22 agosto 2026

 

HUMANIDADE 3 - RESPOSTAS

Não é novidade ! Tenho insistido no objetivo do “ser Maçon” e “ser Maçon” significa a aceitação diária, permanente de “polir a pedra”, entenda-se melhorar o Homem, ajudar a Humanidade a ser “Justa e Perfeita”. É este o entendimento do “ser Maçon”, conforme aceite sob juramento é sua obrigação ajudar os outros homens a serem mais Livres, ajudar a sociedade humana a ser mais Fraterna, compreender e fazer compreender que os Homens são todos iguais na sua característica única que é o de serem humanos. É esta a coluna vertebral deste corpo maçónico. O objetivo, sobreposto a quaisquer outros interesses, é ajudar a fazer a Humanidade mais Livre, mais fraterna, mais Igual. É este o trabalho do Maçon.

E este trabalho tem sido feito ?

De facto a Maçonaria tem lutado e os Maçons têm distribuído Liberdade, Fraternidade, Igualdade pelos seus pares ? Basta ouvir e/ou ler as notícias diárias e jornais e/ou noticiários televisivos para constatarmos que o percurso para o objetivo anunciado tem sido percorrido em marcha atrás. Pelo menos aparentemente estamos cada dia mais afastados daquela finalidade.

Significa isto que a Maçonaria falhou ?

As guerras, e são várias pelo mundo, vão continuando a dizimar milhões de vidas inocentes, de homens mulheres crianças, novos e velhos, sem escolha e sem piedade.

- A vida do homem comum está dia a dia mais preza à necessidade de sobreviver com dignidade o que implica viver numa casa digna desse nome, em condições de higiene e de alimentação suficientes, para si e para o agregado familiar para o qual é fundamental a manutenção da saúde e do desenvolvimento escolar, com a Paz espiritual que só a Liberdade lhe pode trazer.

- Como se conjuga a existência lado a lado de miséria absoluta dos “sem casa” com a opulência desmedida dos que acumulam milhões, muitos milhões, vivendo no excesso absoluto do desperdício diário de bens que outros lutam a vida inteira para conseguir. Como conjugar a miséria conhecida em muitas zonas de África, Ásia e América do Sul com a opulência de muitas outras zonas da América e da Europa ? Como conjugar estes contrastes com o espírito de Fraternidade e Igualdade anunciado ?

Trouxe nestas últimas intervenções que aqui tenho feito com título genérico de “Humanidade”, vários aspetos do que é o dia a dia conhecido da nossa vida comum em sociedade. São temas que encontramos bastamente discutidos, analisados, comentados nas televisões, rádios e jornais.

É a Vida dos Homens que me preocupa e é sobre ela e as suas condições que entendo o trabalho maçónico. Homens e Mulheres, Crianças e Jovens, Velhos e Novos.

Como proclamou em devido tempo o Papa Francisco, Todos, Todos, Todos…!

Das notícias da comunicação social tirei 2 casos que:

- Uma Mãe teve um Filho, atirou-o para um Caixote do lixo e foi-se embora !

- Um homem morreu na sua casa onde vivia só e lá foi encontrado 15 (QUINZE) anos depois ! 

Acontece porém que estas são apenas 2 notícias apanhadas num conjunto vastíssimo de casos elegíveis. Estas situações acontecem, estão a acontecer com frequência. Não deveriam acontecer nunca (!), mas acontecem com frequência.

Como conjugar estas situações, e não são todas conhecidas, com o tal objetivo maçónico de Liberdade, Fraternidade, Igualdade ?

 

“Roubei” um pedaço de texto de um escrito de Valter Hugo Mãe:

a laura morreu, pegaram em mim e puseram-me no lar com dois sacos de roupa e um album de fotografias./ depois, nessa mesma tarde, levaram o álbum porque achavam que ia servir apenas para que eu cultivasse a dor de perder a minha mulher./ depois, ainda nessa mesma tarde, trouxeram uma imagem da nossa senhora de fátima e disseram que, com o tempo, eu haveria de ganhar um credo religioso, aprenderia a rezar e salvaria assim a minha alma. e um médico respondeu, a verdade é que ficam mais calmos. /achei que era esperado de mim um desespero motor. digo motor para dizer de acção. algo como partir coisas, revirar os moveis, agredir fisicamente os funcionários, os enfermeiros que me poderiam prender. /o quarto pequeno é todo ele uma cela, a janela não abre e, se o vidro se partir, as grades de ferro antigas seguram as pessoas do lado de dentro do edifício. /pus-me a olhar para o chão, com ar de entregue. estou entregue, pensei. aos meus pés os dois sacos de roupa e uma enfermeira dizendo coisas simples. convencida de que a idade mental de um idoso é, de facto, igual à de uma criança. /o choque de se ser assim tratado é tremendo./

ao sétimo dia, o doutor bernardo pediu-me que passasse pelo seu consultório e perguntou-me como me sentia. disse-lhe que estava bem, que o lar correspondia a um grau de qualidade admirável e que eu estava bem. ele informou-me de que a elisa, o meu genro e os meus dois netos viriam visitar-me e quis saber se isso não me seria difícil. achei muito estranho que mo perguntasse, esperaria que nos primeiros tempos de uma experiência assim toda a proximidade de família com o idoso seria benéfica. contudo, encontrava-me ali com a obrigação de lhe dizer que sim ou que não, e pensei o suficiente para trazer ao cima o pior de mim. /disse que não. que não estaria disposto a receber a minha família porque precisava de tempo para esquecer a perda da laura e a necessidade de deixar a minha casa, não queria sentir que tudo prosseguia sem mim. ainda não./ o doutor bernardo percebeu as tremuras nas minhas mãos, um nervosismo que se começava a descontrolar e respondeu, claro, senhor silva, não se preocupe. é compreensível. está a libertar-se de muita coisa e precisa de tempo, é perfeitamente normal./ eu estava a libertar-me de tudo. tinha dois sacos de roupa e uma nossa senhora de fátima miserável e mais nada. /estava livre de tudo, como é óbvio. (*)

 Este é um exemplo de Liberdade !

É esta a “liberdade” que queremos propiciar ?

 E no caso da criança despudoradamente deixada num caixote do lixo ?

Imponho-me uma pergunta.

O que leva uma Mão a cometer tal crime ?

Àh, mas crime de quem ? Que condições conduziram a este desfecho ? Como foi a vida desta Mulher até chegar a ser Mãe ? Por que miséria passou, por que miséria moral passou ? por que miséria material passou ? Que infância lhe foi dada ?

Se procurarmos a resposta a estas questões corremos de risco de concluir que afinal esta “Mulher” é uma heroína da vida, capaz de resistir provavelmente a situações que nenhum de nós imagina e às quais nem seria capaz de resistir. Isso desculpa o abandono de um Filho ? A primeira resposta é um claro não ! Mas…

Atrevo-me a dizer-vos isto.

Não, mas…

Não sei !

 Este é um exemplo de Igualdade !

É esta a Igualdade que queremos distribuir ?

 “ Um homem morreu sozinho e ninguém reparou. A solidão é um apagamento vagaroso. O que dói mais não é ter morrido sozinho, é ninguém ter sentido a sua ausência”, considerou Pedro Chagas Freitas antes de rematar, “aquela porta 12, a do apartamento dele, ficou fechada durante 15 anos. Ninguém notou. Acho que não foi só a porta dele que ficou fechada. Acho que foi mais a nossa. Quando morrer não quero um grande funeral. Quero apenas que alguém repare que deixei de estar”.

Deixemos correr o “Humano” à volta das respostas a estas perguntas na esperança de que a Fraternidade, que também queremos distribuir, encontre respostas e soluções.

Será ?

Vamos confiar.

Basta que cada Maçon levante um dedo e a Maçonaria pode provocar um furacão.               A Humanidade precisa urgentemente de um furacão de Liberdade, de Igualdade, de Fraternidade. Vejamos o que pode a Humanidade esperar dos Maçons para além das intenções e dos juramentos.

É urgente, é muito urgente, passar a ações.

É urgente, é muito urgente, passar a ações !

 Agosto/6026

J.Paiva Setúbal (MM:.)

15 agosto 2026

O Sol esteve sempre lá!

Na passada quarta-feira, dia 12, como muitos outros portugueses, parei para observar o eclipse do Sol. É algo que normalmente só vemos acontecer noutros sítios, mas desta vez calhou-nos a nós. Há mais de um século que não se via algo assim por terras lusitanas, o anterior aconteceu em 1912. O próximo? Teremos de esperar até 2144 para voltar a ter um eclipse total do Sol em território português, ou seja, segundo a lei da vida, será algo único para nós.




Sendo algo tão raro, todos quisemos observar a Lua a avançar lentamente sobre o Sol e depois a deixá-lo para trás novamente. Algo lógico, conhecido e perfeitamente explicado do ponto de vista astronómico, mas, fazendo um dos nossos paralelismos, notamos que o Sol continuou exatamente onde sempre esteve, com a mesma dimensão e a produzir a mesma luz. Não perdeu intensidade, não se apagou e não desapareceu. Apenas, e durante algum tempo, alguma coisa se colocou entre o Sol e nós.

Para quem é maçom e sabe que a Luz assume um significado muito importante na nossa Ordem, penso que não será difícil encontrar aqui matéria para alguma reflexão. Falamos muitas vezes da procura da Luz, de caminhar em direção à Luz, de a receber e de procurar compreender aquilo que ela representa. É natural que pensemos nessa Luz como algo que ainda não temos e que, através do conhecimento, do trabalho e do nosso próprio aperfeiçoamento, procuramos alcançar.

Mas talvez, algumas vezes, o problema não seja encontrar a Luz. Talvez seja perceber aquilo que se colocou entre ela e nós.

No eclipse é evidente, conhecido, estudado e calculado, é a Lua. Sabíamos porque estava ali e sabíamos que continuaria o seu percurso. Mesmo quando grande parte do Sol deixou de ser visível, ninguém pensou que ele tivesse desaparecido, só tínhamos de esperar que a Lua continuasse o seu caminho e saísse da sua frente.

Na nossa vida as coisas não são tão facilmente identificáveis. Entre nós e aquilo que procuramos ver podem colocar-se o orgulho, a vaidade, os preconceitos, a intolerância, o medo de reconhecer um erro, as nossas certezas ou simplesmente a convicção de que já sabemos aquilo que precisamos de saber. E nenhuma dessas coisas altera a realidade que existe do outro lado, altera apenas a forma como nós conseguimos vê-la.

O mais difícil talvez seja perceber que alguma coisa se colocou à nossa frente. É relativamente fácil reconhecer os preconceitos dos outros, as certezas dos outros ou as vaidades dos outros, mas muito mais difícil é identificar as nossas, sobretudo porque continuamos a olhar para aquilo que temos diante de nós convencidos de que o vemos exatamente como ele é. A Alegoria da Caverna de Platão é, a propósito, uma boa leitura. Durante o eclipse sabíamos que a luz estava tapada, na vida nem sempre temos essa consciência.

Foi essa ideia que me ficou daquele eclipse. Durante algum tempo parecia que o Sol estava a desaparecer, quando na realidade nada tinha mudado nele. A alteração estava apenas entre o Sol e eu. Depois, a Lua continuou naturalmente o seu percurso e fomos voltando a ver aquilo que tinha estado oculto. E o Sol não regressou! Ele esteve sempre lá, nunca se foi embora. O que desapareceu foi aquilo que se tinha colocado entre nós.

Talvez aconteça algo semelhante connosco mais vezes do que pensamos. Procuramos respostas, procuramos conhecimento e procuramos Luz, quando por vezes talvez devêssemos descobrir o que é que se colocou entre nós e aquilo que procuramos ver.

Na passada quarta-feira, a resposta era fácil. Era a Lua. Nos outros dias, provavelmente teremos de trabalhar um pouco mais para a encontrar.

João B. M∴M∴

08 agosto 2026

A conversa que ninguém quer ter

   

Introdução

O presente artigo é uma reflexão sobre um artigo que saiu no Financial Times (Link do artigo) e que retrata a realidade da maçonaria regular na Inglaterra, assim como as dificuldades que tem tido no recrutamento e na consequente continuação.  

É inegável que a maçonaria teve uma grande importância no desenvolvimento dos ideais iluministas, na forma de pensar e mesmo na conduta dos governos do final do séc. XIX e no decorrer de todo o séc. XX. Desde o seu início em 1717 que a maçonaria esteve empenhada em construir o grande edifício que é a sociedade. Umas vezes construiu edifícios fortes, noutras edifícios mais frágeis, sem nunca, claro está, haver alguma polémica por trás.  

A maçonaria regular como irmandade iniciática tem algumas características que a definem: a beneficência e a ritualística filosófica. No que concerne à primeira, há várias associações que o fazem de forma muito eficiente e que dispensam toda a ritualística da maçonaria. Refiro-me a associações como o Lions Club, Rotary Club, entre outros que têm uma grande expressão a nível mundial e com atividade permanente. No fundo o que estas associações fizeram foi profissionalizarem-se em ações de caridade. Neste campo, a maçonaria é um primo afastado amador, visto não ter aprimorado esta sua faceta de beneficência. Estas associações retiraram aquilo que parecia desnecessário, fazendo jus a uma missão única: as ações de caridade. Por outro lado, a faceta ritualística e filosófica da maçonaria é aquela que menos se sabe. Através de alegorias e lendas, vai-se rectificando o carácter do maçom. Embora a iniciação tenha um carácter regenerador do homem, a verdade é que nem tudo é regenerado, apenas aperfeiçoado. É neste âmbito que a filosofia toma um carácter importante para o aprimoramento do Homem que a seguir servirá de modelo para o aperfeiçoamento da humanidade.  

O que não foi referido acima foi o networking. As ligações de trabalho também existem na maçonaria, embora não se devam confundir com a maçonaria. Quero com isto dizer que são uma característica natural da associação de pessoas. Ou seja, quem é que é convidado para esta irmandade discreta? Os amigos ou os colegas de trabalho, não necessariamente com o intuito de obter benefícios laborais (também há quem o faça), mas sim com o intuito do aperfeiçoamento daquele que parece que se daria bem com a forma de trabalho da maçonaria. Talvez seja esta a forma que mais intriga a sociedade. O networking em demasia leva ao favorecimento o que, como se pode verificar através das notícias, é mau para o indivíduo e para a ordem maçónica, em geral.  


Queremos um novo modelo ou apenas um aperfeiçoamento do que já existe?

Posto isto, vamos ao cerne da questão. O artigo mencionado mostra que a maçonaria regular inglesa está com dificuldades de recrutamento. Os seus membros têm, em média, mais de 60 anos de idade, sendo que atualmente cerca de 47% dos novos iniciados têm entrado com menos de 40 anos. Para o leitor que está a ter contacto com esta temática agora, pode-se entrar para a maçonaria regular em Portugal a partir dos 21 anos.  

A questão que se põe é: como podemos recrutar gente mais jovem e mantê-los nas fileiras, aumentando a taxa de retenção? Todos sabemos que os interesses de cada um se vão alterando ao longo da idade. Aconteceu comigo, acontece com outros Irmãos, e até mesmo com outras pessoas não iniciadas, ou profanos. E está tudo bem. É uma evolução natural da nossa personalidade. Enquanto que aos 20 anos somos fisicamente mais ativos, à medida que a idade vai avançando vamos tendo outras faculdades e outros interesses, não necessariamente de âmbito físico, talvez até mais de âmbito filosófico e racional. No entanto a pergunta mantém-se: Como vamos chamar e manter os jovens?  

A resposta está em olhar para os interesses geracionais e a sua possível evolução. Olhando para as gerações mais jovens verifica-se que existe repúdio por burocracias e atos desnecessários, interesse em assuntos filosóficos atuais e procura pela facilitação da vida quotidiana através do uso da tecnologia. No entanto, quase como uma antítese do uso das tecnologias, há uma crescente intenção de sair do mundo tecnológico das redes sociais e de as restringir.  

É isto que as novas gerações procuram: ir ao cerne da questão e trabalhar nesse cerne aperfeiçoando-o, sem demagogias nem atos acessórios. Com isto podemos arquitetar um modelo que, por um lado, não sai do modelo tradicional da maçonaria, mas que também não vai contra as expectativas de uma geração inteira. As novas gerações não querem perder tempo a corrigir presencialmente uma ata, mas provavelmente gostam de uma boa discussão filosófica, longe dos telemóveis e dos influencers. Não gostam de escrever textos longos, nem de os ouvir, preferindo temas com exposições mais curtas e mais tempo de discussão e reflexão. As burocracias, para eles, podem ficar nos telemóveis, assim como tudo o que vem das redes sociais e do mundo profano. Esta geração também não quer andar constantemente a mudar a cassete entre ritualística e ações de caridade… ou somos uma coisa ou outra, ou as duas ao mesmo tempo, sendo que numa somos amadores e noutra perdemos pouco tempo.  


O aperfeiçoamento

Tudo leva a crer que o caminho é o do aperfeiçoamento do que já existe para que, por um lado, não se perca a essência da maçonaria e, por outro, exista uma evolução lógica e racional mantendo-se o foco naquilo que é mais importante. Os pontos que coloco abaixo não são uma “fórmula resolvente”, mas sim alguns pontos para todos refletirmos como um possível caminho a percorrer.  

As características que as lojas devem ter:

 Administração desburocratizada: Não perder tempo com discussões presenciais sobre correções a atas, dados de obreiros, o que devemos colocar no site, etc.  

 Uso de tecnologias em loja apenas quando necessário: Usar tecnologias apenas para registo de atas, música e consulta rápida de regulamentos.  

 Ações de caridade apenas quando necessário: Não usar mais do que uma sessão para discussão de assuntos relativos a ações de caridade. Usar tecnologias para dar o mote e referir alguns pormenores; a discussão em loja deve ser apenas para aprovação ou reprovação de ideias.  

 Uso de temas filosóficos: Levar para a loja temas filosóficos e reflexões do mundo profano. Usar situações do dia-a-dia para referir a forma como os valores maçónicos podem ser corretamente usados.  

 Trabalhos enviados em antecipação à discussão em loja: Os textos e ideias devem ser curtos (não mais do que 5 minutos de exposição), sendo que devem ser enviados com uma antecedência de 2 a 3 dias. Não é no momento da exposição que se reflete. O ato de reflexão exige tempo e dedicação; não é no momento em que, muitas vezes, vimos do trabalho cansados, que vamos conseguir refletir sobre determinado tema e ainda falar sobre ele perante os irmãos.  

 Evitar o networking do “amiguismo” e dos aproveitamentos institucionais.  


Conclusão

Não se pretende que este artigo seja um corolário do que deve ser uma loja maçónica atual, mas sim o ponto inicial para uma discussão saudável do futuro desta instituição secular. A maçonaria só sobreviveu porque teve capacidade de adaptação. Por exemplo, antes da 1ª Guerra Mundial, só homens perfeitos (com todos os dedos, mãos e pés) podiam fazer parte da maçonaria. Após este conflito, chegou-se à conclusão que os homens teriam de ser perfeitos na sua consciência. Foi esta adaptação que fez com que muitos Irmãos não saíssem da maçonaria após terem ficado decepados dos seus membros.


Vamos discutir este tema?


D∴ G∴ 


01 agosto 2026

O Peso do Malhete

Na primeira sessão de Julho, fui eleito Venerável Mestre da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues, e escrever ou até pensar nesta frase ainda me parece estranho. É uma mistura de orgulho, alegria, gratidão e, há que dizê-lo, também de algum peso. Ainda não fui instalado, nem tão pouco me sentei na Cadeira de Salomão ou peguei no malhete de VM, mas penso que comecei a sentir o peso da responsabilidade no momento em que o resultado da votação foi anunciado.

Na nossa Loja, como em outras, existe a tradição de o caminho até ao Oriente não aparecer de repente, vai-se fazendo através do exercício de diferentes cargos, primeiro observando, depois ajudando, assumindo responsabilidades e aprendendo a olhar para a Loja de diferentes lugares. É um percurso que se vai preparando e que, de alguma forma, também se vai esperando e até ambicionando.

Mas uma coisa é sabermos que estamos nesse caminho, outra é chegar o momento em que os nossos Irmãos são chamados a votar. Por muito que a tradição da Loja apontasse nesse sentido, por muito que o meu nome já tivesse sido proposto e por muito que racionalmente tudo parecesse encaminhado, ficou sempre aquele nervo miudinho. E penso que ainda bem.

Talvez o dia em que alguém aguarde uma votação destas com absoluta indiferença seja também o dia em que o malhete não lhe assente como deveria, pois aquele nervosismo não nasce da possibilidade de não sermos eleitos, mas sobretudo da consciência de que estamos a pedir aos nossos Irmãos algo muito mais importante do que um voto, estamos a pedir-lhes a sua confiança.

Ser Venerável Mestre não é ser dono ou mandante da Loja, nem sequer ser o seu elemento mais importante. a Loja não lhe pertence, ela é de todos os Irmãos que a constituem, aos que hoje nela trabalham, aos que antes de nós a construíram e também àqueles que um dia receberão aquilo que formos capazes de lhes deixar.

O Venerável Mestre recebe um malhete, mas não recebe com ele sabedoria automática. Senta-se no Oriente, mas não passa por isso a ser o dono da Luz. Pode dirigir os trabalhos, organizar, decidir quando necessário e procurar indicar um caminho, mas a autoridade não nasce apenas do cargo ou do som do malhete, constrói-se na coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz, na capacidade de ouvir, no equilíbrio das decisões e, principalmente, no reconhecimento dos Irmãos.

É essa talvez a parte mais exigente.

Ideias não faltam. Quero ajudar a construir uma Loja viva, participada e fraterna. Uma Loja com Colunas fortes, onde os Aprendizes encontrem espaço para crescer, os Companheiros sintam vontade de trabalhar e os Mestres assumam a responsabilidade de transmitir aquilo que receberam. Uma Loja que cuide do seu Ritual, da sua memória e dos seus Irmãos, que seja capaz de preservar a tradição sem ter medo de preparar o futuro.

Nenhuma ideia se fará apenas porque o Venerável Mestre assim o deseja, uma Loja viva não se constrói a partir do Oriente, constrói-se em todo o Templo. Faz-se com os Vigilantes, com os Oficiais, com os Mestres, com os Companheiros e com os Aprendizes. Faz-se com os que apresentam ideias, com os que as discutem, com os que ajudam a concretizá-las e também com aqueles que, fraternalmente, nos alertam quando entendem que estamos a seguir pelo caminho errado.

Não tenho a ilusão de que farei tudo bem. Seguramente cometerei erros, continuo, afinal, a trabalhar a minha própria pedra bruta, agora apenas a partir de um lugar diferente e com uma responsabilidade acrescida.

Quando fizer soar o malhete pela primeira vez, espero lembrar-me de que aquele som não representa uma chegada, mas uma nova partida neste longo caminho, na Maçonaria, mesmo a cadeira colocada mais a Oriente é apenas mais um lugar a partir do qual continuamos a observar, aprender, a servir e a crescer.

Fui eleito Venerável Mestre da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues. Sinto um enorme orgulho, uma profunda gratidão e, confesso, ainda algum frio miudinho.

Espero nunca deixar de o sentir.

João B. M∴M∴