O Sol não muda. Nós é que mudamos de hemisfério.
Na quarta-feira, depois da sessão, durante o nosso ágape, surgiu uma conversa curiosa sobre algo do dia a dia que raramente notamos. Em Portugal o Sol culmina a Sul, no Brasil culmina a Norte. É um facto. Esta constatação levou-nos a uma pergunta que começou por ser quase técnica, mas que rapidamente se tornou maçónica. Se o ponto mais alto do Sol muda de lado conforme o hemisfério, será que também o seu significado simbólico muda? Será que aquilo que para nós, em Portugal, representa plenitude, “lá em baixo” representa sombra? Onde se sentam os irmãos Aprendizes no Brasil? No Sul?
Não foi uma pergunta de resposta imediata. Temos a sorte de ter irmãos brasileiros na Loja, mas talvez o mais interessante nem tenha sido a resposta, foi termos parado para pensar nela.
Desde tempos imemoriais que o homem organiza o seu espaço segundo o movimento do Sol. Templos megalíticos alinhados com solstícios, cidades orientadas pelo nascer da Luz, civilizações que estruturaram o calendário a partir do arco solar. Estive no fim do ano em Malta e tive a oportunidade de visitar Ħaġar Qim, impressionante. Nota-se que o Sol nunca foi apenas uma estrela, foi, e é, referência, medida, orientação. Também os nossos grandes navegadores portugueses, “Que da Ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da Taprobana”, aprenderam a ler o céu. Ao meio-dia, quando o Sol atingia o ponto máximo, mediam a sua altura para determinar a latitude e saber onde estavam no imenso oceano. Não perguntavam onde estava o Sol, mas sim qual era a sua posição em relação ao Sol.
O Sol nasce no Oriente para principiar o dia e esconde no Ocidente para terminar o dia, em qualquer templo ou lugar do planeta. O início e o fim são universais. O que muda é o arco que Sol percorre no céu, enquanto no hemisfério Norte culmina a Sul, no hemisfério Sul inclina-se para Norte. Talvez a vida funcione assim, todos começamos por um momento de despertar e todos caminhamos inevitavelmente para um limite comum, mas o percurso entre esses dois pontos é moldado pela latitude da nossa história, pela cultura que nos envolve, pelas circunstâncias que nos desafiam e pelas sombras que trazemos. Quando o Sol atinge o seu ponto mais alto, as sombras não desaparecem, tornam-se apenas mais curtas e recolhem-se sob os nossos pés.
A maturidade não elimina a imperfeição, ensina apenas a colocá-la na sua justa proporção.
Talvez a pergunta que verdadeiramente importa não seja onde culmina o Sol, mas onde culmina a nossa consciência, não é saber se a Luz está a Norte ou a Sul, mas perceber se estamos dispostos a ajustar a nossa posição quando descobrimos que o mundo é maior do que o nosso horizonte habitual. É confortável acreditar que o nosso lado do céu é o centro, mas o crescimento começa precisamente quando aceitamos que o mesmo Sol pode ser visto de ângulos diferentes sem deixar de ser o mesmo.
Num tempo em que tudo parece exigir alinhamentos rígidos e pertenças exclusivas, talvez devêssemos olhar para cima e aprender com o céu, pois ele apenas cumpre o seu percurso. A questão é saber se nós fazemos o mesmo ou se continuamos a confundir o nosso ponto de vista com a verdade absoluta.
João B. M∴M∴

