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23 outubro 2017

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do equinócio de outono


O ABANDONO DO INTERIOR, O ABANDONO DE PORTUGAL

Queridos II. em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo, sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa.

Celebramos hoje em Grande Loja o Equinócio de Outono. O fenómeno astronómico ligado ao equinócio, define o instante em que o Sol, na sua órbita aparente, cruza o equador celeste, garantindo nesta data, igual duração entre os dias e as noites. Através desta sugestão igualitária cósmica, reavivo os princípios que norteiam a nossa Augusta Ordem: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. A partir deles extrapolo deveres para o maçon como o dever de solidariedade, o dever da promoção da igualdade de oportunidades, o dever da compaixão fraternal para com o semelhante, o dever de respeito pela dignidade humana, o dever em defender a democracia plena.

E faço esta introdução, porque queria hoje falar-vos do problema maior de Portugal, ao qual nós todos temos obrigação de prestar socorro:

O ABANDONO DO INTERIOR, O ABANDONO DE PORTUGAL,

problema que tem matado e vai continuar a matar.

O fenómeno dantesco dos fogos deste Verão, que assolaram e exauriram o país, que espalharam terror e morte, deve servir de rastilho para que expluda em Portugal uma “bomba nuclear de mudanças radicais”.

Neste fantástico rectângulo português, as assimetrias territoriais de longitude são cada vez mais colossais e gritantes: ao longo do Atlântico afunda-se uma espécie de restinga litoral que soma à volta de 10% do território, 90% da população, que concentra as actividades económicas, a riqueza e os maiores rendimentos, o desenvolvimento, demografia jovem e vigorosa, a qualidade de vida e as acessibilidades.

Nas costas deste litoral que nunca aparecem ao espelho, temos 90% do território que arde todos os anos: 10% da população, todas as desgraças e calamidades, das quais os fogos de Verão, são apenas um povoador de consequência.

E cito o artigo do “Financial Times” que afirma com clarividência: “os incêndios, que devastam Portugal, reflectem décadas de negligência e afastamento do poder político em relação às regiões do interior”.

E eu sei bem do que falo, porque durante muitos anos, fui autarca nas profundezas do interior dos interiores, por isso vos parafraseio Marcelo Rebelo de Sousa, que numa passagem pelo nordeste transmontano, ao improvisar uma aula de geografia para localizar Trás-os-Montes enfatiza: "O nosso país, está dividido entre a Área Metropolitana de Lisboa e o resto. Depois, entre as outras áreas metropolitanas e o resto. Depois, entre todo o litoral e o resto. Depois, há dentro do interior o interior intermédio e o interior profundo. Dentro do interior profundo há o interior mais profundo. E é no interior mais profundo do interior profundo que encontramos Trás-os-Montes", e eu próprio acrescentaria que Miranda do Douro fica mesmo no confim das profundezas de Trás-os-Montes. E é este um problema que deixamos arrastar desde muito longe. Exceptuando Dom Sancho I o Povoador, segundo rei de Portugal, que no último quartel do século XII promoveu e apadrinhou o povoamento dos territórios do país, tal como a fundação da cidade da Guarda, e a atribuição de várias cartas de foral nas Beiras e em Trás-os-Montes, povoando assim áreas remotas do reino, com imigrantes da Flandres e da Borgonha. E a Lei das Sesmarias promulgada na segunda metade do século XIV por Dom Fernando I, que pretendia fixar os trabalhadores rurais às terras e assim diminuir o despovoamento. Além deste dois, talvez não veja outros estadistas que mereçam relevo à altura nesta causa da democracia territorial Portuguesa. No século XIX, eventualmente Dom Pedro IV, mas o interior que escolheu foi o Império do Brasil.

Depois da lei das Sesmarias, as sucessivas estratégias territoriais passaram sempre por extorquir recursos e população ao interior: foram essas gentes que encheram as naus e as galeras dos descobrimentos, que foram levadas para povoar as ilhas até então desertas, as feitorias na Índia, as colónias africanas, o Brasil.

Foram eles os incentivados a imigrar para a Argentina, para a Venezuela, ou América do Norte.

Foram eles que ajudaram vários países europeus a levantarem-se depois da Primeira e Segunda Grandes Guerras, tal como a França, a Alemanha, a Inglaterra, a Bélgica, a Suíça ou a Espanha. Foi a eles que deslocalizamos para que enchessem Lisboa e o Porto.

Recentemente são os escassos jovens licenciados provenientes das regiões do interior os primeiros a engrossar as fileiras da imigração mestrada e doutorada: eu tenho lá uma filha querida!

Muitos dirão que esta é tarefa hercúlea, titânica: impossível!

Eu respondo com o exemplo recente das Alemanhas, que em 1990 tomaram a decisão de se reunificar.

Estamos a falar de coisas diferentes, claro que estamos, mas a verdade é que precisamos agora de uma grande mobilização nacional para esta urgência. Durante os anos de democracia, Portugal já conseguiu responder à resolução de grandes causas nacionais, como o foram a liberdade, a democracia, a descolonização, a Europa e o desenvolvimento. Precisamos agora reunificar o país.

A Unidade de Missão para a Valorização do Interior, aposta do actual Governo, foi o último redundante fracasso absoluto, e agora as contabilidades eleitoralistas, ou as palavras e os afectos já não bastam.

Este vosso servo Grão-Mestre não manda, mas tem com ele O PODER DA PALAVRA. E já vos tinha contado, quanto tudo era apenas trevas e breu, Deus fez luz e criou o universo apenas com palavras: DIZENDO-O. E é apenas através de palavras justas, que hoje vos queria aqui convocar a todos, a fim que sejais apóstolos e cimento forte neste tão nobre desígnio, porque a cada dia o mundo tem que ser melhor e Portugal tem de sê-lo de sobremaneira. E cito o grande poeta do interior, Miguel Torga «O difícil para cada português não é sê-lo; é compreender-se. Nunca soubemos olhar-nos a frio no espelho da vida. A paixão tolda-nos a vista… mas não somos um povo morto, nem sequer esgotado.»

Há cerca de um mês em Vilar Formoso, o Presidente da República, defendeu que a fronteira de Portugal com Espanha, fosse toda ela declarada Património da Humanidade pela UNESCO. Trata-se da mais antiga fronteira da Europa, uma fronteira onde muitas guerras se travaram, mas sobretudo uma fronteira onde os vizinhos dos dois lados nunca deixaram de relacionar-se cordialmente, mas sobretudo entreajudar-se em tempos de desgraça, porque os governos dos dois lados já os tinham abandonado: essa é uma verdadeira mensagem universal para toda a Humanidade, e talvez seja por aí que devamos começar.

E para bom entendedor, meia palavra deve bastar, por isso nada mais acrescento, pois esta era a mensagem simples que hoje vos queria comunicar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal dos valores maçónicos, a liberdade em Portugal, na Europa, no mundo, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão-Mestre

17 julho 2017

As Lojas e a Grande Loja: conceção simbiótica


Expus em dois dos últimos textos as conceções polarizadas que podem existir nas relações entre as Lojas maçónicas e a respetiva Grande Loja ou respetivo Grande Oriente, essencialmente a que dá prevalência àquelas sobre esta ou este e a que assenta no pressuposto precisamente contrário. Efetuei, ainda que brevemente, a crítica de uma e outra posições. É agora tempo de indicar a conceção que tenho por correta e que acho que deve enformar o relacionamento entre as Lojas e a sua estrutura agregadora. 

Conforme, em comentário a um dos textos, numa rede social, muito lucidamente escreveu Carlos D., um maçom que muito prezo e cujos escritos leio sempre muito atentamente, "efectivamente, a Loja constitui a base estrutural da Maçonaria" e, quer nas Grandes Lojas, quer nos Grandes Orientes, "ressalta a convicção da soberania das lojas, cabendo às "grandes" instâncias o exercício executivo dessa soberania colectiva". Efetuo estas citações porque resumem certeiramente os campos de atuação das Lojas  e das respetivas estruturas agregadoras.

Com efeito, para o trabalho do maçom, para se ser maçom, a Loja é indispensável. É na Loja, com a Loja e pela Loja que o maçom se faz, cresce e evolui. Portanto, naturalmente que a Loja é o polo essencial em tudo o que respeita à integração, formação e acompanhamento dos seus obreiros. E, assim sendo, é a Loja soberana quanto à forma como funciona, como organiza o seu trabalho e o trabalho dos seus obreiros. Enfim, o paradigma da muito batida frase que postula integrar o conceito de Maçonaria o princípio maçom livre numa Loja livre.

Mas, se no plano interno, o trabalho da Loja é soberanamente definido por esta, no plano externo, no relacionamento da Loja com outras Lojas, no relacionamento da Loja com obreiros de outras Lojas, nos contactos nacionais e internacionais, mas também na preservação comum dos princípios e boas práticas maçónicas e na organização da utilização dos espaços utilizados pelas várias Lojas, é indispensável a articulação efetuada pela estrutura agregadora. Neste plano, a primazia, digamos assim, deve ser dada às orientações e decisões tomadas a nível de Grande Loja ou Grande Oriente, não sendo admissíveis, por dificilmente acomodáveis, derivas estabelecidas a seu bel-prazer por uma (ou mais) Lojas. Isto é evidente quanto à gestão da utilização dos espaços, mas também na preservação do correto cumprimento das normas e comportamentos assumidos internacionalmente. E obviamente que o relacionamento entre Lojas e entre uma Loja e obreiro de outra deve seguir normas e padrões estabelecidos pela estrutura agregadora, por clara necessidade de prevenção de conflitos.

Estes dois planos - relação da Loja com os seus obreiros, gerida pela Loja, e relação da Loja com outras Lojas e obreiros delas e utilização de espaços, gerida pela estrutura agregadora - complementam-se e devem ser geridos por ambos os níveis das estruturas com respeito e aceitação das respetivas competências. São ambos indisopensáveis. São ambos harmonizáveis e devem ser sempre mantidos harmonizados.

A Loja maçónica existe por e para os seus obreiros. A Grande Loja ou Grande Oriente existe por e para as suas Lojas. A compreensão destes simples factos habilita a entender que a relação entre ambos os níveis de estrutura é simbiótica. Cada nível necessita do outro e deve, portanto, respeitar as competências desse outro nível.

As Grandes Lojas ou Grandes Orientes necessitam das suas Lojas para fazerem sentido. As Lojas agregam-se em Grandes Lojas ou Grandes Orientes porque necessitam de assim fazer para eficazmente poderem funcionar. Não tem, assim, lógica pretender-se estabelecer hierarquias de importância entre ambos os níveis. Ambos são igualmente indispensáveis. Cada um deles necessita do outro. Cada um deles tem tarefas importantes  a assegurar, para bem cumprir o seu papel. Em suma, são verdadeiramente simbióticos.

Não vale, pois, a pena complicar o que é simples, evidente e claro. Não se trata de quintas ou quintinhas de poder. Trata-se de estruturas, em diferentes níveis, de serviço. Se assim se entender, não faz então sentido a determinação de "quem é mais importante". Ambos os níveis são importantes, indispensáveis e nenhum funciona capazmente sem o outro. Isso é que interessa. O resto... são profanidades!

Rui Bandeira

10 julho 2017

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do solstício de verão


O mundo comemora III séculos de Maçonaria Moderna

Queridos II. em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa.

Hoje celebramos em Grande Loja o Solstício de Verão. O vocábulo solstício vem da palavra latina “SOL” a que se justapôs a palavra “SISTERE”, que significa não se mexer, designando o momento em que o sol, durante o seu movimento aparente inscrito na esfera celeste, atinge a sua maior declinação em latitude.

Um dia de solstício será eternamente uma grande e mágica aurora: límpida; resplandecente. No solstício de Verão, o dia mais longo do ano, a luz do sol triunfa sobre a escuridão da noite, e oferece-nos a luminosidade plena. E estamos aqui para mais uma vez velarmos meus irmãos. Velarmos juntos a luz absoluta dos ancestrais valores maçónicos, fazendo-a triunfar sobre os medos, sobre as trevas e os obscurantismos, sobre todos os totalitarismos.

Neste preciso dia 24 de Junho de 2017, dia de São João Batista, a maçonaria moderna e especulativa, celebra o seu terceiro centenário. A maçonaria mundial completa assim 300 anos, desde que se atreveu a sonhar e lutar por um ideal de Humanidade, suportado por princípios simples, mas fundadores: o direito de pensar e o dever de tolerar. Universalizando-se a partir de então, a Maçonaria Regular afirma-se através da sua dupla dimensão, humanista e espiritual: por um lado, defendendo uma visão do homem baseada na liberdade de consciência, do intelecto e da igualdade de direitos, e por outro, defendendo um deísmo que reconhece a existência de Deus, mas que deixa aberta a definição da sua identidade.

E foi nessa noite de 24 de Junho de 1717, no terceiro ano do Rei George I, que em Londres na Inglaterra, se realizou a primeira Assembleia de Maçons Livres e Aceites, tendo lugar a reunião no primeiro andar da taberna “Goose and gridiron” (Ganso e grelha). Foi essa também uma noite de aurora primordial para a maçonaria, parafraseando Sophia de Mello Breyner sobre outras livres madrugadas, “O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo”. Foi nessa noite de 24 de Junho de 1717, que quatro lojas inglesas fundaram a primeira Grande Loja Inglesa e elegeram o primeiro Mui Respeitável Grão Mestre da Maçonaria Moderna, Anthony Sayer, encarnando a sua função o Centro da União e da Harmonia Maçónica.

E trezentos anos depois, em pleno terceiro milénio, são ainda muito grandes as resistências a estes ideais de liberdade, simples e fundadores. Por isso estamos aqui todos juntos para velar, o que significa acreditar e defender sempre os princípios maçónicos da liberdade, preferindo ter a garganta cortada a renunciar a eles.

E temos que estar permanentemente em guarda meus irmãos, porque ainda hoje o planeta vive momentos de muitas incertezas na defesa dos valores maçónicos. A grande e nobre Inglaterra que há trezentos anos nos presenteou com a primeira Grande Loja Maçónica, o país que forjou uma das mais densas democracias do mundo, parece ter-se agora cansado da História e envia-nos sinais que vão no sentido de querer ficar fora dela, deixando o “Brexit” criar desunião, arrancando à Europa a democracia mais forte, e apoucando-se assim como nação.

Por outro lado, nos Estados Unidos da América, o seu presidente democraticamente eleito, alheia-se dos verdadeiros males do mundo e em jeito de avestruz, volta as costas ao tratado de Paris e à sustentabilidade ambiental do mundo: temos de estar bem conscientes que apenas temos este planeta, que na sua versão primeira não foi programado para ter segundas oportunidades. Mas mesmo assim acreditemos que a América é maior que o seu presidente, e a Inglaterra maior que o “Brexit”.

E avisa-nos um dos maiores pensadores do nosso tempo, George Steiner: “O nacionalismo é um veneno absoluto e encarna o maior veneno do nosso tempo”.

E sobre o mesmo assunto, nos alvores na Primeira Guerra Mundial, alertava já o grande estadista francês Georges Clémenceau: “Podemos ser patriotas, mas não chauvinistas. E é esta uma distinção muito importante, porque o patriotismo pode ser decente, mas o chauvinismo, o nacionalismo e o totalitarismo, são realidades que vão sempre fazer viver à humanidade tempos muito amargos e degradantes, em que a morte e o medo espreitarão em cada esquina”.

O domínio da retórica é uma das grandes artes maçónicas, mas cuidado com a retórica política malvada, porque pode matar e assassinar por meio da linguagem. O horror do movimento nazi foi largamente baseado na retórica e na propaganda. Muito mais poderosas do que qualquer exército são as mentiras dos totalitarismos, que funcionam através da linguagem: sempre em guarda meus irmãos.

O que caracteriza o mundo actual é o alcance, a amplitude e a rapidez das mudanças. E a sua cadência todos os dias se acelera. Agora já com algum recuo, começamos a perceber que a mundialização indubitavelmente beneficia a humanidade. Nunca a pobreza no mundo recuou tanto e tão depressa e nunca os valores maçónicos estiveram tão difundidos e universalizados. Ainda assim, numa boa parte da população dos países ocidentais, a mundialização está a provocar um grande stress cultural e económico, que veio criar muitos ressentimentos e muitos medos. E a melhor coisa para resolvermos os problemas, não é enfiarmos a cabeça na areia, a melhor coisa é ter consciências dos problemas e resolve-los dentro do respeito dos valores maçónicos, sem nunca cedermos à facilidade aparente e venenosa dos totalitarismos. E é por isso, que igual que da primeira vez há trezentos na “Taberna Ganso e Grelha” devemos continuar eternamente a juntarmo-nos em Grande Loja, para velar em uníssono meus irmãos: para nos fortalecermos na defesa dos valores maçónicos e da liberdade, porque tudo o demais é pura vanidade.

E trezentos anos depois, neste tempo de solstício, a União da grande família dos maçons regulares, é de rigor: façamos o mundo mais feliz, e por contágio, sejamos todos mais felizes.

E era esta a mensagem simples que hoje vos queria comunicar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal dos valores maçónicos, a liberdade em Portugal, na Europa, no mundo, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão Mestre

Nota: O MRGM Júlio Meirinhos escreve segundo as regras de orografia pré-Acordo Ortográfico de 1990.

Rui Bandeira

26 junho 2017

As Lojas e a Grande Loja: conceção centralista - e sua crítica


A Maçonaria só se estabeleceu, expandiu e evoluiu a partir da criação de Grandes Lojas. O relacionamento internacional faz-se entre Grandes Lojas e ou Grandes Orientes, não diretamente entre Lojas. A estrutura logística de funcionamento e de reunião é assegurada pelas Grandes Lojas e são estas quem efetua a coordenação da utilização dessas estruturas pelas várias Lojas. São as Grandes Lojas que assumem a preservação da cadeia iniciática, a manutenção dos princípios fundamentais e a disciplina de comportamento de Lojas e obreiros. A unidade das práticas rituais necessita de coordenação e prevenção de desvios e alterações que só pelas Grandes Lojas ou Grandes Orientes pode ser assegurada.

Estas e outras afirmações - no essencial corretas, acentue-se - fundamentam a conceção centralizadora do relacionamento entre a Grande Loja, ou Grande Oriente, e as Lojas da sua jurisdição. Para esta conceção, as Lojas transferiram para a sua estrutira superior um conjnto de competências que originam também a transferência de uma gama de poderes que se consolidaram na esfera da Grande Loja ou do Grande Oriente e do Grão-Mestre, poderes estes que assumem natureza imperativa sobre as Lojas e os obreiros da respetiva jurisdição.

Com isso, o centro nevrálgico da organização maçónica transferiu-se da Loja para a Grande Loja ou Grande Oriente. As necessidades de coordenação, de prevenção de desvios, de disciplina e de organização impõem que a autoridade, o poder decisório essencial, se fixe na Grande Loja ou Grande Oriente e no seu Grão-Mestre, restando para as Lojas apenas poderes residuais e, mesmo assim, sob tutela da Grande Loja e do Grão-Mestre.

Esta conceção centralizadora do relacionamento entre a Grande Loja e as Lojas é errada, desde logo porque apenas burocrática, não atendendo à específica natureza da Maçonaria.

A Maçonaria é essencialmente voluntária. O maçom aceita cumprir determinadas regras, assegurar obrigações, cumprir a disciplina que lhe é indicada. Mas a ligação essencial do maçom não é com a Grande Loja ou com o Grão-Mestre. A ligação essencial do maçom é com os seus pares da sua Loja.  A ligação que se estabelece é uma ligação iniciática - e esta ocorre e alimenta-se entre o indivíduo e o grupo próximo onde se insere. A estrutura superior é alheia à mesma. O maçom faz-se maçom em Loja, forma-se maçom em Loja, cresce maçom em Loja, E, feito maçom, formado ou em formação, crescido ou em crescimento, vai à Grande Loja... Ou não... 

O trabalho da Loja relativamente aos seus obreiros e com os seus obreiros é insubstituível. A Loja não é uma mera correia de transmissão entre a Grande Loja ou o Grande Oriente e o obreiro. Nem sequer nada que se pareça a tal. Pelo contrário, a Loja é uma estrutura central e indispensável para o trabalho maçónico dos seus obreiros.

A Grande Loja pode e deve coordenar Lojas. Pode, mesmo, designadamente em assuntos administrativos, enquadrar o registo dos obreiros das Lojas e determinar procedimentos. Mas o relacionamento direto, pessoal, exclusivo e insubstituível entre o obreiro e a sua Loja ultrapassa e é completamente alheio à estrutura de enquadramento das Lojas.

Pode-se porventura objetar que não é bem ou não é absolutamente assim. Por exemplo, o Grão-Mestre tem tradicionalmente o poder de fazer maçom à vista e de dispensar prazos ou condições para aumentar o salário de maçom. É certo que sim. Mas não se esqueça nunca que ninguém é maçom, é-se reconhecido maçom! Reconhecido pelos seus Irmãos. Bem pode qualquer Grão-Mestre declarar que um qualquer elemento é maçom, no uso da sua prerrogativa para tal. Se nenhum outro maçom reconhecer o dito elemento como tal...ele não vai longe na sua vida maçónica. Com ou sem intervenção do Grão-Mestre...

Maçonaria não é profanidade e não se rege nem replica os princípios, regras, costumes e hábitos profanos. Desengane-se quem crer o contrário. Maçonaria pressupõe um laço, uma transmissão, um caminho feito de braço e abraço conjunto, que ultrapassa - e muito! - qualquer determinação regulamentar, qualquer norma, qualquer manifestação de poder.

A conceção centralista da Grande Loja pode porventura traduzir-se em regulamentos, em práticas, quiçá em profanidades. Mas, no que importa, na iniciática transfortmação do íntimo de cada um, não há decisões, nem regras, nem ordens vindas de cima. Aí, no que verdadeiramente importa, no que constitui ser maçom, ser reconhecido maçom e fazer realmente maçonaria, só dois planos importamn e estão presentes: a relação do maçom consigo próprio e a relação do maçom com o(s) seu(s) Mestre(s). E esse(s) inevitavelmente é (são) Mestre(s) na e da sua Loja!

Rui Bandeira

12 junho 2017

As Lojas e a Grande Loja: conceção basista - e sua crítica


Em 24 de junho de 1717, quatro Lojas maçónicas londrinas reunidas na taberna Goose and Gridiron decidiram associar-se numa Grande Loja e eleger um Grão-Mestre que a todos os seus obreiros representasse. Foi assim que, em síntese, James Anderson registou o nascimento da primeira Grande Loja macónica, hoje normalmente designada por Premier Grand Lodge. Este é o facto que se convencionou constituir o nascimento da Maçonaria Especulativa.

Foram quatro Lojas que se associaram e decidiram constituir uma Grande Loja. Foram essas quatro Lojas e os seus respetivos obreiros que decidiram eleger um Grão-Mestre. São as Lojas que dão origem às Grandes Lojas. São os maçons que escolhem o Grão-Mestre. Esta inegável verificação constitui a base fundamentadora da conceção basista do relacionamento entre as Lojas e as respetivas estruturas agregadoras (Grandes Lojas ou Grandes Orientes).

Para esta conceção basista, a origem do poder está nas Lojas e nos respetivos obreiros, tanto assim que são as Lojas quem cria as Grandes Lojas e os obreiros quem elege o Grão-Mestre, diretamente ou por representação das respetivas Lojas, consoante os sistemas de eleição do Grão-Mestre em vigor em cada Obediência maçónica. Em consequência, a Grande Loja só exerce as competências que lhe são delegadas pelas Lojas e o Grão-Mestre exerce apenas o poder que lhe é delegado pelos seus eleitores. O essencial da Maçonaria está nas Lojas. As Grandes Lojas são meras estruturas administrativas e de coordenação. Mas a prevalência está nas Lojas. Estas é que mandam na Grande Loja. Não o inverso.

Sendo histórica e iniciaticamente correto afirmar-se que são as Lojas que originam a Grande Loja e não o inverso, sendo inquestionável que a legitimidade dos Grão-Mestres assenta na sua eleição pelos Mestres de toda a Obediência, no entanto a adoção pura e dura desta conceção basista da subordinação das Grandes Lojas às Lojas não é razoável e conduz a resultados perversos. Como em tudo na vida, a absolutização desta conceção é perniciosa e - goste-se ou não - não espelha a realidade. Não se trata de conflito entre o que deve ser e o que é. Trata-se do respeito da natureza, do lugar e das tarefas que devem ser assumidas por uma e outra estruturas. 

Absolutizar a conceção basistas do relacionamento entre as Lojas e a Grande Loja conduz, por exemplo, à aceitação, quiçá promoção, da existência de Lojas selvagens. Se a legitimidade reside absolutamente na Loja, então esta pode, a todo o tempo, decidir desligar-se da Grande Loja e atuar por si só, em absoluta independência. No entanto, sabemos que - particularmente na Maçonaria regular - tal não é, hoje em dia, considerado aceitável.

Ao constituir uma Grande Loja, ao integrar uma Grande Loja ou ao criar-se no âmbito de uma Grande Loja, a Loja maçónica procede à tal delegação de competências suas na Grande Loja, mas simultaneamente renuncia ao direito de retirar as competências delegadas. As competências essenciais de regulação, de coordenação, de representação, de ordenação, que as Lojas delegam na respetiva Grande Loja ou no respetivo Grande Oriente, uma vez atribuídas não são retiráveis. 

Com a constituição de uma Grande Loja fez-se nascer uma nova entidade. Entidade detentora de direitos, obrigações, atribuições e competências que, uma vez originariamente nela objeto de delegação, quem assim delegou não tem já o direito de retirar.

Pelo facto de a Loja constituir, aderir ou criar-se no âmbito de uma Grande Loja, automaticamente renunciou à absolutização do seu poder, pois decidiu partilhá-lo com a estrutura que criou, a que aderiu ou em cujo âmbito se criou.

Assim, reconhecendo-se a natureza originária do poder residindo nas Lojas, não é, porém, correta a conceção basista do relacionamento entre as Lojas e a respetiva Grande Loja ou o respetivo Grande Oriente. A natureza da criação, existência e relacionamento de ambas as estruturas irrecusavelmente fez nascer uma mútua obrigação inderrogável de partilha de atribuições e competências. 

Na definição, fixação e medida dessa partilha é obviamente importante o reconhecimento de que a origem está na Loja, que a legitimidade assenta na escolha dos obreiros. Mas tal reconhecimento não admite a absolutização ou, sequer, uma insensata prevalência de um basismo, que seria inconsequente, inoportuno e, afinal, contrário aos interesses das Lojas e dos respetivos obreiros.

A pura e dura conceção basista do relacionamento das Lojas e da Grande Loja não é, assim, o entendimento acertado. No próximo texto, procurarei expor - e igualmente criticar - a conceção inversa.

Rui Bandeira 

27 março 2017

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do equinócio da primavera


Queridos Irmãos em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa. 

Hoje celebramos em Grande Loja o equinócio de Primavera. O vocábulo “equinócio” forma-se a partir de duas palavras latinas: ‘aequus’ que significa ‘igual’ e ‘nox’ que significa noite. Estamos, portanto, numa data, em que a inclinação da terra e os raios da luz do sol, garantem igual duração dos dias e das noites. 

Igual e permanente durabilidade também deve ter para o maçom, o brilho dos vértices do triângulo rectângulo em que assentam os princípios que sempre nortearam a nossa Augusta Ordem: Liberdade, Igualde, Fraternidade: liberdade de consciência e liberdade de pensamento, que permitam a todo o ser humano a aventura de conhecer-se e construir-se; a tolerância e a compaixão fraternal para com o semelhante, o respeito pela dignidade humana sem olhar a credos, classes sociais, raças, género, orientação sexual ou outro tipo de ideias ou ideais. 

Em 2017 a maçonaria moderna celebrará o seu terceiro centenário: a Maçonaria mundial completa 300 anos desde que se atreveu a sonhar e lutar por um ideal de Humanidade, suportado por princípios simples, mas fundadores: o direito de pensar e o dever de tolerar. 

Lamentavelmente, neste início conturbado de terceiro milénio, o mundo e a humanidade ainda está muito longe de ser um lugar que aceite e pratique pacificamente estes ideais simples e fundadores, perpetrando-se ainda muitas formas de obscurantismo: fundamentalismos religiosos, totalitarismos políticos, pensamentos únicos e outras ameaças. 

O velho mundo Europeu e o novo mundo Americano, criadores e resguardos da democracia e dos valores: por vezes cambaleiam, vacilam, duvidam do caminho! Nós maçons, nunca podemos cambalear, vacilar, duvidar: os valores são as nossas únicas grandes luzes, que permanentemente devem aclarar o nosso caminho. 

A este propósito, no dia 27 de Fevereiro último, pela primeira vez na história, um Presidente francês, neste caso François Hollande, visitou o Museu da Franco-Maçonaria em Paris. O objectivo foi simples e claro: reconhecer e enaltecer a contribuição positiva e fundamental que teve a Maçonaria francesa para a história da França, para a história dos países latinos e de maneira universal para a história da Europa, do mundo livre, democrático e progressista.

No seu discurso, François Hollande referiu-se à Maçonaria como grande impulsora do fim do colonialismo, da concessão da nacionalidade francesa aos judeus, da autorização dos sindicatos, do direito de associação, da liberdade de imprensa, da laicidade do Estado francês, do ideal de liberdade dos Estados Unidos ou ainda da fundação da Sociedade das Nações como ponte entre os povos. 

Respiguei algumas passagens do seu discurso que gostaria hoje de partilhar aqui com todos os meus irmãos, para que ouçais e mediteis, para que vos enchais de orgulho e continueis a dar as mãos aos valores em inabalável cadeia de união. 

"No nosso tempo, a Maçonaria é uma bússola muito valiosa, uma luz que ajuda a compreender os problemas para lhes dar respostas. A Maçonaria não se baseia num dogma fechado, mas sim numa visão aberta, é um método e não apenas uma finalidade de propósito. Hoje não diria que as batalhas são as mesmas, mas ao fim de três séculos, são os mesmos valores que precisamos promover, que precisamos organizar, que precisamos defender até atingir o âmago das nossas sociedades que, entretanto, mudaram e evoluíram. 

A Liberdade em primeiro lugar, a liberdade contra o obscurantismo, contra o fanatismo, contra o fundamentalismo, a liberdade absoluta de consciência, contra os dogmas, a liberdade de pensamento contra aqueles que procuram censurar. [...] 

A Igualdade, que no passado serviu para garantir a igualdade política entre todos os cidadãos, independentemente da sua origem ou das suas condições; nos nossos dias, deve servir para impulsionar outras formas de igualdade. [...] 

E a declaração da vontade de caminharmos juntos, de solidariedade anónima, um valor excepcional de fraternidade que implica caminhar com todos os demais. [...] Não podemos defender a liberdade se contradizemos a igualdade; não podemos defender a igualdade, se mitigamos a fraternidade". 

"Enganam-se os perversos que associam a maçonaria a forças secretas, tal um poder oculto por trás de todos os acontecimentos; é bem mais simples: muitos maçons têm desempenhado um papel importante em nome de uma ética que os predispõe à acção, uma vez que seus valores os conduzem ao progresso. 

Foi a vontade de alguns espíritos brilhantes para associar a razão científica dos sábios, ao ideal humanista dos filósofos à aspiração e transcendência dos artistas que forjou o vosso ideário e a vossa vontade. Numa França, naquele tempo ainda dominada pela monarquia absoluta e a religião do estado, as lojas foram à vez um refúgio de tolerância e uma escola de democracia". 

"Muitos maçons foram, ao mesmo tempo, criadores de grandes textos da Revolução, mas igualmente vítimas do desenrolar dos acontecimentos: das purgas do Terror, da regulação do Império, da repressão da Restauração, […]

Esta é a memória dolorosa da Maçonaria francesa, sempre perseguida pelas ditaduras, […] sempre que houve sombras escuras a pairar na história, os maçons foram perseguidos e ainda continuam a ser. […] e a história sombria de todos aqueles que quiseram questionar-vos sobre o que sois, e que sempre cultivaram as mesmas calúnias, os mesmos fantasmas em nome de uma conspiração que não perde, infelizmente, a sua validade. Basta clicar na Internet, e imediatamente ver ressurgir os conspiradores, e todos aqueles que pensam que os maçons andam neste mundo sempre a preparar não sei muito bem que tipo complô. É desconcertante, mas, infelizmente, propagado, cultivado e difundido." 

Meus irmãos: armai-vos das vossas espadas: continuam profanos à porta do tempo, vociferando calúnias contra nós, desejando apenas a nossa morte e a morte dos valores universais da maçonaria. 

E era esta a mensagem simples que neste equinócio queria partilhar convosco, através da força da palavra e dos valores, e deles imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da Maçonaria, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo. 

Julio Meirinhos 
Grão-Mestre

Publicado por Rui Bandeira

26 setembro 2016

Sessão de Equinócio de Outono de 2016 e Celebração do 25ºAniversário da Grande Loja Legal de Portugal/ GLRP


Decorreu durante o fim-de-semana passado, na zona oriental de Lisboa, a Sessão de Equinócio de Outono de 2016 da Grande Loja Legal de Portugal/GLRP, no qual foram instalados os recentes Veneráveis Mestres aos "comandos" das Respeitáveis Lojas filiadas na Obediência, bem como a instalação do nosso Muito Respeitável Grão-Mestre, o Muito Respeitável Irmão Júlio Meirinhos.
A sessão decorreu de forma justa e perfeita durante a manhã e parte da tarde, na qual estiveram presentes acima do milhar de maçons, membros desta Obediência Maçónica Regular, bem como várias comitivas estrangeiras com origens europeias, africanas e americanas.
Durante a noite, teve lugar o já tradicional "Jantar em Honra das Senhoras" e a celebração do 25ºAniversário da fundação da Grande Loja Legal de Portugal/GLRP.

Da minha parte apenas tenho a dizer que por ora, passaram os "primeiros" 25 anos da Obediência; esperamos agora a vinda do próximo quarto de século com a perseverança, labor, qualidade e progresso que a Maçonaria nacional necessita.
Se assim formos reconhecidos, profanamente posso afirmar, "que nada nos poderá parar..."
Pois só nos tornando melhores, podemos melhorar os outros e o Mundo... Dixit

28 setembro 2015

Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP à Assembleia de Grande Loja no Equinócio de Outono


Da Regularidade:

Enquanto Grão Mestre da Grande Loja Regular de Portugal, encerro nesta Grande Loja de hoje, um ciclo completo: dois solstícios: dois equinócios: um ano solar, fecho com o compasso maçónico um círculo justo e perfeito.

Antes de mais, agradecer a todos: as horas felizes, os sorrisos, a força, as ajudas, a lealdade, a harmonia, o companheirismo fiel e fraterno.

Dizer ainda que crescemos em Obreiros e em Lojas, que nos fortalecemos, que nos consolidamos, que aumentamos a nossa estruturação e eficácia, o nosso rigor, e através de uma sede de Grande Loja renovada e mais fina e ritualmente adornada, damos corpo a uma melhor imagem de nós, mais bela, espaço repositório da história e memória da nossa Obediência, mais condizente, mais justa e perfeita.

Sendo a nossa sede local onde trabalham 21 Lojas nos dois templos ali consagrados, é no entanto o espaço de todos os Mações e de todas as Lojas da GLLP/GLRP, visitável por Irmãos, Famílias e profanos em horários pré-determinados.

Mantivemos e reforçamos os nossos relacionamentos internacionais credibilizando ainda mais a nossa Grande Loja e demos corpo ao reforço estratégico dos laços da lusofonia.

E por fim conversar convosco sobre Regularidade. E falar-vos deste tema, porque somos uma grande Obediência Maçónica que se filia com total plenitude na Regularidade Maçónica, a maior família maçónica do planeta, que conta já com muitos séculos de tradição.

Por vezes somos levados a não valorizar suficientemente a real importância da nossa Regularidade, porque nos esquecemos que funcionamos tal uma orquestra sinfónica, totalmente afinada: embora o maestro seja fundamental para marcar o tempo, cada músico tem que cuidar do seu instrumento, da sua partitura, da sua melodia, manter-se a si próprio aprumado e ensaiado, estar atento e seguir escrupulosamente o tempo que a batuta do maestro dita, para se poder atingir a coesão e a coerência, para se poder realizar uma execução com unidade interpretativa, em plena harmonia.

E embora o maestro conte imenso, cada um dos restantes elementos conta igualmente imenso. Obrigado a todos por mantermos esta contínua harmonia, obrigado a cada um pelo papel fundamental que tem sido capaz de interpretar e desempenhar.

A regularidade maçónica é filiação que se conquista arduamente, é realidade que se merece depois de conseguida a harmonia, mas é também realidade que se mede ininterruptamente, e que por isso se pode perder a cada nova sinfonia que a nossa orquestra queira interpretar, porque a maléfica tentação da cacofonia espreita insistentemente, o individualismo desintegrador ameaça todos os dias, mas eu garanto-vos que serei sempre um devorador de desunião, um comedor de egocentrismos, um maestro da união e da harmonia.

Não queiramos apenas acreditar nas nuvens de algodão que descobrimos pelas janelas dos aviões, porque elas já foram beber a todas as gotas de orvalho, a todos os rios, a todos os lagos, a todos os mares, a todos os oceanos! Também assim se forma a regularidade maçónica universal, tal uma cadeia que se irmana através de elos que são cada Irmão, cada Loja, cada Grande Loja, cada confederação de Grandes Lojas, continuamente escrutinadas pela Grande Loja Unida de Inglaterra: tal uma romã, a tal meligrana que em várias ocasiões já vos falei.

Sem complexos, servilismos ou perda de soberania da nossa Obediência, a Grande Loja Unida de Inglaterra é uma autoridade indisputável no que a questões de Regularidade dizem respeito, não só porque é a Grande Loja fundadora da Maçonaria tal como a conhecemos mas porque ao longo dos anos emitiu e produziu doutrina sobre a Regularidade constituindo-se assim um referencial incontornável.

E se perdermos a regularidade o que seremos? Pura e total insignificância! Um grupo de homens livres que quer muito ser maçon, mas a quem mais ninguém no mundo lhe reconhece essa qualidade, porque deixamos de emanar luz, para ser apenas reflexo de passageiras venturas, olvidado que já foi o farol primordial que nos alicerça na nascente, que através da distância e do tempo se purificou, sem que qualquer ilusão ou miragem o venha reinventar, amortalhando assim a resplandecência da pureza inicial: e nada mais que grandes ilusões permanecerão, grandes vazios, grandes dissidências e desuniões, paraísos falsos totalmente perdidos.

Pode haver a tentação de deixarmos subir através de nós a vontade de noite, trazida por um ímpeto silêncio que acaricia a pele dos nossos egoísmos, enquanto se estende um imenso lençol de pesada sombra aniquiladora, tão serena que até dá tempo à concretização de todas as grandes destruições, que nos precipitarão em plena garganta de todos os precipícios.

Mas nós preferimos antes sonhar o rio da união como quieta lagoa que não tem que suportar o arrepio, nem tolerar saltos incertos e ousados de contrabandistas que navegam no fio da navalha dos abismos, porque a eternidade Regular, nunca acabará de passar, por isso seguiremos em justo e harmonioso silêncio, o silêncio justo da tradição e da universalidade, para não sermos esmagados pelas desilusões!

E vou continuar a falar-vos do tema da regularidade, mas agora de uma outra regularidade, a regularidade democrática em que o nosso País, o nosso querido Portugal, já se mantem há mais de quarenta anos. E falar desta regularidade democrática, porque se vão mais uma vez desenrolar eleições livres no próximo dia 4 de Outubro, o ato popular e universal que consubstancia a regularidade democrática de cada estado e que a Maçonaria tanto lutou. E não me atrevendo a opinar sobre os partidos políticos que a elas concorrem, creio constituir elemento relevante, o Grão Mestre alertar todos os maçons da sua Augusta Ordem, para que sejam cidadãos intervenientes mas inteiros, agentes plenos de cidadania, que nunca deixarão o seu país derivar para obscurantismos e outros regimes totalitários, por isso serão agentes valorizadores da democracia plena e portanto do ato popular mais sagrado das democracias modernas: as eleições livres.

Dizer ainda que durante estas últimas quatro décadas vividas em democracia, Portugal mudou radicalmente para melhor, tendo sido capaz de responder cabalmente a vários grandes desígnios e causas nacionais tal: a liberdade, a democracia, a descolonização, a infra-estruturação básica, a Europa, o desenvolvimento.

Mas ficam-nos ainda vários grandes desígnios nacionais por resolver, e dentro dos mais prementes, penso ser muito importante frisar três fundamentais: a coesão e justiça social, a coesão e justiça territorial, o respeito e defesa do ambiente.

Coesão e justiça Social para que sejamos realmente capazes de amenizar os sofrimentos dos mais desprotegidos e frágeis, não os deixando em sofrimento à beira da estrada.

Coesão e justiça territorial, de forma a esbatermos o fosso que se cavou entre o litoral mais povoado, mais rico e desenvolvido e o interior em contínuo e total abandono, caminhando a passos largos para o total despovoamento, muito mais pobre, profundamente deprimido e muito menos desenvolvido que a finíssima faixa litoral.

E por fim o respeito e defesa do ambiente, porque apenas temos este país e este planeta para viver, e temos o dever de os deixar aos nossos vindouros, pelo menos em tão bom estado de saúde, como aquele que recebemos dos nossos ascendentes.

É ainda importante frisar, que foi apenas no mês passado, que pela primeira vez um presidente em exercício nos EUA, o nosso Irmão Barack Obama, pisou o Ártico americano, para enfatizar a necessidade do combate drástico ao aquecimento global: e nós por cá não queremos nada que o nosso litoral se afunde, nem o nosso interior se erme!

E neste tempo de equinócio, a União da grande família dos maçons regulares, é de rigor: façamos o mundo mais feliz, e por contágio, sejamos todos mais felizes.

E era esta a mensagem simples que hoje vos queria comunicar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da nossa Regularidade Maçónica, como a regularidade democrática para Portugal, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquiteto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão Mestre

06 julho 2015

Maçonaria - Uma grande Família: Princípios e Deveres


Comunicação à Assembleia de Grande Loja no Solstício de Verão
e comemoração do XXIV Aniversário da Grande Loja
Lisboa 27 de Junho de 6015

Acolhemos hoje o solstício de Verão, o dia mais longo, onde a grande vitória da luz sobre a escuridão se concretiza na sua plenitude: e assim tem que ser para todos os maçons, sempre a luz dos ancestrais princípios e valores, a triunfar sobre os medos e as trevas dos obscurantismos.

Comemoramos também hoje o vigésimo quarto aniversário da nossa Grande Loja, que vive um tempo de plena asserção institucional, forte afirmação internacional, grande crescimento em obreiros e lojas, que está a materializar antigos desideratos, tal uma sede própria que se consolida e engalana.

Ainda neste dia de hoje e sempre quero que celebremos a nossa grande e fraterna família maçónica.

Como podeis constatar meus Irmãos, nas suas mais variadas dimensões, podemos bem dizer que hoje é não só um dia grande, como também um grande DIA: três comemorações em uma: não haverá detergente que se lhe iguale em luz.

Desde há muitos séculos, agrupando indivíduos com ancestrais comuns, ou unidos por laços afetivos, que a família se afirma como a unidade básica da sociedade: e é isso que a nossa Augusta Ordem tem que ser: UMA GRANDE FAMÍLIA.

Enriquece-nos, engrandece-nos, valoriza-nos a existência de vários clãs, cada um diferenciado pelo ritual que pratica, herdado dos mesmos ancestrais ascendentes, mas todos irmanados pelo mesmo apego aos princípios e valores de liberdade, de ética, de humanidade. Enquanto agregação social, a nossa Augusta Ordem, a nossa FAMÍLIA, tem que ser capaz de assumir funções de proteção e socialização dos seus membros, abrigando e acomodando a transmissão da nossa cultura inalienável de princípios e valores, o que implica ao mesmo tempo, sermos capazes de assegurar a continuidade, e proporcionar um esquema forte de referência aos membros, dando assim resposta cabal por um lado às necessidades intrínsecas de todos os Irmãos que a incorporam, e por outro às necessidades da sociedade em que nos inserimos.

Dizendo de outra forma: na família maçónica temos direitos que se materializam sobretudo na fraternidade entre os irmãos, mas muito mais que isso, o maçom tem sobretudo obrigações e deveres para traçar caminhos para um futuro mais humano, formando líderes capazes em sólidos princípios éticos e morais. 

Porque não basta pertencer à Maçonaria para se ser Maçom: é sobretudo preciso que incorporemos os Valores que a Maçonaria professa. 

Todo o maçon se une através de juramentos a esta fantástica ordem iniciática que é a Maçonaria. 

E já Thomas More sublinhava, “quando um homem faz um juramento, tem que entregar a honra como fiador, porque outra coisa não lhe é exigida para afiançar o juramento”! Se rompemos o juramento, perdemos a honra e deixamos de ser idóneos, deixamos portanto de ser maçons: e os maçons, ou são inteiros e honrados, ou então são apenas arremedos que arrefecem à sombra de vultos que se interpõem no feixe que a luz projeta.

Hoje como sempre, a maçonaria regular que não é uma realidade estática, muito pelo contrário, deve combater a tirania e lutar pela construção de uma Sociedade mais Justa e Perfeita, pela promoção da Igualdade de Oportunidades, e este desiderato apenas é possível, se os mações forem contumácios agentes que acima de tudo defendem e constroem uma sociedade melhor: para desvarios, bastam os milhões de profanos.

Cada Maçon, todos os dias, deve ser capaz de colocar mais um grão, nem que de pó seja, sobre a grande muralha da construção de sociedades mais justas.

O grande rio da liberdade, apenas se engrandece, se continuamente vir o seu caudal engrossar, por isso todos os dias temos que ser todos nós a alimenta-lo de gotas, quem mais o poderá fazer? E não tenhamos medo, porque os trasbordos e outros riscos do exercício da nossa própria liberdade, apenas nós mesmos os podemos controlar e enfrentar.

Pertencemos a esta ordem iniciática que já conta com séculos de existência, que muita catedral já construiu, e apenas por isso, somos levados a pensar que já tudo está edificado: puro engano!

Vós que como eu, amiúde viajais de avião, aprendei com as lições que vos ensina a paisagem que de cima avistais: quando atravessamos cordilheiras montanhosas, erguem-se altaneiras e duras as rochas, imponentes gritos vindos do fundo do tempo, feridas já cicatrizadas das convulsões da Terra ainda quente, que durante milhões de anos a chuva e o vento não pararam de lamber e que as nuvens de vez em quando acariciam.

E para nós apenas estas frias e duras rochas merecem respeito, enquanto o nosso mirar despreza totalmente os pequenos líquenes que lhe colonizam a pele rugosa, as ervas e as plantas rasteiras que as entornam, porque o nosso olhar ainda não soube aprender, que apenas estes se decidiram verdadeiramente a conquista-las, contando com o tempo como aliado: as rochas vão-se desfazendo, ainda que num tempo muito longo, mas as ervas e os líquenes teimosos renascem a cada ano e o seu verde não pára de conquistar terreno, pois a sua fragilidade é o melhor disfarce para enganar uma dureza fragilidade que nós queremos ver como inexpugnável: se o nosso respeito vai todo para a imponência das rochas e das altas montanhas, e às ervinhas e líquenes apenas desprezo reservamos, isso mostra como ainda tanto temos para andar no caminho da sabedoria, do amor e da liberdade.

E assalta-nos depois a paisagem monótona da imensa e interminável planície centro-europeia, mar fundo de terra fértil, verdejante, que as ervinhas, os líquenes e outras plantinhas já conquistaram às duras e imponentes rochas.

E agarra-se agora aos nossos olhos, a miragem azul-turquesa do mar Mediterrâneo, que esconde negros e profundos rifts centrais, gargantas abertas por onde sobe a lava quente primordial vinda do manto da Terra, sempre pronta a edificar novas cadeias montanhas, feitas de rocha fria erguida: e nós temos que saber, que enquanto maçons, somos as ervas e os líquenes que já as espreitam, e que iremos fazer delas imensas planícies férteis e verdejantes que darão alimento para quem ainda passa fome, e que esse gesto será verdadeira liberdade para os que ainda não conhecem o segredo que ensina a arte de bem saber mirar e durar.

Por esta parábola meus irmãos, apenas vos quis explicar a grandeza da humildade das ervas e dos líquenes, e mostrar-vos também que o céu e o inferno têm paredes meias e que começa sempre por ser impercetível a passagem de um para outro, e que a solidariedade entre os homens é sempre o ponto mais feliz da chegada. 

Tratemos todos os humanos de igual forma, sem distinção de raça, de classe, de género, de orientação sexual, todos como iguais e irmãos; combatamos a vã e vil ambição, o orgulho, o erro o preconceito, a ignorância, a mentira, o fanatismo, os integrismos, a superstição: flagelos da Humanidade, estorvos ao verdadeiro progresso; pratiquemos a justiça, promovamos a salvaguarda dos direitos humanos; pratiquemos a tolerância relativamente à escolha religiosa, à escolha de opinião política; deploremos todos estes aspetos, mas sobretudo esforcemo-nos para reconduzir o mundo aos caminhos de uma humanidade verdadeiramente humana, Solidariedade Maçónica, pura humilde fraternal,onde a felicidade se resplandece em cada um dos rostos que perfazem a humanidade.

E são estes meus Irmãos, os grandes deveres que nos esperam todos os dias, todas as horas, todos os minutos, todos os segundos: tudo será humildade e tudo se fará então urgência para edificar um mundo melhor.

E neste tempo solsticial, a União da grande família dos maçons, é de rigor: façamos o mundo mais feliz, mais humano e por contágio, sejamos todos mais felizes.

E era esta a mensagem forte que hoje vos queria comunicar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, cumprindo os princípios e deveres, para consolidar a edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquiteto do Universo.

Júlio Meirinhos
Grão Mestre

30 março 2015

Sessão de Equinócio da Primavera da Grande Loja Legal de Portugal/GLRP…


Por altura do Equinócio da Primavera, e também celebrando este como o é habitual, reuniu em Assembleia Magna a Grande Loja Legal de Portugal/GLRP, num local a coberto da indiscrição de profanos.

Estiveram presentes bastantes Irmãos provenientes de várias Respeitáveis Lojas e de várias localidades do nosso país, do Norte ao Sul, do Oriente ao Ocidente , como gostamos de dizer em maçonês.

Nesta digníssima Sessão Maçónica tratou-se do que havia de se tratar e falou-se do que se deveria falar, ou não fosse ela uma sessão mais administrativa...

Mais uma vez, a Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues nº5  esteve presente com uma parte do seu quadro de Oficiais de Loja bem como com elementos do seu quadro de obreiros que integram o corpo do Grão-Mestrado.

De salientar ainda o contributo que esta mesma Respeitável Loja deu em relação à Regulamentação da Grande Loja Legal de Portugal/GLRP, no âmbito da elaboração de uma proposta de determinado documento, demonstrando que não só se encontra à Ordem bem como ficou patente que trabalha a bem da mesma  na sua generalidade…

Finalizando,  algo que se pôde constatar das conclusões retiradas desta Assembleia Geral é de que a Maçonaria Regular portuguesa se encontra em franco crescimento e que se encontra de “boa saúde”… 
E que é assim que ela deve permanecer, acrescento eu!

02 julho 2014

Eleição de Grão-Mestre 2014/2016: Balanço


Encerrado que está o processo de eleição do Grão-Mestre da GLLP/GLRP para o período que decorre entre os equinócios de outono de 2014 e 2016, é tempo de um breve balanço.

A primeira nota a reter é que a disputa eleitoral decorreu com grande elevação. Os candidatos fizeram jus à sua condição de maçons. Expuseram as suas ideias, divulgaram-nas, defenderam-nas pela positiva e com respeito pelo opositor. Todos nos congratulamos com isso - mas não é nada demais: afinal ambos limitaram-se a ser maçons e a ter a postura que se espera de maçons.

A segunda nota que julgo asada é que o cumprimento do dever de imparcialidade por parte dos Grande Oficiais em funções não implica agir como se não houvesse eleição, não implica não falar do assunto, não implica a necessidade de ficar mudo e quedo perante uma realidade e um processo que são evidências. Aqueles que cumprem os ofícios de administração da Grande Loja e genericamente todos os Grandes Oficiais têm o dever de imparcialidade, de não usar os seus ofícios em favor ou detrimento de qualquer dos candidatos. Mas o cumprimento desse dever pode e deve ser executado assegurando-se também o esclarecimento de quem tem o direito de voto e a divulgação das candidaturas e respetivas posições.

Foi precisamente isso que se procurou fazer neste blogue. Aqui se divulgaram ambas as candidaturas, os currículos de ambos os candidatos, os respetivos manifestos, e se tomou a iniciativa de entrevistar ambos, tendo o cuidado de a ambos colocar rigorosamente as mesmas questões. Não se apelou ao voto especificamente em qualquer dos candidatos. Crê-se que ficou demonstrado que é possível proceder à divulgação de informação eleitoral com o respeito pela imparcialidade.

A terceira nota é que este processo eleitoral veio mostrar que a Maçonaria está a saber adaptar-se aos tempos atuais. Na sociedade atual, a circulação da informação é um facto. Não é mais possível deixar de ter isso em conta. Mesmo aqueles que pontuam a natureza iniciática da Maçonaria e do processo maçónico entenderam isso. Ambas as candidaturas - e bem - divulgaram as suas posições publicamente, em sítios na Internet de acesso livre. Qualquer interessado, maçom ou não maçom, pôde aceder a essa informação. Aqueles que continuam a bater na estafada tecla do secretismo da Maçonaria continuarão certamente a fazê-lo, mas cada vez com menos credibilidade...  

Finalmente, é grato verificar que, numa instituição madura, a existência de períodos eleitorais, sendo uma necessidade, é encarada e vivida com naturalidade. Eleição implica escolha, o que implica exposição de posições diferentes entre quem se submete ao juízo dos seus pares. Efetuada a escolha, termina o processo e a vida institucional e pessoal de todos os intervenientes prossegue normal e pacificamente. Assim sucedeu na GLLP/GLRP. 

Rui Bandeira 

25 junho 2014

Eleição de Grão-Mestre 2014/2016: Irmão Júlio Meirinhos Grão-Mestre eleito


Efetuada a votação e apurados os resultados, verificou-se que o escolhido pelos Mestres Maçons da GLLP/GLRP para exercer o ofício de Grão-Mestre no biénio 2014/2016 foi o irmão Júlio Meirinhos.

Na sessão do solstício de verão da Grande Loja, que terá lugar no próximo fim-de-semana, ocorrerá a formal proclamação da eleição.

O Irmão Júlio Meirinhos, iniciado em 1992 na Loja Porto do Graal, n.º 2, foi Venerável Mestre da Loja Luz do Norte, n.º 21, e fundador e Venerável Mestre da Loja Rigor, n.º 57, cujo quadro de obreiros presentemente integra.

Após ter exercido, por várias vezes, o ofício de Assistente de Grão-Mestre, é Vice Grão-Mestre presentemente em funções, ofício que assegurou, pelo menos (e cito de memória) nos mandatos dos últimos dois Grão-Mestres, os Muito Respeitáveis Irmãos Mário Martin Guia e José Moreno. Sob a direção de ambos os seus antecessores serviu leal e eficientemente. É agora chegado o tempo de assumir a direção dos destinos da Grande Loja.

A instalação do Grão-Mestre eleito decorrerá, normalmente, na sessão de Grande Loja que ocorrerá por altura do equinócio do outono.

A experiência do Irmão Júlio Meirinhos na participação da administração da Grande Loja garante que esta prosseguirá sem sobressaltos. No entanto, como é natural, dado que cada um pensa por sua cabeça e todos somos diferentes, algumas mudanças o Grão-Mestre eleito tenciona implementar, designadamente no sentido de exercer a sua liderança de uma forma mais participada e colegial, como anunciou em entrevista ao A Partir Pedra.

Com a sua eleição, termina um normal e programado processo eleitoral, que decorreu de forma participada e, sobretudo, elevada. O período da divulgação de propostas e de escolha terminou. Reinicia-se o normal processo de vivência e trabalho da Grande Loja,envolvendo fraternalmente TODOS os obreiros.

O A Partir Pedra deseja saudar o Grão-Mestre eleito e manifestar-lhe, naturalmente, que se encontra à ordem para auxiliar a executar as suas determinações. E deseja igualmente saudar o candidato que não foi escolhido, o Irmão José Manuel Pereira da Silva, pelo contributo que deu para o debate e para a reflexão sobre a Grande Loja, pela forma fraternal e elevada como deu esse contributo e pela sua pronta e inequívoca (mas de forma alguma inesperada) declaração de que, tendo sido eleito o Irmão Júlio Meirinhos, ele será, naturalmente, o seu Grão-Mestre, o Grão-Mestre de toda a Obediência e de todos os obreiros que a integram. Ambos, escolhido e não-escolhido, foram dignos opositores e foram e são maçons de comportamento exemplar, merecedores do reconhecimento de todos nós.

Rui Bandeira

18 junho 2014

Eleição de Grão-Mestre 2014/2016: um apelo e um voto


Ao longo de perto de dois meses, neste blogue procedeu-se à divulgação das duas candidaturas à eleição de Grão-Mestre da GLLP/GLRP para 2014/2016. 

Anunciámos os candidatos, publicámos os respetivos currículos, os manifestos por eles apresentados e obtivemos e publicámos entrevistas que realizámos a ambos, com a formulação das mesmas perguntas e tendo garantido que as respostas de cada um dos candidatos eram dadas antes de este conhecer o conteúdo das respostas do outro.

Em resumo, neste espaço fez-se questão em garantir uma estrita igualdade no tratamento e divulgação de ambas as candidaturas. Não porque eu não tenha preferência por um dos candidatos. Claro que tenho e os obreiros da Loja Mestre Affonso Domingues sabem bem quem eu pessoalmente gostaria de ver eleito como próximo Grão-Mestre. Mas por uma questão de respeito. 

Respeito, em primeiro lugar, pelos próprios candidatos, ambos maçons de valia que - com agrado o pontuo! - mantiveram a divulgação das respetivas posições num elevado plano de dignidade, cada um defendendo as suas ideias e a sua candidatura sem minimamente beliscar a figura, a qualidade e a valia do outro candidato. Com isso ambos os candidatos mostraram a todos os maçons regulares serem dignos do nosso apreço, afinal, simples mas significativamente, serem dignos de serem reconhecidos como tal, pelos maçons regulares. 

Respeito, de seguida, pelos meus Irmãos da Loja Mestre Affonso Domingues. Este espaço não é meu. Este espaço é dos Mestres Maçons da Loja Mestre Affonso Domingues.  A indicação neste espaço de apoio a um ou outro dos candidatos poderia induzir o leitor à conclusão de que se estava a expressar o apoio da Loja. Nada podia ser mais errado. A eleição de Grão-Mestre é uma eleição duplamente individual. Individual em termos de quem se apresenta a sufrágio, porque se apresenta ele mesmo, não como parte de qualquer grupo ou tendência; individual em termos de quem escolhe, porque o voto é de cada um dos Mestres Maçons, segundo o seu critério, a sua vontade, o seu entendimento, a sua motivação, não em execução de qualquer deliberação da sua Loja. Não são as Lojas que elegem o Grão-Mestre, são os Mestres Maçons, segundo o reconhecido princípio um homem, um voto. Na Loja Mestre Affonso Domingues, tomou-se conhecimento das candidaturas e providenciou-se para que todos dispusessem do máximo de informação possível sobre os candidatos, as suas ideias e projetos, para que CADA UM livremente, no momento e no local para tal aprazados, formule a sua escolha. Não sei o sentido de voto de todos os meus Irmãos. Até pode suceder que muitos façam uma escolha semelhante à minha. Mas basta que um - apenas um! - tome uma decisão diferente, para que esse decisão me mereça todo o respeito. E isso passa por não aproveitar este espaço para dar conta da minha preferência individual em detrimento da preferência diversa de meu Irmão. 

Respeito, finalmente, por todos os Mestres Maçons da GLLP/GLRP e pela sua - óbvia e evidente! - absoluta capacidade de fazerem as suas escolhas. Respeitar os meus Irmãos, todos eles, é ajudar a que todos e cada um deles recolham e acedam à informação necessária e, certamente, relevante, para que cada um tome a sua opção. Não ter a prosápia de aqui afirmar a minha preferência, com o que seria vã tentativa de influenciar os demais... Eu não sou mais do que tu; eu não sou menos do que tu; tu e eu somos iguais!

Por isso, a poucos dias da votação para a maior parte dos eleitores, a poucos dias do apuramento da vontade coletiva decorrente de todas as vontades individuais expressas, cumprida a tarefa de informar e divulgar, neste espaço só resta e só cabe ainda a formulação de um apelo e de um voto: o apelo a que todos os que dispõem de capacidade eleitoral votem, de forma a que a vontade coletiva exprima efetivamente a escolha da maioria das vontades individuais; o voto de que todos e cada um de nós sejamos dignos de nós próprios e, conhecido que seja qual o escolhido para próximo Grão-Mestre da GLLP/GLRP, cada um de nós, sem qualquer reserva, o reconheça como seu Grão-Mestre, mesmo que - principalmente se assim suceder! - porventura o escolhido pela maioria não seja o que individualmente se preferia.

Dia 21 de junho de 2014, dia do solstício de verão, dia de perfeito equilíbrio entre o dia e a noite, é dia de escolha do próximo Grão-Mestre. Que cada um vote. Segundo a sua consciência, segundo a sua escolha, segundo a sua vontade. Só assim se formará a verdadeira vontade coletiva dos maçons da GLLP/GLRP.

Rui Bandeira

11 junho 2014

Eleição de Grão-Mestre 2014/2016: Entrevista ao candidato José Manuel Pereira da Silva

Conforme anunciado, e no cumprimento do nosso propósito de estrito cumprimento da igualdade na divulgação das duas candidaturas, publicam-se hoje as respostas que o candidato José Manuel Pereira da Silva deu às dez questões colocadas pelos obreiros da Loja Mestre Affonso Domingues aos dois candidatos ao ofício de Grão-Mestre da GLLP/GLRP:


Qual o papel e significado da Maçonaria Regular no século XXI?

Sem querer parecer demasiado “rigorista”, defendo que a Maçonaria tem na, sua essência e génese, uma finalidade que não carece de atualização fundamental, embora se não deva furtar à sua adequação à especificidade de cada tempo. Somos uma sociedade que se define como iniciática, ponto. Isso significa que assumimos a adesão a uma via, que costumo caracterizar como de ascese civilista, que é, por sua natureza, transformante do indivíduo. Recordando que essa transformação se anuncia como a da permanente busca da perfeição centrada no alcance das virtudes simbolizadas pelas colunetas da sabedoria (sophia), da coragem (andreia), da temperança (sophrosyne) e da justiça (dikaiosyne – a coluna ausente já que Platão a considerava que esta virtude se concretizava pelo alcance das outras). Este programa iniciático que, pelo menos desde Platão, se definiu como o verdadeiro objetivo da iniciação filosófica constitui-se, em meu entender, como uma tradição contínua na história da civilização ocidental e da qual somos herdeiros. A Maçonaria tem, no horizonte dessa sua ação transformante, o Homem, na mais radical circunstância da sua própria humanidade, como objetivo e télos. Furtando-se à oferta duma perspetiva escatológica e duma redenção, limitando-se ao campo exclusivamente reflexivo e filosófico, permite que esse caminho do Bem e da Virtude que se ilumina a partir de Deus, possa ser trilhado pelo Homem comum em desígnio coletivo que se sela num compromisso jurado.
A Maçonaria moderna é, nesse sentido, uma das mais notáveis criações dos homens livres e de bons costumes e constitui uma singularidade aberta no campo da alta espiritualidade. Ver nela outras finalidades, por muito nobres que possam ser ou parecer, é empobrecer-lhe o sentido e o alcance e privar a humanidade de um instrumento que, em tempo de profunda erosão ética, nunca assumiu uma tão grande importância e urgência. Confundi-la como uma organização que se centra na intervenção social é um erro e uma tentação que não só nos afasta da essência duma via enunciada, ab initio, como iniciática, como nos priva dum instrumento e património espiritual único do ponto de vista civilizacional.
Recuso, por isso, todas as formas de aproximação, sejam teóricas ou práticas, contidas da consideração de que existem “várias maçonarias” que entre si até podem cooperar. Não negando o interesse que possam ter todo o tipo de organizações sociais que visem o bem comum, nem o direito a que possam escolher as designações com que se queiram afirmar, apenas reconheço como Maçonaria aquela que se define como via iniciática e que, declarando trabalhar à glória do GADU, apenas pretende agir sobre o indivíduo. E, assim, entendo que mesmo as iniciativas que entre nós possam assumir uma natureza filantrópica (na assistência social, no âmbito cultural ou qualquer outro) se justificam como reflexo e consequência desse caminho mais radical duma transformação espiritual e não como objetivo principal.
Numa prancha recente, que elaborei para o aniversário da RL Camões, desenvolvi o meu pensamento sobre este tema e, por isso e para que fique claro o meu pensamento sobre o tema, anexo o seu texto ao desta entrevista. (Nota: Texto publicado no final da entrevista, conforme solicitação expressa do candidato)
Mas tenho consciência de que existem outras visões no interior da Obediência. Por isso, considero como prioridade a organização dum espaço de reflexão coletiva, seja congresso ou convenção, em que este tema seja ampla e profundamente debatido. Nada pode minar mais eficazmente o nosso sentido de Tradição, a necessidade do rigor e o verdadeiro sentido dos nossos rituais e património simbólico, do que a ignorância ou a confusão em torno da definição do que somos e devemos ser.

Assinalas no teu manifesto a prioridade ao relacionamento com as Obediências dos espaços iberoamericano e lusófono. Como vês o papel da GLLP/GLRP nesses espaços e que políticas de atuação concreta preconizas?

Sou um crente nessa ideia que, do Pe. António Vieira a Pessoa, pelo menos, se enuncia em torno dum destino português que passa por um relevante papel espiritual no Mundo. O espaço da lusofonia e da ibero américa, são o espaço em que melhor respiramos e onde melhor nos revemos. Justifica-se que nele participemos construindo, em primeira prioridade, um espaço de identidade, de comunidade e de uma verdadeira egrégora espiritual. Reforçar os laços de reconhecimento, cooperação e ação conjunta parecem-me objetivos importantes. Mas privilegio, nesta fase que nos impõe uma prudente contenção orçamental, que todas estas iniciativas se sustentem em ações de comunicação assíduas mas sem custos. Os aspetos presenciais deste contato devem ser resolvidos aproveitando a disponibilidade e oportunidade de deslocação, a seu encargo, daqueles II que oferecendo condições de seriedade, empenho maçónico e confiabilidade possam dar garantias de desenvolvimento das relações no estrito plano maçónico e não no mero interesse pessoal. Nestas, apenas nestas, condições deve o GM delegar competências de representação sempre que a oportunidade se justifique. A mesma perspetiva estratégica se deve aplicar à nomeação dos garantes de amizade, cuja ação deve ser coordenada e orientada pelo grão mestrado.
Há, no entanto, um aspeto que quero deixar bem claro e que se prende com a irradiação da M:. nos países lusófonos e com a elevada sensibilidade e prudência que se requer para todas as ações a tomar nesse sentido. Não nos podemos esquecer que a maçonaria regular só pode crescer em sociedades democráticas, nem dos perigos a que se podem expor todos os que queiram trabalhar em ambientes não democráticos, reativos ou mesmo hostis ao desenvolvimento da M:.. Nesse sentido, todas as ações a desenvolver em favor e apoio a esse desenvolvimento devem ser cuidadosamente pensadas e preparadas com envolvimento dos II que pela sua experiência anterior, como é o caso dos past-GM e GO, experiência profissional, conhecimento diplomático ou outro, possam contribuir para decisões bem aconselhadas. Penso que a instância própria para a formação deste conselho do GM é a L:. Fraternidade para que se possa garantir a máxima discrição em torno das matérias aí tratadas.
A recém criada GL de Moçambique, deve continuar a ser alvo da nossa maior atenção e carinho, forte cooperação e contributo, sobretudo no âmbito da formação maçónica e no apoio ao seu reconhecimento. Esta dedicação é tanto mais importante quanto ela serve, como exemplo, para facilitar a aproximação a outros países da lusofonia.
Mas, repito, é uma área que pela sua alta sensibilidade exige o nosso maior cuidado e bom aviso para que não caiamos em precipitações voluntaristas que comprometam não só as pessoas que se venham a envolver, como o próprio sucesso pretendido. Nestas coisas é sempre difícil recuperar, com uma segunda oportunidade, dum ato falhado.
Mas, também aqui, podemos encontrar um espaço para a cooperação internacional.

Que papel e que intervenção (se é que alguma) preconizas que a GLLP/GLRP exerça na sociedade portuguesa, como e com que instrumentos?

Sei que existem no interior da O:. Muitos II que acham que devíamos ter na sociedade um papel mais ativo, como o fazem ou pretendem os membros das maçonarias ditas liberais. Contrario esse entendimento. Somos uma organização que se define como via iniciática, volto a sublinhar, ponto! O horizonte da ação maçónica, como via transformante, circunscreve-se pela melhoria de cada um nesse caminho que se enuncia pela busca da virtude e do aperfeiçoamento. Não somos um grupo de pressão, de representação ou de outra qualquer qualidade que nos talhe para a intervenção ou parceria social. A sociedade democrática está suficientemente dotada de instituições que o fazem (religiosas, humanitárias, partidos políticos, organizações de solidariedade social, de representação do patronato e dos trabalhadores, etc…) e que podemos integrar, nelas aplicando e concluindo, como ritualmente se prescreve, o trabalho que na L:. é iniciado. É, aliás, um ótimo campo para que, pela sua exemplaridade, os maçons se mostrem e demonstrem como indivíduos úteis e distintos na sociedade em que vivem podendo, assim, contribuir para o irradiar da O:.
É claro que não incluo, nesta restrição de princípio, aquelas ações beneficentes e filantrópicas que os II ou as LL entendam desenvolver e/ou promover e que entendam poder fazer parte do “seu caminho”. Temos tantos e tão bons exemplos de envolvimento, de II e de LL, neste tipo de ações, que só podemos defender a sua continuidade e expansão bem como salientar o papel que a GL deve ter em apoiá-las: incentivando-as, divulgando-as da forma que as LL melhor entendam e promovendo-as ou coordenando-as no caso de se tratarem de iniciativas que resultem da voluntária cooperação entre LL.
Mas sendo uma via iniciática a que assumimos como fundamento de ação, deverá ser, sobretudo, no campo da espiritualidade que nos devemos afirmar como agentes ativos e empenhados. Promover ações que privilegiem este domínio no âmbito do seu aprofundamento ecuménico, parece-me ser do maior interesse e contributo para o prestígio e irradiação da O:. Nesse sentido, proporei a realização dum conjunto de encontros em que sobre o tema “que sentido para uma espiritualidade contemporânea”, possamos ouvir perspetivas diferentes de destacados pensadores do nosso tempo.
Também no plano cultural devemos construir uma visibilidade que nos distinga promovendo o trabalho dos nossos II, que são tantos e se essa for a sua vontade, no campo da literatura, das artes plásticas, da música e do próprio trabalho científico em diferentes áreas.
Estas agendas devem constituir-se não só como um contributo para a nossa reflexão e enriquecimento pessoal mas, também, para a criação duma imagem positiva da M:. na sociedade portuguesa. Mas defendo que a sua organização deve partir do envolvimentos das LL para que se reforce, não só o envolvimento dos II, essa ideia que para mim é central e decisiva de que o nosso trabalho só faz sentido como manifestação coletiva.

Como preconizas se efetue a capitalização, gestão e administração do Fundo de Solidariedade Maçónico?

Saúdo a criação do FSM embora não conheça muito bem os seus objetivos e funcionamento. Mas tenho sobre ele ideias concretas; designadamente que deve ter o perfil dum “Tronco Comum” para aplicação solidária e beneficente quer no plano interno (acorrer às dificuldades dos II), quer externo (apoiar entidades singulares ou coletivas no âmbito da solidariedade social nas áreas da assistência, da saúde ou mesmo da educação). Entendo, por isso, que o FSM deve ter uma administração sob controlo, mas independente da GL (evitando que em qualquer circunstância se possa transformar num “saco azul”). Assim, deve constituir-se como uma importante instituição da Obediência que será dotada duma assembleia geral constituída por todos os II Hospitaleiros, uma direção presidida pelo GH e um conselho fiscal presidido pelo GT; o FSM terá integrado nos seus órgãos (direção ou AG), em representação da GL e garantindo a colaboração desta, um dos VGM. O FSM seria gerido de acordo com um plano anual de aplicações e atividades aprovado pela sua AG.
Penso que o FSM deve ser financiado por uma quotização obrigatória para os obreiros (pequena 12-20 € ano) e ter em donativos (em numerário ou espécie), doações e outras comparticipações voluntárias a base da sua sustentabilidade. Pode, ainda, gerar recursos através da promoção de atividades - a atual sede tem por exemplo condições para a realização de festas e outras atividades que gerem receitas; por exemplo, aniversários, santos populares, etc., se a direção o entender e para isso puder contar com a colaboração dos II ou das LL. Penso que este tipo de atividades não só contribuiriam, pelo objetivo, para o reforço da Fraternidade como constituiriam um excelente contexto para que nos possamos conhecer melhor em sã convivialidade entre nós e as nossas famílias. Em meu entender e com esta configuração o FSM poderia, com relativa facilidade, atingir os 50 000€/ano numa primeira fase.

Como preconizas o lançamento e funcionamento da Academia Maçónica (“Academia de Formação” é pleonasmo...) e qual o prazo que prevês para efetivo início do seu funcionamento?

Numa altura em que temos que reconhecer algum “enfraquecimento” em aspetos centrais da nossa cultura maçónica como a instrução, o rigor ritual e mesmo a vivência duma Fraternidade permanentemente anunciada mas, por vezes, esquecida e desvirtuada, a Academia (o que por si é uma designação feliz que saúdo) pode constituir um importante instrumento para o reforço da GL, da formação dos maçons e para o desenvolvimento do conhecimento maçónico.
Em meu entender a Academia deve desenvolver dois “ramos” principais no seu trabalho:
1- Num plano que designo como exotérico, a Academia deve centrar o seu trabalho na formação técnica de investigadores que se queiram orientar no aprofundamento e esclarecimento dos temas que defino como da teoria e história da filosofia, uma maçonologia, e na divulgação aberta desse trabalho; esta formação técnica, garantindo ao trabalho investigativo o maior rigor científico, deve incluir as áreas da heurística, da hermenêutica e das técnicas da investigação em ciências sociais adequadas ao âmbito das diferentes linhas de trabalho que se venham a definir como prioritárias ou a partir dos interesses individuais. Temos, entre nós, pessoas suficientemente competentes para este contributo, mas não deixa de ser uma área em que podemos construir uma relação séria e produtiva com as universidades e a comunidade científica nos domínios da História, da Filosofia, da Antropologia, etc. Defendo que o resultado do trabalho deste ramo da Academia deve ser orientado para a sua divulgação aberta com a criação duma revista própria de grande qualidade quer científica, quer gráfica, pelo que deve ser gerida por um grupo de avaliadores.

2- Noutro plano, que designo como esotérico, a Academia deve proporcionar a formação e o aprofundamento nas áreas do simbolismo e do ritualismo; é um plano mais interno e que, desenvolvido a coberto, se deve orientar para o aprofundamento da cultura maçónica e da prática ritualística e iniciática abrangendo quer os aspetos mais gerais quer as especificidades dos diferentes ritos: o interesse e a urgência deste trabalho devem ser assistidos pelo desenvolvimento dum plano de atividades da responsabilidade do conjunto dos GI, mobilizando para as ações a desenvolver os II melhor preparados e estendendo, essas ações, a todo o território proporcionando a maior adesão dos II.

 Apesar de distintos, não quero deixar de sublinhar a complementaridade destes dois “ramos” considerados, bem como o papel que a Academia pode ter no desenvolvimento de relações culturais com o mundo maçónico e para o prestígio externo da GL.

Penso, ainda, que possa desenvolver-se sobre tutela da Academia, que deve integrar por isso o Grande Bibliotecário e Arquivista, a recolha, tratamento e manutenção do espólio documental da GL, a criação, gestão e manutenção duma futura Biblioteca bem como a criação, gestão e manutenção dum futuro Museu.

Na dinâmica de funcionamento Lojas/Grande Loja privilegias a prevalência da liberdade de atuação das Lojas ou da coordenação da Grande Loja? Na primeira hipótese, como prevines fenómenos de basismo e descoordenação? Na segunda, como prevines excessiva coordenação e autoritarismo?

Vejo aí uma dicotomia que pode iludir a natureza duma Sociedade como a nossa e a afirmação duma dialética que penso não existir. E isso apenas tem a ver com a própria interpretação que faço e proponho do ponto de vista institucional. Aliás, isso é um ponto que penso estar claro no Manifesto eleitoral que reflete, sem qualquer dúvida, o pensamento duma larga maioria dos II.
As LL:. são livres, na medida em que são constituídas por homens livres. Mas a sua liberdade está definida pelo seu objetivo fundador: promover pela via iniciática - de acordo com princípios constitucionais, regras usos e costumes fundados numa Tradição e que se juram cumprir e obedecer – o aperfeiçoamento individual com o qual se contribui para o próprio aperfeiçoamento da Humanidade. Como emanação das LL:. A GL é o garante de que essa liberdade das LL:. se inscreve no escrupuloso e estrito cumprimento e observância dessas condições livremente aceites por todos e cada um na especificidade de cada rito; é esta a essência da regularidade maçónica e a sua magnífica riqueza institucional, cultural e, diria mesmo, civilizacional.
O princípio inerente à legitimidade do GM:. não reside, portanto, na sua “autoridade” formal mas no seu poder de todos representar, como garantia para cada um, como vontade coletiva duma adesão aos mesmos princípios, regras, deveres e direitos. Podemos, dessa maneira, falar duma “auctoritas” que é garantia da unidade e da identidade que se concretiza no conceito da Fraternidade. É, por isso, que me afasto das conceções que veem no GM ou no grão mestrado uma instância de poder, de liderança ou de chefia. E, afasto-me, na exata medida em que as considero como conceções anti-maçónicas, injustificadas e desnecessárias. O GM é um ouvidor que se abre à ressonância da vontade dos II e cuja primeira missão é zelar pela União e pela construção do fraterno entendimento. Implicando o conceito de líder, o conceito de seguidor, desajusta-se do conceito básico do amor fraterno em que todos se encontram numa vontade comum. Isto não significa que o GM se exima à decisão solitária. Mas fá-lo-á sempre a coberto dessa “auctoritas” que se interpreta como a vontade coletiva. Para os que menos me conhecem e possam ver nesta minha conceção alguma “demagogia” apenas posso dizer que tenho, em defesa da minha convicção, o meu passado ao serviço da O:.
O papel coordenador da GL é da maior relevância; do meu ponto de vista é, mesmo, o seu principal papel. É, por isso, que defendo que o plano de atividades da GL se deve, sobretudo, confinar à integração das atividades propostas pelas LL:. Não que o próprio grão mestrado não possa ter ideias para iniciativas; claro que pode e deve, mas deve devolvê-las às LL:. para que as possam assumir, individualmente ou associando-se para esse fim.
Recuso a ideia de que o grão mestrado, ou a GL se quisermos, ainda que erradamente simplificar, se possa assumir como uma superestrutura, individualizada e dirigente dotada de autonomia decisória e de ação. Defendo, antes, a soberania das LL:. concretizada na concertação da vontade coletiva que se expressa no único órgão dotado de soberania maçónica: a Assembleia.
E para que essa minha conceção ainda seja mais clara diria também que é preciso resgatar, enquanto órgão, o Conselho de Veneráveis à sua simples existência formal atual. Nem a Assembleia, nem o Conselho podem ser, simplesmente, instrumentalizados como circunstâncias de “briefing” administrativo. Penso, quero que isto fique muito claro, que as principais propostas a apresentar à Assembleia pelo GM deviam ser objeto de parecer prévio e positivo do Conselho. Só assim podemos garantir a participação e envolvimento das LL:. nas decisões que dizem respeito e constroem o nosso interesse comum. E só assim respeitamos esse princípio básico, que defendo, duma soberania residente nas LL:. E é o que farei se, por vontade dos II e do GADU, for eleito GM.

Quais as principais obras/contribuições que fizeste para o desenvolvimento da nossa Augusta Ordem nos últimos 10 anos?

O trabalho que considero mais importante é o que tenho desenvolvido com assiduidade na minha RL Amor e Justiça. Costumo afirmar que, nos mais de 30 anos que levo de maçonaria, talvez se contem apenas pelos dedos das mãos as vezes que faltei às sessões de Loja. Eu sinto a falta desse trabalho e da proximidade fraterna, na construção do sentido que vou fazendo para a minha vida e, é por isso, que o considero tão importante e até tenho dito, neste contacto que vou mantendo com os II, que se for eleito GM me podem pedir tudo, menos que eu deixe de frequentar as sessões da minha própria RL onde me apresentarei como simples MM.
Mas, para além desse trabalho que me alimenta, tenho sido solicitado para contribuir com a minha modesta participação em ações em que se abordam temas em torno da Maçonaria: quer a convite das RLL, dos AG quer de organizações profanas: Rotary, escolas e até um museu. É um trabalho que tenho feito com gosto e do qual sempre recebi, como retorno, a ideia que é possível falar da Maçonaria esclarecendo o mundo profano e combatendo a imagem negativa que a ignorância da nossa verdadeira identidade e finalidade proporciona. Tem sido muito gratificante verificar como as pessoas acabam por nos receber bem e compreender melhor. E não deixo de registar, como exemplo de como estas ações contribuem para a irradiação da O:., o facto de algumas adesões se terem verificado em consequência desta divulgação e esclarecimento.

Quantos irmãos foram por ti propostos e quantos deles continuam ainda na nossa Augusta Ordem?

O período inicial da GLRP, desde a sua fundação até à cisão, foi o período em que tive maior atividade relativamente à proposta de II:. A necessidade de crescimento, nesse período, obrigou a que todos os obreiros fossem particularmente ativos nesse domínio. Propus quase uma dezena de II que, praticamente, “esgotaram” no meu círculo de relação aqueles que eu considerava com as necessárias características pessoais. Seguindo o muito avisado preceito, utilizado pelo RER, da responsabilidade perante o VM e a RL do proponente pelo candidato, nunca convidei nenhum profano para pertencer a outra RL que não a minha. Mas sinalizei alguns candidatos, nessa circunstância, que vieram a ser convidados e a ser iniciados.
Quando integrei, há 10 anos, a minha atual RL, ajudando à sua implantação em Rio Maior e com uma área de influência até Santarém, passei a trabalhar num contexto fora da minha residência e onde, na prática, não conheço ninguém. Tenho, por isso, continuado a sinalizar alguns potenciais candidatos meus conhecidos doutras cidades, às respetivas LL:., mas não procedido à sua abordagem e convite.
Dos II por mim propostos, apenas um abandonou a O:., por ocasião da cisão, por ter ficado desagradado com os factos então ocorridos.

Se fores eleito Grão-Mestre, qual a principal mudança em relação ao que existe preconizas e qual o principal aspeto que achas deve ser mantido inalterado na GLLP/GLRP?

Relativamente ao essencial, quanto aos aspetos da governança da GL, acho que nas respostas anteriores ficou claro um sentido de mudança que se radica numa conceção que recusa a liderança em favor da representatividade e expressão da vontade coletiva cumprindo um princípio de respeito pela soberania das LL:. Como se diz no Manifesto, para que se não tome o vértice pela pirâmide.
Mas quero distinguir os dois aspetos essenciais do funcionamento da GL, quanto a mudanças e permanências relativamente às quais defino um princípio básico: manter o que funciona bem; mudar o que pode ser melhorado. Esse princípio será aplicado quanto: ao aspeto da gestão financeira da GL, em que o trabalho desenvolvido pelo GT tem sido relevante, competente e necessário ou justificador de continuidade; e, também, no aspeto ritual há II que se têm afirmado como muito competentes nas tarefas que desempenham e contribuído quer para o bom desenrolar das cerimónias, conferindo-lhes rigor e dignidade, quer no apoio e assistência que têm prestado aos II ao longo do tempo. São situações para as quais considero que, sendo essa a vontade dos próprios, se justifica a permanência de funções.
Mas há algumas mudanças que posso anunciar que farei e sobre as quais quero que a minha posição fique muito clara e que possam servir como ilustração das duas conceções em jogo, nesta eleição, quanto ao governo da GL:
1 – Esta inovação dos círculos eleitorais, cuja finalidade ninguém percebe qual seja, comigo, não se repetirá; por um lado, porque não se justifica e cria, na prática, dificuldades maiores aos II que se tenham que se deslocar (no meu caso terei que ir de Rio Maior a Tomar) o que pode ser um fator que leve à abstenção; por outro, deixa a ideia de que a votação em Loja pode ser “diferente” da que for realizada no círculo: ora este é um princípio contra o qual me oponho já que é para mim inadmissível que entre II se levantem suspeições do género.

2 – Ouvido o Conselho de Veneráveis, proporei que a atual investidura dos VM se passe a fazer em moldes diferentes atendendo ao já elevado número de LL; assim, proporei que a instalação dos novos VM se faça em cerimónia coletiva dando ao ato a máxima solenidade ritual e até simbólica na medida em que todos se possam ser recebidos do seio da GL enquanto coletivo e egrégora; a transmissão dos malhetes far-se-á de forma simples em cerimónia de cada RL, entre VM instalado e o VM cessante; se as LL o entenderem podem solicitar a presença de GO como convidados a testemunharem o ato.

3 – O problema dos II que por, infelicidade, deixem de ter condições para cumprirem com as suas obrigações (situação que deve ser verificada e confirmada pelos Hospitaleiros de cada RL) deixam de ser um “problema” da Loja para ser da GL; assim, confirmada pelo IH a situação de cada obreiro este comunicará ao respetivo IT que comunicará ao GT o quadro das capitações reais; comigo, nenhum obreiro será excluído da O:. por não poder, de facto, cumprir com as suas obrigações. Até porque, se do ponto de vista financeiro para a GL é exatamente a mesma coisa, já do ponto de vista maçónico o não é. Nós juramos a fraternidade, o auxílio mútuo, o socorro dos II e se estes têm a infelicidade de cair em situação de dificuldade a resposta que temos é a sua exclusão? Sinto um grande constrangimento, uma mágoa e até alguma vergonha que isto se passe, que possamos incorrer em atitudes que levem II a sentirem-se humilhados e abandonados na sua infelicidade. Nós não somos nem temos que ser uma elite económica. Somos uma elite cultural, ético/moral e espiritual destinada a homens livres e de bons costumes independentemente do seu estatuto social e económico. Quem aspira a pertencer a um clube de cavalheiros deve procurar em outra instância que não esta.
O problema dos aumentos de salário terá uma solução próxima, com recurso a pagamentos faseados, por exemplo, evitando que muitos II se afastem e deixem de comparecer às sessões por sentirem que não podem cumprir com o respetivo encargo.

4 – Considero exagerados, atendendo à situação económica do País, das famílias e de muitos II, os custos associados aos jantares promovidos pela GL. Qualquer iniciativa que se pretenda de convívio entre nós, deve a todos ser acessível e isenta de sacrifício financeiro acrescido. Por isso, essas iniciativas terão um custo máximo de 20€ por pessoa, embora sobre isso venha a solicitar o parecer do Conselho de Veneráveis; é que se lhe acrescentarmos os custos das deslocações teremos situações diferentes para os II que devem ser acauteladas. E esta questão é tanto mais relevante quanto o podermos estar juntos e em convívio em que se integrem as próprias famílias, é um dos mais eficazes instrumentos para a coesão interna e para o conhecimento interpessoal e familiar. Todas as iniciativas conviviais, no âmbito estritamente maçónico, devem ser integradoras e não segregadoras. Mas não me oporei a iniciativas abertas ao mundo profano e que possam ter como objetivo a recolha de fundos em que os custos não sejam uma preocupação.

5 – Pretendo também dar maior relevo ao Grande Inspetorado permitindo que os GI’s tenham efetivas condições para realizar a sua tarefa de atestar e apoiar as RRLL no desenvolvimento das suas tarefas rituais, não só cerimoniais mas também de instrução. Para isso, o número de GI será adequado ao número de RRLL em cada rito e à dispersão territorial, permitindo que a visitação se faça, pelo menos, duas vezes em cada ano.

6 – Interromperei de imediato este movimento de criação de novas LL que está a pôr em risco o funcionamento daquelas que, por esse motivo, perdem obreiros essenciais ao seu funcionamento; é demasiado elevado o número de LL que para funcionar têm que, sistematicamente, recorrer a obreiros auxiliares. Em meu entender, uma Loja nunca deverá libertar obreiros para a criação de outra se o seu quórum ficar inferior a 25-30 MM. Também tentarei resolver a situação das LL que atualmente só funcionam com uma sessão mensal, porque considero que, não se tratando duma Loja temática, nessas condições se torna quase impossível o desenvolvimento de um bom trabalho maçónico.

É evidente que estamos em presença de duas propostas e de dois candidatos que têm sobre a GL e o seu governo, conceções muito diferentes. Estas questões sobre as quais anuncio mudanças não esgotam as que estão implícitas no meu manifesto que dirigi com “Carta” aos II e que, espero, deve ser objeto de leitura e reflexão por todos. Estamos, de facto e em meu entender, perante uma escolha que deve ser levada a sério e que vai para além das ligações mais estreitas que possa existir entre cada um de nós e os candidatos a GM.

Se não fores eleito Grão-Mestre, que papel, atividade e colaboração, nos próximos cinco anos,  antevês para ti na GLLP/GLRP?

Desde o grão mestrado do MRI José Anes que assumi, para com todos os Grão Mestres, a mesma postura que consignei numa fórmula que a todos transmiti no dia da sua investidura e aquando da minha manifestação da mais fraterna lealdade: “ MRGM eu sei onde tu estás para que te possa manifestar as minhas preocupações, dúvidas e dificuldades, se as tiver…..tu sabes onde eu estou, sempre à Ordem para te servir e à GL se, quando e como o entenderes.” Farei exatamente o mesmo com todos os GM que venha a servir no futuro.
Mas, não escondo que me entusiasma a ideia de poder dar o meu modesto contributo no âmbito da Academia. Sobretudo, no aprofundamento e desenvolvimento duma área de investigação que, tendo iniciado há alguns anos, tive que quase suspender para cumprir um programa de doutoramento: refiro-me a uma área que defino como de “teoria e história da maçonaria” ou, como também lhe chamo, duma maçonologia, incidindo principalmente sobre o período anterior a 1717.
De resto, sendo minha obrigação assumida estar permanentemente à Ordem, do GM e dos II, continuarei a responder às solicitações que me forem feitas para tudo em que for reconhecido como útil.
No essencial, continuarei com a minha atividade maçónica assídua e empenhada no desbaste da pedra bruta no sítio onde tal se opera e concretiza: no aconchego da minha Querida e RL Amor e Justiça, em Rio Maior.

Texto mencionado na primeira resposta do candidato:

VM da RL Camões
VM da RL Carlos Penalva
RI GT da GLLP/GLRP
RI GI do REAA
VVMM
MQI em vossos graus e qualidades

Breve nota sobre o papel da Maçonaria na sociedade contemporânea

Os que me conhecem sabem que raramente apresento, em L:., pranchas escritas. Mas hoje, MQ VM, e porque comemoramos o XV aniversário da tua RL decidi surpreender-te e escrever o que gostava de, aqui, partilhar com todos. Aceita o meu gesto como uma prenda e um sinal de gratidão pela forma fraterna como sempre me senti acolhido entre vós.
O que quero partilhar com todos vós, MQI, é uma pequena reflexão sobre o sentido atual que pode e deve ter para todos e cada um de nós, a Maçonaria. E faço-o por duas razões: porque penso que se trata de uma reflexão necessária mas, também, porque dado o momento concreto que vivemos é justo que, chamados a escolher, possam os meus II conhecer, sobre uma tão importante questão, o que pensa um dos que de entre vós pode vir a ser objeto da vossa preferência.
Se é certo que existe hoje uma consciência a que podemos chamar global, que nos aproxima como indivíduos da ideia mais geral duma humanidade, não é menos certo que essa consciência se confronta todos os dias com rumos e factos que nos interpelam no sentido dum devir que, cada vez mais, nos parece empurrar para um beco sem saída em que os interesses económicos, melhor dizendo financeiros, erodem dramaticamente os mais elementares princípios dessa mesma humanidade e o próprio contexto em que ela se afirma como ápice da divina criação: a Natureza.
É, por isso, esta uma época de sobressalto e de fundados receios. Sobressalto e receios que mobilizam milhões de seres humanos em defesa de valores e princípios que se erguem como bandeiras de desespero, gritos de revolta mas, também, exasperantes abandonos face às forças que corroem a nossa alma e o nosso planeta.
Mas suspendo aqui esta crítica.
Muitos são os II:. que sabem que defendo e argumento em favor duma teoria que reclama para a Maçonaria uma continuação da longa tradição da iniciação filosófica e que esse continuum é identificável num longo percurso histórico que pode traçar-se desde Pitágoras até à atualidade.
Os nossos rituais são, do meu ponto de vista e numa abordagem hermenêutica séria e consistente, uma prova dessa permanência de um ideal de ascese civilista que tem em vista o aperfeiçoamento individual num horizonte em que a felicidade se concretiza no alcance das virtudes enunciadas por Platão, numa formulação que se tem revelado atemporal na própria medida em que se fundam na própria radicalidade da condição humana. Feitos à imagem de Deus, partícipes superiores de toda a criação, constituímos a alteridade que torna possível a própria revelação da natureza divina dessa mesma criação. E é esta circunstância que nos abre a possibilidade de um caminho ascendente, duma ascese, pelo qual nos podemos aproximar, ainda que num remoto vislumbre, dessa perfeição ideal em que o Uno se concretiza, idealmente, como supremo Bem e como supremo Belo.
Os nossos rituais não são, por isso, um mero protocolo cerimonial que concretizem o gesto pelo qual criamos um ambiente determinado. São, mais do que isso, um poderoso repositório do material teórico, concetual, metafórico e simbólico que nos proporciona o acesso a um dos muitos caminhos que podem conduzir os seres humanos a essa via em que cada um se dá, na liberdade de aproximação, pelo contínuo aperfeiçoamento espiritual, ao supremo Bem, a Deus, ao GADU.
Nesse sentido, a Fraternidade jurada que integramos e partilhamos, consubstancia uma tradição que ecoa no tempo, suspendendo-o na negação da contingência, e que apenas se atualiza na circunstância de cada um, como ser determinado na sua individualidade mas, também, na necessidade sentida dum olhar do outro que nos define numa fragilidade que reclama a união que encoraja na dificuldade do caminho. Caminho de reflexão purgativa que nos atua de modo transformante e nos liberta de todos os fins a que a materialidade, apesar de tudo, da nossa circunstância humana nos conduz se não estivermos atentos.
Dou-vos um exemplo que, talvez, possa iluminar esta ideia. Ao chegarmos aqui hoje e nos momentos de convívio que hão de seguir-se, havemos de experimentar aquela alegria natural que igualmente vivemos aquando nos reunimos com os nossos amigos de infância, de escola, da tropa ou mesmo no casamento da prima, quando encontramos amigos e familiares a quem há muito tempo já não víamos. Pessoas que ocupam um lugar importante da nossa vida, dos seus momentos mais impressivos, marcantes ao ponto de os revivermos nesses encontros em que se atualizam alegrias passadas. Mas o paradoxo é que, neste caso que se passa entre nós, esse sentimento brota entre pessoas que, na maioria dos casos, nem se conhecem ou que, verdadeiramente no que a factos de vida respeita, até podemos afirmar que se desconhecem completamente. Então como explicar este sentimento verdadeiro que entre nós se gera, senão pela circunstância de sermos caminhantes do mesmo caminho, cúmplices ativos da mesma determinação de viver uma amizade incondicional, uma verdadeira fraternidade, que se furta ao tempo e ao modo duma justificação que a sustente? De certo modo poderíamos afirmar que se trata de um sentimento que, isento de qualquer interesse, se manifesta em estado puro.
Mas a vivência de estados de pureza, que podemos encarar como objetivo do nosso percurso, exige essa suspensão, ou mesmo negação, dos interesses que os podem dificultar ou mesmo impedir. Nesse sentido é a Loja, enquanto espaço sagrado porque segregado do mundo em tempo suspensivo, e a vivência ou prática refletida do ritual, que nos dá acesso a essa experiência que positivamente nos afeta e cujo prolongamento no mundo profano nos pode servir de medida e teste da nossa progressão. É, assim, que a prática da Maçonaria se oferece a cada um de nós e a toda a Humanidade, como uma circunstância maravilhosa e única e como um poderoso instrumento de transformação do mundo a partir da transformação de cada um. E não perceber esta singularidade e o poder desta via como contributo para o Bem do mundo é um erro que não podemos cometer.
Fazer dos nossos rituais simples protocolos conviviais equivale, para mim, em embrulhar em pechisbeque, de forma tão completa, o diamante que herdámos, que nenhuma luz dele irradie porque nenhuma luz lhe pode chegar.
Mas deixem que vos apresente um texto de Séneca, que penso ser de grande aplicação nesta circunstância e que resume bem o meu pensamento sobre a Obra a que, por juramento, nos comprometemos:
“ Tenho a certeza, Lucílio, que é para ti uma verdade evidente que ninguém pode alcançar uma vida, já não digo feliz, mas nem sequer aceitável sem praticar o estudo da filosofia; além disso, uma vida feliz é produto de uma sabedoria totalmente realizada, ao passo que para ter uma vida aceitável basta a iniciação filosófica. Uma verdade evidente, todavia, deve ser confirmada e interiorizada bem no íntimo através da meditação quotidiana: é mais trabalhoso, de facto, manter firmes os nossos propósitos do que fazer propósitos honestos. É imprescindível persistir, é preciso robustecer num esforço permanente as nossas ideias, se queremos que se transforme em sabedoria o que apenas era boa vontade.
Por esta razão não precisas de gastar comigo tantas palavras nem de fazer tão longas profissões de fé: eu sei que tu já progrediste bastante. Sei bem de que fonte nascem as tuas palavras, que nem são fingidas nem exageradas. Dir-te-ei, contudo, o que penso: espero muito de ti, mas não confio ainda totalmente. Aliás espero que tu faças o mesmo comigo, ou seja, que não acredites no que te digo com excessiva prontidão. Observa-te a ti mesmo, analisa-te de vários ângulos, estuda-te. Acima de tudo verifica se progrediste no estudo da filosofia ou no teu próprio modo de vida. A filosofia não é uma habilidade para exibir em público, não se destina a servir de espetáculo; a filosofia não consiste em palavras, mas em ações. O seu fim não consiste em fazer-nos passar o tempo com alguma distração, nem em libertar o ócio do tédio. O objetivo da filosofia consiste em dar forma e estrutura à nossa alma, em ensinar-nos um rumo na vida, em orientar os nossos atos, em apontar-nos o que devemos fazer ou pôr de lado, em sentar-se ao leme e fixar a rota de quem flutua à deriva entre escolhos” (Epist. 16,1-3)
E, ainda, o início da Carta 17:
“Se és sábio, melhor, se quiseres ser sábio, deixa-te de fantasias e aplica as tuas forças a fim de atingires quanto antes a perfeição espiritual.” (Epist. 17-1)

A Maçonaria, como espaço de reflexão e meditação, pode neste sentido estóico duma praxis transformante do indivíduo, ser considerada uma filosofia. E é nesta conceção, que defendo, que ela se afasta das orientações que a marginam como um coletivo de intervenção social, como instrumento de transformação do mundo a partir de elites interventivas que têm na retórica social e moral a definição dum campo de atuação axiológico, ou mesmo ideológico, que ignora ou minimiza, secundarizando, a natureza transformante duma via que, por essa mesma natureza, se anuncia como iniciática.
Esta conceção da Maçonaria como filosofia e via iniciática, que emerge, mesmo, da mais superficial abordagem hermenêutica dos materiais rituais e simbólicos, não contraria a possibilidade ou mesmo a desejabilidade das iniciativas com que os Maçons possam, no mundo profano, concretizar os seus ideais de amor ao próximo e ao mundo nas suas diferentes dimensões. Mas, acima de tudo, essas iniciativas terão que ser mais uma consequência dum trabalho de aprofundamento espiritual do que constituírem-se como objetivos próprios ou finalistas do trabalho maçónico.
É uma conceção que nos afasta, radicalmente, dos protocolos sociais da convivialidade ou da própria cooperação mesmo que numa finalidade benfeitora. É claro que entre nós se desenvolve a mais sã convivialidade, a mais empolgante cooperação benfeitora. Como um reflexo, porém, dessa elevação do espírito obtida em cada degrau subido nesse caminho que, iniciado com o anúncio do poder da humildade, se deve transformar com evidente transparência numa humildade do poder. Porque esse é o desígnio máximo da aprendizagem da virtude, a filosofia, que nos é proporcionada pela Sociedade em que nos irmanamos: como a definiu Platão, uma aprendizagem que permita aos filósofos serem reis ou os reis filósofos, para que a Justiça se faça realidade.
Detenhamo-nos pois perante as colunetas que alumiam o nosso trabalho para nos interrogarmos: o que é hoje no mundo ser temperante? De que coragem precisamos para o caminho? De que sabedoria falamos quando a ela dizemos aspirar? Como nos podemos reconhecer, em ascensão virtuosa, como homens que, na busca da temperança, da coragem e da sabedoria, se pretendem a cada dia mais justos e perfeitos?
 É altura de voltar à crítica, acima suspensa, dos tempos de desvario que vivemos. Tempos de perdição e abandono. Tempos da loucura, em que nos tornamos tão cegos ao drama alheio. Loucura em que se dissolve, sem que o pensemos ou suspeitemos, a própria condição da nossa humanidade.
O que podemos então fazer, como coletivo, para melhorar este mundo adoentado e sofredor? Eis o que penso e digo: simplesmente, continuar esse trabalho árduo e penoso que, sempre renovado como compromisso e juramento, tantas gerações de maçons se empenharam em desenvolver no aprofundamento contínuo da nossa condição de homens livres e de bons costumes.
Esse trabalho profícuo que nos devolve ao mundo como homens melhor preparados, mais justos e perfeitos, para nas instituições profanas darmos testemunho duma diferença, isenta e lavada de qualquer pretensão de superioridade moral ou outra.
Esse trabalho que, na constante afirmação do poder do espírito, nos sustenta com essa humildade adquirida por esse mesmo poder do espírito e que, por isso e a propósito, nos deve prevenir do espírito do poder, essa tentação que de vez em quando nos visita e que, como uma chaga, nos tolhe as mãos enfraquecendo o aperto com o qual, em serena e fraterna comunhão que é já dádiva sincera de cada um e de todos, vamos construindo essa bela instituição que entre nós se quer permanente e se traduz na Cadeia da União.
Nas trevas continuamos o trabalho que na Luz iniciámos. Não o contrário.
MQI e VM Jaime Martins que aqui nos acolhes em comemoração. MQII aqui presentes.
Porque não somos mais do que “anões aos ombros de gigantes”, no sábio dizer de Bernardo de Chartres, deixa-me que mais uma vez evoque Séneca para te pedir, apesar de tudo, “que não acredites no que te digo com excessiva prontidão”. Antes te peço que, sobre este meu pensar e sentir, medites e reflitas e, como VM, proponhas meditação e reflexão. Se nos encontrarmos no mesmo olhar, tanto melhor. Se não, abro-me à tua ajuda e à dos II:. para que me ajudem a mim a melhor ver o que deve ser visto. Entre nós, só não deve caber a cegueira, porque é na Luz que o nosso caminho se faz.
Agradeço o teu fraterno convite e esta tão sentida oportunidade de estarmos juntos no exercício duma fraternidade verdadeira. E recebe, como testemunho desse agradecimento, esta humilde prancha que para a ocasião me dei a traçar.

Gândara dos Olivais, 17 de maio de 6014

(José Manuel Pereira da Silva)


Entrevista publicada por
Rui Bandeira