O tolerante, o intolerante e o tolo
Esta história foi resgatada de um pergaminho que se encontrava à porta de um templo debaixo de uma pedra imperfeita, pela qual todos passavam e pisavam, mas ninguém dava pelas suas imperfeições. Era uma pedra do chão, daquelas que todos pisam. As do chão são as menos perfeitas, menos belas, mas mais resistentes, porque sem chão edifício não chega a ser construído. Tal como o chão, assim é o homem, o seu chão são os valores que o sustentam.
Ora, esta história fala-nos de valores e da sua transformação…
Certo dia, encontrava-me eu no meio da minha mais recente aventura, a obra da Sé de Lisboa, a aprender o Ofício dos Pedreiros, quando me deparei com uma cena que me marcou. Da mesma forma que esta história me marcou a alma, também eu deixo este pergaminho marcado a tinta, para que a memória humana não a perca na vastidão imaginária das mentes humanas.
Naquela grande obra que atrás me referi havia um chefe que denominávamos de Venerável, pois era ele quem comandava os trabalhos. O seu nome era Joane, tinha voz firme, tinha resposta para tudo, mas… não se comprometia com nada. O segundo da obra era o João, dizia-se que era um coração de manteiga de tanta tolerância que tinha para com tudo e todos. No extremo oposto estava o Tiago que era austero e com pavio curto.
Ora, aquela obra estava numa fase em que era necessário tapar certas imperfeições com uma massa que ora unia as pedras umas às outras, ora tapava uma imperfeição ou outra de uma ou outra pedra. Quem fornecia a matéria prima era o Pedro. Um elemento externo à obra e que dependia daqueles trabalho para poder pagar as contas e sobreviver.
— Temos de colocar muita massa, essa pedra tem de ficar lisinha, não se podem ver imperfeições — dizia Tiago, sempre atento a qualquer imperfeição que aparecesse no templo.
— Tiago, Tiago, eles são aprendizes, tens de ser mais tolerante. Eles estão a aprender a arte do oficio. Se for preciso explica-lhes outra vez, se for preciso — assim respondia João, sempre tolerante.
Estávamos numa altura em que tudo estava a ficar mais caro e havia mais relutância em gastar, comparativamente ao ano anterior. Pedro estava na corda bamba com o seu negocio. As obras estavam a encomendar menos e não podia aumentar preços se não iam comprar aos outros fornecedores. Pedro estava a por mais água na fórmula para que rendesse mais.
Certo dia, graças a um aprendiz mais desastrado, uma das pedras caiu ao chão e ficou com uma lasca. Após análise, verificou-se que a lasca não colocava a vida de ninguém em perigo, desde que fosse trabalhada com a massa que Pedro vendia. Este trabalho com a massa aumentaria a resistência da pedra e ela poderia ser usada sem necessidade de se esculpir nova pedra.
Tiago, entusiasmado com a ideia de ensinar novas matérias aos seus aprendizes, começou logo na sua demanda a ensinar as novas artes. Ensinava com todos os pormenores não faltando absolutamente nada. No entanto, enquanto ensinava os aprendizes estas novas técnicas, reparou que a massa não se fixava bem na pedra. Pediu explicações a Pedro que se apressou a dizer que era uma nova fórmula que permitia que, depois de seca, a massa ficasse mais dura do que a pedra.
Só que, a massa não se solidificava. Tiago chamou João:
— Olha lá, não achas que o Pedro nos anda a enganar com a massa? — perguntou Tiago.
— O Pedro tem sido impecável connosco, nunca faria uma coisa dessas.
— Eu acho que devíamos falar com o Joane.
— Não vejo necessidade de fazermos isso, mas se achas que é mais seguro, então vai ter com ele.
Tiago foi ter com o Venerável que, como sempre disse mais uma das suas frases fantásticas que nada dizia e nada o comprometia.
— O templo é um ser vivo — dizia convicto das suas ideias — uns dias mais luzidio e outros mais triste.
Tiago ficou sem saber o que dizer. Nada do que o que Joane dizia lhe fazia sentido. Sendo assim, resolveu confrontar o fornecedor com os factos.
— Olha lá ó Pedro, o que andas a pôr na massa que ela não agarra, por nada deste mundo?
— Já disse que é uma fórmula desenvolvida por mim. Confia que vai correr bem.
De repente, ouviram-se gritos e uma multidão de obreiros a juntarem-se junto de um outro que se encontrava estendido no chão. Afastaram-se para que os vigilantes e o Venerável pudessem ver. Era um aprendiz que, aquando da elevação da pedra para ser colocada no seu lugar, levou com uma pedra que se despegou, juntamente com a dita massa na cabeça, fazendo-o desmaiar.
— CHAMEM O MÉDICO. TEMOS UMA URGÊNCIA.
Felizmente o médico chegou e reanimou o aprendiz. Não era nada de grave. Uns dias de cama e voltava para a obra.
— Estás a ver João — disse Tiago irritado com a situação — passa-se qualquer coisa com aquela massa. Vou apertar com o Pedro.
E lá o 2º Vigilante pedir as ditas explicações a quem estava a fornecer tamanha trapaça. João foi atrás de Tiago, não fosse o seu amigo cometer alguma asneira.
— Pedro explica o que fizeste aquela massa.
— Tiago — disse Pedro arrependido — eu coloquei água para que ela rendesse mais. Por isso é que ela não pegava tão bem. Não sabia que aquilo podia ter acontecido.
João, ao sentir-se atraiçoado por aquele que outrora tinha defendido disse:
— Como te atreves a enganar-nos?! Tens noção que aquele aprendiz podia ter morrido?!
— Tenho essa noção João, mas se não vender a massa não tenho sustento para a minha família. Perdoem-me por favor. Imploro-vos isso.
— Não te posso perdoar tamanha avareza, tens de ser castigado, preso e deportado.
— Vá lá João, nem pareces tu. É verdade que o Pedro fez asneira, mas não podes ser assim com ele. Afinal estava a tentar sobreviver.
— Não pode ser. Não podemos tolerar uma cena destas. Temos de atuar. Joane, tens de tomar uma decisão.
Joane, que já se encontrava coberto de suores, pois iria ter de tomar uma decisão difícil, obrigando-o a abandonar a suposta neutralidade. Resolveu soltar mais uma das suas frases eloquentes:
— Os desígnios de Deus são desconhecidos para todos nós. Esperemos que a graça divina tome uma decisão em relação ao pecado de Pedro.
Ambos ficaram boquiabertos com a frase do venerável. Um por não perceber nada, e outro por nada entender.
E foi assim que ficou o assunto, como que numa nuvem a pairar no céu. Uma nuvem negra que pairava, mas que insistia em não deixar cair a água que continha no seu interior. E foi assim, neste clima de incerteza e desconfiança que, durante 7 dias ninguém falou nem trabalhou no templo.
Entretanto o aprendiz que sofreu o acidente voltou rejuvenescido e vendo que o trabalho não tinha continuado pelo acidente que teve, sentiu que tinha a responsabilidade de o fazer. Pegou nas ferramentas e começou a trabalhar até aquela parte estar concluída. Não demorou mais do que um dia.
No final do dia de trabalho, os mestres olharam para o estado final e perceberam que aquela luta de egos não os levou a lado nenhum. Um aprendiz na sabedoria do seu silêncio e com a força do seu trabalho fez a mais bela das ações, terminar o trabalho de uma equipa.
Foi assim que Affonso Domingues, ainda aprendiz, assistiu a várias lições. Há um limite para a tolerância. Para João era a mentira, mas também aprendeu que, mesmo o mais intolerante, tem sempre, na sua humanidade, algo que o torna tolerante. Por fim, a luta de egos iria desunir aquela equipa, tal como a massa aguada que foi fornecida por Pedro. Foi um simples gesto em silêncio que acabou com a discussão e fez com que todos voltassem para o trabalho.
Affonso Domingues, olhou para uma das pedras do chão. Sim, aquela onde, anos depois, decidiu colocar um pergaminho a contar esta história. Sim, aquela pedra imperfeita que todos pisam, mas que é fundamental, tal como todas as outras, para garantir que o templo não cai.

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