29 novembro 2025

Vamos jantar, Cotrim?

Na sequência do meu texto, onde deixei claro que a Maçonaria não vota nem emite opiniões partidárias enquanto instituição, sinto a necessidade de voltar ao tema. Desta vez não o faço por minha iniciativa, mas porque o candidato da Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo, decidiu trazer o fantasma maçónico para o centro da campanha eleitoral. Ao criticar o almirante Gouveia e Melo por eventuais apoios ou almoços com irmãos maçons, Cotrim recorreu a um moralismo que disfarça mal o taticismo político e que merece, da minha parte, uma reflexão e um convite sincero.

Custa muito entender como alguém que lidera um movimento dito liberal, defensor intransigente das liberdades individuais, tenha tanta dificuldade em aceitar um dos pilares da democracia que é a liberdade de associação. Demonizar um grupo de cidadãos apenas por se reunirem, debaterem ou almoçarem não é liberalismo, é exatamente o oposto. A postura ficou evidente quando, no recente frente a frente televisivo, ao ser confrontado com a ubiquidade da Maçonaria na sociedade, o candidato da IL tentou sacudir a água do capote com uma frase que ficará para os apanhados da campanha: "Uso avental, mas na cozinha".

Esta tirada, que pretendia ser espirituosa, revela um desconhecimento constrangedor ou uma má vontade calculada. Recorrer ao velho espantalho do avental para atacar adversários é um truque gasto e indigno de quem promete modernizar Portugal. É uma tática que associo mais a regimes populistas do que a liberais iluminados e cosmopolitas. O que talvez o candidato não saiba, ou finja desconhecer por conveniência, é que a Maçonaria não é um bloco de pensamento único. Existem maçons de todas as tendências políticas e, a julgar pela simpatia que muitas ideias liberais despertam em mim e em muitos que conheço, arrisco dizer que há muitos irmãos que são eleitores do próprio Cotrim.

Ao diabolizar a Ordem com piadas de cozinha e suspeições de "cavalo de Troia", ele não ataca apenas o seu adversário político momentâneo. Insulta também uma parte do seu próprio eleitorado. Insulta homens livres e de bons costumes que acreditam na meritocracia e na liberdade económica, mas que veem agora o seu candidato a cair num preconceito primário. Esta postura levanta uma dúvida legítima sobre a verdadeira natureza política do candidato: será ele um verdadeiro liberal ou apenas um conservador escondido sob uma etiqueta moderna? Um liberal genuíno defende a privacidade e entende que o indivíduo é soberano nas suas escolhas associativas.

Por isso aqui deixo o repto, sem paramentos e sem rituais, apenas como um eleitor que observa a partir da pedra bruta. Vamos jantar, Cotrim? Eu pago a conta. Prometo que não falaremos de teorias da conspiração nem decidiremos o futuro do mundo entre a entrada e a sobremesa. Falaremos apenas sobre Liberdade, Igualdade e Fraternidade, valores que quero acreditar que ainda fazem parte do vocabulário de quem se diz liberal. Talvez nesse jantar descubra que o fantasma que criou não existe e que, para defender a liberdade dos outros, é preciso primeiro libertar a própria mente de preconceitos.

Fábio Serrano, MM

*esse texto não necessariamente reflete a opinião da maçonaria, da RLMAD ou de qualquer outra organização ou associação. Afinal, somos indivíduos livre. 

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