21 fevereiro 2026

O que Eu ganhei por ser maçom...

Se perguntarem a um grupo de maçons o que ganharam com a Iniciação, as respostas tendem a ser muito similares, falam de ética, de fraternidade, de tradição, de serviço. E é verdade, sem dúvida, mas talvez seja uma resposta muito genérica ou muito politica. Há mais, bem mais... uma dimensão mais crua, mais humana, menos “de manual”. 



Comecemos pelo mais ouvido e que, para mim é sim ou sim...

Uma bússola para o aperfeiçoamento moral
O mais citado é talvez o acesso a um caminho coeso de educação moral e filosófica. A maçonaria faz-nos integrar num sistema profundo de iniciação que explora a natureza da alma e os deveres do cidadão. Ganha-se, assim, uma estrutura intelectual que ajuda a navegar pelas complexidades da vida moderna com base em princípios éticos sólidos.

A pertença a uma fraternidade universal
A Maçonaria é uma fraternidade universal que transcende fronteiras geográficas e linguísticas, o maçom Ganha a capacidade de conhecer “irmãos” de diferentes origens, partilhando interpretações rituais e apoio mútuo. Já visitei Lojas fora de Portugal e percebi como a vivência pode ser culturalmente distinta. Em Inglaterra, por exemplo, a Maçonaria é mais aberta e institucional, em Portugal, é mais discreta, por vezes excessivamente reservada. Mas em ambos os casos existe algo real, o reconhecimento mútuo, confiança inicial, uma linguagem comum que não precisa de ser explicada.

Num mundo fragmentado, a Ordem oferece profundidade.

A prática da tolerância e do entendimento mútuo
O estudo de algumas obras ou obtenção de conhecimento atráves de trabalhos realizados por outros irmãos,  tentamos fomentar tolerância e pensamento crítico. Em Loja sentam-se homens com crenças, profissões e ideologias distintas. E, ainda assim, conseguimos dialogar e discutir sem gritar. Num século onde a polarização parece regra, este treino é ouro.

O senso de propósito e serviço
A Ordem motiva o indivíduo a tornar-se instrumento de melhoria cívica, não basta falar de virtudes, é preciso praticá-las. Seja através da beneficência silenciosa, seja através de compromissos pessoais mais exigentes, a Maçonaria transforma intenção em responsabilidade.

A preservação da identidade e tradição
Em tempos de mudanças rápidas, o maçom ganha um senso de continuidade histórica. Não por nostalgia, mas por identidade. A tradição não é um museu, é uma raiz. E raízes não nos prendem, sustentam-nos.

Mas fugindo agora um pouco do discurso "teórico." O que é que eu, João, um jovem de meia idade, pró-activo, meio geek, acelerado, ganhei mesmo?

Ganhei confronto.
Houve momentos em que quase desisti. Procedimentos realizados com os quais não concordei de todo., decisões que me fizeram questionar se a prática estava à altura do ideal. 

Foi frustrante, mas percebi algo essencial.A Maçonaria não é perfeita, continua a ser feitas de homens, como poderia se-lo? E se eu acredito na melhoria do Homem, não posso fugir quando a imperfeição aparece. Sair era fácil, ficar foi mais exigente, no fim, cresci.

Ganhei espelhos.
Cada irmão me marcou e marca da sua própria maneira Uns pela inteligência, outros pela serenidade, outros pela frontalidade que obriga a repensar, outros pela rétorica. Todos me fizeram ser melhor homem, até mesmo a exceção me ensinou, A típica romã podre numa romeira cheia de romãs saborosas. Felizmente percebemos, a tempo, que não acrescentava nada à Loja. Também isso é maturidade coletiva.

Ganhei serenidade perante o julgamento.
No trabalho, quando perceberam que eu era maçom, além das bocas do "gajo do gangue do avental" senti o que não dizem mas o que pensam...“Este só está onde está porque é da maçonaria.” Só posso dizer ui! ui!, qualquer dia sou o CEO....

Aprendi que o desconhecimento cria narrativas fáceis e ganhei o tempo que poderia perder a tentar desmonta-las.

Ganhei profundidade, não mudança.
Não mudei de opiniões por causa da Maçonaria, continuo a ser homem livre e de bons costumes, com todos os meus defeitos e virtudes. Mas aprofundei convicções, desenvolvi pensamento crítico. Passei a ouvir mais antes de reagir.

Ganhei consciência de liderança.
Se não tivesse entrado, talvez estivesse hoje numa posição hierárquica mais elevada. Talvez tivesse sido mais agressivo, mais centrado em mim, mais focado apenas no meu umbigo. Talvez tivesse confundido mandar com comandar.

A Maçonaria ensinou-me a diferença.

Ganhei tempo.
Num mundo onde se vive rodeado de tecnologia e decisões rápidas, a Loja obriga-me a desacelerar. Junto aquelas colunas, não sou director, nem “o homem do avental”, nem o que fala de inovação., não passo de um homem entre homens, com as mesmas fragilidades.

Resumindo, saio de casa duas vezes por mês “fardado”, ouço comentários, sinto rótulos e preconceitos silencioso, mas que importa? 

Discrição não é vergonha e silêncio não é medo, se não tivesse entrado, talvez estivesse mais alto na hierarquia, mas estaria mais pequeno por dentro.

E no fim, o que ganhei por ser maçom foi não me tornar maior aos olhos dos outros, mas sim tornar-me mais exigente aos meus próprios olhos.

E isso é um fardo que só quem quer crescer está disposto a carregar.

Quando te viras e olhas ao espelho, percebe que olhas para o teu maior inimigo...o resto é ruido.

João B. M∴M∴

14 fevereiro 2026

A VOLTA DO “TEMPO”... QUE EU NÃO TENHO !

Os últimos textos publicados pelos meus Irmãos Fábio Serrano e João B. sobre o "tempo" reavivaram uma chama que se tem mantido latente a corroer-me o juízo.

É obviamente uma questão pessoal, esta que refiro ter sido reavivada, mas que sendo esta referência meramente pessoal não é mais do que o reflexo de uma das doenças (doença digo eu…) que tem corroído a relação humana tal como a conhecemos, sendo que os mais antigos como eu, a conheceram nos idos dos meados do séc. XX.

Na época a vida conseguia ser bem vivida esperando umas horas, vulgarmente não menos de um dia,  pelas conclusões de uma qualquer reunião importante dos políticos locais, ou pela informação dos vencedores dos Globos de Ouro, ou por… quase tudo !

Falar ao telefone era coisa que se fazia uma vez de 2 em 2 dias, nos pares de dias em que se falava ao telefone. Primeiro era necessário que houvesse um telefone, depois que ele estivesse disponível, depois ainda e mais difícil , que o pretendente interlocutor tivesse ele também aceso a um telefone.

As notícias, agora chama-se informação, sobre um desastre em França eram conhecidas pelo jornal da manhã do dia seguinte. O começo de uma guerra conhecia-se na semana seguinte e o seu fim talvez um mês depois. E vivia-se !

Pergunte-se hoje a uma criança de 6 ou 7 anos como é que se entretém quando está sem aulas… Ou pergunte-se aos Pais dessa mesma criança qual o assunto sobre o qual discorreram durante o jantar…

A televisão é omnipresente, a internet uma necessidade absoluta, as “conversas” pelas correntes ditas sociais desafiam a atenção permanentemente, esteja onde estiver. Com isto e sendo assim, as 24 horas do dia não chegam para todos os “compromissos” ditos “sociais”.

Como contrapartida dos telefonemas de 2 em 2 dias temos hoje 2 ou 3 chamadas em simultâneo no telemóvel, umas em espera da que começou primeiro ou da que o atendente considera prioritária.

E tem de ser assim porque o “tempo” é pouco para se responder ao(s) interlocutor(es). Este retrato da vida diária nesta primeira metade do séc. XXI só peca por cores pouco acentuadas.

Estas referências não são uma queixa, são apenas uma constatação, nada mais do que isso. Não advogo o saudosismo, mas não descarto a crítica ao "atualmente correto". O progresso é bem vindo, sempre. Entretanto convém definir o que é progresso e separá-lo do que são os "gadgets" (palavra horrorosa) que invadiram a vida diária e que sendo isso mesmo, "gadgets", se tornaram indispensáveis e inseparáveis de muitos de nós.

Sobre este assunto (há quem lhe chame “problema”) há centenas de divagações. São muitos, mesmo muitos, os autores de estudos, análises, sugestões, relatos de situações que refletem sobre o tema “tempo”.

Quem não se lembra (dos mais antigos) ou quem nunca viu (e riu) com pedaços do Charlie Chaplin nos “Tempos Modernos”, modernos em 1936… Foi a questão “tempo” da época.

Por outro lado e numa abordagem completamente diferente, que tal entrarmos nas pesquisas atuais do italiano Carlo Rovelli sobre a não existência do “Tempo” ?  Sim, há essa pesquisa e, pelos vistos, essa possibilidade. O Tempo afinal não existe…

Se tal se confirmar todos os atrasados ficam desculpados…

Estando no espaço humano em que nos movimentamos, com horários para trabalhar ou para ir ao espetáculo, ou para ir rapidinho ao supermercado ou para almoçar também rapidinho, ou para ver o programa… ou para entrar na reunião do “zoom”… neste espaço humano é a vida diária que nos apoquenta sobremaneira.

No “A-PARTIR-PEDRA” por maioria de razão é a Humanidade que nos convoca e, nesta, a Família a que damos corpo, existência e participação. E neste mundo assim pequenino da Família, à nossa dimensão, talvez possamos fazer alguma coisa para melhorar a nossa relação com essa 4ª dimensão que afinal, se calhar, nem sequer existe.

Tal como de outras vezes e porque não gosto de reinventar a roda, trago um pequeno vídeo com palavras que obviamente eu não escrevi, mas que, também obviamente, gostaria de ter escrito:


Fica a certeza de que cada um tem à disposição TODO o tempo que existe e que a FELICIDADE não é uma corrida, é um objetivo !

Fevereiro/2026

J.Paiva Setúbal (MM∴)


 

07 fevereiro 2026

Sobre o tempo que deixámos de ter

 O texto recente do Ir∴ Fábio Serrano fez-me parar, não porque seja uma denúncia inédita, mas porque coloca o dedo num ponto que muitos de nós preferimos contornar. A Maçonaria não se tornou menos valiosa, tornou-se mais difícil de habitar. E essa dificuldade não nasce de uma crise moral da Ordem, mas de uma transformação profunda da sociedade onde ela tenta continuar a existir. Entre os vários “ladrões de tempo” que o Fábio identifica, com lucidez, o entretenimento digital, a obsolescência profissional, a paternidade intensiva, o futebol transformado em Big Brother, há um fio comum que atravessa tudo, a erosão do Tempo enquanto espaço habitável.

Vivemos numa sociedade que não apenas ocupa o tempo, mas o fragmenta. O tempo deixou de ser um campo onde se permanece e passou a ser um corredor de passagem. Tudo é feito em trânsito, em simultâneo, em aceleração constante. Já nem o lazer escapa a esta lógica, a juventude de hoje em dia consome os conteúdos acelerados, vídeos a 1.5x ou 2x, não porque sejam longos demais, mas porque a nossa capacidade de espera encolheu. Até o descanso tem de ser eficiente, mensurável, justificável. A pausa precisa de provar que merece existir e o resultado é paradoxal, quanto mais tentamos ganhar tempo, menos sentimos que o temos.



É aqui que o diagnóstico do Fábio ganha peso, quando a Maç,onaria pede tempo, não pede apenas horas numa agenda. Pede Presença. Pede Repetição. Pede Silêncio. Pede uma disponibilidade interior que não produz resultados imediatos nem oferece gratificação instantânea. Num mundo dominado por algoritmos desenhados para gerar estímulos constantes, pedir a alguém que se sente, escute, observe e espere é quase um ato contra-cultural. Não admira que tantos sintam que o custo é elevado e o retorno difuso, não porque o retorno não exista, mas porque já desaprendemos a reconhecê-lo.

O problema, contudo, não é exclusivamente maçónico. É civilizacional. O homem contemporâneo vive com a sensação permanente de estar atrasado. Atrasado para o trabalho, atrasado para a formação, atrasado para a família e principalmente atrasado para si próprio. O tempo livre foi transformado em tempo de sobrevivência, estudar para não ficar obsoleto, treinar para não adoecer, produzir para não cair. Tudo é imediato, tudo é urgente, e quando assim o é, nada pode ser profundo. Quando somos forçados a escolher entre estar presentes com os filhos, garantir a estabilidade profissional ou dedicar-nos a um caminho iniciático exigente, a escolha deixa de ser simbólica e passa a ser ética. A Ordem não perde porque é menos importante, perde porque não quer, nem deve, competir nesse plano.

Talvez por isso a questão central não seja se temos ou não tempo, tempo há e sempre houve. A verdadeira questão é para onde o estamos a entregar e com que critérios. A quem damos o nosso melhor tempo? O mundo moderno não nos rouba o tempo à força seduz-nos, a trocá-lo por fragmentos de distração, por pertenças fáceis, por identidades sem silêncio.

Nesse sentido, a Maçonaria não concorre com o mundo moderno. ela contraria-o. A sua lentidão, o seu ritual, a sua exigência de escuta e repetição não são defeitos de um modelo ultrapassado. São precisamente o que a torna difícil de aceitar numa cultura que desaprendeu a permanecer, talvez seja por isso que incomoda e talvez seja também por isso que continua a ser necessária.

No fim, talvez não vivamos numa sociedade sem tempo. Vivemos numa sociedade que perdeu a coragem de o defender. E enquanto não formos capazes de assumir essa escolha, continuaremos a confundir a falta de tempo com falta de vontade, e a erosão do compromisso com uma suposta inevitabilidade histórica. 

João B. M∴M∴