24 janeiro 2026

O estoque encalhou. É hora de pormos a maçonaria nos saldos?


Tenho refletido muito sobre uma provocação que o meu querido irmão JR me fez recentemente: a de que, a cada dia que passa, a Maçonaria se torna um "produto" menos vendável. Não porque a qualidade da nossa "mercadoria" moral tenha decaído, mas porque o mercado onde operamos sofreu um choque tectónico. A verdade inconveniente é que já não competimos apenas com outras ordens discretas ou clubes de serviço; competimos ferozmente pelo "novo petróleo" dos tempos modernos: a atenção e o tempo dos homens. E nessa economia de escassez, onde a atenção é a moeda mais valiosa e volátil, o nosso modelo de "negócio"exige um investimento temporal altíssimo com retorno difuso e diferido: tudo que está tecnicamente em falência para as novas gerações. 

O cenário é de uma clareza brutal quando olhamos para os "ladrões de tempo" que nos cercam, começando pela colonização digital do nosso lazer. Vivemos na era do entretenimento de "atrito zero", onde o streaming já ultrapassou a televisão linear, capturando 60% do tempo de visualização e impondo uma cultura de binge-watching que normalizou o consumo de blocos de três ou quatro horas de conteúdo de uma assentada. Competimos contra algoritmos desenhados por engenheiros comportamentais para gerar dopamina a cada 15 segundos, enquanto nós oferecemos sessões de leitura de atas e arquiteturas que exigem um tipo de paciência cognitiva que está em vias de extinção. O homem que chega a casa exausto tem à sua disposição, por um valor irrisório, um catálogo infinito de gratificação imediata; convencê-lo a vestir um fato e sair para uma reunião lenta e protocolar tornou-se uma tarefa hercúlea.

Ao mesmo, enfrentamos a tirania da obsolescência profissional, que transformou o tempo livre em tempo de sobrevivência. O conhecimento que garantia uma carreira estável de trinta anos evaporou-se. Alguns dados recentes indicam que a "meia-vida" de uma competência técnica caiu para uns assustadores dois anos e meio. Isto significa que um profissional que não estude continuamente perde metade do seu valor de mercado em menos de três anos. O "terceiro turno" da noite, que outrora pertencia à Loja, foi canibalizado pela necessidade urgente de reskilling e certificações. Para a classe média instruída que historicamente preencheu as nossas Colunas, a escolha entre estudar um ritual do século XVIII ou fazer um curso que garante a manutenção do emprego pende, racionalmente, para a sobrevivência económica.

Mas o maior "ladrão" é, talvez, o mais nobre de todos, tornando a nossa competição moralmente complexa: a paternidade. A figura do pai provedor e ausente é uma relíquia sociológica; hoje, o imperativo é a "paternidade intensiva". As estatísticas são inequívocas: desde 1965, o tempo que os pais dedicam aos cuidados diretos dos filhos mais do que triplicou. E se focarmos no perfil demográfico típico da Maçonaria, homens com formação superior, esse investimento ultrapassa agora as 10 horas semanais de interação focada. O homem moderno não quer apenas "estar"; quer participar, educar e brincar. Quando a Maçonaria o obriga a escolher entre ser um irmão assíduo ou um pai presente, coloca-se numa posição de desvantagem ética onde a Ordem sairá invariavelmente derrotada.

Podemos ainda incluir na lista de ladrões um bónus: o futebol que se industrializou ao ponto de ocupar todo o calendário social. O futebol deixou de ser um passatempo de fim de semana para se tornar uma novela contínua, com a elite a jogar quase 90 partidas por ano e os adeptos a dedicarem mais de 20 horas semanais a consumir, discutir e viver a sua "tribo". O sentimento de pertença, a catarse coletiva e a identidade de grupo que a Maçonaria vendia como exclusivos são agora entregues pelo desporto de forma mais visceral, frequente e com barreiras de entrada muito menores. O adepto encontra no estádio ou no grupo de WhatsApp a comunidade que nós prometemos, mas sem a exigência do estudo ou do silêncio.

É neste cenário inóspito que tentamos vender o nosso "estoque" com um argumento comercial que beira o absurdo: "pagas uma joia cara, para algo que não sabes o que é, que vai competir com a tua sobrevivência profissional e com os teus filhos, e ainda ficas meses ou anos só a escutar". Não surpreende que a retenção seja o nosso calcanhar de Aquiles, com dados a mostrarem que quase 20% dos iniciados abandonam a Ordem nos primeiros três anos (UGLE, 20222). O "cliente" entra, experimenta o produto, compara o custo de oportunidade com a sua vida lá fora e percebe que a conta não fecha. O problema não é o preço da joia ou das quotas; colocar a Maçonaria nos "saldos" financeiros não resolverá nada.

O nosso "estoque encalhou" porque o mundo mudou as regras do comércio de tempo e nós continuamos a operar com a lógica de uma mercearia antiga num mundo de e-commerce instantâneo. O desafio não é cosmético, é existencial. Enquanto não compreendermos que estamos a pedir o ativo mais valioso e escasso do século XXI — tempo — em troca de uma experiência que muitas vezes falha em entregar valor percetível imediato, continuaremos a ver as nossas Colunas a esvaziar. Não por falta de homens bons, mas porque os homens bons estão ocupados a serem bons pais, bons profissionais e a sobreviverem à voracidade de um mundo que não dorme.

Fábio Serrano, MM

Fontes:
  • Samba TV – "U.S. State of Streaming Report" (Outubro 2025).
  • IBM SkillsBuild / World Economic Forum (Future of Jobs Report).
  • Institute for Family Studies (2024) / Pew Research Center.
  • Football Fever Report (AO.com / OnePoll).
  • United Grand Lodge of England (UGLE) – Strategy 2022 and Beyond.


17 janeiro 2026

 


Dia 17 de Janeiro de 2026 em Portugal

 Pois bem reflitamos então um pouco acerca do dia de hoje.

Liberdade, Igualdade, Fraternidade !

Quando o calendário é feito no início do ano constatamos que todos os dias serão previsivelmente iguais. Muda-se o número do dia no mês e o nome do dia na semana. E é tudo.

Dia a dia, semana a semana, mês a mês durante 12 meses.

Acontece depois que cada dia toma uma personalidade própria. A Natureza encarrega-se de pôr diferenças em cada dia que vamos vivendo.

Chuva hoje, vento amanhã, calor e sol a seguir…

O Homem trata de dar uma ajuda a diferenciar cada dia de cada dia.

Hoje um tratado, amanhã uma doença, guerra a seguir… mais uns discursos, umas promessas, um salvamento, um nascimento, uma morte…

Os dias que nasceram todos iguais acabam todos diferentes. É o espelho da nossa própria existência.

A “Mãe Natureza” encarrega-se de distribuir “qualidades” conforme Lhe vai apetecendo (é uma simplificação conveniente para o momento) tornando-nos diferentes, todos, por mais iguais que quiséssemos ser.

Só que no final voltamos à igualdade.

A mais absoluta igualdade. Finalmente todos iguais, apetece-me dizer…

Estamos, como pus no título, a 17/01/2026, em Portugal !

Então, sendo que é assim, reflitamos !!!

Não encontro melhor do que recorrer a 2 extraordinários cérebros “nacionais”. Sem eles saberem pedi-lhes ajuda, também sem eles autorizarem usei o seu pensamento para o trazer até aqui para me ajudar a refletir…



J.Paiva Setúbal (MM:.) - 17/01/2026

 

Educação, o que é ?

A influência da Maçonaria na Sociedade é um dos seus objetivos. Uma das suas tarefas mais importantes deve ser a de transmitir à sociedade o enriquecimento interno, pessoal e espiritual que pretendemos obter na nossa vivência maçónica.

A intervenção social é uma das obrigações principais da Maçonaria unindo todos os homens, toda a Humanidade na procura da Felicidade, da Paz, da Alegria, da Liberdade.

É obrigação do Maçon dar testemunho de interesse pelo aperfeiçoamento da Fraternidade Humana.

Hoje dedico aqui algumas linhas à Educação a partir de um evento em que estive há algum tempo, talvez 2 anos (?), mas cuja atualidade é evidente.

Na televisão, nos jornais, nas redes sociais, em todos os suportes de informação onde é possível falar de Educação encontramos um consenso bem generalizado, de facto só contrariado sistematicamente pelos órgãos do governo em funções no momento, seja que governo for, e o consenso é claro, a Educação em Portugal vai mal ou a Educação em Portugal está pior…

A definição de “Educação” que nos interessa aqui é a componente escolar.

De facto, o que se entende por Educação é um conjunto de variáveis nas quais se inclui o “ensino escolar”, mas esse é apenas e só apenas, um dos componentes da Educação, quiçá não o mais importante. Mas é exatamente esse o componente mais referido e vulgarmente o único, que é avaliado quando se fala de Educação.

A Escola não é o único fornecedor de Educação, nem sequer o principal, mas é o mais em evidência por maior facilidade de localização física.

A escola é aquilo, está ali… O professor é aquele, está ali também…  É muito fácil encontrar um e outro.

Neste curto pensamento é exatamente a este componente da Educação que me refiro e é a este apenas, porque é o mais atacado, direi que, na maior parte das vezes, injustiçado.

A escola não funciona, o professor é mau…

Não se faz referência, ou raramente se faz referência, à qualidade do aluno e principalmente à qualidade dos Pais (Encarregados de Educação) do aluno. E no entanto, a meu ver, é a estes que cabe a componente mais importante do conjunto que é a Educação.

Neste meu interesse momentâneo quero dar visibilidade, a que consigo dar, a alguém que sabe do assunto e que muito tem pensado e escrito sobre o tema, com a visão muito clara de que não há “ensinar” sem haver “aprender”.

É esta dicotomia que é tratada na escola sendo claro que Professor e Aluno são, devem ser, uma unidade e não elementos separados do “eu ensino” e “tu aprendes se quiseres”. Se o aluno não aprender o professor também não ensina. Não há um sem o outro.

Esta tem sido uma das preocupações do Professor Jorge Rio Cardoso, plasmada no conjunto da sua obra “Bora Lá…”. É um conjunto de livros pensado para a Escola, para os Alunos e para os Pais (Encarregados de Educação).

Estivemos no lançamento de um desses livros e registamos o que foi dito pelos intervenientes. Divido convosco o final da lição dada na altura pelo professor J.R.C.

(Chamo a atenção para a qualidade da imagem cuja recolha ficou muito deficiente. Mesmo assim resolvi pô-la porque o que de facto interessa aqui são as palavras. E essas são bem percetíveis).

J.Paiva Setúbal (MM:.)

10 janeiro 2026

A Arteriosclerose de uma loja



Antes de tudo, convém assentar uma pedra angular: não escrevo estas linhas para defender o abandono do ritual ou a negligência dos nossos regulamentos. Pelo contrário, sou um fervoroso defensor de que a forma protege o conteúdo. O ritual é a moldura que permite à Loja operar num tempo e espaço sagrados, distintos do profano. Eu não proponho a anarquia, mas a vitalidade. Não questiono a regra, mas o "preciosismo cego" que, sob o pretexto de zelar pela perfeição, acaba por assassinar o espírito real da fraternidade.

Na medicina, a arteriosclerose refere-se ao endurecimento das artérias. As paredes, que deveriam ser flexíveis para permitir a circulação do sangue, tornam-se rígidas, estreitas e, eventualmente, bloqueiam o fluxo, levando à morte do tecido ou à falha do órgão. Na Loja, enfrentamos um risco semelhante. Quando o foco de uma sessão se desvia do aprimoramento moral e do calor da fraternidade para uma discussão vazia sobre a vírgula de uma ata ou o alinhamento preciso de um objeto que não afeta o andamento dos trabalhos ou a prática da verdadeira Maçonaria, estamos a sofrer de uma arteriosclerose ritualística.

O ritual deve ser uma ferramenta de trabalho, não uma mordaça. Se um Irmão comete um deslize formal, o ambiente de harmonia deveria permitir integrar e corrigir com discrição ou explicar pedagogicamente por que fazemos as coisas de determinada maneira. Muitas vezes, o que defendemos como regra máxima é apenas uma tradição oral que se fixou numa memória de trabalho local. Castigar um Irmão por algo que sequer está escrito é contraproducente e gera uma desarmonia que nos afasta do verdadeiro propósito da reunião.

Nós não nos reunimos para prestar culto à burocracia; reunimo-nos para nos tornarmos homens melhores. Se a sessão termina e os Irmãos saem mais exaustos do que inspirados, se saem mais distantes uns dos outros devido a picuices formais, então falhámos na nossa principal tarefa. O rigor é essencial, mas deve ser imbuído de humanidade. As nossas veias maçónicas precisam de ser flexíveis o bastante para aceitar as imperfeições humanas, permitindo que a fraternidade flua sem obstáculos. Assim, ao soar o malhete de encerramento, garantiremos que cada um saia do Templo mais justo e feliz do que quando entrou.


Fábio Serrano, M∴ M∴



01 janeiro 2026


1 DE JANEIRO

É um dia especial.

Marca o início de mais um ano solar e para muitos a retoma de tarefas ou do percurso para objetivos novos ou ainda não cumpridos ou, pura e simplesmente, a estreia de roupa nova.

Para mim marca sobretudo a memória de um grande Amigo e para a R:.L:. Mestre Affonso Domingues a memória de um Maçon exemplar.

É o Aniversário do Luís Miguel Rosa Dias e seria cumprido de forma bem mais festiva se fossemos suficientemente afortunados para o termos ainda connosco.

Lembrei-me de homenagear a sua memória com a publicação de um pequeno vídeo que teve a sua participação, ainda que não apareça nele.

Porque o vídeo que Vos trago o proporciona, aproveito a recordar também outro Querido Irmão, também já no Oriente Eterno.

O nosso querido e saudoso João Pinheiro, aqui trazido por sua Filha, a Teresa Brum Pinheiro.

A Teresa, além da sua vida profissional mantem uma segunda atividade (ou será a primeira ?) cantando o Fado. É fadista e que fadista…

É um excerto da atuação da Teresa durante o lançamento do livro “A Filha do Papa” do Luís Miguel Rocha (Março2013) onde estivemos como TVL.

A Teresa também compõe e neste fado juntam-se a música da Teresa e a letra do Luís Miguel (aqui, como nos seus outros escritos assinado como Miguel Roza).

Com esta ligeiríssima homenagem deixo a todos votos de excelente 6026.

J.Paiva Setúbal

25 dezembro 2025

Um Bom Natal

O Natal é, antes de tudo, uma pausa. Um momento em que a luz volta a ganhar espaço, mesmo quando os dias ainda são curtos.

É tempo de recolhimento, de silêncio útil, de olhar para dentro e perceber o que ficou por trabalhar, o que foi bem talhado e o que ainda pede paciência, método e tempo. Nenhuma obra se faz de um dia para o outro, e as mais importantes raramente se veem à primeira vista.

Que este Natal seja simples. Com poucos excessos e principalmente, com sentido.

Que haja luz suficiente para orientar o caminho, firmeza bastante para continuar a trabalhar e humildade para reconhecer que todos estamos ainda em construção.

Aos que caminham connosco, aos que vieram antes e aos que virão depois, desejo um Natal sereno, consciente e verdadeiro.

Boas Festas. 



22 dezembro 2025

                                                            DIA DE NATAL
 


Na verdade este poema desta minha querida Amiga Paula Nunes foi apresentado há já alguns anos numa emissão da TVL na rubrica "Um Poema e um café", espaço que apresentavamos regularmente com a participação de alguns dos Amigos que connosco quiseram colaborar. A Paula Nunes foi uma das principais e mais assíduas colaboradoras dizendo maravilhosamente palavras de outros mas dizendo também as suas próprias palavras como é o caso deste "Dia de Natal".
Aqui Vos deixo este presentinho da Paula.


20 dezembro 2025

O Inexplicável, explicável!

A ciência ensinou-nos que o universo teve um início, o Big Bang, uma expansão primordial onde nasceram o espaço, o tempo e as leis que ainda hoje regem todo o conhecido. Muito mais tarde, nesse mesmo universo aparentemente indiferente, a matéria inerte deu um salto improvável, uma faísca, a química transformou-se em biologia, e a vida começou.

Estes factos não diminuem o mistério. Pelo contrário, ampliam-no.



Dos trilhões de combinações possíveis, num universo vasto e silencioso, as condições para a vida na Terra alinharam-se, um euromilhões galáctico. Não por uma vez apenas os números se acertaram, mas sim o suficientemente para de forma estável para permitir evolução e consciência. Chamar a isto simples coincidência parece-me intelectualmente insuficiente.

É também aqui que se afirma a minha crença no Grande Arquitectom não como um Deus pessoal, interventivo ou religioso. Não como resposta fácil para o que ainda não compreendemos, mas como princípio criador, como a faísca inicial que a ciência descreve nos seus efeitos, mas não explica na sua origem. Algo que não se define plenamente, mas que se intui na ordem, na coerência e na existência de leis que precedem qualquer obra.

O Big Bang mostra-nos que até o tempo teve um início. 
A passagem da química à biologia mostra-nos que a complexidade pode emergir do simples.
A própria existência de método no universo sugere que o acaso puro não explica tudo.

A ciência diz-nos como o universo evolui, descreve processos, identifica padrões e leis.

Acreditar no Grande Arquitecto, para mim, não é abdicar da razão. É reconhecer que a razão, quando levada até ao limite, aponta para algo maior do que ela própria. Não é uma crença imposta, é uma hipótese de sentido que me leva a uma crença consciente. Uma forma de enquadrar o caos aparente numa ordem mais profunda, ainda que parcialmente invisível.

Talvez o verdadeiro trabalho não esteja em provar ou refutar essa ideia, mas em perceber o que ela exige de nós. Se o universo não é caótico, então também o nosso caminho não o deve ser, se houve método na criação, então o método importa na construção de nós próprios.

A questão, no fundo, não é concordar ou discordar, mas sim perceber que, quando se admite uma ordem maior do que aquela que conseguimos medir, o modo como se vive, constrói e escolhe deixa de ser casual. Passa a ser consciente.

João B. M∴M∴


13 dezembro 2025

Greve. O Momento em que o Direito se Esquece do Dever

Em Maçonaria, não discutimos política partidária, mas reflectimos, com a profundidade que o silêncio da Loja permite, sobre as forças que moldam a sociedade onde o Homem vive, trabalha e aperfeiçoa a sua Obra.

A greve, enquanto direito fundamental, é uma dessas forças, expressão da Liberdade, afirmação da Igualdade, busca pela Justiça. Mas, como em tudo o que é humano, também a greve pode afastar-se da sua natureza original quando o seu uso deixa de servir o Homem e passa a servir outros desígnios.

A greve geral da passada quinta-feira convida-nos a essa meditação.



Historicamente, salvo uma única excepção marcada por fortes pressões externas (pré-troika) ao País, todas as greves gerais em Portugal surgiram quando um determinado lado do espectro político se encontrava mais representado no nosso parlamento. Não é este detalhe que importa, o que verdadeiramente nos deve inquietar é a regularidade do padrão, como se a decisão de parar o Trabalho do país obedecesse mais a ritmos de conjuntura política do que à real necessidade da defesa dos trabalhadores.

E isto, a meu ver, revela algo mais profundo:
A Greve, como instrumento nobre que deveria proteger o Trabalhador parece hoje preso a mecanismos que não iluminam, antes obscurecem, interesses não dos trabalhadores, mas de quem vive à conta deles. 
A greve, quando usada como ferramenta de construção, ergue pontes e corrige injustiças, mas quando se transforma em arma de sombra, perde a sua Luz.


A Maçonaria ensina-nos que nenhum direito é absoluto se não estiver equilibrado com o direito do outro. Assim, o direito à greve deve sempre coexistir com o direito ao trabalho, com o direito ao serviço público, com o direito à Harmonia Social.

Tal equilíbrio exige reflexão serena e reforma justa, e, à luz dos nossos princípios, alguns caminhos parecem naturalmente emergir:

1. Que a representação laboral brote do próprio local de trabalho, onde os Homens constroem juntos o seu caminho, e não de vínculos externos que desviam a sua voz. Que os representantes sirvam a empresa e a comunidade que conhecem, e não interesses partidários alheios ao Labor.

2. Que sejam garantidos serviços mínimos universais, porque todos os ofícios são dignos e todos os cidadãos merecem igual protecção, não penso existirem funções mais ou menos importantes, apenas funções com propósitos diferentes.

3. Que nenhuma greve seja decretada sem a voz livre, expressada por voto secreto, daqueles que a irão cumprir, para que a decisão seja justa e não imposta. Que lideres sindicais seguiam a vontade dos trabalhadores e não que lideres sindicais imponham a sua vontade (interesses) aos trabalhadores.

4.  Que nenhum Trabalhador seja tocado pela força nem pela sombra da força, pois a liberdade de consciência é sagrada. E que os piquetes, que actualmente tantas vezes se transformam em instrumentos de intimidação, regressem ao seu propósito legítimo de esclarecer antes da decisão, nunca condicionar no dia da greve, sobretudo se esta foi votada livremente pelos próprios trabalhadores.
 5. Que exista sempre equilíbrio entre o direito de parar e o dever de fazer continuar aquilo que a sociedade não pode deixar de sustentar. E que, nesse equilíbrio, as empresas possam assegurar a continuidade mínima do seu labor, substituindo temporariamente quem está em greve, desde que assumam as contrapartidas justas, para que a protecção do direito não se transforme em prejuízo para o todo, nem a continuidade em injustiça para quem exerce o seu legítimo protesto.

Nada disto diminui o direito à greve, pelo contrário, purifica-o, resgata-o do ruído, devolve-lhe a dignidade e reconduz-lo ao seu papel de instrumento de Justiça. 

Porque, no silêncio sagrado da Loja, compreendemos que o verdadeiro Trabalho não é apenas o que fazemos com as mãos, mas aquilo que procuramos aperfeiçoar na sociedade que deixaremos às gerações que virão.

João B. M∴M∴

06 dezembro 2025

A mesa está posta! Qualquer candidato pode aparecer

Nos últimos dias, voltou à discussão sobre o nosso futuro Presidente da República a ideia de que a Maçonaria apoia determinado candidato, ultimamente com mais ênfase no Almirante Gouveia e Melo. O Fábio respondeu com inteligência no seu “Vamos jantar, Cotrim?, mas parece-me importante clarificar alguns pontos, porque estes equívocos reaparecem sempre que entramos em época eleitoral e acabam por transformar um tema sério numa caricatura conveniente.

A verdade é simples e jamais que explicada, seja neste blogue ou na imprensa. A Maçonaria não apoia candidatos, não apoia partidos e não participa em campanhas. Não deve, não pode e, acima de tudo, não quer fazê-lo. Está tudo inscrito nos landmarksque, desde o século XVIII, determinam que nenhuma Loja pode envolver-se em política partidária ou tomar posições eleitorais. Qualquer Obediência que o fizesse deixaria de ser reconhecida como Maçonaria legítima.

Por isso, em Portugal, falamos apenas de três Obediências sérias. A Grande Loja Regular de Portugal (Maçonaria Regular), o Grande Oriente Lusitano (Maçonaria Irregular) e a Obediência feminina. São estas que seguem as regras, que têm reconhecimento internacional e que respondem perante a tradição iniciática. Depois há muitos grupos de amigos espalhados pelo país que se auto-intitulam “maçonaria”, uns são soberanos, outros simbólicos, outros tradicionais, até pode aparecer um “grupo maçónico do bailinho da Madeira”. Existem dentro da liberdade de associação, claro, mas não representam, de todo, a Maçonaria Universal, nem são reconhecidos por qualquer autoridade maçónica legitimada. Confundir estas realidades distintas é abrir a porta ao ruído e, por vezes, ao oportunismo. Qualquer grupo pode auto-denominar-se maçónico, mas daí até ser reconhecido como tal o caminho é longo e são precisas várias viagens.

Outro ponto que parece sempre surpreender quem vê de fora é que, dentro de uma mesma Loja, podem conviver irmãos com visões políticas radicalmente diferentes. Um pode votar Bloco de Esquerda, outro Chega, outro CDS, outro PS, é indiferente. Trabalham lado a lado, como irmão e no fim da sessão seguem alegremente para junto das suas famílias e amigos. Basta lembrar exemplos como Paulo Portas e Miguel Portas, ou Adriano Moreira e Isabel Moreira, que representam leituras políticas opostas e continuam família. Na Maçonaria, como na vida, as diferenças não anulam a relação, tornam-na mais rica. Estamos aqui para aprender uns com os outros, não para concordar uns com os outros. Como se diz com humor, se todos gostassem do vermelho, o que seria do verde?

Dentro de uma Loja não se discute política partidária, tal como não se discute religião ou futebol. Não porque sejam temas tabus, mas porque despertam paixões que facilmente transformam o racional em irracional. O que se discute são questões universais como liberdade, justiça, dignidade humana, combate à desumanidade, entre muitos outros temas que nos permitem crescer enquanto homens mais justos e um pouco mais perfeitos, como tão bem descrito no texto da nossa Loja sobre o bom standing maçónico

A Maçonaria não elege governos nem nomeia CEOs, trabalha consciências e forma Homens.

Por isso, quando alguém afirma que “a Maçonaria apoia o candidato tal”, está simplesmente a confundir a instituição com a liberdade individual dos seus membros. Se há maçons que apoiam Gouveia e Melo, é porque são cidadãos livres. Se há maçons que simpatizam com Cotrim de Figueiredo, igualmente. E se há maçons que não se revêem em nenhum dos dois, também está correcto. O voto pertence ao cidadão, não ao avental, seja ele de cozinha ou de maçom. Estou seguro que dentro dos apoiantes de qualquer um dos actuais candidatos Presidente da Republica, existem muitos maçons, como existem muitos médicos, jornalistas, professores, canalizadores, o que seja...

No meio disto tudo, há o convite do Fábio. E já que foi lançado, deixo o meu também, não só a Cotrim de Figueiredo, mas estendido a qualquer um que queira sentar-se connosco e conversar de frente. Lá estaremos, seja à esquerda, à direita ou ao centro. Um jantar franco, entre pessoas livres, vale sempre mais do que qualquer suspeição lançada ao longe. Porque, no fim, é sempre mais fácil falar olhando para a pessoa do que discutir fantasmas.



A Maçonaria é um caminho de aperfeiçoamento pessoal, a política, o jogo do poder. Confundi-las dá sempre mau resultado.

João B. M∴M∴ 

29 novembro 2025

Vamos jantar, Cotrim?

Na sequência do meu texto, onde deixei claro que a Maçonaria não vota nem emite opiniões partidárias enquanto instituição, sinto a necessidade de voltar ao tema. Desta vez não o faço por minha iniciativa, mas porque o candidato da Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo, decidiu trazer o fantasma maçónico para o centro da campanha eleitoral. Ao criticar o almirante Gouveia e Melo por eventuais apoios ou almoços com irmãos maçons, Cotrim recorreu a um moralismo que disfarça mal o taticismo político e que merece, da minha parte, uma reflexão e um convite sincero.

Custa muito entender como alguém que lidera um movimento dito liberal, defensor intransigente das liberdades individuais, tenha tanta dificuldade em aceitar um dos pilares da democracia que é a liberdade de associação. Demonizar um grupo de cidadãos apenas por se reunirem, debaterem ou almoçarem não é liberalismo, é exatamente o oposto. A postura ficou evidente quando, no recente frente a frente televisivo, ao ser confrontado com a ubiquidade da Maçonaria na sociedade, o candidato da IL tentou sacudir a água do capote com uma frase que ficará para os apanhados da campanha: "Uso avental, mas na cozinha".

Esta tirada, que pretendia ser espirituosa, revela um desconhecimento constrangedor ou uma má vontade calculada. Recorrer ao velho espantalho do avental para atacar adversários é um truque gasto e indigno de quem promete modernizar Portugal. É uma tática que associo mais a regimes populistas do que a liberais iluminados e cosmopolitas. O que talvez o candidato não saiba, ou finja desconhecer por conveniência, é que a Maçonaria não é um bloco de pensamento único. Existem maçons de todas as tendências políticas e, a julgar pela simpatia que muitas ideias liberais despertam em mim e em muitos que conheço, arrisco dizer que há muitos irmãos que são eleitores do próprio Cotrim.

Ao diabolizar a Ordem com piadas de cozinha e suspeições de "cavalo de Troia", ele não ataca apenas o seu adversário político momentâneo. Insulta também uma parte do seu próprio eleitorado. Insulta homens livres e de bons costumes que acreditam na meritocracia e na liberdade económica, mas que veem agora o seu candidato a cair num preconceito primário. Esta postura levanta uma dúvida legítima sobre a verdadeira natureza política do candidato: será ele um verdadeiro liberal ou apenas um conservador escondido sob uma etiqueta moderna? Um liberal genuíno defende a privacidade e entende que o indivíduo é soberano nas suas escolhas associativas.

Por isso aqui deixo o repto, sem paramentos e sem rituais, apenas como um eleitor que observa a partir da pedra bruta. Vamos jantar, Cotrim? Eu pago a conta. Prometo que não falaremos de teorias da conspiração nem decidiremos o futuro do mundo entre a entrada e a sobremesa. Falaremos apenas sobre Liberdade, Igualdade e Fraternidade, valores que quero acreditar que ainda fazem parte do vocabulário de quem se diz liberal. Talvez nesse jantar descubra que o fantasma que criou não existe e que, para defender a liberdade dos outros, é preciso primeiro libertar a própria mente de preconceitos.

Fábio Serrano, MM

*esse texto não necessariamente reflete a opinião da maçonaria, da RLMAD ou de qualquer outra organização ou associação. Afinal, somos indivíduos livre. 

22 novembro 2025

O Bicho Papão da IA - Inteligência Artificial

Estive há pouco tempo num workshop onde se falou muito sobre IA e aprendi ali uma lição importante. a Inteligência Artificial não substitui a inteligência humana, amplifica-a, para o bem e para o mal. Uma frase ficou-me particularmente na memória, dita por L. Skinner, um dos oradores:

“Not doing bad is not the same as doing good.”

Ou seja: não basta evitar erros; é preciso intenção, critério e propósito. Isto aplica-se que nem uma luva ao uso da IA. Ela não pensa por nós, não sente por nós e muito menos decide por nós.




A IA devolve-nos apenas a qualidade daquilo que lhe damos, se dermos pouco, devolve pouco, se dermos profundidade, devolve profundidade.

Para tentar demonstrar isto de modo claro escolhi um símbolo a nós familiar: a Coluna B. Não para explicar o tema, mas para mostrar como a IA só funciona bem quando a nossa prompt é clara, intencional e contextualizada.

Ex:1. Quando não damos contexto (resultado irrelevante)

Prompt:

“Escreve sobre a Coluna B.”

Output:

"A Coluna B é a segunda coluna de uma tabela ou folha de cálculo, usada para organizar dados e complementar a coluna A."

-  Sem contexto, a IA nem sequer sabe que estamos a falar de Maçonaria.


Ex:2. Quando damos pouco contexto (resultado vago)

Prompt:
“Escreve um parágrafo sobre o significado simbólico da Coluna B em tradições históricas.”

Output:

"A Coluna B surge em algumas tradições como símbolo de sustentação e força, marcando entradas ou momentos cerimoniais."

- Já tem mais um pouco de "sumo", mas continua longe da dimensão que pretendemos.


Ex:3. Quando dizemos que é maçónico (resultado aceitável)

Prompt:

“Explica o significado da Coluna B na Maçonaria, focando-te na sua dimensão de força moral e sustentação do Aprendiz.”

Output:

"Na Maçonaria, a Coluna B representa a força moral que sustenta o Aprendiz no início da sua jornada. Marca a passagem do profano para o trabalho interior, lembrando a necessidade de disciplina e carácter."

Já acerta, mas ainda não chega à profundidade do símbolo.


Ex4. Quando damos contexto completo (resultado verdadeiramente útil)

Prompt:

“Escreve um parágrafo profundo, historicamente fundamentado e simbolicamente rigoroso sobre a Coluna B, ou Boaz, no Rito Escocês Antigo e Aceite praticado em Portugal. Explica a sua origem bíblica no Livro de Rute, a linhagem de Boaz, a ligação ao Templo de Salomão, o significado de ‘em vigor’, as razões pelas quais os Aprendizes se sentam na Coluna do Norte e a relação com fenómenos solsticiais. Evita exageros esotéricos e privilegia uma leitura ética, histórica e humana.”

Output:

"Na Maçonaria no Rito Escocês Antigo e Aceite, a Coluna B, ou Boaz, tem raízes profundas no Livro de Rute, onde Boaz se destaca como homem justo, generoso e fiel, cuja união com Rute originou a linhagem de Jessé, David e, por fim, Salomão. É por isso que, ao erguer o Templo, Salomão nomeia a coluna esquerda como Boaz, “em vigor”, homenageando a rectidão e coragem do seu bisavô. Os Aprendizes sentam-se na Coluna do Norte porque, nos tempos operativos, ali se alinhavam para receber instrução e salário, carregando as pedras imperfeitas que iniciavam o labor. A posição a Norte relaciona-se ainda com fenómenos solsticiais, simbolizando menor luz e maior necessidade de trabalho interior. Assim, Boaz torna-se símbolo de força moral, humildade e perseverança, fundamentos que sustentam o caminho iniciático desde a Antiguidade."

-  Este nível de detalhe só é possível porque o input foi bastante claro. Mas como é lógico tem a ver com o meu input, o input (prompt) de qualquer outra pessoa, trará um resultado diferente.


Resumindo. a IA é uma grande tool, e goste-se ou não se goste veio para ficar. Ela já cá está há muito tempo, os primeiros standards da IA são de 1955 (se não me engano), o que acontece é que ela agora tem a capacidade de ser bastante mais rápida e acessivel para o comum dos mortais.

Usem-na, explorem-na e principalmente, conduzam-na. O futuro é "Human-Led, AI Powered"

Não se esqueçam, que como o malho que desbasta a pedra bruta não trabalha sem mão que o segura e que o cinzel não corrige sem intenção, A IA não produz se nós não a orientarmos.

Quando usada com critério, rigor e propósito, pode elevar, mas nunca substituir,  o trabalho do maçom. 

Não se esqueçam que na IA,  como em maçonaria, é a intenção que faz toda a diferença.

João B. M∴M∴ 

15 novembro 2025

Entre espiões, lojas e fantasmas

Andava eu a vaguear pelas internets, a ler as notícias, até que me deparei com mais um artigo de opinião a anunciar, com dramatismo as “ligações perigosas” entre maçonaria e os nossos serviços secretos. Daquelas notícias que de tempos a tempos, aparecem. Sempre com o mesmo titulo de a maçonaria exercer uma influência excessiva e colocar pessoas no topo.

Podem ler aqui

Pois bem, sejamos justos. Sim, é verdade que nós influenciamos excessivamente. Eu próprio o faço todos os dias. Influenciamos para que consigamos ser melhores, a crescer intelectualmente, a estudar mais, a trabalhar o carácter, a questionar preconceitos, e também a tentar, com maior ou menor sucesso, chegar ao dia de amanhã um degrau acima daquilo que fomos ontem, na nossa caminhada até ao nosso topo.


Se isto é influência excessiva, então assumo a culpa.

O artigo apresenta a “descoberta” de que vários responsáveis do SIS e do SIED, ao longo dos anos, passaram por lojas maçónicas, algo que, aparentemente, é notícia sempre que convém incendiar um pouco o imaginário popular. Recorda também as famosas “lojas de poder”, como a Mozart, a Mercúrio ou a Brasília, num tom entre o policial e o mitológico. Eu aqui tenho que discordar, pois a meu ver, mais poderosa que a RLMAD n5, a minha loja, não há. Mas esta é a minha humilde, mas poderosa opinião. 

O autor diz, por exemplo, que “a maçonaria atrai até os espiões” e que estas lojas tinham “objetivos estratégicos de intervenção social e política”. Acredito nesta parte de atrair espiões, penso que A maçonaria atrai pessoas curiosas, cultas, inquietas, atrai quem procura reflexão, filosofia, ética, simbolismo, camaradagem, silêncio interior e, sim, também debate civilizado.  E até aceito que se diga que debatam políticas, não partidárias, mas politicas importantes para a humanidade, filosóficas, civilizacionais, éticas e sociais, política no sentido clássico, ou seja, aquilo que molda a sociedade e o ser humano.

Agora se entre os maçons, há espiões, médicos, professores, militares, advogados, camionistas ou calceteiros… é porque somos um espelho (imperfeito) da sociedade. Nada mais. Na RLMAD, e isto talvez desiluda os mais ávidos de teorias, não há um único político, mas, nas cento e muitas lojas da maçonaria regular em Portugal, é óbvio que existirá de tudo: presidentes de câmara, secretários de estado, médicos, engenheiros, calceteiro, pedreiros e até desempregado, todos homens livres e de bons costumes.

A maçonaria não escolhe profissões, aceita pessoas.

Há também a velha tese de que a maçonaria vive num reino de sombras, reunindo-se secretamente em lugares misteriosos e maquiavélicos. Reunimo-nos discretamente, sim. Não para esconder algo obscuro, mas porque aquilo que cultivamos exige silêncio, interioridade e foco, é difícil “elevar o espírito” com jornalistas ou lives no Instagram. A discrição protege também os Irmãos da caricatura fácil, num país onde basta dizer “maçonaria” para acender fantasmas e suspeições. Se fôssemos totalmente públicos, autores como o do artigo em questão teriam matéria infinita para reduzir pessoas reais a personagens de conspiração. A discrição não oculta, preserva o essencial e evita que o trabalho humano e interior que fazemos seja transformado em ruído.

Por fim, o artigo conclui com a ideia de que, se o novo diretor do SIED for confirmado, teremos no topo das secretas portugueses vários “maçons adormecidos”. A palavra parece quase ameaçadora, “adormecidos”, como se estivessem prestes a acordar para tomar o país e em vez de Républica de Portugal, se tornasse a Maçonaria de Portugal.

O artigo é, no fundo, a velha narrativa de que a maçonaria é perigosa porque é discreta, que é poderosa porque é diversa, que influencia porque tenta educar e que tem segredos porque cultiva introspecção. Vistas pelo prisma individual de cada maçom, estas ideias até têm verdade:
- A discrição é “perigosa” porque, se se soubesse, o maçom poderia ser ostracizados pela sociedade.
- A diversidade é um poder real, o poder de escutar e aprender com mentes diferentes
- A influência existe, sim, mas é sobre nós próprios, na exigência de estudar e crescer.
- Os “segredos” não passam da nossa introspecção, que é só nossa, de mais ninguém.

A maçonaria regular portuguesa, com todos os seus defeitos e virtudes, continua a ser:

– um espaço de aperfeiçoamento,
– um laboratório de ideias,
– um lugar de tolerância activa,
– uma escola de liberdade,
– e uma comunidade de irmãos que tentam ser melhores do que eram.

Se isso incomoda, talvez o problema não esteja na maçonaria.

João B. M∴M∴ 

08 novembro 2025

Regularidade, a Geometria do Invisível

 


Numa conversa, pós um ágape regado de canhões cheios de pólvora amarela, falou-se sobre Regularidade. É um tópico onde cabem vários temas, o reconhecimento, as constituições, homens e mulheres, o que seja. Para mim, o foco da Regularidade é a crença no GADU, a Fé necessária para que possamos ser maçons.

Resumindo, a Regularidade de que falo não se escreve em papel timbrado, nem se confirma por decreto. Não nasce de um reconhecimento externo, mas sim de uma coerência interna, é o reflexo de algo que vibra no mesmo compasso da Luz, porque um homem pode ser reconhecido por todas as potências do mundo e, ainda assim, ser irregular, se o seu coração não for crente no Grande Arquitecto do Universo.

A Maçonaria, como é sabido, é uma Ordem Iniciática. E toda a iniciação é um ato de fé, não uma fé imposta, nem cega, mas lúcida. A confiança de que há sentido no invisível, ordem no caos, proporção naquilo que os olhos ainda não entendem.

Há quem lhe chame Deus, quem lhe chame Allah, quem lhe chame Javé, ou lhe chame seja o que for ou que lhe decidam chamar. Ele é o Grande Arquitecto do Universo, não é uma figura dogmática, mas o arquétipo da harmonia, o símbolo que torna o nosso trabalho espiritual possível.

É aqui que entra a fé do maçon, sem ela o juramento é apenas uma promessa dita no vazio, sem fé, o rito é teatro e o Templo é o cenário, onde o homem pode repetir as palavras, mas elas não ecoam.

Juramos porque acreditamos. Acreditamos porque reconhecemos, no silêncio do Templo, que há algo maior do que nós. Algo que escuta, que mede, que dá sentido às palavras que pronunciamos. Essa é a diferença entre um contrato e um juramento.

O primeiro vincula homens; o segundo liga almas.

Um juramento maçónico é uma aliança com o princípio da Criação, com o próprio GADU, é o instante em que o homem confia e coloca a sua palavra sob a Luz de algo superior, e meus caros isto só pode ser verdadeiro se houver fé.

Sem ela, o juramento até pode ser formal, mas nunca será sagrado. Pode ter som, mas não eco, pode ter forma, mas nunca alma.

A fé é o que liga a palavra ao espírito, é o que torna o verbo criador, o gesto vivo, o símbolo real, e dá corpo à promessa, tornando a obediência um ato de consciência, nunca de submissão.

Quando um homem jura sobre o Volume da Lei Sagrada, o que está em causa não é o livro, mas sim o que ele representa, pois é o espelho da fé, o elo entre o humano e o divino. Sem fé, são apenas palavras soltas em papel e tinta, com fé, é o alicerce da Regularidade.

A Regularidade não está na forma como seguramos o malhete, nem na ordem dos nossos rituais, mas na presença interior de quem acredita no que faz. Regular é aquele cuja palavra é verdadeira porque vem do espírito; irregular é aquele que repete palavras sem alma, que se ajoelha sem saber porquê.

Por isso, penso que um maçon sem fé é um pedreiro sem prumo, pode levantar muros, mas nunca erguer um Templo, pode trabalhar a pedra, mas não a si mesmo.

A fé é o prumo invisível da alma, e o GADU é o ponto fixo que mantém a geometria do nosso ser. Sem Ele, tudo se desfaz, tudo se relativiza, tudo perde proporção.

No fim, a Regularidade é isto: 
Harmonia entre o que o homem promete e o que o seu espírito acredita.
Harmonia entre o Templo exterior e o Templo interior.
Harmonia entre a palavra e o silêncio que a sustém.

Podem reconhecer-nos ou negar-nos, aceitar-nos ou afastar-nos, mas a verdadeira Regularidade não depende do olhar dos outros, depende apenas do GADU, que vê não o feito, mas a intenção.

A fé no GADU é a geometria do invisível.

João B. M∴M∴ 

01 novembro 2025

A honra de ser o Tesoureiro da RLMAD



O trabalho de Tesoureiro, como qualquer ofício que honra a Ordem, é começar a desbastar a Pedra Bruta. Não se trata de uma simples contabilidade fria, mas de construir a confiança mútua, que deve ser feita com o rigor de quem sabe que um erro pequeno pode comprometer o alicerce da Obra. O Tesoureiro é o guardião da integridade financeira da Loja. Servi aos Irmãos da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues o que é uma honra e uma responsabilidade que carrego com a humildade de quem administra um legado. Esta Loja é um repositório da nossa história, e cada valor é um compromisso tecido na nossa tapeçaria. A dignidade de servir a uma coluna tão antiga exige um rigor que vai além dos débitos e créditos. 

O meu primeiro mandato de tesoureiro revelou que a Pedra Bruta do ofício exige um aperfeiçoamento constante. A gestão do fluxo de quotas, por exemplo, é um exercício que exige escrutínio. Como identificar um depósito feito sob o nome de "Joana", “Maria” ou “L&M LTD” (nomes fictícios)? O Irmão, por distração, usa uma conta de terceiro, e cabe ao Tesoureiro, o arqueólogo do recibo, ligar essa transação à identidade maçônica que lhe corresponde. Herdar a guarda do tesouro implica absorver a gestão anterior, não apenas os valores. Herdamos práticas, métodos de registo e contas de origem que precisam ser desvendadas. Reconciliar o passado com o rigor da nossa tradição exige paciência e, sobretudo, a disciplina de não trabalhar sozinho, consultando sempre a experiência dos obreiros que nos antecederam. 

O passado serve como aprendizado para o futuro, não como obstáculo. Das experiências vividas, extraí três princípios fundamentais que compartilho como aprendizagem para outros Tesoureiros:

Primeiro: A Tesouraria deve ser um sistema. Não confie na memória ou no laço afetivo; confie no registo exato. A clareza documental é o escudo da integridade.

Segundo: É imperioso que o Irmão associe o seu nome à transação para evitar mistérios. O uso de referências únicas é a ponte entre a contabilidade profana e o compromisso exigido pela Loja. 

Terceiro: É fundamental que qualquer depósito ou débito não identificado seja esclarecido o mais rapidamente possível, pois o tempo não facilita a resolução desses “mistérios”. Quanto mais cedo se procurar a origem de um valor, maiores são as probabilidades de o identificar corretamente e evitar equívocos futuros. O Tesoureiro deve, portanto, agir com prontidão, contactando os Irmãos ou cruzando informações logo que surja uma transação duvidosa, garantindo assim a lisura e o rigor exigidos pela função. A reconciliação da conta deve ser feita quase diariamente para evitar acúmulo de erros e trabalho excessivo. 

O trabalho do Tesoureiro é, em sua essência, um ato de confiança entre irmãos. É a prova concreta de que a Fraternidade se sustenta pelo compromisso material de cada um dos seus obreiros. A disciplina da conta é a expressão do respeito que dedicamos ao nosso Templo. Aos Irmãos da RLMAD, o meu profundo agradecimento pela confiança renovada. A reeleição como tesoureiro reflete o bom trabalho realizado. Continuarei a servir com propósito.    

 

25 outubro 2025

Ó malhão, malhão… que raio de malhete és tu?


Há expressões e músicas populares que se colam à memória e de repente ganham outro sentido quando aplicadas à nossa vida, até mesmo à nossa vida para além da profanidade. Foi isso que me aconteceu numa sessão, quando ao encostar o malhete ao peito me veio à mente a tradicional cantiga do malhão. "Ó malhão, malhão, que raio de malhete és tu? Um gesto tantas vezes repetido, quase automático, mas que me soou estranho. Porque fazemos isto? De onde vem? Que sentido tem? É ritual? Ou simplesmente foi um erro que se tornou hábito, que virou costume, fez-se tradição e adaptou-se como princípio? Nunca se valeu como norma, muito menos se fundamentou como Lei, Landmark.

O malhete, sabemos, é símbolo de autoridade e de comando. Marca decisões, ordena silêncios, abre e fecha trabalhos, mas quando um Vigilante o encosta ao peito, o gesto parece inverter o significado. Em vez de comando, submissão, em vez de palavra, silêncio. É aí que surge o paradoxo, porque no Ritual o malhete junto ao coração só aparece num contexto muito concreto, quando o Vigilante pede a palavra ou o faz sentado ou se entender em pé com o malhete junto ao peito. Nunca como sinal de estar “à ordem”. Ao transpormos esse gesto para outros momentos, fundimos dois planos que deveriam permanecer distintos. 

O nosso Ritual é claro ao afirmar que “ninguém se desloca em Loja à ordem”. A formulação é taxativa e não deixa espaço para dúvidas. Porém, em tantas Lojas é hábito os Vigilantes percorrerem as colunas com o malhete encostado ao peito, como se assim se mantivessem “à ordem”. Está aqui um paradoxo evidente sobre o que o Ritual proíbe e o costume transformou em norma tácita. É ritual? Ou simplesmente foi um erro que se tornou hábito, que virou costume, fez-se tradição e adaptou-se como princípio? Nunca se valeu como norma, muito menos se fundamentou como Lei, Landmark.

Curiosamente, o Ritual é minucioso em detalhes quando assim o entende. Na verificação das colunas, por exemplo, estabelece que o 1.º Vigilante cruza num sentido após encontrar o 2.º Vigilante no Ocidente. A excepção ao percurso é registada, mas não há qualquer excepção que autorize o uso do sinal “à ordem” com o malhete ao peito. Se fosse parte integrante, o Ritual tê-lo-ia inscrito, tal como fez para a marcha e outros casos. Mas não o fez. O que temos é apenas costume, não norma ritual.

Em algumas visitas que tive oportunidade de fazer a Lojas inglesas, observei um procedimento diferente e muito elucidativo, os Vigilantes percorrem as colunas sem qualquer sinal de “à ordem”, verificam com naturalidade, e apenas no momento solene em que comunicam o resultado ao Venerável Mestre se colocam verdadeiramente “à ordem” e fazem-no com o malhete pousado sobre a mesa, não encostado ao peito. 

Há ainda outra pergunta inevitável. O nosso Ritual é tão claro que até explica com detalhe como o maçon deve estar “à ordem” com espada. Se fosse suposto fazê-lo também com o malhete, não estaria igualmente registado? A ausência dessa instrução parece responder por si. É ritual? Ou simplesmente foi um erro que se tornou hábito, que virou costume, fez-se tradição e adaptou-se como princípio? Nunca se valeu como norma, muito menos se fundamentou como Lei, Landmark.

E há ainda um paradoxo mais profundo, de natureza simbólica. Estar “à ordem” é uma atitude pessoal, pertence ao maçon enquanto indivíduo. É dizer, de forma silenciosa, que está presente, atento, disponível. O malhete, pelo contrário, não pertence à pessoa, mas ao cargo. É instrumento de direcção, não de obediência. Misturar os dois gestos é confundir a submissão do maçon com a autoridade do oficial. 

Na Maçonaria, cada gesto é uma palavra silenciosa. Cada sinal é uma mensagem que transporta um ensinamento. Se confundirmos a linguagem, perdemos clareza simbólica, e a música que dá cadência à nossa Arte transforma-se em ruído. É como no próprio “Malhão”: se trocarmos os passos, a dança perde o compasso. E nesse momento resta-nos a pergunta que ecoa como refrão inevitável: 

É ritual? 

Ou simplesmente foi um erro que se tornou hábito, que virou costume, fez-se tradição e adaptou-se como princípio? 

Nunca se valeu como norma, muito menos se fundamentou como Lei, Landmark.


João B. M∴M∴ 

18 outubro 2025

A Voz e o Silêncio



Na semana passada, aqui neste rectângulo à beira mar plantado, fomos novamente chamados às urnas, mas para agora eleger os 308 presidentes de câmara e também os 3091 presidentes de junta de fréguesia. Foi mais um momento em que cada um de nós teve a liberdade para poder exercer o direito de escolher quem o representa, não apenas um partido, mas, tantas vezes, uma pessoa. Nas autárquicas, essa escolha ganha uma dimensão mais humana e próxima, vota-se em quem se conhece, em quem caminha nas mesmas ruas, em quem partilha as mesmas preocupações, talvez aqui não se olhe tanto aos partidos mas sim às pessoas, àqueles que podem fazer diferente. É aqui que a democracia mostra o seu rosto mais autêntico, o da confiança pessoal e da responsabilidade partilhada.

Votar é um ato de liberdade. E a liberdade não se impõe, exerce-se. Não temos o dever ou a obrigação de ir votar, temos o direito e o não votar, ou votar branco é uma expressão tão válida da nossa liberdade do que escolher algum dos nomes no boletim de voto. Penso assim que o voto é o reflexo de uma nossa escolha interior: podemos falar, podemos calar, mas o essencial é que o façamos em consciência. O silêncio pode ser nobre quando é escolha e reflexão, mas torna-se perigoso quando é imposto, sugerido ou disfarçado de consenso.

Num mundo verdadeiramente livre, o voto é sempre uma escolha legítima, venha de onde vier. Votar na extrema esquerda ou na extrema direita é tão democrático quanto votar nas esquerdas, nas direitas ou nos centros, ditos tradicionais ou auto intitulados de verdadeiros defensores da democracia.  Não é pela direção do voto, que se mede a democracia,  mas sim pela liberdade com que ele é dado. E é essa liberdade que importa proteger, mesmo quando nos custa ouvir certas vozes, porque o direito de falar é inseparável do direito de discordar.

Vivemos tempos em que a censura já não precisa de decretos, surge disfarçada de moralidade ou de correcção, muitas vezes nascida das melhores intenções, mas com o mesmo resultado. O silenciamento de quem pensa diferente. A cultura Woke actual, que se julga “desperta” tende, por vezes, a adormecer a pluralidade. e quando todos têm medo de dizer o que pensam, onde o politicamente correcto vence o nosso próprio entender de correcto, a liberdade torna-se apenas um símbolo vazio.

A censura, venha de onde vier, até mesmo não intencional, corrói primeiro o espaço onde nasce e depois tudo o que toca. Por isso, mesmo dentro dos lugares onde o silêncio é símbolo e método, é preciso recordar que ele nunca pode ser imposição. O silêncio que constrói é o que prepara a palavra, não o que a proíbe.

Cada vez que entramos numa urna, tal como cada vez que entramos num templo, somos chamados a escolher entre a voz e o silêncio. E talvez o verdadeiro equilíbrio esteja em saber quando falar e quando o não fazer seria trair a própria Luz que nos guia.

Porque a voz livre é sempre mais forte do que o silêncio imposto.

João B  M∴M∴

11 outubro 2025

Mulheres, a Beleza Invisível na Vida de um Maçom

Hoje, no aniversário da minha esposa, não posso deixar de elogiá-la e reflectir sobre o papel das mulheres na vida de um maçom, bem como sobre a razão pela qual a Maçonaria Regular mantém a tradição de não as admitir em Loja.

A Maçonaria que praticamos nasceu das antigas corporações de pedreiros, compostas apenas por homens, que erguiam templos de pedra com a força dos braços e a ciência do ofício. Quando, em 1717, se consolidou como Maçonaria Especulativa em Inglaterra, herdou essa forma e cristalizou-a nos Landmarks, os princípios imutáveis que definem a Regularidade. Também é importante recordar que as primeiras Lojas reuniam-se no fundo de tabernas, locais vedados a mulheres de bem, a consequência foi natural, a Maçonaria estruturou-se como espaço masculino e, com as Constituições de Anderson (1723), essa tradição ficou formalizada.

Albert G. Mackey, no seu Text Book of Masonic Jurisprudence (1865), resumiu esse Landmark de forma inequívoca: “The Persons admitted Members of a Lodge must be good and true Men, free-born, and of mature and discreet Age, no Bondmen, no Women, no immoral or scandalous Men, but of good Report.” E assim o reafirmam ainda hoje as nossas próprias Constituições. “A Maçonaria é uma Ordem, à qual só podem pertencer homens livres e de bons costumes, que se comprometem a pôr em prática um ideal de paz.

A Regularidade não é conservadora nem machista, não nega a igualdade de valor entre homens e mulheres, mas preserva a fidelidade de uma forma iniciática própria, recebida como depósito de séculos. Alterar este princípio seria mexer na fundação sobre a qual todo o temple assenta. Existem ordens femininas e mistas, igualmente dignas e respeitáveis, mas o caminho regular é outro, o de manter intactos os seus Landmarks, guardando continuidade da herança recebida. Este é um dos grande paradoxos da Maçonaria, modernizar-se, acompanhar a sociedade, mas sem abrir mão das antigas tradições que a definem. 

O que pode mudar? O que deve permanecer? 
Talvez esse seja o grande mistério da Maçonaria de hoje.


E, no entanto, dizer que não há mulheres em Loja não significa que o feminino esteja ausente da Maçonaria Regular, muito pelo contrário, entre as três colunas que sustentam o Templo, a coluna Coríntia é associada à Beleza, reflexo do princípio feminino que dá equilíbrio à Força e à Sabedoria. 

Sem a Beleza, a construção seria apenas pesada ou fria, é com ela que ganha harmonia e sentido.

Na minha vida, isto é particularmente claro, a minha esposa, é o alicerce silencioso que me permite trabalhar a minha Pedra Bruta, é ela que suporta as ausências, que compreende os silêncios, que segura o quotidiano para que eu possa, em Loja, continuar a aprender e a construir. Sem este apoio invisível, o cinzel cairia da mão e o malhete perderia o compasso. Não só a minha esposa, mas também a minha filha que lembra-me todos os dias do futuro que está por lapidar e é nela que encontro a certeza de que o trabalho que fazemos em Loja não é apenas para mim ou para nós, mas para deixar um mundo mais justo e luminoso para os que nos sucedem.

Sem as mulheres, a Maçonaria Regular seria incompleta, elas estão na paciência que nos sustenta, no amor que nos fortalece e no futuro que nos inspira. São a Beleza que equilibra a Força e a Sabedoria. Hoje celebro a minha esposa, e com ela todas as mulheres que, no silêncio e na presença, são parte inseparável do caminho de cada maçom.

Love you

João B. M∴M∴


08 outubro 2025

O Diário do Aprendiz - lançamento do meu livro



Meus queridos irmãos e demais leitores do A Partir Pedra

É com muita emoção que escrevo este post para falar do lançamento do meu livro “O Diário do Aprendiz”. Publicado em junho de 2025, o livro conta a história de Uri, um jovem judeu que abandona uma vida confortável para trabalhar nas obras do grande Templo de Salomão. Durante sua jornada, Uri documenta cada aprendizagem em seu diário e percebe que nunca mais será o mesmo.

“O Diário do Aprendiz” é uma leitura muito útil aos aprendizes de todas as lojas e uma preparação para os demais graus. Ao mesmo tempo que não revela nenhum segredo maçónico, o livro traz questionamentos e analogias a vida diária de todos os irmãos.

Compartilho convosco um dos capítulos do livro, que pode ser encontrado para venda na Amazon nos seguintes links:

- Portugal: https://amzn.eu/d/cppGh8Z 

- Brasil: https://a.co/d/ftqXO2e 

- Estados Unidos: https://a.co/d/itprtpU 


18º Dia do Mês de Nisan, no primeiro ano da Grande Obra.

Capítulo 4: A Régua, o tempo e a medida

 
"Minhas mãos já sentem a confiança do trabalho com o malho e o esquadro. As faces de minha pedra bruta, antes tão caóticas, agora exibem ângulos retos e superfícies que começam a se alinhar. Sinto a satisfação de ver a forma emergir da massa informe. Mas, como o Mestre sempre me lembra, a cada estágio da Obra, uma nova lição se apresenta.

Hoje, ele me entregou uma régua simples, de madeira, dividida em 24 partes. "É a régua, Uri", disse ele. "Sua função é medir, sim. Mas sua maior lição é sobre o tempo."

Eu olhei para a régua, perplexo. "O tempo, Mestre? Mas não usamos o sol ou as clepsidras para isso?"
"Usamos. Mas esta régua ensina a medir o tempo de uma forma diferente. Cada uma de suas 24 partes representa uma hora do dia, e nos lembra de como devemos dividir nosso tempo para a Grande Obra." Ele continuou desenhando na terra com a ponta da régua. "O Aprendiz deve dedicar oito horas ao trabalho para Deus e para a Grande Obra, oito horas para seu sustento e oito horas para o descanso e a contemplação."

Pareceu-me um rígido controle. "Oito horas para o trabalho... e oito para o descanso? Mas há tanto a ser feito!"

"E há tempo para tudo, Uri. O descanso é tão fundamental quanto o trabalho, para que a mente e o corpo possam se renovar. A contemplação é tão vital quanto o esforço físico, para que a alma possa crescer. A régua te ensina a medir não apenas as dimensões da pedra, mas as dimensões da tua própria vida. A não desperdiçar o tempo, pois ele é o material mais precioso de qualquer construção."

Ele enfatizou a importância de cada momento. "O tempo é teu. Não estamos em uma corrida. Aprende a saborear cada aprendizado, cada ritual e cada convivência, pois cada elemento tem sua importância e potencial para transformar-te. Se usares teu tempo com sabedoria, encontrarás a paz de espírito em cada fase da vida."

As palavras do Mestre ecoaram em minha mente. Eu havia me apressado, preocupado em desbastar a pedra o mais rápido possível, sem me dar conta de que o processo era tão importante quanto o resultado. A régua de 24 partes não era apenas uma ferramenta de medida; era um mapa para a vida equilibrada, um convite à prudência e à valorização de cada instante.

Em meu diário, registro que a régua de 24 partes é a ferramenta da sabedoria temporal. Ela me ensina que o tempo é o recurso mais valioso, e que sua boa administração é essencial para a construção de uma vida plena. O Aprendiz aprende a medir o tempo com precisão; e, ao fazê-lo, aprende a medir o valor de cada momento em sua própria jornada.”


Fábio Serrano, M∴M∴