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18 março 2019

A morte (e a vida)


Em Maçonaria, os símbolos e rituais servem para colocar ao dispor do maçom os conhecimentos, os temas, os valores com significado e importância no ideário maçónico. O que cada maçom aprende ou não aprende, reflete ou não reflete, assimila ou não assimila em face desses símbolos ou rituais é com ele. Cada um é como é e livremente aproveita (ou não) da forma que melhor entende o que lhe é proporcionado. 

Ao longo do seu percurso, o maçom é confrontado, simbólica e ritualmente, com a morte. Desse confronto, fará a reflexão que quiser ou for capaz, tirará a lição que conseguir tirar. Mas é importante que ese confronto exista.

A morte - sabemo-lo, embora mutos o procurem esquecer pelo máximo de tempo possível... - é inevitável. A todos chegará, a cada um na sua hora. Normalmente, quanto mais novos somos, mais afastamos esse tema do nosso pensamento. É uma desagradável questão distante com que esperamos não ser confrontados por décadas - se nos detemos a pensar nisso ainda vamos deprimir e mais vale mas é pensarmos no que vamos fazer hoje e amanhã e esta semana e nas próximas férias...

No entanto, os maçons são confrontados com a morte e assisado é que reflitam sobre esse tema. Desde logo, porque fazendo-o quando a morte não lhes está iminente, tal lhes permite racionalmente fazerem a sua análise e, sem urgências, ficarem em paz com a certeza de que um dia ela os atingirá.

A morte faz parte da vida. O ciclo natural do nascimento, crescimento, maturidade, declínio, morte está presente em todos os seres vivos, é ínsito à Vida. Quanto mais cedo e melhor aceitarmos isso, mais cedo e melhor estaremos em condições de aproveitar e viver plenamente a vida.

Para o crente, a morte não é o fim, mas uma Passagem. Mas, deste lado da mesma, forçoso é reconhecer que é uma Passagem para o Desconhecido...

A morte, o reconhecimento da sua inevitabilidade e, portanto, a sua aceitação, é, desde logo um importante fator de consciência da fundamental Igualdade entre todos nós.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos proclama, logo no seu art. 1.º, que todos os seres humanos nascem livre e iguais em dignidade e em direitos. Mas, ao contrário do que possa parecer, a parte final desta proclamação ("em dignidade e em direitos") restringe o alcance da primeira parte da frase. E fá-lo bem, porque, em bom rigor todos os seres humanos, sendo essencialmente iguais, são individualmente diferentes. Uns nascem em berço de ouro, outros em pobres enxergas. Uns são geneticamente dotados de saúde, outros têm a infelicidade de virem a este mundo com doenças congénitas. Uns são inteligentes, outros nem tanto assim. Uns são belos, outros nem por isso. Pese embora a proclamada igualdade "em dignidade e em direitos", temos que reconhecer que, parafraseando George Orwell em O Triunfo dos Porcos, "uns são mais iguais do que outros". Uns, bafejados pela genética, mas também condições sociais, partem para a jornada da vida com vantagem. Outros terão de superar deficiências, insuficiências, simples acasos como o lugar de nascimento ou de colocação social dos seus genitores para lograrem atingir os mesmos objetivos e patamares muito mais facilmente atingidos pelos bafejados pela sorte na sua conceção e nascimento.

Quer queiramos, quer não, apesar da fundamental Igualdade entre os seres humanos, a verdadeira, a completa, a material Igualdade só existe na morte! A morte é o encerrar do ciclo neste plano de existência para o milionário e para o indigente, para o belo e para o feio, para o inteligente e para o menos dotado. A morte é a Grande Igualizadora!

Entender a nosa finitude e aceitá-la, mas também entender a fundamental Igualdade que a todos junta na morte é essencial para entendermos e fruirmos completamente a Vida.

A essencial Igualdade da morte é que todos, rigorosamente todos, quando chega esse momento tudo deixam para trás: riquezas, estatuto, honras, mas também dívidas, condenações e opróbrios.

Acumular riquezas, obter estatuto, receber honras implicam esforços, escolhas, renúncias. Ter suficientes bens materiais para poder proporcionar a si e aos seus uma vida segura e confortável e fazer sacrifícios para isso é entendível. Prescindir de fruir plenamente a vida só para acumular riquezas muito para além dessa medida e que, chegada a hora da morte, para trás ficarão, não será, para muitos, uma prioridade. O mesmo quanto ao estatuto, que inexoravelmente termina com a morte física, e com as honras, que gradualmente se desvanecem nas memórias dos que ficam até inevitavelmente desaparecerem, ou, quando muito, e em reduzido número de casos, se limitarem a referências nos livros de história ou de uma qualquer especialidade. Mesmo os grandes, celebrados e recordados artistas, heróis e criadores desconhecem, após a sua morte, que permanecem celebrados e recordados...

Portanto, a consciência e a aceitação de que a nossa vida é finita e que, chegada a morte, tudo deixamos para trás, em bom rigor não são pungentes, não são atemorizadora, são libertadoras, porque essa consciência e aceitação nos permitem viver e fruir plenamente a Vida.

A vida á para ser vivida da forma mais livre, mais pujante, mais compensadora, que nos for possível.

A VIDA É BELA! Mas só temos total consciência disso e a plena capacidade de a fruir depois de termos encarado a nossa finitude e de estarmos em paz com a nossa morte.

Rui Bandeira

29 março 2018

Sobre a impermanência





SOBRE A IMPERMANÊNCIA
 Prancha traçada ao Vale de Lisboa, em 28 de Março de 6.018

O presente texto não está redigido segundo o acordo ortográfico da Língua Portuguesa de 1 990/2 009.

A IMPERMANÊNCIA
Alinhando e desalinhando estes parágrafos, maldizendo, (apenas um pouco), a minha incontida verborreia que me fez falar em impermanência numa sessão onde, e muito bem, foi apresentada a prancha “A Existência Humana”, um ensaio no qual Drucker (19NOV1909 a *11NOV2005) faz uma análise do pensamento de Kierkegaard (05MAI1813 a *11NOV1855), com os olhos postos nas mudanças de pensamento, principalmente o político e social, que ocorriam no fim da 1.ª metade do século XX.
Segundo Kierkegaard, o homem terá que renunciar a si mesmo para superar as limitações que a realidade lhe impõe, e assim poder aceder ao transcendente, aceder a Deus e à verdadeira individualidade; neste sentido, realçou “o existir concreto do homem” (o existencialismo) que anseia pela transcendência, focando em consequência disso, os sentimentos de angústia e desespero inerentes a tal condição.
Ora, em minha modesta opinião, na vida onde tudo é transitório, tanto os pensamentos quanto os amores e as coisas, que vão, vêm, ficam e passam, nada é assim tão importante, a não ser a experiência da vida que passa (e apenas enquanto passa), pelo que não me apetece mesmo nada ter algo que me obrigue a viver em desespero e angústia para poder vir a ter a ilusão de “possuir” ou “conquistar” o que quer que seja. O que vier, virá; mas virá sem sofrimento consentido; assim sabendo e aceitando ser o traço característico da existência terrestre a impermanência, decidi iniciar esta prancha por “a Morte”, indubitavelmente a carta mais forte, ou mesmo o trunfo (e o triunfo) maior, do tema que aqui se pretende tratar.
Para nós, que de certa forma nos alinhamos e nos preparamos para a viagem rumo ao G\O\E\, não há dúvida que encararemos a nossa morte física como a prova provada (desculpem o pleonasmo) da impermanência pois não iremos/voltaremos mais “viver” nos moldes actuais (ou iremos?).
Octávio Paz (31MAR1914 a 19ABR1988) escritor poeta e ensaísta mexicano, Nobel da literatura em 1990, dizia que “a morte não nos assusta (aos mexicanos) porque a vida já nos curou dos medos”; enquanto que Giuseppe Belli (07SET1791 a 21DEZ1863), poeta italiano famoso pelos seus sonetos em romanesco (o dialecto de Roma) nos conta que “A morte está escondida nos relógios” (La golaccia).
A palavra morte quase não é pronunciada em Nova Iorque, em Paris ou Londres, e infelizmente começa a não ser pronunciada também em Lisboa, porque queima os lábios; contudo ainda vai havendo quem a respeite, a acaricie, a celebre e até brinque com ela e não só no México onde é, segundo Octávio Paz, “um dos seus brinquedos favoritos e o seu mais constante amor”.
Lembro aqui o filme “Meet Joe Black”, um filme rodado em 1998 e quase todo em Nova Iorque, cidade onde como acima referimos se evita pronunciar a palavra morte, produzido por Martin Brest tendo como actores, entre outros Brad Pitt e Anthony Hopkins, um filme que, ao que eu saiba, pela primeira vez nos põe em contacto personificado com a Morte, com humor e com alguma naturalidade, o que não é habitual nos filmes ou narrativas que nos habituámos a ver provenientes dos EUA, onde a angústia e a perda são pulsões permanentes.
Neste filme ocorre uma festa de aniversário que, apesar de ser a última e o aniversariante o saber, foi um festejo alegre e coroado com fogo-de-artifício!
O nosso portuguesíssimo “Pão por Deus” que ultimamente vai sendo desvirtuado e substituído pelo “dia das Bruxas” ou “Halloween”, era o dia em que antigamente se oferecia pão, bolos, vinho e outros alimentos aos mortos, celebrado em cada ano no primeiro dia de Novembro, na véspera do dia consagrado a todos os mortos, e era de reminiscências bem antigas, que aqui me escuso de referir ou tão cedo não sairíamos daqui; era, como vinha dizendo, um ritual de “comer a morte” ritual esse que pode representar a continuidade da vida, como se do ventre da morte pudéssemos ver nascer ou até renascermos na própria vida; era o Morrer para Renascer; era o ensinamento que diariamente o Sol propiciava (e propicia se o quisermos/pudermos ver/entender) nascendo incansavelmente e a cada dia no Oriente, de onde vem a Luz, para inexoravelmente se extinguir moribundo, no útero devorador do mundo, o Ocidente.
Estará então o homem condenado à morte e à vida, ambas repetitivas e eternas? A ser assim a morte e vida serão dois aspectos de uma mesma realidade? Eclodirá a vida da morte qual planta que brota da semente que se decompõe no seio da terra?
A ser assim, a morte será um bem colectivo que dá continuidade à criação e que funciona como regresso à essência do universo.
Será o verdadeiro objectivo da vida chegar “purificado” “com mais luz” ou “aperfeiçoado” à “morte”?
Assim sendo, a “vida” outra coisa não será senão uma caminhada com vista à santificação da nossa existência; viver para morrer, tendo que sofrer para viver eternamente como preconizava Kierkegaard?
Ou será que a vida se nos apresenta como um verdadeiro desafio, e uma grande oportunidade para percorrer o caminho que nos leva à porta da imortalidade? Nascer para morrer e então renascer para viver o caminho; no fundo um caminho iniciático.
Não é só a morte, porém, que atesta, talvez consagre, a impermanência. A impermanência é desde logo, a vida ou, se preferirmos, o percurso “desta” vida com todos os seus mitos e dúvidas.
Lemos em Fernando Pessoa: (13JUN1888 – 30NOV1935) in Mensagem - II - Os Castelos - Primeiro/Ulisses
O mytho é nada que é tudo.
O mesmo Sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.
E ainda: in Livro do Desassossego
Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente torna-se outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.
Foi “este” Fernando Pessoa que muito nos chamou a atenção, tanto para as coisas que nos rodeiam, como para a nossa “pessoa”, os nossos rostos e as nossas máscaras, da nossa permanente transformação, e do nosso perpétuo movimento, e que, na pele de Bernardo Soares, nos ensinou a aceitar, sem mais questões, a impermanência: gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro.
A impermanência porém, com frequência, assusta-nos … todavia não somos nós, bem por dentro da nossa vivência, a personificação acabada dessa impermanência?
Afinal a vida é uma prática mortal, um livro de desassossego que se abre ao fascínio dos humanos!
Poderia aqui deixar páginas de citações sobre a impermanência; fiquemos apenas por estas:
i) O progresso é impossível sem mudança.
Aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada.
George Bernard Shaw (26JUL1856 a 02NOV1950)
ii) Nada é permanente, excepto a mudança.
Heráclito de Éfeso (540AC a 475AC**)
iii) Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança.
Maquiavel (03MAI1469 a 21JUN1527)
iv) Tudo é mudança; tudo cede o seu lugar e desaparece.
Eurípedes (481AC a 407AC)

v)   Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
Luís de Camões (+- 1524 a 10JUN1580)
Conto-vos agora uma história na primeira pessoa, e vai ser na primeira pessoa do singular; eu sei que poderia utilizar a primeira pessoa do plural e dar-lhe um ar mais majestático, mas, de todo, não me parece que seja necessário:
Certo dia, aí pelos meus trinta e poucos, numa conversa de café, ou melhor numa conversa de club, pois o facto que aqui relato ocorreu na sala de convívio do C.R.M. (Club Recreativo Mortuense), quando em cavaqueira com um grupo de jovens com quem “brincava” aos teatros (pretendíamos levar à cena “A Promessa” de Bernardo Santareno), uma das raparigas do grupo tratou-me por senhor.
Nesse momento não percebi lá muito bem o que se estava a passar, fiquei um pouco sem jeito e com a capacidade de raciocínio afectada, pelo que, com um pedido de desculpa, antecipei o meu regresso a casa.
Já mais refeito e no aconchego relativo do meu lar, olhei-me ao espelho e apercebi-me que esta barriguinha, que hoje envergo, despontava, bem como umas aberturas no cabelo, por sobre as têmporas, aquilo que ao tempo se chamava, e, embora isso já não me preocupe, acho que ainda se chama, de “entradas”!
Dei então conta que havia uma grande distância entre a idade com que me sentia e a minha verdadeira idade biológica; percebi que tinha parado na idade em que os ideais surgem e nos sentimos vivos em qualquer circunstância. Até tinha ido à guerra e voltado, tinha sido atropelado e sobrevivido!
O que eu tinha mesmo, era percorrido cerca de uma década e meia sem que tivesse dado por ela.
Era impossível que essa mudança drástica se tivesse dado naquele exacto momento em que dela eu me apercebi!
É claro que, fisicamente, a cada momento que tinha passado na minha vida, algumas células foram morrendo e outras nascendo, o meu cabelo tinha iniciado uma viagem sem retorno, a minha fisionomia tinha mudado, e o espelho lá de casa não tinha servido para nada, pois não me avisou! É igualmente claro que paralelamente a cada um desses momentos, a perspectiva que eu tinha das coisas, do mundo e de mim mesmo, com certeza que essa perspectiva foi igualmente mudando, só que o fez de forma tão sorrateira que, para mim, se tornou imperceptível, mas, de repente, e porque uma jovem me tratou por senhor, toda a percepção do mundo me caiu cima!
Aquela história do “eu sou assim”, “sempre fui assim” “serei sempre assim” firmemente convicto da minha permanência foi-me muito mal contada até ao dia em que caí na realidade porque algo tão simples como a palavra “senhor” finalmente me tocou/afectou.
Por esse tempo percebi e, claro aceitei, que até eu um dia teria um fim; fim que já conhecia e aceitara, mas para os outros … Na sequência, um sentimento de desilusão, ou talvez insatisfação instalou-se no meu íntimo, tal como no dia em que, ainda criança, desvendei o truque do ilusionista… já nada era o que aparentava ser…!
Nós, enquanto seres sencientes, por muito que nos custe admitir, não passamos de manifestações transitórias totalmente interdependentes de tudo o que nos rodeia.
Somos o somatório, não desagregável, neste ponto da vida em que nos encontramos, de matéria e consciência, ou corpo e espírito, se preferirmos.
Vivemos num meio muito escrutinado e de grandes expectativas, e, deixamo-nos levar pela ilusão de que são as certezas que nos farão felizes e quando a vida nos mostra que nada é controlável e que a permanência não existe, sofremos e somos os únicos responsáveis por esse sofrimento, e provavelmente apenas quando com clareza nos apercebermos que há uma grande harmonia nos caminhos naturais da vida, estaremos prontos para aceitar a impermanência.
O budismo tem da impermanência um conceito muito simples: “Nada é permanente, a não ser a própria impermanência das coisas”.
Continuadamente e em todo o tempo, as nossas vidas, interna e externa, se movimentam e por mais que julguemos que podemos controlar todas as coisas, ou pelo menos algumas, não o conseguimos; estamos apenas a escolher um guia errado, a ilusão; e a ilusão é perigosa, pois cria expectativas e necessidades que não existem.
Na descrição freudiana, o ser humano é um animal que nasce prematuramente, em condição de dependência absoluta, que desde cedo busca o amparo e a protecção necessários à sua sobrevivência, e é instado a responder a solicitações e injunções dos meios físico, biológico e cultural.
O “eu” da psicanálise é fragmentado e governado por forças que ele próprio não domina; é uma montagem mais ou menos bem-sucedida que leva o sujeito a agir no mundo, a buscar satisfações e a lidar de alguma maneira com o desamparo, a angústia e o desejo.
Esse “eu”, para usar uma expressão do filósofo Daniel Dennett, (28MAR1942 - 75 anos), éum centro de gravidade que não tem substância pois tudo nele deriva dos efeitos produzidos pelas interacções:
i) com os outros aspectos significativos de sua história;
ii) com o ambiente natural e simbólico que o circunda; e
iii) com as expectativas e desejos projectados sobre ele, mesmo antes que tivesse nascido, no desejo inconsciente dos pais”.
Afinal, o que é, ou quem é o “eu”? A não resposta parece ser a única resposta.
O rio da vida flui continuamente, mas para o “eu” da psicanálise, cuja existência depende de congelar esse fluxo de mudança, tal fluência é aterrorizante, pois não a conseguirá nunca tornar permanente, e isso, de certo modo, encaminha-o na direcção da impermanência. O que quer que pareça ser permanente na nossa vida é, na realidade, bastante temporário. Vem e vai incerto e inserto na roda da fortuna.
O fortuna
Velut luna
Statu variabilis
Semper crescis
Aut decrescis
Vita detestabilis
Nunc obdurat
Et tunc curat
Ludo mentis aciem
Egestatem
Potestatem
Dissolvit ut glaciem
Oh, fortuna
És como a Lua
Estado mutável
Sempre cresces
Ou decresces
A detestável vida
Ora oprime
E ora cura
Para brincar com a mente
Miséria
Poder
Dissolve-os como gelo

Carl Orff
(10JUL1895 a 29MAR1982) - "Cantiones profanæ cantoribus et choris cantandæ" …a roda da fortuna, girando eternamente, trazendo alternadamente a boa e a má sorte… é mais uma parábola da vida humana exposta à constante mudança.


De tudo o antes exposto resulta ser a impermanência um fenómeno, ou se quisermos, um conceito (gostemos ou não, tudo o que nos rodeia na cultura humana está conceptualizado e vemo-nos obrigados a usar os conceitos para podermos, com êxito, nos relacionar com os outros), um conceito que convém ser trabalhado se nos queremos aproximar do conhecimento e aceitação de nós mesmos, dos outros e deste mundo que nos contém e nos rodeia.
Claro que tudo tem um início e um fim; no planeta terra já viveram dinossauros… porém esta evidência de princípio e fim tornou-se tão translúcida que quase deixámos de a ver, o que, erradamente, nos pode levar a crer que certas coisas são eternas, sejam elas as casas que habitamos, as cidades que povoamos, as estradas que percorremos ou um sem fim de objectos que usamos. Acaba por ser esse mesmo conceito que erradamente aplicamos à nossa própria existência, mesmo sabendo que num dado momento, muito embora ainda desconhecido, abandonaremos este plano em que nos encontramos, continuando porém a comportarmo-nos como se fossemos, nesta configuração, por cá ficar eternamente.
Passamos e gastamos muito do nosso tempo no nosso plano actual, a fazer a manutenção constante das coisas, sempre em luta contra o caos (a entropia), e ainda assim, a entropia (o caos) acaba sempre por nos ganhar a batalha, pois todas as coisas, tarde ou cedo, acabam destruídas ou gastas e atiradas para o respectivo caixote do lixo, seja ele qual seja.
E isto ocorre e acontece com tudo, as relações incluídas (e nem sequer me vou referir às amorosas); o que era maravilhoso e quase eterno ao princípio, torna-se frágil, estranho, desnecessário, incómodo e todo o rol de tantos quantos adjectivos quisermos acrescer!
Por muito que queiramos e nos esforcemos por perpetuar certas coisas todas elas são finitas, incluindo as que só nos deixam no nosso fim. A impermanência acaba por se nos impor e a ilusão de criar uma eternidade “a la carte” daquilo que queremos prolongar traz consigo o apego, essa amarra que se converte numa pena que teremos que carregar, e tudo fará para manter em nós essa sensação de permanência, o que, duma forma ou doutra, mais cedo ou mais tarde nos irá conduzir ao sofrimento.
E assim nós existimos, mas existimos apenas porque a existência global, essa sim, permanece, mas permanece na sua impermanência e indiferente à nossa existência individual, e persiste em ser movimento contínuo, estar acima do bem e do mal, em não ter forma estática, em ser indefinível, inapreensível, cambiante, caprichosa e, para nós, “ilógica”; essa existência é e contém o vento, as árvores, a terra, as nuvens, as ondas, o conflito, o movimento, equilíbrio e o rio sob a ponte (recordo aqui Heráclito - ninguém vai duas vezes ao mesmo rio, pois nem o rio é o mesmo rio, nem o homem é o mesmo homem).
É importante, para não dizer necessário, cultivar o desapego como regulador universal do estado de alma; será essa a chave que nos permitirá crescer e passar a outro nível de funcionamento onde a impermanência seja permanente (Heráclito).
Nascemos sós e nus; conforme a nossa vida se desenrolar, passaremos por todas as situações possíveis: necessitar, possuir, perder, sofrer, chorar, tentar… etc., mas depois morreremos, e, tal como nascemos, morreremos sós, e aí não fará a menor diferença se fomos ricos ou pobres, conhecidos ou desconhecidos; com mais ou menos pomposo enterro, maior ou menor acompanhamento, a morte será sempre o grande e último nivelador da nossa passagem por este estado.
A Siddhartha Gautama (+- 563AC a +- 483AC**), o primeiro Buda (o Iluminado) atribuem a seguinte frase: “Há uma única lei do universo que não muda, e essa lei é que tudo muda”.
Por vezes, provavelmente muitas, temos/teremos alguma dificuldade em perceber a realidade, pois nosso ego possui vários, para não dizer muitos, momentos de permanência através do seu apego a sentimentos, a momentos e a pessoas; é uma defesa interna mas é igualmente uma ilusão, e esta é a maior e mais perigosa ilusão que podemos manter na vida, pois sempre que tentarmos controlar as coisas, tarde ou cedo, vamos perceber que as coisas não são controláveis, e daí provém a frustração, o que é bom, pois é essa frustração que nos leva à desconstrução e ao consequente fim do sofrimento.
Para sermos por inteiro e vivenciar tudo o que há para viver, teremos que colocar as ilusões de lado e olhar para a vida real tal como ela é, com toda a sua beleza e toda a sua impermanência.
Nós não precisamos de ser culpados das coisas!
Nós não precisamos de arranjar culpados para as coisas!

Concluindo:
Impermanência é um conceito segundo o qual tudo está em constante movimento; nada é estável, fixo ou imutável; nada, incluindo aquilo a que temos por hábito chamar de fim.

Ao que a lagarta chama o fim do mundo o mestre chama borboleta - Richard Bach (23JUN1936 – 81 anos).

Sendo ou estando tudo em impermanência quem é ou onde está o “eu”, que no fundo é o “nós”, porque “não passamos de manifestações transitórias totalmente interdependentes de tudo o que nos rodeia”?
Quem é e onde está então, e neste momento, o “eu/nós” que redigiu estas linhas?
Disse V\M\
ARS M\M\
*   Apenas por curiosidade; Drucker e Kierkegaard faleceram ambos a 11 de Novembro.
** Pode ser mera coincidência mas não deixa de ser interessante: Siddhartha Gautama é contemporâneo de Heráclito. Numa época em que, ao que eu saiba a globalização não ocorria ainda, nem mesmo aquela temporã dos Descobrimentos Portugueses, época em que não havia aviões como os de hoje que levam meio-dia a fazer esse trajecto, como é que dois indivíduos a 5.700 quilómetros de distância e desconhecendo a existência um do outro (ou não?) proclamam o mesmo?