A Tradição não é prisão
"Toda a Maçonaria está ocupada pelo rito escocês antigo e aceite… Toda? Não. Um rito, praticado por irredutíveis obreiros brasileiros, continua a dar o mesmo sabor à salada, mas de forma diferente.”
A prancha que apresentou valeu a pena, não tanto pelas diferenças em si, mas pela forma como as enquadrou, até o uso de uma imagem simples onde diz que o Rito Brasileiro é como uma “salada”, não como desordem ou mistura aleatória, mas sim construção. Um rito que foi buscar muito ao REAA, integrou elementos de outros ritos e acabou por formar uma identidade própria, pensada, assumida e consolidada ao longo do tempo. Esta ideia de construção consciente atravessa toda a prancha do Filipe, desde a origem histórica até às diferenças práticas no funcionamento da Loja sua loja.
No meio de toda a prancha, há sempre algo que nos salta à vista,, houve uma ideia que me ficou bastante mais presnte "A de que a tradição não é prisão, é fundamento para evoluir." Eu que sou "pró" tradição, quero clarificar bem o ponto, que tal não me ficou na cabeça como crítica ao rito escocês antigo e aceite, que practico, e é um rito com o qual me identifico, que valorizo e que, na minha opinião, deve ser preservado precisamente pela consistência e pela força da sua tradição. A sua continuidade é uma das suas maiores riquezas e não é isso que está em causa.
E é aqui que a frase ganha verdadeiro sentido, ao menos para mim, a tradição só não é prisão quando é compreendida, quando sabemos distinguir aquilo que é essencial daquilo que apenas herdámos sem questionar. Há uma diferença clara entre preservar e cristalizar, pois preservar implica compreender e manter aquilo que tem valor, enquanto cristalizar é repetir tudo, indiscriminadamente, incluindo aquilo que nunca teve fundamento sólido, mas que, por repetição, ganhou estatuto de tradição.
O que o Rito Brasileiro trouxe, pelo menos na forma como foi apresentado, foi um exemplo dessa consciência. Não uma vontade de mudar por mudar, mas uma capacidade de olhar para a tradição, perceber as suas origens e trabalhar sobre elas, adaptando sem romper e ajustando sem perder identidade. E isto, gostemos mais ou menos das soluções concretas, é um exercício que merece reflexão.
No fim, a principal aprendizagem que retiro não está nas diferenças entre ritos, mas na forma como olhamos para o nosso. Preservar não é repetir, preservar é compreender. E talvez seja aí que a tradição deixa de ser prisão e passa a ser, verdadeiramente, fundamento para evoluir.
João B. M∴M∴
