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15 agosto 2026

O Sol esteve sempre lá!

Na passada quarta-feira, dia 12, como muitos outros portugueses, parei para observar o eclipse do Sol. É algo que normalmente só vemos acontecer noutros sítios, mas desta vez calhou-nos a nós. Há mais de um século que não se via algo assim por terras lusitanas, o anterior aconteceu em 1912. O próximo? Teremos de esperar até 2144 para voltar a ter um eclipse total do Sol em território português, ou seja, segundo a lei da vida, será algo único para nós.




Sendo algo tão raro, todos quisemos observar a Lua a avançar lentamente sobre o Sol e depois a deixá-lo para trás novamente. Algo lógico, conhecido e perfeitamente explicado do ponto de vista astronómico, mas, fazendo um dos nossos paralelismos, notamos que o Sol continuou exatamente onde sempre esteve, com a mesma dimensão e a produzir a mesma luz. Não perdeu intensidade, não se apagou e não desapareceu. Apenas, e durante algum tempo, alguma coisa se colocou entre o Sol e nós.

Para quem é maçom e sabe que a Luz assume um significado muito importante na nossa Ordem, penso que não será difícil encontrar aqui matéria para alguma reflexão. Falamos muitas vezes da procura da Luz, de caminhar em direção à Luz, de a receber e de procurar compreender aquilo que ela representa. É natural que pensemos nessa Luz como algo que ainda não temos e que, através do conhecimento, do trabalho e do nosso próprio aperfeiçoamento, procuramos alcançar.

Mas talvez, algumas vezes, o problema não seja encontrar a Luz. Talvez seja perceber aquilo que se colocou entre ela e nós.

No eclipse é evidente, conhecido, estudado e calculado, é a Lua. Sabíamos porque estava ali e sabíamos que continuaria o seu percurso. Mesmo quando grande parte do Sol deixou de ser visível, ninguém pensou que ele tivesse desaparecido, só tínhamos de esperar que a Lua continuasse o seu caminho e saísse da sua frente.

Na nossa vida as coisas não são tão facilmente identificáveis. Entre nós e aquilo que procuramos ver podem colocar-se o orgulho, a vaidade, os preconceitos, a intolerância, o medo de reconhecer um erro, as nossas certezas ou simplesmente a convicção de que já sabemos aquilo que precisamos de saber. E nenhuma dessas coisas altera a realidade que existe do outro lado, altera apenas a forma como nós conseguimos vê-la.

O mais difícil talvez seja perceber que alguma coisa se colocou à nossa frente. É relativamente fácil reconhecer os preconceitos dos outros, as certezas dos outros ou as vaidades dos outros, mas muito mais difícil é identificar as nossas, sobretudo porque continuamos a olhar para aquilo que temos diante de nós convencidos de que o vemos exatamente como ele é. A Alegoria da Caverna de Platão é, a propósito, uma boa leitura. Durante o eclipse sabíamos que a luz estava tapada, na vida nem sempre temos essa consciência.

Foi essa ideia que me ficou daquele eclipse. Durante algum tempo parecia que o Sol estava a desaparecer, quando na realidade nada tinha mudado nele. A alteração estava apenas entre o Sol e eu. Depois, a Lua continuou naturalmente o seu percurso e fomos voltando a ver aquilo que tinha estado oculto. E o Sol não regressou! Ele esteve sempre lá, nunca se foi embora. O que desapareceu foi aquilo que se tinha colocado entre nós.

Talvez aconteça algo semelhante connosco mais vezes do que pensamos. Procuramos respostas, procuramos conhecimento e procuramos Luz, quando por vezes talvez devêssemos descobrir o que é que se colocou entre nós e aquilo que procuramos ver.

Na passada quarta-feira, a resposta era fácil. Era a Lua. Nos outros dias, provavelmente teremos de trabalhar um pouco mais para a encontrar.

João B. M∴M∴

08 agosto 2026

A conversa que ninguém quer ter

   

Introdução

O presente artigo é uma reflexão sobre um artigo que saiu no Financial Times (Link do artigo) e que retrata a realidade da maçonaria regular na Inglaterra, assim como as dificuldades que tem tido no recrutamento e na consequente continuação.  

É inegável que a maçonaria teve uma grande importância no desenvolvimento dos ideais iluministas, na forma de pensar e mesmo na conduta dos governos do final do séc. XIX e no decorrer de todo o séc. XX. Desde o seu início em 1717 que a maçonaria esteve empenhada em construir o grande edifício que é a sociedade. Umas vezes construiu edifícios fortes, noutras edifícios mais frágeis, sem nunca, claro está, haver alguma polémica por trás.  

A maçonaria regular como irmandade iniciática tem algumas características que a definem: a beneficência e a ritualística filosófica. No que concerne à primeira, há várias associações que o fazem de forma muito eficiente e que dispensam toda a ritualística da maçonaria. Refiro-me a associações como o Lions Club, Rotary Club, entre outros que têm uma grande expressão a nível mundial e com atividade permanente. No fundo o que estas associações fizeram foi profissionalizarem-se em ações de caridade. Neste campo, a maçonaria é um primo afastado amador, visto não ter aprimorado esta sua faceta de beneficência. Estas associações retiraram aquilo que parecia desnecessário, fazendo jus a uma missão única: as ações de caridade. Por outro lado, a faceta ritualística e filosófica da maçonaria é aquela que menos se sabe. Através de alegorias e lendas, vai-se rectificando o carácter do maçom. Embora a iniciação tenha um carácter regenerador do homem, a verdade é que nem tudo é regenerado, apenas aperfeiçoado. É neste âmbito que a filosofia toma um carácter importante para o aprimoramento do Homem que a seguir servirá de modelo para o aperfeiçoamento da humanidade.  

O que não foi referido acima foi o networking. As ligações de trabalho também existem na maçonaria, embora não se devam confundir com a maçonaria. Quero com isto dizer que são uma característica natural da associação de pessoas. Ou seja, quem é que é convidado para esta irmandade discreta? Os amigos ou os colegas de trabalho, não necessariamente com o intuito de obter benefícios laborais (também há quem o faça), mas sim com o intuito do aperfeiçoamento daquele que parece que se daria bem com a forma de trabalho da maçonaria. Talvez seja esta a forma que mais intriga a sociedade. O networking em demasia leva ao favorecimento o que, como se pode verificar através das notícias, é mau para o indivíduo e para a ordem maçónica, em geral.  


Queremos um novo modelo ou apenas um aperfeiçoamento do que já existe?

Posto isto, vamos ao cerne da questão. O artigo mencionado mostra que a maçonaria regular inglesa está com dificuldades de recrutamento. Os seus membros têm, em média, mais de 60 anos de idade, sendo que atualmente cerca de 47% dos novos iniciados têm entrado com menos de 40 anos. Para o leitor que está a ter contacto com esta temática agora, pode-se entrar para a maçonaria regular em Portugal a partir dos 21 anos.  

A questão que se põe é: como podemos recrutar gente mais jovem e mantê-los nas fileiras, aumentando a taxa de retenção? Todos sabemos que os interesses de cada um se vão alterando ao longo da idade. Aconteceu comigo, acontece com outros Irmãos, e até mesmo com outras pessoas não iniciadas, ou profanos. E está tudo bem. É uma evolução natural da nossa personalidade. Enquanto que aos 20 anos somos fisicamente mais ativos, à medida que a idade vai avançando vamos tendo outras faculdades e outros interesses, não necessariamente de âmbito físico, talvez até mais de âmbito filosófico e racional. No entanto a pergunta mantém-se: Como vamos chamar e manter os jovens?  

A resposta está em olhar para os interesses geracionais e a sua possível evolução. Olhando para as gerações mais jovens verifica-se que existe repúdio por burocracias e atos desnecessários, interesse em assuntos filosóficos atuais e procura pela facilitação da vida quotidiana através do uso da tecnologia. No entanto, quase como uma antítese do uso das tecnologias, há uma crescente intenção de sair do mundo tecnológico das redes sociais e de as restringir.  

É isto que as novas gerações procuram: ir ao cerne da questão e trabalhar nesse cerne aperfeiçoando-o, sem demagogias nem atos acessórios. Com isto podemos arquitetar um modelo que, por um lado, não sai do modelo tradicional da maçonaria, mas que também não vai contra as expectativas de uma geração inteira. As novas gerações não querem perder tempo a corrigir presencialmente uma ata, mas provavelmente gostam de uma boa discussão filosófica, longe dos telemóveis e dos influencers. Não gostam de escrever textos longos, nem de os ouvir, preferindo temas com exposições mais curtas e mais tempo de discussão e reflexão. As burocracias, para eles, podem ficar nos telemóveis, assim como tudo o que vem das redes sociais e do mundo profano. Esta geração também não quer andar constantemente a mudar a cassete entre ritualística e ações de caridade… ou somos uma coisa ou outra, ou as duas ao mesmo tempo, sendo que numa somos amadores e noutra perdemos pouco tempo.  


O aperfeiçoamento

Tudo leva a crer que o caminho é o do aperfeiçoamento do que já existe para que, por um lado, não se perca a essência da maçonaria e, por outro, exista uma evolução lógica e racional mantendo-se o foco naquilo que é mais importante. Os pontos que coloco abaixo não são uma “fórmula resolvente”, mas sim alguns pontos para todos refletirmos como um possível caminho a percorrer.  

As características que as lojas devem ter:

 Administração desburocratizada: Não perder tempo com discussões presenciais sobre correções a atas, dados de obreiros, o que devemos colocar no site, etc.  

 Uso de tecnologias em loja apenas quando necessário: Usar tecnologias apenas para registo de atas, música e consulta rápida de regulamentos.  

 Ações de caridade apenas quando necessário: Não usar mais do que uma sessão para discussão de assuntos relativos a ações de caridade. Usar tecnologias para dar o mote e referir alguns pormenores; a discussão em loja deve ser apenas para aprovação ou reprovação de ideias.  

 Uso de temas filosóficos: Levar para a loja temas filosóficos e reflexões do mundo profano. Usar situações do dia-a-dia para referir a forma como os valores maçónicos podem ser corretamente usados.  

 Trabalhos enviados em antecipação à discussão em loja: Os textos e ideias devem ser curtos (não mais do que 5 minutos de exposição), sendo que devem ser enviados com uma antecedência de 2 a 3 dias. Não é no momento da exposição que se reflete. O ato de reflexão exige tempo e dedicação; não é no momento em que, muitas vezes, vimos do trabalho cansados, que vamos conseguir refletir sobre determinado tema e ainda falar sobre ele perante os irmãos.  

 Evitar o networking do “amiguismo” e dos aproveitamentos institucionais.  


Conclusão

Não se pretende que este artigo seja um corolário do que deve ser uma loja maçónica atual, mas sim o ponto inicial para uma discussão saudável do futuro desta instituição secular. A maçonaria só sobreviveu porque teve capacidade de adaptação. Por exemplo, antes da 1ª Guerra Mundial, só homens perfeitos (com todos os dedos, mãos e pés) podiam fazer parte da maçonaria. Após este conflito, chegou-se à conclusão que os homens teriam de ser perfeitos na sua consciência. Foi esta adaptação que fez com que muitos Irmãos não saíssem da maçonaria após terem ficado decepados dos seus membros.


Vamos discutir este tema?


D∴ G∴ 


25 julho 2026

 

HUMANIDADE 2 - INTEGRAÇÃO

Ruben Portinha

Há pouco tempo fui surpreendido pela RTP. Assistia à transmissão de um programa de entretenimento musical com o Fernando Pereira, imitador famoso, cantor, entretainer com carreira longa e cheia de êxitos pelos palcos do mundo.

Fernando Pereira apareceu acompanhado por diversos convidados e entre eles uma figura que se cruzou comigo nos idos da TVL por razões que, na época, nada tinham a ver com música.

Refiro-me a Ruben Portinha, velho conhecido e pessoa que me deu a honra de poder acompanhar nalgumas das suas atividades, na época muito longe da música que ele hoje interpreta e muito bem, refira-se.

O Ruben Portinha é invisual e na época que refiro (estávamos em 2013) era, além de desportista valoroso, Presidente da direção da ANDDVIS (Associação Nacional de Desporto para Deficientes Visuais), lutando com enormes dificuldades para manter e desenvolver a atividade de apoio social que era seu objetivo. Foi nessa qualidade que o conheci e foi nessa qualidade que nos relacionamos.

Neste conjunto de textos/vídeos procuro trazer à luz do conhecimento geral aquilo que chamei de Humanidade, através de Homens que praticam Maçonaria, mesmo sem serem Maçons, mesmo não sabendo que aquilo que fazem é, também, Maçonaria. São Homens que lutam por distribuir Igualdade, Fraternidade, Liberdade. São Homens “justos e de bons costumes” que entendem na perfeição o grito de alerta que soa para salvação da Humanidade e ao qual a grande maioria não presta qualquer atenção, profundamente preocupados que andamos com a permanente viagem de férias da Cristina Ferreira ou com os mais quaisquer milhões do CR7.

Entretanto há o Ruben Portinha. Conheço alguns “Ruben Portinha”, fazendo das tripas coração para poder levar uma equipa de meia dúzia de atletas a um torneio onde vão defender as cores de Portugal. Com a característica fatal, neste caso são invisuais.

Os vídeos que junto resultam de um trabalho de 2013 mas poderia perfeitamente ser da semana passada. As dificuldades são as mesmas, as razões para essas dificuldades são as mesmas, as desculpas são as mesmas.

Os exemplos que trago ao A-Partir-Pedra interessam à Maçonaria prática (!), a tal que se faz fora dos templos e que são, na verdade, a prática de Fraternidade, de Liberdade e de Igualdade entre todos e para todos, com dificuldades físicas ou sem essas dificuldades. É a integração de todos os Homens nos seus direitos humanos, direitos que são adquiridos pelo simples facto de terem nascido.

É o que distingue o Homem.

E há muitas razões, mesmo muitas e graves razões para que os Maçons se preocupem.

Tanto se fala em Integração. Constantemente com referência a imigrantes e integrar é importante, é mesmo fundamental, mas sem descurar este plano da imigração para quando a integração dos outros… dos que já cá estão e cá nasceram, desde sempre com as suas famílias ? Quantos portugueses clamam por integração ?

Organizações como a ANDDVIS que aqui é mostrada, procuram e fazem a integração de portugueses de origem, mas com que dificuldades ?

Igualdade sim… Liberdade sim… mas para quantos e principalmente para QUAIS ?

O que trago ao blog são exemplos singulares aproveitando algumas, poucas, experiências vividas, mas este tema merece um trabalho maçónico profundo, continuado, tornado objetivo de vida maçónica.

Fica a semente.



Uma nota especial referente ao “Goalball”, desporto praticado por atletas invisuais, admitindo que algum leitor possa não estar familiarizado com esta atividade (isto é mesmo desporto !).

O Goalball é praticado por equipas de 3 elementos que tentam, à vez, introduzir a bola na rede adversária jogando-a com as mãos. A bola tem como característica especial a produção de um som que a distingue de tudo o resto, sendo através do som que os praticantes distinguem a sua localização e trajeto quando em movimento.


Julho/6026

J.Paiva Setúbal (MM:.)

10 julho 2026

HUMANIDADE 1 - "CAIS"

 Este título tem a ver com o que iremos “blogar” agora e em mais alguns momentos

seguintes com referência a uma coluna vertebral a que chamarei Humanidade.

Na Maçonaria temos como preocupação central a trilogia Liberdade, Fraternidade,

Igualdade e estas 3 grandezas maiores do Homem desenvolvem-se com cada vez maior

dificuldade.

Nunca foi fácil mas sempre houve quem esperasse que o tempo, esse grande senhor que

se calhar não existe (!), desse alguma ajuda com o que poderia ser o amadurecimento do

Ser Humano.

Acontece porém que o Ser Humano parece teimar em não amadurecer.

Pior do que isso, o Ser Humano parece que está a apodrecer antes de amadurecer.

Acontece com muitos frutos esse fenómeno. Como se diz no Alentejo como justificação “à

patrão, tá tude podre, dê-lhe a bicheza…”.

O que constato lamentavelmente, conforme os acontecimentos da vida vão passando, é

justamente isso. Parece que o Ser Humano também está “ca bicheza”, “bicheza” que não

o deixa amadurecer e o faz cair de podre.

A Maçonaria tenta aproveitar o que possa haver de são para manter a qualidade deste

“produto” procurando salvar os possíveis de forma a que com alguma atenção se possa

produzir mais frutos sãos, capazes de resistir à tal de “bicheza”.

Mas não está fácil !

O entendimento do que é entre Humanos, ser Igual, ser Fraterno e ser Livre não tem

conseguido a recetividade que, entendemos nós, é indispensável para salvar este “pomar”.

Pelo contrário, o que vemos é a epidemia cada vez mais espalhada, mais dispersa, com o

resultado miseravelmente destruidor que está bem à vista ( e ao ouvido, e ao tacto…) de

todos os que se recusam a viver distraídos.

Há, neste “pomar”, frutos ainda sãos ?

Há e trago para o “A-Partir-Pedra” alguns exemplos. São casos isolados ? Gostaría que

não fossem, gostaria que pudessem ser realmente os exemplos a seguir por todos neste

percurso a que chamamos Vida.

São casos que são mantidos como que em segredo. Parece que o tempo (o tal senhor que

se calhar não existe) é pouco para coisas importantes como o futebol, para o detalhe bem

minucioso dos assassinatos ordenados por mentecaptos julgados poderosos ou por

desastres naturais destruidores de milhares de seres humanos. Não resta tempo para

evidenciar a fruta sã, ocupados como andamos a cheirar a fruta podre !

O sentido da nossa Cadeia de União ensina-nos a dar atenção à qualidade da vida

humana e à forma como vivemos a nossa condição de Humanos.

A Maçonaria que é importante dentro do Templo é muito mais importante fora dele.

Maçonaria faz-se, a sério mesmo, na rua porque é aí que estão os restantes nossos

Irmãos em quem pensamos (ou deveríamos pensar) quando falamos de Liberdade,

Fraternidade, Igualdade.

E porque a fruta sã deve ser exposta o mais possível para conhecimento de todos, e

exemplo, e ensinamento, e cópia, deixo-vos um pequeno trabalho chamando a atenção

para o facto de ter sido produzido em 2013 (!). Se não perceberem que foi há 13 anos…

então é porque o tempo parou na fruta podre !


Julho/6026

J.PaivaSetúbal (MM:.)

27 junho 2026

A Prancha que Não Te Pertence


Você já notou que as pranchas sobre o esquadro e o compasso dizem todas a mesma coisa? Não aproximadamente. Exatamente a mesma coisa, às vezes na mesma ordem.

Obviamente, isto não é coincidência. A maioria dos irmãos não escreveu o que apresentou.

Existe uma ecologia de textos maçônicos circulando em grupos de WhatsApp, em blogs, em arquivos de Word que circulam sem rastreio. Alguém pesquisa, copia, ajusta dois parágrafos, coloca o nome. O trabalho está feito. A loja ouve. O irmão senta. Ninguém fala nada.

Eu entendo o impulso. Um Google, um chatgpt e voilá. Preparar uma prancha do zero é trabalhoso, e a maioria de nós chega ao dia marcado com pouco tempo e muita pressão. Um rascunho de outra pessoa parece uma saída razoável. O problema é que ele resolve a situação de forma incorreta. A Loja não precisa de mais uma exposição sobre o Esquadro. É o aprendiz que apresenta que precisa ter pensado no que aquele símbolo significa para ele.

Isso é diferente.

Quando você passa meses tentando articular por que aquele símbolo significa algo para você — errando, descartando, voltando — alguma coisa muda e não é no texto. É em você. É exatamente isso que deveria estar acontecendo no período de aprendiz. Pegar o atalho não é apenas desonesto; é desperdiçar o único momento em que esse trabalho funciona e se torna uma engrenagem bem oleada para o futuro da caminhada.

O problema maior é o que a cópia constrói ao longo do tempo: uma loja onde ninguém diz nada novo, onde ninguém explica os símbolos de forma diferente, onde a discussão após a prancha vira um exercício de confirmação coletiva ou de massacre pelo massacre. Fica chato. Fica vazio. E fica uma lacuna que talvez nunca seja preenchida no quadro da loja ou na cabeça de quem apresentou. 

Sou grato de fazer parte de uma loja onde isso é raro. Tenho escutado trabalhos que vão muito além da mesmice e do óbvio. Alguns incomodam; outros forçam o cérebro a pensar até a última vírgula. Muitos vêm acompanhados de uma pesquisa extensa em fontes não convencionais. E isso diz muito sobre as qualidades dos meus irmãos.

Não existe um protocolo que resolva isso. Só o hábito pessoal de sentar com a página em branco e trabalhar. O caminho mais rápido não é o que leva mais longe. 


Fábio Serrano M∴M∴

20 junho 2026

Ser Companheiro

Entre o entusiasmo do Aprendiz e a maturidade do Mestre existe um caminho muitas vezes esquecido, o caminho do Companheiro!


O Aprendiz trabalha sobre si mesmo, aprende o silêncio, a disciplina e a observação. Descobre, também, que a pedra mais difícil de desbastar já foi encontrada, não longe mas mesmo assim muitas vezes é preciso um espelho para percebe que é a sua própria pedra bruta. Com o tempo, mais curto ou mais longo, mas seu e só seu, o aprendiz percebe que é o momento em que esse trabalho interior já não basta, é preciso levantar os olhos da pedra e compreender a construção.

Ser Companheiro é precisamente isso.

É deixar de olhar apenas para a tarefa e começar a perceber a Obra, é aprender a medir, a comparar, a questionar e a procurar conhecimento. Não por mera curiosidade intelectual, mas porque cada novo saber amplia a nossa capacidade de servir.

No Rito Escocês Antigo e Aceite, o Companheiro é convidado a percorrer um caminho marcado pelos cinco sentidos, pelas artes liberais e pelos instrumentos que permitem transformar a matéria em harmonia. Descobrir que a força sem sabedoria é insuficiente e que a sabedoria sem acção permanece estéril.

Talvez por isso este seja um dos graus mais actuais da Maçonaria, mesmo sendo o mais incompreendido. Hoje em dia vivemos uma época rica em informação, mas pobre em compreensão e o Companheiro recorda-nos que conhecer não é acumular factos, mas sim aprender a relacioná-los, a encontrar significado e a colocá-los ao serviço de algo maior do que nós próprios.

Ser Companheiro é continuar a trilhar o próprio caminho, já depois do início do percurso, mas ainda longe do seu destino final. É aceitar que a verdadeira aprendizagem não termina com a iniciação, pelo contrário, é aí que realmente começa.

Porque a pedra pode estar mais lisa, mas o Templo ainda está longe de concluído e muitas mais polidelas serão necessárias para que ela encaixe de forma quase justa e quase perfeita.

João B. M∴M∴

06 junho 2026

                                                        

                                                                 AREIA OU PEDRA ?

Este texto não é novo. É recuperação e atualização de um pequeno escrito de há cerca de 20 anos, mas cuja base, no entanto, é muitíssimo mais antiga, certamente com uns séculos de idade.

Diz uma lenda árabe que dois Amigos viajavam pelo deserto e num determinado momento da viagem, durante uma discussão, um deu uma bofetada no outro. Este, ofendido, mas sem poder fazer nada, escreveu na areia “HOJE, O MEU MELHOR AMIGO DEU-ME UMA ESTALADA.”

Seguiram a caminhada e chegando a um Oásis foram tomar banho. O que levou a estalada, precipitado e magoado, ficou em risco de se afogar. Logo o Amigo correu a atirar-se à água, salvando-o. Ao recuperar-se pegou num canivete e gravou numa pedra “HOJE, O MEU MELHOR AMIGO SALVOU-ME A VIDA”.

Intrigado o Amigo perguntou: - Porque é que depois que te bati escreveste na areia, e agora que te salvei  escreveste numa pedra ?

Sorrindo, o outro Amigo respondeu: - Quando um grande Amigo nos ofende, devemos escrever onde o “vento do esquecimento” e o perdão se encarreguem se passar e apagar a lembrança.  Por outro lado quando algo de grandioso nos acontece devemos gravar isso na memória e no coração, onde nem o vento possa passar e apagar.

 Ora bem, trago-Vos a história desta lenda pela conotação que nela encontro com o espírito que orienta os Maçons.

Pequeno intervalo: Uso conscientemente o verbo “orientar”. Poderia ter usado o seu sinónimo, neste caso “nortear”. A questão é que de facto para nós, é do oriente que vem a orientação ! A norte está a aprendizagem. Indispensável, contínua, sempre inacabada, mas recebendo a orientação que a conduzirá pelo percurso maçónico.

A comunidade maçónica, baseada espiritualmente no Grande Arquiteto Do Universo, interpreta a Humanidade como uma irmandade de homens com um objetivo comum.

Desde a Iniciação que o Maçon é ensinado a trabalhar a pedra, não a areia.

 O que aconteceria se o Templo de Salomão tivesse sido construído com areia ? E o que acontece se a marca do nosso relacionamento tiver a consistência da areia ?

A mais leve brisa levaria o templo, tal como levará a relação entre humanos se não cuidarmos do material com que a construímos.

Que a relação entre os homens, e em especial entre os Maçons, seja construída em pedra, bem rija, para que perdure pelo tempo, resistindo às chuvas, aos ventos, às intempéries sejam elas quais forem.

 Se a relação entre os homens não for suficientemente sólida como resistirá ao primeiro temporal ?

E há temporais ! Não vale a pena fingir que o “bom tempo” é permanente. Nada é permanente ! Muito menos o “bom tempo”.

Se queremos um mundo melhor não há alternativa que não seja agarrarmo-nos às ferramentas e trabalharmos, conscientemente, persistentemente, a pedra talhando nela as nossas relações, reproduzindo nela a nossa vontade de mais Liberdade, maior Igualdade, verdadeira Fraternidade.

A vida, entenda-se a existência humana integrada nas regras sociais definidas/impostas pelas organizações políticas gestoras das sociedades nacionais, encarrega-se de fazer surgir a cada momento dificuldades cuja resolução pede imaginação e frequentemente muito trabalho. Diz um ditado popular que “é nas dificuldades que se conhecem os Amigos”. Pois bem, é nesta evidência que os Maçons se enquadram.

Pequeno intervalo: Recordemos que o local de trabalho do Maçon é a Humanidade, mas é na Loja que Ele mantém o estaleiro onde guarda o material, os desenhos, as ferramentas da obra que, deseja-se, vá erguendo à Sua volta. Mais, é na Loja que o Maçon encontra os Companheiros-obreiros que o auxiliam na resolução das dificuldades que a engenharia da vida Lhe propõe permanentemente.

Com alguma frequência lembramos a Cadeia de União, quiçá o símbolo maior da Maçonaria.

Temos consciência da força com que apertamos as mãos dos companheiros ao nosso lado ?Será capaz de resistir a um abanão forte ? Será ?

Depende de cada um dos “nós” desta Cadeia. Se cada uma das ligações for em Pedra dura, certamente poderá resistir aos abanões, às tempestades da vida, mantendo a Cadeia unida.

Se alguma destas ligações, basta apenas uma, tiver sido construída com “areia”, a cadeia desmanchar-se-á ao primeiro ventinho que se levante.

Este apertar firme das mãos significa disponibilidade mental para sacrifícios por vezes complicados, muitas vezes afastamento de benefícios, frequentemente abandono de vantagens. É no entendimento destas relações que o capital maçónico cresce. É este o investimento que vale a pena. É isto o trabalho na pedra dura, sendo que temos de perceber e estar para isso mentalmente despertos, de que por vezes a pedra é mesmo muito dura.

Perdoar, aceitar diferenças, ajudar são as atitudes que se espera do Homem “justo e perfeito”.

É importante ouvir, mais do que falar;

É importante perceber, mais do que interpretar;

É importante fazer, mais do que prometer;

É importante o “nós”, mais do que o “eu”;

É importante a Verdade !

O mundo está em guerra, qual vendaval, terrível intempérie que se abate sobre muitas regiões do globo, na verdade sobre quase todas as regiões do globo. Quando não são tiros e bombas são a miséria, a discriminação e o abandono,

Os Maçons têm de sentir o chamamento à primeira linha do combate.

As guerras têm sido quase sempre fruto de cegueira religiosa.

Das “guerras das religiões” passámos a um outro estado. O homem “progrediu” para a “religião das guerras”.

O “deus” hoje chama-se “guerra” e as bombas, os drones, os carros de combate são os seus “santos”, cada dia mais “santos”, cada dia fazendo mais e maiores “milagres”, o que significa cada dia mais mortais.

É esta a religião que os pregadores atuais espalham pelo mundo. Por todo o mundo, na expectativa de que um dia, de algumas das suas bombas mais mortíferas saia um “representante divino” justo e perfeito. Certamente ainda não conseguiram a bomba tão violenta que justifique tal “milagre”. Mas a esperança mantém-se e as tentativas são diárias.

A Maçonaria tem a ver com o estado do mundo atual ? Claro que tem !

Por um lado diagnosticando os “nós” da “cadeia de união” humana que estão construídos com areia, depois auxiliando ou provocando a sua eliminação e finalmente reconstruindo esses “nós” com pedra bem dura.

Se a Cadeia de União é o símbolo maior da Fraternidade Maçónica, façamos com que esse seja o objetivo, façamos por aí o nosso caminho, com uma vontade que não quebre nem amoleça.

Talhada na pedra. Não na areia.

Jun/6026

J.Paiva Setúbal (MM)

  

 

16 maio 2026

Quando o Templo Ganha Vida

Na última sessão tivemos a oportunidade de fazer algo que não acontece todos os dias, uma instrução de Companheiro. Tivemos também o prazer de a tornar, de alguma forma, diferente do habitual, não pelos temas abordados, porque muitos deles fazem parte naturalmente deste grau, mas pela forma como ganharam vida dentro do Templo. Durante alguns momentos, os símbolos deixaram de existir apenas no ritual e este tornou-se vivo em quadros, em palavras, através das pessoas e dos movimentos e relações que se foram construindo dentro do Templo.

Curiosamente, a noite já vinha trazendo bastante matéria para reflexão antes mesmo da subida ao segundo grau e, às vezes, acontece assim, sem combinar ou prever, temas diferentes acabam por conversar entre si e deixar ideias que provavelmente ninguém tinha planeado.



O Grau de Companheiro representa uma mudança, mesmo que subtil, no percurso maçónico. Enquanto o Aprendiz aprende a trabalhar a pedra e a olhar para si próprio, aprende a reconhecer imperfeições, a utilizar ferramentas e a perceber que a primeira obra a transformar nunca está no exterior, o Companheiro não abandona esse trabalho. Pelo contrário, começa a olhar mais longe. Passa a preocupar-se não apenas com a pedra em si, mas também com a forma como essa pedra se relaciona com todas as restantes na construção do Templo.

Talvez por isso surjam as colunas e os princípios que elas representam. O Aprendiz conhece primeiro três delas. A Força, a Sabedoria e a Beleza, podem parecer conceitos simples à primeira vista, mas talvez sejam mais difíceis de equilibrar do que imaginamos.

A Força é necessária, sem ela nada começa, nada avança e nada se constrói, mas quando cresce sem medida pode levar-nos a empurrar aquilo que ainda precisava apenas de um pouco mais de tempo para amadurecer. Precisa, assim, da Sabedoria, aquela que nos ajuda a reconhecer o momento certo, lembrando-nos que nem todas as portas se abrem pela insistência e que nem todos os caminhos se percorrem à mesma velocidade. Talvez seja aquí que surge a Beleza, não apenas nas palavras escolhidas, nas intenções ou na vontade de fazer algo maior, mas também na forma como as coisas são construídas, no método, na harmonia e até no respeito pelo ritmo natural das etapas. Sem estas três colunas, devidamente equilibradas, dificilmente conseguimos dirigir a nossa construção até ao Oriente Eterno. 

Sim, Três a Dirigem.

Durante este caminho surgem, ou talvez se assumam, outras colunas, como a Simplicidade e a União, talvez porque algumas lições apenas façam sentido quando chega o momento certo de as compreender. A Simplicidade ensina-nos que nem tudo precisa de parecer maior do que é para ter valor e a União recorda-nos que o caminho maçónico nunca foi uma corrida individual, mas uma construção feita em conjunto. São estas cinco coluna que suportam os candelabros do nosso caminho, para que este seja iluminado.

Sim, Cinco a Iluminam.

Podemos também olhar para as artes, como as Sete Artes Liberais, não apenas como conhecimentos antigos ou referências históricas, mas como pequenos lembretes que continuam surpreendentemente actuais.

O Trivium, composto pela Gramática, pela Retórica e pela Lógica, procurava ensinar o Homem a falar, a comunicar e a pensar. A Gramática ajudava a ordenar as palavras, embora a vida vá mostrando que falar bem não transforma automaticamente uma ideia em verdade. A Retórica dava força ao discurso, mas também nos recorda que as palavras conseguem, por vezes, vestir uma pedra bruta com aparência de obra acabada. A Lógica organiza o pensamento, ainda que nem tudo o que pareça coerente esteja verdadeiramente consolidado.

Depois surgia o Quadrivium: Aritmética, Geometria, Música e Astronomia. A Aritmética recorda-nos que nem tudo pode ser reduzido a números. A Geometria revela-nos equilíbrio, proporções e a necessidade de cada elemento ocupar o seu lugar. A Música ensina-nos que a harmonia nasce do respeito pelo compasso e a Astronomia talvez nos deixe a lição mais simples de todas, lembrando-nos que, apesar da importância que damos a nós próprios, continuamos a ser apenas uma pequena parte de algo muito maior.

As Sete Artes Liberais nunca tiveram apenas a missão de ensinar conhecimentos, mas sim o propósito de formar Homens, é com estas artes que o Companheiro inicia verdadeiramente o seu trabalho, não apenas na procura de mais conhecimento, mas na compreensão de que crescer não é o mesmo que acelerar etapas, existe uma diferença entre olhar para o horizonte e acreditar que já o alcançámos.

Muitas construções, e principalmente as da nossa alma, não falham por falta de talento, entusiasmo ou vontade. É natural e saudável existir ambição em querer erguer algo maior e acreditar que as nossas fundações serão um dia suficientemente sólidas para o suportar, mas o risco começa quando há a presunção que essas fundações já estão concluídas, passando a preocupar-nos mais com a fachada e com aquilo que o exterior vê do que com a estrutura que realmente sustenta a obra.

Foi talvez essa a ideia que ficou da sessão de ontem. O Companheiro não é um Homem que chegou ao fim de uma etapa, mas sim um Homem que descobriu que ainda existe muito caminho para percorrer. É precisamente essa descoberta que transforma uma subida de grau num verdadeiro progresso e a verdadeira pertença ao grau em si, o avental é adorno.

No final de tão rica sessão, e até com uma intrução um pouco fora do formato habitual e com "alguma" liberdade ritual, terminou de forma Justa e Perfeita.

João B. M∴M∴

02 maio 2026

A sobreposição de monologos

 

 


As redes sociais vieram dar um novo ritmo à vida. Aproximaram pessoas, afastando-as ao mesmo tempo. Parece paradoxal, no entanto, essa aproximação vem do diálogo através das aplicações (apps) que conseguem manter várias pessoas a comunicar à distância; ou seja, passámos a falar de longe, mesmo estando perto.

Esta distância física acaba por ganhar proporções psíquicas, pois o conforto do sofá faz com que haja uma preferência pelo isolamento em detrimento da presença física. O que torna toda esta experiência interessante é que muitas destas interações são altamente distanciadas e desprovidas de empatia. O resultado prático são discussões online acesas, tanto por temas impactantes como por assuntos ditos “sem jeito nenhum”.


Paralelamente a tudo isto, a qualidade de vida melhorou substancialmente nas últimas décadas, o que permitiu que a maioria da população tenha acesso direto a um telemóvel que, por sua vez, dá acesso às redes sociais. O desenvolvimento da sociedade ocidental atingiu um ponto em que o acesso a um smartphone e à internet já é um dado adquirido. A grande maioria da população possui o objeto e o serviço. Se juntarmos a este cenário uma população cada vez mais literada, temos todos os ingredientes para um fenómeno curioso.


População com tecnologia, internet, acesso ilimitado a redes sociais e ausência de presença física. Levamos tudo ao forno e… BUM!


Ficamos com discussões estéreis nas redes sociais, pessoas que dialogam sem se conhecerem e uma falta de empatia crescente. A este cenário apocalíptico acresce a pesquisa rápida, que cria "especialistas instantâneos" em qualquer tema. O conhecimento que outrora demorava décadas a adquirir, hoje parece estar à distância de meia dúzia de cliques.


Neste cenário de ruído constante, existe um pequeno paraíso onde ainda conseguimos dar uma opinião, ouvir e refletir. Neste espaço, procura-se combater as paixões. E o que são estas malditas paixões? As paixões são os impulsos movidos pela reação imediata e não por atos refletidos. Neste sentido, a paixão é algo que deve ser controlado pela racionalidade.


Ao verbalizarmos ou escrevermos uma opinião, devemos fazê-lo de forma refletida, o que raramente acontece no turbilhão das redes sociais. Além disso, a linguagem escrita é muito mais impessoal do que a falada, fazendo com que os erros de interpretação e de entoação ressaltem. Se essa linguagem for movida pela paixão momentânea, pode gerar um ambiente tóxico.


É por isso que em lojas maçónicas fazemos questão da presença física: para podermos olhar nos olhos uns dos outros, sentir a empatia, refletir sobre os assuntos e sobre a nossa própria maneira de estar. Só quem cultiva este meio conhece a diferença.


E tu? Vais querer sair da tua rede social para começar a construir?




11 abril 2026

Roma, la bella Roma

Nesta Páscoa fui a Roma passar uns dias com a família., não foi uma daquelas viagens pensada ao detalhe, com tudo marcado e a seguir um horário rígido. Claro que tivemos que marcar algumas coisas como o Museu do Vaticano ou o Coliseu, caso não o tivéssemos, nãp entraríamos. Mas o resto do tempo foi ao sabor do momento, assim como Roma pede. Já lá estive diversas vezes, mas desta quis mostrar a cidade à minha filha, com tempo. E posso dizer que há qualquer coisa de especial em voltar a um sítio que já conhecemos, mas vê-lo pelos olhos de quem o está a descobrir pela primeira vez.

Quando fomos à Basílica de São Pedro tivemos a sorte, ou privilégio, de ver o Papa, certo que o vimos ao longe, mas há algo....não sei, não se explica. A Basílica, linda e imponente mas o Coliseu foi o que pôs um brilho nos olhos da minha filha!!! Também caminhámos pelo Fórum Romano e pelo Monte Palatino, descemos às Catacumbas de São Calisto e às Catacumbas de São Sebastião, passámos pela Via Appia Antica, parámos na Fontana di Trevi e deixámo-nos ficar na Piazza Navona a ver a vida a passar. 

Mas no Vaticano, tivemos a sorte de só conseguir bilhetes com guia para o Museu, num espaço daqueles, onde tudo parece demais, alguém que nos ajude a olhar faz toda a diferença. Lembro-me de parar na Escola de Atenas, de Raphael, e ficar ali um bocado mais do que o esperado, aquela ordem, aquele equilíbrio entre tantos pensamentos diferentes… não se explica bem, sente-se. E depois a Capela Sistina, entra-se, olha-se para cima e, sem dar por isso, ficamos em silêncio. Acho eu que não é só a pintura de Michelangelo, mas o seu todo, como se tudo ali estivesse organizado para nos fazer percorrer uma história.

Pelo meio das nossas voltas, entrávamos em igrejas como quem entra para descansar, umas cheias, outras quase vazias, algumas grandiosas, outras tão simples que quase passam despercebidas. E, curiosamente, foi aí que a viagem me tocou mais. Uma igreja onde parámos por acaso, perto do hotel,  a Santa Maria degli Angeli e dei Martiri.

Por fora não chama a atenção, e lá dentro também não é daquelas que nos cai em cima com ouro e pintura. Depois de pesquisar descobri que foi construída por Michelangelo aproveitando as antigas Termas de Diocleciano, e talvez se note pois há ali uma escala diferente, mais aberta, mais limpa, quase crua. Não é uma igreja que impressione, é uma igreja que nos deixa bem.



Por lá e sem pressa, reparei numa linha no chão, nada estranho à primeira vista, atravessa a nave, mas no meio e em cima da linha um pouco de luz solar. Alto! Isto foi pensado sem dúvida, comecei a olhar vi numers na linha e logo tive que apanhar o telemóvel e pesquisar o que estava realmente a ver. Googlando percebi,  que no século XVIII, durante o papado de Clemente XI, o astrónomo Francesco Bianchini construiu ali uma meridiana, um instrumento a sério, não algo decorativo.

Um pequeno orifício deixa entrar um feixe de luz que, ao meio-dia, toca essa linha. E como é lógico esse ponto não é estático, pois ao longo do ano, desloca-se com precisão, seguramente de esquadro e compasso. Nos solstícios vai aos extremos, nos equinócios marca pontos exactos, e pelo caminho cruza os signos do zodíaco desenhados no chão. Foi algo feito não para enfeitar, mas sim para para medir. Para provar. Para alinhar o tempo da terra com o movimento do céu. Engraçado, e momento wikipedia, o próprio Bianchini estava ligado aos grandes nomes da ciência da época, incluindo Isaac Newton, que o propôs como Membro da Royal Society em 1713. Mais engraçado, é que "O Magnânimo" , o português Rei Dom João V, foi um dos seus grandes patronos, tendo este não só nomeado um dos "mares" de Vénus em seu nome, como também dedicado a obra da sua vida, o livro Hesperi et Phosphori (1728), sobre o planeta Vénus em sua honra.


Há ligações que vêm de muito longe até de outros tempos, de outras pessoas, de outras intenções… e que, sem darmos por isso, ainda hoje se cruzam connosco. Aquilo que para muitos é apenas um risco no chão, para mim acabou por ser muito mais do que isso. 

Há coisas que, vistas com pressa, parecem pequenas. Mas, quando paramos um pouco…crescem. E, às vezes, é nessas que encontramos mais sentido.

João B. M∴M∴

28 março 2026

A Tradição não é prisão

Numa das últimas sessões, graças a um bom àgape, tive oportunidade de apresentar uma prancha onde falei sobre os hemisférios norte e sul e a culminação do Sol e como isso se transfere para as nossas colunas. Teria lógica os aprendizes e companheiros estarem em posições opostas consoante o hemisferio? Conclusão simples, e pensava eu lógica, tanto aqui como no hemisfério lá de baixo todos nos sentamos nas mesmas posições... Todos não!!!!

Isto quase faz lembrar o Astérix e a nossa poção mágica chamada Ritual:

"Toda a Maçonaria está ocupada pelo rito escocês antigo e aceite… Toda? Não. Um rito, praticado por irredutíveis obreiros brasileiros, continua a dar o mesmo sabor à salada, mas de forma diferente.”


O Irmão Filipe M., visitante de uma Loja brasileira que trabalha no Rito Brasileiro, comentou e esclareceu que no rito dele, os Aprendizes e Companheiros estão em posições invertidas em relação ao que conhecemos no Rito Escocês Antigo e Aceite.

Na altura ficou como uma curiosidade, comentário, mas os nossos  ágapes dão sempre azo a mais, com mais tempo e menos formalidade, a conversa evoluiu, vimos que não era apenas uma diferença pontual, mas sim que exisita ali uma lógica própria, uma forma de organizar o trabalho em Loja. Assim lancei o desafio simples para que o irmão Filipe M, viesse falar um pouco mais sobre o Rito Brasileiro, a partir da sua vivência, numa próxima vez que nos visitasse. 

Desafio Aceite!

A prancha que apresentou valeu a pena, não tanto pelas diferenças em si, mas pela forma como as enquadrou,  até o uso de uma imagem simples onde diz que o Rito Brasileiro é como uma “salada”, não como desordem ou mistura aleatória, mas sim construção. Um rito que foi buscar muito ao REAA, integrou elementos de outros ritos e acabou por formar uma identidade própria, pensada, assumida e consolidada ao longo do tempo. Esta ideia de construção consciente atravessa toda a prancha do Filipe, desde a origem histórica até às diferenças práticas no funcionamento da Loja sua loja.

No meio de toda a prancha, há sempre algo que nos salta à vista,, houve uma ideia que me ficou bastante mais presnte "A de que a tradição não é prisão, é fundamento para evoluir." Eu que sou "pró" tradição, quero clarificar bem o ponto, que tal não me ficou na cabeça como crítica ao rito escocês antigo e aceite, que practico,  e é um rito com o qual me identifico, que valorizo e que, na minha opinião, deve ser preservado precisamente pela consistência e pela força da sua tradição. A sua continuidade é uma das suas maiores riquezas e não é isso que está em causa.

O ponto, para mim, é outro, mais transversal, mais próximo do dia-a-dia profano e até da Loja, todos reconhecemos situações em que algo se faz “porque sempre foi assim”, sem que alguém consiga explicar porquê. Eu próprio escrevi aqui no blog e fiz uma prancha precisamente sobre o ritual, coloquei uma questão que continuo a achar pertinente sobre de onde vem este gesto? Que sentido tem? É ritual? Ou simplesmente foi um erro que se tornou hábito, que virou costume, fez-se tradição e acabou por se adaptar como princípio? Nunca se valeu como norma, muito menos se fundamentou como Lei, Landmark.

Foi uma reflexão prática, não teórica.

E é aqui que a frase ganha verdadeiro sentido, ao menos para mim, a tradição só não é prisão quando é compreendida, quando sabemos distinguir aquilo que é essencial daquilo que apenas herdámos sem questionar. Há uma diferença clara entre preservar e cristalizar, pois preservar implica compreender e manter aquilo que tem valor, enquanto cristalizar é repetir tudo, indiscriminadamente, incluindo aquilo que nunca teve fundamento sólido, mas que, por repetição, ganhou estatuto de tradição.

O que o Rito Brasileiro trouxe, pelo menos na forma como foi apresentado, foi um exemplo dessa consciência. Não uma vontade de mudar por mudar, mas uma capacidade de olhar para a tradição, perceber as suas origens e trabalhar sobre elas, adaptando sem romper e ajustando sem perder identidade. E isto, gostemos mais ou menos das soluções concretas, é um exercício que merece reflexão.

No fim, a principal aprendizagem que retiro não está nas diferenças entre ritos, mas na forma como olhamos para o nosso. Preservar não é repetir, preservar é compreender. E talvez seja aí que a tradição deixa de ser prisão e passa a ser, verdadeiramente, fundamento para evoluir.

João B. M∴M∴

21 março 2026

Maçonaria: um ato de rebeldia num mundo indiferente

 A Maçonaria vive de momentos. Ao longo da sua história passou por bons e maus momentos. Na atualidade não podemos dizer que esteja propriamente a passar um mau bocado, mas já vimos dias melhores. O mundo é cada vez menos empático, individualista e cruel. Esta falta de empatia e gosto cada vez maior pela individualidade faz com que se pense menos no coletivo e mais no eu individual. É verdade que, para o coletivo funcionar, é necessário que, em primeiro lugar, estejamos bem connosco próprios. No entanto, após a passagem do nível EU temos de desenvolver os nossos esforços para aperfeiçoar o NÓS como sociedade. Foi assim que a sociedade se desenvolveu até ao nível que conhecemos atualmente.


Por outro lado, a Maçonaria, ao longa da sua história, não tem feito pelo abono positivo da sua imagem. Basta olhar para os inúmeros exemplos de boatos que existem à sua volta e desinformação.

É pelas razões atrás descritas que é compreensível que o número de iniciações tenha reduzido drasticamente, não só em Portugal, mas também no resto do mundo.

Por que razão escolheria um homem livre integrar uma ordem iniciática, tantas vezes alvo de desinformação e preconceito? A resposta reside na urgência de encontrar um sentido coletivo num tempo que nos empurra para o isolamento. Não será a fraternidade e a constante procura pelo aperfeiçoamento da pedra bruta, uma máscara para esconder uma conspiração?

Procurarei responder a estas perguntas e a outras nos próximos parágrafos.


Quem são os maçons?

Por muito irreal que possa parecer a resposta, os maçons são pessoas normais, que fazem uma vida normal e que têm famílias (não sendo obrigatoriamente casados e com filhos). E, por mais fantástico que pareça, a grande maioria deles não entra em conspirações. O maçon não está restringido a uma ou outra profissão. Pode até nem ter uma profissão fixa. Esta ultima característica é aquela que faz com que nós maçons acreditemos na igualdade entre as pessoas porque, tanto se senta ao meu lado um grande empresário como o mais modesto trabalhador de uma fábrica ou funcionário público. Dentro do templo somos todos iguais e a nossa palavra não vale menos do que a do outro irmão. Isto é fantástico. De repente temos um sitio, um nicho onde nos podemos sentir como parte de um grupo em que podemos fazer uso da liberdade de expressão e sermos amplamente compreendidos. Podemos falar sem sermos ostracisados, mas também podemos ouvir sem ostracisar. E veja-se, sem nos zangarmos uns com os outros. Num mundo em que a qualquer momento podemos ser “cancelados”, a maçonaria é o ultimo reduto da civilidade e da liberdade de expressão.


O indivíduo - A transformação da pedra bruta em pedra cubica

Não é novo para ninguém que, nas lojas maçónicas, se procura o aperfeiçoamento da pedra bruta, do EU individual e imperfeito, em pedra cubica. Este é um dos grandes chavões da maçonaria. A base está aqui. Mas, sejamos pragmáticos, não precisamos de um grupo de homens, quase como se fosse um gentlemans club do séc. XVIII, que se juntam a discutir temas filosóficos e a fazer alguma filantropia, para que uma pessoa se possa aperfeiçoar. Conheço inúmeros casos de pessoas boas que fazem filantropia sem serem maçons. O primeiro passo é querer que essa transformação aconteça, e o segundo é traçar o caminho para que se faça essa magia. E o caminho pode ser feito sozinho. Mas… há sempre um senão… Com certeza que o leitor deste artigo já ouviu falar no ditado: “se fores sozinho vais mais rápido, se fores acompanhado vais mais longe”. É exatamente nisto que o maçom trabalha. É no aperfeiçoamento através das ideias coletivas numa tertúlia de grupo. Nesta tertúlia aparecem sempre ideias novas, e algumas interpretações que nunca tínhamos pensado, levando-nos, muitas vezes, a refazer algumas ideias pré-concebidas sobre determinado tema. E é assim que tudo começa, vamo-nos aperfeiçoando uns aos outros e assim chegarmos mais longe.


A Loja - a mini sociedade

Mas, nada é possível sozinho, como vimos atrás. É aqui que entra o trabalho da loja. A loja é o conjunto de pessoas que o sustenta e compõe. Tem uma organização própria e que e que garante que cada evento programado, cada instrução aos aprendizes é bem executada e apreendida. Cada mestre tem uma função e é essa função que faz com que os projetos se executem de forma justa e perfeita, como uma pedra cubica que é para ser colocada em determinado local de um templo. É essa pedra que todos talhamos em conjunto na loja que faz com que o templo que estamos a construir não caia. Na instrução o conselho do mestre é uma mentoria para o aperfeiçoamento não só do aprendiz mas também dos Companheiros e dos restantes Mestres.


A globalidade - a saída para o mundo profano

Agora vem a parte mais difícil de compreender, talvez. É através do que se pratica na loja (que não são rituais satânicos nem nada que se pareça) que a seguir transpomos para o nosso dia-a-dia e tentamos ser o exemplo para quem contacta connosco. Não temos a pretensão de mudar o mundo de um dia para o outro, mas temos a certeza de que, ao mudarmos a nós próprios, alteramos o nosso meio social. É este o nosso legado.


Em jeito de conclusão

Ninguém é obrigado a ser maçom. Só o é quem acha que consegue tal legado. Nem tem mal nenhum não querer ser. Se o leitor alguma vez quiser entrar para esta augusta ordem, terá de “deixar os metais à porta do templo”, ou seja, tem de despejar a arrogância e os vícios para poder aprimorar a sua própria pessoa e assim ser um exemplo para quem está à sua volta. Aqui não somos um perfil, um cargo ou número, na maçonaria cada um é um Homem em busca de luz. Num mundo cada vez mais individualista, esta é uma sociedade que procura aprimorar em grupo, um grupo muito maior, a Humanidade. É isto que me faz ser maçom, e é por isso que TU que estás a ler este artigo e ainda não és, devias pensar em ser. Nos dias que correm, ser Maçom é um ato de rebeldia perante a indiferença do mundo moderno.