15 agosto 2026

O Sol esteve sempre lá!

Na passada quarta-feira, dia 12, como muitos outros portugueses, parei para observar o eclipse do Sol. É algo que normalmente só vemos acontecer noutros sítios, mas desta vez calhou-nos a nós. Há mais de um século que não se via algo assim por terras lusitanas, o anterior aconteceu em 1912. O próximo? Teremos de esperar até 2144 para voltar a ter um eclipse total do Sol em território português, ou seja, segundo a lei da vida, será algo único para nós.




Sendo algo tão raro, todos quisemos observar a Lua a avançar lentamente sobre o Sol e depois a deixá-lo para trás novamente. Algo lógico, conhecido e perfeitamente explicado do ponto de vista astronómico, mas, fazendo um dos nossos paralelismos, notamos que o Sol continuou exatamente onde sempre esteve, com a mesma dimensão e a produzir a mesma luz. Não perdeu intensidade, não se apagou e não desapareceu. Apenas, e durante algum tempo, alguma coisa se colocou entre o Sol e nós.

Para quem é maçom e sabe que a Luz assume um significado muito importante na nossa Ordem, penso que não será difícil encontrar aqui matéria para alguma reflexão. Falamos muitas vezes da procura da Luz, de caminhar em direção à Luz, de a receber e de procurar compreender aquilo que ela representa. É natural que pensemos nessa Luz como algo que ainda não temos e que, através do conhecimento, do trabalho e do nosso próprio aperfeiçoamento, procuramos alcançar.

Mas talvez, algumas vezes, o problema não seja encontrar a Luz. Talvez seja perceber aquilo que se colocou entre ela e nós.

No eclipse é evidente, conhecido, estudado e calculado, é a Lua. Sabíamos porque estava ali e sabíamos que continuaria o seu percurso. Mesmo quando grande parte do Sol deixou de ser visível, ninguém pensou que ele tivesse desaparecido, só tínhamos de esperar que a Lua continuasse o seu caminho e saísse da sua frente.

Na nossa vida as coisas não são tão facilmente identificáveis. Entre nós e aquilo que procuramos ver podem colocar-se o orgulho, a vaidade, os preconceitos, a intolerância, o medo de reconhecer um erro, as nossas certezas ou simplesmente a convicção de que já sabemos aquilo que precisamos de saber. E nenhuma dessas coisas altera a realidade que existe do outro lado, altera apenas a forma como nós conseguimos vê-la.

O mais difícil talvez seja perceber que alguma coisa se colocou à nossa frente. É relativamente fácil reconhecer os preconceitos dos outros, as certezas dos outros ou as vaidades dos outros, mas muito mais difícil é identificar as nossas, sobretudo porque continuamos a olhar para aquilo que temos diante de nós convencidos de que o vemos exatamente como ele é. A Alegoria da Caverna de Platão é, a propósito, uma boa leitura. Durante o eclipse sabíamos que a luz estava tapada, na vida nem sempre temos essa consciência.

Foi essa ideia que me ficou daquele eclipse. Durante algum tempo parecia que o Sol estava a desaparecer, quando na realidade nada tinha mudado nele. A alteração estava apenas entre o Sol e eu. Depois, a Lua continuou naturalmente o seu percurso e fomos voltando a ver aquilo que tinha estado oculto. E o Sol não regressou! Ele esteve sempre lá, nunca se foi embora. O que desapareceu foi aquilo que se tinha colocado entre nós.

Talvez aconteça algo semelhante connosco mais vezes do que pensamos. Procuramos respostas, procuramos conhecimento e procuramos Luz, quando por vezes talvez devêssemos descobrir o que é que se colocou entre nós e aquilo que procuramos ver.

Na passada quarta-feira, a resposta era fácil. Era a Lua. Nos outros dias, provavelmente teremos de trabalhar um pouco mais para a encontrar.

João B. M∴M∴

08 agosto 2026

A conversa que ninguém quer ter

   

Introdução

O presente artigo é uma reflexão sobre um artigo que saiu no Financial Times (Link do artigo) e que retrata a realidade da maçonaria regular na Inglaterra, assim como as dificuldades que tem tido no recrutamento e na consequente continuação.  

É inegável que a maçonaria teve uma grande importância no desenvolvimento dos ideais iluministas, na forma de pensar e mesmo na conduta dos governos do final do séc. XIX e no decorrer de todo o séc. XX. Desde o seu início em 1717 que a maçonaria esteve empenhada em construir o grande edifício que é a sociedade. Umas vezes construiu edifícios fortes, noutras edifícios mais frágeis, sem nunca, claro está, haver alguma polémica por trás.  

A maçonaria regular como irmandade iniciática tem algumas características que a definem: a beneficência e a ritualística filosófica. No que concerne à primeira, há várias associações que o fazem de forma muito eficiente e que dispensam toda a ritualística da maçonaria. Refiro-me a associações como o Lions Club, Rotary Club, entre outros que têm uma grande expressão a nível mundial e com atividade permanente. No fundo o que estas associações fizeram foi profissionalizarem-se em ações de caridade. Neste campo, a maçonaria é um primo afastado amador, visto não ter aprimorado esta sua faceta de beneficência. Estas associações retiraram aquilo que parecia desnecessário, fazendo jus a uma missão única: as ações de caridade. Por outro lado, a faceta ritualística e filosófica da maçonaria é aquela que menos se sabe. Através de alegorias e lendas, vai-se rectificando o carácter do maçom. Embora a iniciação tenha um carácter regenerador do homem, a verdade é que nem tudo é regenerado, apenas aperfeiçoado. É neste âmbito que a filosofia toma um carácter importante para o aprimoramento do Homem que a seguir servirá de modelo para o aperfeiçoamento da humanidade.  

O que não foi referido acima foi o networking. As ligações de trabalho também existem na maçonaria, embora não se devam confundir com a maçonaria. Quero com isto dizer que são uma característica natural da associação de pessoas. Ou seja, quem é que é convidado para esta irmandade discreta? Os amigos ou os colegas de trabalho, não necessariamente com o intuito de obter benefícios laborais (também há quem o faça), mas sim com o intuito do aperfeiçoamento daquele que parece que se daria bem com a forma de trabalho da maçonaria. Talvez seja esta a forma que mais intriga a sociedade. O networking em demasia leva ao favorecimento o que, como se pode verificar através das notícias, é mau para o indivíduo e para a ordem maçónica, em geral.  


Queremos um novo modelo ou apenas um aperfeiçoamento do que já existe?

Posto isto, vamos ao cerne da questão. O artigo mencionado mostra que a maçonaria regular inglesa está com dificuldades de recrutamento. Os seus membros têm, em média, mais de 60 anos de idade, sendo que atualmente cerca de 47% dos novos iniciados têm entrado com menos de 40 anos. Para o leitor que está a ter contacto com esta temática agora, pode-se entrar para a maçonaria regular em Portugal a partir dos 21 anos.  

A questão que se põe é: como podemos recrutar gente mais jovem e mantê-los nas fileiras, aumentando a taxa de retenção? Todos sabemos que os interesses de cada um se vão alterando ao longo da idade. Aconteceu comigo, acontece com outros Irmãos, e até mesmo com outras pessoas não iniciadas, ou profanos. E está tudo bem. É uma evolução natural da nossa personalidade. Enquanto que aos 20 anos somos fisicamente mais ativos, à medida que a idade vai avançando vamos tendo outras faculdades e outros interesses, não necessariamente de âmbito físico, talvez até mais de âmbito filosófico e racional. No entanto a pergunta mantém-se: Como vamos chamar e manter os jovens?  

A resposta está em olhar para os interesses geracionais e a sua possível evolução. Olhando para as gerações mais jovens verifica-se que existe repúdio por burocracias e atos desnecessários, interesse em assuntos filosóficos atuais e procura pela facilitação da vida quotidiana através do uso da tecnologia. No entanto, quase como uma antítese do uso das tecnologias, há uma crescente intenção de sair do mundo tecnológico das redes sociais e de as restringir.  

É isto que as novas gerações procuram: ir ao cerne da questão e trabalhar nesse cerne aperfeiçoando-o, sem demagogias nem atos acessórios. Com isto podemos arquitetar um modelo que, por um lado, não sai do modelo tradicional da maçonaria, mas que também não vai contra as expectativas de uma geração inteira. As novas gerações não querem perder tempo a corrigir presencialmente uma ata, mas provavelmente gostam de uma boa discussão filosófica, longe dos telemóveis e dos influencers. Não gostam de escrever textos longos, nem de os ouvir, preferindo temas com exposições mais curtas e mais tempo de discussão e reflexão. As burocracias, para eles, podem ficar nos telemóveis, assim como tudo o que vem das redes sociais e do mundo profano. Esta geração também não quer andar constantemente a mudar a cassete entre ritualística e ações de caridade… ou somos uma coisa ou outra, ou as duas ao mesmo tempo, sendo que numa somos amadores e noutra perdemos pouco tempo.  


O aperfeiçoamento

Tudo leva a crer que o caminho é o do aperfeiçoamento do que já existe para que, por um lado, não se perca a essência da maçonaria e, por outro, exista uma evolução lógica e racional mantendo-se o foco naquilo que é mais importante. Os pontos que coloco abaixo não são uma “fórmula resolvente”, mas sim alguns pontos para todos refletirmos como um possível caminho a percorrer.  

As características que as lojas devem ter:

 Administração desburocratizada: Não perder tempo com discussões presenciais sobre correções a atas, dados de obreiros, o que devemos colocar no site, etc.  

 Uso de tecnologias em loja apenas quando necessário: Usar tecnologias apenas para registo de atas, música e consulta rápida de regulamentos.  

 Ações de caridade apenas quando necessário: Não usar mais do que uma sessão para discussão de assuntos relativos a ações de caridade. Usar tecnologias para dar o mote e referir alguns pormenores; a discussão em loja deve ser apenas para aprovação ou reprovação de ideias.  

 Uso de temas filosóficos: Levar para a loja temas filosóficos e reflexões do mundo profano. Usar situações do dia-a-dia para referir a forma como os valores maçónicos podem ser corretamente usados.  

 Trabalhos enviados em antecipação à discussão em loja: Os textos e ideias devem ser curtos (não mais do que 5 minutos de exposição), sendo que devem ser enviados com uma antecedência de 2 a 3 dias. Não é no momento da exposição que se reflete. O ato de reflexão exige tempo e dedicação; não é no momento em que, muitas vezes, vimos do trabalho cansados, que vamos conseguir refletir sobre determinado tema e ainda falar sobre ele perante os irmãos.  

 Evitar o networking do “amiguismo” e dos aproveitamentos institucionais.  


Conclusão

Não se pretende que este artigo seja um corolário do que deve ser uma loja maçónica atual, mas sim o ponto inicial para uma discussão saudável do futuro desta instituição secular. A maçonaria só sobreviveu porque teve capacidade de adaptação. Por exemplo, antes da 1ª Guerra Mundial, só homens perfeitos (com todos os dedos, mãos e pés) podiam fazer parte da maçonaria. Após este conflito, chegou-se à conclusão que os homens teriam de ser perfeitos na sua consciência. Foi esta adaptação que fez com que muitos Irmãos não saíssem da maçonaria após terem ficado decepados dos seus membros.


Vamos discutir este tema?


D∴ G∴ 


01 agosto 2026

O Peso do Malhete

Na primeira sessão de Julho, fui eleito Venerável Mestre da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues, e escrever ou até pensar nesta frase ainda me parece estranho. É uma mistura de orgulho, alegria, gratidão e, há que dizê-lo, também de algum peso. Ainda não fui instalado, nem tão pouco me sentei na Cadeira de Salomão ou peguei no malhete de VM, mas penso que comecei a sentir o peso da responsabilidade no momento em que o resultado da votação foi anunciado.

Na nossa Loja, como em outras, existe a tradição de o caminho até ao Oriente não aparecer de repente, vai-se fazendo através do exercício de diferentes cargos, primeiro observando, depois ajudando, assumindo responsabilidades e aprendendo a olhar para a Loja de diferentes lugares. É um percurso que se vai preparando e que, de alguma forma, também se vai esperando e até ambicionando.

Mas uma coisa é sabermos que estamos nesse caminho, outra é chegar o momento em que os nossos Irmãos são chamados a votar. Por muito que a tradição da Loja apontasse nesse sentido, por muito que o meu nome já tivesse sido proposto e por muito que racionalmente tudo parecesse encaminhado, ficou sempre aquele nervo miudinho. E penso que ainda bem.

Talvez o dia em que alguém aguarde uma votação destas com absoluta indiferença seja também o dia em que o malhete não lhe assente como deveria, pois aquele nervosismo não nasce da possibilidade de não sermos eleitos, mas sobretudo da consciência de que estamos a pedir aos nossos Irmãos algo muito mais importante do que um voto, estamos a pedir-lhes a sua confiança.

Ser Venerável Mestre não é ser dono ou mandante da Loja, nem sequer ser o seu elemento mais importante. a Loja não lhe pertence, ela é de todos os Irmãos que a constituem, aos que hoje nela trabalham, aos que antes de nós a construíram e também àqueles que um dia receberão aquilo que formos capazes de lhes deixar.

O Venerável Mestre recebe um malhete, mas não recebe com ele sabedoria automática. Senta-se no Oriente, mas não passa por isso a ser o dono da Luz. Pode dirigir os trabalhos, organizar, decidir quando necessário e procurar indicar um caminho, mas a autoridade não nasce apenas do cargo ou do som do malhete, constrói-se na coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz, na capacidade de ouvir, no equilíbrio das decisões e, principalmente, no reconhecimento dos Irmãos.

É essa talvez a parte mais exigente.

Ideias não faltam. Quero ajudar a construir uma Loja viva, participada e fraterna. Uma Loja com Colunas fortes, onde os Aprendizes encontrem espaço para crescer, os Companheiros sintam vontade de trabalhar e os Mestres assumam a responsabilidade de transmitir aquilo que receberam. Uma Loja que cuide do seu Ritual, da sua memória e dos seus Irmãos, que seja capaz de preservar a tradição sem ter medo de preparar o futuro.

Nenhuma ideia se fará apenas porque o Venerável Mestre assim o deseja, uma Loja viva não se constrói a partir do Oriente, constrói-se em todo o Templo. Faz-se com os Vigilantes, com os Oficiais, com os Mestres, com os Companheiros e com os Aprendizes. Faz-se com os que apresentam ideias, com os que as discutem, com os que ajudam a concretizá-las e também com aqueles que, fraternalmente, nos alertam quando entendem que estamos a seguir pelo caminho errado.

Não tenho a ilusão de que farei tudo bem. Seguramente cometerei erros, continuo, afinal, a trabalhar a minha própria pedra bruta, agora apenas a partir de um lugar diferente e com uma responsabilidade acrescida.

Quando fizer soar o malhete pela primeira vez, espero lembrar-me de que aquele som não representa uma chegada, mas uma nova partida neste longo caminho, na Maçonaria, mesmo a cadeira colocada mais a Oriente é apenas mais um lugar a partir do qual continuamos a observar, aprender, a servir e a crescer.

Fui eleito Venerável Mestre da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues. Sinto um enorme orgulho, uma profunda gratidão e, confesso, ainda algum frio miudinho.

Espero nunca deixar de o sentir.

João B. M∴M∴ 

25 julho 2026

 

HUMANIDADE 2 - INTEGRAÇÃO

Ruben Portinha

Há pouco tempo fui surpreendido pela RTP. Assistia à transmissão de um programa de entretenimento musical com o Fernando Pereira, imitador famoso, cantor, entretainer com carreira longa e cheia de êxitos pelos palcos do mundo.

Fernando Pereira apareceu acompanhado por diversos convidados e entre eles uma figura que se cruzou comigo nos idos da TVL por razões que, na época, nada tinham a ver com música.

Refiro-me a Ruben Portinha, velho conhecido e pessoa que me deu a honra de poder acompanhar nalgumas das suas atividades, na época muito longe da música que ele hoje interpreta e muito bem, refira-se.

O Ruben Portinha é invisual e na época que refiro (estávamos em 2013) era, além de desportista valoroso, Presidente da direção da ANDDVIS (Associação Nacional de Desporto para Deficientes Visuais), lutando com enormes dificuldades para manter e desenvolver a atividade de apoio social que era seu objetivo. Foi nessa qualidade que o conheci e foi nessa qualidade que nos relacionamos.

Neste conjunto de textos/vídeos procuro trazer à luz do conhecimento geral aquilo que chamei de Humanidade, através de Homens que praticam Maçonaria, mesmo sem serem Maçons, mesmo não sabendo que aquilo que fazem é, também, Maçonaria. São Homens que lutam por distribuir Igualdade, Fraternidade, Liberdade. São Homens “justos e de bons costumes” que entendem na perfeição o grito de alerta que soa para salvação da Humanidade e ao qual a grande maioria não presta qualquer atenção, profundamente preocupados que andamos com a permanente viagem de férias da Cristina Ferreira ou com os mais quaisquer milhões do CR7.

Entretanto há o Ruben Portinha. Conheço alguns “Ruben Portinha”, fazendo das tripas coração para poder levar uma equipa de meia dúzia de atletas a um torneio onde vão defender as cores de Portugal. Com a característica fatal, neste caso são invisuais.

Os vídeos que junto resultam de um trabalho de 2013 mas poderia perfeitamente ser da semana passada. As dificuldades são as mesmas, as razões para essas dificuldades são as mesmas, as desculpas são as mesmas.

Os exemplos que trago ao A-Partir-Pedra interessam à Maçonaria prática (!), a tal que se faz fora dos templos e que são, na verdade, a prática de Fraternidade, de Liberdade e de Igualdade entre todos e para todos, com dificuldades físicas ou sem essas dificuldades. É a integração de todos os Homens nos seus direitos humanos, direitos que são adquiridos pelo simples facto de terem nascido.

É o que distingue o Homem.

E há muitas razões, mesmo muitas e graves razões para que os Maçons se preocupem.

Tanto se fala em Integração. Constantemente com referência a imigrantes e integrar é importante, é mesmo fundamental, mas sem descurar este plano da imigração para quando a integração dos outros… dos que já cá estão e cá nasceram, desde sempre com as suas famílias ? Quantos portugueses clamam por integração ?

Organizações como a ANDDVIS que aqui é mostrada, procuram e fazem a integração de portugueses de origem, mas com que dificuldades ?

Igualdade sim… Liberdade sim… mas para quantos e principalmente para QUAIS ?

O que trago ao blog são exemplos singulares aproveitando algumas, poucas, experiências vividas, mas este tema merece um trabalho maçónico profundo, continuado, tornado objetivo de vida maçónica.

Fica a semente.



Uma nota especial referente ao “Goalball”, desporto praticado por atletas invisuais, admitindo que algum leitor possa não estar familiarizado com esta atividade (isto é mesmo desporto !).

O Goalball é praticado por equipas de 3 elementos que tentam, à vez, introduzir a bola na rede adversária jogando-a com as mãos. A bola tem como característica especial a produção de um som que a distingue de tudo o resto, sendo através do som que os praticantes distinguem a sua localização e trajeto quando em movimento.


Julho/6026

J.Paiva Setúbal (MM:.)

18 julho 2026

Regular, Reconhecido, Irregular — três palavras que não significam o que pareces pensar



O vocabulário que usamos todos os dias na loja merece uma revisão honesta.

As frases que já ouviste: "Aquela potência não é reconhecida.", "Esse irmão é irregular.", "O REAA deles é espúrio."

Frases assim circulam em qualquer encontro maçónico em Portugal ou no Brasil. Quem as diz raramente está errado na conclusão, mas quase sempre confunde os conceitos pelo caminho. 

E a confusão importa porque, quando misturamos o regular com o reconhecido, chegamos a conclusões que os factos não sustentam.

Vale a pena separar as peças.

O que é uma potência (e o que não é)

Uma potência maçónica (também chamada obediência) é uma entidade que governa as lojas por meio de um Grão-Mestre. O que distingue uma potência de uma confederação é simples: na potência, as lojas respondem a um único Grão-Mestre; numa confederação, várias potências independentes agrupam-se voluntariamente, mas cada uma mantém o seu próprio Grão-Mestre sem responder ao de outra.

Em Portugal temos dois casos claros. A GLLP/GLRP é uma potência. O Grande Oriente Lusitano é uma potência. Nenhuma das duas é uma confederação.

No Brasil, para dar um contraste de escala, existem 53 potências regulares reconhecidas e confederações que as agrupam (COMAB, CMSB).


Regular não é o mesmo que reconhecido

Esta é a distinção mais importante do texto como um todo.

Uma potência regular é aquela que segue os princípios estabelecidos como critérios de regularidade (os mais referenciados são os oito princípios publicados pela Grande Loja Unida de Inglaterra (UGLE) em 1929). Uma potência reconhecida é aquela com a qual outra potência assinou um tratado de reconhecimento mútuo. São coisas diferentes.

O exemplo mais claro vem de França. A Grande Loja Nacional Francesa (GLNF) é, há décadas, a única potência francesa reconhecida pela UGLE. Em 2011, por razões de gestão interna, a Alemanha, a Bélgica, a Áustria, a Suíça e o Luxemburgo suspenderam o reconhecimento à GLNF. A GLNF passou esses anos sem reconhecimento dessas potências europeias. No entanto, continuava regular, seguia os oito princípios, trabalhava com os mesmos rituais, exigia crença num Ser Supremo e não admitia mulheres. Em 2014, a UGLE restaurou o reconhecimento. Os princípios nunca mudaram. O que mudou foi a vontade política de reconhecer.

Outro caso revelador: foi a própria GLNF que criou a Grande Loja Regular de Portugal em 1991. Mais tarde, retirou-lhe o reconhecimento. O criador não está obrigado a reconhecer para sempre.


Reconhecimento é uma decisão política entre potências. Regularidade é uma questão de princípios.


O irmão irregular na potência regular

A confusão entre regular e reconhecido também surge ao nível individual.

Um irmão iniciado regularmente na GLLP pode tornar-se irregular. Basta que peça baixa sem a regularizar, ou que seja suspenso, ou que deixe de estar ligado a qualquer loja. A situação dele perante a Maçonaria é irregular — não porque a GLLP seja irregular, mas porque ele rompeu o vínculo que o ligava a ela.

O inverso também existe: um irmão de uma potência não reconhecida pela GLLP não é necessariamente irregular. Pode estar a trabalhar com regularidade dentro da sua própria obediência. Para a GLLP, esse irmão simplesmente não é reconhecido, o que tem consequências práticas na visitação, mas não é a mesma coisa que chamá-lo de irregular.


O rito não tem regularidade. A potência tem.

Ouve-se dizer que "o REAA do GOL é irregular". Não é bem assim.

O Rito Escocês Antigo e Aceito é um sistema de graus. Pode ser praticado por potências regulares (como a GLLP/GLRP) e por potências não reconhecidas pela UGLE (como o GOL). O rito em si não recebe o adjetivo de regular ou de irregular. O que recebe esse adjetivo é a potência que o pratica.

Se uma potência regular pratica o REAA, esse trabalho decorre dentro da regularidade. Se uma potência liberal pratica o mesmo rito, o rito não fica "contaminado". Neste caso, a potência simplesmente não atende aos critérios que outras potências usam para estabelecer reconhecimento.


Dois guarda-chuvas e o que fica de fora

A Maçonaria mundial divide-se, grosso modo, em dois grandes campos.

O campo tradicional agrupa potências que seguem os princípios UGLE de 1929: crença num Ser Supremo obrigatória, iniciação reservada a homens, proibição de discussão política e religiosa em loja. Aqui estão a GLLP/GLRP, o GOB brasileiro, a Grande Loja de Espanha, a GLNF francesa, entre muitas outras.

O campo liberal ou continental agrupa potências com princípios distintos. O Grande Oriente de França é o caso mais conhecido. Em Portugal, o Grande Oriente Lusitano pertence a este campo e consolidou essa pertença em maio de 2025, quando aprovou a admissão de mulheres, um critério que os princípios UGLE de 1929 excluem explicitamente.

Quem está num campo diz que o outro é irregular. Quem está do outro lado diz que é regular — a partir dos seus próprios critérios. Regularidade e reconhecimento dependem sempre de quem está a falar e do conjunto de princípios que usa como referência.

Fora destes dois guarda-chuvas, existe ainda um terceiro espaço: potências que seguem os princípios tradicionais, mas não têm tratado de reconhecimento com ninguém. Algumas são sérias e trabalham com rigor. Outras usam o nome Maçonaria como marca comercial. Estão no mesmo balde pela ausência de reconhecimento, mas não são a mesma coisa. A única forma de as distinguir é estudá-las caso a caso.


O que muda na prática

O não-reconhecimento tem uma consequência objetiva: a intervisitação fica bloqueada. Um irmão da GLLP não pode visitar lojas do GOL, nem o contrário. O princípio funciona assim: se dois irmãos de potências que não se reconhecem entre si visitarem uma terceira loja em que ambas as suas potências têm tratado, podem partilhar o mesmo chão. Acontece no Brasil, onde irmãos de potências que romperam tratados entre si se encontram regularmente nas lojas de uma terceira obediência que as reconhece todas. O reconhecimento bilateral não é um pré-requisito para estar na mesma sessão.



Não reconhecer uma potência não significa que as suas lojas trabalham mal, que os seus rituais são falsos, ou que os seus irmãos não se desenvolvem como Maçons. Significa apenas que duas entidades não assinaram um tratado. As razões podem ser históricas, filosóficas, ou simplesmente políticas como o caso da GLNF prova.


A minha leitura pessoal é que o problema maior não está em quem reconhece quem, mas na dispersão de esforços que resulta da multiplicação de potências sem unidade de propósito. O Brasil tem 53 potências regulares reconhecidas, o segundo maior número de Maçons do mundo, e o impacto social coletivo é quase invisível porque cada potência levanta a sua própria bandeira. Portugal tem quatro obediências. A questão que me parece mais produtiva não é "qual é a potência mais regular", mas "o que estamos a construir juntos".

Fábio Serrano M∴M∴


10 julho 2026

HUMANIDADE 1 - "CAIS"

 Este título tem a ver com o que iremos “blogar” agora e em mais alguns momentos

seguintes com referência a uma coluna vertebral a que chamarei Humanidade.

Na Maçonaria temos como preocupação central a trilogia Liberdade, Fraternidade,

Igualdade e estas 3 grandezas maiores do Homem desenvolvem-se com cada vez maior

dificuldade.

Nunca foi fácil mas sempre houve quem esperasse que o tempo, esse grande senhor que

se calhar não existe (!), desse alguma ajuda com o que poderia ser o amadurecimento do

Ser Humano.

Acontece porém que o Ser Humano parece teimar em não amadurecer.

Pior do que isso, o Ser Humano parece que está a apodrecer antes de amadurecer.

Acontece com muitos frutos esse fenómeno. Como se diz no Alentejo como justificação “à

patrão, tá tude podre, dê-lhe a bicheza…”.

O que constato lamentavelmente, conforme os acontecimentos da vida vão passando, é

justamente isso. Parece que o Ser Humano também está “ca bicheza”, “bicheza” que não

o deixa amadurecer e o faz cair de podre.

A Maçonaria tenta aproveitar o que possa haver de são para manter a qualidade deste

“produto” procurando salvar os possíveis de forma a que com alguma atenção se possa

produzir mais frutos sãos, capazes de resistir à tal de “bicheza”.

Mas não está fácil !

O entendimento do que é entre Humanos, ser Igual, ser Fraterno e ser Livre não tem

conseguido a recetividade que, entendemos nós, é indispensável para salvar este “pomar”.

Pelo contrário, o que vemos é a epidemia cada vez mais espalhada, mais dispersa, com o

resultado miseravelmente destruidor que está bem à vista ( e ao ouvido, e ao tacto…) de

todos os que se recusam a viver distraídos.

Há, neste “pomar”, frutos ainda sãos ?

Há e trago para o “A-Partir-Pedra” alguns exemplos. São casos isolados ? Gostaría que

não fossem, gostaria que pudessem ser realmente os exemplos a seguir por todos neste

percurso a que chamamos Vida.

São casos que são mantidos como que em segredo. Parece que o tempo (o tal senhor que

se calhar não existe) é pouco para coisas importantes como o futebol, para o detalhe bem

minucioso dos assassinatos ordenados por mentecaptos julgados poderosos ou por

desastres naturais destruidores de milhares de seres humanos. Não resta tempo para

evidenciar a fruta sã, ocupados como andamos a cheirar a fruta podre !

O sentido da nossa Cadeia de União ensina-nos a dar atenção à qualidade da vida

humana e à forma como vivemos a nossa condição de Humanos.

A Maçonaria que é importante dentro do Templo é muito mais importante fora dele.

Maçonaria faz-se, a sério mesmo, na rua porque é aí que estão os restantes nossos

Irmãos em quem pensamos (ou deveríamos pensar) quando falamos de Liberdade,

Fraternidade, Igualdade.

E porque a fruta sã deve ser exposta o mais possível para conhecimento de todos, e

exemplo, e ensinamento, e cópia, deixo-vos um pequeno trabalho chamando a atenção

para o facto de ter sido produzido em 2013 (!). Se não perceberem que foi há 13 anos…

então é porque o tempo parou na fruta podre !


Julho/6026

J.PaivaSetúbal (MM:.)

04 julho 2026

O Primeiro Passo

Na última sessão da nossa Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues tivemos a alegria de receber um novo Irmão, o João A.


Há momentos que, por mais que os queiramos explicar, perdem sempre qualquer coisa quando passam para palavras, a iniciação é um desses momentos. Não porque tenha de ser escondida atrás de mistérios exagerados, nem porque precise de ser envolvida em dramatismos desnecessários, mas porque há experiências que simplesmente têm de ser vividas. E cada um vive a sua iniciação à sua maneira, cada Maçom guarda dela memórias diferentes, emoções diferentes, silêncios diferentes e até dúvidas diferentes. Talvez seja precisamente essa vivência tão própria que torna a iniciação tão especial, todos batemos à mesma porta e todos somos recebidos da mesma forma, o caminho que trilhamos é que nunca é o mesmo.

Quem já passou por ela sabe do que falo, quem ainda não passou, por muito que leia ou que lhe expliquem, nunca conseguirá perceber verdadeiramente o que se sente naquele caminho entre a profanidade e a Luz, entre aquilo que se deixa para trás e aquilo que começa a nascer dentro de nós. A quem vier por bem e com vontade sincera de se melhorar, resta apenas dizer que tudo comoeça com um simples bater à porta.

Agora, ponto importante. A iniciação não faz, como por magia, de um homem um Maçom completo, longe disso. Se assim fosse, a Maçonaria seria apenas uma cerimónia bonita. E não é. A iniciação é antes o primeiro passo, é o momento em que alguém bate à porta, é recebido, é confrontado consigo próprio e começa uma caminhada que, se for levada a sério, nunca mais termina.

Talvez seja isso que a torna tão especial, não é o segredo ou o "aparato" ritual. Não é nem sequer a emoção natural do momento, penso que seja a percepção que estamos perante alguém que decidiu começar a trabalhar a sua pedra bruta, acompanhado por outros homens que, no fundo, continuam exatamente no mesmo trabalho.

Nenhum maçom é Justo e Perfeito, no fim de contas somos homens, mas almejamos e trabalhamos para que passo a passo, nos tornemos um pouco mais justos e perfeitos que no passo anterior. Todos continuamos a aprender, a cair, a corrigir, a melhorar, a discutir, a ouvir, a duvidar. A crescer.

Na passada quarta-feira, a Loja esteve viva. E quando uma Loja está viva, sente-se. Sente-se no silêncio, na atenção, nos gestos, nos olhares e naquele sentimento difícil de explicar de que algo importante aconteceu ali, mesmo que o mundo lá fora continue igual.

Ao João A., desejo que encontre entre nós não apenas uma Loja, mas uma Oficina. Um lugar onde se trabalha, onde se aprende, onde se serve e onde se cresce. Que encontre Irmãos verdadeiros, daqueles que ajudam, corrigem, acompanham e também sabem rir à mesa depois dos trabalhos.

A iniciação é só o primeiro passo. Mas há primeiros passos que mudam para sempre a forma como olhamos o caminho.

E talvez seja essa a verdadeira magia maçonica.

João B. M∴M∴

27 junho 2026

A Prancha que Não Te Pertence


Você já notou que as pranchas sobre o esquadro e o compasso dizem todas a mesma coisa? Não aproximadamente. Exatamente a mesma coisa, às vezes na mesma ordem.

Obviamente, isto não é coincidência. A maioria dos irmãos não escreveu o que apresentou.

Existe uma ecologia de textos maçônicos circulando em grupos de WhatsApp, em blogs, em arquivos de Word que circulam sem rastreio. Alguém pesquisa, copia, ajusta dois parágrafos, coloca o nome. O trabalho está feito. A loja ouve. O irmão senta. Ninguém fala nada.

Eu entendo o impulso. Um Google, um chatgpt e voilá. Preparar uma prancha do zero é trabalhoso, e a maioria de nós chega ao dia marcado com pouco tempo e muita pressão. Um rascunho de outra pessoa parece uma saída razoável. O problema é que ele resolve a situação de forma incorreta. A Loja não precisa de mais uma exposição sobre o Esquadro. É o aprendiz que apresenta que precisa ter pensado no que aquele símbolo significa para ele.

Isso é diferente.

Quando você passa meses tentando articular por que aquele símbolo significa algo para você — errando, descartando, voltando — alguma coisa muda e não é no texto. É em você. É exatamente isso que deveria estar acontecendo no período de aprendiz. Pegar o atalho não é apenas desonesto; é desperdiçar o único momento em que esse trabalho funciona e se torna uma engrenagem bem oleada para o futuro da caminhada.

O problema maior é o que a cópia constrói ao longo do tempo: uma loja onde ninguém diz nada novo, onde ninguém explica os símbolos de forma diferente, onde a discussão após a prancha vira um exercício de confirmação coletiva ou de massacre pelo massacre. Fica chato. Fica vazio. E fica uma lacuna que talvez nunca seja preenchida no quadro da loja ou na cabeça de quem apresentou. 

Sou grato de fazer parte de uma loja onde isso é raro. Tenho escutado trabalhos que vão muito além da mesmice e do óbvio. Alguns incomodam; outros forçam o cérebro a pensar até a última vírgula. Muitos vêm acompanhados de uma pesquisa extensa em fontes não convencionais. E isso diz muito sobre as qualidades dos meus irmãos.

Não existe um protocolo que resolva isso. Só o hábito pessoal de sentar com a página em branco e trabalhar. O caminho mais rápido não é o que leva mais longe. 


Fábio Serrano M∴M∴

20 junho 2026

Ser Companheiro

Entre o entusiasmo do Aprendiz e a maturidade do Mestre existe um caminho muitas vezes esquecido, o caminho do Companheiro!


O Aprendiz trabalha sobre si mesmo, aprende o silêncio, a disciplina e a observação. Descobre, também, que a pedra mais difícil de desbastar já foi encontrada, não longe mas mesmo assim muitas vezes é preciso um espelho para percebe que é a sua própria pedra bruta. Com o tempo, mais curto ou mais longo, mas seu e só seu, o aprendiz percebe que é o momento em que esse trabalho interior já não basta, é preciso levantar os olhos da pedra e compreender a construção.

Ser Companheiro é precisamente isso.

É deixar de olhar apenas para a tarefa e começar a perceber a Obra, é aprender a medir, a comparar, a questionar e a procurar conhecimento. Não por mera curiosidade intelectual, mas porque cada novo saber amplia a nossa capacidade de servir.

No Rito Escocês Antigo e Aceite, o Companheiro é convidado a percorrer um caminho marcado pelos cinco sentidos, pelas artes liberais e pelos instrumentos que permitem transformar a matéria em harmonia. Descobrir que a força sem sabedoria é insuficiente e que a sabedoria sem acção permanece estéril.

Talvez por isso este seja um dos graus mais actuais da Maçonaria, mesmo sendo o mais incompreendido. Hoje em dia vivemos uma época rica em informação, mas pobre em compreensão e o Companheiro recorda-nos que conhecer não é acumular factos, mas sim aprender a relacioná-los, a encontrar significado e a colocá-los ao serviço de algo maior do que nós próprios.

Ser Companheiro é continuar a trilhar o próprio caminho, já depois do início do percurso, mas ainda longe do seu destino final. É aceitar que a verdadeira aprendizagem não termina com a iniciação, pelo contrário, é aí que realmente começa.

Porque a pedra pode estar mais lisa, mas o Templo ainda está longe de concluído e muitas mais polidelas serão necessárias para que ela encaixe de forma quase justa e quase perfeita.

João B. M∴M∴

13 junho 2026

Quem controla o mundo?



Na passada semana iniciou-se a WWDC 26, o tão esperado encontro anual da Apple no qual são anunciadas as novidades tecnológicas para o ano seguinte. Neste encontro foram reveladas as atualizações dos sistemas operativos da marca — com grande destaque para o iOS —, abrindo-se as portas ao futuro do software que dita o rumo de todo o ecossistema. No fundo, para entusiastas ou não, é um evento que nos dá uma noção clara das mais variadas inovações que, muito em breve, vão caber no nosso bolso.

Neste evento, as expectativas estavam todas viradas para a apresentação da nova Siri. Sejamos honestos: a Siri nunca se afirmou como um motor propriamente inteligente. No entanto, após um investimento anual de mil milhões de euros por parte da Apple no desenvolvimento da sua nova Inteligência Artificial, esperava-se que a assistente ganhasse finalmente "mais neurónios". Vale a pena recordar que, até agora, as mudanças de sistema operativo nunca tinham discriminado os equipamentos mais recentes; desde que um dispositivo estivesse dentro do leque de suporte da marca, recebia, de uma forma geral, o software mais atualizado da maçã.

Mas nesta WWDC aconteceu algo inédito: apenas os equipamentos equipados com os chips mais recentes e com capacidades elevadas de memória terão acesso à "Super Siri". Isto acontece porque as novas valências da IA exigem especificações de hardware muito particulares para correrem localmente no dispositivo. Na prática, isto significa que aparelhos com apenas um ano de vida vão ficar privados das atualizações mais modernas — algo nunca antes visto na história da Apple.

À partida, a evolução parece espetacular, mas precisamos de estar atentos aos meandros desta questão. Qual é o fator diferenciador? A IA. O que fez com que um dispositivo topo de gama ficasse "obsoleto" apenas um ano após o lançamento? A IA. Claro que estes aparelhos continuam a funcionar muito bem, mas a perceção do utilizador já não é a mesma. Se juntarmos a isto a competição feroz entre os gigantes dos motores de IA (como a Google com o Gemini, a Anthropic e a OpenAI), temos um retrato claro das tecnologias que controlam o mundo atualmente.

O avanço vertiginoso da Inteligência Artificial está a fazer com que o próprio hardware não consiga acompanhar o ritmo do software. Mesmo para quem, até agora, olhava com ceticismo ou pessimismo para este recurso, o cenário atual acaba por ser assustador, dada a rapidez com que esta tecnologia se torna cada vez mais autónoma e capacitada.

Olhando para este cenário sob uma perspetiva de busca pelo conhecimento e de constante aperfeiçoamento social, o que é que tudo isto tem a ver com a Maçonaria?

Tudo e nada. Por um lado, partilha o princípio de que temos de estar atentos à evolução do mundo — não só para conhecermos as novidades, mas para compreendermos as suas repercussões no futuro da humanidade. Há toda uma geração que vai nascer e crescer com este recurso omnipresente. Que aptidões cognitivas vão desenvolver? Como será o mundo digital daqui a escassos cinco anos? E o futuro dos conflitos armados, haverá frotas de drones autónomos com IA a substituir os humanos no terreno?

Todas estas perguntas podem parecer especulativas hoje, mas são realidades emergentes às quais não podemos fechar os olhos