18 abril 2026

O tolerante, o intolerante e o tolo

 


Esta história foi resgatada de um pergaminho que se encontrava à porta de um templo debaixo de uma pedra imperfeita, pela qual todos passavam e pisavam, mas ninguém dava pelas suas imperfeições. Era uma pedra do chão, daquelas que todos pisam. As do chão são as menos perfeitas, menos belas, mas mais resistentes, porque sem chão edifício não chega a ser construído. Tal como o chão, assim é o homem, o seu chão são os valores que o sustentam.

Ora, esta história fala-nos de valores e da sua transformação…


Certo dia, encontrava-me eu no meio da minha mais recente aventura, a obra da Sé de Lisboa, a aprender o Ofício dos Pedreiros, quando me deparei com uma cena que me marcou. Da mesma forma que esta história me marcou a alma, também eu deixo este pergaminho marcado a tinta, para que a memória humana não a perca na vastidão imaginária das mentes humanas.

Naquela grande obra que atrás me referi havia um chefe que denominávamos de Venerável, pois era ele quem comandava os trabalhos. O seu nome era Joane, tinha voz firme, tinha resposta para tudo, mas… não se comprometia com nada. O segundo da obra era o João, dizia-se que era um coração de manteiga de tanta tolerância que tinha para com tudo e todos. No extremo oposto estava o Tiago que era austero e com pavio curto.

Ora, aquela obra estava numa fase em que era necessário tapar certas imperfeições com uma massa que ora unia as pedras umas às outras, ora tapava uma imperfeição ou outra de uma ou outra pedra. Quem fornecia a matéria prima era o Pedro. Um elemento externo à obra e que dependia daqueles trabalho para poder pagar as contas e sobreviver.

— Temos de colocar muita massa, essa pedra tem de ficar lisinha, não se podem ver imperfeições — dizia Tiago, sempre atento a qualquer imperfeição que aparecesse no templo.

— Tiago, Tiago, eles são aprendizes, tens de ser mais tolerante. Eles estão a aprender a arte do oficio. Se for preciso explica-lhes outra vez, se for preciso — assim respondia João, sempre tolerante.

Estávamos numa altura em que tudo estava a ficar mais caro e havia mais relutância em gastar, comparativamente ao ano anterior. Pedro estava na corda bamba com o seu negocio. As obras estavam a encomendar menos e não podia aumentar preços se não iam comprar aos outros fornecedores. Pedro estava a por mais água na fórmula para que rendesse mais.

Certo dia, graças a um aprendiz mais desastrado, uma das pedras caiu ao chão e ficou com uma lasca. Após análise, verificou-se que a lasca não colocava a vida de ninguém em perigo, desde que fosse trabalhada com a massa que Pedro vendia. Este trabalho com a massa aumentaria a resistência da pedra e ela poderia ser usada sem necessidade de se esculpir nova pedra. 

Tiago, entusiasmado com a ideia de ensinar novas matérias aos seus aprendizes, começou logo na sua demanda a ensinar as novas artes. Ensinava com todos os pormenores não faltando absolutamente nada. No entanto, enquanto ensinava os aprendizes estas novas técnicas, reparou que a massa não se fixava bem na pedra. Pediu explicações a Pedro que se apressou a dizer que era uma nova fórmula que permitia que, depois de seca, a massa ficasse mais dura do que a pedra.

Só que, a massa não se solidificava. Tiago chamou João:

— Olha lá, não achas que o Pedro nos anda a enganar com a massa? — perguntou Tiago.

— O Pedro tem sido impecável connosco, nunca faria uma coisa dessas.

— Eu acho que devíamos falar com o Joane.

— Não vejo necessidade de fazermos isso, mas se achas que é mais seguro, então vai ter com ele.

Tiago foi ter com o Venerável que, como sempre disse mais uma das suas frases fantásticas que nada dizia e nada o comprometia.

— O templo é um ser vivo — dizia convicto das suas ideias — uns dias mais luzidio e outros mais triste.

Tiago ficou sem saber o que dizer. Nada do que o que Joane dizia lhe fazia sentido. Sendo assim, resolveu confrontar o fornecedor com os factos.

— Olha lá ó Pedro, o que andas a pôr na massa que ela não agarra, por nada deste mundo?

— Já disse que é uma fórmula desenvolvida por mim. Confia que vai correr bem.

De repente, ouviram-se gritos e uma multidão de obreiros a juntarem-se junto de um outro que se encontrava estendido no chão. Afastaram-se para que os vigilantes e o Venerável pudessem ver. Era um aprendiz que, aquando da elevação da pedra para ser colocada no seu lugar, levou com uma pedra que se despegou, juntamente com a dita massa na cabeça, fazendo-o desmaiar.

— CHAMEM O MÉDICO. TEMOS UMA URGÊNCIA. 

Felizmente o médico chegou e reanimou o aprendiz. Não era nada de grave. Uns dias de cama e voltava para a obra.

— Estás a ver João — disse Tiago irritado com a situação — passa-se qualquer coisa com aquela massa. Vou apertar com o Pedro.

E lá o 2º Vigilante pedir as ditas explicações a quem estava a fornecer tamanha trapaça. João foi atrás de Tiago, não fosse o seu amigo cometer alguma asneira. 

— Pedro explica o que fizeste aquela massa.

— Tiago — disse Pedro arrependido — eu coloquei água para que ela rendesse mais. Por isso é que ela não pegava tão bem. Não sabia que aquilo podia ter acontecido.

João, ao sentir-se atraiçoado por aquele que outrora tinha defendido disse:
— Como te atreves a enganar-nos?! Tens noção que aquele aprendiz podia ter morrido?!

— Tenho essa noção João, mas se não vender a massa não tenho sustento para a minha família. Perdoem-me por favor. Imploro-vos isso.

— Não te posso perdoar tamanha avareza, tens de ser castigado, preso e deportado.

— Vá lá João, nem pareces tu. É verdade que o Pedro fez asneira, mas não podes ser assim com ele. Afinal estava a tentar sobreviver.

— Não pode ser. Não podemos tolerar uma cena destas. Temos de atuar. Joane, tens de tomar uma decisão.

Joane, que já se encontrava coberto de suores, pois iria ter de tomar uma decisão difícil, obrigando-o a abandonar a suposta neutralidade. Resolveu soltar mais uma das suas frases eloquentes:

— Os desígnios de Deus são desconhecidos para todos nós. Esperemos que a graça divina tome uma decisão em relação ao pecado de Pedro.

Ambos ficaram boquiabertos com a frase do venerável. Um por não perceber nada, e outro por nada entender.

E foi assim que ficou o assunto, como que numa nuvem a pairar no céu. Uma nuvem negra que pairava, mas que insistia em não deixar cair a água que continha no seu interior. E foi assim, neste clima de incerteza e desconfiança que, durante 7 dias ninguém falou nem trabalhou no templo. 

Entretanto o aprendiz que sofreu o acidente voltou rejuvenescido e vendo que o trabalho não tinha continuado pelo acidente que teve, sentiu que tinha a responsabilidade de o fazer. Pegou nas ferramentas e começou a trabalhar até aquela parte estar concluída. Não demorou mais do que um dia.

No final do dia de trabalho, os mestres olharam para o estado final e perceberam que aquela luta de egos não os levou a lado nenhum. Um aprendiz na sabedoria do seu silêncio e com a força do seu trabalho fez a mais bela das ações, terminar o trabalho de uma equipa.


Foi assim que Affonso Domingues, ainda aprendiz, assistiu a várias lições. Há um limite para a tolerância. Para João era a mentira, mas também aprendeu que, mesmo o mais intolerante, tem sempre, na sua humanidade, algo que o torna tolerante. Por fim, a luta de egos iria desunir aquela equipa, tal como a massa aguada que foi fornecida por Pedro. Foi um simples gesto em silêncio que acabou com a discussão e fez com que todos voltassem para o trabalho.

Affonso Domingues, olhou para uma das pedras do chão. Sim, aquela onde, anos depois, decidiu colocar um pergaminho a contar esta história. Sim, aquela pedra imperfeita que todos pisam, mas que é fundamental, tal como todas as outras, para garantir que o templo não cai.


11 abril 2026

Roma, la bella Roma

Nesta Páscoa fui a Roma passar uns dias com a família., não foi uma daquelas viagens pensada ao detalhe, com tudo marcado e a seguir um horário rígido. Claro que tivemos que marcar algumas coisas como o Museu do Vaticano ou o Coliseu, caso não o tivéssemos, nãp entraríamos. Mas o resto do tempo foi ao sabor do momento, assim como Roma pede. Já lá estive diversas vezes, mas desta quis mostrar a cidade à minha filha, com tempo. E posso dizer que há qualquer coisa de especial em voltar a um sítio que já conhecemos, mas vê-lo pelos olhos de quem o está a descobrir pela primeira vez.

Quando fomos à Basílica de São Pedro tivemos a sorte, ou privilégio, de ver o Papa, certo que o vimos ao longe, mas há algo....não sei, não se explica. A Basílica, linda e imponente mas o Coliseu foi o que pôs um brilho nos olhos da minha filha!!! Também caminhámos pelo Fórum Romano e pelo Monte Palatino, descemos às Catacumbas de São Calisto e às Catacumbas de São Sebastião, passámos pela Via Appia Antica, parámos na Fontana di Trevi e deixámo-nos ficar na Piazza Navona a ver a vida a passar. 

Mas no Vaticano, tivemos a sorte de só conseguir bilhetes com guia para o Museu, num espaço daqueles, onde tudo parece demais, alguém que nos ajude a olhar faz toda a diferença. Lembro-me de parar na Escola de Atenas, de Raphael, e ficar ali um bocado mais do que o esperado, aquela ordem, aquele equilíbrio entre tantos pensamentos diferentes… não se explica bem, sente-se. E depois a Capela Sistina, entra-se, olha-se para cima e, sem dar por isso, ficamos em silêncio. Acho eu que não é só a pintura de Michelangelo, mas o seu todo, como se tudo ali estivesse organizado para nos fazer percorrer uma história.

Pelo meio das nossas voltas, entrávamos em igrejas como quem entra para descansar, umas cheias, outras quase vazias, algumas grandiosas, outras tão simples que quase passam despercebidas. E, curiosamente, foi aí que a viagem me tocou mais. Uma igreja onde parámos por acaso, perto do hotel,  a Santa Maria degli Angeli e dei Martiri.

Por fora não chama a atenção, e lá dentro também não é daquelas que nos cai em cima com ouro e pintura. Depois de pesquisar descobri que foi construída por Michelangelo aproveitando as antigas Termas de Diocleciano, e talvez se note pois há ali uma escala diferente, mais aberta, mais limpa, quase crua. Não é uma igreja que impressione, é uma igreja que nos deixa bem.



Por lá e sem pressa, reparei numa linha no chão, nada estranho à primeira vista, atravessa a nave, mas no meio e em cima da linha um pouco de luz solar. Alto! Isto foi pensado sem dúvida, comecei a olhar vi numers na linha e logo tive que apanhar o telemóvel e pesquisar o que estava realmente a ver. Googlando percebi,  que no século XVIII, durante o papado de Clemente XI, o astrónomo Francesco Bianchini construiu ali uma meridiana, um instrumento a sério, não algo decorativo.

Um pequeno orifício deixa entrar um feixe de luz que, ao meio-dia, toca essa linha. E como é lógico esse ponto não é estático, pois ao longo do ano, desloca-se com precisão, seguramente de esquadro e compasso. Nos solstícios vai aos extremos, nos equinócios marca pontos exactos, e pelo caminho cruza os signos do zodíaco desenhados no chão. Foi algo feito não para enfeitar, mas sim para para medir. Para provar. Para alinhar o tempo da terra com o movimento do céu. Engraçado, e momento wikipedia, o próprio Bianchini estava ligado aos grandes nomes da ciência da época, incluindo Isaac Newton, que o propôs como Membro da Royal Society em 1713. Mais engraçado, é que "O Magnânimo" , o português Rei Dom João V, foi um dos seus grandes patronos, tendo este não só nomeado um dos "mares" de Vénus em seu nome, como também dedicado a obra da sua vida, o livro Hesperi et Phosphori (1728), sobre o planeta Vénus em sua honra.


Há ligações que vêm de muito longe até de outros tempos, de outras pessoas, de outras intenções… e que, sem darmos por isso, ainda hoje se cruzam connosco. Aquilo que para muitos é apenas um risco no chão, para mim acabou por ser muito mais do que isso. 

Há coisas que, vistas com pressa, parecem pequenas. Mas, quando paramos um pouco…crescem. E, às vezes, é nessas que encontramos mais sentido.

João B. M∴M∴

04 abril 2026

A Maçonaria celebra a Páscoa?


Para muitos leitores, poderá parecer estranho que a Maçonaria assinale efemérides religiosas. Afinal, sendo uma Ordem que proíbe discussões de cariz religioso em Loja e que afirma categoricamente não ser uma religião — exigindo apenas que os seus Obreiros acreditem num Princípio Criador — parece contraditório celebrar uma data tipicamente judaico-cristã.

Contudo, embora possa parecer um contra-senso, a Páscoa celebra-se na Maçonaria, mas não da mesma forma que a cultura religiosa o faz. A Maçonaria é profundamente simbólica e é nesse campo que nos afirmamos.


A Simbologia

Existem várias simbologias associadas a esta efeméride. Em primeiro lugar, importa libertarmo-nos de preconceitos: a Páscoa celebra-se no domingo seguinte à primeira lua cheia que ocorre após o equinócio da primavera. Portanto, é nesse fenómeno astronómico que fixamos o nosso ponto de partida. O Equinócio simboliza o início de uma nova vida. É o momento em que a Natureza renasce após as trevas invernais. Simbolicamente, morre o "velho homem" com os seus vícios e nasce um novo homem, mais rico em virtudes.

As semelhanças não terminam aqui. Se olharmos para a Última Ceia, encontramos um momento de partilha fraterna — o ideal de comunhão em que nos baseamos para o nosso aperfeiçoamento. Nessa mesma ceia, a recordação de uma traição serve-nos de aviso: a humanidade é imperfeita e é nossa missão combater os vícios e a ignorância. Por outro lado, reconhecemos que o Homem falha e que devemos ser sempre prudentes nas nossas ações.


Conclusão

Em jeito de conclusão, na Maçonaria não celebramos a Páscoa dogmática, mas sim o que ela simboliza para a Humanidade em geral e para a Ordem em particular. É por estas razões que nos reunimos no Equinócio da Primavera em comunhão fraternal, para celebrar a chegada de dias mais luminosos e o compromisso de desbastar a Pedra Bruta, transformando-a em Pedra Cúbica. Como o leitor poderá verificar, não há aqui religião doutrinária, mas sim uma simbologia que serve o aperfeiçoamento do Homem.