12 março 2026


 AS PERTENÇAS EXCLUSIVAS...

“Num tempo em que tudo parece exigir alinhamentos rígidos e pertenças exclusivas, talvez devêssemos olhar para cima e aprender com o céu, pois ele apenas cumpre o seu percurso. A questão é saber se nós fazemos o mesmo ou se continuamos a confundir o nosso ponto de vista com a verdade absoluta.”

Começo pelo fim…

Este primeiro parágrafo é reprodução do último do texto aqui em baixo (2 andares abaixo deste prédio) da autoria do J.B.

Peguei nele porque nele está parte da grande questão da Humanidade, considerando que a existência do homem teima em reger-se por “números", sejam distâncias, sejam horas, sejam capacidades individuais, ir mais longe, ir mais depressa, saltar mais alto mas também a dimensão da sala ou saldo da conta bancária.

Tudo números.

E nada que não sejam “milhões”, “biliões”,… zeros, muitos zeros à direita.

No futebol como na política, na economia como no clima, na miséria como na riqueza.

Números pornográficos são “pertenças exclusivas” de uns tantos, poucos, muito poucos cujo divertimento maior são guerras inexplicáveis para todos. É aqui que os números são maiores, com maior número de zeros à direita, por vezes tantos que se torna difícil verbalizá-los.

Jornais, revistas, televisão fazem questão de deixar bem à vista os pertences exclusivos gigantescos, quanto mais gigantescos melhor, para suposta glória de quem os possui ou de quem os consome. 

Quanto custou o teu iate versus quanto custou o meu jacto…

J.B. aconselha, sugere, que se olhe para cima para aprender com o céu. 

Conselho sagaz. Decisão inteligente.

Em muitos locais do planeta, deste planeta, é verdadeiramente muito importante olhar para o céu ! Não pelas razões a que J.B. se refere mas porque os drones, os foguetes, os misseis “viajam” em permanência sobre “nós” rumo à nossa auto destruição e a ansiedade resultante da expectativa do último momento nos obriga a fazê-lo !

“Num tempo em que tudo parece exigir alinhamentos rígidos e pertenças exclusivas…”

Maçonaria é tudo menos pertença exclusiva. 

Maçonaria sabiamente deixa os “metais” à porta do Templo

Há razões fortes que justificam o recato.

É que não vale a pena. A vaidade não é boa conselheira ! 

Um Maçon vaidoso com os seus metais não cumpre a condição de Maçon.

O Princípio pelo qual em Maçonaria se deixam os metais à porta do templo tem a ver com a possibilidade de utilização comunitária.

As capacidades de alguém que se disponha a ser recebido Maçon devem ser consideradas ao serviço dos Irmãos, se necessário.

E não apenas as capacidades financeiras, direi que nem são essas as mais importantes.

Um técnico, um médico, um advogado,… têm muito mais a partilhar na ajuda aos seus Irmãos do que simplesmente a disponibilidade bancária.

Mais ainda me parece que o apoio em conhecimento é bem mais valioso do que o apoio em metais. 

A Cadeia de União une capacidades Humanas, não une capacidades financeiras. 

O Maçon está, deve estar, em permanente Cadeia de União. As pertenças exclusivas devem ser reduzidas, aqui, à expressão mais simples.

Para além de tudo o mais há que perceber o quanto tem de ridículo a busca incessante de riquezas materiais, em ansiedade permanente, em disputas constantes, em guerras ! Não vale a pena !

Há algum tempo, alguns anos já, trouxe à Loja um trabalho feito a partir de uma visita a Auchwitz.

Esse trabalho tinha uma intenção que procurei ficasse bem clara. Queria fazer a força possível, ao meu nível, para acabar com os chamados “senhores da guerra”.

Hoje, quando me lembro desse trabalho e dessa intenção sinto uma imensa frustração.

Não só os “senhores da guerra” não acabaram como se multiplicaram.

A minha vaidade intelectual não chegava ao ponto de me considerar capaz de influenciar os “governantes” mundiais nem de alterar as suas decisões absurdas. Mas ao menos que pudesse deixar uma sementinha entre os Homens livres e de bons costumes que me acompanhavam na apresentação. Não sei se alguma coisa ficou para além da frustração que agora sinto.

Estou a pôr em paralelo 2 níveis muito diferentes de capacidade de decisão. Mas meus II:. não escondo que me dói não ter qualquer poder para alterar a cegueira que a vaidade, a ganância e a estupidez dos homens mais ricos do planeta os leva aos morticínios a que assistimos diariamente. E não é ao morticínio próprio. É o morticínio de outros ...

E claramente por razões de vaidade desmesurada, de ganância sem limites, de completa desumanidade.

E nada disso, nada disso, vale a pena. É tudo uma questão de escala, de números, de dimensão !

Apetece-me dizer, ponham-se no vosso lugarzinho e vivam a vida.

Como diz J.B., “olhemos para cima” e tentemos aprender alguma coisa.

Como de costume deixo-vos um vídeo que apanhei por aí… 

Reparem que para confirmar tudo isto basta mesmo olhar para cima. É suficiente. Com os olhos abertos !!!

 

 O resto... não vale a pena !

"A vida é um contrato a prazo. Andamos todos a recibo verde." (Mário Zambujal - passou hoje ao Oriente Eterno)


J.Paiva Setúbal (MM:.) - março 6026


07 março 2026

Onde foi parar o meu Salmo 133?



Quando troquei os pampas do Rio Grande do Sul pela margem do Tejo e passei a frequentar as colunas da Mestre Affonso Domingues, trazia comigo um "vício" de ouvido. Na minha Loja mãe, da GLMERGS, no Rio Grande do Sul, a abertura do Livro da Lei tinha um ritmo quase musical: "Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união". Era o sinal de que a egrégora estava selada. Por isso, confesso que nas minhas primeiras sessões em Portugal, o silêncio desse momento me causou uma certa "ausência". Aqui, o Livro abre-se solenemente, mas as palavras do Rei Davi não ecoam pelo Templo. Ficamos com o peso do silêncio e o foco na Luz que emana das páginas abertas.

Para quem, como eu, se formou na escola das Grandes Lojas brasileiras, esse silêncio parece uma omissão. Mas a história explica o desencontro. O REAA, na sua matriz original francesa, não previa a leitura deste salmo. Se no Brasil hoje respiramos o Salmo 133, devemos isso a uma "manobra diplomática" de 1927. Mário Béhring, ao fundar as nossas Grandes Lojas, buscava o reconhecimento da Maçonaria norte-americana. Para agradar aos irmãos dos EUA, ele importou elementos das Blue Lodges (o Rito de York americano), onde o Salmo 133 é soberano. Criou-se um hibridismo que deu certo e se tornou a alma do rito no Brasil, mas que nos afastou da sobriedade continental que Portugal preserva com tanto rigor. Esta não é a única diferença, mas ficamos por aqui com a análise.

E por que Davi faz tanta falta para mim? Porque o Salmo 133 é visceral. Ele não se perde em abstrações; fala de óleo escorrendo pela barba e de orvalho fresco. O "óleo precioso" de Aarão simboliza a consagração, aquela harmonia que desce do espírito para o corpo da Loja. Já o "orvalho de Hermon"( uma montanha gélida ao norte que irriga os montes áridos de Sião, ao sul ) é a metáfora perfeita da bênção que traz vida onde a pedra era seca. É um hino à fraternidade prática, ao prazer quase físico de estar entre iguais.

Aqui em Portugal, o ritual é mais direto, sem os adereços da escola romântica da maçonaria brasileira, talvez mais focado na busca intelectual e espiritual da Luz, sem os  penduricalhos sonoros que Béhring costurou no Brasil. Não há erro nisso, apenas uma genealogia diferente. Mas, para este mestre que ainda guarda o sotaque gaúcho, o Salmo 133 continua a ser aquela nota que, mesmo não sendo lida, ainda ressoa no fundo do ouvido. Se o ritual na RLMAD nos oferece o silêncio, que saibamos preenchê-lo com a vivência desse orvalho, garantindo que a nossa união mantenha a oficina fértil. 


Fábio Serrano, M∴ M∴

28 fevereiro 2026

O Sol não muda. Nós é que mudamos de hemisfério.

Na quarta-feira, depois da sessão, durante o nosso ágape, surgiu uma conversa curiosa sobre algo do dia a dia que raramente notamos. Em Portugal o Sol culmina a Sul, no Brasil culmina a Norte. É um facto. Esta constatação levou-nos a uma pergunta que começou por ser quase técnica, mas que rapidamente se tornou maçónica. Se o ponto mais alto do Sol muda de lado conforme o hemisfério, será que também o seu significado simbólico muda? Será que aquilo que para nós, em Portugal, representa plenitude, “lá em baixo” representa sombra? Onde se sentam os irmãos Aprendizes no Brasil? No Sul?

Não foi uma pergunta de resposta imediata. Temos a sorte de ter irmãos brasileiros na Loja, mas talvez o mais interessante nem tenha sido a resposta, foi termos parado para pensar nela.



Desde tempos imemoriais que o homem organiza o seu espaço segundo o movimento do Sol. Templos megalíticos alinhados com solstícios, cidades orientadas pelo nascer da Luz, civilizações que estruturaram o calendário a partir do arco solar. Estive no fim do ano em Malta e tive a oportunidade de visitar Ħaġar Qim, impressionante. Nota-se que o Sol nunca foi apenas uma estrela, foi, e é, referência, medida, orientação. Também os nossos grandes navegadores portugueses, “Que da Ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da Taprobana”, aprenderam a ler o céu. Ao meio-dia, quando o Sol atingia o ponto máximo, mediam a sua altura para determinar a latitude e saber onde estavam no imenso oceano. Não perguntavam onde estava o Sol, mas sim qual era a sua posição em relação ao Sol.

O Sol nasce no Oriente para principiar o dia e esconde no Ocidente para terminar o dia, em qualquer templo ou lugar do planeta. O início e o fim são universais. O que muda é o arco que Sol percorre no céu, enquanto no hemisfério Norte culmina a Sul, no hemisfério Sul inclina-se para Norte. Talvez a vida funcione assim, todos começamos por um momento de despertar e todos caminhamos inevitavelmente para um limite comum, mas o percurso entre esses dois pontos é moldado pela latitude da nossa história, pela cultura que nos envolve, pelas circunstâncias que nos desafiam e pelas sombras que trazemos. Quando o Sol atinge o seu ponto mais alto, as sombras não desaparecem, tornam-se apenas mais curtas e recolhem-se sob os nossos pés.

A maturidade não elimina a imperfeição, ensina apenas a colocá-la na sua justa proporção.

Talvez a pergunta que verdadeiramente importa não seja onde culmina o Sol, mas onde culmina a nossa consciência, não é saber se a Luz está a Norte ou a Sul, mas perceber se estamos dispostos a ajustar a nossa posição quando descobrimos que o mundo é maior do que o nosso horizonte habitual. É confortável acreditar que o nosso lado do céu é o centro, mas o crescimento começa precisamente quando aceitamos que o mesmo Sol pode ser visto de ângulos diferentes sem deixar de ser o mesmo.

Num tempo em que tudo parece exigir alinhamentos rígidos e pertenças exclusivas, talvez devêssemos olhar para cima e aprender com o céu, pois ele  apenas cumpre o seu percurso. A questão é saber se nós fazemos o mesmo ou se continuamos a confundir o nosso ponto de vista com a verdade absoluta.

João B. M∴M∴

21 fevereiro 2026

O que Eu ganhei por ser maçom...

Se perguntarem a um grupo de maçons o que ganharam com a Iniciação, as respostas tendem a ser muito similares, falam de ética, de fraternidade, de tradição, de serviço. E é verdade, sem dúvida, mas talvez seja uma resposta muito genérica ou muito politica. Há mais, bem mais... uma dimensão mais crua, mais humana, menos “de manual”. 



Comecemos pelo mais ouvido e que, para mim é sim ou sim...

Uma bússola para o aperfeiçoamento moral
O mais citado é talvez o acesso a um caminho coeso de educação moral e filosófica. A maçonaria faz-nos integrar num sistema profundo de iniciação que explora a natureza da alma e os deveres do cidadão. Ganha-se, assim, uma estrutura intelectual que ajuda a navegar pelas complexidades da vida moderna com base em princípios éticos sólidos.

A pertença a uma fraternidade universal
A Maçonaria é uma fraternidade universal que transcende fronteiras geográficas e linguísticas, o maçom Ganha a capacidade de conhecer “irmãos” de diferentes origens, partilhando interpretações rituais e apoio mútuo. Já visitei Lojas fora de Portugal e percebi como a vivência pode ser culturalmente distinta. Em Inglaterra, por exemplo, a Maçonaria é mais aberta e institucional, em Portugal, é mais discreta, por vezes excessivamente reservada. Mas em ambos os casos existe algo real, o reconhecimento mútuo, confiança inicial, uma linguagem comum que não precisa de ser explicada.

Num mundo fragmentado, a Ordem oferece profundidade.

A prática da tolerância e do entendimento mútuo
O estudo de algumas obras ou obtenção de conhecimento atráves de trabalhos realizados por outros irmãos,  tentamos fomentar tolerância e pensamento crítico. Em Loja sentam-se homens com crenças, profissões e ideologias distintas. E, ainda assim, conseguimos dialogar e discutir sem gritar. Num século onde a polarização parece regra, este treino é ouro.

O senso de propósito e serviço
A Ordem motiva o indivíduo a tornar-se instrumento de melhoria cívica, não basta falar de virtudes, é preciso praticá-las. Seja através da beneficência silenciosa, seja através de compromissos pessoais mais exigentes, a Maçonaria transforma intenção em responsabilidade.

A preservação da identidade e tradição
Em tempos de mudanças rápidas, o maçom ganha um senso de continuidade histórica. Não por nostalgia, mas por identidade. A tradição não é um museu, é uma raiz. E raízes não nos prendem, sustentam-nos.

Mas fugindo agora um pouco do discurso "teórico." O que é que eu, João, um jovem de meia idade, pró-activo, meio geek, acelerado, ganhei mesmo?

Ganhei confronto.
Houve momentos em que quase desisti. Procedimentos realizados com os quais não concordei de todo., decisões que me fizeram questionar se a prática estava à altura do ideal. 

Foi frustrante, mas percebi algo essencial.A Maçonaria não é perfeita, continua a ser feitas de homens, como poderia se-lo? E se eu acredito na melhoria do Homem, não posso fugir quando a imperfeição aparece. Sair era fácil, ficar foi mais exigente, no fim, cresci.

Ganhei espelhos.
Cada irmão me marcou e marca da sua própria maneira Uns pela inteligência, outros pela serenidade, outros pela frontalidade que obriga a repensar, outros pela rétorica. Todos me fizeram ser melhor homem, até mesmo a exceção me ensinou, A típica romã podre numa romeira cheia de romãs saborosas. Felizmente percebemos, a tempo, que não acrescentava nada à Loja. Também isso é maturidade coletiva.

Ganhei serenidade perante o julgamento.
No trabalho, quando perceberam que eu era maçom, além das bocas do "gajo do gangue do avental" senti o que não dizem mas o que pensam...“Este só está onde está porque é da maçonaria.” Só posso dizer ui! ui!, qualquer dia sou o CEO....

Aprendi que o desconhecimento cria narrativas fáceis e ganhei o tempo que poderia perder a tentar desmonta-las.

Ganhei profundidade, não mudança.
Não mudei de opiniões por causa da Maçonaria, continuo a ser homem livre e de bons costumes, com todos os meus defeitos e virtudes. Mas aprofundei convicções, desenvolvi pensamento crítico. Passei a ouvir mais antes de reagir.

Ganhei consciência de liderança.
Se não tivesse entrado, talvez estivesse hoje numa posição hierárquica mais elevada. Talvez tivesse sido mais agressivo, mais centrado em mim, mais focado apenas no meu umbigo. Talvez tivesse confundido mandar com comandar.

A Maçonaria ensinou-me a diferença.

Ganhei tempo.
Num mundo onde se vive rodeado de tecnologia e decisões rápidas, a Loja obriga-me a desacelerar. Junto aquelas colunas, não sou director, nem “o homem do avental”, nem o que fala de inovação., não passo de um homem entre homens, com as mesmas fragilidades.

Resumindo, saio de casa duas vezes por mês “fardado”, ouço comentários, sinto rótulos e preconceitos silencioso, mas que importa? 

Discrição não é vergonha e silêncio não é medo, se não tivesse entrado, talvez estivesse mais alto na hierarquia, mas estaria mais pequeno por dentro.

E no fim, o que ganhei por ser maçom foi não me tornar maior aos olhos dos outros, mas sim tornar-me mais exigente aos meus próprios olhos.

E isso é um fardo que só quem quer crescer está disposto a carregar.

Quando te viras e olhas ao espelho, percebe que olhas para o teu maior inimigo...o resto é ruido.

João B. M∴M∴

14 fevereiro 2026

A VOLTA DO “TEMPO”... QUE EU NÃO TENHO !

Os últimos textos publicados pelos meus Irmãos Fábio Serrano e João B. sobre o "tempo" reavivaram uma chama que se tem mantido latente a corroer-me o juízo.

É obviamente uma questão pessoal, esta que refiro ter sido reavivada, mas que sendo esta referência meramente pessoal não é mais do que o reflexo de uma das doenças (doença digo eu…) que tem corroído a relação humana tal como a conhecemos, sendo que os mais antigos como eu, a conheceram nos idos dos meados do séc. XX.

Na época a vida conseguia ser bem vivida esperando umas horas, vulgarmente não menos de um dia,  pelas conclusões de uma qualquer reunião importante dos políticos locais, ou pela informação dos vencedores dos Globos de Ouro, ou por… quase tudo !

Falar ao telefone era coisa que se fazia uma vez de 2 em 2 dias, nos pares de dias em que se falava ao telefone. Primeiro era necessário que houvesse um telefone, depois que ele estivesse disponível, depois ainda e mais difícil , que o pretendente interlocutor tivesse ele também aceso a um telefone.

As notícias, agora chama-se informação, sobre um desastre em França eram conhecidas pelo jornal da manhã do dia seguinte. O começo de uma guerra conhecia-se na semana seguinte e o seu fim talvez um mês depois. E vivia-se !

Pergunte-se hoje a uma criança de 6 ou 7 anos como é que se entretém quando está sem aulas… Ou pergunte-se aos Pais dessa mesma criança qual o assunto sobre o qual discorreram durante o jantar…

A televisão é omnipresente, a internet uma necessidade absoluta, as “conversas” pelas correntes ditas sociais desafiam a atenção permanentemente, esteja onde estiver. Com isto e sendo assim, as 24 horas do dia não chegam para todos os “compromissos” ditos “sociais”.

Como contrapartida dos telefonemas de 2 em 2 dias temos hoje 2 ou 3 chamadas em simultâneo no telemóvel, umas em espera da que começou primeiro ou da que o atendente considera prioritária.

E tem de ser assim porque o “tempo” é pouco para se responder ao(s) interlocutor(es). Este retrato da vida diária nesta primeira metade do séc. XXI só peca por cores pouco acentuadas.

Estas referências não são uma queixa, são apenas uma constatação, nada mais do que isso. Não advogo o saudosismo, mas não descarto a crítica ao "atualmente correto". O progresso é bem vindo, sempre. Entretanto convém definir o que é progresso e separá-lo do que são os "gadgets" (palavra horrorosa) que invadiram a vida diária e que sendo isso mesmo, "gadgets", se tornaram indispensáveis e inseparáveis de muitos de nós.

Sobre este assunto (há quem lhe chame “problema”) há centenas de divagações. São muitos, mesmo muitos, os autores de estudos, análises, sugestões, relatos de situações que refletem sobre o tema “tempo”.

Quem não se lembra (dos mais antigos) ou quem nunca viu (e riu) com pedaços do Charlie Chaplin nos “Tempos Modernos”, modernos em 1936… Foi a questão “tempo” da época.

Por outro lado e numa abordagem completamente diferente, que tal entrarmos nas pesquisas atuais do italiano Carlo Rovelli sobre a não existência do “Tempo” ?  Sim, há essa pesquisa e, pelos vistos, essa possibilidade. O Tempo afinal não existe…

Se tal se confirmar todos os atrasados ficam desculpados…

Estando no espaço humano em que nos movimentamos, com horários para trabalhar ou para ir ao espetáculo, ou para ir rapidinho ao supermercado ou para almoçar também rapidinho, ou para ver o programa… ou para entrar na reunião do “zoom”… neste espaço humano é a vida diária que nos apoquenta sobremaneira.

No “A-PARTIR-PEDRA” por maioria de razão é a Humanidade que nos convoca e, nesta, a Família a que damos corpo, existência e participação. E neste mundo assim pequenino da Família, à nossa dimensão, talvez possamos fazer alguma coisa para melhorar a nossa relação com essa 4ª dimensão que afinal, se calhar, nem sequer existe.

Tal como de outras vezes e porque não gosto de reinventar a roda, trago um pequeno vídeo com palavras que obviamente eu não escrevi, mas que, também obviamente, gostaria de ter escrito:


Fica a certeza de que cada um tem à disposição TODO o tempo que existe e que a FELICIDADE não é uma corrida, é um objetivo !

Fevereiro/2026

J.Paiva Setúbal (MM∴)


 

07 fevereiro 2026

Sobre o tempo que deixámos de ter

 O texto recente do Ir∴ Fábio Serrano fez-me parar, não porque seja uma denúncia inédita, mas porque coloca o dedo num ponto que muitos de nós preferimos contornar. A Maçonaria não se tornou menos valiosa, tornou-se mais difícil de habitar. E essa dificuldade não nasce de uma crise moral da Ordem, mas de uma transformação profunda da sociedade onde ela tenta continuar a existir. Entre os vários “ladrões de tempo” que o Fábio identifica, com lucidez, o entretenimento digital, a obsolescência profissional, a paternidade intensiva, o futebol transformado em Big Brother, há um fio comum que atravessa tudo, a erosão do Tempo enquanto espaço habitável.

Vivemos numa sociedade que não apenas ocupa o tempo, mas o fragmenta. O tempo deixou de ser um campo onde se permanece e passou a ser um corredor de passagem. Tudo é feito em trânsito, em simultâneo, em aceleração constante. Já nem o lazer escapa a esta lógica, a juventude de hoje em dia consome os conteúdos acelerados, vídeos a 1.5x ou 2x, não porque sejam longos demais, mas porque a nossa capacidade de espera encolheu. Até o descanso tem de ser eficiente, mensurável, justificável. A pausa precisa de provar que merece existir e o resultado é paradoxal, quanto mais tentamos ganhar tempo, menos sentimos que o temos.



É aqui que o diagnóstico do Fábio ganha peso, quando a Maç,onaria pede tempo, não pede apenas horas numa agenda. Pede Presença. Pede Repetição. Pede Silêncio. Pede uma disponibilidade interior que não produz resultados imediatos nem oferece gratificação instantânea. Num mundo dominado por algoritmos desenhados para gerar estímulos constantes, pedir a alguém que se sente, escute, observe e espere é quase um ato contra-cultural. Não admira que tantos sintam que o custo é elevado e o retorno difuso, não porque o retorno não exista, mas porque já desaprendemos a reconhecê-lo.

O problema, contudo, não é exclusivamente maçónico. É civilizacional. O homem contemporâneo vive com a sensação permanente de estar atrasado. Atrasado para o trabalho, atrasado para a formação, atrasado para a família e principalmente atrasado para si próprio. O tempo livre foi transformado em tempo de sobrevivência, estudar para não ficar obsoleto, treinar para não adoecer, produzir para não cair. Tudo é imediato, tudo é urgente, e quando assim o é, nada pode ser profundo. Quando somos forçados a escolher entre estar presentes com os filhos, garantir a estabilidade profissional ou dedicar-nos a um caminho iniciático exigente, a escolha deixa de ser simbólica e passa a ser ética. A Ordem não perde porque é menos importante, perde porque não quer, nem deve, competir nesse plano.

Talvez por isso a questão central não seja se temos ou não tempo, tempo há e sempre houve. A verdadeira questão é para onde o estamos a entregar e com que critérios. A quem damos o nosso melhor tempo? O mundo moderno não nos rouba o tempo à força seduz-nos, a trocá-lo por fragmentos de distração, por pertenças fáceis, por identidades sem silêncio.

Nesse sentido, a Maçonaria não concorre com o mundo moderno. ela contraria-o. A sua lentidão, o seu ritual, a sua exigência de escuta e repetição não são defeitos de um modelo ultrapassado. São precisamente o que a torna difícil de aceitar numa cultura que desaprendeu a permanecer, talvez seja por isso que incomoda e talvez seja também por isso que continua a ser necessária.

No fim, talvez não vivamos numa sociedade sem tempo. Vivemos numa sociedade que perdeu a coragem de o defender. E enquanto não formos capazes de assumir essa escolha, continuaremos a confundir a falta de tempo com falta de vontade, e a erosão do compromisso com uma suposta inevitabilidade histórica. 

João B. M∴M∴

31 janeiro 2026




                                                   Prancha de Instalação

Em 2007 (ano profano), quiseram os Obreiros da RLMAD:. que me coubesse a ocupação da cadeira de Salomão para o Veneralato que se iniciava.
Nessa altura li a prancha que agora aqui recordo.

É à Glória do Grande Arquiteto do Universo que Vos dirijo o texto seguinte:

Q. I. José Moreno  / QQ.II. Convidados /

Queridos Irmãos

3 é um número com significado maçónico. Então sejam 3 os agradecimentos a fazer.

 Para os nossos II:. Pinto Ferreira e AM Jorge vai o primeiro. Foram os meus inquiridores e foram os primeiros a serem enganados.

 Depois o nosso I:.J.Moreno me deu entrada nesta casa e quis o GADU:. que também ele presidisse a esta instalação. Ao I:. J.Moreno dirijo o meu segundo agradecimento, porque em condições contrárias às “boas Práticas”, me aceitou no início, mesmo contra algumas vontades que, se calhar até eram as mais sensatas.

 Ao nosso Irmão João Pinheiro dirijo o terceiro agradecimento. Que mal me soube e que bem me fez o não me ter deixado entrar em sessão.  Agradeço-Te agora essa recusa e nunca esquecerei que atrasaste o início da sessão de propósito para que eu pudesse ir a casa e regressar.

Meus II:. por Vossa vontade estou na cadeira de Salomão.

O GADU:. sabe que não era ambição minha tal como sabe também que não sou o Obreiro melhor preparado para ocupar este lugar.

Gostaria de ter imaginação suficiente para Vos dizer coisas diferentes das promessas tradicionais de trabalho e empenho, mas não tenho.

Assim sendo, e porque a sessão vai longa, há que ir jantar e ver o Portugal-Polónia sublinho apenas alguns objectivos que quererei ver tratados com maior carinho durante o veneralato 6007/6008, sem ordem definida:

- Finalização do processo de ajustamentos administrativos desenvolvido no veneralato do I:.Paulo R.;

- Maior aproximação das Famílias de todos, pelo menos as mais chegadas, Irmãos, Cunhadas,       Sobrinhos;

- Aperfeiçoamento permanente do cumprimento dos rituais, tornando esse aspecto uma marca da casa,  como de resto já vai sendo, mas fazendo com que seja cada vez mais;

- Dar vida mais activa à hospitalagem, conforme directivas bem claras do nosso Muito R.Grão-Mestre;

- Aproximar mais e mais a nossa R.L.M.A.Domingues das demais lojas nossas Irmãs.

São apenas 5 pontos de intenção. Tentarei convosco, até à nossa próxima sessão, preparar maior detalhe para cada uma destas intenções.  E depois veremos o que vamos conseguir fazer. 

Há muitos anos um querido mestre ensinou-me que não vale a pena tentar descobrir a roda.  Já alguém o fez e bem.  Por isso me calo e Vos peço para escutarem as palavras que, incomparavelmente melhor do que eu, alguém irá dizer.



   (Ehrmann/Werner-Versão de Maria Luísa Peixoto-dito por Ruy de Carvalho)

Meus Irmãos, estas palavras quereria eu que constituíssem uma missão para cada um de nós.

Deixemos os metais à porta, do lado de fora de todas as portas e metais são, para além do propriamente dito metal cunhado, são também a ambição sem controlo, a inveja, a soberba, a vaidade.

Não Vos esqueceis de uma coisa. Sempre, mas sempre haverá alguém, nalgum lugar, melhor que nós, mais esclarecido, mais sabedor, mais inteligente, mais bonito…

Deixemos os metais à porta dos Templos, deste que é comum e dos outros que sendo pessoais, são onde reconhecemos a Família e os Amigos. Que a Maçonaria possa transformar a Terra num templo único, onde os homens, todos diferentes, sejam todos Irmãos, em Paz.

RLMAD:. em Setembro 6007 - J.Paiva Setúbal  (MM:. VM:.)