13 junho 2026

Quem controla o mundo?



Na passada semana iniciou-se a WWDC 26, o tão esperado encontro anual da Apple no qual são anunciadas as novidades tecnológicas para o ano seguinte. Neste encontro foram reveladas as atualizações dos sistemas operativos da marca — com grande destaque para o iOS —, abrindo-se as portas ao futuro do software que dita o rumo de todo o ecossistema. No fundo, para entusiastas ou não, é um evento que nos dá uma noção clara das mais variadas inovações que, muito em breve, vão caber no nosso bolso.

Neste evento, as expectativas estavam todas viradas para a apresentação da nova Siri. Sejamos honestos: a Siri nunca se afirmou como um motor propriamente inteligente. No entanto, após um investimento anual de mil milhões de euros por parte da Apple no desenvolvimento da sua nova Inteligência Artificial, esperava-se que a assistente ganhasse finalmente "mais neurónios". Vale a pena recordar que, até agora, as mudanças de sistema operativo nunca tinham discriminado os equipamentos mais recentes; desde que um dispositivo estivesse dentro do leque de suporte da marca, recebia, de uma forma geral, o software mais atualizado da maçã.

Mas nesta WWDC aconteceu algo inédito: apenas os equipamentos equipados com os chips mais recentes e com capacidades elevadas de memória terão acesso à "Super Siri". Isto acontece porque as novas valências da IA exigem especificações de hardware muito particulares para correrem localmente no dispositivo. Na prática, isto significa que aparelhos com apenas um ano de vida vão ficar privados das atualizações mais modernas — algo nunca antes visto na história da Apple.

À partida, a evolução parece espetacular, mas precisamos de estar atentos aos meandros desta questão. Qual é o fator diferenciador? A IA. O que fez com que um dispositivo topo de gama ficasse "obsoleto" apenas um ano após o lançamento? A IA. Claro que estes aparelhos continuam a funcionar muito bem, mas a perceção do utilizador já não é a mesma. Se juntarmos a isto a competição feroz entre os gigantes dos motores de IA (como a Google com o Gemini, a Anthropic e a OpenAI), temos um retrato claro das tecnologias que controlam o mundo atualmente.

O avanço vertiginoso da Inteligência Artificial está a fazer com que o próprio hardware não consiga acompanhar o ritmo do software. Mesmo para quem, até agora, olhava com ceticismo ou pessimismo para este recurso, o cenário atual acaba por ser assustador, dada a rapidez com que esta tecnologia se torna cada vez mais autónoma e capacitada.

Olhando para este cenário sob uma perspetiva de busca pelo conhecimento e de constante aperfeiçoamento social, o que é que tudo isto tem a ver com a Maçonaria?

Tudo e nada. Por um lado, partilha o princípio de que temos de estar atentos à evolução do mundo — não só para conhecermos as novidades, mas para compreendermos as suas repercussões no futuro da humanidade. Há toda uma geração que vai nascer e crescer com este recurso omnipresente. Que aptidões cognitivas vão desenvolver? Como será o mundo digital daqui a escassos cinco anos? E o futuro dos conflitos armados, haverá frotas de drones autónomos com IA a substituir os humanos no terreno?

Todas estas perguntas podem parecer especulativas hoje, mas são realidades emergentes às quais não podemos fechar os olhos

06 junho 2026

                                                        

                                                                 AREIA OU PEDRA ?

Este texto não é novo. É recuperação e atualização de um pequeno escrito de há cerca de 20 anos, mas cuja base, no entanto, é muitíssimo mais antiga, certamente com uns séculos de idade.

Diz uma lenda árabe que dois Amigos viajavam pelo deserto e num determinado momento da viagem, durante uma discussão, um deu uma bofetada no outro. Este, ofendido, mas sem poder fazer nada, escreveu na areia “HOJE, O MEU MELHOR AMIGO DEU-ME UMA ESTALADA.”

Seguiram a caminhada e chegando a um Oásis foram tomar banho. O que levou a estalada, precipitado e magoado, ficou em risco de se afogar. Logo o Amigo correu a atirar-se à água, salvando-o. Ao recuperar-se pegou num canivete e gravou numa pedra “HOJE, O MEU MELHOR AMIGO SALVOU-ME A VIDA”.

Intrigado o Amigo perguntou: - Porque é que depois que te bati escreveste na areia, e agora que te salvei  escreveste numa pedra ?

Sorrindo, o outro Amigo respondeu: - Quando um grande Amigo nos ofende, devemos escrever onde o “vento do esquecimento” e o perdão se encarreguem se passar e apagar a lembrança.  Por outro lado quando algo de grandioso nos acontece devemos gravar isso na memória e no coração, onde nem o vento possa passar e apagar.

 Ora bem, trago-Vos a história desta lenda pela conotação que nela encontro com o espírito que orienta os Maçons.

Pequeno intervalo: Uso conscientemente o verbo “orientar”. Poderia ter usado o seu sinónimo, neste caso “nortear”. A questão é que de facto para nós, é do oriente que vem a orientação ! A norte está a aprendizagem. Indispensável, contínua, sempre inacabada, mas recebendo a orientação que a conduzirá pelo percurso maçónico.

A comunidade maçónica, baseada espiritualmente no Grande Arquiteto Do Universo, interpreta a Humanidade como uma irmandade de homens com um objetivo comum.

Desde a Iniciação que o Maçon é ensinado a trabalhar a pedra, não a areia.

 O que aconteceria se o Templo de Salomão tivesse sido construído com areia ? E o que acontece se a marca do nosso relacionamento tiver a consistência da areia ?

A mais leve brisa levaria o templo, tal como levará a relação entre humanos se não cuidarmos do material com que a construímos.

Que a relação entre os homens, e em especial entre os Maçons, seja construída em pedra, bem rija, para que perdure pelo tempo, resistindo às chuvas, aos ventos, às intempéries sejam elas quais forem.

 Se a relação entre os homens não for suficientemente sólida como resistirá ao primeiro temporal ?

E há temporais ! Não vale a pena fingir que o “bom tempo” é permanente. Nada é permanente ! Muito menos o “bom tempo”.

Se queremos um mundo melhor não há alternativa que não seja agarrarmo-nos às ferramentas e trabalharmos, conscientemente, persistentemente, a pedra talhando nela as nossas relações, reproduzindo nela a nossa vontade de mais Liberdade, maior Igualdade, verdadeira Fraternidade.

A vida, entenda-se a existência humana integrada nas regras sociais definidas/impostas pelas organizações políticas gestoras das sociedades nacionais, encarrega-se de fazer surgir a cada momento dificuldades cuja resolução pede imaginação e frequentemente muito trabalho. Diz um ditado popular que “é nas dificuldades que se conhecem os Amigos”. Pois bem, é nesta evidência que os Maçons se enquadram.

Pequeno intervalo: Recordemos que o local de trabalho do Maçon é a Humanidade, mas é na Loja que Ele mantém o estaleiro onde guarda o material, os desenhos, as ferramentas da obra que, deseja-se, vá erguendo à Sua volta. Mais, é na Loja que o Maçon encontra os Companheiros-obreiros que o auxiliam na resolução das dificuldades que a engenharia da vida Lhe propõe permanentemente.

Com alguma frequência lembramos a Cadeia de União, quiçá o símbolo maior da Maçonaria.

Temos consciência da força com que apertamos as mãos dos companheiros ao nosso lado ?Será capaz de resistir a um abanão forte ? Será ?

Depende de cada um dos “nós” desta Cadeia. Se cada uma das ligações for em Pedra dura, certamente poderá resistir aos abanões, às tempestades da vida, mantendo a Cadeia unida.

Se alguma destas ligações, basta apenas uma, tiver sido construída com “areia”, a cadeia desmanchar-se-á ao primeiro ventinho que se levante.

Este apertar firme das mãos significa disponibilidade mental para sacrifícios por vezes complicados, muitas vezes afastamento de benefícios, frequentemente abandono de vantagens. É no entendimento destas relações que o capital maçónico cresce. É este o investimento que vale a pena. É isto o trabalho na pedra dura, sendo que temos de perceber e estar para isso mentalmente despertos, de que por vezes a pedra é mesmo muito dura.

Perdoar, aceitar diferenças, ajudar são as atitudes que se espera do Homem “justo e perfeito”.

É importante ouvir, mais do que falar;

É importante perceber, mais do que interpretar;

É importante fazer, mais do que prometer;

É importante o “nós”, mais do que o “eu”;

É importante a Verdade !

O mundo está em guerra, qual vendaval, terrível intempérie que se abate sobre muitas regiões do globo, na verdade sobre quase todas as regiões do globo. Quando não são tiros e bombas são a miséria, a discriminação e o abandono,

Os Maçons têm de sentir o chamamento à primeira linha do combate.

As guerras têm sido quase sempre fruto de cegueira religiosa.

Das “guerras das religiões” passámos a um outro estado. O homem “progrediu” para a “religião das guerras”.

O “deus” hoje chama-se “guerra” e as bombas, os drones, os carros de combate são os seus “santos”, cada dia mais “santos”, cada dia fazendo mais e maiores “milagres”, o que significa cada dia mais mortais.

É esta a religião que os pregadores atuais espalham pelo mundo. Por todo o mundo, na expectativa de que um dia, de algumas das suas bombas mais mortíferas saia um “representante divino” justo e perfeito. Certamente ainda não conseguiram a bomba tão violenta que justifique tal “milagre”. Mas a esperança mantém-se e as tentativas são diárias.

A Maçonaria tem a ver com o estado do mundo atual ? Claro que tem !

Por um lado diagnosticando os “nós” da “cadeia de união” humana que estão construídos com areia, depois auxiliando ou provocando a sua eliminação e finalmente reconstruindo esses “nós” com pedra bem dura.

Se a Cadeia de União é o símbolo maior da Fraternidade Maçónica, façamos com que esse seja o objetivo, façamos por aí o nosso caminho, com uma vontade que não quebre nem amoleça.

Talhada na pedra. Não na areia.

Jun/6026

J.Paiva Setúbal (MM)

  

 

30 maio 2026

Visita ao Templo Ecumênico Universalista de Miranda do Corvo

Foto: https://www.adfp.pt/agenda/sentenca-templo-conferencia-de-imprensa

No último sábado, um grupo de irmãos da Loja Mestre Affonso Domingues, junto com as suas famílias, fez-se à estrada para uma viagem pelo centro do país — um dia que se revelou uma excelente oportunidade de convívio.

O nosso primeiro destino foi o Templo Ecuménico Universalista, em Miranda do Corvo. É um lugar singular e de uma serenidade imensa, que surpreende logo pela sua impressionante estrutura piramidal. O acesso ao topo faz-se por um percurso pedonal onde fomos acompanhados por frases de vários pensadores e por pedras no pavimento que representam os sete pecados capitais, ilustrando os obstáculos e as dificuldades da jornada humana.

Depois de passarmos o portão ladeado por duas grandes colunas de pedra, explorámos o interior do templo, cujo grande destaque é o Observatório das Religiões — um espaço de módulos interativos que percorrem 15 religiões de todo o planeta. A visita inclui ainda uma ala mais sombria, dedicada à intolerância religiosa e à memória das vítimas dos fundamentalismos.

O que mais me marcou foi que o lugar está repleto de simbolismo e que nada, nem mesmo as flores, ali está sem significado. Vivemo-lo em plena harmonia, em sintonia com a mensagem de paz e universalidade do espaço.

Depois desta manhã enriquecedora, descemos à vila e fomos almoçar ao restaurante Casa Velha. À volta da mesa, a fraternidade continuou, agora acompanhada pelos sabores da cozinha regional. Começámos com pataniscas de bacalhau que abriram o apetite na perfeição e, a seguir, uma chanfana irrepreensível, servida nos caçoilos de barro negro, marca da região.

Como se a manhã já não fosse suficiente, passámos a tarde de modo mais descontraído no Parque Biológico da Serra da Lousã, a caminhar entre árvores e a observar animais selvagens de perto. O parque é também um exemplo notável de conservação e inclusão social, e fechou o passeio da melhor maneira possível.

Regressámos a casa ao final do dia com a certeza de que estes momentos de convívio, marcados pela simplicidade, pela descoberta e pela amizade, mostram que a maçonaria e a fraternidade não precisam  (nem devem!) acontecer apenas entre as paredes do templo.

Fábio Serrano M∴M∴

23 maio 2026

O Líder Anónimo: Entre o Templo Interior e a Construção da Carreira

A construção de uma sociedade é feita com muitas pedras e personalidades diferentes. Nenhuma é melhor do que a outra; todas colaboram na sua edificação. É da interação de cada um desses elementos, dos seus desentendimentos e das suas diferenças, que as sociedades se tornam mais ou menos prósperas, mais ou menos trabalhadoras, mais ou menos fraternas.



As relações de trabalho são dinâmicas sociais onde existem várias interações, linhas hierárquicas, estruturas de poder e de cooperação. O conjunto destes laços — e de muitos outros que aqui não foram enumerados — tem um impacto prático, que é o produto visível de todo este esforço conjunto. Nesta reflexão, focar-me-ei em duas formas de liderança e exercício do poder...


Como se pode verificar, estamos a falar de altos cargos de uma empresa ou de um órgão do Estado; de alguém que tem o poder de escolher pessoas. É na intenção dessa escolha que nos vamos concentrar, pois é aí que reside o problema. As escolhas das pessoas para os altos cargos nunca são fortuitas. Quem escolhe para seu benefício próprio está a matar a própria instituição e a dar mais vida à sua carreira. Por outro lado, quem escolhe para o bem da instituição vai enaltecer a mesma, colocando-se, muitas vezes, num lugar de anonimato.


Quem está mais certo? Não há soluções para tudo. Podemos dizer que, neste caso, o maior construtor é o anónimo, pois esse está a construir um templo duradouro. O outro está a construir-se a si mesmo, ou melhor, à sua carreira. Um é cheio de altruísmo, o outro é vazio por dentro. No final, o que fica é o trabalho duradouro.



16 maio 2026

Quando o Templo Ganha Vida

Na última sessão tivemos a oportunidade de fazer algo que não acontece todos os dias, uma instrução de Companheiro. Tivemos também o prazer de a tornar, de alguma forma, diferente do habitual, não pelos temas abordados, porque muitos deles fazem parte naturalmente deste grau, mas pela forma como ganharam vida dentro do Templo. Durante alguns momentos, os símbolos deixaram de existir apenas no ritual e este tornou-se vivo em quadros, em palavras, através das pessoas e dos movimentos e relações que se foram construindo dentro do Templo.

Curiosamente, a noite já vinha trazendo bastante matéria para reflexão antes mesmo da subida ao segundo grau e, às vezes, acontece assim, sem combinar ou prever, temas diferentes acabam por conversar entre si e deixar ideias que provavelmente ninguém tinha planeado.



O Grau de Companheiro representa uma mudança, mesmo que subtil, no percurso maçónico. Enquanto o Aprendiz aprende a trabalhar a pedra e a olhar para si próprio, aprende a reconhecer imperfeições, a utilizar ferramentas e a perceber que a primeira obra a transformar nunca está no exterior, o Companheiro não abandona esse trabalho. Pelo contrário, começa a olhar mais longe. Passa a preocupar-se não apenas com a pedra em si, mas também com a forma como essa pedra se relaciona com todas as restantes na construção do Templo.

Talvez por isso surjam as colunas e os princípios que elas representam. O Aprendiz conhece primeiro três delas. A Força, a Sabedoria e a Beleza, podem parecer conceitos simples à primeira vista, mas talvez sejam mais difíceis de equilibrar do que imaginamos.

A Força é necessária, sem ela nada começa, nada avança e nada se constrói, mas quando cresce sem medida pode levar-nos a empurrar aquilo que ainda precisava apenas de um pouco mais de tempo para amadurecer. Precisa, assim, da Sabedoria, aquela que nos ajuda a reconhecer o momento certo, lembrando-nos que nem todas as portas se abrem pela insistência e que nem todos os caminhos se percorrem à mesma velocidade. Talvez seja aquí que surge a Beleza, não apenas nas palavras escolhidas, nas intenções ou na vontade de fazer algo maior, mas também na forma como as coisas são construídas, no método, na harmonia e até no respeito pelo ritmo natural das etapas. Sem estas três colunas, devidamente equilibradas, dificilmente conseguimos dirigir a nossa construção até ao Oriente Eterno. 

Sim, Três a Dirigem.

Durante este caminho surgem, ou talvez se assumam, outras colunas, como a Simplicidade e a União, talvez porque algumas lições apenas façam sentido quando chega o momento certo de as compreender. A Simplicidade ensina-nos que nem tudo precisa de parecer maior do que é para ter valor e a União recorda-nos que o caminho maçónico nunca foi uma corrida individual, mas uma construção feita em conjunto. São estas cinco coluna que suportam os candelabros do nosso caminho, para que este seja iluminado.

Sim, Cinco a Iluminam.

Podemos também olhar para as artes, como as Sete Artes Liberais, não apenas como conhecimentos antigos ou referências históricas, mas como pequenos lembretes que continuam surpreendentemente actuais.

O Trivium, composto pela Gramática, pela Retórica e pela Lógica, procurava ensinar o Homem a falar, a comunicar e a pensar. A Gramática ajudava a ordenar as palavras, embora a vida vá mostrando que falar bem não transforma automaticamente uma ideia em verdade. A Retórica dava força ao discurso, mas também nos recorda que as palavras conseguem, por vezes, vestir uma pedra bruta com aparência de obra acabada. A Lógica organiza o pensamento, ainda que nem tudo o que pareça coerente esteja verdadeiramente consolidado.

Depois surgia o Quadrivium: Aritmética, Geometria, Música e Astronomia. A Aritmética recorda-nos que nem tudo pode ser reduzido a números. A Geometria revela-nos equilíbrio, proporções e a necessidade de cada elemento ocupar o seu lugar. A Música ensina-nos que a harmonia nasce do respeito pelo compasso e a Astronomia talvez nos deixe a lição mais simples de todas, lembrando-nos que, apesar da importância que damos a nós próprios, continuamos a ser apenas uma pequena parte de algo muito maior.

As Sete Artes Liberais nunca tiveram apenas a missão de ensinar conhecimentos, mas sim o propósito de formar Homens, é com estas artes que o Companheiro inicia verdadeiramente o seu trabalho, não apenas na procura de mais conhecimento, mas na compreensão de que crescer não é o mesmo que acelerar etapas, existe uma diferença entre olhar para o horizonte e acreditar que já o alcançámos.

Muitas construções, e principalmente as da nossa alma, não falham por falta de talento, entusiasmo ou vontade. É natural e saudável existir ambição em querer erguer algo maior e acreditar que as nossas fundações serão um dia suficientemente sólidas para o suportar, mas o risco começa quando há a presunção que essas fundações já estão concluídas, passando a preocupar-nos mais com a fachada e com aquilo que o exterior vê do que com a estrutura que realmente sustenta a obra.

Foi talvez essa a ideia que ficou da sessão de ontem. O Companheiro não é um Homem que chegou ao fim de uma etapa, mas sim um Homem que descobriu que ainda existe muito caminho para percorrer. É precisamente essa descoberta que transforma uma subida de grau num verdadeiro progresso e a verdadeira pertença ao grau em si, o avental é adorno.

No final de tão rica sessão, e até com uma intrução um pouco fora do formato habitual e com "alguma" liberdade ritual, terminou de forma Justa e Perfeita.

João B. M∴M∴

09 maio 2026

A Pedra de Cada Um e o Templo de Todos

Na semana passada estive na PMI Global Summit Lisbon e, no meio de tantas conversas sobre projectos, liderança, tecnologia e impacto, tive também a oportunidade de estar com alguns irmãos que já conhecia. Não houve surpresa nem coincidências místicas, apenas aquele cruzamento natural de pessoas que, apesar de caminhos diferentes, acabam muitas vezes por se encontrar nos mesmos espaços de reflexão e discussão séria.

Curiosamente, um dos temas mais presentes ao longo do evento foi a Sustentabilidade. E admito sem problema nenhum que percebo perfeitamente porque é que tanta gente revira os olhos quando ouve essa palavra. Durante anos o tema foi capturado por extremos, por discursos políticos cansativos e por uma espécie de militância histérica que transformou qualquer conversa séria numa competição para ver quem grita mais que “o mundo está a acabar”, que “a culpa é dos fascistas” e dos “capitalistas”, dos carros, das vacas ou do vizinho que não separa o lixo.  

Aí e tal as metas da europa, carros eléctricos, tudo muito bonito, mas no fim de contas quem os têm é para serem sustentáveis com as carteiras deles, bem mais barato suportar um tesla, do que um carro a gasolina (os preços de hoje em dia nossa senhora!!!). 


No meio deste ruído todo, perdeu-se muitas vezes aquilo que realmente interessa.

Porque sustentabilidade não é apenas emissões, árvores ou reciclagem de papel no azul e plástico no amarelo, isso é uma parte minúscula. Sustentabilidade é também ética, responsabilidade, segurança, prosperidade, impacto social, decisões equilibradas e consciência sobre as consequências daquilo que fazemos. É perceber que crescimento sem princípios destrói, e que idealismo sem realidade também não constrói absolutamente nada.

Talvez por isso este seja um tema muito mais próximo da Maçonaria do que parece à primeira vista.

Quando trabalhamos a nossa pedra, não o fazemos apenas para benefício individual ou para polir o ego espiritual, a pedra de cada um vai inevitavelmente impactar o templo comum de todos. Um homem sem ética afecta os que o rodeiam, um líder irresponsável afecta equipas, famílias e comunidades. Uma sociedade sem sentido de responsabilidade colectiva degrada-se lentamente, mesmo quando continua a parecer funcional por fora.

É precisamente aqui que a conversa se torna verdadeiramente importante, jámais numa lógica partidária ou numa aberração de visão “woke” importada das redes sociais, mas sim numa reflexão séria sobre responsabilidade. Sobre perceber que todas as decisões têm impacto e que maturidade também é conseguir discutir estes temas sem cair em fanatismos, slogans ou guerrilhas ideológicas.

A Maçonaria sempre procurou formar homens melhores, e homens melhores não são apenas homens cultos ou ritualisticamente correctos, longe disso. São homens conscientes do impacto que têm no mundo à sua volta. Homens capazes de construir prosperidade sem destruir tudo pelo caminho. Homens que percebem que ética, responsabilidade e equilíbrio não são modas modernas, mas necessidades permanentes de qualquer sociedade minimamente saudável.

Talvez o erro tenha sido deixar que outros se apropriassem do tema e o transformassem numa caricatura, porque, despido de politiquices e extremismos, aquilo a que hoje chamamos Sustentabilidade é, no fundo, apenas uma versão moderna de algo muito antigo.

A obrigação moral de deixar o templo um pouco melhor do que o encontrámos. 

João B. M∴M∴

02 maio 2026

A sobreposição de monologos

 

 


As redes sociais vieram dar um novo ritmo à vida. Aproximaram pessoas, afastando-as ao mesmo tempo. Parece paradoxal, no entanto, essa aproximação vem do diálogo através das aplicações (apps) que conseguem manter várias pessoas a comunicar à distância; ou seja, passámos a falar de longe, mesmo estando perto.

Esta distância física acaba por ganhar proporções psíquicas, pois o conforto do sofá faz com que haja uma preferência pelo isolamento em detrimento da presença física. O que torna toda esta experiência interessante é que muitas destas interações são altamente distanciadas e desprovidas de empatia. O resultado prático são discussões online acesas, tanto por temas impactantes como por assuntos ditos “sem jeito nenhum”.


Paralelamente a tudo isto, a qualidade de vida melhorou substancialmente nas últimas décadas, o que permitiu que a maioria da população tenha acesso direto a um telemóvel que, por sua vez, dá acesso às redes sociais. O desenvolvimento da sociedade ocidental atingiu um ponto em que o acesso a um smartphone e à internet já é um dado adquirido. A grande maioria da população possui o objeto e o serviço. Se juntarmos a este cenário uma população cada vez mais literada, temos todos os ingredientes para um fenómeno curioso.


População com tecnologia, internet, acesso ilimitado a redes sociais e ausência de presença física. Levamos tudo ao forno e… BUM!


Ficamos com discussões estéreis nas redes sociais, pessoas que dialogam sem se conhecerem e uma falta de empatia crescente. A este cenário apocalíptico acresce a pesquisa rápida, que cria "especialistas instantâneos" em qualquer tema. O conhecimento que outrora demorava décadas a adquirir, hoje parece estar à distância de meia dúzia de cliques.


Neste cenário de ruído constante, existe um pequeno paraíso onde ainda conseguimos dar uma opinião, ouvir e refletir. Neste espaço, procura-se combater as paixões. E o que são estas malditas paixões? As paixões são os impulsos movidos pela reação imediata e não por atos refletidos. Neste sentido, a paixão é algo que deve ser controlado pela racionalidade.


Ao verbalizarmos ou escrevermos uma opinião, devemos fazê-lo de forma refletida, o que raramente acontece no turbilhão das redes sociais. Além disso, a linguagem escrita é muito mais impessoal do que a falada, fazendo com que os erros de interpretação e de entoação ressaltem. Se essa linguagem for movida pela paixão momentânea, pode gerar um ambiente tóxico.


É por isso que em lojas maçónicas fazemos questão da presença física: para podermos olhar nos olhos uns dos outros, sentir a empatia, refletir sobre os assuntos e sobre a nossa própria maneira de estar. Só quem cultiva este meio conhece a diferença.


E tu? Vais querer sair da tua rede social para começar a construir?




25 abril 2026

O Irmão Ego Faltou


Um chorinho brasileiro, de minha autoria e produção, para alegrar o dia dos irmãos. 

O Irmão Ego Faltou

Composição: Fábio Serrano

[Verse 1]
O Templo abriu num clima diferente, Sem aquele peso, num tom de cristal. O Irmão Ego, que é onipresente, Faltou à sessão, o que não é normal. Ele que adora pedir a palavra E falar difícil pra se destacar, Deixou a Coluna, livrou a bravata, E a pedra bruta parou de rolar.

[Verse 2] O Senhor Vaidade, ao ver a cadeira Vazia, sem dono, lá no Ocidente, Ficou sem o chefe, perdeu a estribeira: Não pôde entrar ou se fazer presente.

[Solo de flauta]

[Verse 3] E o Senhor Discórdia, que é seu parceiro E gosta de ver o circo pegar fogo, Ficou na calçada, perdeu o roteiro: Sem o Ego não tem jogo.

[Chorus] Foi quando a Fraternidade sorriu, Venceu a timidez e o pudor, E o Amor entre irmãos, que ninguém mais viu, Entrou de braços dados com o Esplendor. A Loja brilhava sem ouro ou metal, Apenas a luz do afeto fraternal.

[Verse 4] Houve um tropeço na ritualística, Um passo trocado, um gesto no ar, Mas não teve riso, nem cena artística, Muito menos o malhete a reprovar. Quem fez o reparo foi doce e discreto, Sem "tom de mestre", sem se engrandecer, E quem foi o alvo do dito correto Não se ofendeu por ter que aprender.

[Bridge] Ninguém quis ser ouro, ninguém quis ser prata, A egrégora no coração. A ajuda foi muda, a ajuda foi grata, Pois o "Ego" não estava na reunião.

[Chorus] Foi quando a Fraternidade sorriu, Venceu a timidez e o pudor, E o Amor entre irmãos, que ninguém mais viu, Entrou de braços dados com o Esplendor. A Loja brilhava sem ouro ou metal, Se via apenas afeto real.

[Outro] Mas na saída o Orador avisou, Ao fechar a Loja com a chave na mão: "O Ego só tira um dia de folga... Cuidado que ele volta na próxima sessão." ( Vigiai, meus irmãos...)

18 abril 2026

O tolerante, o intolerante e o tolo

 


Esta história foi resgatada de um pergaminho que se encontrava à porta de um templo debaixo de uma pedra imperfeita, pela qual todos passavam e pisavam, mas ninguém dava pelas suas imperfeições. Era uma pedra do chão, daquelas que todos pisam. As do chão são as menos perfeitas, menos belas, mas mais resistentes, porque sem chão edifício não chega a ser construído. Tal como o chão, assim é o homem, o seu chão são os valores que o sustentam.

Ora, esta história fala-nos de valores e da sua transformação…


Certo dia, encontrava-me eu no meio da minha mais recente aventura, a obra da Sé de Lisboa, a aprender o Ofício dos Pedreiros, quando me deparei com uma cena que me marcou. Da mesma forma que esta história me marcou a alma, também eu deixo este pergaminho marcado a tinta, para que a memória humana não a perca na vastidão imaginária das mentes humanas.

Naquela grande obra que atrás me referi havia um chefe que denominávamos de Venerável, pois era ele quem comandava os trabalhos. O seu nome era Joane, tinha voz firme, tinha resposta para tudo, mas… não se comprometia com nada. O segundo da obra era o João, dizia-se que era um coração de manteiga de tanta tolerância que tinha para com tudo e todos. No extremo oposto estava o Tiago que era austero e com pavio curto.

Ora, aquela obra estava numa fase em que era necessário tapar certas imperfeições com uma massa que ora unia as pedras umas às outras, ora tapava uma imperfeição ou outra de uma ou outra pedra. Quem fornecia a matéria prima era o Pedro. Um elemento externo à obra e que dependia daqueles trabalho para poder pagar as contas e sobreviver.

— Temos de colocar muita massa, essa pedra tem de ficar lisinha, não se podem ver imperfeições — dizia Tiago, sempre atento a qualquer imperfeição que aparecesse no templo.

— Tiago, Tiago, eles são aprendizes, tens de ser mais tolerante. Eles estão a aprender a arte do oficio. Se for preciso explica-lhes outra vez, se for preciso — assim respondia João, sempre tolerante.

Estávamos numa altura em que tudo estava a ficar mais caro e havia mais relutância em gastar, comparativamente ao ano anterior. Pedro estava na corda bamba com o seu negocio. As obras estavam a encomendar menos e não podia aumentar preços se não iam comprar aos outros fornecedores. Pedro estava a por mais água na fórmula para que rendesse mais.

Certo dia, graças a um aprendiz mais desastrado, uma das pedras caiu ao chão e ficou com uma lasca. Após análise, verificou-se que a lasca não colocava a vida de ninguém em perigo, desde que fosse trabalhada com a massa que Pedro vendia. Este trabalho com a massa aumentaria a resistência da pedra e ela poderia ser usada sem necessidade de se esculpir nova pedra. 

Tiago, entusiasmado com a ideia de ensinar novas matérias aos seus aprendizes, começou logo na sua demanda a ensinar as novas artes. Ensinava com todos os pormenores não faltando absolutamente nada. No entanto, enquanto ensinava os aprendizes estas novas técnicas, reparou que a massa não se fixava bem na pedra. Pediu explicações a Pedro que se apressou a dizer que era uma nova fórmula que permitia que, depois de seca, a massa ficasse mais dura do que a pedra.

Só que, a massa não se solidificava. Tiago chamou João:

— Olha lá, não achas que o Pedro nos anda a enganar com a massa? — perguntou Tiago.

— O Pedro tem sido impecável connosco, nunca faria uma coisa dessas.

— Eu acho que devíamos falar com o Joane.

— Não vejo necessidade de fazermos isso, mas se achas que é mais seguro, então vai ter com ele.

Tiago foi ter com o Venerável que, como sempre disse mais uma das suas frases fantásticas que nada dizia e nada o comprometia.

— O templo é um ser vivo — dizia convicto das suas ideias — uns dias mais luzidio e outros mais triste.

Tiago ficou sem saber o que dizer. Nada do que o que Joane dizia lhe fazia sentido. Sendo assim, resolveu confrontar o fornecedor com os factos.

— Olha lá ó Pedro, o que andas a pôr na massa que ela não agarra, por nada deste mundo?

— Já disse que é uma fórmula desenvolvida por mim. Confia que vai correr bem.

De repente, ouviram-se gritos e uma multidão de obreiros a juntarem-se junto de um outro que se encontrava estendido no chão. Afastaram-se para que os vigilantes e o Venerável pudessem ver. Era um aprendiz que, aquando da elevação da pedra para ser colocada no seu lugar, levou com uma pedra que se despegou, juntamente com a dita massa na cabeça, fazendo-o desmaiar.

— CHAMEM O MÉDICO. TEMOS UMA URGÊNCIA. 

Felizmente o médico chegou e reanimou o aprendiz. Não era nada de grave. Uns dias de cama e voltava para a obra.

— Estás a ver João — disse Tiago irritado com a situação — passa-se qualquer coisa com aquela massa. Vou apertar com o Pedro.

E lá o 2º Vigilante pedir as ditas explicações a quem estava a fornecer tamanha trapaça. João foi atrás de Tiago, não fosse o seu amigo cometer alguma asneira. 

— Pedro explica o que fizeste aquela massa.

— Tiago — disse Pedro arrependido — eu coloquei água para que ela rendesse mais. Por isso é que ela não pegava tão bem. Não sabia que aquilo podia ter acontecido.

João, ao sentir-se atraiçoado por aquele que outrora tinha defendido disse:
— Como te atreves a enganar-nos?! Tens noção que aquele aprendiz podia ter morrido?!

— Tenho essa noção João, mas se não vender a massa não tenho sustento para a minha família. Perdoem-me por favor. Imploro-vos isso.

— Não te posso perdoar tamanha avareza, tens de ser castigado, preso e deportado.

— Vá lá João, nem pareces tu. É verdade que o Pedro fez asneira, mas não podes ser assim com ele. Afinal estava a tentar sobreviver.

— Não pode ser. Não podemos tolerar uma cena destas. Temos de atuar. Joane, tens de tomar uma decisão.

Joane, que já se encontrava coberto de suores, pois iria ter de tomar uma decisão difícil, obrigando-o a abandonar a suposta neutralidade. Resolveu soltar mais uma das suas frases eloquentes:

— Os desígnios de Deus são desconhecidos para todos nós. Esperemos que a graça divina tome uma decisão em relação ao pecado de Pedro.

Ambos ficaram boquiabertos com a frase do venerável. Um por não perceber nada, e outro por nada entender.

E foi assim que ficou o assunto, como que numa nuvem a pairar no céu. Uma nuvem negra que pairava, mas que insistia em não deixar cair a água que continha no seu interior. E foi assim, neste clima de incerteza e desconfiança que, durante 7 dias ninguém falou nem trabalhou no templo. 

Entretanto o aprendiz que sofreu o acidente voltou rejuvenescido e vendo que o trabalho não tinha continuado pelo acidente que teve, sentiu que tinha a responsabilidade de o fazer. Pegou nas ferramentas e começou a trabalhar até aquela parte estar concluída. Não demorou mais do que um dia.

No final do dia de trabalho, os mestres olharam para o estado final e perceberam que aquela luta de egos não os levou a lado nenhum. Um aprendiz na sabedoria do seu silêncio e com a força do seu trabalho fez a mais bela das ações, terminar o trabalho de uma equipa.


Foi assim que Affonso Domingues, ainda aprendiz, assistiu a várias lições. Há um limite para a tolerância. Para João era a mentira, mas também aprendeu que, mesmo o mais intolerante, tem sempre, na sua humanidade, algo que o torna tolerante. Por fim, a luta de egos iria desunir aquela equipa, tal como a massa aguada que foi fornecida por Pedro. Foi um simples gesto em silêncio que acabou com a discussão e fez com que todos voltassem para o trabalho.

Affonso Domingues, olhou para uma das pedras do chão. Sim, aquela onde, anos depois, decidiu colocar um pergaminho a contar esta história. Sim, aquela pedra imperfeita que todos pisam, mas que é fundamental, tal como todas as outras, para garantir que o templo não cai.


11 abril 2026

Roma, la bella Roma

Nesta Páscoa fui a Roma passar uns dias com a família., não foi uma daquelas viagens pensada ao detalhe, com tudo marcado e a seguir um horário rígido. Claro que tivemos que marcar algumas coisas como o Museu do Vaticano ou o Coliseu, caso não o tivéssemos, nãp entraríamos. Mas o resto do tempo foi ao sabor do momento, assim como Roma pede. Já lá estive diversas vezes, mas desta quis mostrar a cidade à minha filha, com tempo. E posso dizer que há qualquer coisa de especial em voltar a um sítio que já conhecemos, mas vê-lo pelos olhos de quem o está a descobrir pela primeira vez.

Quando fomos à Basílica de São Pedro tivemos a sorte, ou privilégio, de ver o Papa, certo que o vimos ao longe, mas há algo....não sei, não se explica. A Basílica, linda e imponente mas o Coliseu foi o que pôs um brilho nos olhos da minha filha!!! Também caminhámos pelo Fórum Romano e pelo Monte Palatino, descemos às Catacumbas de São Calisto e às Catacumbas de São Sebastião, passámos pela Via Appia Antica, parámos na Fontana di Trevi e deixámo-nos ficar na Piazza Navona a ver a vida a passar. 

Mas no Vaticano, tivemos a sorte de só conseguir bilhetes com guia para o Museu, num espaço daqueles, onde tudo parece demais, alguém que nos ajude a olhar faz toda a diferença. Lembro-me de parar na Escola de Atenas, de Raphael, e ficar ali um bocado mais do que o esperado, aquela ordem, aquele equilíbrio entre tantos pensamentos diferentes… não se explica bem, sente-se. E depois a Capela Sistina, entra-se, olha-se para cima e, sem dar por isso, ficamos em silêncio. Acho eu que não é só a pintura de Michelangelo, mas o seu todo, como se tudo ali estivesse organizado para nos fazer percorrer uma história.

Pelo meio das nossas voltas, entrávamos em igrejas como quem entra para descansar, umas cheias, outras quase vazias, algumas grandiosas, outras tão simples que quase passam despercebidas. E, curiosamente, foi aí que a viagem me tocou mais. Uma igreja onde parámos por acaso, perto do hotel,  a Santa Maria degli Angeli e dei Martiri.

Por fora não chama a atenção, e lá dentro também não é daquelas que nos cai em cima com ouro e pintura. Depois de pesquisar descobri que foi construída por Michelangelo aproveitando as antigas Termas de Diocleciano, e talvez se note pois há ali uma escala diferente, mais aberta, mais limpa, quase crua. Não é uma igreja que impressione, é uma igreja que nos deixa bem.



Por lá e sem pressa, reparei numa linha no chão, nada estranho à primeira vista, atravessa a nave, mas no meio e em cima da linha um pouco de luz solar. Alto! Isto foi pensado sem dúvida, comecei a olhar vi numers na linha e logo tive que apanhar o telemóvel e pesquisar o que estava realmente a ver. Googlando percebi,  que no século XVIII, durante o papado de Clemente XI, o astrónomo Francesco Bianchini construiu ali uma meridiana, um instrumento a sério, não algo decorativo.

Um pequeno orifício deixa entrar um feixe de luz que, ao meio-dia, toca essa linha. E como é lógico esse ponto não é estático, pois ao longo do ano, desloca-se com precisão, seguramente de esquadro e compasso. Nos solstícios vai aos extremos, nos equinócios marca pontos exactos, e pelo caminho cruza os signos do zodíaco desenhados no chão. Foi algo feito não para enfeitar, mas sim para para medir. Para provar. Para alinhar o tempo da terra com o movimento do céu. Engraçado, e momento wikipedia, o próprio Bianchini estava ligado aos grandes nomes da ciência da época, incluindo Isaac Newton, que o propôs como Membro da Royal Society em 1713. Mais engraçado, é que "O Magnânimo" , o português Rei Dom João V, foi um dos seus grandes patronos, tendo este não só nomeado um dos "mares" de Vénus em seu nome, como também dedicado a obra da sua vida, o livro Hesperi et Phosphori (1728), sobre o planeta Vénus em sua honra.


Há ligações que vêm de muito longe até de outros tempos, de outras pessoas, de outras intenções… e que, sem darmos por isso, ainda hoje se cruzam connosco. Aquilo que para muitos é apenas um risco no chão, para mim acabou por ser muito mais do que isso. 

Há coisas que, vistas com pressa, parecem pequenas. Mas, quando paramos um pouco…crescem. E, às vezes, é nessas que encontramos mais sentido.

João B. M∴M∴