Entrar é apenas o princípio!
Há poucos dias, o DG publicou aqui no A Partir da Pedra um texto a que chamou “A conversa que ninguém quer ter”, onde abordou uma questão que me parece não só pertinente como também inevitável hoje em dia: o envelhecimento da Maçonaria e a necessidade de conseguirmos atrair e manter novas gerações.
Começo por dizer que partilho a sua opinião quase na íntegra e, na verdade, este texto não pretende propriamente apresentar uma visão contrária à sua. Ao lê-lo fiquei sobretudo com vontade de pegar numa das duas partes da questão que colocou, como atrair e como manter, e desenvolver um pouco mais a segunda. Também acho que temos demasiada burocracia, que não faz muito sentido ocupar uma parte importante de uma sessão com assuntos administrativos que poderiam ser tratados de outra forma, que podemos utilizar melhor a tecnologia precisamente para retirar parte dessa burocracia da Loja e que devemos criar mais espaço para a discussão, para a formação e para aquilo que verdadeiramente nos leva a querer lá estar.
Ao pensar sobre o assunto tentei então separar duas coisas que normalmente aparecem juntas. Uma coisa é conseguirmos que novos homens se interessem pela Maçonaria, batam à nossa porta, passem pelo processo necessário e sejam iniciados. Outra, talvez bastante diferente, é perceber o que acontece depois de entrarem. Podemos conseguir atrair muitos novos membros, mas, se uma parte significativa deles abandonar a Ordem pouco tempo depois, talvez o problema não esteja apenas na entrada, mas também no que acontece a seguir.
Foi aí que me lembrei de uma palavra pouco maçónica, usada muito para retenção de clientes, que ouvi churn. É curioso que a UGLE também usa este termo. Não gosto particularmente da ideia de tratar uma Loja como uma empresa ou um Irmão como um cliente, porque não são nem uma coisa nem outra, mas o conceito tem pelo menos a utilidade de nos obrigar a olhar para a porta de saída com a mesma atenção com que olhamos para a porta de entrada.
A própria UGLE tem vindo a fazer exactamente isso. Em Setembro de 2021, ainda durante o regresso progressivo à normalidade depois da pandemia, o então Deputy Grand Master dizia perante a Grande Loja que envolver aqueles que já eram membros era tão importante como atrair novos e anunciava uma nova versão do Members’ Pathway, que seria implementada nas Províncias e nas Lojas. A preocupação não seria apenas explicar como trazer alguém para a Maçonaria, mas acompanhar todo o percurso desse homem depois de ele ter entrado, mantê-lo envolvido e, quando necessário, tentar recuperar aqueles que começavam a afastar-se.
Este assunto tem para mim alguma proximidade, porque em 2021 e 2022 tive oportunidade de visitar e frequentar algumas Lojas em Lincolnshire e foi precisamente nessa altura que vi o Members’ Pathway ser apresentado e começar a ganhar uma presença bastante visível. Recordo-me de ouvir falar da experiência do candidato, da forma como deveria ser recebido, do acompanhamento dos novos Irmãos, de mentoring e da importância de perceber os primeiros sinais de afastamento. Na altura achei interessante, até apresentei na nossa loja uma versão rápida sobre o que me foi apresentado.
Curiosamente, foi também em Lincolnshire que tive uma das experiências maçónicas que mais me marcou. Em Spilsby assisti, na Shakespeare Lodge No. 426, a uma sessão de Elevação a Mestre. Se tiverem oportunidade, aconselho qualquer Irmão a visitar esta Loja numa sessão destas. É difícil explicar a quem nunca teve oportunidade de assistir a algo semelhante a dimensão daquela sessão, o número de Irmãos presentes, o rigor, a solenidade, a qualidade do Ritual e até a “teatralidade” e o ambiente que se criou. É uma daquelas experiências que ficam connosco e que, arrisco dizer, qualquer Maçom deveria ter oportunidade de viver pelo menos uma vez.
Lembro-me dela agora porque me parece um bom exemplo daquilo que o DG também refere no seu texto, se conseguirmos retirar da sessão aquilo que é meramente burocrático, sobra-nos mais tempo para aquilo que só conseguimos verdadeiramente fazer quando estamos juntos. Não saí daquela sessão a pensar que tinha sido demasiado longa ou que a cerimónia deveria ter sido encurtada. Saí de lá impressionado precisamente porque tinha vivido algo que não encontrava facilmente em nenhum outro lugar.
Isto não significa que tudo o que fazemos tenha de continuar a ser feito da mesma maneira apenas porque sempre foi assim. Há coisas que podemos e devemos mudar, mas parece-me importante distinguir aquilo que demora tempo porque é burocrático daquilo que demora tempo porque precisa desse tempo. Uma acta interminável pode ser burocracia, uma cerimónia longa, bem executada e vivida por todos os presentes não o é. Uma discussão administrativa que se prolonga durante meia hora pode não acrescentar nada à sessão, enquanto uma prancha que provoca quarenta minutos de discussão entre os Irmãos pode ser precisamente uma das razões pelas quais valeu a pena termos ido à Loja nesse dia.
Talvez o problema não seja tanto a duração das nossas sessões, mas aquilo com que as preenchemos.
Foi também por isso que fui procurar com um pouco mais de atenção os números que levaram a UGLE a dar tanta importância ao Members’ Pathway, e alguns deles são bastante interessantes. Na estratégia para 2022 e os anos seguintes, a UGLE reconheceu que desde 2008 vinha perdendo, em média, cerca de 2,5% dos seus membros por ano. O que me surpreendeu foi perceber que, apesar da idade média elevada dos maçons ingleses, eles próprios afirmam que a morte não é o principal problema. Uma parte muito significativa das perdas acontece através de saídas, cessações, exclusões e de Irmãos que simplesmente se vão afastando, aquilo a que chamam quietly drift away.
Há depois um número que me parece particularmente relevante para esta discussão: 17% dos novos iniciados eram perdidos durante os primeiros três anos depois da entrada. E este é o valor médio, porque em algumas Províncias chegava aos 30%. A própria UGLE considera que muitas destas perdas são evitáveis e refere, entre outras razões, aqueles que deixam simplesmente de desfrutar da sua experiência maçónica.
Quando olhamos para isto desta forma, a pergunta muda um pouco. Já não basta perguntar como conseguimos mais candidatos, é preciso perceber também o que acontece aos candidatos que já conseguimos. Um homem interessou-se pela Maçonaria, procurou-a, passou por todo o processo de admissão, os futuros Irmãos votaram a sua entrada, foi iniciado em algo que, em princípio, poderia durar toda uma vida e, em alguns casos, menos de três anos depois já terminou. Parece-me razoável entender o porquê.
Inevitavelmente acabei por fazer o mesmo exercício olhando para a minha própria Loja. Desde que fui iniciado, há 11 anos, não me contando a mim, entraram dezasseis novos Irmãos. Desses dezasseis, sete já não estão hoje connosco, embora por razões muito diferentes. Quatro saíram da Obediência, dois mudaram de Loja e um, infelizmente, passou ao oriente eterno. Seria errado meter os sete no mesmo saco. A morte não é evidentemente um problema de retenção e os Irmãos que mudaram de Loja continuam a ser Maçons, tendo simplesmente encontrado o seu caminho noutra Oficina. Restam quatro Irmãos que, durante o mesmo período em que eu tenho feito o meu percurso, entraram e entretanto decidiram abandonar a Obediência. Falo apenas dos irmãos que foram admitidos na nossa loja, outros vários iniciados antes de mim, resolveram por diversos motivos fechar a porta do nosso templo.
E talvez esta seja uma questão que devemos fazer mais vezes. Não para procurar culpados, nem para tentar convencer alguém a ficar numa instituição onde já não quer estar, mas porque se um Irmão decide abandonar a Maçonaria deveríamos pelo menos tentar perceber se houve alguma coisa que poderíamos ter feito de outra maneira.
Há ainda uma situação que os números dificilmente mostram e que talvez seja mais comum do que uma saída formal. É o Irmão que continua inscrito, continua a pagar as quotas, recebe as comunicações e aparece no quadro da Loja, mas quase deixou de participar. Formalmente continua connosco, mas a sua ligação à Loja pode ter desaparecido há muito tempo. A UGLE chama precisamente a atenção para os membros que se vão afastando quase sem que se dê por isso e, ou seja não é apenas necessário reduzir os que saem, mas também as cessações e exclusões daqueles que se afastam muitas vezes sem serem notados.
Isto levou-me a outra pergunta, provavelmente mais importante do que qualquer taxa de churn: quando um Irmão que costumava estar presente deixa de aparecer, quanto tempo demoramos a reparar?
E, quando reparamos, o que fazemos? Telefonamos para saber se está tudo bem ou esperamos que apareça novamente? Contactamo-lo porque sentimos a sua falta ou apenas quando precisamos de cobrar uma quota, preencher um cargo ou obter resposta a alguma coisa? Parece-me que a retenção, numa fraternidade, deveria começar muito antes de qualquer programa, indicador ou estratégia, começando simplesmente no facto de repararmos que alguém que costumava estar ao nosso lado deixou de estar.
É também por isso que o caso de Lincolnshire me parece tão interessante. Não apenas porque tive alguma ligação pessoal àquela Província, mas porque alguns anos depois é possível observar os resultados do trabalho que então começava a ver ser feito. Em 2024, a UGLE publicou que Lincolnshire tinha passado de uma tendência de redução de membros de 2,2% para um crescimento de 3%, enquanto as resignações tinham descido de 20% para 5%.
Não encontraram nenhuma solução milagrosa. Trabalharam o Members’ Pathway, o mentoring, a formação, a comunicação, deram às Lojas informação real sobre a evolução dos seus membros, criaram equipas que percorreram a Província e, sobretudo, parece-me que passaram a prestar atenção de uma forma organizada à experiência de quem entrava e de quem começava a afastar-se.
É aqui que regresso ao texto do DG e onde, relendo-o, talvez perceba que estamos ainda mais de acordo do que inicialmente pensei. Quando fala em tecnologia, não está a defender que as nossas sessões sejam modernas salas de aula, cheias de ecrãs ou aplicações. Pelo contrário, propõe que a utilizemos para retirar da Loja parte da burocracia e libertar o tempo presencial para a discussão, para a reflexão e para o trabalho maçónico. E nisso concordo inteiramente.
Talvez seja precisamente essa uma das formas de responder ao problema da retenção. Quem entra hoje vive numa sociedade muito diferente daquela em que entraram os nossos Irmãos há vinte ou trinta anos, mas isso não significa necessariamente que procure dentro da Maçonaria uma reprodução dessa mesma sociedade. Um homem de trinta anos pode procurar aqui precisamente aquilo que encontra cada vez menos fora daqui: tempo para ouvir e para falar, Ritual, tradição, continuidade, convivência com homens de gerações e percursos completamente diferentes, a possibilidade de ter conversas que não acabam trinta segundos depois ou simplesmente algumas horas durante as quais o telefone não é o centro da nossa atenção.
Há coisas que não precisam de ser aceleradas e outras que talvez percam o sentido se o forem, e uma Pedra Bruta não fica polida mais depressa porque encontrámos uma aplicação para o fazer.
No fundo, talvez a retenção tenha muito menos a ver com tecnologia ou com a duração das sessões do que com a experiência que somos capazes de proporcionar. Duvido que alguém permaneça vinte ou trinta anos numa Loja porque as actas são particularmente eficientes. Fica porque construiu relações, porque sente que faz falta, porque aprendeu alguma coisa e percebeu que também tinha alguma coisa para transmitir, porque encontrou Irmãos e porque houve noites em que saiu da Loja diferente da forma como entrou.
E, provavelmente, fica também porque, quando deixou de aparecer durante algum tempo, alguém reparou.
É talvez aí que está a diferença entre um membro e um Irmão. Uma organização percebe que perdeu um membro quando olha para os seus números, a Maçonaria deveria perceber que está a perder um Irmão antes de ele desaparecer deles.
Por agora fico com uma ideia bastante mais simples. Dedicamos muito tempo e cuidado a preparar uma iniciação. Preparamos o Templo, ensaiamos o Ritual, distribuímos funções, cuidamos dos detalhes e tentamos que aquela primeira noite fique para sempre na memória daquele que atravessa a porta.
Talvez devêssemos dedicar a mesma atenção aos três anos seguintes.
Porque entrar é apenas o princípio.
João B. M∴M∴

