14 fevereiro 2026

A VOLTA DO “TEMPO”... QUE EU NÃO TENHO !

Os últimos textos publicados pelos meus Irmãos Fábio Serrano e João B. sobre o "tempo" reavivaram uma chama que se tem mantido latente a corroer-me o juízo.

É obviamente uma questão pessoal, esta que refiro ter sido reavivada, mas que sendo esta referência meramente pessoal não é mais do que o reflexo de uma das doenças (doença digo eu…) que tem corroído a relação humana tal como a conhecemos, sendo que os mais antigos como eu, a conheceram nos idos dos meados do séc. XX.

Na época a vida conseguia ser bem vivida esperando umas horas, vulgarmente não menos de um dia,  pelas conclusões de uma qualquer reunião importante dos políticos locais, ou pela informação dos vencedores dos Globos de Ouro, ou por… quase tudo !

Falar ao telefone era coisa que se fazia uma vez de 2 em 2 dias, nos pares de dias em que se falava ao telefone. Primeiro era necessário que houvesse um telefone, depois que ele estivesse disponível, depois ainda e mais difícil , que o pretendente interlocutor tivesse ele também aceso a um telefone.

As notícias, agora chama-se informação, sobre um desastre em França eram conhecidas pelo jornal da manhã do dia seguinte. O começo de uma guerra conhecia-se na semana seguinte e o seu fim talvez um mês depois. E vivia-se !

Pergunte-se hoje a uma criança de 6 ou 7 anos como é que se entretém quando está sem aulas… Ou pergunte-se aos Pais dessa mesma criança qual o assunto sobre o qual discorreram durante o jantar…

A televisão é omnipresente, a internet uma necessidade absoluta, as “conversas” pelas correntes ditas sociais desafiam a atenção permanentemente, esteja onde estiver. Com isto e sendo assim, as 24 horas do dia não chegam para todos os “compromissos” ditos “sociais”.

Como contrapartida dos telefonemas de 2 em 2 dias temos hoje 2 ou 3 chamadas em simultâneo no telemóvel, umas em espera da que começou primeiro ou da que o atendente considera prioritária.

E tem de ser assim porque o “tempo” é pouco para se responder ao(s) interlocutor(es). Este retrato da vida diária nesta primeira metade do séc. XXI só peca por cores pouco acentuadas.

Estas referências não são uma queixa, são apenas uma constatação, nada mais do que isso. Não advogo o saudosismo, mas não descarto a crítica ao "atualmente correto". O progresso é bem vindo, sempre. Entretanto convém definir o que é progresso e separá-lo do que são os "gadgets" (palavra horrorosa) que invadiram a vida diária e que sendo isso mesmo, "gadgets", se tornaram indispensáveis e inseparáveis de muitos de nós.

Sobre este assunto (há quem lhe chame “problema”) há centenas de divagações. São muitos, mesmo muitos, os autores de estudos, análises, sugestões, relatos de situações que refletem sobre o tema “tempo”.

Quem não se lembra (dos mais antigos) ou quem nunca viu (e riu) com pedaços do Charlie Chaplin nos “Tempos Modernos”, modernos em 1936… Foi a questão “tempo” da época.

Por outro lado e numa abordagem completamente diferente, que tal entrarmos nas pesquisas atuais do italiano Carlo Rovelli sobre a não existência do “Tempo” ?  Sim, há essa pesquisa e, pelos vistos, essa possibilidade. O Tempo afinal não existe…

Se tal se confirmar todos os atrasados ficam desculpados…

Estando no espaço humano em que nos movimentamos, com horários para trabalhar ou para ir ao espetáculo, ou para ir rapidinho ao supermercado ou para almoçar também rapidinho, ou para ver o programa… ou para entrar na reunião do “zoom”… neste espaço humano é a vida diária que nos apoquenta sobremaneira.

No “A-PARTIR-PEDRA” por maioria de razão é a Humanidade que nos convoca e, nesta, a Família a que damos corpo, existência e participação. E neste mundo assim pequenino da Família, à nossa dimensão, talvez possamos fazer alguma coisa para melhorar a nossa relação com essa 4ª dimensão que afinal, se calhar, nem sequer existe.

Tal como de outras vezes e porque não gosto de reinventar a roda, trago um pequeno vídeo com palavras que obviamente eu não escrevi, mas que, também obviamente, gostaria de ter escrito:


Fica a certeza de que cada um tem à disposição TODO o tempo que existe e que a FELICIDADE não é uma corrida, é um objetivo !

Fevereiro/2026

J.Paiva Setúbal (MM∴)


 

07 fevereiro 2026

Sobre o tempo que deixámos de ter

 O texto recente do Ir∴ Fábio Serrano fez-me parar, não porque seja uma denúncia inédita, mas porque coloca o dedo num ponto que muitos de nós preferimos contornar. A Maçonaria não se tornou menos valiosa, tornou-se mais difícil de habitar. E essa dificuldade não nasce de uma crise moral da Ordem, mas de uma transformação profunda da sociedade onde ela tenta continuar a existir. Entre os vários “ladrões de tempo” que o Fábio identifica, com lucidez, o entretenimento digital, a obsolescência profissional, a paternidade intensiva, o futebol transformado em Big Brother, há um fio comum que atravessa tudo, a erosão do Tempo enquanto espaço habitável.

Vivemos numa sociedade que não apenas ocupa o tempo, mas o fragmenta. O tempo deixou de ser um campo onde se permanece e passou a ser um corredor de passagem. Tudo é feito em trânsito, em simultâneo, em aceleração constante. Já nem o lazer escapa a esta lógica, a juventude de hoje em dia consome os conteúdos acelerados, vídeos a 1.5x ou 2x, não porque sejam longos demais, mas porque a nossa capacidade de espera encolheu. Até o descanso tem de ser eficiente, mensurável, justificável. A pausa precisa de provar que merece existir e o resultado é paradoxal, quanto mais tentamos ganhar tempo, menos sentimos que o temos.



É aqui que o diagnóstico do Fábio ganha peso, quando a Maç,onaria pede tempo, não pede apenas horas numa agenda. Pede Presença. Pede Repetição. Pede Silêncio. Pede uma disponibilidade interior que não produz resultados imediatos nem oferece gratificação instantânea. Num mundo dominado por algoritmos desenhados para gerar estímulos constantes, pedir a alguém que se sente, escute, observe e espere é quase um ato contra-cultural. Não admira que tantos sintam que o custo é elevado e o retorno difuso, não porque o retorno não exista, mas porque já desaprendemos a reconhecê-lo.

O problema, contudo, não é exclusivamente maçónico. É civilizacional. O homem contemporâneo vive com a sensação permanente de estar atrasado. Atrasado para o trabalho, atrasado para a formação, atrasado para a família e principalmente atrasado para si próprio. O tempo livre foi transformado em tempo de sobrevivência, estudar para não ficar obsoleto, treinar para não adoecer, produzir para não cair. Tudo é imediato, tudo é urgente, e quando assim o é, nada pode ser profundo. Quando somos forçados a escolher entre estar presentes com os filhos, garantir a estabilidade profissional ou dedicar-nos a um caminho iniciático exigente, a escolha deixa de ser simbólica e passa a ser ética. A Ordem não perde porque é menos importante, perde porque não quer, nem deve, competir nesse plano.

Talvez por isso a questão central não seja se temos ou não tempo, tempo há e sempre houve. A verdadeira questão é para onde o estamos a entregar e com que critérios. A quem damos o nosso melhor tempo? O mundo moderno não nos rouba o tempo à força seduz-nos, a trocá-lo por fragmentos de distração, por pertenças fáceis, por identidades sem silêncio.

Nesse sentido, a Maçonaria não concorre com o mundo moderno. ela contraria-o. A sua lentidão, o seu ritual, a sua exigência de escuta e repetição não são defeitos de um modelo ultrapassado. São precisamente o que a torna difícil de aceitar numa cultura que desaprendeu a permanecer, talvez seja por isso que incomoda e talvez seja também por isso que continua a ser necessária.

No fim, talvez não vivamos numa sociedade sem tempo. Vivemos numa sociedade que perdeu a coragem de o defender. E enquanto não formos capazes de assumir essa escolha, continuaremos a confundir a falta de tempo com falta de vontade, e a erosão do compromisso com uma suposta inevitabilidade histórica. 

João B. M∴M∴

31 janeiro 2026




                                                   Prancha de Instalação

Em 2007 (ano profano), quiseram os Obreiros da RLMAD:. que me coubesse a ocupação da cadeira de Salomão para o Veneralato que se iniciava.
Nessa altura li a prancha que agora aqui recordo.

É à Glória do Grande Arquiteto do Universo que Vos dirijo o texto seguinte:

Q. I. José Moreno  / QQ.II. Convidados /

Queridos Irmãos

3 é um número com significado maçónico. Então sejam 3 os agradecimentos a fazer.

 Para os nossos II:. Pinto Ferreira e AM Jorge vai o primeiro. Foram os meus inquiridores e foram os primeiros a serem enganados.

 Depois o nosso I:.J.Moreno me deu entrada nesta casa e quis o GADU:. que também ele presidisse a esta instalação. Ao I:. J.Moreno dirijo o meu segundo agradecimento, porque em condições contrárias às “boas Práticas”, me aceitou no início, mesmo contra algumas vontades que, se calhar até eram as mais sensatas.

 Ao nosso Irmão João Pinheiro dirijo o terceiro agradecimento. Que mal me soube e que bem me fez o não me ter deixado entrar em sessão.  Agradeço-Te agora essa recusa e nunca esquecerei que atrasaste o início da sessão de propósito para que eu pudesse ir a casa e regressar.

Meus II:. por Vossa vontade estou na cadeira de Salomão.

O GADU:. sabe que não era ambição minha tal como sabe também que não sou o Obreiro melhor preparado para ocupar este lugar.

Gostaria de ter imaginação suficiente para Vos dizer coisas diferentes das promessas tradicionais de trabalho e empenho, mas não tenho.

Assim sendo, e porque a sessão vai longa, há que ir jantar e ver o Portugal-Polónia sublinho apenas alguns objectivos que quererei ver tratados com maior carinho durante o veneralato 6007/6008, sem ordem definida:

- Finalização do processo de ajustamentos administrativos desenvolvido no veneralato do I:.Paulo R.;

- Maior aproximação das Famílias de todos, pelo menos as mais chegadas, Irmãos, Cunhadas,       Sobrinhos;

- Aperfeiçoamento permanente do cumprimento dos rituais, tornando esse aspecto uma marca da casa,  como de resto já vai sendo, mas fazendo com que seja cada vez mais;

- Dar vida mais activa à hospitalagem, conforme directivas bem claras do nosso Muito R.Grão-Mestre;

- Aproximar mais e mais a nossa R.L.M.A.Domingues das demais lojas nossas Irmãs.

São apenas 5 pontos de intenção. Tentarei convosco, até à nossa próxima sessão, preparar maior detalhe para cada uma destas intenções.  E depois veremos o que vamos conseguir fazer. 

Há muitos anos um querido mestre ensinou-me que não vale a pena tentar descobrir a roda.  Já alguém o fez e bem.  Por isso me calo e Vos peço para escutarem as palavras que, incomparavelmente melhor do que eu, alguém irá dizer.



   (Ehrmann/Werner-Versão de Maria Luísa Peixoto-dito por Ruy de Carvalho)

Meus Irmãos, estas palavras quereria eu que constituíssem uma missão para cada um de nós.

Deixemos os metais à porta, do lado de fora de todas as portas e metais são, para além do propriamente dito metal cunhado, são também a ambição sem controlo, a inveja, a soberba, a vaidade.

Não Vos esqueceis de uma coisa. Sempre, mas sempre haverá alguém, nalgum lugar, melhor que nós, mais esclarecido, mais sabedor, mais inteligente, mais bonito…

Deixemos os metais à porta dos Templos, deste que é comum e dos outros que sendo pessoais, são onde reconhecemos a Família e os Amigos. Que a Maçonaria possa transformar a Terra num templo único, onde os homens, todos diferentes, sejam todos Irmãos, em Paz.

RLMAD:. em Setembro 6007 - J.Paiva Setúbal  (MM:. VM:.)




24 janeiro 2026

O estoque encalhou. É hora de pormos a maçonaria nos saldos?


Tenho refletido muito sobre uma provocação que o meu querido irmão JR me fez recentemente: a de que, a cada dia que passa, a Maçonaria se torna um "produto" menos vendável. Não porque a qualidade da nossa "mercadoria" moral tenha decaído, mas porque o mercado onde operamos sofreu um choque tectónico. A verdade inconveniente é que já não competimos apenas com outras ordens discretas ou clubes de serviço; competimos ferozmente pelo "novo petróleo" dos tempos modernos: a atenção e o tempo dos homens. E nessa economia de escassez, onde a atenção é a moeda mais valiosa e volátil, o nosso modelo de "negócio"exige um investimento temporal altíssimo com retorno difuso e diferido: tudo que está tecnicamente em falência para as novas gerações. 

O cenário é de uma clareza brutal quando olhamos para os "ladrões de tempo" que nos cercam, começando pela colonização digital do nosso lazer. Vivemos na era do entretenimento de "atrito zero", onde o streaming já ultrapassou a televisão linear, capturando 60% do tempo de visualização e impondo uma cultura de binge-watching que normalizou o consumo de blocos de três ou quatro horas de conteúdo de uma assentada. Competimos contra algoritmos desenhados por engenheiros comportamentais para gerar dopamina a cada 15 segundos, enquanto nós oferecemos sessões de leitura de atas e arquiteturas que exigem um tipo de paciência cognitiva que está em vias de extinção. O homem que chega a casa exausto tem à sua disposição, por um valor irrisório, um catálogo infinito de gratificação imediata; convencê-lo a vestir um fato e sair para uma reunião lenta e protocolar tornou-se uma tarefa hercúlea.

Ao mesmo, enfrentamos a tirania da obsolescência profissional, que transformou o tempo livre em tempo de sobrevivência. O conhecimento que garantia uma carreira estável de trinta anos evaporou-se. Alguns dados recentes indicam que a "meia-vida" de uma competência técnica caiu para uns assustadores dois anos e meio. Isto significa que um profissional que não estude continuamente perde metade do seu valor de mercado em menos de três anos. O "terceiro turno" da noite, que outrora pertencia à Loja, foi canibalizado pela necessidade urgente de reskilling e certificações. Para a classe média instruída que historicamente preencheu as nossas Colunas, a escolha entre estudar um ritual do século XVIII ou fazer um curso que garante a manutenção do emprego pende, racionalmente, para a sobrevivência económica.

Mas o maior "ladrão" é, talvez, o mais nobre de todos, tornando a nossa competição moralmente complexa: a paternidade. A figura do pai provedor e ausente é uma relíquia sociológica; hoje, o imperativo é a "paternidade intensiva". As estatísticas são inequívocas: desde 1965, o tempo que os pais dedicam aos cuidados diretos dos filhos mais do que triplicou. E se focarmos no perfil demográfico típico da Maçonaria, homens com formação superior, esse investimento ultrapassa agora as 10 horas semanais de interação focada. O homem moderno não quer apenas "estar"; quer participar, educar e brincar. Quando a Maçonaria o obriga a escolher entre ser um irmão assíduo ou um pai presente, coloca-se numa posição de desvantagem ética onde a Ordem sairá invariavelmente derrotada.

Podemos ainda incluir na lista de ladrões um bónus: o futebol que se industrializou ao ponto de ocupar todo o calendário social. O futebol deixou de ser um passatempo de fim de semana para se tornar uma novela contínua, com a elite a jogar quase 90 partidas por ano e os adeptos a dedicarem mais de 20 horas semanais a consumir, discutir e viver a sua "tribo". O sentimento de pertença, a catarse coletiva e a identidade de grupo que a Maçonaria vendia como exclusivos são agora entregues pelo desporto de forma mais visceral, frequente e com barreiras de entrada muito menores. O adepto encontra no estádio ou no grupo de WhatsApp a comunidade que nós prometemos, mas sem a exigência do estudo ou do silêncio.

É neste cenário inóspito que tentamos vender o nosso "estoque" com um argumento comercial que beira o absurdo: "pagas uma joia cara, para algo que não sabes o que é, que vai competir com a tua sobrevivência profissional e com os teus filhos, e ainda ficas meses ou anos só a escutar". Não surpreende que a retenção seja o nosso calcanhar de Aquiles, com dados a mostrarem que quase 20% dos iniciados abandonam a Ordem nos primeiros três anos (UGLE, 20222). O "cliente" entra, experimenta o produto, compara o custo de oportunidade com a sua vida lá fora e percebe que a conta não fecha. O problema não é o preço da joia ou das quotas; colocar a Maçonaria nos "saldos" financeiros não resolverá nada.

O nosso "estoque encalhou" porque o mundo mudou as regras do comércio de tempo e nós continuamos a operar com a lógica de uma mercearia antiga num mundo de e-commerce instantâneo. O desafio não é cosmético, é existencial. Enquanto não compreendermos que estamos a pedir o ativo mais valioso e escasso do século XXI — tempo — em troca de uma experiência que muitas vezes falha em entregar valor percetível imediato, continuaremos a ver as nossas Colunas a esvaziar. Não por falta de homens bons, mas porque os homens bons estão ocupados a serem bons pais, bons profissionais e a sobreviverem à voracidade de um mundo que não dorme.

Fábio Serrano, MM

Fontes:
  • Samba TV – "U.S. State of Streaming Report" (Outubro 2025).
  • IBM SkillsBuild / World Economic Forum (Future of Jobs Report).
  • Institute for Family Studies (2024) / Pew Research Center.
  • Football Fever Report (AO.com / OnePoll).
  • United Grand Lodge of England (UGLE) – Strategy 2022 and Beyond.


17 janeiro 2026

 


Dia 17 de Janeiro de 2026 em Portugal

 Pois bem reflitamos então um pouco acerca do dia de hoje.

Liberdade, Igualdade, Fraternidade !

Quando o calendário é feito no início do ano constatamos que todos os dias serão previsivelmente iguais. Muda-se o número do dia no mês e o nome do dia na semana. E é tudo.

Dia a dia, semana a semana, mês a mês durante 12 meses.

Acontece depois que cada dia toma uma personalidade própria. A Natureza encarrega-se de pôr diferenças em cada dia que vamos vivendo.

Chuva hoje, vento amanhã, calor e sol a seguir…

O Homem trata de dar uma ajuda a diferenciar cada dia de cada dia.

Hoje um tratado, amanhã uma doença, guerra a seguir… mais uns discursos, umas promessas, um salvamento, um nascimento, uma morte…

Os dias que nasceram todos iguais acabam todos diferentes. É o espelho da nossa própria existência.

A “Mãe Natureza” encarrega-se de distribuir “qualidades” conforme Lhe vai apetecendo (é uma simplificação conveniente para o momento) tornando-nos diferentes, todos, por mais iguais que quiséssemos ser.

Só que no final voltamos à igualdade.

A mais absoluta igualdade. Finalmente todos iguais, apetece-me dizer…

Estamos, como pus no título, a 17/01/2026, em Portugal !

Então, sendo que é assim, reflitamos !!!

Não encontro melhor do que recorrer a 2 extraordinários cérebros “nacionais”. Sem eles saberem pedi-lhes ajuda, também sem eles autorizarem usei o seu pensamento para o trazer até aqui para me ajudar a refletir…



J.Paiva Setúbal (MM:.) - 17/01/2026

 

Educação, o que é ?

A influência da Maçonaria na Sociedade é um dos seus objetivos. Uma das suas tarefas mais importantes deve ser a de transmitir à sociedade o enriquecimento interno, pessoal e espiritual que pretendemos obter na nossa vivência maçónica.

A intervenção social é uma das obrigações principais da Maçonaria unindo todos os homens, toda a Humanidade na procura da Felicidade, da Paz, da Alegria, da Liberdade.

É obrigação do Maçon dar testemunho de interesse pelo aperfeiçoamento da Fraternidade Humana.

Hoje dedico aqui algumas linhas à Educação a partir de um evento em que estive há algum tempo, talvez 2 anos (?), mas cuja atualidade é evidente.

Na televisão, nos jornais, nas redes sociais, em todos os suportes de informação onde é possível falar de Educação encontramos um consenso bem generalizado, de facto só contrariado sistematicamente pelos órgãos do governo em funções no momento, seja que governo for, e o consenso é claro, a Educação em Portugal vai mal ou a Educação em Portugal está pior…

A definição de “Educação” que nos interessa aqui é a componente escolar.

De facto, o que se entende por Educação é um conjunto de variáveis nas quais se inclui o “ensino escolar”, mas esse é apenas e só apenas, um dos componentes da Educação, quiçá não o mais importante. Mas é exatamente esse o componente mais referido e vulgarmente o único, que é avaliado quando se fala de Educação.

A Escola não é o único fornecedor de Educação, nem sequer o principal, mas é o mais em evidência por maior facilidade de localização física.

A escola é aquilo, está ali… O professor é aquele, está ali também…  É muito fácil encontrar um e outro.

Neste curto pensamento é exatamente a este componente da Educação que me refiro e é a este apenas, porque é o mais atacado, direi que, na maior parte das vezes, injustiçado.

A escola não funciona, o professor é mau…

Não se faz referência, ou raramente se faz referência, à qualidade do aluno e principalmente à qualidade dos Pais (Encarregados de Educação) do aluno. E no entanto, a meu ver, é a estes que cabe a componente mais importante do conjunto que é a Educação.

Neste meu interesse momentâneo quero dar visibilidade, a que consigo dar, a alguém que sabe do assunto e que muito tem pensado e escrito sobre o tema, com a visão muito clara de que não há “ensinar” sem haver “aprender”.

É esta dicotomia que é tratada na escola sendo claro que Professor e Aluno são, devem ser, uma unidade e não elementos separados do “eu ensino” e “tu aprendes se quiseres”. Se o aluno não aprender o professor também não ensina. Não há um sem o outro.

Esta tem sido uma das preocupações do Professor Jorge Rio Cardoso, plasmada no conjunto da sua obra “Bora Lá…”. É um conjunto de livros pensado para a Escola, para os Alunos e para os Pais (Encarregados de Educação).

Estivemos no lançamento de um desses livros e registamos o que foi dito pelos intervenientes. Divido convosco o final da lição dada na altura pelo professor J.R.C.

(Chamo a atenção para a qualidade da imagem cuja recolha ficou muito deficiente. Mesmo assim resolvi pô-la porque o que de facto interessa aqui são as palavras. E essas são bem percetíveis).

J.Paiva Setúbal (MM:.)

10 janeiro 2026

A Arteriosclerose de uma loja



Antes de tudo, convém assentar uma pedra angular: não escrevo estas linhas para defender o abandono do ritual ou a negligência dos nossos regulamentos. Pelo contrário, sou um fervoroso defensor de que a forma protege o conteúdo. O ritual é a moldura que permite à Loja operar num tempo e espaço sagrados, distintos do profano. Eu não proponho a anarquia, mas a vitalidade. Não questiono a regra, mas o "preciosismo cego" que, sob o pretexto de zelar pela perfeição, acaba por assassinar o espírito real da fraternidade.

Na medicina, a arteriosclerose refere-se ao endurecimento das artérias. As paredes, que deveriam ser flexíveis para permitir a circulação do sangue, tornam-se rígidas, estreitas e, eventualmente, bloqueiam o fluxo, levando à morte do tecido ou à falha do órgão. Na Loja, enfrentamos um risco semelhante. Quando o foco de uma sessão se desvia do aprimoramento moral e do calor da fraternidade para uma discussão vazia sobre a vírgula de uma ata ou o alinhamento preciso de um objeto que não afeta o andamento dos trabalhos ou a prática da verdadeira Maçonaria, estamos a sofrer de uma arteriosclerose ritualística.

O ritual deve ser uma ferramenta de trabalho, não uma mordaça. Se um Irmão comete um deslize formal, o ambiente de harmonia deveria permitir integrar e corrigir com discrição ou explicar pedagogicamente por que fazemos as coisas de determinada maneira. Muitas vezes, o que defendemos como regra máxima é apenas uma tradição oral que se fixou numa memória de trabalho local. Castigar um Irmão por algo que sequer está escrito é contraproducente e gera uma desarmonia que nos afasta do verdadeiro propósito da reunião.

Nós não nos reunimos para prestar culto à burocracia; reunimo-nos para nos tornarmos homens melhores. Se a sessão termina e os Irmãos saem mais exaustos do que inspirados, se saem mais distantes uns dos outros devido a picuices formais, então falhámos na nossa principal tarefa. O rigor é essencial, mas deve ser imbuído de humanidade. As nossas veias maçónicas precisam de ser flexíveis o bastante para aceitar as imperfeições humanas, permitindo que a fraternidade flua sem obstáculos. Assim, ao soar o malhete de encerramento, garantiremos que cada um saia do Templo mais justo e feliz do que quando entrou.


Fábio Serrano, M∴ M∴



01 janeiro 2026


1 DE JANEIRO

É um dia especial.

Marca o início de mais um ano solar e para muitos a retoma de tarefas ou do percurso para objetivos novos ou ainda não cumpridos ou, pura e simplesmente, a estreia de roupa nova.

Para mim marca sobretudo a memória de um grande Amigo e para a R:.L:. Mestre Affonso Domingues a memória de um Maçon exemplar.

É o Aniversário do Luís Miguel Rosa Dias e seria cumprido de forma bem mais festiva se fossemos suficientemente afortunados para o termos ainda connosco.

Lembrei-me de homenagear a sua memória com a publicação de um pequeno vídeo que teve a sua participação, ainda que não apareça nele.

Porque o vídeo que Vos trago o proporciona, aproveito a recordar também outro Querido Irmão, também já no Oriente Eterno.

O nosso querido e saudoso João Pinheiro, aqui trazido por sua Filha, a Teresa Brum Pinheiro.

A Teresa, além da sua vida profissional mantem uma segunda atividade (ou será a primeira ?) cantando o Fado. É fadista e que fadista…

É um excerto da atuação da Teresa durante o lançamento do livro “A Filha do Papa” do Luís Miguel Rocha (Março2013) onde estivemos como TVL.

A Teresa também compõe e neste fado juntam-se a música da Teresa e a letra do Luís Miguel (aqui, como nos seus outros escritos assinado como Miguel Roza).

Com esta ligeiríssima homenagem deixo a todos votos de excelente 6026.

J.Paiva Setúbal

25 dezembro 2025

Um Bom Natal

O Natal é, antes de tudo, uma pausa. Um momento em que a luz volta a ganhar espaço, mesmo quando os dias ainda são curtos.

É tempo de recolhimento, de silêncio útil, de olhar para dentro e perceber o que ficou por trabalhar, o que foi bem talhado e o que ainda pede paciência, método e tempo. Nenhuma obra se faz de um dia para o outro, e as mais importantes raramente se veem à primeira vista.

Que este Natal seja simples. Com poucos excessos e principalmente, com sentido.

Que haja luz suficiente para orientar o caminho, firmeza bastante para continuar a trabalhar e humildade para reconhecer que todos estamos ainda em construção.

Aos que caminham connosco, aos que vieram antes e aos que virão depois, desejo um Natal sereno, consciente e verdadeiro.

Boas Festas. 



22 dezembro 2025

                                                            DIA DE NATAL
 


Na verdade este poema desta minha querida Amiga Paula Nunes foi apresentado há já alguns anos numa emissão da TVL na rubrica "Um Poema e um café", espaço que apresentavamos regularmente com a participação de alguns dos Amigos que connosco quiseram colaborar. A Paula Nunes foi uma das principais e mais assíduas colaboradoras dizendo maravilhosamente palavras de outros mas dizendo também as suas próprias palavras como é o caso deste "Dia de Natal".
Aqui Vos deixo este presentinho da Paula.


20 dezembro 2025

O Inexplicável, explicável!

A ciência ensinou-nos que o universo teve um início, o Big Bang, uma expansão primordial onde nasceram o espaço, o tempo e as leis que ainda hoje regem todo o conhecido. Muito mais tarde, nesse mesmo universo aparentemente indiferente, a matéria inerte deu um salto improvável, uma faísca, a química transformou-se em biologia, e a vida começou.

Estes factos não diminuem o mistério. Pelo contrário, ampliam-no.



Dos trilhões de combinações possíveis, num universo vasto e silencioso, as condições para a vida na Terra alinharam-se, um euromilhões galáctico. Não por uma vez apenas os números se acertaram, mas sim o suficientemente para de forma estável para permitir evolução e consciência. Chamar a isto simples coincidência parece-me intelectualmente insuficiente.

É também aqui que se afirma a minha crença no Grande Arquitectom não como um Deus pessoal, interventivo ou religioso. Não como resposta fácil para o que ainda não compreendemos, mas como princípio criador, como a faísca inicial que a ciência descreve nos seus efeitos, mas não explica na sua origem. Algo que não se define plenamente, mas que se intui na ordem, na coerência e na existência de leis que precedem qualquer obra.

O Big Bang mostra-nos que até o tempo teve um início. 
A passagem da química à biologia mostra-nos que a complexidade pode emergir do simples.
A própria existência de método no universo sugere que o acaso puro não explica tudo.

A ciência diz-nos como o universo evolui, descreve processos, identifica padrões e leis.

Acreditar no Grande Arquitecto, para mim, não é abdicar da razão. É reconhecer que a razão, quando levada até ao limite, aponta para algo maior do que ela própria. Não é uma crença imposta, é uma hipótese de sentido que me leva a uma crença consciente. Uma forma de enquadrar o caos aparente numa ordem mais profunda, ainda que parcialmente invisível.

Talvez o verdadeiro trabalho não esteja em provar ou refutar essa ideia, mas em perceber o que ela exige de nós. Se o universo não é caótico, então também o nosso caminho não o deve ser, se houve método na criação, então o método importa na construção de nós próprios.

A questão, no fundo, não é concordar ou discordar, mas sim perceber que, quando se admite uma ordem maior do que aquela que conseguimos medir, o modo como se vive, constrói e escolhe deixa de ser casual. Passa a ser consciente.

João B. M∴M∴


13 dezembro 2025

Greve. O Momento em que o Direito se Esquece do Dever

Em Maçonaria, não discutimos política partidária, mas reflectimos, com a profundidade que o silêncio da Loja permite, sobre as forças que moldam a sociedade onde o Homem vive, trabalha e aperfeiçoa a sua Obra.

A greve, enquanto direito fundamental, é uma dessas forças, expressão da Liberdade, afirmação da Igualdade, busca pela Justiça. Mas, como em tudo o que é humano, também a greve pode afastar-se da sua natureza original quando o seu uso deixa de servir o Homem e passa a servir outros desígnios.

A greve geral da passada quinta-feira convida-nos a essa meditação.



Historicamente, salvo uma única excepção marcada por fortes pressões externas (pré-troika) ao País, todas as greves gerais em Portugal surgiram quando um determinado lado do espectro político se encontrava mais representado no nosso parlamento. Não é este detalhe que importa, o que verdadeiramente nos deve inquietar é a regularidade do padrão, como se a decisão de parar o Trabalho do país obedecesse mais a ritmos de conjuntura política do que à real necessidade da defesa dos trabalhadores.

E isto, a meu ver, revela algo mais profundo:
A Greve, como instrumento nobre que deveria proteger o Trabalhador parece hoje preso a mecanismos que não iluminam, antes obscurecem, interesses não dos trabalhadores, mas de quem vive à conta deles. 
A greve, quando usada como ferramenta de construção, ergue pontes e corrige injustiças, mas quando se transforma em arma de sombra, perde a sua Luz.


A Maçonaria ensina-nos que nenhum direito é absoluto se não estiver equilibrado com o direito do outro. Assim, o direito à greve deve sempre coexistir com o direito ao trabalho, com o direito ao serviço público, com o direito à Harmonia Social.

Tal equilíbrio exige reflexão serena e reforma justa, e, à luz dos nossos princípios, alguns caminhos parecem naturalmente emergir:

1. Que a representação laboral brote do próprio local de trabalho, onde os Homens constroem juntos o seu caminho, e não de vínculos externos que desviam a sua voz. Que os representantes sirvam a empresa e a comunidade que conhecem, e não interesses partidários alheios ao Labor.

2. Que sejam garantidos serviços mínimos universais, porque todos os ofícios são dignos e todos os cidadãos merecem igual protecção, não penso existirem funções mais ou menos importantes, apenas funções com propósitos diferentes.

3. Que nenhuma greve seja decretada sem a voz livre, expressada por voto secreto, daqueles que a irão cumprir, para que a decisão seja justa e não imposta. Que lideres sindicais seguiam a vontade dos trabalhadores e não que lideres sindicais imponham a sua vontade (interesses) aos trabalhadores.

4.  Que nenhum Trabalhador seja tocado pela força nem pela sombra da força, pois a liberdade de consciência é sagrada. E que os piquetes, que actualmente tantas vezes se transformam em instrumentos de intimidação, regressem ao seu propósito legítimo de esclarecer antes da decisão, nunca condicionar no dia da greve, sobretudo se esta foi votada livremente pelos próprios trabalhadores.
 5. Que exista sempre equilíbrio entre o direito de parar e o dever de fazer continuar aquilo que a sociedade não pode deixar de sustentar. E que, nesse equilíbrio, as empresas possam assegurar a continuidade mínima do seu labor, substituindo temporariamente quem está em greve, desde que assumam as contrapartidas justas, para que a protecção do direito não se transforme em prejuízo para o todo, nem a continuidade em injustiça para quem exerce o seu legítimo protesto.

Nada disto diminui o direito à greve, pelo contrário, purifica-o, resgata-o do ruído, devolve-lhe a dignidade e reconduz-lo ao seu papel de instrumento de Justiça. 

Porque, no silêncio sagrado da Loja, compreendemos que o verdadeiro Trabalho não é apenas o que fazemos com as mãos, mas aquilo que procuramos aperfeiçoar na sociedade que deixaremos às gerações que virão.

João B. M∴M∴

06 dezembro 2025

A mesa está posta! Qualquer candidato pode aparecer

Nos últimos dias, voltou à discussão sobre o nosso futuro Presidente da República a ideia de que a Maçonaria apoia determinado candidato, ultimamente com mais ênfase no Almirante Gouveia e Melo. O Fábio respondeu com inteligência no seu “Vamos jantar, Cotrim?, mas parece-me importante clarificar alguns pontos, porque estes equívocos reaparecem sempre que entramos em época eleitoral e acabam por transformar um tema sério numa caricatura conveniente.

A verdade é simples e jamais que explicada, seja neste blogue ou na imprensa. A Maçonaria não apoia candidatos, não apoia partidos e não participa em campanhas. Não deve, não pode e, acima de tudo, não quer fazê-lo. Está tudo inscrito nos landmarksque, desde o século XVIII, determinam que nenhuma Loja pode envolver-se em política partidária ou tomar posições eleitorais. Qualquer Obediência que o fizesse deixaria de ser reconhecida como Maçonaria legítima.

Por isso, em Portugal, falamos apenas de três Obediências sérias. A Grande Loja Regular de Portugal (Maçonaria Regular), o Grande Oriente Lusitano (Maçonaria Irregular) e a Obediência feminina. São estas que seguem as regras, que têm reconhecimento internacional e que respondem perante a tradição iniciática. Depois há muitos grupos de amigos espalhados pelo país que se auto-intitulam “maçonaria”, uns são soberanos, outros simbólicos, outros tradicionais, até pode aparecer um “grupo maçónico do bailinho da Madeira”. Existem dentro da liberdade de associação, claro, mas não representam, de todo, a Maçonaria Universal, nem são reconhecidos por qualquer autoridade maçónica legitimada. Confundir estas realidades distintas é abrir a porta ao ruído e, por vezes, ao oportunismo. Qualquer grupo pode auto-denominar-se maçónico, mas daí até ser reconhecido como tal o caminho é longo e são precisas várias viagens.

Outro ponto que parece sempre surpreender quem vê de fora é que, dentro de uma mesma Loja, podem conviver irmãos com visões políticas radicalmente diferentes. Um pode votar Bloco de Esquerda, outro Chega, outro CDS, outro PS, é indiferente. Trabalham lado a lado, como irmão e no fim da sessão seguem alegremente para junto das suas famílias e amigos. Basta lembrar exemplos como Paulo Portas e Miguel Portas, ou Adriano Moreira e Isabel Moreira, que representam leituras políticas opostas e continuam família. Na Maçonaria, como na vida, as diferenças não anulam a relação, tornam-na mais rica. Estamos aqui para aprender uns com os outros, não para concordar uns com os outros. Como se diz com humor, se todos gostassem do vermelho, o que seria do verde?

Dentro de uma Loja não se discute política partidária, tal como não se discute religião ou futebol. Não porque sejam temas tabus, mas porque despertam paixões que facilmente transformam o racional em irracional. O que se discute são questões universais como liberdade, justiça, dignidade humana, combate à desumanidade, entre muitos outros temas que nos permitem crescer enquanto homens mais justos e um pouco mais perfeitos, como tão bem descrito no texto da nossa Loja sobre o bom standing maçónico

A Maçonaria não elege governos nem nomeia CEOs, trabalha consciências e forma Homens.

Por isso, quando alguém afirma que “a Maçonaria apoia o candidato tal”, está simplesmente a confundir a instituição com a liberdade individual dos seus membros. Se há maçons que apoiam Gouveia e Melo, é porque são cidadãos livres. Se há maçons que simpatizam com Cotrim de Figueiredo, igualmente. E se há maçons que não se revêem em nenhum dos dois, também está correcto. O voto pertence ao cidadão, não ao avental, seja ele de cozinha ou de maçom. Estou seguro que dentro dos apoiantes de qualquer um dos actuais candidatos Presidente da Republica, existem muitos maçons, como existem muitos médicos, jornalistas, professores, canalizadores, o que seja...

No meio disto tudo, há o convite do Fábio. E já que foi lançado, deixo o meu também, não só a Cotrim de Figueiredo, mas estendido a qualquer um que queira sentar-se connosco e conversar de frente. Lá estaremos, seja à esquerda, à direita ou ao centro. Um jantar franco, entre pessoas livres, vale sempre mais do que qualquer suspeição lançada ao longe. Porque, no fim, é sempre mais fácil falar olhando para a pessoa do que discutir fantasmas.



A Maçonaria é um caminho de aperfeiçoamento pessoal, a política, o jogo do poder. Confundi-las dá sempre mau resultado.

João B. M∴M∴ 

29 novembro 2025

Vamos jantar, Cotrim?

Na sequência do meu texto, onde deixei claro que a Maçonaria não vota nem emite opiniões partidárias enquanto instituição, sinto a necessidade de voltar ao tema. Desta vez não o faço por minha iniciativa, mas porque o candidato da Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo, decidiu trazer o fantasma maçónico para o centro da campanha eleitoral. Ao criticar o almirante Gouveia e Melo por eventuais apoios ou almoços com irmãos maçons, Cotrim recorreu a um moralismo que disfarça mal o taticismo político e que merece, da minha parte, uma reflexão e um convite sincero.

Custa muito entender como alguém que lidera um movimento dito liberal, defensor intransigente das liberdades individuais, tenha tanta dificuldade em aceitar um dos pilares da democracia que é a liberdade de associação. Demonizar um grupo de cidadãos apenas por se reunirem, debaterem ou almoçarem não é liberalismo, é exatamente o oposto. A postura ficou evidente quando, no recente frente a frente televisivo, ao ser confrontado com a ubiquidade da Maçonaria na sociedade, o candidato da IL tentou sacudir a água do capote com uma frase que ficará para os apanhados da campanha: "Uso avental, mas na cozinha".

Esta tirada, que pretendia ser espirituosa, revela um desconhecimento constrangedor ou uma má vontade calculada. Recorrer ao velho espantalho do avental para atacar adversários é um truque gasto e indigno de quem promete modernizar Portugal. É uma tática que associo mais a regimes populistas do que a liberais iluminados e cosmopolitas. O que talvez o candidato não saiba, ou finja desconhecer por conveniência, é que a Maçonaria não é um bloco de pensamento único. Existem maçons de todas as tendências políticas e, a julgar pela simpatia que muitas ideias liberais despertam em mim e em muitos que conheço, arrisco dizer que há muitos irmãos que são eleitores do próprio Cotrim.

Ao diabolizar a Ordem com piadas de cozinha e suspeições de "cavalo de Troia", ele não ataca apenas o seu adversário político momentâneo. Insulta também uma parte do seu próprio eleitorado. Insulta homens livres e de bons costumes que acreditam na meritocracia e na liberdade económica, mas que veem agora o seu candidato a cair num preconceito primário. Esta postura levanta uma dúvida legítima sobre a verdadeira natureza política do candidato: será ele um verdadeiro liberal ou apenas um conservador escondido sob uma etiqueta moderna? Um liberal genuíno defende a privacidade e entende que o indivíduo é soberano nas suas escolhas associativas.

Por isso aqui deixo o repto, sem paramentos e sem rituais, apenas como um eleitor que observa a partir da pedra bruta. Vamos jantar, Cotrim? Eu pago a conta. Prometo que não falaremos de teorias da conspiração nem decidiremos o futuro do mundo entre a entrada e a sobremesa. Falaremos apenas sobre Liberdade, Igualdade e Fraternidade, valores que quero acreditar que ainda fazem parte do vocabulário de quem se diz liberal. Talvez nesse jantar descubra que o fantasma que criou não existe e que, para defender a liberdade dos outros, é preciso primeiro libertar a própria mente de preconceitos.

Fábio Serrano, MM

*esse texto não necessariamente reflete a opinião da maçonaria, da RLMAD ou de qualquer outra organização ou associação. Afinal, somos indivíduos livre. 

22 novembro 2025

O Bicho Papão da IA - Inteligência Artificial

Estive há pouco tempo num workshop onde se falou muito sobre IA e aprendi ali uma lição importante. a Inteligência Artificial não substitui a inteligência humana, amplifica-a, para o bem e para o mal. Uma frase ficou-me particularmente na memória, dita por L. Skinner, um dos oradores:

“Not doing bad is not the same as doing good.”

Ou seja: não basta evitar erros; é preciso intenção, critério e propósito. Isto aplica-se que nem uma luva ao uso da IA. Ela não pensa por nós, não sente por nós e muito menos decide por nós.




A IA devolve-nos apenas a qualidade daquilo que lhe damos, se dermos pouco, devolve pouco, se dermos profundidade, devolve profundidade.

Para tentar demonstrar isto de modo claro escolhi um símbolo a nós familiar: a Coluna B. Não para explicar o tema, mas para mostrar como a IA só funciona bem quando a nossa prompt é clara, intencional e contextualizada.

Ex:1. Quando não damos contexto (resultado irrelevante)

Prompt:

“Escreve sobre a Coluna B.”

Output:

"A Coluna B é a segunda coluna de uma tabela ou folha de cálculo, usada para organizar dados e complementar a coluna A."

-  Sem contexto, a IA nem sequer sabe que estamos a falar de Maçonaria.


Ex:2. Quando damos pouco contexto (resultado vago)

Prompt:
“Escreve um parágrafo sobre o significado simbólico da Coluna B em tradições históricas.”

Output:

"A Coluna B surge em algumas tradições como símbolo de sustentação e força, marcando entradas ou momentos cerimoniais."

- Já tem mais um pouco de "sumo", mas continua longe da dimensão que pretendemos.


Ex:3. Quando dizemos que é maçónico (resultado aceitável)

Prompt:

“Explica o significado da Coluna B na Maçonaria, focando-te na sua dimensão de força moral e sustentação do Aprendiz.”

Output:

"Na Maçonaria, a Coluna B representa a força moral que sustenta o Aprendiz no início da sua jornada. Marca a passagem do profano para o trabalho interior, lembrando a necessidade de disciplina e carácter."

Já acerta, mas ainda não chega à profundidade do símbolo.


Ex4. Quando damos contexto completo (resultado verdadeiramente útil)

Prompt:

“Escreve um parágrafo profundo, historicamente fundamentado e simbolicamente rigoroso sobre a Coluna B, ou Boaz, no Rito Escocês Antigo e Aceite praticado em Portugal. Explica a sua origem bíblica no Livro de Rute, a linhagem de Boaz, a ligação ao Templo de Salomão, o significado de ‘em vigor’, as razões pelas quais os Aprendizes se sentam na Coluna do Norte e a relação com fenómenos solsticiais. Evita exageros esotéricos e privilegia uma leitura ética, histórica e humana.”

Output:

"Na Maçonaria no Rito Escocês Antigo e Aceite, a Coluna B, ou Boaz, tem raízes profundas no Livro de Rute, onde Boaz se destaca como homem justo, generoso e fiel, cuja união com Rute originou a linhagem de Jessé, David e, por fim, Salomão. É por isso que, ao erguer o Templo, Salomão nomeia a coluna esquerda como Boaz, “em vigor”, homenageando a rectidão e coragem do seu bisavô. Os Aprendizes sentam-se na Coluna do Norte porque, nos tempos operativos, ali se alinhavam para receber instrução e salário, carregando as pedras imperfeitas que iniciavam o labor. A posição a Norte relaciona-se ainda com fenómenos solsticiais, simbolizando menor luz e maior necessidade de trabalho interior. Assim, Boaz torna-se símbolo de força moral, humildade e perseverança, fundamentos que sustentam o caminho iniciático desde a Antiguidade."

-  Este nível de detalhe só é possível porque o input foi bastante claro. Mas como é lógico tem a ver com o meu input, o input (prompt) de qualquer outra pessoa, trará um resultado diferente.


Resumindo. a IA é uma grande tool, e goste-se ou não se goste veio para ficar. Ela já cá está há muito tempo, os primeiros standards da IA são de 1955 (se não me engano), o que acontece é que ela agora tem a capacidade de ser bastante mais rápida e acessivel para o comum dos mortais.

Usem-na, explorem-na e principalmente, conduzam-na. O futuro é "Human-Led, AI Powered"

Não se esqueçam, que como o malho que desbasta a pedra bruta não trabalha sem mão que o segura e que o cinzel não corrige sem intenção, A IA não produz se nós não a orientarmos.

Quando usada com critério, rigor e propósito, pode elevar, mas nunca substituir,  o trabalho do maçom. 

Não se esqueçam que na IA,  como em maçonaria, é a intenção que faz toda a diferença.

João B. M∴M∴ 

15 novembro 2025

Entre espiões, lojas e fantasmas

Andava eu a vaguear pelas internets, a ler as notícias, até que me deparei com mais um artigo de opinião a anunciar, com dramatismo as “ligações perigosas” entre maçonaria e os nossos serviços secretos. Daquelas notícias que de tempos a tempos, aparecem. Sempre com o mesmo titulo de a maçonaria exercer uma influência excessiva e colocar pessoas no topo.

Podem ler aqui

Pois bem, sejamos justos. Sim, é verdade que nós influenciamos excessivamente. Eu próprio o faço todos os dias. Influenciamos para que consigamos ser melhores, a crescer intelectualmente, a estudar mais, a trabalhar o carácter, a questionar preconceitos, e também a tentar, com maior ou menor sucesso, chegar ao dia de amanhã um degrau acima daquilo que fomos ontem, na nossa caminhada até ao nosso topo.


Se isto é influência excessiva, então assumo a culpa.

O artigo apresenta a “descoberta” de que vários responsáveis do SIS e do SIED, ao longo dos anos, passaram por lojas maçónicas, algo que, aparentemente, é notícia sempre que convém incendiar um pouco o imaginário popular. Recorda também as famosas “lojas de poder”, como a Mozart, a Mercúrio ou a Brasília, num tom entre o policial e o mitológico. Eu aqui tenho que discordar, pois a meu ver, mais poderosa que a RLMAD n5, a minha loja, não há. Mas esta é a minha humilde, mas poderosa opinião. 

O autor diz, por exemplo, que “a maçonaria atrai até os espiões” e que estas lojas tinham “objetivos estratégicos de intervenção social e política”. Acredito nesta parte de atrair espiões, penso que A maçonaria atrai pessoas curiosas, cultas, inquietas, atrai quem procura reflexão, filosofia, ética, simbolismo, camaradagem, silêncio interior e, sim, também debate civilizado.  E até aceito que se diga que debatam políticas, não partidárias, mas politicas importantes para a humanidade, filosóficas, civilizacionais, éticas e sociais, política no sentido clássico, ou seja, aquilo que molda a sociedade e o ser humano.

Agora se entre os maçons, há espiões, médicos, professores, militares, advogados, camionistas ou calceteiros… é porque somos um espelho (imperfeito) da sociedade. Nada mais. Na RLMAD, e isto talvez desiluda os mais ávidos de teorias, não há um único político, mas, nas cento e muitas lojas da maçonaria regular em Portugal, é óbvio que existirá de tudo: presidentes de câmara, secretários de estado, médicos, engenheiros, calceteiro, pedreiros e até desempregado, todos homens livres e de bons costumes.

A maçonaria não escolhe profissões, aceita pessoas.

Há também a velha tese de que a maçonaria vive num reino de sombras, reunindo-se secretamente em lugares misteriosos e maquiavélicos. Reunimo-nos discretamente, sim. Não para esconder algo obscuro, mas porque aquilo que cultivamos exige silêncio, interioridade e foco, é difícil “elevar o espírito” com jornalistas ou lives no Instagram. A discrição protege também os Irmãos da caricatura fácil, num país onde basta dizer “maçonaria” para acender fantasmas e suspeições. Se fôssemos totalmente públicos, autores como o do artigo em questão teriam matéria infinita para reduzir pessoas reais a personagens de conspiração. A discrição não oculta, preserva o essencial e evita que o trabalho humano e interior que fazemos seja transformado em ruído.

Por fim, o artigo conclui com a ideia de que, se o novo diretor do SIED for confirmado, teremos no topo das secretas portugueses vários “maçons adormecidos”. A palavra parece quase ameaçadora, “adormecidos”, como se estivessem prestes a acordar para tomar o país e em vez de Républica de Portugal, se tornasse a Maçonaria de Portugal.

O artigo é, no fundo, a velha narrativa de que a maçonaria é perigosa porque é discreta, que é poderosa porque é diversa, que influencia porque tenta educar e que tem segredos porque cultiva introspecção. Vistas pelo prisma individual de cada maçom, estas ideias até têm verdade:
- A discrição é “perigosa” porque, se se soubesse, o maçom poderia ser ostracizados pela sociedade.
- A diversidade é um poder real, o poder de escutar e aprender com mentes diferentes
- A influência existe, sim, mas é sobre nós próprios, na exigência de estudar e crescer.
- Os “segredos” não passam da nossa introspecção, que é só nossa, de mais ninguém.

A maçonaria regular portuguesa, com todos os seus defeitos e virtudes, continua a ser:

– um espaço de aperfeiçoamento,
– um laboratório de ideias,
– um lugar de tolerância activa,
– uma escola de liberdade,
– e uma comunidade de irmãos que tentam ser melhores do que eram.

Se isso incomoda, talvez o problema não esteja na maçonaria.

João B. M∴M∴ 

08 novembro 2025

Regularidade, a Geometria do Invisível

 


Numa conversa, pós um ágape regado de canhões cheios de pólvora amarela, falou-se sobre Regularidade. É um tópico onde cabem vários temas, o reconhecimento, as constituições, homens e mulheres, o que seja. Para mim, o foco da Regularidade é a crença no GADU, a Fé necessária para que possamos ser maçons.

Resumindo, a Regularidade de que falo não se escreve em papel timbrado, nem se confirma por decreto. Não nasce de um reconhecimento externo, mas sim de uma coerência interna, é o reflexo de algo que vibra no mesmo compasso da Luz, porque um homem pode ser reconhecido por todas as potências do mundo e, ainda assim, ser irregular, se o seu coração não for crente no Grande Arquitecto do Universo.

A Maçonaria, como é sabido, é uma Ordem Iniciática. E toda a iniciação é um ato de fé, não uma fé imposta, nem cega, mas lúcida. A confiança de que há sentido no invisível, ordem no caos, proporção naquilo que os olhos ainda não entendem.

Há quem lhe chame Deus, quem lhe chame Allah, quem lhe chame Javé, ou lhe chame seja o que for ou que lhe decidam chamar. Ele é o Grande Arquitecto do Universo, não é uma figura dogmática, mas o arquétipo da harmonia, o símbolo que torna o nosso trabalho espiritual possível.

É aqui que entra a fé do maçon, sem ela o juramento é apenas uma promessa dita no vazio, sem fé, o rito é teatro e o Templo é o cenário, onde o homem pode repetir as palavras, mas elas não ecoam.

Juramos porque acreditamos. Acreditamos porque reconhecemos, no silêncio do Templo, que há algo maior do que nós. Algo que escuta, que mede, que dá sentido às palavras que pronunciamos. Essa é a diferença entre um contrato e um juramento.

O primeiro vincula homens; o segundo liga almas.

Um juramento maçónico é uma aliança com o princípio da Criação, com o próprio GADU, é o instante em que o homem confia e coloca a sua palavra sob a Luz de algo superior, e meus caros isto só pode ser verdadeiro se houver fé.

Sem ela, o juramento até pode ser formal, mas nunca será sagrado. Pode ter som, mas não eco, pode ter forma, mas nunca alma.

A fé é o que liga a palavra ao espírito, é o que torna o verbo criador, o gesto vivo, o símbolo real, e dá corpo à promessa, tornando a obediência um ato de consciência, nunca de submissão.

Quando um homem jura sobre o Volume da Lei Sagrada, o que está em causa não é o livro, mas sim o que ele representa, pois é o espelho da fé, o elo entre o humano e o divino. Sem fé, são apenas palavras soltas em papel e tinta, com fé, é o alicerce da Regularidade.

A Regularidade não está na forma como seguramos o malhete, nem na ordem dos nossos rituais, mas na presença interior de quem acredita no que faz. Regular é aquele cuja palavra é verdadeira porque vem do espírito; irregular é aquele que repete palavras sem alma, que se ajoelha sem saber porquê.

Por isso, penso que um maçon sem fé é um pedreiro sem prumo, pode levantar muros, mas nunca erguer um Templo, pode trabalhar a pedra, mas não a si mesmo.

A fé é o prumo invisível da alma, e o GADU é o ponto fixo que mantém a geometria do nosso ser. Sem Ele, tudo se desfaz, tudo se relativiza, tudo perde proporção.

No fim, a Regularidade é isto: 
Harmonia entre o que o homem promete e o que o seu espírito acredita.
Harmonia entre o Templo exterior e o Templo interior.
Harmonia entre a palavra e o silêncio que a sustém.

Podem reconhecer-nos ou negar-nos, aceitar-nos ou afastar-nos, mas a verdadeira Regularidade não depende do olhar dos outros, depende apenas do GADU, que vê não o feito, mas a intenção.

A fé no GADU é a geometria do invisível.

João B. M∴M∴ 

01 novembro 2025

A honra de ser o Tesoureiro da RLMAD



O trabalho de Tesoureiro, como qualquer ofício que honra a Ordem, é começar a desbastar a Pedra Bruta. Não se trata de uma simples contabilidade fria, mas de construir a confiança mútua, que deve ser feita com o rigor de quem sabe que um erro pequeno pode comprometer o alicerce da Obra. O Tesoureiro é o guardião da integridade financeira da Loja. Servi aos Irmãos da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues o que é uma honra e uma responsabilidade que carrego com a humildade de quem administra um legado. Esta Loja é um repositório da nossa história, e cada valor é um compromisso tecido na nossa tapeçaria. A dignidade de servir a uma coluna tão antiga exige um rigor que vai além dos débitos e créditos. 

O meu primeiro mandato de tesoureiro revelou que a Pedra Bruta do ofício exige um aperfeiçoamento constante. A gestão do fluxo de quotas, por exemplo, é um exercício que exige escrutínio. Como identificar um depósito feito sob o nome de "Joana", “Maria” ou “L&M LTD” (nomes fictícios)? O Irmão, por distração, usa uma conta de terceiro, e cabe ao Tesoureiro, o arqueólogo do recibo, ligar essa transação à identidade maçônica que lhe corresponde. Herdar a guarda do tesouro implica absorver a gestão anterior, não apenas os valores. Herdamos práticas, métodos de registo e contas de origem que precisam ser desvendadas. Reconciliar o passado com o rigor da nossa tradição exige paciência e, sobretudo, a disciplina de não trabalhar sozinho, consultando sempre a experiência dos obreiros que nos antecederam. 

O passado serve como aprendizado para o futuro, não como obstáculo. Das experiências vividas, extraí três princípios fundamentais que compartilho como aprendizagem para outros Tesoureiros:

Primeiro: A Tesouraria deve ser um sistema. Não confie na memória ou no laço afetivo; confie no registo exato. A clareza documental é o escudo da integridade.

Segundo: É imperioso que o Irmão associe o seu nome à transação para evitar mistérios. O uso de referências únicas é a ponte entre a contabilidade profana e o compromisso exigido pela Loja. 

Terceiro: É fundamental que qualquer depósito ou débito não identificado seja esclarecido o mais rapidamente possível, pois o tempo não facilita a resolução desses “mistérios”. Quanto mais cedo se procurar a origem de um valor, maiores são as probabilidades de o identificar corretamente e evitar equívocos futuros. O Tesoureiro deve, portanto, agir com prontidão, contactando os Irmãos ou cruzando informações logo que surja uma transação duvidosa, garantindo assim a lisura e o rigor exigidos pela função. A reconciliação da conta deve ser feita quase diariamente para evitar acúmulo de erros e trabalho excessivo. 

O trabalho do Tesoureiro é, em sua essência, um ato de confiança entre irmãos. É a prova concreta de que a Fraternidade se sustenta pelo compromisso material de cada um dos seus obreiros. A disciplina da conta é a expressão do respeito que dedicamos ao nosso Templo. Aos Irmãos da RLMAD, o meu profundo agradecimento pela confiança renovada. A reeleição como tesoureiro reflete o bom trabalho realizado. Continuarei a servir com propósito.