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14 fevereiro 2026

A VOLTA DO “TEMPO”... QUE EU NÃO TENHO !

Os últimos textos publicados pelos meus Irmãos Fábio Serrano e João B. sobre o "tempo" reavivaram uma chama que se tem mantido latente a corroer-me o juízo.

É obviamente uma questão pessoal, esta que refiro ter sido reavivada, mas que sendo esta referência meramente pessoal não é mais do que o reflexo de uma das doenças (doença digo eu…) que tem corroído a relação humana tal como a conhecemos, sendo que os mais antigos como eu, a conheceram nos idos dos meados do séc. XX.

Na época a vida conseguia ser bem vivida esperando umas horas, vulgarmente não menos de um dia,  pelas conclusões de uma qualquer reunião importante dos políticos locais, ou pela informação dos vencedores dos Globos de Ouro, ou por… quase tudo !

Falar ao telefone era coisa que se fazia uma vez de 2 em 2 dias, nos pares de dias em que se falava ao telefone. Primeiro era necessário que houvesse um telefone, depois que ele estivesse disponível, depois ainda e mais difícil , que o pretendente interlocutor tivesse ele também aceso a um telefone.

As notícias, agora chama-se informação, sobre um desastre em França eram conhecidas pelo jornal da manhã do dia seguinte. O começo de uma guerra conhecia-se na semana seguinte e o seu fim talvez um mês depois. E vivia-se !

Pergunte-se hoje a uma criança de 6 ou 7 anos como é que se entretém quando está sem aulas… Ou pergunte-se aos Pais dessa mesma criança qual o assunto sobre o qual discorreram durante o jantar…

A televisão é omnipresente, a internet uma necessidade absoluta, as “conversas” pelas correntes ditas sociais desafiam a atenção permanentemente, esteja onde estiver. Com isto e sendo assim, as 24 horas do dia não chegam para todos os “compromissos” ditos “sociais”.

Como contrapartida dos telefonemas de 2 em 2 dias temos hoje 2 ou 3 chamadas em simultâneo no telemóvel, umas em espera da que começou primeiro ou da que o atendente considera prioritária.

E tem de ser assim porque o “tempo” é pouco para se responder ao(s) interlocutor(es). Este retrato da vida diária nesta primeira metade do séc. XXI só peca por cores pouco acentuadas.

Estas referências não são uma queixa, são apenas uma constatação, nada mais do que isso. Não advogo o saudosismo, mas não descarto a crítica ao "atualmente correto". O progresso é bem vindo, sempre. Entretanto convém definir o que é progresso e separá-lo do que são os "gadgets" (palavra horrorosa) que invadiram a vida diária e que sendo isso mesmo, "gadgets", se tornaram indispensáveis e inseparáveis de muitos de nós.

Sobre este assunto (há quem lhe chame “problema”) há centenas de divagações. São muitos, mesmo muitos, os autores de estudos, análises, sugestões, relatos de situações que refletem sobre o tema “tempo”.

Quem não se lembra (dos mais antigos) ou quem nunca viu (e riu) com pedaços do Charlie Chaplin nos “Tempos Modernos”, modernos em 1936… Foi a questão “tempo” da época.

Por outro lado e numa abordagem completamente diferente, que tal entrarmos nas pesquisas atuais do italiano Carlo Rovelli sobre a não existência do “Tempo” ?  Sim, há essa pesquisa e, pelos vistos, essa possibilidade. O Tempo afinal não existe…

Se tal se confirmar todos os atrasados ficam desculpados…

Estando no espaço humano em que nos movimentamos, com horários para trabalhar ou para ir ao espetáculo, ou para ir rapidinho ao supermercado ou para almoçar também rapidinho, ou para ver o programa… ou para entrar na reunião do “zoom”… neste espaço humano é a vida diária que nos apoquenta sobremaneira.

No “A-PARTIR-PEDRA” por maioria de razão é a Humanidade que nos convoca e, nesta, a Família a que damos corpo, existência e participação. E neste mundo assim pequenino da Família, à nossa dimensão, talvez possamos fazer alguma coisa para melhorar a nossa relação com essa 4ª dimensão que afinal, se calhar, nem sequer existe.

Tal como de outras vezes e porque não gosto de reinventar a roda, trago um pequeno vídeo com palavras que obviamente eu não escrevi, mas que, também obviamente, gostaria de ter escrito:


Fica a certeza de que cada um tem à disposição TODO o tempo que existe e que a FELICIDADE não é uma corrida, é um objetivo !

Fevereiro/2026

J.Paiva Setúbal (MM∴)


 

07 fevereiro 2026

Sobre o tempo que deixámos de ter

 O texto recente do Ir∴ Fábio Serrano fez-me parar, não porque seja uma denúncia inédita, mas porque coloca o dedo num ponto que muitos de nós preferimos contornar. A Maçonaria não se tornou menos valiosa, tornou-se mais difícil de habitar. E essa dificuldade não nasce de uma crise moral da Ordem, mas de uma transformação profunda da sociedade onde ela tenta continuar a existir. Entre os vários “ladrões de tempo” que o Fábio identifica, com lucidez, o entretenimento digital, a obsolescência profissional, a paternidade intensiva, o futebol transformado em Big Brother, há um fio comum que atravessa tudo, a erosão do Tempo enquanto espaço habitável.

Vivemos numa sociedade que não apenas ocupa o tempo, mas o fragmenta. O tempo deixou de ser um campo onde se permanece e passou a ser um corredor de passagem. Tudo é feito em trânsito, em simultâneo, em aceleração constante. Já nem o lazer escapa a esta lógica, a juventude de hoje em dia consome os conteúdos acelerados, vídeos a 1.5x ou 2x, não porque sejam longos demais, mas porque a nossa capacidade de espera encolheu. Até o descanso tem de ser eficiente, mensurável, justificável. A pausa precisa de provar que merece existir e o resultado é paradoxal, quanto mais tentamos ganhar tempo, menos sentimos que o temos.



É aqui que o diagnóstico do Fábio ganha peso, quando a Maç,onaria pede tempo, não pede apenas horas numa agenda. Pede Presença. Pede Repetição. Pede Silêncio. Pede uma disponibilidade interior que não produz resultados imediatos nem oferece gratificação instantânea. Num mundo dominado por algoritmos desenhados para gerar estímulos constantes, pedir a alguém que se sente, escute, observe e espere é quase um ato contra-cultural. Não admira que tantos sintam que o custo é elevado e o retorno difuso, não porque o retorno não exista, mas porque já desaprendemos a reconhecê-lo.

O problema, contudo, não é exclusivamente maçónico. É civilizacional. O homem contemporâneo vive com a sensação permanente de estar atrasado. Atrasado para o trabalho, atrasado para a formação, atrasado para a família e principalmente atrasado para si próprio. O tempo livre foi transformado em tempo de sobrevivência, estudar para não ficar obsoleto, treinar para não adoecer, produzir para não cair. Tudo é imediato, tudo é urgente, e quando assim o é, nada pode ser profundo. Quando somos forçados a escolher entre estar presentes com os filhos, garantir a estabilidade profissional ou dedicar-nos a um caminho iniciático exigente, a escolha deixa de ser simbólica e passa a ser ética. A Ordem não perde porque é menos importante, perde porque não quer, nem deve, competir nesse plano.

Talvez por isso a questão central não seja se temos ou não tempo, tempo há e sempre houve. A verdadeira questão é para onde o estamos a entregar e com que critérios. A quem damos o nosso melhor tempo? O mundo moderno não nos rouba o tempo à força seduz-nos, a trocá-lo por fragmentos de distração, por pertenças fáceis, por identidades sem silêncio.

Nesse sentido, a Maçonaria não concorre com o mundo moderno. ela contraria-o. A sua lentidão, o seu ritual, a sua exigência de escuta e repetição não são defeitos de um modelo ultrapassado. São precisamente o que a torna difícil de aceitar numa cultura que desaprendeu a permanecer, talvez seja por isso que incomoda e talvez seja também por isso que continua a ser necessária.

No fim, talvez não vivamos numa sociedade sem tempo. Vivemos numa sociedade que perdeu a coragem de o defender. E enquanto não formos capazes de assumir essa escolha, continuaremos a confundir a falta de tempo com falta de vontade, e a erosão do compromisso com uma suposta inevitabilidade histórica. 

João B. M∴M∴

24 janeiro 2026

O estoque encalhou. É hora de pormos a maçonaria nos saldos?


Tenho refletido muito sobre uma provocação que o meu querido irmão JR me fez recentemente: a de que, a cada dia que passa, a Maçonaria se torna um "produto" menos vendável. Não porque a qualidade da nossa "mercadoria" moral tenha decaído, mas porque o mercado onde operamos sofreu um choque tectónico. A verdade inconveniente é que já não competimos apenas com outras ordens discretas ou clubes de serviço; competimos ferozmente pelo "novo petróleo" dos tempos modernos: a atenção e o tempo dos homens. E nessa economia de escassez, onde a atenção é a moeda mais valiosa e volátil, o nosso modelo de "negócio"exige um investimento temporal altíssimo com retorno difuso e diferido: tudo que está tecnicamente em falência para as novas gerações. 

O cenário é de uma clareza brutal quando olhamos para os "ladrões de tempo" que nos cercam, começando pela colonização digital do nosso lazer. Vivemos na era do entretenimento de "atrito zero", onde o streaming já ultrapassou a televisão linear, capturando 60% do tempo de visualização e impondo uma cultura de binge-watching que normalizou o consumo de blocos de três ou quatro horas de conteúdo de uma assentada. Competimos contra algoritmos desenhados por engenheiros comportamentais para gerar dopamina a cada 15 segundos, enquanto nós oferecemos sessões de leitura de atas e arquiteturas que exigem um tipo de paciência cognitiva que está em vias de extinção. O homem que chega a casa exausto tem à sua disposição, por um valor irrisório, um catálogo infinito de gratificação imediata; convencê-lo a vestir um fato e sair para uma reunião lenta e protocolar tornou-se uma tarefa hercúlea.

Ao mesmo, enfrentamos a tirania da obsolescência profissional, que transformou o tempo livre em tempo de sobrevivência. O conhecimento que garantia uma carreira estável de trinta anos evaporou-se. Alguns dados recentes indicam que a "meia-vida" de uma competência técnica caiu para uns assustadores dois anos e meio. Isto significa que um profissional que não estude continuamente perde metade do seu valor de mercado em menos de três anos. O "terceiro turno" da noite, que outrora pertencia à Loja, foi canibalizado pela necessidade urgente de reskilling e certificações. Para a classe média instruída que historicamente preencheu as nossas Colunas, a escolha entre estudar um ritual do século XVIII ou fazer um curso que garante a manutenção do emprego pende, racionalmente, para a sobrevivência económica.

Mas o maior "ladrão" é, talvez, o mais nobre de todos, tornando a nossa competição moralmente complexa: a paternidade. A figura do pai provedor e ausente é uma relíquia sociológica; hoje, o imperativo é a "paternidade intensiva". As estatísticas são inequívocas: desde 1965, o tempo que os pais dedicam aos cuidados diretos dos filhos mais do que triplicou. E se focarmos no perfil demográfico típico da Maçonaria, homens com formação superior, esse investimento ultrapassa agora as 10 horas semanais de interação focada. O homem moderno não quer apenas "estar"; quer participar, educar e brincar. Quando a Maçonaria o obriga a escolher entre ser um irmão assíduo ou um pai presente, coloca-se numa posição de desvantagem ética onde a Ordem sairá invariavelmente derrotada.

Podemos ainda incluir na lista de ladrões um bónus: o futebol que se industrializou ao ponto de ocupar todo o calendário social. O futebol deixou de ser um passatempo de fim de semana para se tornar uma novela contínua, com a elite a jogar quase 90 partidas por ano e os adeptos a dedicarem mais de 20 horas semanais a consumir, discutir e viver a sua "tribo". O sentimento de pertença, a catarse coletiva e a identidade de grupo que a Maçonaria vendia como exclusivos são agora entregues pelo desporto de forma mais visceral, frequente e com barreiras de entrada muito menores. O adepto encontra no estádio ou no grupo de WhatsApp a comunidade que nós prometemos, mas sem a exigência do estudo ou do silêncio.

É neste cenário inóspito que tentamos vender o nosso "estoque" com um argumento comercial que beira o absurdo: "pagas uma joia cara, para algo que não sabes o que é, que vai competir com a tua sobrevivência profissional e com os teus filhos, e ainda ficas meses ou anos só a escutar". Não surpreende que a retenção seja o nosso calcanhar de Aquiles, com dados a mostrarem que quase 20% dos iniciados abandonam a Ordem nos primeiros três anos (UGLE, 20222). O "cliente" entra, experimenta o produto, compara o custo de oportunidade com a sua vida lá fora e percebe que a conta não fecha. O problema não é o preço da joia ou das quotas; colocar a Maçonaria nos "saldos" financeiros não resolverá nada.

O nosso "estoque encalhou" porque o mundo mudou as regras do comércio de tempo e nós continuamos a operar com a lógica de uma mercearia antiga num mundo de e-commerce instantâneo. O desafio não é cosmético, é existencial. Enquanto não compreendermos que estamos a pedir o ativo mais valioso e escasso do século XXI — tempo — em troca de uma experiência que muitas vezes falha em entregar valor percetível imediato, continuaremos a ver as nossas Colunas a esvaziar. Não por falta de homens bons, mas porque os homens bons estão ocupados a serem bons pais, bons profissionais e a sobreviverem à voracidade de um mundo que não dorme.

Fábio Serrano, MM

Fontes:
  • Samba TV – "U.S. State of Streaming Report" (Outubro 2025).
  • IBM SkillsBuild / World Economic Forum (Future of Jobs Report).
  • Institute for Family Studies (2024) / Pew Research Center.
  • Football Fever Report (AO.com / OnePoll).
  • United Grand Lodge of England (UGLE) – Strategy 2022 and Beyond.


17 janeiro 2026

 

Educação, o que é ?

A influência da Maçonaria na Sociedade é um dos seus objetivos. Uma das suas tarefas mais importantes deve ser a de transmitir à sociedade o enriquecimento interno, pessoal e espiritual que pretendemos obter na nossa vivência maçónica.

A intervenção social é uma das obrigações principais da Maçonaria unindo todos os homens, toda a Humanidade na procura da Felicidade, da Paz, da Alegria, da Liberdade.

É obrigação do Maçon dar testemunho de interesse pelo aperfeiçoamento da Fraternidade Humana.

Hoje dedico aqui algumas linhas à Educação a partir de um evento em que estive há algum tempo, talvez 2 anos (?), mas cuja atualidade é evidente.

Na televisão, nos jornais, nas redes sociais, em todos os suportes de informação onde é possível falar de Educação encontramos um consenso bem generalizado, de facto só contrariado sistematicamente pelos órgãos do governo em funções no momento, seja que governo for, e o consenso é claro, a Educação em Portugal vai mal ou a Educação em Portugal está pior…

A definição de “Educação” que nos interessa aqui é a componente escolar.

De facto, o que se entende por Educação é um conjunto de variáveis nas quais se inclui o “ensino escolar”, mas esse é apenas e só apenas, um dos componentes da Educação, quiçá não o mais importante. Mas é exatamente esse o componente mais referido e vulgarmente o único, que é avaliado quando se fala de Educação.

A Escola não é o único fornecedor de Educação, nem sequer o principal, mas é o mais em evidência por maior facilidade de localização física.

A escola é aquilo, está ali… O professor é aquele, está ali também…  É muito fácil encontrar um e outro.

Neste curto pensamento é exatamente a este componente da Educação que me refiro e é a este apenas, porque é o mais atacado, direi que, na maior parte das vezes, injustiçado.

A escola não funciona, o professor é mau…

Não se faz referência, ou raramente se faz referência, à qualidade do aluno e principalmente à qualidade dos Pais (Encarregados de Educação) do aluno. E no entanto, a meu ver, é a estes que cabe a componente mais importante do conjunto que é a Educação.

Neste meu interesse momentâneo quero dar visibilidade, a que consigo dar, a alguém que sabe do assunto e que muito tem pensado e escrito sobre o tema, com a visão muito clara de que não há “ensinar” sem haver “aprender”.

É esta dicotomia que é tratada na escola sendo claro que Professor e Aluno são, devem ser, uma unidade e não elementos separados do “eu ensino” e “tu aprendes se quiseres”. Se o aluno não aprender o professor também não ensina. Não há um sem o outro.

Esta tem sido uma das preocupações do Professor Jorge Rio Cardoso, plasmada no conjunto da sua obra “Bora Lá…”. É um conjunto de livros pensado para a Escola, para os Alunos e para os Pais (Encarregados de Educação).

Estivemos no lançamento de um desses livros e registamos o que foi dito pelos intervenientes. Divido convosco o final da lição dada na altura pelo professor J.R.C.

(Chamo a atenção para a qualidade da imagem cuja recolha ficou muito deficiente. Mesmo assim resolvi pô-la porque o que de facto interessa aqui são as palavras. E essas são bem percetíveis).

J.Paiva Setúbal (MM:.)

10 janeiro 2026

A Arteriosclerose de uma loja



Antes de tudo, convém assentar uma pedra angular: não escrevo estas linhas para defender o abandono do ritual ou a negligência dos nossos regulamentos. Pelo contrário, sou um fervoroso defensor de que a forma protege o conteúdo. O ritual é a moldura que permite à Loja operar num tempo e espaço sagrados, distintos do profano. Eu não proponho a anarquia, mas a vitalidade. Não questiono a regra, mas o "preciosismo cego" que, sob o pretexto de zelar pela perfeição, acaba por assassinar o espírito real da fraternidade.

Na medicina, a arteriosclerose refere-se ao endurecimento das artérias. As paredes, que deveriam ser flexíveis para permitir a circulação do sangue, tornam-se rígidas, estreitas e, eventualmente, bloqueiam o fluxo, levando à morte do tecido ou à falha do órgão. Na Loja, enfrentamos um risco semelhante. Quando o foco de uma sessão se desvia do aprimoramento moral e do calor da fraternidade para uma discussão vazia sobre a vírgula de uma ata ou o alinhamento preciso de um objeto que não afeta o andamento dos trabalhos ou a prática da verdadeira Maçonaria, estamos a sofrer de uma arteriosclerose ritualística.

O ritual deve ser uma ferramenta de trabalho, não uma mordaça. Se um Irmão comete um deslize formal, o ambiente de harmonia deveria permitir integrar e corrigir com discrição ou explicar pedagogicamente por que fazemos as coisas de determinada maneira. Muitas vezes, o que defendemos como regra máxima é apenas uma tradição oral que se fixou numa memória de trabalho local. Castigar um Irmão por algo que sequer está escrito é contraproducente e gera uma desarmonia que nos afasta do verdadeiro propósito da reunião.

Nós não nos reunimos para prestar culto à burocracia; reunimo-nos para nos tornarmos homens melhores. Se a sessão termina e os Irmãos saem mais exaustos do que inspirados, se saem mais distantes uns dos outros devido a picuices formais, então falhámos na nossa principal tarefa. O rigor é essencial, mas deve ser imbuído de humanidade. As nossas veias maçónicas precisam de ser flexíveis o bastante para aceitar as imperfeições humanas, permitindo que a fraternidade flua sem obstáculos. Assim, ao soar o malhete de encerramento, garantiremos que cada um saia do Templo mais justo e feliz do que quando entrou.


Fábio Serrano, M∴ M∴



25 dezembro 2025

Um Bom Natal

O Natal é, antes de tudo, uma pausa. Um momento em que a luz volta a ganhar espaço, mesmo quando os dias ainda são curtos.

É tempo de recolhimento, de silêncio útil, de olhar para dentro e perceber o que ficou por trabalhar, o que foi bem talhado e o que ainda pede paciência, método e tempo. Nenhuma obra se faz de um dia para o outro, e as mais importantes raramente se veem à primeira vista.

Que este Natal seja simples. Com poucos excessos e principalmente, com sentido.

Que haja luz suficiente para orientar o caminho, firmeza bastante para continuar a trabalhar e humildade para reconhecer que todos estamos ainda em construção.

Aos que caminham connosco, aos que vieram antes e aos que virão depois, desejo um Natal sereno, consciente e verdadeiro.

Boas Festas. 



20 dezembro 2025

O Inexplicável, explicável!

A ciência ensinou-nos que o universo teve um início, o Big Bang, uma expansão primordial onde nasceram o espaço, o tempo e as leis que ainda hoje regem todo o conhecido. Muito mais tarde, nesse mesmo universo aparentemente indiferente, a matéria inerte deu um salto improvável, uma faísca, a química transformou-se em biologia, e a vida começou.

Estes factos não diminuem o mistério. Pelo contrário, ampliam-no.



Dos trilhões de combinações possíveis, num universo vasto e silencioso, as condições para a vida na Terra alinharam-se, um euromilhões galáctico. Não por uma vez apenas os números se acertaram, mas sim o suficientemente para de forma estável para permitir evolução e consciência. Chamar a isto simples coincidência parece-me intelectualmente insuficiente.

É também aqui que se afirma a minha crença no Grande Arquitectom não como um Deus pessoal, interventivo ou religioso. Não como resposta fácil para o que ainda não compreendemos, mas como princípio criador, como a faísca inicial que a ciência descreve nos seus efeitos, mas não explica na sua origem. Algo que não se define plenamente, mas que se intui na ordem, na coerência e na existência de leis que precedem qualquer obra.

O Big Bang mostra-nos que até o tempo teve um início. 
A passagem da química à biologia mostra-nos que a complexidade pode emergir do simples.
A própria existência de método no universo sugere que o acaso puro não explica tudo.

A ciência diz-nos como o universo evolui, descreve processos, identifica padrões e leis.

Acreditar no Grande Arquitecto, para mim, não é abdicar da razão. É reconhecer que a razão, quando levada até ao limite, aponta para algo maior do que ela própria. Não é uma crença imposta, é uma hipótese de sentido que me leva a uma crença consciente. Uma forma de enquadrar o caos aparente numa ordem mais profunda, ainda que parcialmente invisível.

Talvez o verdadeiro trabalho não esteja em provar ou refutar essa ideia, mas em perceber o que ela exige de nós. Se o universo não é caótico, então também o nosso caminho não o deve ser, se houve método na criação, então o método importa na construção de nós próprios.

A questão, no fundo, não é concordar ou discordar, mas sim perceber que, quando se admite uma ordem maior do que aquela que conseguimos medir, o modo como se vive, constrói e escolhe deixa de ser casual. Passa a ser consciente.

João B. M∴M∴


22 novembro 2025

O Bicho Papão da IA - Inteligência Artificial

Estive há pouco tempo num workshop onde se falou muito sobre IA e aprendi ali uma lição importante. a Inteligência Artificial não substitui a inteligência humana, amplifica-a, para o bem e para o mal. Uma frase ficou-me particularmente na memória, dita por L. Skinner, um dos oradores:

“Not doing bad is not the same as doing good.”

Ou seja: não basta evitar erros; é preciso intenção, critério e propósito. Isto aplica-se que nem uma luva ao uso da IA. Ela não pensa por nós, não sente por nós e muito menos decide por nós.




A IA devolve-nos apenas a qualidade daquilo que lhe damos, se dermos pouco, devolve pouco, se dermos profundidade, devolve profundidade.

Para tentar demonstrar isto de modo claro escolhi um símbolo a nós familiar: a Coluna B. Não para explicar o tema, mas para mostrar como a IA só funciona bem quando a nossa prompt é clara, intencional e contextualizada.

Ex:1. Quando não damos contexto (resultado irrelevante)

Prompt:

“Escreve sobre a Coluna B.”

Output:

"A Coluna B é a segunda coluna de uma tabela ou folha de cálculo, usada para organizar dados e complementar a coluna A."

-  Sem contexto, a IA nem sequer sabe que estamos a falar de Maçonaria.


Ex:2. Quando damos pouco contexto (resultado vago)

Prompt:
“Escreve um parágrafo sobre o significado simbólico da Coluna B em tradições históricas.”

Output:

"A Coluna B surge em algumas tradições como símbolo de sustentação e força, marcando entradas ou momentos cerimoniais."

- Já tem mais um pouco de "sumo", mas continua longe da dimensão que pretendemos.


Ex:3. Quando dizemos que é maçónico (resultado aceitável)

Prompt:

“Explica o significado da Coluna B na Maçonaria, focando-te na sua dimensão de força moral e sustentação do Aprendiz.”

Output:

"Na Maçonaria, a Coluna B representa a força moral que sustenta o Aprendiz no início da sua jornada. Marca a passagem do profano para o trabalho interior, lembrando a necessidade de disciplina e carácter."

Já acerta, mas ainda não chega à profundidade do símbolo.


Ex4. Quando damos contexto completo (resultado verdadeiramente útil)

Prompt:

“Escreve um parágrafo profundo, historicamente fundamentado e simbolicamente rigoroso sobre a Coluna B, ou Boaz, no Rito Escocês Antigo e Aceite praticado em Portugal. Explica a sua origem bíblica no Livro de Rute, a linhagem de Boaz, a ligação ao Templo de Salomão, o significado de ‘em vigor’, as razões pelas quais os Aprendizes se sentam na Coluna do Norte e a relação com fenómenos solsticiais. Evita exageros esotéricos e privilegia uma leitura ética, histórica e humana.”

Output:

"Na Maçonaria no Rito Escocês Antigo e Aceite, a Coluna B, ou Boaz, tem raízes profundas no Livro de Rute, onde Boaz se destaca como homem justo, generoso e fiel, cuja união com Rute originou a linhagem de Jessé, David e, por fim, Salomão. É por isso que, ao erguer o Templo, Salomão nomeia a coluna esquerda como Boaz, “em vigor”, homenageando a rectidão e coragem do seu bisavô. Os Aprendizes sentam-se na Coluna do Norte porque, nos tempos operativos, ali se alinhavam para receber instrução e salário, carregando as pedras imperfeitas que iniciavam o labor. A posição a Norte relaciona-se ainda com fenómenos solsticiais, simbolizando menor luz e maior necessidade de trabalho interior. Assim, Boaz torna-se símbolo de força moral, humildade e perseverança, fundamentos que sustentam o caminho iniciático desde a Antiguidade."

-  Este nível de detalhe só é possível porque o input foi bastante claro. Mas como é lógico tem a ver com o meu input, o input (prompt) de qualquer outra pessoa, trará um resultado diferente.


Resumindo. a IA é uma grande tool, e goste-se ou não se goste veio para ficar. Ela já cá está há muito tempo, os primeiros standards da IA são de 1955 (se não me engano), o que acontece é que ela agora tem a capacidade de ser bastante mais rápida e acessivel para o comum dos mortais.

Usem-na, explorem-na e principalmente, conduzam-na. O futuro é "Human-Led, AI Powered"

Não se esqueçam, que como o malho que desbasta a pedra bruta não trabalha sem mão que o segura e que o cinzel não corrige sem intenção, A IA não produz se nós não a orientarmos.

Quando usada com critério, rigor e propósito, pode elevar, mas nunca substituir,  o trabalho do maçom. 

Não se esqueçam que na IA,  como em maçonaria, é a intenção que faz toda a diferença.

João B. M∴M∴ 

01 novembro 2025

A honra de ser o Tesoureiro da RLMAD



O trabalho de Tesoureiro, como qualquer ofício que honra a Ordem, é começar a desbastar a Pedra Bruta. Não se trata de uma simples contabilidade fria, mas de construir a confiança mútua, que deve ser feita com o rigor de quem sabe que um erro pequeno pode comprometer o alicerce da Obra. O Tesoureiro é o guardião da integridade financeira da Loja. Servi aos Irmãos da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues o que é uma honra e uma responsabilidade que carrego com a humildade de quem administra um legado. Esta Loja é um repositório da nossa história, e cada valor é um compromisso tecido na nossa tapeçaria. A dignidade de servir a uma coluna tão antiga exige um rigor que vai além dos débitos e créditos. 

O meu primeiro mandato de tesoureiro revelou que a Pedra Bruta do ofício exige um aperfeiçoamento constante. A gestão do fluxo de quotas, por exemplo, é um exercício que exige escrutínio. Como identificar um depósito feito sob o nome de "Joana", “Maria” ou “L&M LTD” (nomes fictícios)? O Irmão, por distração, usa uma conta de terceiro, e cabe ao Tesoureiro, o arqueólogo do recibo, ligar essa transação à identidade maçônica que lhe corresponde. Herdar a guarda do tesouro implica absorver a gestão anterior, não apenas os valores. Herdamos práticas, métodos de registo e contas de origem que precisam ser desvendadas. Reconciliar o passado com o rigor da nossa tradição exige paciência e, sobretudo, a disciplina de não trabalhar sozinho, consultando sempre a experiência dos obreiros que nos antecederam. 

O passado serve como aprendizado para o futuro, não como obstáculo. Das experiências vividas, extraí três princípios fundamentais que compartilho como aprendizagem para outros Tesoureiros:

Primeiro: A Tesouraria deve ser um sistema. Não confie na memória ou no laço afetivo; confie no registo exato. A clareza documental é o escudo da integridade.

Segundo: É imperioso que o Irmão associe o seu nome à transação para evitar mistérios. O uso de referências únicas é a ponte entre a contabilidade profana e o compromisso exigido pela Loja. 

Terceiro: É fundamental que qualquer depósito ou débito não identificado seja esclarecido o mais rapidamente possível, pois o tempo não facilita a resolução desses “mistérios”. Quanto mais cedo se procurar a origem de um valor, maiores são as probabilidades de o identificar corretamente e evitar equívocos futuros. O Tesoureiro deve, portanto, agir com prontidão, contactando os Irmãos ou cruzando informações logo que surja uma transação duvidosa, garantindo assim a lisura e o rigor exigidos pela função. A reconciliação da conta deve ser feita quase diariamente para evitar acúmulo de erros e trabalho excessivo. 

O trabalho do Tesoureiro é, em sua essência, um ato de confiança entre irmãos. É a prova concreta de que a Fraternidade se sustenta pelo compromisso material de cada um dos seus obreiros. A disciplina da conta é a expressão do respeito que dedicamos ao nosso Templo. Aos Irmãos da RLMAD, o meu profundo agradecimento pela confiança renovada. A reeleição como tesoureiro reflete o bom trabalho realizado. Continuarei a servir com propósito.    

 

08 outubro 2025

O Diário do Aprendiz - lançamento do meu livro



Meus queridos irmãos e demais leitores do A Partir Pedra

É com muita emoção que escrevo este post para falar do lançamento do meu livro “O Diário do Aprendiz”. Publicado em junho de 2025, o livro conta a história de Uri, um jovem judeu que abandona uma vida confortável para trabalhar nas obras do grande Templo de Salomão. Durante sua jornada, Uri documenta cada aprendizagem em seu diário e percebe que nunca mais será o mesmo.

“O Diário do Aprendiz” é uma leitura muito útil aos aprendizes de todas as lojas e uma preparação para os demais graus. Ao mesmo tempo que não revela nenhum segredo maçónico, o livro traz questionamentos e analogias a vida diária de todos os irmãos.

Compartilho convosco um dos capítulos do livro, que pode ser encontrado para venda na Amazon nos seguintes links:

- Portugal: https://amzn.eu/d/cppGh8Z 

- Brasil: https://a.co/d/ftqXO2e 

- Estados Unidos: https://a.co/d/itprtpU 


18º Dia do Mês de Nisan, no primeiro ano da Grande Obra.

Capítulo 4: A Régua, o tempo e a medida

 
"Minhas mãos já sentem a confiança do trabalho com o malho e o esquadro. As faces de minha pedra bruta, antes tão caóticas, agora exibem ângulos retos e superfícies que começam a se alinhar. Sinto a satisfação de ver a forma emergir da massa informe. Mas, como o Mestre sempre me lembra, a cada estágio da Obra, uma nova lição se apresenta.

Hoje, ele me entregou uma régua simples, de madeira, dividida em 24 partes. "É a régua, Uri", disse ele. "Sua função é medir, sim. Mas sua maior lição é sobre o tempo."

Eu olhei para a régua, perplexo. "O tempo, Mestre? Mas não usamos o sol ou as clepsidras para isso?"
"Usamos. Mas esta régua ensina a medir o tempo de uma forma diferente. Cada uma de suas 24 partes representa uma hora do dia, e nos lembra de como devemos dividir nosso tempo para a Grande Obra." Ele continuou desenhando na terra com a ponta da régua. "O Aprendiz deve dedicar oito horas ao trabalho para Deus e para a Grande Obra, oito horas para seu sustento e oito horas para o descanso e a contemplação."

Pareceu-me um rígido controle. "Oito horas para o trabalho... e oito para o descanso? Mas há tanto a ser feito!"

"E há tempo para tudo, Uri. O descanso é tão fundamental quanto o trabalho, para que a mente e o corpo possam se renovar. A contemplação é tão vital quanto o esforço físico, para que a alma possa crescer. A régua te ensina a medir não apenas as dimensões da pedra, mas as dimensões da tua própria vida. A não desperdiçar o tempo, pois ele é o material mais precioso de qualquer construção."

Ele enfatizou a importância de cada momento. "O tempo é teu. Não estamos em uma corrida. Aprende a saborear cada aprendizado, cada ritual e cada convivência, pois cada elemento tem sua importância e potencial para transformar-te. Se usares teu tempo com sabedoria, encontrarás a paz de espírito em cada fase da vida."

As palavras do Mestre ecoaram em minha mente. Eu havia me apressado, preocupado em desbastar a pedra o mais rápido possível, sem me dar conta de que o processo era tão importante quanto o resultado. A régua de 24 partes não era apenas uma ferramenta de medida; era um mapa para a vida equilibrada, um convite à prudência e à valorização de cada instante.

Em meu diário, registro que a régua de 24 partes é a ferramenta da sabedoria temporal. Ela me ensina que o tempo é o recurso mais valioso, e que sua boa administração é essencial para a construção de uma vida plena. O Aprendiz aprende a medir o tempo com precisão; e, ao fazê-lo, aprende a medir o valor de cada momento em sua própria jornada.”


Fábio Serrano, M∴M∴

20 setembro 2025

O método iniciático

 Desde tempos imemoriais, o ser humano tenta aprender e ensinar sobre os mais variados temas. Essa postura tem sido crucial para a constante evolução das ciências, sejam elas naturais, humanas ou matemáticas.




Cada ciência tem os seus métodos de ensino, e cada tema pode ter o seu próprio. A maçonaria, não sendo uma ciência, também possui um método de aprendizagem para atingir um dos seus principais objetivos: o aperfeiçoamento dos II. Embora tenha pesquisado diversas fontes, nenhuma me convenceu plenamente de que aquele era o verdadeiro método de ensino maçónico. Talvez seja algo único ou, então, a minha pesquisa não foi suficientemente exaustiva para lhe dar um nome.


Assim, vou tentar explicar em que consiste o método e os papéis de cada um dos envolvidos. Para simplificar, o Ap é aquele que aprende, e o M é aquele que ensina. Na prática, todos somos aprendizes, independentemente do nosso grau, mas para este texto, partimos do princípio de que o Ap é o aluno.


O método é simples, mas trabalhoso, e pode ser dividido em três fases:

  1. Pesquisa e reflexão inicial (procurar): O Ap explora um tema que lhe desperta curiosidade. Pode ser um conceito de um livro ou um instrumento de cantaria. Ele aprofunda o seu conhecimento pesquisando em várias fontes. A internet e a IA podem ser boas aliadas, mas é preciso cautela, pois podem levar a enganos. No final, o Ap deve fazer uma primeira reflexão para iniciar a próxima fase.
  2. Trabalho escrito (interiorizar): As reflexões da pesquisa devem ser compiladas num texto a ser apresentado a todos os II. O texto deve ser objetivo e sucinto para que o tempo de apresentação seja breve e o tempo de discussão seja maior. Nesta fase, o I V ou o V podem orientar o Ap.
  3. Apresentação (aperfeiçoar): O trabalho é apresentado à loja. Após a apresentação, os II MM dão críticas construtivas para melhorar o que foi apresentado. Esta fase é essencial para aprimorar o trabalho e interiorizar os valores em todos os II.



Neste processo, cada um tem o seu papel e as suas motivações:

O Aprendiz:

  • Procura o tema de estudo (que também pode ser sugerido por um M);
  • Pesquisa usando várias fontes;
  • Elabora o trabalho;
  • Apresenta;
  • Escuta e interioriza as críticas construtivas;
  • Revê e amadurece os conceitos e valores trabalhados.

O Mestre:

  • Orienta o Ap;
  • Sugere fontes e explica o que sabe sem dogmatismos (conceitos incontestáveis);
  • Promove o pensamento autónomo no Ap;
  • Estimula o debate;
  • Avalia o processo de desbaste da pedra bruta do Ap.


Este método é valorizado nas L, mas nem sempre é seguido à risca. Muitas vezes, o debate prossegue no ágape, onde todos podem discutir à vontade. As regras de debate nas L não o reprimem, mas sim, promovem a ordem e o respeito entre II, permitindo que um I de cada vez fale.

De forma muito pessoal, penso que se o objetivo for cumprido e a pedra bruta ficar um pouco mais cúbica, qualquer método é válido.

É assim que se aprende e se ensina na RL Mestre Affonso Domingues e, até agora, tem corrido bem e concretiza que continuará a correr bem.


D∴ G∴ 

13 setembro 2025

A Minha Maçonaria não tem de ser a tua



In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas.

 


Cada um de nós chega à Loja com a sua história, o seu ritmo, a sua própria música interior. E embora sigamos a mesma pauta, o Rito, os Landmarks, os símbolos que nos unem, a forma como cada um vive a Maçonaria não será, nem deve ser, igual. E isso, para mim, não é um problema. É uma riqueza.

É esta riqueza que prova que a Maçonaria não é uma linha de montagem de homens iguais, mas uma oficina onde cada um talha a sua pedra com ferramentas próprias, marcando no silêncio o compasso da sua jornada. Essa diversidade de caminhos ilumina as mesmas verdades a partir de ângulos diferentes, revelando detalhes que um olhar único jamais veria. Se todos pensássemos igual, a Loja seria um eco oco. 

É no encontro das diferenças que encontramos novas luzes.

A minha forma de estar não é mais certa do que a de qualquer outro irmão, mas também não é mais errada. É minha e apenas a minha. Moldada por experiência, erro, persistência e sonho. Pode ser diferente, mas não deixa de caber dentro dos mesmos princípios que nos sustentam. 

Vejo a Loja como um templo vivo, onde a palavra circula, se debate e se aprimora.
Onde a iniciativa é combustível
e a crítica construtiva é maço e cinzel. 

E, tal como valorizo o impulso de inovar, reconheço também que há práticas que, justamente por terem resistido ao tempo, são pilares que devemos preservar. O segredo está no equilíbrio, mudar o que precisa de mudança, guardar o que merece ser guardado.

Com o tempo, aprendi que as ideias têm destinos tão diversos como as pedras no leito de um rio. Algumas são acolhidas como chuva que faz florescer o terreno, outras são lapidadas pelo debate, ganhando forma e brilho. Mas há também as que se perdem à margem, não por falta de valor, mas por seguirem um curso diferente do habitual. O desconhecido, por vezes, assusta mais do que o imperfeito. 

É natural que nem todos avancem no mesmo passo, cada um vive a Maçonaria na medida da sua entrega e disponibilidade. O que importa é que, quando caminhamos, o façamos na mesma direcção.

Acredito que, em Loja, ser Oficial não é um trono, é um banco de trabalho. O próprio Ritual lembra que “Oficial” é, simplesmente, quem tem a seu cargo um serviço, não um título honorífico ou uma posição de hierarquia militar. Servir a Oficina é facilitar o trabalho de todos, não controlar cada golpe de maço. 

A pergunta deve apenas ser: “Isto serve a Loja e a Ordem?”.
Se servir, a Loja deve trabalhar em uníssono para lhe dar forma.
Se não servir, ainda assim terá cumprido a sua função: a de nos ensinar algo no processo.

Não defendo uma Maçonaria sem forma nem disciplina, sem elas, o templo cai, mas também não defendo uma Maçonaria que confunda unidade com uniformidade, ou prudência com paralisia. Há quem viva à sombra do que já foi feito, temendo qualquer risco. Eu creio que a tradição não é um cofre onde se guarda o passado, mas uma tocha que se passa para iluminar o caminho adiante.

No fim, cada um talha a sua pedra. Não serão todas iguais, nem precisam ser. 
Se a minha Maçonaria não tem de ser a tua, é porque a nossa é suficientemente vasta para acolher visões diferentes que, juntas, se elevam num templo maior do que cada um de nós.

É a aceitação da imperfeição de todas as pedras que torna o Templo justo e perfeito.

João B. M∴M