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28 março 2026

A Tradição não é prisão

Numa das últimas sessões, graças a um bom àgape, tive oportunidade de apresentar uma prancha onde falei sobre os hemisférios norte e sul e a culminação do Sol e como isso se transfere para as nossas colunas. Teria lógica os aprendizes e companheiros estarem em posições opostas consoante o hemisferio? Conclusão simples, e pensava eu lógica, tanto aqui como no hemisfério lá de baixo todos nos sentamos nas mesmas posições... Todos não!!!!

Isto quase faz lembrar o Astérix e a nossa poção mágica chamada Ritual:

"Toda a Maçonaria está ocupada pelo rito escocês antigo e aceite… Toda? Não. Um rito, praticado por irredutíveis obreiros brasileiros, continua a dar o mesmo sabor à salada, mas de forma diferente.”


O Irmão Filipe M., visitante de uma Loja brasileira que trabalha no Rito Brasileiro, comentou e esclareceu que no rito dele, os Aprendizes e Companheiros estão em posições invertidas em relação ao que conhecemos no Rito Escocês Antigo e Aceite.

Na altura ficou como uma curiosidade, comentário, mas os nossos  ágapes dão sempre azo a mais, com mais tempo e menos formalidade, a conversa evoluiu, vimos que não era apenas uma diferença pontual, mas sim que exisita ali uma lógica própria, uma forma de organizar o trabalho em Loja. Assim lancei o desafio simples para que o irmão Filipe M, viesse falar um pouco mais sobre o Rito Brasileiro, a partir da sua vivência, numa próxima vez que nos visitasse. 

Desafio Aceite!

A prancha que apresentou valeu a pena, não tanto pelas diferenças em si, mas pela forma como as enquadrou,  até o uso de uma imagem simples onde diz que o Rito Brasileiro é como uma “salada”, não como desordem ou mistura aleatória, mas sim construção. Um rito que foi buscar muito ao REAA, integrou elementos de outros ritos e acabou por formar uma identidade própria, pensada, assumida e consolidada ao longo do tempo. Esta ideia de construção consciente atravessa toda a prancha do Filipe, desde a origem histórica até às diferenças práticas no funcionamento da Loja sua loja.

No meio de toda a prancha, há sempre algo que nos salta à vista,, houve uma ideia que me ficou bastante mais presnte "A de que a tradição não é prisão, é fundamento para evoluir." Eu que sou "pró" tradição, quero clarificar bem o ponto, que tal não me ficou na cabeça como crítica ao rito escocês antigo e aceite, que practico,  e é um rito com o qual me identifico, que valorizo e que, na minha opinião, deve ser preservado precisamente pela consistência e pela força da sua tradição. A sua continuidade é uma das suas maiores riquezas e não é isso que está em causa.

O ponto, para mim, é outro, mais transversal, mais próximo do dia-a-dia profano e até da Loja, todos reconhecemos situações em que algo se faz “porque sempre foi assim”, sem que alguém consiga explicar porquê. Eu próprio escrevi aqui no blog e fiz uma prancha precisamente sobre o ritual, coloquei uma questão que continuo a achar pertinente sobre de onde vem este gesto? Que sentido tem? É ritual? Ou simplesmente foi um erro que se tornou hábito, que virou costume, fez-se tradição e acabou por se adaptar como princípio? Nunca se valeu como norma, muito menos se fundamentou como Lei, Landmark.

Foi uma reflexão prática, não teórica.

E é aqui que a frase ganha verdadeiro sentido, ao menos para mim, a tradição só não é prisão quando é compreendida, quando sabemos distinguir aquilo que é essencial daquilo que apenas herdámos sem questionar. Há uma diferença clara entre preservar e cristalizar, pois preservar implica compreender e manter aquilo que tem valor, enquanto cristalizar é repetir tudo, indiscriminadamente, incluindo aquilo que nunca teve fundamento sólido, mas que, por repetição, ganhou estatuto de tradição.

O que o Rito Brasileiro trouxe, pelo menos na forma como foi apresentado, foi um exemplo dessa consciência. Não uma vontade de mudar por mudar, mas uma capacidade de olhar para a tradição, perceber as suas origens e trabalhar sobre elas, adaptando sem romper e ajustando sem perder identidade. E isto, gostemos mais ou menos das soluções concretas, é um exercício que merece reflexão.

No fim, a principal aprendizagem que retiro não está nas diferenças entre ritos, mas na forma como olhamos para o nosso. Preservar não é repetir, preservar é compreender. E talvez seja aí que a tradição deixa de ser prisão e passa a ser, verdadeiramente, fundamento para evoluir.

João B. M∴M∴