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15 agosto 2026

O Sol esteve sempre lá!

Na passada quarta-feira, dia 12, como muitos outros portugueses, parei para observar o eclipse do Sol. É algo que normalmente só vemos acontecer noutros sítios, mas desta vez calhou-nos a nós. Há mais de um século que não se via algo assim por terras lusitanas, o anterior aconteceu em 1912. O próximo? Teremos de esperar até 2144 para voltar a ter um eclipse total do Sol em território português, ou seja, segundo a lei da vida, será algo único para nós.




Sendo algo tão raro, todos quisemos observar a Lua a avançar lentamente sobre o Sol e depois a deixá-lo para trás novamente. Algo lógico, conhecido e perfeitamente explicado do ponto de vista astronómico, mas, fazendo um dos nossos paralelismos, notamos que o Sol continuou exatamente onde sempre esteve, com a mesma dimensão e a produzir a mesma luz. Não perdeu intensidade, não se apagou e não desapareceu. Apenas, e durante algum tempo, alguma coisa se colocou entre o Sol e nós.

Para quem é maçom e sabe que a Luz assume um significado muito importante na nossa Ordem, penso que não será difícil encontrar aqui matéria para alguma reflexão. Falamos muitas vezes da procura da Luz, de caminhar em direção à Luz, de a receber e de procurar compreender aquilo que ela representa. É natural que pensemos nessa Luz como algo que ainda não temos e que, através do conhecimento, do trabalho e do nosso próprio aperfeiçoamento, procuramos alcançar.

Mas talvez, algumas vezes, o problema não seja encontrar a Luz. Talvez seja perceber aquilo que se colocou entre ela e nós.

No eclipse é evidente, conhecido, estudado e calculado, é a Lua. Sabíamos porque estava ali e sabíamos que continuaria o seu percurso. Mesmo quando grande parte do Sol deixou de ser visível, ninguém pensou que ele tivesse desaparecido, só tínhamos de esperar que a Lua continuasse o seu caminho e saísse da sua frente.

Na nossa vida as coisas não são tão facilmente identificáveis. Entre nós e aquilo que procuramos ver podem colocar-se o orgulho, a vaidade, os preconceitos, a intolerância, o medo de reconhecer um erro, as nossas certezas ou simplesmente a convicção de que já sabemos aquilo que precisamos de saber. E nenhuma dessas coisas altera a realidade que existe do outro lado, altera apenas a forma como nós conseguimos vê-la.

O mais difícil talvez seja perceber que alguma coisa se colocou à nossa frente. É relativamente fácil reconhecer os preconceitos dos outros, as certezas dos outros ou as vaidades dos outros, mas muito mais difícil é identificar as nossas, sobretudo porque continuamos a olhar para aquilo que temos diante de nós convencidos de que o vemos exatamente como ele é. A Alegoria da Caverna de Platão é, a propósito, uma boa leitura. Durante o eclipse sabíamos que a luz estava tapada, na vida nem sempre temos essa consciência.

Foi essa ideia que me ficou daquele eclipse. Durante algum tempo parecia que o Sol estava a desaparecer, quando na realidade nada tinha mudado nele. A alteração estava apenas entre o Sol e eu. Depois, a Lua continuou naturalmente o seu percurso e fomos voltando a ver aquilo que tinha estado oculto. E o Sol não regressou! Ele esteve sempre lá, nunca se foi embora. O que desapareceu foi aquilo que se tinha colocado entre nós.

Talvez aconteça algo semelhante connosco mais vezes do que pensamos. Procuramos respostas, procuramos conhecimento e procuramos Luz, quando por vezes talvez devêssemos descobrir o que é que se colocou entre nós e aquilo que procuramos ver.

Na passada quarta-feira, a resposta era fácil. Era a Lua. Nos outros dias, provavelmente teremos de trabalhar um pouco mais para a encontrar.

João B. M∴M∴

10 abril 2013

Luz


Em Maçonaria, como em vários ramos da espiritualidade, incluindo crenças religiosas, é utilizado ou referido o conceito de "Luz", como algo a procurar, objetivo a atingir, mediante o trabalho do iniciado, do crente. Mas o que é, afinal, a Luz? Que simboliza? Cada um tirará as suas conclusões.  A minha resulta da consideração, designadamente, dos elementos que seguidamente exponho. 

Segundo a Infopédia, Enciclopédia e Dicionário Porto Editora, "Luz" é um "fluxo radiante capaz de estimular a retina para produzir a sensação visual", "claridade emitida ou refletida pelos corpos celestes", "clarão produzido por uma substância em ignição". Em sentido figurado, segundo a mesma fonte, é "verdade, evidência, certeza", "perceção, intuição", "guia, orientação", "iluminação espiritual, fé".

O Génesis, primeiro Livro da Bíblia, inicia-se assim:

No princípio criou Deus os céus e a terra.
E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.
E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro. 
Gênesis 1:1-5

No entanto, um pouco adiante, consta:

E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite; e sejam eles para sinais e para tempos determinados e para dias e anos.
E sejam para luminares na expansão dos céus, para iluminar a terra; e assim foi.
E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia, e o luminar menor para governar a noite; e fez as estrelas.
E Deus os pôs na expansão dos céus para iluminar a terra,
E para governar o dia e a noite, e para fazer separação entre a luz e as trevas; e viu Deus que era bom.
E foi a tarde e a manhã, o dia quarto. 
Gênesis 1:14-19

Portanto, só na quarta jornada da Criação o Grande Arquiteto do Universo criou o Sol e a Lua, "para haver separação entre o dia e a noite", para "iluminar a terra e para governar o dia e a noite e para fazer a separação entre a luz e as trevas". Então que Luz criou Ele logo na primeira jornada, que separação entre a luz e as trevas foi essa bem antes de criar os astros que, na quarta jornada, de novo se refere destinarem-se à "separação da luz e das trevas? Que "Dia" e que "Noite" (note-se as maiúsculas...) são esses referidos na descrição da primeira jornada se só na quarta jornada são criados os astros destinados a governar o dia e a noite?

Ou há grossa contradição logo na primeira página do Volume da Lei Sagrada judaico-cristão, ou então, a Luz , o Dia e a Noite referidos na primeira jornada não são os mesmos referenciados na quarta etapa da Criação...

Entendo que ajudará a esclarecer-nos o início do Evangelho segundo São João (não se estranhe a referência: a Maçonaria é originariamente teísta cristã; sobre a camada original, passou a incluir também a noção deísta, mas esta não anula aquela, tal como aquela não impede esta...):

1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.
2 Ele estava no princípio junto de Deus.
3 Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.
4 Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens.
5 A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
6 Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.
7 Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele.
8 Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
9 [O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.

Analisando os contributos dados por estes dois textos, chama a atenção, no texto do Génesis, a distinção aí feita entre "Deus" e o "Espírito de Deus", aquele realizando, executando a dinâmica da Criação, este apenas movendo-se "sobre a face das águas", mas sem atividade dinâmica.

Esta distinção encontra-se também na Filosofia Pitagórica, designadamente nos conceitos de UM (princípio criador estático, força criadora em potência) e de DOIS (a ação do Criador, a concretização da potência da força criadora).

Mas, regressando ao tema, na primeira jornada o Criador fez a LUZ, a separação entre a luz e as trevas, àquela chamando Dia e a estas Noite.

Esta LUZ não é, seguramente a luz física, pois essa só foi criada na quarta jornada, com a criação do Sol e da Lua e das estrelas, "para haver separação entre o dia e a noite" e "para iluminar a terra". A LUZ da primeira jornada tem um significado metafórico.

Olhando para o início do Evangelho segundo São João, verificamos que o Verbo estava junto de Deus e era Deus; nele havia a vida e a vida era a luz dos homens; era a verdadeira luz...

A LUZ metafórica referida na primeira jornada da Criação, explicitada no início do Evangelho segundo São João, é, no meu entendimento, a Consciência de Si do Criador, que proporciona que a Potência Criadora se realize. O Espírito de Deus movia-se no Caos Primordial, com a potência de tudo criar. Mas só a consciência de Si, da Vida que É, possibilitou a concretização da potência criadora. Essa consciência foi a LUZ que se separou das Trevas da inconsciência da Existência, da Vida e da fabulosa Potência Criadora. Separou-se assim o Dia (da consciência, da aquisição da visão sobre as capacidades e possibilidades) da Noite (em que o Espírito Criador, embora dotado da Potência Criadora não tinha consciência de tal e portanto apenas vogava, inerte e sem concretizar a sua Força). Havia o Verbo, o pensamento concretizável na palavra e, assim, na ação, que estava junto de Deus e era Deus, mas ainda inerte, que ficou ativo quando Aquele que É tomou inteira consciência de Si próprio e do seu Poder e da sua Força.

Portanto, para mim, a LUZ simboliza mais que o Conhecimento, a Sabedoria ou a Fé. Simboliza a Consciência do Criador e da Vida, Consciência essa que cataliza, ativa, a potência criadora que tudo criou e tudo regula.

Sendo assim, em que consiste a busca humana pela LUZ? Na criação de condições, na sublimação da nossa materialidade, de forma a que se possa ver a LUZ, adquirir a Consciência do Criador e da Vida, assim finalmente compreendendo o significado e objetivo da Criação, da Vida e do ínfimo, mas indispensável, papel de cada um nelas. É que tal Consciência é indispensável para ativar a necessária dinâmica para o que segue... Mas isso é já outro tema, crença individual que não tem cabimento neste espaço - que é de divulgação, não de proselitismo.

Esta a minha interpretação do significado simbólico da LUZ. Não a divulgo aqui para convencer ninguém do que quer que seja. Cada um analisará o que exprimo, tomará do meu pensamento o que lhe convenha, recusará o que não lhe agrade, complementará com outros indícios e raciocínios e teses e chegará à conclusão que, para si, será a certa. Se há algo que na Maçonaria é consensual é que há muitos caminhos para a LUZ...

Rui Bandeira