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25 janeiro 2019

Exortação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP aos Grandes Oficiais


Muito Respeitáveis e Respeitáveis Irmãos,

Meus Queridos Irmãos e Amigos,

Começo por agradecer a vossa presença, neste momento de fraterno convívio, passados pouco mais  de 100 dias, desde a minha instalação.

Não pretendo fazer um balanço, mas quero que aproveitem este momento para se conhecerem melhor, para partilharem opiniões e experiências e para que se sintam mais próximos uns dos outros.

Aproveito ainda este encontro para definir estratégias e promover o início de um debate importante sobre o nosso verdadeiro papel enquanto maçons:

- Será que o que fazemos enquanto maçons é aquilo que a sociedade espera de nós?

- Será que aquilo que fazemos como maçons nos ajuda a crescer e a ser homens melhores?

- Podemos vencer o imobilismo e ser pró-ativos e interventivos em prol de causas que preencham vazios e necessidades concretas de pessoas que todos conhecem e já identificaram?

Estas são algumas das questões que devem estar sempre presentes e para as quais devemos procurar incessantemente respostas. 

A Grande Loja tem, presentemente, cerca de 3.000 obreiros e isso justifica por si só o imenso trabalho que todos temos pela frente.

As Lojas são e devem ser a base do nosso trabalho e o foco principal da Grande Loja.

A Grande Loja só existe porque existem Lojas, o Grão-Mestre só existe porque existe Grande Loja e os Grandes Oficiais só existem porque foram nomeados. 

A todos os Grandes Oficiais quero agradecer a disponibilidade para trabalharem em prol deste projeto comum que eu assumi encabeçar. Foram nomeados para trabalharem com dedicação, lealdade e zelo em prol da nossa Augusta Ordem.

Deixemo-nos, pois, de vaidades, de egos inflamados. Inquietem-se e questionem-se sobre o contributo que cada um pode dar, em cada uma das vossas funções, no dia-a-dia à Grande Loja, ao vosso Grão-mestre e às Lojas.

Exige-se que sejamos uma verdadeira equipa, que façamos parte de um “governo” responsável,  somando todas as nossas energias de forma positiva.

Visitem as Lojas, contribuindo dessa forma para uma maior aproximação entre estas e a Grande Loja. Aproeitem para passar as nossas mensagens, os nossos anseios, em paz e Harmonia. Assumam-se como verdadeiros representantes do Grão Mestre, sem vaidades e sem prepotências.

Não alimentem querelas estéreis, sejam exemplares nas vossas funções e intervenções.

Sejam ainda arautos de boas notícias, de projetos que toquem cada um de nós e envolvam todas as Lojas. 

Temos cerca de 144 Lojas. É verdade, que só cerca de 127 estão ativas e que muitas vivem no limiar de um quórum, que se pretende ver reforçado, para que todas possam trabalhar o Rito, de forma, a que no final, tudo esteja justo e perfeito.

Todos nós temos o dever de ajudar as Lojas a reforçar o quadro de obreiros, convidando todos aqueles que, pelas suas reconhecidas qualidades humanas, intelectuais e solidárias, a integrar a nossa Ordem, num processo de rigorosa seleção.

Temos ainda, Meus Queridos Irmãos um longo caminho a percorrer em termos esotéricos, espirituais e filosóficos, na constante busca da perfeição, quer pessoal quer coletiva.

Ajudem-me a criar um novo clima de harmonia, de paz e de alegria. Nós maçons, temos ao nosso dispor, meios que mais ninguém tem, para influenciar a sociedade de forma muito positiva.

É verdade que vivemos tempos de incertezas, de ausência de valores, em que vale quase tudo: são as redes sociais que, presentemente, ocupam uma parte significativa do nosso tempo; são as “fake news” e o populismo que levam a comportamentos inaceitáveis numa sociedade moderna, justa e democrática; são tantas e constantes as solicitações que enfraquecem a natural disponibilidade para causas solidárias e fraternas.

Temos assim que, enquanto, principais representantes do Grão Mestre e da Grande Loja ser um exemplo de rigor, de disponibilidade, de conhecimento e de partilha da verdadeira amizade fraterna.

Aqueles que foram nomeados e instalados aceitaram “de livre vontade desempenhar as funções do cargo para os quais foram nomeados” e “desempenhar com zelo e lealdade todas essas funções e “juraram e renovaram a promessa solene de amar todos os Irmãos e socorrê-los e ir em seu auxilio, sempre que for necessário”, e “juraram e prometeram cumprir fielmente e com zelo as missões confiadas pelo Grão-Mestre”.

É isso que eu espero de todos vós. É isso que todos esperam de nós.

Dois projetos devem merecer a nossa especial atenção: a REM e a Academia Maçónica. Destaco estes dois, como podia destacar outros, mas temos que começar por algum lado.

Peço pois, o vosso apoio ao RI Paulo Caetano e ao RI Armando Anacleto, a quem devemos apoiar de forma incondicional e sem regatear esforços. O trabalho por eles desenvolvido e a desenvolver, visa exclusivamente o benefício coletivo e não o individual.

Confio em todos sem exceção. Sozinho não conseguirei passar do plano das boas intenções.

Temos muito trabalho pela frente, mas sei que com a ajuda de todos, o nosso trabalho será no final, coroado de sucesso.

No próximo dia 23 de Fevereiro de 2019 realiza-se a Cerimónia da Lembrança, na qual vamos honrar e recordar todos os Irmãos que partiram para o Oriente Eterno. Conto com a vossa presença!

Recordo com saudade todos aqueles que partiram, mas permitam-me que, de forma muito especial, recorde o R.I. Luís Cardoso, que foi um grande exemplo como Homem, como Maçom e como Grande Correio Mor. Ele, verdadeiramente, não partiu, porque contínua presente nos corações de todos nós.

Por último, renovo o meu agradecimento a todos pela vossa presença e peço-vos que aproveitem este momento para se conhecerem melhor, para uma sã partilha de ideias e de “sonhos” para, no final, tornar a nossa Augusta Ordem mais forte e em que todos sintam um enorme orgulho em serem maçons.

À G.D.G.A.D.U.

Armindo Azevedo
Grão-Mestre

02 outubro 2018

Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP por ocasião da sua Instalação, no equinócio de outono de 2018


Meus queridos Irmãos,

Agradeço a vossa presença e a todos saúdo com um tríplice fraternal abraço.

Começo por saudar tão vasta representação de Representantes das delegações de potências maçónicas estrangeiras, que muito nos honram e sensibilizam com a sua presença.

Permitam-me que saúde de forma muito especial os Antigos Grão-Mestres, aqui presentes: o M. R. I. José Manuel Anes, o M. R. I. José Moreno e o M. R. I. Júlio Meirinhos que acabou de me instalar na cadeira de Salomão, o que muito me honrou.

Recebo das suas mãos uma Ordem mais forte. A Grande Loja teve um enorme incremento nos últimos 4 anos, fortaleceu-se internamente e aumentou significativamente a sua influência internacional. E isso resultou do esforço e empenho no exercício do cargo. Agradeço-te, pois, M. R. I. Júlio Meirinhos o teu empenho e dedicação à nossa Grande Loja.

Mas todos tiveram um papel notável na edificação da nossa Augusta Ordem. Foram o garante da nossa unidade e regularidade. Com o seu entusiasmo e dedicação, foram protagonistas relevantes da nossa história, e muito contribuiram para o crescimento da nossa Fraternidade. A todos eles devemos o que somos hoje. Agradeço em meu nome, em nosso nome, a todos os que me antecederam.  

Permitam-me ainda lembrar, com muita saudade, dois grandes e notáveis Maçons que marcaram, de forma indelével, o meu percurso e maturidade maçónica: Mário Martin Guia e Rui Clemente Lelé. A eles devo, ainda que de forma distinta, grande parte do que sou hoje como maçom.

Ao longo dos últimos anos, tive o privilégio de conhecer muitos Irmãos que enobreceram e enobrecem a nossa Augusta Ordem. Percorri um amplo número de Lojas e ajudei a fundar algumas. Fiz um trajeto que muitos outros Irmãos também fizeram e que muitos mais podem e, com certeza, virão a fazer.

No tempo que considerei certo, apresentei-me como candidato a Grão-Mestre da GLLP/GLRP, apresentei-me com a simplicidade e a normalidade de um qualquer Irmão que assim o desejasse e estivesse conforme à regularidade e aos regulamentos.

As últimas eleições para o cargo de Grão-Mestre reafirmaram a pluralidade e diversidade de opiniões e a enorme vitalidade da nosa Augusta Ordem. Cumprimento por isso todos os RR. II. que comigo as disputaram.

Em democracia as eleições são a pedra angular da liberdade e é sempre salutar que elas ocorram conforme os cânones que se lhe aplicam, com serenidade, igualdade, cordialidade e correção.

Na nossa Augusta Ordem, as eleições, no estrito cumprimento dos Regulamentos e do verdadeiro espírito maçónico assumem, ainda que assentes em princípios democráticos, contornos particulares. No nosso caso, exige-se que tal suceda em fraternidade. Ou seja: porque somos uma obediência fraternal, impõe-se que a disputa seja leal e em irmandade, pois ninguém está, enquanto pessoa e Irmão, acima de quem quer que seja e o "pleito eleitoral", sendo necessário e importante na vida da nossa Augusta Ordem, é apenas um momento de escolha, onde os Irmãos elegem um seu par para assumir a cadeira de Salomão.

Na cadeira de Salomão, o ocupante senta-se para governar o que lhe foi confiado, tentar resolver o insolúvel, preparar-se para o imprevisível, antever o possível, dirimir os conflitos, eliminar o que for injusto e negativo e procurar a harmonia, a paz e a concórdia.

É certo que crescemos muito. Foi meu compromisso "eleitoral" defender a máxima exigência na seleção daqueles que devemos aceitar na nossa Augusta Ordem e a quem possamos verdadeiramente reconhecer como Irmãos. A nossa dificuldade tem de estar em selecionar, não em recrutar. Selecionar, sempre com o intuito de ter connosco os melhores e mais bem preparados, pois só assim poderemos agir com maior significado junto da vida profana onde nos inserimos e só assim manteremos a união e a fraternidade que nos carateriza.

Vivemos um tempo de dificuldades no país, na Europa e no mundo, em que proliferam muitas desavenças políticas, conflitos bélicos, incertezas geoestratégicas e incapacidade para resolver os problemas sociais, como os das minorias e dos refugiados. Internamente, o país regista ambivalências, com esperança numa definitiva mudança, entre certezas e muitas dúvidas.

E reflito nisto aqui porque a Maçonaria náo vive fora do mundo e das realidades que a cercam e, por isso mesmo, não poderemos nunca ser um corpo amorfo e indiferente em tão vasto horizonte de eventos com que nos confrontamos.

Num mundo em permanente evolução, a mudança deve estar ancorada num quadro de valores que, em momento nenhum, esqueça as pessoas e a liberdade individual como principal motor dessa dinâmica e, em última instância, da garantia da própria felicidade humana.

A sociedade em que hoje vivemos encerra, em acelerada mudança, um conjunto de desafios de proporções ainda desconhecidas e de consequências imprevisíveis. Os riscos da incerteza exigirão firme e determinada intervenção das lideranças das principais instituições que compõem a sociedade.

A nossa Augusta Ordem, ontem como hoje, pela força da sua génese e pela sua responsabilidade histórica, será inevitavelmente chamada a, mais uma vez, constituir-se como farol da evolução, saber de experiência feita sobre o essencial da libertação do Homem, luz sobre os valores que mudança alguma pode colocar em causa.

Consciente destes desafios, ciente da responsabilidade secular que o cargo impõe, proponho-me, se soberba, ativamente contribuir para resgatar para a maçonaria o papel central sobre este processo de evolução, recolocando-a como referência maior e escola de vida para os Homens Bons que pretendem apurar-se na relação com os outros, tornando-se Homens Melhores.

Honrando a herança recebida desde o exemplo maior de Jacques de Molay, 704 anos após a sua morte às mãos da tirania de Filipe IV, curiosamente de cognome "O Belo", propomo-nos continuar a combater por uma sociedade mais livre e mais solidária, onde o génio individual liberte todo o seu poder criativo à luz da razão, conquistando a verdadeira beleza que resulta da perfeição.

Quando atendemos à dimensão de todos aqueles que se sacrificaram em nome dos nossos ideais, só podemos ter orgulho na condição de maçons que transportamos em nós.

Por todas estas razões, escolhi como lema do meu Grão-Mestrado "O Orgulho em Ser Maçom".

Quanto maior a alma, maior o desafio. E por tudo isto, liderar o grupo de Homens Bons que integram a nossa Augusta Ordem é, não só um privilégio, uma honra, mas uma enorme responsabilidade. É orgulho, felicidade e ambição, que só a profunda admiração que nutro por cada um me fazem imaginar sequer poder estar à altura.

Num momento, também, em que a maçonaria enferma de uma injusta perceção pública, numa época em que tudo vale, muitas vezes entre nós próprios, para fazer vingar um qualquer fim, mais do que nunca teremos que travar a queda por este declive obscuro e recolocar a Maçonaria no caminho e no patamar que sempre a distinguiu ao longo da História.

A Maçonaria em Portugal esculpiu pela sua ação alguns dos momentos maos épicos dos feitos nacionais. Da democracia à consagração das diferentes liberdades, muitas são as medalhas que podemos exibir com brio e dignidade.

É pois tempo de voltarmos a contribuir ativamente para o apuramento do Homem e da sociedade, é tempo de voltarmos a fazer História.

Para este desígnio, tenho plena consciência que o caminho a que me proponho não será nem fácil nem pacífico. Tenho total certeza das inúmeras tormentas que nos esperam e dos múltiplos ataques que nos aguardam.

A Maçonaria sempre existiu, e existirá, para melhorar o mundo. Mas para isso é preciso, primeiro, melhorar o homem. É essa a função primordial da Maçonaria.

Chegado aqui, cumpre-me, obviamente, refletir sobre o nosso momento, a realidade da nossa fraternidade. O certo é que, sendo uma Fraternidade, somos também uma Ordem onde impera a lealdade e a irmandade. Mas não nos esqueçamos que somos ainda uma Obediência e esta obriga-nos, a todos, a uma sã relação de respeito para com o Grão-Mestre e deste para com os todos os Irmãos.

Ninguém é obrigado a ser Maçom, mas, em o sendo, tem de se conformar com as constituições e as regras da Maçonaria Universal.

E é por isso que, quando prestamos os juramentos, comprometemo-nos a cumpri-los. Podemos não concordar com o que quer que seja, mas temos de cumprir e, sobretudo, em fraternidade, cumprir e agir irmãmente. Nunca por objeções, maledicências, deslealdades ou críticas que atingem a dignidade  de qualquer Irmão.

Não poderemos, nunca, como em qualquer outra instituição, obter a total aceitação ou unanimidade sobre tantos e tão delicados assuntos em que nos envolvemos. Mas podemos e devemos, sempre, aproximar ideias, objetivos e obter consensos alargados que traduzam a vontade generalizada dos Irmãos.

É iso que farei nos próximos 2 anos, com total empenho e dedicação, aprimorando o talhe da pedra, cuja beleza não cessará de ser trabalhada, visando a solidificação da Ordem e o crescimento da Fraternidade.

A condição de Maçom exige que o eleito se convença da sua humildade, pois ela será a sua grandeza, mas humildade em excesso ou pouco sentida não são mais que vícios e vaidades escondidas. Contudo, Humildade não é inação ou falta de determinação, uma vez que não se pode renunciar a governar em plenitude, mas tal apenas o determina no sentido do "Bem da Ordem".

"O Bem da Ordem" não é uma arbitrariedade ou uma aritmética administrativa. É essencialmente agir, garantindo a continuidade provinda de antanho e prossegir adiante, robustecendo a Fraternidade, constituída por Maçons livres que se congregaram para o aperfeiçoamento do homem e a melhoria do mundo. 

São estes os objetivos e os limites da governação. Tudo o mais não interessa, mas sem deixar de agir, liderar e trabalhar, fazendo o que tem de ser feito, antecipando o bom porvir e evitando o que é desajustado.

Afinal, tudo só pode ser feito com o empenho de todos os Irmãos, pois se é verdade que a Grande Loja tem de ser o vértice da Fraternidade, esse vértice tem que assentar numa base que são as Lojas, com proximidade e interação.

Reafirmo, pois, o compromisso assumido de intensificar a aproximação da Grande Loja com as Lojas e destas entre si, fortalecendo dessa forma as nossas relações e estimulando o fortalecimento da nossa Instituição.

Por isso, também, todos os Irmãos devem esforçar-se por trabalhar comigo, ajudando-me na obra comum. Quem, inconformado, passa para uma inorgânica "oposição", se afasta ou evita compromissos e serviços, "nunca será um bom Maçom". Será tão só um "membro da Loja", alguém que assinou uma proposta para ingresso na Maçonaria, como quem subscreve ou participa, anódino, numa associação social, recreativa, desportiva ou cultural.

Não sou dos que defende que haja nas Respeitáveis Lojas e também na Grande Loja portadores de cargos e colares e que apenas deambulam pelas Sessões e festividades, sem conhecimento e dedicação às funções.

Somos todos necessários e assim é inaceitável que, no meio dos "ELEITOS DA LUZ", não haja maçons disponíveis para o trabalho: só pelo trabalho o Maçom elimina as trevas.

A propósito da Luz, recorro-me da poesia do nosso Muito Querido e saudoso Mário Martin Guia e do poema Hino à Harmonia:

"Sendo o homem a sombra do Divino
e sendo também verdade
que a necessidade equilibra a Liberdade
o Espírito a Matéria, a Fé a Razão
e a sabedoria o Poder
para haver Harmonia
e alcançar a Felicidade
é também ponto assente
que a Luz deve vir do Oriente".

Desde o primeiro dia em que entrei para a nossa Augusta Ordem que sei fazer parte de um grupo que veio para ficar, com uma ideia de futuro e um plano para cumprir. É neste quadro que sustentamos a razão da nossa existência. É neste quadro que queremos crescer, ajudando os homens a serem bons e os bons a serem melhores. Ajudando as sociedades a rimarem liberdade com responsabilidade, alma com solidariedade. É este o legado que queremos deixar.

Darei por isso continuidade a tudo o que de bom foi feito, melhorando aquilo que tiver que ser, com o objetivo de cumprir o meu programa, mas respeitando o princípio da pluralidade e diversidade, ouvindo as vossas opiniões e propostas.

Importa criar e semear aqui e agora, olhando para o futuro e para a Augusta Ordem que queremos ter.

A equipa que me acompanhará é aquela que eu entendo ser o resultado da reflexão sobre a renovação das tradições que nos fazem maçons, conjugadas com a realidade, prioridades e objetivos que uma sociedade iniciática requer, num tempo imediatista e desinformado.

Disse sempre que não me candidatava contra ninguém, nem a favor de ninguém. Agora que sou o vosso GM fiquem certos de que não estarei contra ninguém, exceto aqueles cujos comportamentos e ações não respeitem os princípios e juramentos que nos unem.

O GM será o garante que nenum Irmão fica esquecido, que todas as palavras são escutadas, mas igualmente que nenhum outro se arroga de importâncias que não tem, ou de egos que deve, em primeira linha, combater. Este é o espaço da liberdade, da igualdade e da tolerância. 

Comprometi-me e vou demonstrar que somos uma organização virada para a sociedade, aceite e contributiva e onde os maçons são reconhecidos como homens de confiança, livres e de bons costumes.

É tempo de trabalhar muito, com dedicação, ética e entrega a esta causa que é de todos.

Assim, o futuro da GLLP/GLRP será risonho, não tenham dúvidas, porque a quantidade e qualidade dos Irmãos que a constituem assim querem, desejam e tudo farão para que tal suceda.

Para isso preciso de todos. Convosco, sei que chegarei lá. Convosco sei que, em paz e harmonia, todos faremos mais e melhor para a nossa Augusta Ordem.

À Glória do Grande Arquiteto do Universo.

Armindo Azevedo
Grão-Mestre

28 setembro 2018

Assembleia de Grande Loja da GLLP/GLRP no Equinócio de outono: última intervenção como Grão-Mestre do agora Antigo Grão-Mestre Júlio Meirinhos


Queridos Irmãos em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa.

Hoje celebramos em Grande Loja o quarto e último equinócio de Outono do meu tempo de Grão Mestre. E tal como tenho vindo a instruir, trata-se de uma data em que a inclinação da terra e a incidência dos raios da luz do sol afiançam idêntica duração dos dias e das noites que, traduzindo para linguagem maçónica, significa que tudo está justo e perfeito.

Aqui, perante esta nossa magna assembleia, apresentar antes de tudo as mais calorosas felicitações, não àquele que me vai substituir, mas sim àquele que me vai suceder, e que, de forma tão esclarecedora, foi em quem a imensa maioria dos irmãos desta nossa Augusta Ordem depositamos grande confiança, o irmão Armindo Azevedo.

E, neste momento solene de passagem do gládio testemunhal, alguns irmãos seriam tentados a sugerir: as boas contas fazem sempre os bons irmãos, por isso o mais importante seria fazer-vos aqui a apresentação do rol das promessas concetizadas, assim como o cômputo de outras profanas contabilidades. Mas, tal como proclama o poeta, também eu aqui proclamos: não! Não vou por aí!.

Existe um provérbio mirandês que diz: "solo mius feitos me lhoubaran"! Por isso, fazer tal avaliação não deve ser o meu papel. Essas profanas contabilidades, a ser feitas, sê-lo-ão por outros que não sofram das miopias do umbigo, que não sejam juízes em causa própria. 

Mas posso confessar-vos que, aqui, hoje, convosco, estou sereno, de alma cheia, feliz por haver levado a bom porto desígnios fundadores que sempre quis concretizar:

- Os afetos e o amor pelos irmãos, a plena liberdade, a proximidade e presença para com todas as lojas, para com todos os irmãos, do primeiro ao último dia, fica a sensação de haver tratado a todos os irmãos como iguais, onde, por uma qualquer razão oculta, uns não fossem mais iguais que outros;

-  O rigor administrativo, o rigor na aplicação da nossa justiça, a coerência em cada ação;

- A concretização da plena transferência de conhecimento, a elaboração de Rituais rigorosos, a produção do grande e completo "Livro Verde";

- Conseguir plena satisfação no crescimento do número de lojas, plena satisfação no crescimento do número de obreiros;

- Ter impulsionado as obras que era preciso impulsionar;

- Ter conseguido o pleno reconhecimento e visibilidade internacional.

Por isso, deixo aqui um grande tríplice abraço, em jeito de muito obrigado, a todos os irmãos: Aprendizes, Companheiros e Mestres, a todos os Veneráveis Mestres, a todos os Respeitáveis e Muito Respeitáveis Grandes Oficiais e colaboradores mais diretos.

Este caminho, que durou quatro anos, foi um caminho que percorremos todos juntos, em que eu fui apenas aquele que primeiro sentia o afago das ténues brisas matinais.

E não quero com isto dizer que fui perfeito, longe de mim tal desígnio. Há um grande poeta mirandês, de quem já vos falei em diferentes ocasiões, Amadeu Ferreira, que sabiamente nos esclarece com o seu poema, ao afirmar:

"olha para os teus defeitos como um desafio, um sinal de vida, linha de onde tens de partir em corrida para os conseguir ultrapassar, porque perfeitas são as estátuas, alguns mortos e os deuses, e em nenhum deles a vida floresce".

Eu quero que a vida nos continue a florescer a todos, por isso digo ao querido Irmão Armindo Azevedo que é um sortudo felizardo, porque ainda há muita maçonaria para ele percorrer, muita brisa para sentir na face. Se tudo já tivesse sido concluído por mim, para ti o caminho seria de um terrível tédio, por isso, Armindo, deixando coisas por fazer, apenas quis ser teu amigo.

E, por vezes, nós até nos queremos arrogar muito competentes, quando apresentamos créditos curriculares bombásticos, muito sérios e muito pomposos, mas, nestes quatro anos em que exerci o humilde cargo de Grão Mestre, aprendi que o essencial do nosso currículo é sempre o que não se escreve, porque fica agarrado às pequenas coisas que fazemos no dia a dia, mesmo as mais pequeninas.

São elas que nos revelam e definem, mas não somos capazes de as reproduzir ou descrever: os sorrisos, as ajudas, as causas, o amor, as condutas, atitudes, a cidadania que nos exige de corpo e alma inteiros, sempre e em cada lugar, a defesa plena da liberdade! O que se segue não passa de intervalos, nem sempre muito relevantes, entre estas pequenas coisas que realmente contam para construir felicidade, vidas e sociedades.

Albert Camus escreveu, sobre a passagem dos anos:

"Envelhecer é o único meio de viver muito tempo. Envelhecer é passar da paixão para a compaixão. Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo. O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio... Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas. Os jovens pensam que os velhos são bobos; os velhos sabem que os jovens o são. A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruia quando se era menino. Nada passa mais depressa que os anos. Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz, mas é preciso que haja sempre um menino em todos os homens. Os anos é bom vivê-los, mas não tê-los."

Eu procurei viver estes quatro anos ao pleno serviço da nossa Augusta Ordem com a maior intensidade que me foi possível. Espero ter conseguido.

Por isso, meus irmãos, o que quer que façamos só é grande quando, de um ponto de vista nosso, alguém possa dele dizer: não lhe serviu para nada. Apenas aquilo que consegue ascender para lá do umbigo, da barriga, da economia imediata e do utilitarismo é também o que consegue chegar ao patamar mais alto da alma humana.

E nada mais me apraz dizer-vos. Agora resta-me proceder como Catão, velho general romano que, depois de ter sido chamado pelo senado a fazer a guerra pelo seu país, deixou a sua lavoura e respondeu ao chamamento. Foi, conduziu as tropas e ganhou a guerra aos Volcos e aos Equos. Mas no regresso não se atardou a receber honrarias, voltou para a sua lavoura, apertou de novo a rabiça do arado, deu uma palavra mansa à sua junta de bois e continuou de novo a lavrar a terra.

Sou eterno aprendiz, é a minha sina, por isso, aqui me tendes à Ordem do Muito Respeitável Grão Mestre Armindo Azevedo, à Ordem dos meus Irmãos.

E era esta a mensagem simples que neste equinócio queria partilhar convosco, através da força dos afetos, da palavra e dos valores, e, deles imbuídos, continuaremos o nosso caminho, unidos e fortes, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da Maçonaria, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquiteto do Universo.

Júlio Meirinhos
Gráo Mestre

28 março 2018

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do equinócio da primavera


Queridos II. em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa.

Hoje celebramos em Grande Loja um novo equinócio de Primavera. E tal como tenho vindo a instruir, também hoje vos relembro que o vocábulo “equinócio” forma-se a partir de duas palavras latinas: ‘aequus’ que significa ‘igual’ e ‘nox’ que significa noite. Estamos assim, de novo, numa data em que a inclinação da terra e os raios da luz do sol, afiançam idêntica duração dos dias e das noites. Mas num instante, este equilíbrio momentâneo e frágil, irá colapsar, porque iniciaremos hoje a caminhada do aumento dos dias, até que chegue o solstício de Verão!

Por esta razão meus irmãos, em todos os momentos devemos estar alerta para que o desequilíbrio e a desunião não irrompa entre nós, para que a juventude do vigor adolescente da Primavera, não inunde os nossos campos maçónicos apenas de ervas daninhas.

A este respeito, cito-vos um velho camponês mirandês, que todos os anos pelo tempo do equinócio primaveril previne os mais jovens com a sua anciã sabedoria: “por chegar la primavera, nun habemos deixar que todo se buolba an berde, porque todo l que deixarmos tresformar-se an berde, sobretodo las cousas i ls balores mais amportantes, puode siempre benir un burro qualquiera cheno de fame, i pensando que ye yerba: ruobe-los”.

E os maçons já sabem bem do assassinato de Hiram Abif perpetrado por três companheiros desonestos, ciosos de honrarias e poder fácil!

E também todos sabemos da velha máxima atribuída a Júlio César: “à mulher de César não basta ser, terá também que parecer”.

E no fim do século XVI, o maior dos dramaturgos, na sua peça “A tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca”, William Shakespeare, indaga: “To be or not to be, that is the question” "Ser ou não ser, eis a questão"!

Não podemos, portanto, ser maçons e ter comportamentos profanos. Por essa razão, este servo que vos fala, vos indaga amiúde com a seguinte afirmação: as “profanisses” são para os profanos! Nós somos uma ordem iniciática com regras bem definidas.

Fomos todos iniciados maçons, e como maçons nos devemos exclusivamente comportar durante todos os instantes, respeitando sempre a nossa Augusta Ordem, as suas regras e os seus valores.

Mas deixai-me recuar ainda mais atrás que William Shakespeare e que Júlio César, para viajar até ao tempo de Esopo, um escritor da antiga Grécia que viveu nos anos 600 antes de Cristo, para vos contar uma das suas fantásticas e didácticas fábulas, que tem como título:

 O pai e os filhos brigões!

“ Certo pai tinha uma família de muitos filhos, que viviam em permanente briga entre si. Já cansado de tentar pôr fim às disputas através de esforço pessoal e muitos conselhos, decidiu mostrar através de um exemplo simples e prático, todos os males que podia acarretar tanta briga e desunião.

Para isso, um dia, pediu aos filhos que fossem à floresta mais próxima e juntassem um feixe de pequenos ramos de árvore. Aportado o dito molho de ramos, colocou-o nas mãos de cada um dos filhos, ordenando-lhe à vez, que cada um deles tentasse quebrar o feixe pelo meio.

Cada um dos filhos, valendo-se de todas as suas forças, bem tentou executar o que o pai lhe ordenou, mas nenhum deles obteve êxito, tendo todos fracassado.

Em seguida, o pai separou do feixe vários dos finos ramos que o compunham, colocando um nas mãos de cada filho, ordenando-lhe para que o tentassem quebrar pelo meio. Os rapazes, um após outro, obedecendo ao pai, mostraram todos como era fácil quebrar o ramo pelo meio.

Perante a evidência, disse aos seus descendentes:

Vede bem meus filhos, se permanecerdes sempre unidos como o feixe destes ramos, ninguém vos poderá quebrar pelo meio, mas se brigarem constantemente e vos mantiverdes desunidos, qualquer um vos poderá aniquilar. Em vez de brigar, ajudai-vos mutuamente uns aos outros meus filhos: contra as dissidências da vida e contra todos os que vos tentarem quebrar. Desunidos, seremos frágeis, unidos seremos fortes e inquebráveis.”

Da mesma forma meus irmãos, se dentro da nossa Augusta Ordem nos mantivermos unidos e coesos, ajudando-nos mutuamente, seremos fortes e robustos, mas se privilegiarmos a intriga e a desunião: seremos apenas frágil sombra de nós mesmos. E nós já falamos aqui tantas vezes do segredo da ‘meligrana’!

Entre este equinócio de Primavera e o próximo solstício de Verão, decorrerão eleições dentro da nossa Augusta Ordem. Apelo a todos os irmãos para que o processo de apresentação de candidaturas decorra com a devida calma e elevação maçónica.

Recordo que em maçonaria não podem existir “campanhas eleitorais”, tal como as que conhecemos dentro do sistema político partidário. Entre nós deve haver: contenção, informação aos irmãos, respeito pelos valores maçónicos, cortesia, educação, e os diferentes opositores, não são adversários entre si, mas apenas irmãos. Existe um ditado popular que diz: “pela aragem, se sabe o que vai na carruagem”. Por isso, na parte que me toca, tudo fazei para haja transparência e para que todos os requisitos e normativas vigentes, sejam estritamente observados e cumpridos. E são estas as garantias que tendes deste vosso servo, para engrandecimento da Nossa Augusta Ordem, e para que neste processo electivo, a aragem da nossa carruagem seja sã, livre e cordial!

Meus irmãos: armai-vos das vossas espadas: não podemos tolerar “maçons profanos” dentro do Templo, cultivando a intriga e a desunião entre nós, desejando apenas o nosso fenecimento e a morte dos valores universais da Maçonaria.

E era esta a mensagem simples que neste equinócio queria partilhar convosco, através da força da palavra e dos valores, e deles imbuídos, continuaremos o nosso caminho unidos e fortes, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da Maçonaria, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Lisboa 24 de Março de 6018 (2018)

Júlio Meirinhos
Grão-Mestre

01 janeiro 2018

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do solstício de inverno


Queridos II. em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos Irmãos, à nossa casa.

Celebramos hoje em Grande Loja o solstício de Inverno. A palavra solstício vem do latim "sol" e “sistere” – do que não se move. Este fenómeno astronómico, é o momento em que o Sol, durante o seu movimento aparente na esfera celeste, nos traz o registo do dia mais curto e da noite mais longa do ano. Nesse instante, o grande astro rei, ameaça abandonar-nos, arremessa-nos com a frieza da noite eterna, mas trata-se apenas de um prelúdio de generosidade, porque no instante seguinte nos presenteia com a esperança, e as noites começarão a encurtar e os dias começarão a crescer, e a grande vitória da luz sobre a escuridão concretizará a renovação da aliança de vida que o Sol tem para com toda a criação terrestre.

E é desta forma que o Sol nos ensina que nada é eternos meus Irmãos, que tudo é relativo, que tudo é permanente mudança e renovação, que tudo é metamorfose: porque à escuridão das noites longas, sucederá a luzência dos dias felizes, e ao solstício de Inverno, sucederá o solstício de Verão, e que os equinócios hão-de acontecer de permeio, e se morarmos felizes em cada um desses momentos, a nossa vida será uma verdadeira bem-aventurança.

E da ancestral loucura Babilónica de chegar aos céus, nasceu a riqueza das línguas, e por entre os meandros da dissonância do desentendimento dos homens, a velha civilização egípcia criou os hieróglifos e os sumérios o alfabeto, para que os clássicos gregos puderam escrever uma incipiente democracia primordial, ou talvez, quem sabe, para que Camões e Pessoa extravasassem a poesia.

Os romanos geraram cidades abastecidas por água que os magnificentes aquedutos traziam de longe. E pelo tempo em que quis nascer Portugal, os grandes mestres medievais, inventaram catedrais de uma formosura quase perfeita, mas a beleza da nova dimensão da perspectiva renascentista sobrepôs-se-lhe.

E foi então que nós portugueses, de sextante em punho, oferecemos a descoberta dos vários continentes a toda a humanidade.

E durante tão longa caminhada, travaram-se muitas guerras, muito sangue e destruição se arramou à superfície da terra, e a cada vez, das cinzas da dor absoluta, tudo voltou a reflorescer.

E a maçonaria especulativa há já trezentos anos que aprofunda a bondade do polimento da conduta humana, praticando a liberdade, a igualdade e a fraternidade, erguendo todos os dias novos pináculos à nossa catedral interior.

E eu, e os mais velhos que eu, ainda pensamos que a noite fascista nos tolheria os passos e os sentidos, mas erguemo-nos e revigoramos de forças, e ainda fomos capazes de responder à resolução de grandes causas nacionais, como o foram a liberdade, a democracia, a descolonização, a Europa e o desenvolvimento.

E um de entre os nossos foi prémio Nobel da literatura, e outro Presidente da Comissão Europeia, e outro Secretário-geral da ONU. Ganhamos o campeonato europeu de futebol e o melhor futebolista do mundo é nosso, com a proeza renovada por cinco edições. E o festival da eurovisão ganhou-o Salvador Sobral para todos nós, obrigando o seu tão frágil coração a amar por dois! E nós possuídos pela desventura do nosso fado património da humanidade, tínhamos a alma lusa acorrentada, quase condenados a pensar que tudo isto era apenas para os outros, e que, portanto, nos estaria eternamente vedado! E nos augúrios deste mês natalício, já conseguimos mais facilmente acreditar que o Presidente do Eurogrupo podia ser um economista nado nos Algarves.

E o Natal é isto, meus Irmãos: termos a capacidade de acreditar que todos os dias pode nascer a bondade, a alegria, a transcendência de nós mesmos. E muitos natais ainda podemos fazer acontecer: se amarmos, se trabalharmos, se estudarmos, se investigarmos, se formos justos, se praticarmos o bem, se praticarmos a virtude, se formos mansos, se todos os dias a liberdade for o único norte que oriente a construção das nossas novas pontes, que seja apenas ela a dirigir os nossos novos passos, livres.

“Não se pode amar sozinho, e todos os dias voltaremos a aprender”, explicando ao mundo que fomos os primeiros a abolir a pena de morte, apostando no lado manso da humanidade: porque “bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.”

Jesus Cristo, além do elogio da humildade, nesta Bem-Aventurança, ensina-nos que a terra não será propriedade nem dos valentes, nem dos arrogantes, nem daqueles que apenas querem guerrear. Ninguém estará por cima, ninguém estará por baixo, ninguém será usurpador, porque esses, apenas os destroços herdarão. De que nos adianta os grandes domínios, se eles forem construídos sobre a destruição e a desventura? Jesus poderia arrogar-se o maior dos anjos. Poderia humilhar opositores e delatores, mas a sua vitória significou apenas abrir caminhos, semear paz e harmonia. Fazer coisas extraordinárias, também implica a condição de mansidão, porque assim conquistaremos mais corações que todos os grandes valentes como Nero, Alexandre, Hitler ou Stalin. Os mansos não sentem necessidade de provar coisa alguma, nem mesmo que são mansos.

E neste solstício de Inverno, o Sol quer ainda ensinar-nos que há sempre mais que os dois clássicos lados: o da noite e o do dia. Porque a alvorada, o crepúsculo, a vespertina madrugada, o calmo entardecer ou o cálido zénite, fazem parte das belezas e sensações que Deus nos quis oferecer, apenas para que experienciássemos cada um de todos os pontos inscritos sobre a perfeita circunferência, toda e cada uma das nuances da felicidade.

E neste tempo solsticial e natalício, havemos de cultivar a bondade e a compaixão, e limparemos o caminho que nos traz as harmonias, a paz, a justiça, a liberdade, para que possa ser tempo de Natal todos os dias, todos os anos, por todos os séculos dos séculos.

Boas festas, um feliz Natal e um Ano Novo cheio de saúde para todos os meus Irmãos e família.

E era esta a mensagem simples que neste solstício vos queria declarar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da Maçonaria, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão Mestre

23 outubro 2017

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do equinócio de outono


O ABANDONO DO INTERIOR, O ABANDONO DE PORTUGAL

Queridos II. em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo, sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa.

Celebramos hoje em Grande Loja o Equinócio de Outono. O fenómeno astronómico ligado ao equinócio, define o instante em que o Sol, na sua órbita aparente, cruza o equador celeste, garantindo nesta data, igual duração entre os dias e as noites. Através desta sugestão igualitária cósmica, reavivo os princípios que norteiam a nossa Augusta Ordem: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. A partir deles extrapolo deveres para o maçon como o dever de solidariedade, o dever da promoção da igualdade de oportunidades, o dever da compaixão fraternal para com o semelhante, o dever de respeito pela dignidade humana, o dever em defender a democracia plena.

E faço esta introdução, porque queria hoje falar-vos do problema maior de Portugal, ao qual nós todos temos obrigação de prestar socorro:

O ABANDONO DO INTERIOR, O ABANDONO DE PORTUGAL,

problema que tem matado e vai continuar a matar.

O fenómeno dantesco dos fogos deste Verão, que assolaram e exauriram o país, que espalharam terror e morte, deve servir de rastilho para que expluda em Portugal uma “bomba nuclear de mudanças radicais”.

Neste fantástico rectângulo português, as assimetrias territoriais de longitude são cada vez mais colossais e gritantes: ao longo do Atlântico afunda-se uma espécie de restinga litoral que soma à volta de 10% do território, 90% da população, que concentra as actividades económicas, a riqueza e os maiores rendimentos, o desenvolvimento, demografia jovem e vigorosa, a qualidade de vida e as acessibilidades.

Nas costas deste litoral que nunca aparecem ao espelho, temos 90% do território que arde todos os anos: 10% da população, todas as desgraças e calamidades, das quais os fogos de Verão, são apenas um povoador de consequência.

E cito o artigo do “Financial Times” que afirma com clarividência: “os incêndios, que devastam Portugal, reflectem décadas de negligência e afastamento do poder político em relação às regiões do interior”.

E eu sei bem do que falo, porque durante muitos anos, fui autarca nas profundezas do interior dos interiores, por isso vos parafraseio Marcelo Rebelo de Sousa, que numa passagem pelo nordeste transmontano, ao improvisar uma aula de geografia para localizar Trás-os-Montes enfatiza: "O nosso país, está dividido entre a Área Metropolitana de Lisboa e o resto. Depois, entre as outras áreas metropolitanas e o resto. Depois, entre todo o litoral e o resto. Depois, há dentro do interior o interior intermédio e o interior profundo. Dentro do interior profundo há o interior mais profundo. E é no interior mais profundo do interior profundo que encontramos Trás-os-Montes", e eu próprio acrescentaria que Miranda do Douro fica mesmo no confim das profundezas de Trás-os-Montes. E é este um problema que deixamos arrastar desde muito longe. Exceptuando Dom Sancho I o Povoador, segundo rei de Portugal, que no último quartel do século XII promoveu e apadrinhou o povoamento dos territórios do país, tal como a fundação da cidade da Guarda, e a atribuição de várias cartas de foral nas Beiras e em Trás-os-Montes, povoando assim áreas remotas do reino, com imigrantes da Flandres e da Borgonha. E a Lei das Sesmarias promulgada na segunda metade do século XIV por Dom Fernando I, que pretendia fixar os trabalhadores rurais às terras e assim diminuir o despovoamento. Além deste dois, talvez não veja outros estadistas que mereçam relevo à altura nesta causa da democracia territorial Portuguesa. No século XIX, eventualmente Dom Pedro IV, mas o interior que escolheu foi o Império do Brasil.

Depois da lei das Sesmarias, as sucessivas estratégias territoriais passaram sempre por extorquir recursos e população ao interior: foram essas gentes que encheram as naus e as galeras dos descobrimentos, que foram levadas para povoar as ilhas até então desertas, as feitorias na Índia, as colónias africanas, o Brasil.

Foram eles os incentivados a imigrar para a Argentina, para a Venezuela, ou América do Norte.

Foram eles que ajudaram vários países europeus a levantarem-se depois da Primeira e Segunda Grandes Guerras, tal como a França, a Alemanha, a Inglaterra, a Bélgica, a Suíça ou a Espanha. Foi a eles que deslocalizamos para que enchessem Lisboa e o Porto.

Recentemente são os escassos jovens licenciados provenientes das regiões do interior os primeiros a engrossar as fileiras da imigração mestrada e doutorada: eu tenho lá uma filha querida!

Muitos dirão que esta é tarefa hercúlea, titânica: impossível!

Eu respondo com o exemplo recente das Alemanhas, que em 1990 tomaram a decisão de se reunificar.

Estamos a falar de coisas diferentes, claro que estamos, mas a verdade é que precisamos agora de uma grande mobilização nacional para esta urgência. Durante os anos de democracia, Portugal já conseguiu responder à resolução de grandes causas nacionais, como o foram a liberdade, a democracia, a descolonização, a Europa e o desenvolvimento. Precisamos agora reunificar o país.

A Unidade de Missão para a Valorização do Interior, aposta do actual Governo, foi o último redundante fracasso absoluto, e agora as contabilidades eleitoralistas, ou as palavras e os afectos já não bastam.

Este vosso servo Grão-Mestre não manda, mas tem com ele O PODER DA PALAVRA. E já vos tinha contado, quanto tudo era apenas trevas e breu, Deus fez luz e criou o universo apenas com palavras: DIZENDO-O. E é apenas através de palavras justas, que hoje vos queria aqui convocar a todos, a fim que sejais apóstolos e cimento forte neste tão nobre desígnio, porque a cada dia o mundo tem que ser melhor e Portugal tem de sê-lo de sobremaneira. E cito o grande poeta do interior, Miguel Torga «O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos olhar-nos a frio no espelho da vida. A paixão tolda-nos a vista… mas não somos um povo morto, nem sequer esgotado.»

Há cerca de um mês em Vilar Formoso, o Presidente da República, defendeu que a fronteira de Portugal com Espanha, fosse toda ela declarada Património da Humanidade pela UNESCO. Trata-se da mais antiga fronteira da Europa, uma fronteira onde muitas guerras se travaram, mas sobretudo uma fronteira onde os vizinhos dos dois lados nunca deixaram de relacionar-se cordialmente, mas sobretudo entreajudar-se em tempos de desgraça, porque os governos dos dois lados já os tinham abandonado: essa é uma verdadeira mensagem universal para toda a Humanidade, e talvez seja por aí que devamos começar.

E para bom entendedor, meia palavra deve bastar, por isso nada mais acrescento, pois esta era a mensagem simples que hoje vos queria comunicar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal dos valores maçónicos, a liberdade em Portugal, na Europa, no mundo, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão-Mestre

10 julho 2017

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do solstício de verão


O mundo comemora III séculos de Maçonaria Moderna

Queridos II. em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa.

Hoje celebramos em Grande Loja o Solstício de Verão. O vocábulo solstício vem da palavra latina “SOL” a que se justapôs a palavra “SISTERE”, que significa não se mexer, designando o momento em que o sol, durante o seu movimento aparente inscrito na esfera celeste, atinge a sua maior declinação em latitude.

Um dia de solstício será eternamente uma grande e mágica aurora: límpida; resplandecente. No solstício de Verão, o dia mais longo do ano, a luz do sol triunfa sobre a escuridão da noite, e oferece-nos a luminosidade plena. E estamos aqui para mais uma vez velarmos meus irmãos. Velarmos juntos a luz absoluta dos ancestrais valores maçónicos, fazendo-a triunfar sobre os medos, sobre as trevas e os obscurantismos, sobre todos os totalitarismos.

Neste preciso dia 24 de Junho de 2017, dia de São João Batista, a maçonaria moderna e especulativa, celebra o seu terceiro centenário. A maçonaria mundial completa assim 300 anos, desde que se atreveu a sonhar e lutar por um ideal de Humanidade, suportado por princípios simples, mas fundadores: o direito de pensar e o dever de tolerar. Universalizando-se a partir de então, a Maçonaria Regular afirma-se através da sua dupla dimensão, humanista e espiritual: por um lado, defendendo uma visão do homem baseada na liberdade de consciência, do intelecto e da igualdade de direitos, e por outro, defendendo um deísmo que reconhece a existência de Deus, mas que deixa aberta a definição da sua identidade.

E foi nessa noite de 24 de Junho de 1717, no terceiro ano do Rei George I, que em Londres na Inglaterra, se realizou a primeira Assembleia de Maçons Livres e Aceites, tendo lugar a reunião no primeiro andar da taberna “Goose and gridiron” (Ganso e grelha). Foi essa também uma noite de aurora primordial para a maçonaria, parafraseando Sophia de Mello Breyner sobre outras livres madrugadas, “O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo”. Foi nessa noite de 24 de Junho de 1717, que quatro lojas inglesas fundaram a primeira Grande Loja Inglesa e elegeram o primeiro Mui Respeitável Grão Mestre da Maçonaria Moderna, Anthony Sayer, encarnando a sua função o Centro da União e da Harmonia Maçónica.

E trezentos anos depois, em pleno terceiro milénio, são ainda muito grandes as resistências a estes ideais de liberdade, simples e fundadores. Por isso estamos aqui todos juntos para velar, o que significa acreditar e defender sempre os princípios maçónicos da liberdade, preferindo ter a garganta cortada a renunciar a eles.

E temos que estar permanentemente em guarda meus irmãos, porque ainda hoje o planeta vive momentos de muitas incertezas na defesa dos valores maçónicos. A grande e nobre Inglaterra que há trezentos anos nos presenteou com a primeira Grande Loja Maçónica, o país que forjou uma das mais densas democracias do mundo, parece ter-se agora cansado da História e envia-nos sinais que vão no sentido de querer ficar fora dela, deixando o “Brexit” criar desunião, arrancando à Europa a democracia mais forte, e apoucando-se assim como nação.

Por outro lado, nos Estados Unidos da América, o seu presidente democraticamente eleito, alheia-se dos verdadeiros males do mundo e em jeito de avestruz, volta as costas ao tratado de Paris e à sustentabilidade ambiental do mundo: temos de estar bem conscientes que apenas temos este planeta, que na sua versão primeira não foi programado para ter segundas oportunidades. Mas mesmo assim acreditemos que a América é maior que o seu presidente, e a Inglaterra maior que o “Brexit”.

E avisa-nos um dos maiores pensadores do nosso tempo, George Steiner: “O nacionalismo é um veneno absoluto e encarna o maior veneno do nosso tempo”.

E sobre o mesmo assunto, nos alvores na Primeira Guerra Mundial, alertava já o grande estadista francês Georges Clémenceau: “Podemos ser patriotas, mas não chauvinistas. E é esta uma distinção muito importante, porque o patriotismo pode ser decente, mas o chauvinismo, o nacionalismo e o totalitarismo, são realidades que vão sempre fazer viver à humanidade tempos muito amargos e degradantes, em que a morte e o medo espreitarão em cada esquina”.

O domínio da retórica é uma das grandes artes maçónicas, mas cuidado com a retórica política malvada, porque pode matar e assassinar por meio da linguagem. O horror do movimento nazi foi largamente baseado na retórica e na propaganda. Muito mais poderosas do que qualquer exército são as mentiras dos totalitarismos, que funcionam através da linguagem: sempre em guarda meus irmãos.

O que caracteriza o mundo actual é o alcance, a amplitude e a rapidez das mudanças. E a sua cadência todos os dias se acelera. Agora já com algum recuo, começamos a perceber que a mundialização indubitavelmente beneficia a humanidade. Nunca a pobreza no mundo recuou tanto e tão depressa e nunca os valores maçónicos estiveram tão difundidos e universalizados. Ainda assim, numa boa parte da população dos países ocidentais, a mundialização está a provocar um grande stress cultural e económico, que veio criar muitos ressentimentos e muitos medos. E a melhor coisa para resolvermos os problemas, não é enfiarmos a cabeça na areia, a melhor coisa é ter consciências dos problemas e resolve-los dentro do respeito dos valores maçónicos, sem nunca cedermos à facilidade aparente e venenosa dos totalitarismos. E é por isso, que igual que da primeira vez há trezentos na “Taberna Ganso e Grelha” devemos continuar eternamente a juntarmo-nos em Grande Loja, para velar em uníssono meus irmãos: para nos fortalecermos na defesa dos valores maçónicos e da liberdade, porque tudo o demais é pura vanidade.

E trezentos anos depois, neste tempo de solstício, a União da grande família dos maçons regulares, é de rigor: façamos o mundo mais feliz, e por contágio, sejamos todos mais felizes.

E era esta a mensagem simples que hoje vos queria comunicar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal dos valores maçónicos, a liberdade em Portugal, na Europa, no mundo, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão Mestre

Nota: O MRGM Júlio Meirinhos escreve segundo as regras de orografia pré-Acordo Ortográfico de 1990.

Rui Bandeira

05 junho 2017

O Venerável Mestre, o Grão-Mestre e os obreiros da Loja


O meu último texto, que intitulei A aventalite, mereceu vários comentários, quer neste blogue, quem numa rede social onde o mesmo foi publicado. Um dos comentadores fez uma afirmação que merece nela nos detenhamos. Rezava esse comentário, na parte que aqui interessa:

"(O Venerável Mestre) como todos sabemos e conhecemos pelo Regulamento Geral, é o único representante em Loja do Muito Respeitável Grão-Mestre."

Factualmente, e no que respeita à GLLP/GLRP, este comentador tem toda a razão no que afirma. O art. 64.º, n.º 3, do Regulamento Geral da GLLP/GLRP dispõe expressamente:

"O Venerável Mestre em Loja representa o Grão-Mestre."

Norma vigente é norma para ser respeitada - e ponto final! Mas tal não implica que não se possa - em bom rigor, mesmo, não se deva! - analisar a pertinência de uma norma, na perspetiva do aperfeiçoamento futuro da regulamentação. 

Do meu ponto de vista, esta norma vigora e, enquanto vigorar deve ser respeitada, mas será conveniente que, com calma e na altura própria, se analise se a mesma deve manter-se, no seu preciso teor.

É que, sendo norma em vigor (na GLLP/GLRP) que, em Loja, o Venerável Mestre representa o Muito Respeitável Grão-Mestre, uma serena análise permite-nos concluir que, na natureza da Maçonaria, não é isso que sucede, ou deve suceder. Eu diria até que... pelo contrário! Quem representa o titular de uma função? Naturalmente, que representa quem o designa ou escolhe para essa função!

Ora, o Venerável Mestre de uma Loja maçónica - excetuadas as situações, atípicas, de designação pelo Grão-Mestre até à realização, em prazo que não deverá exceder 180 dias, de eleição para o ofício, designadamente quando uma Loja levanta colunas e está em início de trabalhos ou quando atravessa uma crise que impõe a intervenção administrativa da Grande Loja - é eleito pelos obreiros da Loja! Portanto, em bom rigor, o Venerável Mestre só quando é designado, transitoriamente, pelo Grão-Mestre é que o representa. Só nestas particulares e excecionais circunstâncias, em que, seja no início da atividade da Loja, seja em face de circunstâncias anormais, o Grão-Mestre necessita de transitoriamente intervir na Loja e designar um seu responsável até à normalização da escolha por via de eleição pelos obreiros da mesma, é que se pode dizer que é natureza das coisas que o Venerável Mestre designado representa o Grão-Mestre.

E representa-o então, por natureza, apenas e tão só porque não dispõe de legitimidade conferida pelos seus pares e, portanto, necessita de exercer o seu múnus (transitório, repete-se) beneficiando da legitimidade do Grão-Mestre.

Mas, em situação normal, o Venerável Mestre em funções exerce as mesmas porque foi eleito pelos obreiros da sua Loja para assegurar esse exercício. Exerce, portanto, o seu ofício, em representação dos obreiros da sua Loja, que o elegeram para tal. Em exercício normal de funções, o Venerável Mestre da Loja não tem a sua legitimidade por designação do Grão-Mestre, obtém-na por manifestação da vontade coletiva dos obreiros da sua Loja. E, portanto, é a estes que representa.

Uma afirmação descritiva da Maçonaria de que gosto muito, e que frequentemente utilizo, é a que reza que Maçonaria é um maçom livre numa Loja livre. É uma conceção da Maçonaria que preza e afirma o essencial da Maçonaria e da trilogia que tantas vezes, e orgulhosamente, proclamamos: Liberdade - Igualdade - Fraternidade.

O maçom livre junta-se a outros maçons, também livres e, em conjunto, formam uma Loja livre. Livremente a formam e nela atuam. As limitações à liberdade de cada um são por eles fixadas e assumidas e aceites, em ordem à serena e cabal organização, decisão e atuação coletiva. No seio da Loja que todos livremente formaram ou a que livremente aderiram, todos têm um estatuto de perfeita Igualdade. E a sua atuação pauta-se pela indispensável Fraternidade. Quando isto está reunido, faz-se Maçonaria. E a lideraqnça que em cada momento é exercida resulta da Liberdade de todos, da Igualdade de todos, da escolha efetuada por todos em perfeita Fraternidade. O líder, o Venerável Mestre, no exercício normal de funções recebe a sua legitimidade de quem o elegeu e a quem, assim, representa.

Portanto, em bom rigor, a natureza das coisas é que, apesar de estar escrito em regulamento que em Loja o Venerável Mestre representa o Grão-Mestre, na realidade o Venerável Mestre representa os obreiros da sua Loja, designadamente perante o Grão-Mestre.

Porque existe então a mencionada norma regulamentar? Porque, tal como os maçons sabem que não são perfeitos e necessitam continuamente de se aperfeiçoar, também as suas obras, e escolhas, necessitam de constante aperfeiçoamento. Esta norma em concreto é um resquício de uma dada conceção de Grande Loja, que não é a única e que compete com outra conceção de Grande Loja. O regulamento da GLLP/GLRP, tal como - não tenhamos dúvidas! - os regulamentos de outras Obediências maçónicas, é o resultado de compromisso, balanço, evolução, equilíbrio entre duas conceções de Grande Loja ou Grande Oriente, uma mais centralizadora que outra.

Mas isso será tema para esmiuçar em mais um par de textos que hão de vir!

Rui Bandeira  

27 março 2017

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do equinócio da primavera


Queridos Irmãos em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa. 

Hoje celebramos em Grande Loja o equinócio de Primavera. O vocábulo “equinócio” forma-se a partir de duas palavras latinas: ‘aequus’ que significa ‘igual’ e ‘nox’ que significa noite. Estamos, portanto, numa data, em que a inclinação da terra e os raios da luz do sol, garantem igual duração dos dias e das noites. 

Igual e permanente durabilidade também deve ter para o maçom, o brilho dos vértices do triângulo rectângulo em que assentam os princípios que sempre nortearam a nossa Augusta Ordem: Liberdade, Igualde, Fraternidade: liberdade de consciência e liberdade de pensamento, que permitam a todo o ser humano a aventura de conhecer-se e construir-se; a tolerância e a compaixão fraternal para com o semelhante, o respeito pela dignidade humana sem olhar a credos, classes sociais, raças, género, orientação sexual ou outro tipo de ideias ou ideais. 

Em 2017 a maçonaria moderna celebrará o seu terceiro centenário: a Maçonaria mundial completa 300 anos desde que se atreveu a sonhar e lutar por um ideal de Humanidade, suportado por princípios simples, mas fundadores: o direito de pensar e o dever de tolerar. 

Lamentavelmente, neste início conturbado de terceiro milénio, o mundo e a humanidade ainda está muito longe de ser um lugar que aceite e pratique pacificamente estes ideais simples e fundadores, perpetrando-se ainda muitas formas de obscurantismo: fundamentalismos religiosos, totalitarismos políticos, pensamentos únicos e outras ameaças. 

O velho mundo Europeu e o novo mundo Americano, criadores e resguardos da democracia e dos valores: por vezes cambaleiam, vacilam, duvidam do caminho! Nós maçons, nunca podemos cambalear, vacilar, duvidar: os valores são as nossas únicas grandes luzes, que permanentemente devem aclarar o nosso caminho. 

A este propósito, no dia 27 de Fevereiro último, pela primeira vez na história, um Presidente francês, neste caso François Hollande, visitou o Museu da Franco-Maçonaria em Paris. O objectivo foi simples e claro: reconhecer e enaltecer a contribuição positiva e fundamental que teve a Maçonaria francesa para a história da França, para a história dos países latinos e de maneira universal para a história da Europa, do mundo livre, democrático e progressista.

No seu discurso, François Hollande referiu-se à Maçonaria como grande impulsora do fim do colonialismo, da concessão da nacionalidade francesa aos judeus, da autorização dos sindicatos, do direito de associação, da liberdade de imprensa, da laicidade do Estado francês, do ideal de liberdade dos Estados Unidos ou ainda da fundação da Sociedade das Nações como ponte entre os povos. 

Respiguei algumas passagens do seu discurso que gostaria hoje de partilhar aqui com todos os meus irmãos, para que ouçais e mediteis, para que vos enchais de orgulho e continueis a dar as mãos aos valores em inabalável cadeia de união. 

"No nosso tempo, a Maçonaria é uma bússola muito valiosa, uma luz que ajuda a compreender os problemas para lhes dar respostas. A Maçonaria não se baseia num dogma fechado, mas sim numa visão aberta, é um método e não apenas uma finalidade de propósito. Hoje não diria que as batalhas são as mesmas, mas ao fim de três séculos, são os mesmos valores que precisamos promover, que precisamos organizar, que precisamos defender até atingir o âmago das nossas sociedades que, entretanto, mudaram e evoluíram. 

A Liberdade em primeiro lugar, a liberdade contra o obscurantismo, contra o fanatismo, contra o fundamentalismo, a liberdade absoluta de consciência, contra os dogmas, a liberdade de pensamento contra aqueles que procuram censurar. [...] 

A Igualdade, que no passado serviu para garantir a igualdade política entre todos os cidadãos, independentemente da sua origem ou das suas condições; nos nossos dias, deve servir para impulsionar outras formas de igualdade. [...] 

E a declaração da vontade de caminharmos juntos, de solidariedade anónima, um valor excepcional de fraternidade que implica caminhar com todos os demais. [...] Não podemos defender a liberdade se contradizemos a igualdade; não podemos defender a igualdade, se mitigamos a fraternidade". 

"Enganam-se os perversos que associam a maçonaria a forças secretas, tal um poder oculto por trás de todos os acontecimentos; é bem mais simples: muitos maçons têm desempenhado um papel importante em nome de uma ética que os predispõe à acção, uma vez que seus valores os conduzem ao progresso. 

Foi a vontade de alguns espíritos brilhantes para associar a razão científica dos sábios, ao ideal humanista dos filósofos à aspiração e transcendência dos artistas que forjou o vosso ideário e a vossa vontade. Numa França, naquele tempo ainda dominada pela monarquia absoluta e a religião do estado, as lojas foram à vez um refúgio de tolerância e uma escola de democracia". 

"Muitos maçons foram, ao mesmo tempo, criadores de grandes textos da Revolução, mas igualmente vítimas do desenrolar dos acontecimentos: das purgas do Terror, da regulação do Império, da repressão da Restauração, […]

Esta é a memória dolorosa da Maçonaria francesa, sempre perseguida pelas ditaduras, […] sempre que houve sombras escuras a pairar na história, os maçons foram perseguidos e ainda continuam a ser. […] e a história sombria de todos aqueles que quiseram questionar-vos sobre o que sois, e que sempre cultivaram as mesmas calúnias, os mesmos fantasmas em nome de uma conspiração que não perde, infelizmente, a sua validade. Basta clicar na Internet, e imediatamente ver ressurgir os conspiradores, e todos aqueles que pensam que os maçons andam neste mundo sempre a preparar não sei muito bem que tipo complô. É desconcertante, mas, infelizmente, propagado, cultivado e difundido." 

Meus irmãos: armai-vos das vossas espadas: continuam profanos à porta do tempo, vociferando calúnias contra nós, desejando apenas a nossa morte e a morte dos valores universais da maçonaria. 

E era esta a mensagem simples que neste equinócio queria partilhar convosco, através da força da palavra e dos valores, e deles imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da Maçonaria, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo. 

Julio Meirinhos 
Grão-Mestre

Publicado por Rui Bandeira

09 janeiro 2017

Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP por ocasião do solstício de inverno


Enlaço todos os irmãos num enorme abraço em cadeia fraterna. Dizer-vos mais uma e outra vez obrigado: pela vossa comparência e por todos os momentos de fraternidade feliz que me ofereceis. Desassistido da mão amiga e fraterna dos demais irmãos obreiros sou infeliz e não consigo efectuar, sozinho, grandes desígnios e empreendimentos. 

Tal como ouvi na minha iniciação «No entanto, reflicta que nem os adultos isolados e plenamente desenvolvidos podem efectuar sozinhos qualquer grande empreendimento. Pôde fazer sem dificuldade a sua viagem com o passo firme de um homem maduro mas foi-lhe certamente bem útil a companhia de um homem experiente que se comportou como um Irmão»

Cumprido que está um primeiro mandato como Grão-Mestre, dizer-vos que unidos já fizemos muito: somos mais reconhecidos, somos mais respeitados, crescemos, fortalecemo-nos, temos melhores infra-estruturas, comunicamos melhor. Neste segundo mandato que agora iniciei, quero adensar a nossa caminhada interior, estar mais perto dos irmãos, quero fortalecer todos os Ritos com maior rigor ritual e administrativo. 

Nesse sentido os Grandes Inspectores estão a preparar programas de maior proximidade com as Lojas para que possam aconselhar mais e melhor e assim podermos ter Rito a Rito uma maior proficiência ritual, de acordo com as melhores práticas, e ainda práticas administrativas uniformes e comuns a todas as Lojas, quero continuar o desenvolvimento sólido e sustentável da nossa Grande Loja, quero estar plenamente confiante na nossa caminhada para um futuro melhor. 

Quero privilegiar a comunicação com os Irmãos e nesse sentido está a ser desenvolvido um trabalho complexo para transformar por completo o nosso sítio internet, criando-lhe mais valências e com aspecto mais atractivo. 

Em breve novas formas de comunicação com todos os Irmãos serão postas em prática. 

O prestígio da nossa Grande Loja, em termos internacionais, está em crescimento e somos cada vez mais reconhecidos pelas nossas ideias e pela forma que temos de ver o Mundo. 

Neste ano que se inicia, anuncio-vos que a nossa Grande Loja vai organizar a reunião da VI Zona da CMI, e também a Reunião dos Grandes Secretários Europeus. São eventos que nos vão colocar à prova, mas que trarão até nós mais de 50 potências maçónicas.

E por tudo isto vos agradeço mais uma vez. 

Mais uma vez me reporto à minha iniciação e a uma frase que nela ouvi. 

«Mas este trabalho é penoso e exige muitos sacrifícios, os quais terá que praticar se quiser ficar junto de nós. É necessário que tome, desde já, a firme resolução de se entregar a este trabalho, se persistir no desejo que manifestou de ser recebido Maçon»

O trabalho a fazer é muito, exige muito de todos nós e peço-vos que se entreguem ao trabalho nas vossas Lojas e que vos faça persistir no desejo de sermos Homens Melhores. 

E estamos à porta de mais um solstício, meus irmãos, as estações sucedem-se, o natal deve acontecer e o tempo das colheitas deve cumprir-se: Na mie tierra, i an todo Pertual, ye tiempo d'azeituonas i d’azeite i todo isso ten que ber cun maçonarie!

Tal a maçonaria, a oliveira é árvore milenar produtora de fluido sagrado. Prenhe do seu azeite, a oliveira é sina do perdão divino, é rasto de paz. A Terra Prometida era país de oliveiras onde o azeite iluminava os templos. Quando, dentro da Arca, Noé já não aguentava a consumição dos animais que afiançariam a continuidade das especes, o sinal da vida anunciou-se através de um raminho de oliveira, que a pomba, já sem fel, trouxe pendurado no bico.

Num hino à vida, os deuses e heróis que cantam a Odisseia, cobriam o corpo de azeite perfumado. No Jardim das Oliveiras, só essas árvores milenares velaram a agonia de Cristo. Nos templos, sabe-se lá desde quando, da lamparina de azeite nascia a chama que assinalava o sítio más sagrado. Com o cristianismo o azeite torna-se a base dos óleos que materializam os sacramentos.

Depois de mil tormentos, antes em candeia, mezinha ou molho dourado, e agora feito dieta mediterrânica, o sol que aqueceu a seiva que circula no xisto fundo do chão português, como que por magia, transforma-se todos os anos em colheitas de azeite, fluido sagrado que roubou a cor ao ouro, mas é um ouro que escorre e se deixa gostar, que é fonte de vida e não mero adorno rígido e intemporal.

Com aquele sossego consciente que deixe cair a última gota, com a paciência que nos ensinaram os sinais do tempo e como tudo o que participa do halo dos deuses, incumbe-nos mais que nunca a obrigação de ser como a oliveira, ser como o azeite, aquele que vem sempre ao de cimo: seremos verdadeiros sacerdotes embaixadores da alma boa dos homens, dos verdadeiros valores maçónicos, da paz, da justiça, da liberdade.

Tal como o camponês precisa passar a vida a podar as suas oliveiras: arejando-as, afeiçoando-as, retirando-lhe os ramos maus, rejuvenescendo-as eternamente, também os maçons precisam passar a vida a podar os comportamentos dos homens, para que prevaleçam e proliferem apenas os bons, para que se encaminhem apenas para a harmonia, para a paz, para a justiça, para a liberdade, para que possa ser tempo de Natal todos os dias, todos os anos, por todos os séculos dos séculos.

Boas festas, um feliz Natal e um Ano Novo cheio de saúde para todos os irmãos e família.

E era esta a mensagem simples que neste solstício vos queria declarar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da Maçonaria, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Julio Meirinhos
Grão-Mestre

Nota: O Muito Respeitável Grão-Mestre da GLLP/GLRP, Irmão Júlio Meirinhos, escreve segundo as normas de ortografia pré-Acordo Ortográfico de 1990. 

Também escreve e fala fluentemente naquela que é a outra língua oficial da República Portuguesa, o mirandês, que orgulhosamente  por vezes também inclui nos seus escritos. Foi, aliás, proponente da Lei que consagrou o mirandês como língua oficial da República Portuguesa.

A publicação desta comunicação neste blogue é efetuada com sua autorização.

Rui Bandeira