04 julho 2026

O Primeiro Passo

Na última sessão da nossa Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues tivemos a alegria de receber um novo Irmão, o João A.


Há momentos que, por mais que os queiramos explicar, perdem sempre qualquer coisa quando passam para palavras, a iniciação é um desses momentos. Não porque tenha de ser escondida atrás de mistérios exagerados, nem porque precise de ser envolvida em dramatismos desnecessários, mas porque há experiências que simplesmente têm de ser vividas. E cada um vive a sua iniciação à sua maneira, cada Maçom guarda dela memórias diferentes, emoções diferentes, silêncios diferentes e até dúvidas diferentes. Talvez seja precisamente essa vivência tão própria que torna a iniciação tão especial, todos batemos à mesma porta e todos somos recebidos da mesma forma, o caminho que trilhamos é que nunca é o mesmo.

Quem já passou por ela sabe do que falo, quem ainda não passou, por muito que leia ou que lhe expliquem, nunca conseguirá perceber verdadeiramente o que se sente naquele caminho entre a profanidade e a Luz, entre aquilo que se deixa para trás e aquilo que começa a nascer dentro de nós. A quem vier por bem e com vontade sincera de se melhorar, resta apenas dizer que tudo comoeça com um simples bater à porta.

Agora, ponto importante. A iniciação não faz, como por magia, de um homem um Maçom completo, longe disso. Se assim fosse, a Maçonaria seria apenas uma cerimónia bonita. E não é. A iniciação é antes o primeiro passo, é o momento em que alguém bate à porta, é recebido, é confrontado consigo próprio e começa uma caminhada que, se for levada a sério, nunca mais termina.

Talvez seja isso que a torna tão especial, não é o segredo ou o "aparato" ritual. Não é nem sequer a emoção natural do momento, penso que seja a percepção que estamos perante alguém que decidiu começar a trabalhar a sua pedra bruta, acompanhado por outros homens que, no fundo, continuam exatamente no mesmo trabalho.

Nenhum maçom é Justo e Perfeito, no fim de contas somos homens, mas almejamos e trabalhamos para que passo a passo, nos tornemos um pouco mais justos e perfeitos que no passo anterior. Todos continuamos a aprender, a cair, a corrigir, a melhorar, a discutir, a ouvir, a duvidar. A crescer.

Na passada quarta-feira, a Loja esteve viva. E quando uma Loja está viva, sente-se. Sente-se no silêncio, na atenção, nos gestos, nos olhares e naquele sentimento difícil de explicar de que algo importante aconteceu ali, mesmo que o mundo lá fora continue igual.

Ao João A., desejo que encontre entre nós não apenas uma Loja, mas uma Oficina. Um lugar onde se trabalha, onde se aprende, onde se serve e onde se cresce. Que encontre Irmãos verdadeiros, daqueles que ajudam, corrigem, acompanham e também sabem rir à mesa depois dos trabalhos.

A iniciação é só o primeiro passo. Mas há primeiros passos que mudam para sempre a forma como olhamos o caminho.

E talvez seja essa a verdadeira magia maçonica.

João B. M∴M∴

27 junho 2026

A Prancha que Não Te Pertence


Você já notou que as pranchas sobre o esquadro e o compasso dizem todas a mesma coisa? Não aproximadamente. Exatamente a mesma coisa, às vezes na mesma ordem.

Obviamente, isto não é coincidência. A maioria dos irmãos não escreveu o que apresentou.

Existe uma ecologia de textos maçônicos circulando em grupos de WhatsApp, em blogs, em arquivos de Word que circulam sem rastreio. Alguém pesquisa, copia, ajusta dois parágrafos, coloca o nome. O trabalho está feito. A loja ouve. O irmão senta. Ninguém fala nada.

Eu entendo o impulso. Um Google, um chatgpt e voilá. Preparar uma prancha do zero é trabalhoso, e a maioria de nós chega ao dia marcado com pouco tempo e muita pressão. Um rascunho de outra pessoa parece uma saída razoável. O problema é que ele resolve a situação de forma incorreta. A Loja não precisa de mais uma exposição sobre o Esquadro. É o aprendiz que apresenta que precisa ter pensado no que aquele símbolo significa para ele.

Isso é diferente.

Quando você passa meses tentando articular por que aquele símbolo significa algo para você — errando, descartando, voltando — alguma coisa muda e não é no texto. É em você. É exatamente isso que deveria estar acontecendo no período de aprendiz. Pegar o atalho não é apenas desonesto; é desperdiçar o único momento em que esse trabalho funciona e se torna uma engrenagem bem oleada para o futuro da caminhada.

O problema maior é o que a cópia constrói ao longo do tempo: uma loja onde ninguém diz nada novo, onde ninguém explica os símbolos de forma diferente, onde a discussão após a prancha vira um exercício de confirmação coletiva ou de massacre pelo massacre. Fica chato. Fica vazio. E fica uma lacuna que talvez nunca seja preenchida no quadro da loja ou na cabeça de quem apresentou. 

Sou grato de fazer parte de uma loja onde isso é raro. Tenho escutado trabalhos que vão muito além da mesmice e do óbvio. Alguns incomodam; outros forçam o cérebro a pensar até a última vírgula. Muitos vêm acompanhados de uma pesquisa extensa em fontes não convencionais. E isso diz muito sobre as qualidades dos meus irmãos.

Não existe um protocolo que resolva isso. Só o hábito pessoal de sentar com a página em branco e trabalhar. O caminho mais rápido não é o que leva mais longe. 


Fábio Serrano M∴M∴

20 junho 2026

Ser Companheiro

Entre o entusiasmo do Aprendiz e a maturidade do Mestre existe um caminho muitas vezes esquecido, o caminho do Companheiro!


O Aprendiz trabalha sobre si mesmo, aprende o silêncio, a disciplina e a observação. Descobre, também, que a pedra mais difícil de desbastar já foi encontrada, não longe mas mesmo assim muitas vezes é preciso um espelho para percebe que é a sua própria pedra bruta. Com o tempo, mais curto ou mais longo, mas seu e só seu, o aprendiz percebe que é o momento em que esse trabalho interior já não basta, é preciso levantar os olhos da pedra e compreender a construção.

Ser Companheiro é precisamente isso.

É deixar de olhar apenas para a tarefa e começar a perceber a Obra, é aprender a medir, a comparar, a questionar e a procurar conhecimento. Não por mera curiosidade intelectual, mas porque cada novo saber amplia a nossa capacidade de servir.

No Rito Escocês Antigo e Aceite, o Companheiro é convidado a percorrer um caminho marcado pelos cinco sentidos, pelas artes liberais e pelos instrumentos que permitem transformar a matéria em harmonia. Descobrir que a força sem sabedoria é insuficiente e que a sabedoria sem acção permanece estéril.

Talvez por isso este seja um dos graus mais actuais da Maçonaria, mesmo sendo o mais incompreendido. Hoje em dia vivemos uma época rica em informação, mas pobre em compreensão e o Companheiro recorda-nos que conhecer não é acumular factos, mas sim aprender a relacioná-los, a encontrar significado e a colocá-los ao serviço de algo maior do que nós próprios.

Ser Companheiro é continuar a trilhar o próprio caminho, já depois do início do percurso, mas ainda longe do seu destino final. É aceitar que a verdadeira aprendizagem não termina com a iniciação, pelo contrário, é aí que realmente começa.

Porque a pedra pode estar mais lisa, mas o Templo ainda está longe de concluído e muitas mais polidelas serão necessárias para que ela encaixe de forma quase justa e quase perfeita.

João B. M∴M∴

13 junho 2026

Quem controla o mundo?



Na passada semana iniciou-se a WWDC 26, o tão esperado encontro anual da Apple no qual são anunciadas as novidades tecnológicas para o ano seguinte. Neste encontro foram reveladas as atualizações dos sistemas operativos da marca — com grande destaque para o iOS —, abrindo-se as portas ao futuro do software que dita o rumo de todo o ecossistema. No fundo, para entusiastas ou não, é um evento que nos dá uma noção clara das mais variadas inovações que, muito em breve, vão caber no nosso bolso.

Neste evento, as expectativas estavam todas viradas para a apresentação da nova Siri. Sejamos honestos: a Siri nunca se afirmou como um motor propriamente inteligente. No entanto, após um investimento anual de mil milhões de euros por parte da Apple no desenvolvimento da sua nova Inteligência Artificial, esperava-se que a assistente ganhasse finalmente "mais neurónios". Vale a pena recordar que, até agora, as mudanças de sistema operativo nunca tinham discriminado os equipamentos mais recentes; desde que um dispositivo estivesse dentro do leque de suporte da marca, recebia, de uma forma geral, o software mais atualizado da maçã.

Mas nesta WWDC aconteceu algo inédito: apenas os equipamentos equipados com os chips mais recentes e com capacidades elevadas de memória terão acesso à "Super Siri". Isto acontece porque as novas valências da IA exigem especificações de hardware muito particulares para correrem localmente no dispositivo. Na prática, isto significa que aparelhos com apenas um ano de vida vão ficar privados das atualizações mais modernas — algo nunca antes visto na história da Apple.

À partida, a evolução parece espetacular, mas precisamos de estar atentos aos meandros desta questão. Qual é o fator diferenciador? A IA. O que fez com que um dispositivo topo de gama ficasse "obsoleto" apenas um ano após o lançamento? A IA. Claro que estes aparelhos continuam a funcionar muito bem, mas a perceção do utilizador já não é a mesma. Se juntarmos a isto a competição feroz entre os gigantes dos motores de IA (como a Google com o Gemini, a Anthropic e a OpenAI), temos um retrato claro das tecnologias que controlam o mundo atualmente.

O avanço vertiginoso da Inteligência Artificial está a fazer com que o próprio hardware não consiga acompanhar o ritmo do software. Mesmo para quem, até agora, olhava com ceticismo ou pessimismo para este recurso, o cenário atual acaba por ser assustador, dada a rapidez com que esta tecnologia se torna cada vez mais autónoma e capacitada.

Olhando para este cenário sob uma perspetiva de busca pelo conhecimento e de constante aperfeiçoamento social, o que é que tudo isto tem a ver com a Maçonaria?

Tudo e nada. Por um lado, partilha o princípio de que temos de estar atentos à evolução do mundo — não só para conhecermos as novidades, mas para compreendermos as suas repercussões no futuro da humanidade. Há toda uma geração que vai nascer e crescer com este recurso omnipresente. Que aptidões cognitivas vão desenvolver? Como será o mundo digital daqui a escassos cinco anos? E o futuro dos conflitos armados, haverá frotas de drones autónomos com IA a substituir os humanos no terreno?

Todas estas perguntas podem parecer especulativas hoje, mas são realidades emergentes às quais não podemos fechar os olhos

06 junho 2026

                                                        

                                                                 AREIA OU PEDRA ?

Este texto não é novo. É recuperação e atualização de um pequeno escrito de há cerca de 20 anos, mas cuja base, no entanto, é muitíssimo mais antiga, certamente com uns séculos de idade.

Diz uma lenda árabe que dois Amigos viajavam pelo deserto e num determinado momento da viagem, durante uma discussão, um deu uma bofetada no outro. Este, ofendido, mas sem poder fazer nada, escreveu na areia “HOJE, O MEU MELHOR AMIGO DEU-ME UMA ESTALADA.”

Seguiram a caminhada e chegando a um Oásis foram tomar banho. O que levou a estalada, precipitado e magoado, ficou em risco de se afogar. Logo o Amigo correu a atirar-se à água, salvando-o. Ao recuperar-se pegou num canivete e gravou numa pedra “HOJE, O MEU MELHOR AMIGO SALVOU-ME A VIDA”.

Intrigado o Amigo perguntou: - Porque é que depois que te bati escreveste na areia, e agora que te salvei  escreveste numa pedra ?

Sorrindo, o outro Amigo respondeu: - Quando um grande Amigo nos ofende, devemos escrever onde o “vento do esquecimento” e o perdão se encarreguem se passar e apagar a lembrança.  Por outro lado quando algo de grandioso nos acontece devemos gravar isso na memória e no coração, onde nem o vento possa passar e apagar.

 Ora bem, trago-Vos a história desta lenda pela conotação que nela encontro com o espírito que orienta os Maçons.

Pequeno intervalo: Uso conscientemente o verbo “orientar”. Poderia ter usado o seu sinónimo, neste caso “nortear”. A questão é que de facto para nós, é do oriente que vem a orientação ! A norte está a aprendizagem. Indispensável, contínua, sempre inacabada, mas recebendo a orientação que a conduzirá pelo percurso maçónico.

A comunidade maçónica, baseada espiritualmente no Grande Arquiteto Do Universo, interpreta a Humanidade como uma irmandade de homens com um objetivo comum.

Desde a Iniciação que o Maçon é ensinado a trabalhar a pedra, não a areia.

 O que aconteceria se o Templo de Salomão tivesse sido construído com areia ? E o que acontece se a marca do nosso relacionamento tiver a consistência da areia ?

A mais leve brisa levaria o templo, tal como levará a relação entre humanos se não cuidarmos do material com que a construímos.

Que a relação entre os homens, e em especial entre os Maçons, seja construída em pedra, bem rija, para que perdure pelo tempo, resistindo às chuvas, aos ventos, às intempéries sejam elas quais forem.

 Se a relação entre os homens não for suficientemente sólida como resistirá ao primeiro temporal ?

E há temporais ! Não vale a pena fingir que o “bom tempo” é permanente. Nada é permanente ! Muito menos o “bom tempo”.

Se queremos um mundo melhor não há alternativa que não seja agarrarmo-nos às ferramentas e trabalharmos, conscientemente, persistentemente, a pedra talhando nela as nossas relações, reproduzindo nela a nossa vontade de mais Liberdade, maior Igualdade, verdadeira Fraternidade.

A vida, entenda-se a existência humana integrada nas regras sociais definidas/impostas pelas organizações políticas gestoras das sociedades nacionais, encarrega-se de fazer surgir a cada momento dificuldades cuja resolução pede imaginação e frequentemente muito trabalho. Diz um ditado popular que “é nas dificuldades que se conhecem os Amigos”. Pois bem, é nesta evidência que os Maçons se enquadram.

Pequeno intervalo: Recordemos que o local de trabalho do Maçon é a Humanidade, mas é na Loja que Ele mantém o estaleiro onde guarda o material, os desenhos, as ferramentas da obra que, deseja-se, vá erguendo à Sua volta. Mais, é na Loja que o Maçon encontra os Companheiros-obreiros que o auxiliam na resolução das dificuldades que a engenharia da vida Lhe propõe permanentemente.

Com alguma frequência lembramos a Cadeia de União, quiçá o símbolo maior da Maçonaria.

Temos consciência da força com que apertamos as mãos dos companheiros ao nosso lado ?Será capaz de resistir a um abanão forte ? Será ?

Depende de cada um dos “nós” desta Cadeia. Se cada uma das ligações for em Pedra dura, certamente poderá resistir aos abanões, às tempestades da vida, mantendo a Cadeia unida.

Se alguma destas ligações, basta apenas uma, tiver sido construída com “areia”, a cadeia desmanchar-se-á ao primeiro ventinho que se levante.

Este apertar firme das mãos significa disponibilidade mental para sacrifícios por vezes complicados, muitas vezes afastamento de benefícios, frequentemente abandono de vantagens. É no entendimento destas relações que o capital maçónico cresce. É este o investimento que vale a pena. É isto o trabalho na pedra dura, sendo que temos de perceber e estar para isso mentalmente despertos, de que por vezes a pedra é mesmo muito dura.

Perdoar, aceitar diferenças, ajudar são as atitudes que se espera do Homem “justo e perfeito”.

É importante ouvir, mais do que falar;

É importante perceber, mais do que interpretar;

É importante fazer, mais do que prometer;

É importante o “nós”, mais do que o “eu”;

É importante a Verdade !

O mundo está em guerra, qual vendaval, terrível intempérie que se abate sobre muitas regiões do globo, na verdade sobre quase todas as regiões do globo. Quando não são tiros e bombas são a miséria, a discriminação e o abandono,

Os Maçons têm de sentir o chamamento à primeira linha do combate.

As guerras têm sido quase sempre fruto de cegueira religiosa.

Das “guerras das religiões” passámos a um outro estado. O homem “progrediu” para a “religião das guerras”.

O “deus” hoje chama-se “guerra” e as bombas, os drones, os carros de combate são os seus “santos”, cada dia mais “santos”, cada dia fazendo mais e maiores “milagres”, o que significa cada dia mais mortais.

É esta a religião que os pregadores atuais espalham pelo mundo. Por todo o mundo, na expectativa de que um dia, de algumas das suas bombas mais mortíferas saia um “representante divino” justo e perfeito. Certamente ainda não conseguiram a bomba tão violenta que justifique tal “milagre”. Mas a esperança mantém-se e as tentativas são diárias.

A Maçonaria tem a ver com o estado do mundo atual ? Claro que tem !

Por um lado diagnosticando os “nós” da “cadeia de união” humana que estão construídos com areia, depois auxiliando ou provocando a sua eliminação e finalmente reconstruindo esses “nós” com pedra bem dura.

Se a Cadeia de União é o símbolo maior da Fraternidade Maçónica, façamos com que esse seja o objetivo, façamos por aí o nosso caminho, com uma vontade que não quebre nem amoleça.

Talhada na pedra. Não na areia.

Jun/6026

J.Paiva Setúbal (MM)

  

 

30 maio 2026

Visita ao Templo Ecumênico Universalista de Miranda do Corvo

Foto: https://www.adfp.pt/agenda/sentenca-templo-conferencia-de-imprensa

No último sábado, um grupo de irmãos da Loja Mestre Affonso Domingues, junto com as suas famílias, fez-se à estrada para uma viagem pelo centro do país — um dia que se revelou uma excelente oportunidade de convívio.

O nosso primeiro destino foi o Templo Ecuménico Universalista, em Miranda do Corvo. É um lugar singular e de uma serenidade imensa, que surpreende logo pela sua impressionante estrutura piramidal. O acesso ao topo faz-se por um percurso pedonal onde fomos acompanhados por frases de vários pensadores e por pedras no pavimento que representam os sete pecados capitais, ilustrando os obstáculos e as dificuldades da jornada humana.

Depois de passarmos o portão ladeado por duas grandes colunas de pedra, explorámos o interior do templo, cujo grande destaque é o Observatório das Religiões — um espaço de módulos interativos que percorrem 15 religiões de todo o planeta. A visita inclui ainda uma ala mais sombria, dedicada à intolerância religiosa e à memória das vítimas dos fundamentalismos.

O que mais me marcou foi que o lugar está repleto de simbolismo e que nada, nem mesmo as flores, ali está sem significado. Vivemo-lo em plena harmonia, em sintonia com a mensagem de paz e universalidade do espaço.

Depois desta manhã enriquecedora, descemos à vila e fomos almoçar ao restaurante Casa Velha. À volta da mesa, a fraternidade continuou, agora acompanhada pelos sabores da cozinha regional. Começámos com pataniscas de bacalhau que abriram o apetite na perfeição e, a seguir, uma chanfana irrepreensível, servida nos caçoilos de barro negro, marca da região.

Como se a manhã já não fosse suficiente, passámos a tarde de modo mais descontraído no Parque Biológico da Serra da Lousã, a caminhar entre árvores e a observar animais selvagens de perto. O parque é também um exemplo notável de conservação e inclusão social, e fechou o passeio da melhor maneira possível.

Regressámos a casa ao final do dia com a certeza de que estes momentos de convívio, marcados pela simplicidade, pela descoberta e pela amizade, mostram que a maçonaria e a fraternidade não precisam  (nem devem!) acontecer apenas entre as paredes do templo.

Fábio Serrano M∴M∴

23 maio 2026

O Líder Anónimo: Entre o Templo Interior e a Construção da Carreira

A construção de uma sociedade é feita com muitas pedras e personalidades diferentes. Nenhuma é melhor do que a outra; todas colaboram na sua edificação. É da interação de cada um desses elementos, dos seus desentendimentos e das suas diferenças, que as sociedades se tornam mais ou menos prósperas, mais ou menos trabalhadoras, mais ou menos fraternas.



As relações de trabalho são dinâmicas sociais onde existem várias interações, linhas hierárquicas, estruturas de poder e de cooperação. O conjunto destes laços — e de muitos outros que aqui não foram enumerados — tem um impacto prático, que é o produto visível de todo este esforço conjunto. Nesta reflexão, focar-me-ei em duas formas de liderança e exercício do poder...


Como se pode verificar, estamos a falar de altos cargos de uma empresa ou de um órgão do Estado; de alguém que tem o poder de escolher pessoas. É na intenção dessa escolha que nos vamos concentrar, pois é aí que reside o problema. As escolhas das pessoas para os altos cargos nunca são fortuitas. Quem escolhe para seu benefício próprio está a matar a própria instituição e a dar mais vida à sua carreira. Por outro lado, quem escolhe para o bem da instituição vai enaltecer a mesma, colocando-se, muitas vezes, num lugar de anonimato.


Quem está mais certo? Não há soluções para tudo. Podemos dizer que, neste caso, o maior construtor é o anónimo, pois esse está a construir um templo duradouro. O outro está a construir-se a si mesmo, ou melhor, à sua carreira. Um é cheio de altruísmo, o outro é vazio por dentro. No final, o que fica é o trabalho duradouro.