Maçonaria: um ato de rebeldia num mundo indiferente
A Maçonaria vive de momentos. Ao longo da sua história passou por bons e maus momentos. Na atualidade não podemos dizer que esteja propriamente a passar um mau bocado, mas já vimos dias melhores. O mundo é cada vez menos empático, individualista e cruel. Esta falta de empatia e gosto cada vez maior pela individualidade faz com que se pense menos no coletivo e mais no eu individual. É verdade que, para o coletivo funcionar, é necessário que, em primeiro lugar, estejamos bem connosco próprios. No entanto, após a passagem do nível EU temos de desenvolver os nossos esforços para aperfeiçoar o NÓS como sociedade. Foi assim que a sociedade se desenvolveu até ao nível que conhecemos atualmente.
Por outro lado, a Maçonaria, ao longa da sua história, não tem feito pelo abono positivo da sua imagem. Basta olhar para os inúmeros exemplos de boatos que existem à sua volta e desinformação.
É pelas razões atrás descritas que é compreensível que o número de iniciações tenha reduzido drasticamente, não só em Portugal, mas também no resto do mundo.
Por que razão escolheria um homem livre integrar uma ordem iniciática, tantas vezes alvo de desinformação e preconceito? A resposta reside na urgência de encontrar um sentido coletivo num tempo que nos empurra para o isolamento. Não será a fraternidade e a constante procura pelo aperfeiçoamento da pedra bruta, uma máscara para esconder uma conspiração?
Procurarei responder a estas perguntas e a outras nos próximos parágrafos.
Quem são os maçons?
Por muito irreal que possa parecer a resposta, os maçons são pessoas normais, que fazem uma vida normal e que têm famílias (não sendo obrigatoriamente casados e com filhos). E, por mais fantástico que pareça, a grande maioria deles não entra em conspirações. O maçon não está restringido a uma ou outra profissão. Pode até nem ter uma profissão fixa. Esta ultima característica é aquela que faz com que nós maçons acreditemos na igualdade entre as pessoas porque, tanto se senta ao meu lado um grande empresário como o mais modesto trabalhador de uma fábrica ou funcionário público. Dentro do templo somos todos iguais e a nossa palavra não vale menos do que a do outro irmão. Isto é fantástico. De repente temos um sitio, um nicho onde nos podemos sentir como parte de um grupo em que podemos fazer uso da liberdade de expressão e sermos amplamente compreendidos. Podemos falar sem sermos ostracisados, mas também podemos ouvir sem ostracisar. E veja-se, sem nos zangarmos uns com os outros. Num mundo em que a qualquer momento podemos ser “cancelados”, a maçonaria é o ultimo reduto da civilidade e da liberdade de expressão.
O indivíduo - A transformação da pedra bruta em pedra cubica
Não é novo para ninguém que, nas lojas maçónicas, se procura o aperfeiçoamento da pedra bruta, do EU individual e imperfeito, em pedra cubica. Este é um dos grandes chavões da maçonaria. A base está aqui. Mas, sejamos pragmáticos, não precisamos de um grupo de homens, quase como se fosse um gentlemans club do séc. XVIII, que se juntam a discutir temas filosóficos e a fazer alguma filantropia, para que uma pessoa se possa aperfeiçoar. Conheço inúmeros casos de pessoas boas que fazem filantropia sem serem maçons. O primeiro passo é querer que essa transformação aconteça, e o segundo é traçar o caminho para que se faça essa magia. E o caminho pode ser feito sozinho. Mas… há sempre um senão… Com certeza que o leitor deste artigo já ouviu falar no ditado: “se fores sozinho vais mais rápido, se fores acompanhado vais mais longe”. É exatamente nisto que o maçom trabalha. É no aperfeiçoamento através das ideias coletivas numa tertúlia de grupo. Nesta tertúlia aparecem sempre ideias novas, e algumas interpretações que nunca tínhamos pensado, levando-nos, muitas vezes, a refazer algumas ideias pré-concebidas sobre determinado tema. E é assim que tudo começa, vamo-nos aperfeiçoando uns aos outros e assim chegarmos mais longe.
A Loja - a mini sociedade
Mas, nada é possível sozinho, como vimos atrás. É aqui que entra o trabalho da loja. A loja é o conjunto de pessoas que o sustenta e compõe. Tem uma organização própria e que e que garante que cada evento programado, cada instrução aos aprendizes é bem executada e apreendida. Cada mestre tem uma função e é essa função que faz com que os projetos se executem de forma justa e perfeita, como uma pedra cubica que é para ser colocada em determinado local de um templo. É essa pedra que todos talhamos em conjunto na loja que faz com que o templo que estamos a construir não caia. Na instrução o conselho do mestre é uma mentoria para o aperfeiçoamento não só do aprendiz mas também dos Companheiros e dos restantes Mestres.
A globalidade - a saída para o mundo profano
Agora vem a parte mais difícil de compreender, talvez. É através do que se pratica na loja (que não são rituais satânicos nem nada que se pareça) que a seguir transpomos para o nosso dia-a-dia e tentamos ser o exemplo para quem contacta connosco. Não temos a pretensão de mudar o mundo de um dia para o outro, mas temos a certeza de que, ao mudarmos a nós próprios, alteramos o nosso meio social. É este o nosso legado.
Em jeito de conclusão
Ninguém é obrigado a ser maçom. Só o é quem acha que consegue tal legado. Nem tem mal nenhum não querer ser. Se o leitor alguma vez quiser entrar para esta augusta ordem, terá de “deixar os metais à porta do templo”, ou seja, tem de despejar a arrogância e os vícios para poder aprimorar a sua própria pessoa e assim ser um exemplo para quem está à sua volta. Aqui não somos um perfil, um cargo ou número, na maçonaria cada um é um Homem em busca de luz. Num mundo cada vez mais individualista, esta é uma sociedade que procura aprimorar em grupo, um grupo muito maior, a Humanidade. É isto que me faz ser maçom, e é por isso que TU que estás a ler este artigo e ainda não és, devias pensar em ser. Nos dias que correm, ser Maçom é um ato de rebeldia perante a indiferença do mundo moderno.




