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08 agosto 2026

A conversa que ninguém quer ter

   

Introdução

O presente artigo é uma reflexão sobre um artigo que saiu no Financial Times (Link do artigo) e que retrata a realidade da maçonaria regular na Inglaterra, assim como as dificuldades que tem tido no recrutamento e na consequente continuação.  

É inegável que a maçonaria teve uma grande importância no desenvolvimento dos ideais iluministas, na forma de pensar e mesmo na conduta dos governos do final do séc. XIX e no decorrer de todo o séc. XX. Desde o seu início em 1717 que a maçonaria esteve empenhada em construir o grande edifício que é a sociedade. Umas vezes construiu edifícios fortes, noutras edifícios mais frágeis, sem nunca, claro está, haver alguma polémica por trás.  

A maçonaria regular como irmandade iniciática tem algumas características que a definem: a beneficência e a ritualística filosófica. No que concerne à primeira, há várias associações que o fazem de forma muito eficiente e que dispensam toda a ritualística da maçonaria. Refiro-me a associações como o Lions Club, Rotary Club, entre outros que têm uma grande expressão a nível mundial e com atividade permanente. No fundo o que estas associações fizeram foi profissionalizarem-se em ações de caridade. Neste campo, a maçonaria é um primo afastado amador, visto não ter aprimorado esta sua faceta de beneficência. Estas associações retiraram aquilo que parecia desnecessário, fazendo jus a uma missão única: as ações de caridade. Por outro lado, a faceta ritualística e filosófica da maçonaria é aquela que menos se sabe. Através de alegorias e lendas, vai-se rectificando o carácter do maçom. Embora a iniciação tenha um carácter regenerador do homem, a verdade é que nem tudo é regenerado, apenas aperfeiçoado. É neste âmbito que a filosofia toma um carácter importante para o aprimoramento do Homem que a seguir servirá de modelo para o aperfeiçoamento da humanidade.  

O que não foi referido acima foi o networking. As ligações de trabalho também existem na maçonaria, embora não se devam confundir com a maçonaria. Quero com isto dizer que são uma característica natural da associação de pessoas. Ou seja, quem é que é convidado para esta irmandade discreta? Os amigos ou os colegas de trabalho, não necessariamente com o intuito de obter benefícios laborais (também há quem o faça), mas sim com o intuito do aperfeiçoamento daquele que parece que se daria bem com a forma de trabalho da maçonaria. Talvez seja esta a forma que mais intriga a sociedade. O networking em demasia leva ao favorecimento o que, como se pode verificar através das notícias, é mau para o indivíduo e para a ordem maçónica, em geral.  


Queremos um novo modelo ou apenas um aperfeiçoamento do que já existe?

Posto isto, vamos ao cerne da questão. O artigo mencionado mostra que a maçonaria regular inglesa está com dificuldades de recrutamento. Os seus membros têm, em média, mais de 60 anos de idade, sendo que atualmente cerca de 47% dos novos iniciados têm entrado com menos de 40 anos. Para o leitor que está a ter contacto com esta temática agora, pode-se entrar para a maçonaria regular em Portugal a partir dos 21 anos.  

A questão que se põe é: como podemos recrutar gente mais jovem e mantê-los nas fileiras, aumentando a taxa de retenção? Todos sabemos que os interesses de cada um se vão alterando ao longo da idade. Aconteceu comigo, acontece com outros Irmãos, e até mesmo com outras pessoas não iniciadas, ou profanos. E está tudo bem. É uma evolução natural da nossa personalidade. Enquanto que aos 20 anos somos fisicamente mais ativos, à medida que a idade vai avançando vamos tendo outras faculdades e outros interesses, não necessariamente de âmbito físico, talvez até mais de âmbito filosófico e racional. No entanto a pergunta mantém-se: Como vamos chamar e manter os jovens?  

A resposta está em olhar para os interesses geracionais e a sua possível evolução. Olhando para as gerações mais jovens verifica-se que existe repúdio por burocracias e atos desnecessários, interesse em assuntos filosóficos atuais e procura pela facilitação da vida quotidiana através do uso da tecnologia. No entanto, quase como uma antítese do uso das tecnologias, há uma crescente intenção de sair do mundo tecnológico das redes sociais e de as restringir.  

É isto que as novas gerações procuram: ir ao cerne da questão e trabalhar nesse cerne aperfeiçoando-o, sem demagogias nem atos acessórios. Com isto podemos arquitetar um modelo que, por um lado, não sai do modelo tradicional da maçonaria, mas que também não vai contra as expectativas de uma geração inteira. As novas gerações não querem perder tempo a corrigir presencialmente uma ata, mas provavelmente gostam de uma boa discussão filosófica, longe dos telemóveis e dos influencers. Não gostam de escrever textos longos, nem de os ouvir, preferindo temas com exposições mais curtas e mais tempo de discussão e reflexão. As burocracias, para eles, podem ficar nos telemóveis, assim como tudo o que vem das redes sociais e do mundo profano. Esta geração também não quer andar constantemente a mudar a cassete entre ritualística e ações de caridade… ou somos uma coisa ou outra, ou as duas ao mesmo tempo, sendo que numa somos amadores e noutra perdemos pouco tempo.  


O aperfeiçoamento

Tudo leva a crer que o caminho é o do aperfeiçoamento do que já existe para que, por um lado, não se perca a essência da maçonaria e, por outro, exista uma evolução lógica e racional mantendo-se o foco naquilo que é mais importante. Os pontos que coloco abaixo não são uma “fórmula resolvente”, mas sim alguns pontos para todos refletirmos como um possível caminho a percorrer.  

As características que as lojas devem ter:

 Administração desburocratizada: Não perder tempo com discussões presenciais sobre correções a atas, dados de obreiros, o que devemos colocar no site, etc.  

 Uso de tecnologias em loja apenas quando necessário: Usar tecnologias apenas para registo de atas, música e consulta rápida de regulamentos.  

 Ações de caridade apenas quando necessário: Não usar mais do que uma sessão para discussão de assuntos relativos a ações de caridade. Usar tecnologias para dar o mote e referir alguns pormenores; a discussão em loja deve ser apenas para aprovação ou reprovação de ideias.  

 Uso de temas filosóficos: Levar para a loja temas filosóficos e reflexões do mundo profano. Usar situações do dia-a-dia para referir a forma como os valores maçónicos podem ser corretamente usados.  

 Trabalhos enviados em antecipação à discussão em loja: Os textos e ideias devem ser curtos (não mais do que 5 minutos de exposição), sendo que devem ser enviados com uma antecedência de 2 a 3 dias. Não é no momento da exposição que se reflete. O ato de reflexão exige tempo e dedicação; não é no momento em que, muitas vezes, vimos do trabalho cansados, que vamos conseguir refletir sobre determinado tema e ainda falar sobre ele perante os irmãos.  

 Evitar o networking do “amiguismo” e dos aproveitamentos institucionais.  


Conclusão

Não se pretende que este artigo seja um corolário do que deve ser uma loja maçónica atual, mas sim o ponto inicial para uma discussão saudável do futuro desta instituição secular. A maçonaria só sobreviveu porque teve capacidade de adaptação. Por exemplo, antes da 1ª Guerra Mundial, só homens perfeitos (com todos os dedos, mãos e pés) podiam fazer parte da maçonaria. Após este conflito, chegou-se à conclusão que os homens teriam de ser perfeitos na sua consciência. Foi esta adaptação que fez com que muitos Irmãos não saíssem da maçonaria após terem ficado decepados dos seus membros.


Vamos discutir este tema?


D∴ G∴ 


22 dezembro 2014

Explicação, renovação e soltício


Tenho andado afastado deste espaço. Por duas razões: a primeira, pessoal, é que estou presentemente empenhado numa tarefa profissional que me consome muito do meu tempo, inclusive o que eu dedicava aos escritos aqui publicados; a segunda tem a ver com a passagem de testemunho na manutenção corrente do blogue para o Nuno Raimundo. Este blogue, como tudo na vida, deve evoluir para não estagnar, para não ser mais do mesmo e, assim, paulatinamente, reduzir-se à irrelevância. Achei - achámos! - que essa evolução deveria passar pela mudança de titularidade da manutenção corrente do blogue. Oito anos é muito tempo, muitos escritos aqui publiquei, de muitos temas tratei, tinha chegado ao ponto de me começar a repetir. Havia que refrescar, que mudar de estilo e de abordagem de temas. Essa evidência determinou a passagem de testemunho para o Nuno com a facilidade e naturalidade de uma simples frase: A partir de agora ficas tu responsável pelo blogue!

Esta passagem de testemunho, porém, no meu ponto de vista, implicava que o antigo cedesse indubitavelmente a condução do blogue, no estilo, na escolha dos temas, na definição dos tempos, ao novo responsável, sem sombras tutelares, sem intervenções, sem dúvidas. Implicava, assim - para mim, de forma muito clara -que quem saía da boca de cena saísse mesmo de cena, para que, sem qualquer perturbação ficasse claro quem era o novo condutor. Impus-me, assim, um período de silêncio de três meses, período mínimo que achei necessário para que ficasse claramente consolidada no espírito de quem segue este blogue a mudança na condução do mesmo. As únicas exceções foram pontuais e relacionadas com a divulgação da campanha VER MAIS.

Não encarei,porém, a saída de cena como definitiva, mas apenas como necessidade temporária para marcar bem a passagem para o estatuto de personagem secundária, suporte e auxiliar do novo e atual condutor do blogue. Por isso e porque o Nuno faz uma breve (e merecida) pausa de duas semanas na sua escrita, por ocasião deste período de festas, aproveitei para preencher a sua ausência com esta breve explicação. A exemplo do Ruah, do Paiva Setúbal e de outros, pontualmente publicarei aqui (talvez mensalmente) e ajudarei, quando necessário, a suprir ausências ou impossibilidades do Nuno, o atual Mestre condutor do blogue. Assim sendo, escrevo hoje, escrevo para a semana e depois... um dia qualquer apareço...

E porquê ter vindo agora explicar o que era já para todos evidente? Porque - é sabido! - nós, maçons, damos atenção e importância ao simbolismo.

Ontem foi o solstício de inverno (no hemisfério norte). Que melhor ocasião para marcar (colocar um marco) a renovação deste blogue, para dar público testemunho da confiança que já em privado transmitira ao Nuno na certeza que ele saberá fazer e fará melhor do que os fundadores deste blogue fizeram e que dedicada e competentemente assegurará a tarefa de ser a sua espinha dorsal até que - como eu tive a fortuna de poder fazer -, quando entender chegada a hora de ser ele a passar o testemunho o passe ao seu sucessor com a mesma naturalidade, facilidade e confiança com que eu o pude fazer.

Assim, este texto marca também o solstício enquanto símbolo da renovação para que o ciclo natural prossiga. No caso, marca, assinala, a renovação que foi feita, como necessária condição para a reinvenção e evolução deste blogue, com novas ideias, novas energias, novas e diferentes buscas, outro estilo. Com a expectativa de que este novo (já atual) ciclo manterá e incrementará a qualidade que procuramos ter neste espaço.

Entretanto - last but not the least! - para todos os meus votos de Boas Festas!

Rui Bandeira