Sobre o tempo que deixámos de ter
O texto recente do Ir∴ Fábio Serrano fez-me parar, não porque seja uma denúncia inédita, mas porque coloca o dedo num ponto que muitos de nós preferimos contornar. A Maçonaria não se tornou menos valiosa, tornou-se mais difícil de habitar. E essa dificuldade não nasce de uma crise moral da Ordem, mas de uma transformação profunda da sociedade onde ela tenta continuar a existir. Entre os vários “ladrões de tempo” que o Fábio identifica, com lucidez, o entretenimento digital, a obsolescência profissional, a paternidade intensiva, o futebol transformado em Big Brother, há um fio comum que atravessa tudo, a erosão do Tempo enquanto espaço habitável.
Vivemos numa sociedade que não apenas ocupa o tempo, mas o fragmenta. O tempo deixou de ser um campo onde se permanece e passou a ser um corredor de passagem. Tudo é feito em trânsito, em simultâneo, em aceleração constante. Já nem o lazer escapa a esta lógica, a juventude de hoje em dia consome os conteúdos acelerados, vídeos a 1.5x ou 2x, não porque sejam longos demais, mas porque a nossa capacidade de espera encolheu. Até o descanso tem de ser eficiente, mensurável, justificável. A pausa precisa de provar que merece existir e o resultado é paradoxal, quanto mais tentamos ganhar tempo, menos sentimos que o temos.
É aqui que o diagnóstico do Fábio ganha peso, quando a Maç,onaria pede tempo, não pede apenas horas numa agenda. Pede Presença. Pede Repetição. Pede Silêncio. Pede uma disponibilidade interior que não produz resultados imediatos nem oferece gratificação instantânea. Num mundo dominado por algoritmos desenhados para gerar estímulos constantes, pedir a alguém que se sente, escute, observe e espere é quase um ato contra-cultural. Não admira que tantos sintam que o custo é elevado e o retorno difuso, não porque o retorno não exista, mas porque já desaprendemos a reconhecê-lo.
O problema, contudo, não é exclusivamente maçónico. É civilizacional. O homem contemporâneo vive com a sensação permanente de estar atrasado. Atrasado para o trabalho, atrasado para a formação, atrasado para a família e principalmente atrasado para si próprio. O tempo livre foi transformado em tempo de sobrevivência, estudar para não ficar obsoleto, treinar para não adoecer, produzir para não cair. Tudo é imediato, tudo é urgente, e quando assim o é, nada pode ser profundo. Quando somos forçados a escolher entre estar presentes com os filhos, garantir a estabilidade profissional ou dedicar-nos a um caminho iniciático exigente, a escolha deixa de ser simbólica e passa a ser ética. A Ordem não perde porque é menos importante, perde porque não quer, nem deve, competir nesse plano.
Talvez por isso a questão central não seja se temos ou não tempo, tempo há e sempre houve. A verdadeira questão é para onde o estamos a entregar e com que critérios. A quem damos o nosso melhor tempo? O mundo moderno não nos rouba o tempo à força seduz-nos, a trocá-lo por fragmentos de distração, por pertenças fáceis, por identidades sem silêncio.
Nesse sentido, a Maçonaria não concorre com o mundo moderno. ela contraria-o. A sua lentidão, o seu ritual, a sua exigência de escuta e repetição não são defeitos de um modelo ultrapassado. São precisamente o que a torna difícil de aceitar numa cultura que desaprendeu a permanecer, talvez seja por isso que incomoda e talvez seja também por isso que continua a ser necessária.
No fim, talvez não vivamos numa sociedade sem tempo. Vivemos numa sociedade que perdeu a coragem de o defender. E enquanto não formos capazes de assumir essa escolha, continuaremos a confundir a falta de tempo com falta de vontade, e a erosão do compromisso com uma suposta inevitabilidade histórica.
João B. M∴M∴


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