A Medida do Tempo
Há lugares que conhecemos muito antes de os visitar. O Egipto é um deles. Desde a escola que nos habituámos a olhar para as pirâmides como uma das maiores realizações da Humanidade, a reconhecer os nomes de alguns faraós e a admirar uma civilização que floresceu nas margens do Nilo há milhares de anos. Crescemos com imagens de templos monumentais, de hieróglifos misteriosos e de túmulos onde a vida e a morte parecem encontrar-se numa mesma narrativa. Mas uma coisa é conhecer o Egipto através dos livros, outra, bastante diferente, é estar diante da Grande Pirâmide de Quéops e tentar compreender o que significou erguê-la há cerca de quatro mil e quinhentos anos.
À primeira vista, a grandeza das pirâmides está nas suas dimensões. A quantidade de pedra, o peso dos blocos, a precisão das linhas e a extraordinária resistência ao passar dos séculos impressionam qualquer visitante. Porém, à medida que nos aproximamos, a admiração começa a deslocar-se da obra para aqueles que a construíram. É relativamente fácil maravilharmo-nos perante um monumento daquela dimensão. Muito mais difícil é imaginar os homens que, sem as máquinas e os instrumentos de que hoje dispomos, conseguiram conceber, organizar e executar uma construção que continua a desafiar a nossa compreensão. Diante daquela imensidão, percebemos também a pequenez do nosso conhecimento e a facilidade com que confundimos aquilo que sabemos com tudo aquilo que existe para saber.
Entrar na Grande Pirâmide foi, por isso, um dos momentos mais marcantes desta viagem. Deixamos para trás a luminosidade intensa do planalto de Gizé e penetramos num espaço onde a pedra parece absorver tudo o que nos rodeia. Os corredores estreitos, a subida pela Grande Galeria, o calor, o ar pesado e, finalmente, a chegada à Câmara do Rei, despojada de qualquer ornamentação, criam uma experiência difícil de traduzir em palavras. Não encontramos ali a exuberância decorativa que tantas vezes associamos ao antigo Egipto. Encontramos pedra. Pedra cuidadosamente talhada, ajustada, sobreposta e organizada segundo um propósito que atravessou milénios
.Há algo de singular naquele percurso. À medida que avançamos, o mundo exterior parece ficar mais distante. O ruído diminui, os movimentos tornam-se mais cuidadosos e a atenção concentra-se no caminho que temos diante de nós. A própria luz, tão abundante lá fora, deixa de poder ser tomada como algo garantido. Não sabemos exactamente o que nos espera no fim, mas continuamos, movidos por uma curiosidade que acaba por vencer o desconforto. E quando finalmente alcançamos a câmara interior, a surpresa não está naquilo que encontramos, mas naquilo que não encontramos. Perante uma sala quase vazia, construída com uma precisão extraordinária, somos obrigados a abandonar muitas das expectativas que levávamos.
Ali, rodeado por toneladas de pedra, dei por mim a pensar menos nos faraós e mais nos construtores. Naqueles que mediram, calcularam, transportaram e trabalharam cada bloco, nos que ensinaram e nos que aprenderam, nos que conceberam a obra e nos muitos que a executaram, sabendo que provavelmente nunca chegariam a contemplá-la na sua forma definitiva. A História conservou o nome de Quéops, mas deixou no anonimato a esmagadora maioria daqueles que tornaram possível a sua pirâmide.
Esta reflexão acompanhou-me na visita ao Grand Egyptian Museum, onde a riqueza extraordinária dos tesouros preservados convive com objectos bem mais modestos, mas não menos reveladores. Entre estátuas, sarcófagos e peças de uma beleza impressionante, foram também os instrumentos do trabalho quotidiano que me prenderam a atenção. Réguas, esquadros, prumos, cinzéis de cobre, malhos de madeira e outros utensílios recordam-nos que, por detrás dos grandes monumentos, existia um profundo domínio das técnicas, dos materiais e das proporções. Aquilo que hoje observamos como uma maravilha da Antiguidade foi, antes de mais, o resultado do trabalho de homens que aprenderam a conhecer a matéria e a transformá-la.
É curioso como instrumentos tão simples podem encerrar significados tão profundos. A régua permite medir, mas exige que saibamos o que pretendemos medir. O esquadro ajuda a encontrar o ângulo certo, enquanto o prumo nos oferece uma referência que não depende da nossa vontade ou daquilo que os olhos possam sugerir. O malho transmite a força necessária ao trabalho, mas essa força de pouco serve se não houver uma mão experiente a orientar o cinzel. Cada instrumento tem a sua função e nenhum substitui inteiramente o outro. A habilidade do construtor consiste também em reconhecer o momento certo para utilizar cada um deles, distinguindo a força da precisão, a intenção da execução e aquilo que deve ser retirado daquilo que importa preservar.
Sem dúvida, que uma das maiores lições que podemos retirar dos antigos construtores é a percepção de que nenhuma obra verdadeiramente importante nasce apenas da força ou da vontade. Temos de compreender antes de executar, conhecer antes de transformar e aprender antes de ensinar. Trabalhar sobre a pedra exige paciência, disciplina e uma atenção constante às suas característicasm um golpe precipitado pode comprometer aquilo que levou horas a preparar. Uma medida incorrecta pode tornar inútil o esforço de muitos homens. Não basta, e ouve-se muito hoje em dia, trabalhar muito. É preciso aprender a trabalhar bem, aceitar a correcção dos erros e reconhecer que o aperfeiçoamento raramente se alcança sem perseverança.
À medida que aprofundamos o conhecimento sobre o antigo Egipto, compreendemos que a grandeza das suas construções dependia de muito mais do que a habilidade dos artesãos. A geometria, a matemática, a observação dos astros e o conhecimento dos ciclos da Natureza desempenhavam um papel fundamental na organização daquela sociedade. O Nilo, com as suas cheias anuais, obrigava a observar, registar, calcular e adaptar. O céu oferecia referências para a orientação e para a medição do tempo. A arquitectura exigia proporções, estabilidade e harmonia. E tudo isto dependia de uma capacidade de transmitir conhecimentos que permitia a cada geração continuar e aperfeiçoar o trabalho das anteriores.
Há qualquer coisa de extraordinário nesta passagem do trabalho das mãos para o domínio do pensamento. O mesmo Homem que aprende a desbastar a pedra descobre, com o tempo, a necessidade de compreender a geometria que orienta o seu trabalho, os princípios que garantem o equilíbrio da construção e as leis da Natureza que condicionam a sua existência. A observação do que está próximo conduz à curiosidade pelo que está distante. Da terra levanta-se o olhar para o céu; da medida de um bloco passa-se à compreensão das proporções de um edifício; da experiência individual chega-se ao conhecimento partilhado. E quanto mais aprendemos, mais percebemos que cada resposta irá abrir caminho a muitas novas perguntas.
E a organização que aquelas construções exigiram? Tendemos a celebrar os grandes nomes da História, os reis, os faraós, os arquitectos e os governantes, esquecendo frequentemente os milhares de homens cuja contribuição individual tornou possível admirarmos estes monumentos. Nenhum foi construído por uma só pessoa, cada pedra exigiu trabalho, cada tarefa dependeu de outras e cada geração beneficiou dos conhecimentos acumulados pelas anteriores. A construção exigia conhecimento, mas também confiança, cooperação e a consciência de que o esforço individual só adquire pleno significado quando encontra o seu lugar no trabalho colectivo.
Os antigos egípcios procuravam igualmente uma ordem que ultrapassasse a simples organização das suas construções. A noção de Ma’at, associada à verdade, à justiça, ao equilíbrio e à ordem cósmica, ocupava um lugar fundamental no seu pensamento. A harmonia do universo, o funcionamento da sociedade e a conduta dos homens não eram entendidos como realidades inteiramente separadas. Existia uma relação entre aquilo que se fazia e a ordem que se pretendia preservar. Esta ideia parece revelar respostas para os problemas de hoje em dia, onde o conhecimento e o poder, quando desligados da justiça e da responsabilidade, dificilmente contribuem para uma sociedade verdadeiramente equilibrada.
O Cairo, no meio da sua enorme desorganização, organizada, permite olhar para além do Egipto faraónico, onde existe uma cidade onde se cruzam, há séculos, culturas, religiões e tradições que marcaram profundamente a História da Humanidade. Entre igrejas cristãs, mesquitas e a visita a uma sinagoga, encontramos testemunhos de diferentes formas de procurar compreender o mundo e o lugar que nele ocupamos. A Torá, a Bíblia e o Alcorão pertencem a tradições distintas, com ensinamentos, interpretações e práticas próprias, mas partilham uma herança espiritual que aproxima o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão. Percorrer estes lugares é também descobrir que o conhecimento não se esgota numa única tradição e que compreender o outro não exige abandonar as nossas convicções. Pelo contrário, talvez seja precisamente a segurança daquilo em que acreditamos que nos permita escutar, respeitar e aprender com aqueles que seguem caminhos diferentes.
Mas o Egipto reserva-nos uma reflexão ainda mais profunda. Depois de admirarmos as construções, de procurarmos compreender os conhecimentos que as tornaram possíveis e de descobrirmos a complexidade daquela civilização, encontramos uma pergunta perante a qual todos os instrumentos parecem insuficientes. Uma pergunta que acompanhou os antigos egípcios durante milhares de anos e que continua, apesar de todos os progressos da ciência, a fazer parte das nossas inquietações mais íntimas.
O que acontece quando a vida termina?
Para os faraós, a morte não representava necessariamente o fim da existência, mas a passagem para uma outra forma de vida, cuja preparação começava muito antes do último suspiro. A preservação do corpo, os rituais funerários, os objectos depositados nos túmulos e a própria construção das pirâmides obedeciam à convicção de que a existência poderia continuar para além do mundo terreno. A morte era uma passagem, mas também uma prova, e a eternidade não se alcançava simplesmente pela grandeza do poder exercido em vida. Ao longo da história egípcia desenvolveu-se uma elaborada concepção do destino dos mortos, na qual o coração do defunto poderia ser pesado perante a pena de Ma’at, símbolo da verdade e da justiça. Aquele que desejava prosseguir a sua existência no Além teria de enfrentar o julgamento dos seus actos.
É difícil não encontrar nesta crença uma reflexão sobre a responsabilidade individual. Um homem poderia possuir riquezas, comandar exércitos, governar um reino e mandar erguer monumentos destinados a resistir aos séculos, mas a sua posição terrena não dispensava a necessidade de responder pela vida que tinha levado. O coração, e não a coroa, acabava por ocupar o centro daquele julgamento. Há nesta imagem uma força extraordinária, sobretudo quando pensamos na importância que atribuímos tantas vezes às aparências, aos títulos e às conquistas materiais. Perante a morte, tudo aquilo que parecia distinguir os homens perde uma parte considerável do seu significado, deixando lugar a questões muito mais difíceis sobre a justiça, a integridade e o valor dos nossos actos.
A visita aos monumentos funerários e aos tesouros preservados no museu ajudou-me a compreender melhor a importância que os antigos egípcios atribuíam à memória. Conservar o corpo, gravar um nome na pedra, representar cenas da vida quotidiana ou depositar objectos junto dos mortos eram formas de procurar assegurar a continuidade de uma existência. A própria escrita participava nesse esforço de vencer o esquecimento. E há algo de particularmente comovente no facto de, durante muitos séculos, o significado dos hieróglifos se ter perdido, deixando à Humanidade monumentos cobertos de palavras que já ninguém sabia ler. Foi necessário um longo trabalho de estudo, comparação e perseverança para que essas vozes antigas pudessem voltar a ser compreendidas. O conhecimento pode desaparecer, uma palavra pode perder-se, mas a vontade de a reencontrar permite, por vezes, recuperar uma parte daquilo que julgávamos irremediavelmente esquecido.
Talvez a maior ironia das pirâmides esteja precisamente na relação entre a morte e a permanência. Foram construídas para assegurar a eternidade dos seus ocupantes, mas acabaram por perpetuar também a memória de uma civilização inteira. Os faraós desapareceram, os seus reinos deixaram de existir e muitos dos seus nomes perderam-se durante séculos. No entanto, as pedras continuam de pé, testemunhando a capacidade daqueles que as trabalharam. E, se os reis procuraram vencer a morte através da monumentalidade dos seus túmulos, os construtores alcançaram uma outra forma de permanência através da obra que deixaram. Desconhecemos quase todos os seus nomes, mas continuamos a admirar o resultado do seu esforço, a procurar compreender os seus métodos e a aprender com aquilo que realizaram.
Regressei com a impressão de que a grandeza do Egipto não está apenas naquilo que os seus habitantes conseguiram construir, mas também na forma como as suas obras continuam a despertar reflexões sobre o Homem. A pedra, por si só, nada nos diz. É o conhecimento de quem a trabalha, a intenção que orienta a sua mão e o lugar que lhe destina que a transformam em parte de uma obra. Talvez o mesmo aconteça connosco. Não é apenas aquilo que sabemos ou aquilo que somos capazes de fazer que nos define, mas também a forma como utilizamos esse conhecimento, como nos relacionamos com os outros e como contribuímos para algo que possa perdurar para além da nossa própria existência. Os antigos egípcios procuraram medir o tempo, compreender os ciclos da Natureza e alcançar a eternidade. Milhares de anos depois, continuamos a descobrir que há coisas cujo verdadeiro valor não pode ser medido pela sua duração.
Esta foi apenas uma curta viagem, limitada essencialmente ao Cairo e à região envolvente. Suficiente para despertar uma admiração ainda maior por uma civilização extraordinária, mas claramente insuficiente para conhecer a verdadeira dimensão da sua história e do seu legado. Ficaram por descobrir muitos dos grandes templos, monumentos e lugares que se estendem ao longo do Nilo. Por isso, já começámos a planear uma nova viagem, desta vez bastante mais aprofundada, que nos permita percorrer o Egipto com outro tempo, conhecer os grandes complexos de Luxor e Karnak, o Vale dos Reis, os templos de Abu Simbel e tantos outros testemunhos de uma civilização que deixou marcas profundas na História da Humanidade.
Da próxima vez, esperemos que seja o Nilo, não o relógio, a marcar o ritmo.
João B. M∴M∴
Este texto foi publicado originalmente no A Partir Pedra no Substack .






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