O Peso do Malhete
Na primeira sessão de Julho, fui eleito Venerável Mestre da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues, e escrever ou até pensar nesta frase ainda me parece estranho. É uma mistura de orgulho, alegria, gratidão e, há que dizê-lo, também de algum peso. Ainda não fui instalado, nem tão pouco me sentei na Cadeira de Salomão ou peguei no malhete de VM, mas penso que comecei a sentir o peso da responsabilidade no momento em que o resultado da votação foi anunciado.
Na nossa Loja, como em outras, existe a tradição de o caminho até ao Oriente não aparecer de repente, vai-se fazendo através do exercício de diferentes cargos, primeiro observando, depois ajudando, assumindo responsabilidades e aprendendo a olhar para a Loja de diferentes lugares. É um percurso que se vai preparando e que, de alguma forma, também se vai esperando e até ambicionando.
Mas uma coisa é sabermos que estamos nesse caminho, outra é chegar o momento em que os nossos Irmãos são chamados a votar. Por muito que a tradição da Loja apontasse nesse sentido, por muito que o meu nome já tivesse sido proposto e por muito que racionalmente tudo parecesse encaminhado, ficou sempre aquele nervo miudinho. E penso que ainda bem.
Talvez o dia em que alguém aguarde uma votação destas com absoluta indiferença seja também o dia em que o malhete não lhe assente como deveria, pois aquele nervosismo não nasce da possibilidade de não sermos eleitos, mas sobretudo da consciência de que estamos a pedir aos nossos Irmãos algo muito mais importante do que um voto, estamos a pedir-lhes a sua confiança.
Ser Venerável Mestre não é ser dono ou mandante da Loja, nem sequer ser o seu elemento mais importante. a Loja não lhe pertence, ela é de todos os Irmãos que a constituem, aos que hoje nela trabalham, aos que antes de nós a construíram e também àqueles que um dia receberão aquilo que formos capazes de lhes deixar.
O Venerável Mestre recebe um malhete, mas não recebe com ele sabedoria automática. Senta-se no Oriente, mas não passa por isso a ser o dono da Luz. Pode dirigir os trabalhos, organizar, decidir quando necessário e procurar indicar um caminho, mas a autoridade não nasce apenas do cargo ou do som do malhete, constrói-se na coerência entre aquilo que se diz e aquilo que se faz, na capacidade de ouvir, no equilíbrio das decisões e, principalmente, no reconhecimento dos Irmãos.
É essa talvez a parte mais exigente.
Ideias não faltam. Quero ajudar a construir uma Loja viva, participada e fraterna. Uma Loja com Colunas fortes, onde os Aprendizes encontrem espaço para crescer, os Companheiros sintam vontade de trabalhar e os Mestres assumam a responsabilidade de transmitir aquilo que receberam. Uma Loja que cuide do seu Ritual, da sua memória e dos seus Irmãos, que seja capaz de preservar a tradição sem ter medo de preparar o futuro.
Nenhuma ideia se fará apenas porque o Venerável Mestre assim o deseja, uma Loja viva não se constrói a partir do Oriente, constrói-se em todo o Templo. Faz-se com os Vigilantes, com os Oficiais, com os Mestres, com os Companheiros e com os Aprendizes. Faz-se com os que apresentam ideias, com os que as discutem, com os que ajudam a concretizá-las e também com aqueles que, fraternalmente, nos alertam quando entendem que estamos a seguir pelo caminho errado.
Não tenho a ilusão de que farei tudo bem. Seguramente cometerei erros, continuo, afinal, a trabalhar a minha própria pedra bruta, agora apenas a partir de um lugar diferente e com uma responsabilidade acrescida.
Quando fizer soar o malhete pela primeira vez, espero lembrar-me de que aquele som não representa uma chegada, mas uma nova partida neste longo caminho, na Maçonaria, mesmo a cadeira colocada mais a Oriente é apenas mais um lugar a partir do qual continuamos a observar, aprender, a servir e a crescer.
Fui eleito Venerável Mestre da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues. Sinto um enorme orgulho, uma profunda gratidão e, confesso, ainda algum frio miudinho.
Espero nunca deixar de o sentir.
João B. M∴M∴

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