18 julho 2026

Regular, Reconhecido, Irregular — três palavras que não significam o que pareces pensar



O vocabulário que usamos todos os dias na loja merece uma revisão honesta.

As frases que já ouviste: "Aquela potência não é reconhecida.", "Esse irmão é irregular.", "O REAA deles é espúrio."

Frases assim circulam em qualquer encontro maçónico em Portugal ou no Brasil. Quem as diz raramente está errado na conclusão, mas quase sempre confunde os conceitos pelo caminho. 

E a confusão importa porque, quando misturamos o regular com o reconhecido, chegamos a conclusões que os factos não sustentam.

Vale a pena separar as peças.

O que é uma potência (e o que não é)

Uma potência maçónica (também chamada obediência) é uma entidade que governa as lojas por meio de um Grão-Mestre. O que distingue uma potência de uma confederação é simples: na potência, as lojas respondem a um único Grão-Mestre; numa confederação, várias potências independentes agrupam-se voluntariamente, mas cada uma mantém o seu próprio Grão-Mestre sem responder ao de outra.

Em Portugal temos dois casos claros. A GLLP/GLRP é uma potência. O Grande Oriente Lusitano é uma potência. Nenhuma das duas é uma confederação.

No Brasil, para dar um contraste de escala, existem 53 potências regulares reconhecidas e confederações que as agrupam (COMAB, CMSB).


Regular não é o mesmo que reconhecido

Esta é a distinção mais importante do texto como um todo.

Uma potência regular é aquela que segue os princípios estabelecidos como critérios de regularidade (os mais referenciados são os oito princípios publicados pela Grande Loja Unida de Inglaterra (UGLE) em 1929). Uma potência reconhecida é aquela com a qual outra potência assinou um tratado de reconhecimento mútuo. São coisas diferentes.

O exemplo mais claro vem de França. A Grande Loja Nacional Francesa (GLNF) é, há décadas, a única potência francesa reconhecida pela UGLE. Em 2011, por razões de gestão interna, a Alemanha, a Bélgica, a Áustria, a Suíça e o Luxemburgo suspenderam o reconhecimento à GLNF. A GLNF passou esses anos sem reconhecimento dessas potências europeias. No entanto, continuava regular, seguia os oito princípios, trabalhava com os mesmos rituais, exigia crença num Ser Supremo e não admitia mulheres. Em 2014, a UGLE restaurou o reconhecimento. Os princípios nunca mudaram. O que mudou foi a vontade política de reconhecer.

Outro caso revelador: foi a própria GLNF que criou a Grande Loja Regular de Portugal em 1991. Mais tarde, retirou-lhe o reconhecimento. O criador não está obrigado a reconhecer para sempre.


Reconhecimento é uma decisão política entre potências. Regularidade é uma questão de princípios.


O irmão irregular na potência regular

A confusão entre regular e reconhecido também surge ao nível individual.

Um irmão iniciado regularmente na GLLP pode tornar-se irregular. Basta que peça baixa sem a regularizar, ou que seja suspenso, ou que deixe de estar ligado a qualquer loja. A situação dele perante a Maçonaria é irregular — não porque a GLLP seja irregular, mas porque ele rompeu o vínculo que o ligava a ela.

O inverso também existe: um irmão de uma potência não reconhecida pela GLLP não é necessariamente irregular. Pode estar a trabalhar com regularidade dentro da sua própria obediência. Para a GLLP, esse irmão simplesmente não é reconhecido, o que tem consequências práticas na visitação, mas não é a mesma coisa que chamá-lo de irregular.


O rito não tem regularidade. A potência tem.

Ouve-se dizer que "o REAA do GOL é irregular". Não é bem assim.

O Rito Escocês Antigo e Aceito é um sistema de graus. Pode ser praticado por potências regulares (como a GLLP/GLRP) e por potências não reconhecidas pela UGLE (como o GOL). O rito em si não recebe o adjetivo de regular ou de irregular. O que recebe esse adjetivo é a potência que o pratica.

Se uma potência regular pratica o REAA, esse trabalho decorre dentro da regularidade. Se uma potência liberal pratica o mesmo rito, o rito não fica "contaminado". Neste caso, a potência simplesmente não atende aos critérios que outras potências usam para estabelecer reconhecimento.


Dois guarda-chuvas e o que fica de fora

A Maçonaria mundial divide-se, grosso modo, em dois grandes campos.

O campo tradicional agrupa potências que seguem os princípios UGLE de 1929: crença num Ser Supremo obrigatória, iniciação reservada a homens, proibição de discussão política e religiosa em loja. Aqui estão a GLLP/GLRP, o GOB brasileiro, a Grande Loja de Espanha, a GLNF francesa, entre muitas outras.

O campo liberal ou continental agrupa potências com princípios distintos. O Grande Oriente de França é o caso mais conhecido. Em Portugal, o Grande Oriente Lusitano pertence a este campo e consolidou essa pertença em maio de 2025, quando aprovou a admissão de mulheres, um critério que os princípios UGLE de 1929 excluem explicitamente.

Quem está num campo diz que o outro é irregular. Quem está do outro lado diz que é regular — a partir dos seus próprios critérios. Regularidade e reconhecimento dependem sempre de quem está a falar e do conjunto de princípios que usa como referência.

Fora destes dois guarda-chuvas, existe ainda um terceiro espaço: potências que seguem os princípios tradicionais, mas não têm tratado de reconhecimento com ninguém. Algumas são sérias e trabalham com rigor. Outras usam o nome Maçonaria como marca comercial. Estão no mesmo balde pela ausência de reconhecimento, mas não são a mesma coisa. A única forma de as distinguir é estudá-las caso a caso.


O que muda na prática

O não-reconhecimento tem uma consequência objetiva: a intervisitação fica bloqueada. Um irmão da GLLP não pode visitar lojas do GOL, nem o contrário. O princípio funciona assim: se dois irmãos de potências que não se reconhecem entre si visitarem uma terceira loja em que ambas as suas potências têm tratado, podem partilhar o mesmo chão. Acontece no Brasil, onde irmãos de potências que romperam tratados entre si se encontram regularmente nas lojas de uma terceira obediência que as reconhece todas. O reconhecimento bilateral não é um pré-requisito para estar na mesma sessão.



Não reconhecer uma potência não significa que as suas lojas trabalham mal, que os seus rituais são falsos, ou que os seus irmãos não se desenvolvem como Maçons. Significa apenas que duas entidades não assinaram um tratado. As razões podem ser históricas, filosóficas, ou simplesmente políticas como o caso da GLNF prova.


A minha leitura pessoal é que o problema maior não está em quem reconhece quem, mas na dispersão de esforços que resulta da multiplicação de potências sem unidade de propósito. O Brasil tem 53 potências regulares reconhecidas, o segundo maior número de Maçons do mundo, e o impacto social coletivo é quase invisível porque cada potência levanta a sua própria bandeira. Portugal tem quatro obediências. A questão que me parece mais produtiva não é "qual é a potência mais regular", mas "o que estamos a construir juntos".

Fábio Serrano M∴M∴


10 julho 2026

HUMANIDADE 1 - "CAIS"

 Este título tem a ver com o que iremos “blogar” agora e em mais alguns momentos

seguintes com referência a uma coluna vertebral a que chamarei Humanidade.

Na Maçonaria temos como preocupação central a trilogia Liberdade, Fraternidade,

Igualdade e estas 3 grandezas maiores do Homem desenvolvem-se com cada vez maior

dificuldade.

Nunca foi fácil mas sempre houve quem esperasse que o tempo, esse grande senhor que

se calhar não existe (!), desse alguma ajuda com o que poderia ser o amadurecimento do

Ser Humano.

Acontece porém que o Ser Humano parece teimar em não amadurecer.

Pior do que isso, o Ser Humano parece que está a apodrecer antes de amadurecer.

Acontece com muitos frutos esse fenómeno. Como se diz no Alentejo como justificação “à

patrão, tá tude podre, dê-lhe a bicheza…”.

O que constato lamentavelmente, conforme os acontecimentos da vida vão passando, é

justamente isso. Parece que o Ser Humano também está “ca bicheza”, “bicheza” que não

o deixa amadurecer e o faz cair de podre.

A Maçonaria tenta aproveitar o que possa haver de são para manter a qualidade deste

“produto” procurando salvar os possíveis de forma a que com alguma atenção se possa

produzir mais frutos sãos, capazes de resistir à tal de “bicheza”.

Mas não está fácil !

O entendimento do que é entre Humanos, ser Igual, ser Fraterno e ser Livre não tem

conseguido a recetividade que, entendemos nós, é indispensável para salvar este “pomar”.

Pelo contrário, o que vemos é a epidemia cada vez mais espalhada, mais dispersa, com o

resultado miseravelmente destruidor que está bem à vista ( e ao ouvido, e ao tacto…) de

todos os que se recusam a viver distraídos.

Há, neste “pomar”, frutos ainda sãos ?

Há e trago para o “A-Partir-Pedra” alguns exemplos. São casos isolados ? Gostaría que

não fossem, gostaria que pudessem ser realmente os exemplos a seguir por todos neste

percurso a que chamamos Vida.

São casos que são mantidos como que em segredo. Parece que o tempo (o tal senhor que

se calhar não existe) é pouco para coisas importantes como o futebol, para o detalhe bem

minucioso dos assassinatos ordenados por mentecaptos julgados poderosos ou por

desastres naturais destruidores de milhares de seres humanos. Não resta tempo para

evidenciar a fruta sã, ocupados como andamos a cheirar a fruta podre !

O sentido da nossa Cadeia de União ensina-nos a dar atenção à qualidade da vida

humana e à forma como vivemos a nossa condição de Humanos.

A Maçonaria que é importante dentro do Templo é muito mais importante fora dele.

Maçonaria faz-se, a sério mesmo, na rua porque é aí que estão os restantes nossos

Irmãos em quem pensamos (ou deveríamos pensar) quando falamos de Liberdade,

Fraternidade, Igualdade.

E porque a fruta sã deve ser exposta o mais possível para conhecimento de todos, e

exemplo, e ensinamento, e cópia, deixo-vos um pequeno trabalho chamando a atenção

para o facto de ter sido produzido em 2013 (!). Se não perceberem que foi há 13 anos…

então é porque o tempo parou na fruta podre !


Julho/6026

J.PaivaSetúbal (MM:.)

04 julho 2026

O Primeiro Passo

Na última sessão da nossa Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues tivemos a alegria de receber um novo Irmão, o João A.


Há momentos que, por mais que os queiramos explicar, perdem sempre qualquer coisa quando passam para palavras, a iniciação é um desses momentos. Não porque tenha de ser escondida atrás de mistérios exagerados, nem porque precise de ser envolvida em dramatismos desnecessários, mas porque há experiências que simplesmente têm de ser vividas. E cada um vive a sua iniciação à sua maneira, cada Maçom guarda dela memórias diferentes, emoções diferentes, silêncios diferentes e até dúvidas diferentes. Talvez seja precisamente essa vivência tão própria que torna a iniciação tão especial, todos batemos à mesma porta e todos somos recebidos da mesma forma, o caminho que trilhamos é que nunca é o mesmo.

Quem já passou por ela sabe do que falo, quem ainda não passou, por muito que leia ou que lhe expliquem, nunca conseguirá perceber verdadeiramente o que se sente naquele caminho entre a profanidade e a Luz, entre aquilo que se deixa para trás e aquilo que começa a nascer dentro de nós. A quem vier por bem e com vontade sincera de se melhorar, resta apenas dizer que tudo comoeça com um simples bater à porta.

Agora, ponto importante. A iniciação não faz, como por magia, de um homem um Maçom completo, longe disso. Se assim fosse, a Maçonaria seria apenas uma cerimónia bonita. E não é. A iniciação é antes o primeiro passo, é o momento em que alguém bate à porta, é recebido, é confrontado consigo próprio e começa uma caminhada que, se for levada a sério, nunca mais termina.

Talvez seja isso que a torna tão especial, não é o segredo ou o "aparato" ritual. Não é nem sequer a emoção natural do momento, penso que seja a percepção que estamos perante alguém que decidiu começar a trabalhar a sua pedra bruta, acompanhado por outros homens que, no fundo, continuam exatamente no mesmo trabalho.

Nenhum maçom é Justo e Perfeito, no fim de contas somos homens, mas almejamos e trabalhamos para que passo a passo, nos tornemos um pouco mais justos e perfeitos que no passo anterior. Todos continuamos a aprender, a cair, a corrigir, a melhorar, a discutir, a ouvir, a duvidar. A crescer.

Na passada quarta-feira, a Loja esteve viva. E quando uma Loja está viva, sente-se. Sente-se no silêncio, na atenção, nos gestos, nos olhares e naquele sentimento difícil de explicar de que algo importante aconteceu ali, mesmo que o mundo lá fora continue igual.

Ao João A., desejo que encontre entre nós não apenas uma Loja, mas uma Oficina. Um lugar onde se trabalha, onde se aprende, onde se serve e onde se cresce. Que encontre Irmãos verdadeiros, daqueles que ajudam, corrigem, acompanham e também sabem rir à mesa depois dos trabalhos.

A iniciação é só o primeiro passo. Mas há primeiros passos que mudam para sempre a forma como olhamos o caminho.

E talvez seja essa a verdadeira magia maçonica.

João B. M∴M∴