01 agosto 2026

O Peso do Malhete

Na primeira sessão de Julho, fui eleito Venerável Mestre da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues, e escrever ou até pensar nesta frase ainda me parece estranho. É uma mistura de orgulho, alegria, gratidão e, há que dizê-lo, também de algum peso. Ainda não fui instalado, nem tão pouco me sentei na Cadeira de Salomão ou peguei no malhete de VM, mas penso que comecei a sentir o peso da responsabilidade no momento em que o resultado da votação foi anunciado.

Na nossa Loja, como em outras, existe a tradição de o caminho até ao Oriente não aparecer de repente, vai-se fazendo através do exercício de diferentes cargos, primeiro observando, depois ajudando, assumindo responsabilidades e aprendendo a olhar para a Loja de diferentes lugares. É um percurso que se vai preparando e que, de alguma forma, também se vai esperando e até ambicionando.

Mas uma coisa é sabermos que estamos nesse caminho, outra é chegar o momento em que os nossos Irmãos são chamados a votar. Por muito que a tradição da Loja apontasse nesse sentido, por muito que o meu nome já tivesse sido proposto e por muito que racionalmente tudo parecesse encaminhado, ficou sempre aquele nervo miudinho. E penso que ainda bem.

Talvez o dia em que alguém aguarde uma votação destas com absoluta indiferença seja também o dia em que o malhete não lhe assente como deveria, pois aquele nervosismo não nasce da possibilidade de não sermos eleitos, mas sobretudo da consciência de que estamos a pedir aos nossos Irmãos algo muito mais importante do que um voto, estamos a pedir-lhes a sua confiança.

Ser Venerável Mestre não é ser dono ou mandante da Loja, nem sequer ser o seu elemento mais importante. a Loja não lhe pertence, ela é de todos os Irmãos que a constituem, aos que hoje nela trabalham, aos que antes de nós a construíram e também àqueles que um dia receberão aquilo que formos capazes de lhes deixar.

O Venerável Mestre recebe um malhete, mas não recebe com ele sabedoria automática. Senta-se no Oriente, mas não passa por isso a ser o dono da Luz. Pode dirigir os trabalhos, organizar, decidir quando necessário e procurar indicar um caminho, mas a autoridade não nasce apenas do cargo ou do som do malhete, constrói-se na coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz, na capacidade de ouvir, no equilíbrio das decisões e, principalmente, no reconhecimento dos Irmãos.

É essa talvez a parte mais exigente.

Ideias não faltam. Quero ajudar a construir uma Loja viva, participada e fraterna. Uma Loja com Colunas fortes, onde os Aprendizes encontrem espaço para crescer, os Companheiros sintam vontade de trabalhar e os Mestres assumam a responsabilidade de transmitir aquilo que receberam. Uma Loja que cuide do seu Ritual, da sua memória e dos seus Irmãos, que seja capaz de preservar a tradição sem ter medo de preparar o futuro.

Nenhuma ideia se fará apenas porque o Venerável Mestre assim o deseja, uma Loja viva não se constrói a partir do Oriente, constrói-se em todo o Templo. Faz-se com os Vigilantes, com os Oficiais, com os Mestres, com os Companheiros e com os Aprendizes. Faz-se com os que apresentam ideias, com os que as discutem, com os que ajudam a concretizá-las e também com aqueles que, fraternalmente, nos alertam quando entendem que estamos a seguir pelo caminho errado.

Não tenho a ilusão de que farei tudo bem. Seguramente cometerei erros, continuo, afinal, a trabalhar a minha própria pedra bruta, agora apenas a partir de um lugar diferente e com uma responsabilidade acrescida.

Quando fizer soar o malhete pela primeira vez, espero lembrar-me de que aquele som não representa uma chegada, mas uma nova partida neste longo caminho, na Maçonaria, mesmo a cadeira colocada mais a Oriente é apenas mais um lugar a partir do qual continuamos a observar, aprender, a servir e a crescer.

Fui eleito Venerável Mestre da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues. Sinto um enorme orgulho, uma profunda gratidão e, confesso, ainda algum frio miudinho.

Espero nunca deixar de o sentir.

João B. M∴M∴ 

25 julho 2026

 

HUMANIDADE 2 - INTEGRAÇÃO

Ruben Portinha

Há pouco tempo fui surpreendido pela RTP. Assistia à transmissão de um programa de entretenimento musical com o Fernando Pereira, imitador famoso, cantor, entretainer com carreira longa e cheia de êxitos pelos palcos do mundo.

Fernando Pereira apareceu acompanhado por diversos convidados e entre eles uma figura que se cruzou comigo nos idos da TVL por razões que, na época, nada tinham a ver com música.

Refiro-me a Ruben Portinha, velho conhecido e pessoa que me deu a honra de poder acompanhar nalgumas das suas atividades, na época muito longe da música que ele hoje interpreta e muito bem, refira-se.

O Ruben Portinha é invisual e na época que refiro (estávamos em 2013) era, além de desportista valoroso, Presidente da direção da ANDDVIS (Associação Nacional de Desporto para Deficientes Visuais), lutando com enormes dificuldades para manter e desenvolver a atividade de apoio social que era seu objetivo. Foi nessa qualidade que o conheci e foi nessa qualidade que nos relacionamos.

Neste conjunto de textos/vídeos procuro trazer à luz do conhecimento geral aquilo que chamei de Humanidade, através de Homens que praticam Maçonaria, mesmo sem serem Maçons, mesmo não sabendo que aquilo que fazem é, também, Maçonaria. São Homens que lutam por distribuir Igualdade, Fraternidade, Liberdade. São Homens “justos e de bons costumes” que entendem na perfeição o grito de alerta que soa para salvação da Humanidade e ao qual a grande maioria não presta qualquer atenção, profundamente preocupados que andamos com a permanente viagem de férias da Cristina Ferreira ou com os mais quaisquer milhões do CR7.

Entretanto há o Ruben Portinha. Conheço alguns “Ruben Portinha”, fazendo das tripas coração para poder levar uma equipa de meia dúzia de atletas a um torneio onde vão defender as cores de Portugal. Com a característica fatal, neste caso são invisuais.

Os vídeos que junto resultam de um trabalho de 2013 mas poderia perfeitamente ser da semana passada. As dificuldades são as mesmas, as razões para essas dificuldades são as mesmas, as desculpas são as mesmas.

Os exemplos que trago ao A-Partir-Pedra interessam à Maçonaria prática (!), a tal que se faz fora dos templos e que são, na verdade, a prática de Fraternidade, de Liberdade e de Igualdade entre todos e para todos, com dificuldades físicas ou sem essas dificuldades. É a integração de todos os Homens nos seus direitos humanos, direitos que são adquiridos pelo simples facto de terem nascido.

É o que distingue o Homem.

E há muitas razões, mesmo muitas e graves razões para que os Maçons se preocupem.

Tanto se fala em Integração. Constantemente com referência a imigrantes e integrar é importante, é mesmo fundamental, mas sem descurar este plano da imigração para quando a integração dos outros… dos que já cá estão e cá nasceram, desde sempre com as suas famílias ? Quantos portugueses clamam por integração ?

Organizações como a ANDDVIS que aqui é mostrada, procuram e fazem a integração de portugueses de origem, mas com que dificuldades ?

Igualdade sim… Liberdade sim… mas para quantos e principalmente para QUAIS ?

O que trago ao blog são exemplos singulares aproveitando algumas, poucas, experiências vividas, mas este tema merece um trabalho maçónico profundo, continuado, tornado objetivo de vida maçónica.

Fica a semente.



Uma nota especial referente ao “Goalball”, desporto praticado por atletas invisuais, admitindo que algum leitor possa não estar familiarizado com esta atividade (isto é mesmo desporto !).

O Goalball é praticado por equipas de 3 elementos que tentam, à vez, introduzir a bola na rede adversária jogando-a com as mãos. A bola tem como característica especial a produção de um som que a distingue de tudo o resto, sendo através do som que os praticantes distinguem a sua localização e trajeto quando em movimento.


Julho/6026

J.Paiva Setúbal (MM:.)

18 julho 2026

Regular, Reconhecido, Irregular — três palavras que não significam o que pareces pensar



O vocabulário que usamos todos os dias na loja merece uma revisão honesta.

As frases que já ouviste: "Aquela potência não é reconhecida.", "Esse irmão é irregular.", "O REAA deles é espúrio."

Frases assim circulam em qualquer encontro maçónico em Portugal ou no Brasil. Quem as diz raramente está errado na conclusão, mas quase sempre confunde os conceitos pelo caminho. 

E a confusão importa porque, quando misturamos o regular com o reconhecido, chegamos a conclusões que os factos não sustentam.

Vale a pena separar as peças.

O que é uma potência (e o que não é)

Uma potência maçónica (também chamada obediência) é uma entidade que governa as lojas por meio de um Grão-Mestre. O que distingue uma potência de uma confederação é simples: na potência, as lojas respondem a um único Grão-Mestre; numa confederação, várias potências independentes agrupam-se voluntariamente, mas cada uma mantém o seu próprio Grão-Mestre sem responder ao de outra.

Em Portugal temos dois casos claros. A GLLP/GLRP é uma potência. O Grande Oriente Lusitano é uma potência. Nenhuma das duas é uma confederação.

No Brasil, para dar um contraste de escala, existem 53 potências regulares reconhecidas e confederações que as agrupam (COMAB, CMSB).


Regular não é o mesmo que reconhecido

Esta é a distinção mais importante do texto como um todo.

Uma potência regular é aquela que segue os princípios estabelecidos como critérios de regularidade (os mais referenciados são os oito princípios publicados pela Grande Loja Unida de Inglaterra (UGLE) em 1929). Uma potência reconhecida é aquela com a qual outra potência assinou um tratado de reconhecimento mútuo. São coisas diferentes.

O exemplo mais claro vem de França. A Grande Loja Nacional Francesa (GLNF) é, há décadas, a única potência francesa reconhecida pela UGLE. Em 2011, por razões de gestão interna, a Alemanha, a Bélgica, a Áustria, a Suíça e o Luxemburgo suspenderam o reconhecimento à GLNF. A GLNF passou esses anos sem reconhecimento dessas potências europeias. No entanto, continuava regular, seguia os oito princípios, trabalhava com os mesmos rituais, exigia crença num Ser Supremo e não admitia mulheres. Em 2014, a UGLE restaurou o reconhecimento. Os princípios nunca mudaram. O que mudou foi a vontade política de reconhecer.

Outro caso revelador: foi a própria GLNF que criou a Grande Loja Regular de Portugal em 1991. Mais tarde, retirou-lhe o reconhecimento. O criador não está obrigado a reconhecer para sempre.


Reconhecimento é uma decisão política entre potências. Regularidade é uma questão de princípios.


O irmão irregular na potência regular

A confusão entre regular e reconhecido também surge ao nível individual.

Um irmão iniciado regularmente na GLLP pode tornar-se irregular. Basta que peça baixa sem a regularizar, ou que seja suspenso, ou que deixe de estar ligado a qualquer loja. A situação dele perante a Maçonaria é irregular — não porque a GLLP seja irregular, mas porque ele rompeu o vínculo que o ligava a ela.

O inverso também existe: um irmão de uma potência não reconhecida pela GLLP não é necessariamente irregular. Pode estar a trabalhar com regularidade dentro da sua própria obediência. Para a GLLP, esse irmão simplesmente não é reconhecido, o que tem consequências práticas na visitação, mas não é a mesma coisa que chamá-lo de irregular.


O rito não tem regularidade. A potência tem.

Ouve-se dizer que "o REAA do GOL é irregular". Não é bem assim.

O Rito Escocês Antigo e Aceito é um sistema de graus. Pode ser praticado por potências regulares (como a GLLP/GLRP) e por potências não reconhecidas pela UGLE (como o GOL). O rito em si não recebe o adjetivo de regular ou de irregular. O que recebe esse adjetivo é a potência que o pratica.

Se uma potência regular pratica o REAA, esse trabalho decorre dentro da regularidade. Se uma potência liberal pratica o mesmo rito, o rito não fica "contaminado". Neste caso, a potência simplesmente não atende aos critérios que outras potências usam para estabelecer reconhecimento.


Dois guarda-chuvas e o que fica de fora

A Maçonaria mundial divide-se, grosso modo, em dois grandes campos.

O campo tradicional agrupa potências que seguem os princípios UGLE de 1929: crença num Ser Supremo obrigatória, iniciação reservada a homens, proibição de discussão política e religiosa em loja. Aqui estão a GLLP/GLRP, o GOB brasileiro, a Grande Loja de Espanha, a GLNF francesa, entre muitas outras.

O campo liberal ou continental agrupa potências com princípios distintos. O Grande Oriente de França é o caso mais conhecido. Em Portugal, o Grande Oriente Lusitano pertence a este campo e consolidou essa pertença em maio de 2025, quando aprovou a admissão de mulheres, um critério que os princípios UGLE de 1929 excluem explicitamente.

Quem está num campo diz que o outro é irregular. Quem está do outro lado diz que é regular — a partir dos seus próprios critérios. Regularidade e reconhecimento dependem sempre de quem está a falar e do conjunto de princípios que usa como referência.

Fora destes dois guarda-chuvas, existe ainda um terceiro espaço: potências que seguem os princípios tradicionais, mas não têm tratado de reconhecimento com ninguém. Algumas são sérias e trabalham com rigor. Outras usam o nome Maçonaria como marca comercial. Estão no mesmo balde pela ausência de reconhecimento, mas não são a mesma coisa. A única forma de as distinguir é estudá-las caso a caso.


O que muda na prática

O não-reconhecimento tem uma consequência objetiva: a intervisitação fica bloqueada. Um irmão da GLLP não pode visitar lojas do GOL, nem o contrário. O princípio funciona assim: se dois irmãos de potências que não se reconhecem entre si visitarem uma terceira loja em que ambas as suas potências têm tratado, podem partilhar o mesmo chão. Acontece no Brasil, onde irmãos de potências que romperam tratados entre si se encontram regularmente nas lojas de uma terceira obediência que as reconhece todas. O reconhecimento bilateral não é um pré-requisito para estar na mesma sessão.



Não reconhecer uma potência não significa que as suas lojas trabalham mal, que os seus rituais são falsos, ou que os seus irmãos não se desenvolvem como Maçons. Significa apenas que duas entidades não assinaram um tratado. As razões podem ser históricas, filosóficas, ou simplesmente políticas como o caso da GLNF prova.


A minha leitura pessoal é que o problema maior não está em quem reconhece quem, mas na dispersão de esforços que resulta da multiplicação de potências sem unidade de propósito. O Brasil tem 53 potências regulares reconhecidas, o segundo maior número de Maçons do mundo, e o impacto social coletivo é quase invisível porque cada potência levanta a sua própria bandeira. Portugal tem quatro obediências. A questão que me parece mais produtiva não é "qual é a potência mais regular", mas "o que estamos a construir juntos".

Fábio Serrano M∴M∴


10 julho 2026

HUMANIDADE 1 - "CAIS"

 Este título tem a ver com o que iremos “blogar” agora e em mais alguns momentos

seguintes com referência a uma coluna vertebral a que chamarei Humanidade.

Na Maçonaria temos como preocupação central a trilogia Liberdade, Fraternidade,

Igualdade e estas 3 grandezas maiores do Homem desenvolvem-se com cada vez maior

dificuldade.

Nunca foi fácil mas sempre houve quem esperasse que o tempo, esse grande senhor que

se calhar não existe (!), desse alguma ajuda com o que poderia ser o amadurecimento do

Ser Humano.

Acontece porém que o Ser Humano parece teimar em não amadurecer.

Pior do que isso, o Ser Humano parece que está a apodrecer antes de amadurecer.

Acontece com muitos frutos esse fenómeno. Como se diz no Alentejo como justificação “à

patrão, tá tude podre, dê-lhe a bicheza…”.

O que constato lamentavelmente, conforme os acontecimentos da vida vão passando, é

justamente isso. Parece que o Ser Humano também está “ca bicheza”, “bicheza” que não

o deixa amadurecer e o faz cair de podre.

A Maçonaria tenta aproveitar o que possa haver de são para manter a qualidade deste

“produto” procurando salvar os possíveis de forma a que com alguma atenção se possa

produzir mais frutos sãos, capazes de resistir à tal de “bicheza”.

Mas não está fácil !

O entendimento do que é entre Humanos, ser Igual, ser Fraterno e ser Livre não tem

conseguido a recetividade que, entendemos nós, é indispensável para salvar este “pomar”.

Pelo contrário, o que vemos é a epidemia cada vez mais espalhada, mais dispersa, com o

resultado miseravelmente destruidor que está bem à vista ( e ao ouvido, e ao tacto…) de

todos os que se recusam a viver distraídos.

Há, neste “pomar”, frutos ainda sãos ?

Há e trago para o “A-Partir-Pedra” alguns exemplos. São casos isolados ? Gostaría que

não fossem, gostaria que pudessem ser realmente os exemplos a seguir por todos neste

percurso a que chamamos Vida.

São casos que são mantidos como que em segredo. Parece que o tempo (o tal senhor que

se calhar não existe) é pouco para coisas importantes como o futebol, para o detalhe bem

minucioso dos assassinatos ordenados por mentecaptos julgados poderosos ou por

desastres naturais destruidores de milhares de seres humanos. Não resta tempo para

evidenciar a fruta sã, ocupados como andamos a cheirar a fruta podre !

O sentido da nossa Cadeia de União ensina-nos a dar atenção à qualidade da vida

humana e à forma como vivemos a nossa condição de Humanos.

A Maçonaria que é importante dentro do Templo é muito mais importante fora dele.

Maçonaria faz-se, a sério mesmo, na rua porque é aí que estão os restantes nossos

Irmãos em quem pensamos (ou deveríamos pensar) quando falamos de Liberdade,

Fraternidade, Igualdade.

E porque a fruta sã deve ser exposta o mais possível para conhecimento de todos, e

exemplo, e ensinamento, e cópia, deixo-vos um pequeno trabalho chamando a atenção

para o facto de ter sido produzido em 2013 (!). Se não perceberem que foi há 13 anos…

então é porque o tempo parou na fruta podre !


Julho/6026

J.PaivaSetúbal (MM:.)

04 julho 2026

O Primeiro Passo

Na última sessão da nossa Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues tivemos a alegria de receber um novo Irmão, o João A.


Há momentos que, por mais que os queiramos explicar, perdem sempre qualquer coisa quando passam para palavras, a iniciação é um desses momentos. Não porque tenha de ser escondida atrás de mistérios exagerados, nem porque precise de ser envolvida em dramatismos desnecessários, mas porque há experiências que simplesmente têm de ser vividas. E cada um vive a sua iniciação à sua maneira, cada Maçom guarda dela memórias diferentes, emoções diferentes, silêncios diferentes e até dúvidas diferentes. Talvez seja precisamente essa vivência tão própria que torna a iniciação tão especial, todos batemos à mesma porta e todos somos recebidos da mesma forma, o caminho que trilhamos é que nunca é o mesmo.

Quem já passou por ela sabe do que falo, quem ainda não passou, por muito que leia ou que lhe expliquem, nunca conseguirá perceber verdadeiramente o que se sente naquele caminho entre a profanidade e a Luz, entre aquilo que se deixa para trás e aquilo que começa a nascer dentro de nós. A quem vier por bem e com vontade sincera de se melhorar, resta apenas dizer que tudo comoeça com um simples bater à porta.

Agora, ponto importante. A iniciação não faz, como por magia, de um homem um Maçom completo, longe disso. Se assim fosse, a Maçonaria seria apenas uma cerimónia bonita. E não é. A iniciação é antes o primeiro passo, é o momento em que alguém bate à porta, é recebido, é confrontado consigo próprio e começa uma caminhada que, se for levada a sério, nunca mais termina.

Talvez seja isso que a torna tão especial, não é o segredo ou o "aparato" ritual. Não é nem sequer a emoção natural do momento, penso que seja a percepção que estamos perante alguém que decidiu começar a trabalhar a sua pedra bruta, acompanhado por outros homens que, no fundo, continuam exatamente no mesmo trabalho.

Nenhum maçom é Justo e Perfeito, no fim de contas somos homens, mas almejamos e trabalhamos para que passo a passo, nos tornemos um pouco mais justos e perfeitos que no passo anterior. Todos continuamos a aprender, a cair, a corrigir, a melhorar, a discutir, a ouvir, a duvidar. A crescer.

Na passada quarta-feira, a Loja esteve viva. E quando uma Loja está viva, sente-se. Sente-se no silêncio, na atenção, nos gestos, nos olhares e naquele sentimento difícil de explicar de que algo importante aconteceu ali, mesmo que o mundo lá fora continue igual.

Ao João A., desejo que encontre entre nós não apenas uma Loja, mas uma Oficina. Um lugar onde se trabalha, onde se aprende, onde se serve e onde se cresce. Que encontre Irmãos verdadeiros, daqueles que ajudam, corrigem, acompanham e também sabem rir à mesa depois dos trabalhos.

A iniciação é só o primeiro passo. Mas há primeiros passos que mudam para sempre a forma como olhamos o caminho.

E talvez seja essa a verdadeira magia maçonica.

João B. M∴M∴

27 junho 2026

A Prancha que Não Te Pertence


Você já notou que as pranchas sobre o esquadro e o compasso dizem todas a mesma coisa? Não aproximadamente. Exatamente a mesma coisa, às vezes na mesma ordem.

Obviamente, isto não é coincidência. A maioria dos irmãos não escreveu o que apresentou.

Existe uma ecologia de textos maçônicos circulando em grupos de WhatsApp, em blogs, em arquivos de Word que circulam sem rastreio. Alguém pesquisa, copia, ajusta dois parágrafos, coloca o nome. O trabalho está feito. A loja ouve. O irmão senta. Ninguém fala nada.

Eu entendo o impulso. Um Google, um chatgpt e voilá. Preparar uma prancha do zero é trabalhoso, e a maioria de nós chega ao dia marcado com pouco tempo e muita pressão. Um rascunho de outra pessoa parece uma saída razoável. O problema é que ele resolve a situação de forma incorreta. A Loja não precisa de mais uma exposição sobre o Esquadro. É o aprendiz que apresenta que precisa ter pensado no que aquele símbolo significa para ele.

Isso é diferente.

Quando você passa meses tentando articular por que aquele símbolo significa algo para você — errando, descartando, voltando — alguma coisa muda e não é no texto. É em você. É exatamente isso que deveria estar acontecendo no período de aprendiz. Pegar o atalho não é apenas desonesto; é desperdiçar o único momento em que esse trabalho funciona e se torna uma engrenagem bem oleada para o futuro da caminhada.

O problema maior é o que a cópia constrói ao longo do tempo: uma loja onde ninguém diz nada novo, onde ninguém explica os símbolos de forma diferente, onde a discussão após a prancha vira um exercício de confirmação coletiva ou de massacre pelo massacre. Fica chato. Fica vazio. E fica uma lacuna que talvez nunca seja preenchida no quadro da loja ou na cabeça de quem apresentou. 

Sou grato de fazer parte de uma loja onde isso é raro. Tenho escutado trabalhos que vão muito além da mesmice e do óbvio. Alguns incomodam; outros forçam o cérebro a pensar até a última vírgula. Muitos vêm acompanhados de uma pesquisa extensa em fontes não convencionais. E isso diz muito sobre as qualidades dos meus irmãos.

Não existe um protocolo que resolva isso. Só o hábito pessoal de sentar com a página em branco e trabalhar. O caminho mais rápido não é o que leva mais longe. 


Fábio Serrano M∴M∴

20 junho 2026

Ser Companheiro

Entre o entusiasmo do Aprendiz e a maturidade do Mestre existe um caminho muitas vezes esquecido, o caminho do Companheiro!


O Aprendiz trabalha sobre si mesmo, aprende o silêncio, a disciplina e a observação. Descobre, também, que a pedra mais difícil de desbastar já foi encontrada, não longe mas mesmo assim muitas vezes é preciso um espelho para percebe que é a sua própria pedra bruta. Com o tempo, mais curto ou mais longo, mas seu e só seu, o aprendiz percebe que é o momento em que esse trabalho interior já não basta, é preciso levantar os olhos da pedra e compreender a construção.

Ser Companheiro é precisamente isso.

É deixar de olhar apenas para a tarefa e começar a perceber a Obra, é aprender a medir, a comparar, a questionar e a procurar conhecimento. Não por mera curiosidade intelectual, mas porque cada novo saber amplia a nossa capacidade de servir.

No Rito Escocês Antigo e Aceite, o Companheiro é convidado a percorrer um caminho marcado pelos cinco sentidos, pelas artes liberais e pelos instrumentos que permitem transformar a matéria em harmonia. Descobrir que a força sem sabedoria é insuficiente e que a sabedoria sem acção permanece estéril.

Talvez por isso este seja um dos graus mais actuais da Maçonaria, mesmo sendo o mais incompreendido. Hoje em dia vivemos uma época rica em informação, mas pobre em compreensão e o Companheiro recorda-nos que conhecer não é acumular factos, mas sim aprender a relacioná-los, a encontrar significado e a colocá-los ao serviço de algo maior do que nós próprios.

Ser Companheiro é continuar a trilhar o próprio caminho, já depois do início do percurso, mas ainda longe do seu destino final. É aceitar que a verdadeira aprendizagem não termina com a iniciação, pelo contrário, é aí que realmente começa.

Porque a pedra pode estar mais lisa, mas o Templo ainda está longe de concluído e muitas mais polidelas serão necessárias para que ela encaixe de forma quase justa e quase perfeita.

João B. M∴M∴