A Prancha que Não Te Pertence
Você já notou que as pranchas sobre o esquadro e o compasso dizem todas a mesma coisa? Não aproximadamente. Exatamente a mesma coisa, às vezes na mesma ordem.
Obviamente, isto não é coincidência. A maioria dos irmãos não escreveu o que apresentou.
Existe uma ecologia de textos maçônicos circulando em grupos de WhatsApp, em blogs, em arquivos de Word que circulam sem rastreio. Alguém pesquisa, copia, ajusta dois parágrafos, coloca o nome. O trabalho está feito. A loja ouve. O irmão senta. Ninguém fala nada.
Eu entendo o impulso. Um Google, um chatgpt e voilá. Preparar uma prancha do zero é trabalhoso, e a maioria de nós chega ao dia marcado com pouco tempo e muita pressão. Um rascunho de outra pessoa parece uma saída razoável. O problema é que ele resolve a situação de forma incorreta. A Loja não precisa de mais uma exposição sobre o Esquadro. É o aprendiz que apresenta que precisa ter pensado no que aquele símbolo significa para ele.
Isso é diferente.
Quando você passa meses tentando articular por que aquele símbolo significa algo para você — errando, descartando, voltando — alguma coisa muda e não é no texto. É em você. É exatamente isso que deveria estar acontecendo no período de aprendiz. Pegar o atalho não é apenas desonesto; é desperdiçar o único momento em que esse trabalho funciona e se torna uma engrenagem bem oleada para o futuro da caminhada.
O problema maior é o que a cópia constrói ao longo do tempo: uma loja onde ninguém diz nada novo, onde ninguém explica os símbolos de forma diferente, onde a discussão após a prancha vira um exercício de confirmação coletiva ou de massacre pelo massacre. Fica chato. Fica vazio. E fica uma lacuna que talvez nunca seja preenchida no quadro da loja ou na cabeça de quem apresentou.
Sou grato de fazer parte de uma loja onde isso é raro. Tenho escutado trabalhos que vão muito além da mesmice e do óbvio. Alguns incomodam; outros forçam o cérebro a pensar até a última vírgula. Muitos vêm acompanhados de uma pesquisa extensa em fontes não convencionais. E isso diz muito sobre as qualidades dos meus irmãos.
Não existe um protocolo que resolva isso. Só o hábito pessoal de sentar com a página em branco e trabalhar. O caminho mais rápido não é o que leva mais longe.
Fábio Serrano M∴M∴

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