12 setembro 2026

A TERRA É CÚBICA!



Introdução

Ao longo do tempo, o ser humano criou várias teorias acerca da forma do planeta em que habitamos há milénios.

Inicialmente, na Antiguidade mais remota, a observação direta levava a crer que a Terra era plana e que, ao navegarmos em direção ao horizonte, iríamos cair num enorme precipício. Contudo, a curiosidade humana não se deteve aí.

Mais tarde, pensadores como Pitágoras e Aristóteles deduziram teoricamente que a Terra só poderia ser redonda, observando a sombra do nosso planeta na Lua e a posição das estrelas. No entanto, durante séculos, a perceção popular e o medo do desconhecido mantiveram a ideia de um mundo plano e limitado, onde quem ousasse desafiar os dogmas estabelecidos arriscava a marginalização ou a punição. A consciência de cada um tinha de ser como um planisfério: uniforme e sem desvios.


A validação prática viria mais tarde. Foi através das grandes viagens marítimas, como a circum-navegação iniciada por Fernão de Magalhães, que se demonstrou empiricamente o que a ciência e a filosofia já previam. Estava aberta a era do pensamento livre e da experimentação: o método científico consolidava-se


Não contente com isso, no século XX o Homem foi à Lua, obtendo a confirmação visual definitiva de que a Terra era uma esfera. E, ao ter essa certeza, manteve o seu espírito explorador.


Entretanto, algo aconteceu… Uma nova transformação na Terra estava prestes a começar…


Primórdios – Os pequenos grupos e as suas relações

A partir de meados do século XX, com o crescimento da cultura urbana e escolar, as jovens gerações começaram a dividir-se em pequenos grupos de afinidade. Havia o grupo dos “mauzões”, que procuravam impor a sua força sobre os mais vulneráveis. Existia o grupo denominado “as betas”, raparigas associadas a uma certa elite social e a um estilo de vida ostentatório. Havia também o grupo dos “nerds”, fascinados pela tecnologia e por temas considerados invulgares.


A característica central destes grupos era a escassa convivência entre si, mantendo-se uma hierarquia velada. Os “nerds”, por exemplo, eram frequentemente alvo da pressão dos “mauzões”. As “betas” evitavam misturar-se, ainda que, nas entrelinhas, pudessem surgir afinidades pontuais — mantidas em segredo para evitar a rejeição pelo próprio grupo.


A emancipação – O desenvolvimento dos grupos

Com o passar dos anos, estes jovens cresceram e perceberam que a rigidez desses grupos era limitadora. Surgiram novas interações e pontes. Foi uma época de grande abertura: começou-se a aceitar a diversidade de perspetivas, a debater e a aprender com a diferença. O mundo parecia evoluir na direção certa, em harmonia e equilíbrio. A liberdade de expressão florescia, permitindo o confronto saudável de ideias através do respeito mútuo.


Foi então desenvolvido um novo dispositivo: o telemóvel esperto (smartphone), condensando a capacidade de um computador num objeto de bolso.


O desenvolvimento – A perda da forma da Terra

Com o telemóvel esperto deu-se a expansão massiva das redes sociais. Em pouco tempo, multiplicaram-se as plataformas digitais. Apresentavam-se como o espaço definitivo da liberdade de expressão, permitindo a qualquer pessoa partilhar ideias à escala global. No entanto, a rapidez das interações deu lugar à rutura do debate. As divergências extremaram-se, o respeito diminuiu e ideias complexas foram reduzidas a slogans ideológicos.


O início de uma nova era – A primeira caixa

Perante o ruído das redes sociais, a esfera pública fragmentou-se. Regressou-se à lógica dos pequenos grupos, agora organizados por blocos ideológicos rígidos. As visões do mundo foram categorizadas em caixas opostas: a caixa da esquerda e a caixa da direita. No interior e em torno destas, estruturaram-se múltiplas pautas e causas. Cada caixa passou a definir-se em oposição direta à sua antítese, tornando o ecossistema digital num jogo de forças binário.


A consolidação – Afinal, a Terra é cúbica

Ao fechar-se em bolhas ideológicas, o debate deu lugar à polarização e ao confronto interpessoal. O espaço público encheu-se de blocos fechados que se sobrepuseram sem se interpenetrar, moldando figurativamente uma Terra cúbica.


Nesta estrutura rígida, a nuance perdeu espaço. A adesão a uma causa passou a exigir conformidade total com o grupo, sob pena de ostracização. Quem tenta afastar-se de um determinado dogma é empurrado para o bloco oposto ou rotulado como inexistente no debate público.


Contudo, subsistem espaços de reflexão independente…


Conclusão – “…no entanto, ela é redonda…” 1

Existem grupos e indivíduos que procuram manter o diálogo isento de dogmatismos. Encontram-se longe da polarização ostensiva com o objetivo de cultivar o pensamento crítico, valorizando a liberdade, a igualdade e a fraternidade.


Trabalham simbolicamente na lapidação da sua própria reflexão — a "pedra bruta" que, ao transformar-se em "pedra cúbica" bem assente, contribui para a estabilidade e construção de um espaço social mais justo.


É através desta capacidade contínua de questionamento e equilíbrio que, quando observada na sua globalidade, a Terra mantém a sua forma redonda.



1 Adaptação criativa da célebre frase de Galileu Galilei: “No entanto, ela move-se”, dita aquando do seu julgamento pela defesa da teoria heliocêntrica e do movimento da Terra.

05 setembro 2026

Entrar é apenas o princípio!

Há poucos dias, o DG publicou aqui no A Partir da Pedra um texto a que chamou “A conversa que ninguém quer ter”, onde abordou uma questão que me parece não só pertinente como também inevitável hoje em dia: o envelhecimento da Maçonaria e a necessidade de conseguirmos atrair e manter novas gerações.

Começo por dizer que partilho a sua opinião quase na íntegra e, na verdade, este texto não pretende propriamente apresentar uma visão contrária à sua. Ao lê-lo fiquei sobretudo com vontade de pegar numa das duas partes da questão que colocou, como atrair e como manter, e desenvolver um pouco mais a segunda. Também acho que temos demasiada burocracia, que não faz muito sentido ocupar uma parte importante de uma sessão com assuntos administrativos que poderiam ser tratados de outra forma, que podemos utilizar melhor a tecnologia precisamente para retirar parte dessa burocracia da Loja e que devemos criar mais espaço para a discussão, para a formação e para aquilo que verdadeiramente nos leva a querer lá estar.

Ao pensar sobre o assunto tentei então separar duas coisas que normalmente aparecem juntas. Uma coisa é conseguirmos que novos homens se interessem pela Maçonaria, batam à nossa porta, passem pelo processo necessário e sejam iniciados. Outra, talvez bastante diferente, é perceber o que acontece depois de entrarem. Podemos conseguir atrair muitos novos membros, mas, se uma parte significativa deles abandonar a Ordem pouco tempo depois, talvez o problema não esteja apenas na entrada, mas também no que acontece a seguir.

Foi aí que me lembrei de uma palavra pouco maçónica, usada muito para retenção de clientes, que ouvi churn. É curioso que a UGLE também usa este termo. Não gosto particularmente da ideia de tratar uma Loja como uma empresa ou um Irmão como um cliente, porque não são nem uma coisa nem outra, mas o conceito tem pelo menos a utilidade de nos obrigar a olhar para a porta de saída com a mesma atenção com que olhamos para a porta de entrada.

A própria UGLE tem vindo a fazer exactamente isso. Em Setembro de 2021, ainda durante o regresso progressivo à normalidade depois da pandemia, o então Deputy Grand Master  dizia perante a Grande Loja que envolver aqueles que já eram membros era tão importante como atrair novos e anunciava uma nova versão do Members’ Pathway, que seria implementada nas Províncias e nas Lojas. A preocupação não seria apenas explicar como trazer alguém para a Maçonaria, mas acompanhar todo o percurso desse homem depois de ele ter entrado, mantê-lo envolvido e, quando necessário, tentar recuperar aqueles que começavam a afastar-se.



Este assunto tem para mim alguma proximidade, porque em 2021 e 2022 tive oportunidade de visitar e frequentar algumas Lojas em Lincolnshire e foi precisamente nessa altura que vi o Members’ Pathway ser apresentado e começar a ganhar uma presença bastante visível. Recordo-me de ouvir falar da experiência do candidato, da forma como deveria ser recebido, do acompanhamento dos novos Irmãos, de mentoring e da importância de perceber os primeiros sinais de afastamento. Na altura achei interessante, até apresentei na nossa loja uma versão rápida sobre o que me foi apresentado.

Curiosamente, foi também em Lincolnshire que tive uma das experiências maçónicas que mais me marcou. Em Spilsby assisti, na Shakespeare Lodge No. 426, a uma sessão de Elevação a Mestre. Se tiverem oportunidade, aconselho qualquer Irmão a visitar esta Loja numa sessão destas. É difícil explicar a quem nunca teve oportunidade de assistir a algo semelhante a dimensão daquela sessão, o número de Irmãos presentes, o rigor, a solenidade, a qualidade do Ritual e até a “teatralidade” e o ambiente que se criou. É uma daquelas experiências que ficam connosco e que, arrisco dizer, qualquer Maçom deveria ter oportunidade de viver pelo menos uma vez.

Lembro-me dela agora porque me parece um bom exemplo daquilo que o DG também refere no seu texto, se conseguirmos retirar da sessão aquilo que é meramente burocrático, sobra-nos mais tempo para aquilo que só conseguimos verdadeiramente fazer quando estamos juntos. Não saí daquela sessão a pensar que tinha sido demasiado longa ou que a cerimónia deveria ter sido encurtada. Saí de lá impressionado precisamente porque tinha vivido algo que não encontrava facilmente em nenhum outro lugar.

Isto não significa que tudo o que fazemos tenha de continuar a ser feito da mesma maneira apenas porque sempre foi assim. Há coisas que podemos e devemos mudar, mas parece-me importante distinguir aquilo que demora tempo porque é burocrático daquilo que demora tempo porque precisa desse tempo. Uma acta interminável pode ser burocracia, uma cerimónia longa, bem executada e vivida por todos os presentes não o é. Uma discussão administrativa que se prolonga durante meia hora pode não acrescentar nada à sessão, enquanto uma prancha que provoca quarenta minutos de discussão entre os Irmãos pode ser precisamente uma das razões pelas quais valeu a pena termos ido à Loja nesse dia.

Talvez o problema não seja tanto a duração das nossas sessões, mas aquilo com que as preenchemos.

Foi também por isso que fui procurar com um pouco mais de atenção os números que levaram a UGLE a dar tanta importância ao Members’ Pathway, e alguns deles são bastante interessantes. Na estratégia para 2022 e os anos seguintes, a UGLE reconheceu que desde 2008 vinha perdendo, em média, cerca de 2,5% dos seus membros por ano. O que me surpreendeu foi perceber que, apesar da idade média elevada dos maçons ingleses, eles próprios afirmam que a morte não é o principal problema. Uma parte muito significativa das perdas acontece através de saídas, cessações, exclusões e de Irmãos que simplesmente se vão afastando, aquilo a que chamam quietly drift away.

Há depois um número que me parece particularmente relevante para esta discussão: 17% dos novos iniciados eram perdidos durante os primeiros três anos depois da entrada. E este é o valor médio, porque em algumas Províncias chegava aos 30%. A própria UGLE considera que muitas destas perdas são evitáveis e refere, entre outras razões, aqueles que deixam simplesmente de desfrutar da sua experiência maçónica.

Quando olhamos para isto desta forma, a pergunta muda um pouco. Já não basta perguntar como conseguimos mais candidatos, é preciso perceber também o que acontece aos candidatos que já conseguimos. Um homem interessou-se pela Maçonaria, procurou-a, passou por todo o processo de admissão, os futuros Irmãos votaram a sua entrada, foi iniciado em algo que, em princípio, poderia durar toda uma vida e, em alguns casos, menos de três anos depois já terminou. Parece-me razoável entender o porquê.

Inevitavelmente acabei por fazer o mesmo exercício olhando para a minha própria Loja. Desde que fui iniciado, há 11 anos, não me contando a mim, entraram dezasseis novos Irmãos. Desses dezasseis, sete já não estão hoje connosco, embora por razões muito diferentes. Quatro saíram da Obediência, dois mudaram de Loja e um, infelizmente, passou ao oriente eterno. Seria errado meter os sete no mesmo saco. A morte não é evidentemente um problema de retenção e os Irmãos que mudaram de Loja continuam a ser Maçons, tendo simplesmente encontrado o seu caminho noutra Oficina. Restam quatro Irmãos que, durante o mesmo período em que eu tenho feito o meu percurso, entraram e entretanto decidiram abandonar a Obediência. Falo apenas dos irmãos que foram admitidos na nossa loja, outros vários iniciados antes de mim, resolveram por diversos motivos fechar a porta do nosso templo.

Dezasseis pessoas não constituem evidentemente uma amostra estatística e não pretendo retirar daí qualquer conclusão sobre a Maçonaria portuguesa ou sequer sobre a nossa Loja. Também não sei se a responsabilidade dessas saídas teve alguma relação com a Loja, porque existem inúmeras razões profissionais, familiares, financeiras ou simplesmente pessoais que podem levar alguém a abandonar a Maçonaria. Mas os números são suficientes para me provocar uma pergunta muito simples.

Sabemos porque saíram?

E talvez esta seja uma questão que devemos fazer mais vezes. Não para procurar culpados, nem para tentar convencer alguém a ficar numa instituição onde já não quer estar, mas porque se um Irmão decide abandonar a Maçonaria deveríamos pelo menos tentar perceber se houve alguma coisa que poderíamos ter feito de outra maneira.

Há ainda uma situação que os números dificilmente mostram e que talvez seja mais comum do que uma saída formal. É o Irmão que continua inscrito, continua a pagar as quotas, recebe as comunicações e aparece no quadro da Loja, mas quase deixou de participar. Formalmente continua connosco, mas a sua ligação à Loja pode ter desaparecido há muito tempo. A UGLE chama precisamente a atenção para os membros que se vão afastando quase sem que se dê por isso e, ou seja não é apenas necessário reduzir os que saem, mas também as cessações e exclusões daqueles que se afastam muitas vezes sem serem notados.

Isto levou-me a outra pergunta, provavelmente mais importante do que qualquer taxa de churn: quando um Irmão que costumava estar presente deixa de aparecer, quanto tempo demoramos a reparar?

E, quando reparamos, o que fazemos? Telefonamos para saber se está tudo bem ou esperamos que apareça novamente? Contactamo-lo porque sentimos a sua falta ou apenas quando precisamos de cobrar uma quota, preencher um cargo ou obter resposta a alguma coisa? Parece-me que a retenção, numa fraternidade, deveria começar muito antes de qualquer programa, indicador ou estratégia, começando simplesmente no facto de repararmos que alguém que costumava estar ao nosso lado deixou de estar.

É também por isso que o caso de Lincolnshire me parece tão interessante. Não apenas porque tive alguma ligação pessoal àquela Província, mas porque alguns anos depois é possível observar os resultados do trabalho que então começava a ver ser feito. Em 2024, a UGLE publicou que Lincolnshire tinha passado de uma tendência de redução de membros de 2,2% para um crescimento de 3%, enquanto as resignações tinham descido de 20% para 5%.

Não encontraram nenhuma solução milagrosa. Trabalharam o Members’ Pathway, o mentoring, a formação, a comunicação, deram às Lojas informação real sobre a evolução dos seus membros, criaram equipas que percorreram a Província e, sobretudo, parece-me que passaram a prestar atenção de uma forma organizada à experiência de quem entrava e de quem começava a afastar-se.

É aqui que regresso ao texto do DG e onde, relendo-o, talvez perceba que estamos ainda mais de acordo do que inicialmente pensei. Quando fala em tecnologia, não está a defender que as nossas sessões sejam modernas salas de aula, cheias de ecrãs ou aplicações. Pelo contrário, propõe que a utilizemos para retirar da Loja parte da burocracia e libertar o tempo presencial para a discussão, para a reflexão e para o trabalho maçónico. E nisso concordo inteiramente.

Talvez seja precisamente essa uma das formas de responder ao problema da retenção. Quem entra hoje vive numa sociedade muito diferente daquela em que entraram os nossos Irmãos há vinte ou trinta anos, mas isso não significa necessariamente que procure dentro da Maçonaria uma reprodução dessa mesma sociedade. Um homem de trinta anos pode procurar aqui precisamente aquilo que encontra cada vez menos fora daqui: tempo para ouvir e para falar, Ritual, tradição, continuidade, convivência com homens de gerações e percursos completamente diferentes, a possibilidade de ter conversas que não acabam trinta segundos depois ou simplesmente algumas horas durante as quais o telefone não é o centro da nossa atenção.

Há coisas que não precisam de ser aceleradas e outras que talvez percam o sentido se o forem, e uma Pedra Bruta não fica polida mais depressa porque encontrámos uma aplicação para o fazer.

No fundo, talvez a retenção tenha muito menos a ver com tecnologia ou com a duração das sessões do que com a experiência que somos capazes de proporcionar. Duvido que alguém permaneça vinte ou trinta anos numa Loja porque as actas são particularmente eficientes. Fica porque construiu relações, porque sente que faz falta, porque aprendeu alguma coisa e percebeu que também tinha alguma coisa para transmitir, porque encontrou Irmãos e porque houve noites em que saiu da Loja diferente da forma como entrou.

E, provavelmente, fica também porque, quando deixou de aparecer durante algum tempo, alguém reparou.

É talvez aí que está a diferença entre um membro e um Irmão. Uma organização percebe que perdeu um membro quando olha para os seus números, a Maçonaria deveria perceber que está a perder um Irmão antes de ele desaparecer deles.

Por agora fico com uma ideia bastante mais simples. Dedicamos muito tempo e cuidado a preparar uma iniciação. Preparamos o Templo, ensaiamos o Ritual, distribuímos funções, cuidamos dos detalhes e tentamos que aquela primeira noite fique para sempre na memória daquele que atravessa a porta.

Talvez devêssemos dedicar a mesma atenção aos três anos seguintes.

Porque entrar é apenas o princípio.

 João B. M∴M∴

29 agosto 2026

Conversas com a IA: declaração pública de pertencer à maçonaria




Inspirado pelo filosofo Leandro Karnal, que em seu canal do YouTube tem sessões de conversa com a IA, resolvi colocar o ChatGPT em uma entrevista. 


Considerando que o treinamento dos models de IA é feito com dados públicos e privados, é natural que o modelo reflita parte da opinião comum da população. Claro que a maneira como as perguntas são feitas levam à uma determinada resposta, afinal a escolha das palavras pela IA é estatística e baseada nas palavras anteriores. É por isso que a IA concorda com você na maioria das vezes, exceto quando desafiada a estruturar a resposta com passos de “raciocínio”.


Na entrevista abaixo desafiei a IA a expor suas “estatísticas“ sobre a maçonaria atual e sobre o direito de permanecer à maçonaria de forma não-declarada.


Aproveitem.


Fábio: Tenho uma década de maçonaria. Fui iniciado no Brasil e, desde que moro em Portugal, frequento uma loja portuguesa. Quero saber a tua opinião sobre ser maçom nos dias de hoje.


ChatGPT: Eu não vejo a maçonaria nem como algo automaticamente positivo nem negativo. O valor depende do que ela representa para cada pessoa. Pode ser um espaço de reflexão, desenvolvimento pessoal, fraternidade e serviço à comunidade. Mas também pode perder o sentido quando se transforma em ritual vazio, disputa por cargos ou vaidade.


Fábio: Se tu virasses maçom hoje, o que buscarias dentro da maçonaria?


ChatGPT: Buscaria principalmente três coisas: pessoas com quem pudesse ter conversas profundas, desenvolvimento pessoal e uma oportunidade de contribuir para algo concreto fora da própria instituição. O ritual e o simbolismo seriam ferramentas, não o objetivo final.


Fábio: E achas que os maçons deveriam ser obrigados a declarar que são maçons?


ChatGPT: Não. Eu não acho que isso deva ser imposto simplesmente pela condição de maçom. A decisão de revelar uma filiação deveria, em princípio, pertencer ao indivíduo.


Fábio: Mas em Portugal existe uma lei que exige que determinados políticos declarem a pertença a associações consideradas secretas. Qual é a tua opinião?


ChatGPT: Eu acho que existe uma questão legítima de transparência quando falamos de cargos públicos, mas o critério deveria ser geral e objetivo. Não faria sentido criar uma obrigação especificamente para a maçonaria sem demonstrar por que ela é diferente de outras associações.


Fábio: Então, se um político pertence a um clube de futebol, a um rancho folclórico ou é sócio do Benfica, deveria declarar tudo?


ChatGPT: Não necessariamente. Eu usaria como critério a relevância para o exercício do cargo e a possibilidade concreta de conflito de interesses. Se tivermos de declarar absolutamente todas as associações às quais pertencemos, acabamos criando uma lista enorme que não necessariamente aumenta a transparência.


Fábio: Então por que a maçonaria entraria nessa categoria? Por que deveria ser declarada?


ChatGPT: Essa é justamente a questão. Eu não acho que deva ser declarada simplesmente por ser maçonaria. Para justificar uma obrigação específica, seria necessário demonstrar um critério objetivo que a diferencie de outras associações legítimas.


Fábio: Mas qual é o problema de eu ser maçom e não querer revelar isso enquanto ocupo um cargo público? Onde está o conflito de interesses?


ChatGPT: Não vejo um conflito de interesses automaticamente. O fato de alguém ser maçom não demonstra que essa pessoa vá favorecer outro maçom, assim como pertencer a uma associação não demonstra, por si só, qualquer comportamento ilícito ou antiético.


Para mim, o ponto fundamental é este: conflito de interesses deve ser identificado por interesses e comportamentos concretos, e não simplesmente pela filiação a uma determinada organização.


Fábio: Então, objetivamente: tu achas que um político deveria ser obrigado a declarar que é maçom?


ChatGPT: Não, não apenas por ser maçom. Eu defenderia regras de transparência baseadas em critérios objetivos — interesses financeiros, funções exercidas, relações profissionais ou outras situações que possam efetivamente influenciar uma decisão pública. Se a regra vale para a maçonaria, deveria haver uma razão igualmente aplicável a outras organizações.


Fábio: Entendi. Foi um prazer conversar contigo.


ChatGPT: Igualmente. Até a próxima.

22 agosto 2026

 

HUMANIDADE 3 - RESPOSTAS

Não é novidade ! Tenho insistido no objetivo do “ser Maçon” e “ser Maçon” significa a aceitação diária, permanente de “polir a pedra”, entenda-se melhorar o Homem, ajudar a Humanidade a ser “Justa e Perfeita”. É este o entendimento do “ser Maçon”, conforme aceite sob juramento é sua obrigação ajudar os outros homens a serem mais Livres, ajudar a sociedade humana a ser mais Fraterna, compreender e fazer compreender que os Homens são todos iguais na sua característica única que é o de serem humanos. É esta a coluna vertebral deste corpo maçónico. O objetivo, sobreposto a quaisquer outros interesses, é ajudar a fazer a Humanidade mais Livre, mais fraterna, mais Igual. É este o trabalho do Maçon.

E este trabalho tem sido feito ?

De facto a Maçonaria tem lutado e os Maçons têm distribuído Liberdade, Fraternidade, Igualdade pelos seus pares ? Basta ouvir e/ou ler as notícias diárias e jornais e/ou noticiários televisivos para constatarmos que o percurso para o objetivo anunciado tem sido percorrido em marcha atrás. Pelo menos aparentemente estamos cada dia mais afastados daquela finalidade.

Significa isto que a Maçonaria falhou ?

As guerras, e são várias pelo mundo, vão continuando a dizimar milhões de vidas inocentes, de homens mulheres crianças, novos e velhos, sem escolha e sem piedade.

- A vida do homem comum está dia a dia mais preza à necessidade de sobreviver com dignidade o que implica viver numa casa digna desse nome, em condições de higiene e de alimentação suficientes, para si e para o agregado familiar para o qual é fundamental a manutenção da saúde e do desenvolvimento escolar, com a Paz espiritual que só a Liberdade lhe pode trazer.

- Como se conjuga a existência lado a lado de miséria absoluta dos “sem casa” com a opulência desmedida dos que acumulam milhões, muitos milhões, vivendo no excesso absoluto do desperdício diário de bens que outros lutam a vida inteira para conseguir. Como conjugar a miséria conhecida em muitas zonas de África, Ásia e América do Sul com a opulência de muitas outras zonas da América e da Europa ? Como conjugar estes contrastes com o espírito de Fraternidade e Igualdade anunciado ?

Trouxe nestas últimas intervenções que aqui tenho feito com título genérico de “Humanidade”, vários aspetos do que é o dia a dia conhecido da nossa vida comum em sociedade. São temas que encontramos bastamente discutidos, analisados, comentados nas televisões, rádios e jornais.

É a Vida dos Homens que me preocupa e é sobre ela e as suas condições que entendo o trabalho maçónico. Homens e Mulheres, Crianças e Jovens, Velhos e Novos.

Como proclamou em devido tempo o Papa Francisco, Todos, Todos, Todos…!

Das notícias da comunicação social tirei 2 casos que:

- Uma Mãe teve um Filho, atirou-o para um Caixote do lixo e foi-se embora !

- Um homem morreu na sua casa onde vivia só e lá foi encontrado 15 (QUINZE) anos depois ! 

Acontece porém que estas são apenas 2 notícias apanhadas num conjunto vastíssimo de casos elegíveis. Estas situações acontecem, estão a acontecer com frequência. Não deveriam acontecer nunca (!), mas acontecem com frequência.

Como conjugar estas situações, e não são todas conhecidas, com o tal objetivo maçónico de Liberdade, Fraternidade, Igualdade ?

 

“Roubei” um pedaço de texto de um escrito de Valter Hugo Mãe:

a laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um album de fotografias./ depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de perder a minha mulher./ depois, ainda nessa mesma tarde, trouxeram uma imagem da nossa senhora de fátima e disseram que, com o tempo, eu haveria de ganhar um credo religioso, aprenderia a rezar e salvaria assim a minha alma. e um médico respondeu, a verdade é que ficam mais calmos. /achei que era esperado de mim um desespero motor. digo motor para dizer de acção. algo como partir coisas, revirar os moveis, agredir fisicamente os funcionários, os enfermeiros que me poderiam prender. /o quarto pequeno é todo ele uma cela, a janela não abre e, se o vidro se partir, as grades de ferro antigas seguram as pessoas do lado de dentro do edifício. /pus-me a olhar para o chão, com ar de entregue. estou entregue, pensei. aos meus pés os dois sacos de roupa e uma enfermeira dizendo coisas simples. convencida de que a idade mental de um idoso é, de facto, igual à de uma criança. /o choque de se ser assim tratado é tremendo./

ao sétimo dia, o doutor bernardo pediu-me que passasse pelo seu consultório e perguntou-me como me sentia. disse-lhe que estava bem, que o lar correspondia a um grau de qualidade admirável e que eu estava bem. ele informou-me de que a elisa, o meu genro e os meus dois netos viriam visitar-me e quis saber se isso não me seria difícil. achei muito estranho que mo perguntasse, esperaria que nos primeiros tempos de uma experiência assim toda a proximidade de família com o idoso seria benéfica. contudo, encontrava-me ali com a obrigação de lhe dizer que sim ou que não, e pensei o suficiente para trazer ao cima o pior de mim. /disse que não. que não estaria disposto a receber a minha família porque precisava de tempo para esquecer a perda da laura e a necessidade de deixar a minha casa, não queria sentir que tudo prosseguia sem mim. ainda não./ o doutor bernardo percebeu as tremuras nas minhas mãos, um nervosismo que se começava a descontrolar e respondeu, claro, senhor silva, não se preocupe. é compreensível. está a libertar-se de muita coisa e precisa de tempo, é perfeitamente normal./ eu estava a libertar-me de tudo. tinha dois sacos de roupa e uma nossa senhora de fátima miserável e mais nada. /estava livre de tudo, como é óbvio. (*)

 Este é um exemplo de Liberdade !

É esta a “liberdade” que queremos propiciar ?

 E no caso da criança despudoradamente deixada num caixote do lixo ?

Imponho-me uma pergunta.

O que leva uma Mão a cometer tal crime ?

Àh, mas crime de quem ? Que condições conduziram a este desfecho ? Como foi a vida desta Mulher até chegar a ser Mãe ? Por que miséria passou, por que miséria moral passou ? por que miséria material passou ? Que infância lhe foi dada ?

Se procurarmos a resposta a estas questões corremos de risco de concluir que afinal esta “Mulher” é uma heroína da vida, capaz de resistir provavelmente a situações que nenhum de nós imagina e às quais nem seria capaz de resistir. Isso desculpa o abandono de um Filho ? A primeira resposta é um claro não ! Mas…

Atrevo-me a dizer-vos isto.

Não, mas…

Não sei !

 Este é um exemplo de Igualdade !

É esta a Igualdade que queremos distribuir ?

 “ Um homem morreu sozinho e ninguém reparou. A solidão é um apagamento vagaroso. O que dói mais não é ter morrido sozinho, é ninguém ter sentido a sua ausência”, considerou Pedro Chagas Freitas antes de rematar, “aquela porta 12, a do apartamento dele, ficou fechada durante 15 anos. Ninguém notou. Acho que não foi só a porta dele que ficou fechada. Acho que foi mais a nossa. Quando morrer não quero um grande funeral. Quero apenas que alguém repare que deixei de estar”.

Deixemos correr o “Humano” à volta das respostas a estas perguntas na esperança de que a Fraternidade, que também queremos distribuir, encontre respostas e soluções.

Será ?

Vamos confiar.

Basta que cada Maçon levante um dedo e a Maçonaria pode provocar um furacão.               A Humanidade precisa urgentemente de um furacão de Liberdade, de Igualdade, de Fraternidade. Vejamos o que pode a Humanidade esperar dos Maçons para além das intenções e dos juramentos.

É urgente, é muito urgente, passar a ações.

É urgente, é muito urgente, passar a ações !

 Agosto/6026

J.Paiva Setúbal (MM:.)

15 agosto 2026

O Sol esteve sempre lá!

Na passada quarta-feira, dia 12, como muitos outros portugueses, parei para observar o eclipse do Sol. É algo que normalmente só vemos acontecer noutros sítios, mas desta vez calhou-nos a nós. Há mais de um século que não se via algo assim por terras lusitanas, o anterior aconteceu em 1912. O próximo? Teremos de esperar até 2144 para voltar a ter um eclipse total do Sol em território português, ou seja, segundo a lei da vida, será algo único para nós.




Sendo algo tão raro, todos quisemos observar a Lua a avançar lentamente sobre o Sol e depois a deixá-lo para trás novamente. Algo lógico, conhecido e perfeitamente explicado do ponto de vista astronómico, mas, fazendo um dos nossos paralelismos, notamos que o Sol continuou exatamente onde sempre esteve, com a mesma dimensão e a produzir a mesma luz. Não perdeu intensidade, não se apagou e não desapareceu. Apenas, e durante algum tempo, alguma coisa se colocou entre o Sol e nós.

Para quem é maçom e sabe que a Luz assume um significado muito importante na nossa Ordem, penso que não será difícil encontrar aqui matéria para alguma reflexão. Falamos muitas vezes da procura da Luz, de caminhar em direção à Luz, de a receber e de procurar compreender aquilo que ela representa. É natural que pensemos nessa Luz como algo que ainda não temos e que, através do conhecimento, do trabalho e do nosso próprio aperfeiçoamento, procuramos alcançar.

Mas talvez, algumas vezes, o problema não seja encontrar a Luz. Talvez seja perceber aquilo que se colocou entre ela e nós.

No eclipse é evidente, conhecido, estudado e calculado, é a Lua. Sabíamos porque estava ali e sabíamos que continuaria o seu percurso. Mesmo quando grande parte do Sol deixou de ser visível, ninguém pensou que ele tivesse desaparecido, só tínhamos de esperar que a Lua continuasse o seu caminho e saísse da sua frente.

Na nossa vida as coisas não são tão facilmente identificáveis. Entre nós e aquilo que procuramos ver podem colocar-se o orgulho, a vaidade, os preconceitos, a intolerância, o medo de reconhecer um erro, as nossas certezas ou simplesmente a convicção de que já sabemos aquilo que precisamos de saber. E nenhuma dessas coisas altera a realidade que existe do outro lado, altera apenas a forma como nós conseguimos vê-la.

O mais difícil talvez seja perceber que alguma coisa se colocou à nossa frente. É relativamente fácil reconhecer os preconceitos dos outros, as certezas dos outros ou as vaidades dos outros, mas muito mais difícil é identificar as nossas, sobretudo porque continuamos a olhar para aquilo que temos diante de nós convencidos de que o vemos exatamente como ele é. A Alegoria da Caverna de Platão é, a propósito, uma boa leitura. Durante o eclipse sabíamos que a luz estava tapada, na vida nem sempre temos essa consciência.

Foi essa ideia que me ficou daquele eclipse. Durante algum tempo parecia que o Sol estava a desaparecer, quando na realidade nada tinha mudado nele. A alteração estava apenas entre o Sol e eu. Depois, a Lua continuou naturalmente o seu percurso e fomos voltando a ver aquilo que tinha estado oculto. E o Sol não regressou! Ele esteve sempre lá, nunca se foi embora. O que desapareceu foi aquilo que se tinha colocado entre nós.

Talvez aconteça algo semelhante connosco mais vezes do que pensamos. Procuramos respostas, procuramos conhecimento e procuramos Luz, quando por vezes talvez devêssemos descobrir o que é que se colocou entre nós e aquilo que procuramos ver.

Na passada quarta-feira, a resposta era fácil. Era a Lua. Nos outros dias, provavelmente teremos de trabalhar um pouco mais para a encontrar.

João B. M∴M∴

08 agosto 2026

A conversa que ninguém quer ter

   

Introdução

O presente artigo é uma reflexão sobre um artigo que saiu no Financial Times (Link do artigo) e que retrata a realidade da maçonaria regular na Inglaterra, assim como as dificuldades que tem tido no recrutamento e na consequente continuação.  

É inegável que a maçonaria teve uma grande importância no desenvolvimento dos ideais iluministas, na forma de pensar e mesmo na conduta dos governos do final do séc. XIX e no decorrer de todo o séc. XX. Desde o seu início em 1717 que a maçonaria esteve empenhada em construir o grande edifício que é a sociedade. Umas vezes construiu edifícios fortes, noutras edifícios mais frágeis, sem nunca, claro está, haver alguma polémica por trás.  

A maçonaria regular como irmandade iniciática tem algumas características que a definem: a beneficência e a ritualística filosófica. No que concerne à primeira, há várias associações que o fazem de forma muito eficiente e que dispensam toda a ritualística da maçonaria. Refiro-me a associações como o Lions Club, Rotary Club, entre outros que têm uma grande expressão a nível mundial e com atividade permanente. No fundo o que estas associações fizeram foi profissionalizarem-se em ações de caridade. Neste campo, a maçonaria é um primo afastado amador, visto não ter aprimorado esta sua faceta de beneficência. Estas associações retiraram aquilo que parecia desnecessário, fazendo jus a uma missão única: as ações de caridade. Por outro lado, a faceta ritualística e filosófica da maçonaria é aquela que menos se sabe. Através de alegorias e lendas, vai-se rectificando o carácter do maçom. Embora a iniciação tenha um carácter regenerador do homem, a verdade é que nem tudo é regenerado, apenas aperfeiçoado. É neste âmbito que a filosofia toma um carácter importante para o aprimoramento do Homem que a seguir servirá de modelo para o aperfeiçoamento da humanidade.  

O que não foi referido acima foi o networking. As ligações de trabalho também existem na maçonaria, embora não se devam confundir com a maçonaria. Quero com isto dizer que são uma característica natural da associação de pessoas. Ou seja, quem é que é convidado para esta irmandade discreta? Os amigos ou os colegas de trabalho, não necessariamente com o intuito de obter benefícios laborais (também há quem o faça), mas sim com o intuito do aperfeiçoamento daquele que parece que se daria bem com a forma de trabalho da maçonaria. Talvez seja esta a forma que mais intriga a sociedade. O networking em demasia leva ao favorecimento o que, como se pode verificar através das notícias, é mau para o indivíduo e para a ordem maçónica, em geral.  


Queremos um novo modelo ou apenas um aperfeiçoamento do que já existe?

Posto isto, vamos ao cerne da questão. O artigo mencionado mostra que a maçonaria regular inglesa está com dificuldades de recrutamento. Os seus membros têm, em média, mais de 60 anos de idade, sendo que atualmente cerca de 47% dos novos iniciados têm entrado com menos de 40 anos. Para o leitor que está a ter contacto com esta temática agora, pode-se entrar para a maçonaria regular em Portugal a partir dos 21 anos.  

A questão que se põe é: como podemos recrutar gente mais jovem e mantê-los nas fileiras, aumentando a taxa de retenção? Todos sabemos que os interesses de cada um se vão alterando ao longo da idade. Aconteceu comigo, acontece com outros Irmãos, e até mesmo com outras pessoas não iniciadas, ou profanos. E está tudo bem. É uma evolução natural da nossa personalidade. Enquanto que aos 20 anos somos fisicamente mais ativos, à medida que a idade vai avançando vamos tendo outras faculdades e outros interesses, não necessariamente de âmbito físico, talvez até mais de âmbito filosófico e racional. No entanto a pergunta mantém-se: Como vamos chamar e manter os jovens?  

A resposta está em olhar para os interesses geracionais e a sua possível evolução. Olhando para as gerações mais jovens verifica-se que existe repúdio por burocracias e atos desnecessários, interesse em assuntos filosóficos atuais e procura pela facilitação da vida quotidiana através do uso da tecnologia. No entanto, quase como uma antítese do uso das tecnologias, há uma crescente intenção de sair do mundo tecnológico das redes sociais e de as restringir.  

É isto que as novas gerações procuram: ir ao cerne da questão e trabalhar nesse cerne aperfeiçoando-o, sem demagogias nem atos acessórios. Com isto podemos arquitetar um modelo que, por um lado, não sai do modelo tradicional da maçonaria, mas que também não vai contra as expectativas de uma geração inteira. As novas gerações não querem perder tempo a corrigir presencialmente uma ata, mas provavelmente gostam de uma boa discussão filosófica, longe dos telemóveis e dos influencers. Não gostam de escrever textos longos, nem de os ouvir, preferindo temas com exposições mais curtas e mais tempo de discussão e reflexão. As burocracias, para eles, podem ficar nos telemóveis, assim como tudo o que vem das redes sociais e do mundo profano. Esta geração também não quer andar constantemente a mudar a cassete entre ritualística e ações de caridade… ou somos uma coisa ou outra, ou as duas ao mesmo tempo, sendo que numa somos amadores e noutra perdemos pouco tempo.  


O aperfeiçoamento

Tudo leva a crer que o caminho é o do aperfeiçoamento do que já existe para que, por um lado, não se perca a essência da maçonaria e, por outro, exista uma evolução lógica e racional mantendo-se o foco naquilo que é mais importante. Os pontos que coloco abaixo não são uma “fórmula resolvente”, mas sim alguns pontos para todos refletirmos como um possível caminho a percorrer.  

As características que as lojas devem ter:

 Administração desburocratizada: Não perder tempo com discussões presenciais sobre correções a atas, dados de obreiros, o que devemos colocar no site, etc.  

 Uso de tecnologias em loja apenas quando necessário: Usar tecnologias apenas para registo de atas, música e consulta rápida de regulamentos.  

 Ações de caridade apenas quando necessário: Não usar mais do que uma sessão para discussão de assuntos relativos a ações de caridade. Usar tecnologias para dar o mote e referir alguns pormenores; a discussão em loja deve ser apenas para aprovação ou reprovação de ideias.  

 Uso de temas filosóficos: Levar para a loja temas filosóficos e reflexões do mundo profano. Usar situações do dia-a-dia para referir a forma como os valores maçónicos podem ser corretamente usados.  

 Trabalhos enviados em antecipação à discussão em loja: Os textos e ideias devem ser curtos (não mais do que 5 minutos de exposição), sendo que devem ser enviados com uma antecedência de 2 a 3 dias. Não é no momento da exposição que se reflete. O ato de reflexão exige tempo e dedicação; não é no momento em que, muitas vezes, vimos do trabalho cansados, que vamos conseguir refletir sobre determinado tema e ainda falar sobre ele perante os irmãos.  

 Evitar o networking do “amiguismo” e dos aproveitamentos institucionais.  


Conclusão

Não se pretende que este artigo seja um corolário do que deve ser uma loja maçónica atual, mas sim o ponto inicial para uma discussão saudável do futuro desta instituição secular. A maçonaria só sobreviveu porque teve capacidade de adaptação. Por exemplo, antes da 1ª Guerra Mundial, só homens perfeitos (com todos os dedos, mãos e pés) podiam fazer parte da maçonaria. Após este conflito, chegou-se à conclusão que os homens teriam de ser perfeitos na sua consciência. Foi esta adaptação que fez com que muitos Irmãos não saíssem da maçonaria após terem ficado decepados dos seus membros.


Vamos discutir este tema?


D∴ G∴