14 julho 2010
07 julho 2010
Retomando o curso...
A sessão e o jantar comemorativo do 20.º aniversário da Loja ocorrerão no próximo sábado, dia 10 de julho.
E pronto! Basta de recordar o passado! Retome-se o regular curso de viver o presente e preparar o futuro!
Este blogue vai assim retomar o seu curso normal. Nas próximas semanas, tenciono responder a algumas questões colocadas pelo Diogo, na sequência de uma sua pergunta e uma resposta minha. Para que quem nos segue possa localizar-se, transcrevo aqui as pergunta e resposta iniciais:
Pergunta: Pode-me explicar uma coisa? Porque é que o olho que tudo vê – símbolo maçónico – aparece nas notas de dólar?
Resposta: Como deverá saber, grande parte dos Pais Fundadores dos Estados Unidos da América foram maçons, designadamente George Washington, que foi Grão-Mestre da Grande Loja do seu Estado e cuja efígie figura na nota de 1 dólar, aquela em que, no verso, está o "olho que tudo vê". Por outro lado, o "olho que tudo vê" é também uma conhecida representação do Criador. E, se reparar, no mesmo lado da nota de dólar onde está essa imagem, está a divisa "In God we trust", divisa adotada pelos USA. Quer pelo significado simbólico religioso, quer pelo significado simbólico maçónico, os criadores da nota de dólar decidiram colocar lá o símbolo. O que demonstra ainda uma outra coisa: nos EUA, a Maçonaria Americana é CRENTE e uma interventora social conhecida e reconhecida, daí que por lá uma coisa como esta seja encarada como natural - e é-o. Essa é uma das razões porque entendo que a Maçonaria Europeia do século XXI, particularmente a Maçonaria Regular Portuguesa deve rejeitar a fama e o (mau) proveito de secretismo, divulgando o que faz, porque faz, como faz e dizendo abertamente o pouco que reserva para si, e porquê - como nós procuramos fazer aqui no A Partir Pedra.
A propósito desta resposta, uma pequena correção: não consegui confirmar que George Washington tenha sido efetivamente eleito Grão-Mestre da Grande Loja da Virgínia (a colónia e, depois, o Estado americano onde residia). Conforme verifiquei na página da História dessa Grande Loja, aquando das diligências para a sua criação, foi sugerido para seu primeiro Grão-Mestre George Washington, mas declinou o convite, em virtude das suas obrigações como Comandante na Guerra da Independência dos Estados Unidos (cfr. aqui) e o primeiro Grão-Mestre da Grande Loja da Virgínia veio a ser, em 1778, John Blair Jr..
George Washington veio, no entanto, a exercer funções de "acting Grand Master" (Grão-Mestre em exercício), isto é, a exercer ritualmente a função de Grão.Mestre em determinada cerimónia, em substituição do Grão-Mestre de ofício, designadamente na cerimónia da Colocação da Primeira Pedra do Capitólio, em 18 de setembro de 1793, cerimónia de que existe o conhecido quadro que se reproduz acima.
Rui Bandeira
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Marcadores: George Washington, Grande Loja, livro
30 junho 2010
19 horas: Grémio Literário; até lá: Eça
Mas reparo que ultimamente tenho enchido o espaço deste blogue com o livro. Temo que os habituais frequentadores deste espaço estejam a ficar fartos. Decidi, pois, compensá-los. A minha associação de ideias é simples: livro, Grémio Literário, literatura, Eça. Para compensar os nossos amigos de tanta referência ao nosso escrevinhamento, nada melhor do que um pouco da arte de um sublime escritor, o meu preferido, o grande José Maria Eça de Queiroz.
Apreciem então este excerto do conto Civilização (que, mais tarde Eça desenvolveria em A Cidade e as Serras):
Assim jantámos deliciosamente sob os auspícios do Zé Brás. E depois voltámos para as alegrias únicas da casa, para as janelas desvidraçadas, a contemplar silenciosamente um sumptuoso céu de verão, tão cheio de estrelas que todo ele parecia uma densa poeirada de ouro vivo, suspensa, imóvel, por cima dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na cidade nunca se olham os astros por causa dos candeeiros - que os ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunhão com o universo. O homem nas capitais pertence à sua casa, ou, se o impelem fortes tendências de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o separa da restante Natureza - os prédios obstrutores de seis andares, a fumaça das chaminés, o rolar moroso e grosso dos ónibus, a trama encarceradora da vida urbana... Mas que diferença, num cimo de monte, como Torges! Aí todas essas belas estrelas olham para nós de perto, rebrilhando, à maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime indiferença, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os nossos... E é impossível não sentir uma solidariedade perfeita entre esses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos são obra da mesma vontade. Todos vivem da ação dessa vontade imanente. Todos, portanto, desde os Úranos até aos Jacintos, constituem modos diversos de um ser único, e através das suas transformações somam na mesma unidade. Não há ideia mais consoladora do que esta - que eu, e tu, e aquele monte, e o Sol que, agora, se esconde são moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se somem as responsabilidades torturantes do individualismo. Que somos nós? Formas sem força, que uma Força impele. E há um descanso delicioso nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se é o grão de pó irresponsável e passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente! Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem ele nem eu sabíamos os nomes desses astros admiráveis. Eu, por causa da maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha trezentos e dezoito tratados sobre astronomia! Mas que nos importava, de resto, que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse José e o outro Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno e em nós havia o mesmo Deus. E se eles também assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num casarão serrano, eles no seu maravilhoso infinito, perfazendo um ato sacrossanto, um perfeito ato de Graça - que era sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante um instante, na consciência, a nossa divinização.
Que maravilha! Há tempos, num diálogo com um nosso leitor e comentador assíduo, perguntava-me ele como concebia eu Deus e eu manifestei-lhe a minha impotência para o fazer. Pois bem, o grande Eça fê-lo com esta beleza toda!
Rui Bandeira
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27 junho 2010
Eleição do Grão Mestre
Decorreu hoje (26 de Junho) a contagem de votos para a eleição do próximo Grão Mestre da GLLP, que será o 6º desde 1990 e consequentemente desde o inicio da maçonaria regular actual.
Foi eleito para o cargo o Muito Respeitavel Irmão José Moreno, que recolheu a maioria dos votos expressos.
O Irmão José Moreno é obreiro efectivo da Loja Mestre Affonso Domingues. Isso deixa-nos muito orgulhosos pois, apesar de nao ser o primeiro GM que militou pela nossa Loja é o primeiro que é eleito sendo membro da Nossa Loja e nela tendo sido iniciado e permanecido desde 1992.
Queremos desejar-lhe um mandato Justo e Perfeito.
Irmão José Moreno, ou melhor MRI Irmao, contas sempre com o nosso apoio.
José Ruah
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Marcadores: GLLP/GLRP, Grão-Mestre, José Moreno
23 junho 2010
30 de junho, 19 horas
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Marcadores: livro
16 junho 2010
Esclarecimento
Meditei sobre o pedido e resolvi que não o faria, pelas razões que abaixo exponho. Mas o respeito pela memória do António Cunha Coutinho e pelos seus familiares determinam que acrescente e publique aqui algumas informações que a senhora entende relevantes. Tão relevantes que, no seu entender, justificariam a retirada do texto de homenagem.
Não retiro o texto, desde logo pela inutilidade do ato, para os objetivos pretendidos pela mencionada familiar. As pessoas poderão não ter a noção da mudança de paradigma, mas, uma vez publicado um texto na Internet, é impossível apagá-lo de todo. No mesmo dia em que o texto foi publicado, foi automaticamente enviado por e-mail para os atuais 238 subscritores desse serviço, foi disponibilizado via Blogger, para os atuais 130 seguidores desse serviço, foi enviado para os atuais 17 seguidores no Facebook. Só no próprio dia 9 de junho, o texto foi acedido por 250 outros leitores deste blogue. E, só nos três dias subsequentes, por mais 564. Algumas destas pessoas têm ligados programas que publicam automaticamente os textos deste blogue nas suas páginas de Facebook. Qualquer destas 1199 pessoas pode ter guardado o texto no seu computador. Seguramente, algumas fizeram-no. Qualquer das pessoas que guardaram o texto pode publicá-lo, difundi-lo. enviá-lo por correio eletrónico, hoje, amanhã, para a semana, daqui por um ou dez anos. Apagar um texto que se publicou na Internet é uma ilusão: o texto "apagado" está. automática ou manualmente guardado num desconhecido número de computadores e bases de dados, apto a ressurgir, ser publicado, disponibilizado, a qualquer momento - independentemente da vontade de quem originalmente o publicou e porventura posteriormente o tivesse "apagado".
Mas também não retiro o texto, porque entendo não ter o dever de o fazer e não ter a vontade de assim proceder. Reli-o cuidadosamente. Em nada afeta a honra e a memória do António Cunha Coutinho. Pelo contrário, é uma homenagem. Mais: uma homenagem feita por quem assumidamente em muito divergia do pensamento, das ideias, das opções do António. O que não impediu de o admirar e de manifestar essa admiração pelo seu caráter. Retirar o texto era retirar a homenagem, trair a admiração e a amizade.
A familiar, se bem percebi viúva, do António baseou o seu pedido em duas informações que me transmitiu: que o António Cunha Coutinho veio a retirar-se da Maçonaria e que, no final da sua vida, expressou claramente a sua profissão de fé católica, tendo-se confessado pouco tempos antes de morrer.
Aqui ficam as informações adicionais e o esclarecimento.
Mas isso não invalida o que publiquei. Todo o maçom pode afastar-se (nós chamamos a isso "adormecer") quando o entender, pelas razões que entender. No caso do António, e estando ciente das convulsões que, no final do século passado, assolaram a Maçonaria Regular, percebo perfeitamente essa sua decisão. Por vezes, o único compromisso possível entre a lealdade pessoal e a manutenção de uma coluna vertebral direita e digna - como sempre o António, concordasse-se ou discordasse-se dele, teve - é o afastamento. E a Maçonaria Regular não só não é incompatível com a fé religiosa, como incentiva os seus membros a praticarem e aprofundarem a sua crença religiosa.
Creio que no espírito da minha interlocutora estará, porventura, o entendimento diverso, isto é, que é incompatível para um católico a integração na Maçonaria. Que considerará tal integração, mesmo, desonrosa. Que revelá-la atenta contra a memória do António.
Obviamente que respeito - só posso respeitar! - o entendimento da senhora. Mas o mesmo respeito obriga-me a consignar que, se for esse o seu entendimento, dele discordo. Muito mais do que alguma vez discordei do António...
Ser maçom não só não é desonroso, como muitos dos maiores vultos da História Universal - e da nossa História - foram maçons. O António bastas vezes me enumerou alguns.
O António esteve na Maçonaria como homem digno e honrado que era. Com o propósito de se aperfeiçoar e de ajudar outros a serem também melhores. O António deixou de estar na Maçonaria quando o entendeu, pelas razões que entendeu, com a mesma dignidade e honradez que sempre o caraterizaram.
Esconder que o António foi maçom é que seria trair a sua memória. Honrá-la é recusar esconder essa sua opção. O António nunca o teria feito: tinha a coluna vertebral bem direita para alguma vez o fazer!
Para quem entender que integrar a Maçonaria é um pecado, fica esclarecido que, se o António pecou, abandonou o pecado! E ser justo não é não pecar, é não persistir no pecado.
Por mim, que persisto e insisto em afirmar a minha admiração pela firmeza de caráter do António, aqui fica então o esclarecimento: o António desvinculou-se da Maçonaria antes de morrer e morreu como, na minha opinião, sempre viveu: como um bom católico!
À senhora que me contactou, não dando cumprimento à sua solicitação, aqui fica a minha explicação e o esclarecimento que julgo devido. Em nome daquilo que, cada um a seu modo, ambos prezamos: a memória do homem bom que foi o António.
Rui Bandeira
Publicado por Rui Bandeira às 12:00 5 comments
Marcadores: In memoriam
09 junho 2010
António Cunha Coutinho, maçom absoluto
Há poucos dias, o José Ruah telefonou-me e perguntou de chofre: "Ouve lá.,ainda podes meter mais um texto no livro? É que acabei de saber que o António Cunha Coutinho já faleceu...".Já não podia. Tinha acabado de rever as provas e de ter dado à gráfica a ordem de impressão. Para além de que as 152 páginas estão já bem preenchidas e com letra pequenina. Mas isso era o menos, retirava um qualquer texto meu e utilizava o espaço para um texto evocativo do António Cunha Coutinho. Mas o que tem de ser tem muita força. É premonitória a passagem da introdução aos textos "In memoriam" em que adverti que a evocação dos Irmãos que já partiram para o Oriente Eterno podia não estar completa, pois podíamos de algum não ter sabido do seu falecimento. Foi mais cedo que mais tarde que se comprovou isso... Pois bem, se não pode já entrar no livro,opta-se pela segunda melhor solução possível: aqui fica a evocação do António Cunha Coutinho.
Na época em que o conheci, andava eu por volta da idade de Cristo, foi talvez o maçom que mais me exasperou! Era um homem tronituantemente conservador, que não perdia uma ocasião, asada ou nem tanto, para alardear o seu conservadorismo. Conservadorismo é uma maneira de dizer... Na época, eu via o António Cunha Coutinho como um ultraconservador, ultramontano e tudo o mais que eu me pudesse lembrar com a palavra ultra...
Para mim, que atingira o que veio a ser a maioridade quando ocorrera a Revolução dos Cravos e vivera aqueles tempos de mudança e de esperança, as ideias do António Cunha Coutinho, em relação às questões políticas, sociais, de costumes, etc., não podiam ser mais contrárias às minhas. O que nunca impediu - acentue-se bem! - prolongadas, amenas e agradáveis cavaqueiras de Irmãos, que conviviam sem problema com as mútuas diferenças.
Certo dia, na sequência de uma das costumadas diatribes que o António se comprazia em debitar, atirei-lhe, provocador: "Ó António, estou a ver que para ti até o Salazar foi um perigoso esquerdista...". O António suspendeu o discurso, esboçou um sorriso malandro, piscou o olho e, baixando a voz, sussurrou-me, cúmplice: "Ora estás a ver como percebeste?". E eu fiquei desarmado!
Com o passar do tempo e a convivência, percebi mais e melhor. Classificar o António Cunha Coutinho de conservador, ultramontano, ou qualquer outro epíteto do género era incorreto e redutor. O António Cunha Coutinho era, tinha orgulho de ser, e mostrava-o a quem quisesse e soubesse ver, bem mais do que isso: era a representação do pensamento do português do antigamente, do Antigo Regime, da velha tradição lusitana! E, quando falo do Antigo Regime, não falo do tempo da Outra Senhora, nem da monarquia. O pensamento do António recuava bem mais atrás, ao tempo do senhor D. Miguel, rei absoluto de Portugal e dos Algarves, d'aquém e d'além mar em África e resto do Mundo! O António era conservador, mas não era só conservador. Era também monárquico, mas não era só monárquico. Era, com todas as letras, miguelista!
Esclareça-se: estamos a falar no plano dos arquétipos, que duvido bem que quem vivia no século XX ainda conseguisse ser um vero miguelista, absolutamente servidor de absoluto rei. Mas o António mostrava orgulhosamente a sua costela miguelista, obviamente monárquica, mas sobretudo tradicional, da tradição rural da linhagem portuguesa, do Portugal de antanho que, para o bem ou para o mal, faz parte das nossas raízes.
Com o tempo, aprendi que as diatribes políticas e sociais do António eram sobretudo um meio de provocar, de expressar de forma propositadamente chocante, que havia e há na nossa lusitana alma caraterísticas que podem não estar na moda, mas que bem andamos em não desprezar: a honra, a fidelidade à palavra dada, a tenacidade, a capacidade de lutar, contra tudo e contra todos, por aquilo em que se acredita, se necessário quebrando, mas nunca torcendo.
Este era o verdadeiro António Cunha Coutinho, o que se escondia por detrás das suas provocações e diatribes. O conservador e ultramontano era o personagem que ciosamente escondia os Valores que só aos mais atentos deixava entrever!
Longas horas de mútuas e bem-dispostas provocações com bonomia passámos e vivemos! E por entre as nossas discordâncias, mais tarde ou mais cedo, lá passava a mensagem do apreço à honra, da verticalidade, dos Valores que o homem que se quer de bem deve, sempre, incansavelmente, cultivar e proclamar - nem que seja de forma provocatória!
Do António Cunha Coutinho todos, os mais novos, nos exasperámos com o acessório e todos, dos mais novos aos mais velhos, nos ilustrámos com o essencial - os Valores que não são de direita, nem de esquerda, nem do passado, nem do futuro, que são de sempre e dos homens de bem.
Naquela época, há cerca de vinte anos, eu já via o António Cunha Coutinho como um velho rijo. Curiosamente, cerca de vinte anos passados, nunca me passou pela cabeça que já não estivesse entre nós. Talvez porque afinal os valores profundos que provocatoriamente transmitia são intemporais.
António Cunha Coutinho era absoluto em tudo: nas ideias políticas, nas diatribes, nos valores. Foi, em absoluto, um maçom digno e um homem de bem. Assim o declaro, proclamo e recordo. Absolutamente!
Rui Bandeira
Publicado por Rui Bandeira às 12:00 0 comments
Marcadores: In memoriam





