Dá-me lume, Jorge

Já foram quase duas semanas e continuo a dar por mim a ouvir Jorge Palma. Nestes últimos dias talvez mais do que o normal, mas a verdade é que nunca andou longe das minhas playlists. Não sou propriamente um groupie de concertos, nem tenho por hábito andar atrás de músicos de terra em terra. Os que me fizeram fazer alguns quilómetros só para os voltar a ouvir contam-se provavelmente pelos dedos das mãos. Jorge Palma foi um deles.

Tive o privilégio de o ver ao vivo mais de um par de vezes, em sítios diferentes, e havia sempre qualquer coisa de Jorge Palma num concerto que não se explica bem. Podia não estar tudo perfeito, bem longe muitas vezes, podia uma música começar de uma maneira e acabar sabe-se lá onde, mas estava lá ele, o piano, aquela voz que parecia já ter vivido umas quantas vidas e, principalmente, as palavras.

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Não sei se Jorge Palma foi maçom. Não sei se foi ou se não foi, sei que tinha amigos que eram. E também não vou agora procurar esquadros e compassos escondidos nas letras para tentar provar coisa alguma, mas, ao ouvi-lo nestes dias, dei por mim a encontrar algumas coisas que afinal não só conheço como reconheço.

Frágil, talvez comece pela fragilidade da vida. Passamos uma boa parte do nosso tempo a tentar esconder as nossas fragilidades, que não deixa de ter alguma piada para quem escolheu passar uma parte dessa mesma vida a trabalhar uma Pedra Bruta que é, afinal, ele próprio. É muito mais fácil encontrar uma aresta na pedra do lado do que reconhecer uma na nossa, e há qualquer coisa de muito honesta nas músicas do Jorge precisamente porque nunca me pareceram escritas por alguém preocupado em parecer perfeito.

Também falava muito do caminho. De andar, de cair, de continuar, de liberdade, de estar só e de precisar dos outros. Há caminhos que só nós podemos fazer, mas isso não quer dizer que tenhamos de os fazer sozinhos, há mesmo momentos em que um homem precisa de outro homem para se levantar. Não para lhe fazer o caminho, apenas para lhe esticar a mão.

É uma coisa que às vezes complicamos demasiado. Chamamos-lhe Fraternidade, escrevemos sobre ela, falamos dela, ritualizamo-la. Mas no fim talvez seja apenas isto: eu estou aqui. Mesmo quando não concordo contigo, mesmo quando nos zangámos, mesmo quando durante algum tempo caminhámos para lados diferentes. Se precisares de mim, estou aqui.

E depois Jorge Palma pede lume.

“Dá-me lume, não deixes o frio entrar.”

Nós falamos de Luz, procuramo-la, pedimo-la e passamos bastante tempo a tentar perceber o que ela significa. Há uns tempos escrevi aqui que, por vezes, a Luz até está onde sempre esteve e somos nós que colocamos alguma coisa à frente dela. Orgulho, preconceitos, certezas, vaidade, medo de reconhecer que podemos estar errados. Afinal, se calhar, pedir lume e pedir Luz não são coisas assim tão diferentes.

E há uma coisa bonita no lume, além de nunca nos deixar só, podemos acender outra e outra vela sem nunca ter que apagar a nossa. Pelo contrário, é provavelmente para isso que serve aquilo que vamos aprendendo no nosso caminho até ao oriente eterno. Não para guardarmos, não para mostrarmos que sabemos mais, mas sim para passarmos um pouco a quem vem atrás ou simplesmente a quem naquele momento precisa de ver melhor onde põe o próximo pé.

e talvez seja por isso que:

“Enquanto houver estrada pra andar, a gente vai continuar.”

Jorge Palma já não continua nesta nossa estrada, pelo menos desta forma. Mas as músicas continuam, as palavras continuam e aquela voz vai continuar a aparecer no carro, em casa ou numa qualquer playlist muitos anos depois de ele ter partido a iluminar o nosso caminho. Não será também isto um pouco ficar? Ou deixar algo?

Na Maçonaria convivemos bastante com esta ideia, mesmo sem pensarmos muito nela. Ocupamos lugares que já foram de outros, recebemos coisas que outros receberam antes de nós e tentamos, durante o tempo que cá estamos, acrescentar qualquer coisa antes de as passarmos aos seguintes. Um dia alguém ocupará o nosso lugar. E o caminho continuará.

Não sei se Jorge Palma alguma vez pediu a Luz entre Colunas. Também não preciso de saber.

Sei que deixou muito lume deste lado.

E quero acreditar que terá agora um lugar perto do G∴A∴D∴U∴, talvez com um piano por perto, a fazer o que sempre fez, a pegar naquilo que somos, com as nossas fragilidades, contradições, amores e disparates, e transformar tudo isso em música.

Dá-lhes lume, Jorge.

João B. M∴M∴

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Este texto foi publicado originalmente no A Partir Pedra no Substack .

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