e a suspeita que muitas vezes nasce apenas da condição de alguém ser maçom.
O ponto de partida é histórico e leva-nos ao liberalismo português do século XIX, quando a presença de maçons na vida política era relevante e quando a Maçonaria se cruzava naturalmente com muitos dos homens que participaram na construção do Estado liberal, mas talvez seja importante olhar para esse século com os olhos desse século, numa época em que era absolutamente normal políticos, militares, diplomatas, comerciantes ou académicos pertencerem a clubes, sociedades, associações e outros círculos privados de sociabilidade, como o White’s, o Brooks’s, o Athenaeum, o Reform Club ou o Travellers Club. A Maçonaria não era apenas mais um desses clubes, porque tinha uma dimensão iniciática e filosófica própria, mas fazia parte desse mesmo mundo de relações, onde as pessoas já se conheciam, trabalhavam juntas, frequentavam os mesmos meios e muitas vezes pertenciam a várias organizações ao mesmo tempo.
Por isso, quando hoje encontramos várias figuras do século XIX que eram maçons, é fácil concluir que se conheciam ou chegaram a determinados lugares por causa da Maçonaria, quando muitas vezes poderá ter acontecido precisamente o contrário, ou seja, já pertenciam aos mesmos meios sociais, profissionais ou intelectuais e foi essa proximidade que os levou também à Maçonaria. E fazer uma linha quase direta entre os Devoristas do século XIX e os maçons de hoje parece-me ainda mais difícil quando pelo meio tivemos uma Monarquia, uma República e quase meio século de Estado Novo, durante o qual a Maçonaria foi proibida, perseguida e praticamente afastada da vida pública portuguesa, sobrevivendo de forma clandestina e muito limitada.
Isto não significa que a influência entre pessoas não exista, porque existe e seria ingénuo dizer o contrário. Um maçom pode ajudar outro maçom, da mesma forma que um antigo colega pode ajudar outro, um amigo pode recomendar um amigo, um militar pode recomendar alguém com quem serviu ou um empresário pode contratar alguém que conhece e em quem confia. O problema não está na relação, está no momento em que essa relação passa a favorecimento ilegítimo, tráfico de influências ou corrupção, e quando isso acontece deve naturalmente ser investigado e punido, mas pelo comportamento concreto e não pela simples condição de maçom.
Há depois uma questão no artigo que considero mais interessante, a ideia de que parte da “neblina” em torno da Maçonaria resulta da própria discrição dos maçons e de que seria melhor assumirem publicamente essa condição. Percebo o argumento, en Inglaterra, por exemplo é algo normal, mas a realidade aqui no cantinho não é assim tão simples. Ser maçom continua a não ser uma informação neutra para muita gente e ainda somos vistos por uma parte da sociedade como o famoso “gang do avental”, uma rede de pessoas que se ajuda, controla empresas, distribui lugares ou resolve problemas através de contactos escondidos.
A discrição nasce também daí. Um Irmão pode não ter vergonha nenhuma de ser maçom e, ao mesmo tempo, não querer que essa seja a primeira informação que aparece quando alguém pesquisa o seu nome, não querer que um futuro empregador olhe para ele de forma diferente, que um colega interprete uma promoção como resultado de uma ligação maçónica ou que um cliente imagine uma influência escondida onde ela nunca existiu. Há muita gente que vota Chega e prefere não o dizer em determinados círculos porque sabe que pode ser imediatamente julgada por essa escolha, e não é preciso concordar ou discordar desse partido para perceber o fenómeno, porque uma pessoa pode ter uma opção perfeitamente legítima e ainda assim preferir não a expor por saber que isso mudará a forma como os outros a veem.
É por isso que existe aqui um paradoxo, porque se diz que os maçons deviam revelar quem são para acabar com a suspeita, quando é precisamente essa suspeita que leva muitos deles a preferir a discrição. E essa discrição não significa esconder crimes, favores ou influências, significa simplesmente reservar para a esfera pessoal uma pertença que ainda hoje pode ter consequências na vida profana.
Quando falamos de titulares de cargos públicos, a questão é naturalmente diferente, porque aí existe um dever acrescido de transparência, mas essa matéria já está prevista na legislação portuguesa, que obriga determinados titulares de cargos políticos e altos cargos públicos a declarar a sua filiação, participação ou exercício de funções em entidades de natureza associativa. E há aqui um pormenor que me parece importante: a lei não diz “Maçonaria”, diz entidades de natureza associativa, ou seja, criou uma regra geral e não uma obrigação dirigida especificamente aos maçons. Faz sentido que assim seja, porque se entendermos que a simples pertença a uma associação deve ser conhecida para permitir o escrutínio de eventuais conflitos de interesses, então a mesma lógica terá de valer para quem pertence a uma associação maçónica, para quem é sócio do Benfica, para quem integra uma Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários, uma associação cultural, uma associação de pais, uma coletividade recreativa, o Rotary ou tantas outras organizações. O que deve interessar não é colocar determinadas associações sob suspeita à partida, mas garantir que, quando existe um possível conflito de interesses, existem regras que permitam identificá-lo e escrutiná-lo.
Por outro lado, também vejo como perfeitamente normal encontrar numa Loja várias pessoas da mesma empresa ou do mesmo grupo de amigos, mas muitas vezes olha-se para isso no ponto de vista errado. Na Maçonaria chegamos normalmente através de pessoas que nos conhecem e em quem existe confiança, logo é natural que alguém convide um amigo, um colega ou uma pessoa com quem trabalhou e cujo carácter conhece, sendo por isso muito mais normal alguém entrar numa Loja onde já está um colega da sua empresa do que imaginar que alguém entrou primeiro na Loja para depois um Irmão lhe arranjar emprego nessa empresa. Pode acontecer um maçom recomendar profissionalmente outro maçom? Claro que pode, tal como recomendaria qualquer pessoa competente em quem confiasse, mas recomendar alguém porque conhecemos a sua competência é muito diferente de favorecer alguém apenas porque pertence à mesma Loja.
Também não reconheço a imagem da Maçonaria como um bloco homogéneo onde todos pensam da mesma maneira, porque numa Loja podemos ter, e temos, pessoas de esquerda e de direita, empresários e trabalhadores, militares, engenheiros, professores, médicos ou reformados, pessoas que discordam profundamente sobre política, economia, religião e até sobre a própria Maçonaria. Na nossa Loja, por exemplo, podemos ter numa mesma sessão a Bíblia, o Corão e a Torá como Livros Sagrados, lado a lado, o que talvez explique melhor do que muitas palavras que aquilo que nos une não é uma agenda política ou religiosa, mas a capacidade de homens com convicções diferentes trabalharem juntos sem obrigar o outro a deixar de acreditar naquilo em que acredita.
Talvez a Maçonaria tenha durante demasiado tempo explicado pouco sobre si própria e talvez isso tenha deixado demasiado espaço para que outros explicassem quem somos, muitas vezes com mais imaginação do que conhecimento, por isso considero importante que hoje existam maçons, Lojas e Obediências dispostos a falar publicamente sobre a sua história e os seus valores, sem por isso revelar aquilo que pertence ao espaço ritual ou retirar a cada Irmão o direito à sua própria discrição.
A transparência é necessária onde existe poder público, os conflitos de interesses devem ser declarados e a corrupção ou o tráfico de influências devem ser investigados e punidos quando existam, mas um maçom deve responder pelo que fez e não pelo avental que usa.
Os Devoristas pertencem à nossa História. Os maçons de hoje pertencem ao nosso tempo. Se algum deles devorar aquilo que não lhe pertence, que responda pelos seus atos, mas não transformemos todos os pedreiros-livres em Devoristas apenas porque continuam a preferir trabalhar a pedra com alguma discrição.
E porque estas conversas se fazem melhor sem neblina, deixo também um convite ao autor do artigo: um café ou um almoço, sem formalismos, para continuarmos esta conversa com tempo, perguntas e opiniões diferentes à mesa. Talvez descobríssemos que, entre aquilo que se imagina sobre a Maçonaria e aquilo que ela realmente é, há muito mais espaço para diálogo do que para suspeita.
João B. M∴M∴
Este texto foi publicado originalmente no A Partir Pedra no Substack .

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