20 agosto 2010

A Maçonaria: tecnologia avançada (VI - Epílogo)


Muitos dos "segredos" da maçonaria operativa - especialmente os ligados à engenharia, à arquitetura e à ciência - fazem hoje parte do conteúdo curricular de cursos do ensino superior - e alguns mesmo do ensino obrigatório. Outros ainda, mais ligados à técnica do trabalho artesanal da pedra, ter-se-ão perdido irrecuperavelmente por falta de aprendizes que perpetuassem a arte. Outros, de cariz mais simbólico, apesar de subsistirem, terão distorcido o seu significado a ponto de ser irreconhecível o seu sentido original. A "tecnologia avançada" da época, que as Lojas tão ciosamente guardavam, deixou de ser sigilosa, encontrando-se hoje - com mais ou menos estudo - ao alcance de todos.

Por tudo isto, é inegável que a Maçonaria actual não tenha quase nada em comum com a maçonaria operativa da Idade Média. Então, o que é hoje a Maçonaria? A chave desta questão encontra-se na forma como a própria Maçonaria se define: "A Maçonaria é um sistema peculiar de moralidade, velado por alegorias e ilustrado por símbolos". A Maçonaria é, portanto, um sistema de moralidade, e um que, como vimos já, abraça os princípios do Iluminismo - com o primado da razão enquanto fonte de autoridade e legitimidade - bem como a tolerância religiosa. A Maçonaria, não obstante partindo do princípio da imortalidade e da crença num princípio criador regular e infinito, apresenta uma conceção do mundo afastada da ignorância, do obscurantismo e da superstição, promovendo a busca da virtude, entendida como a força de fazer o bem no seu sentido mais lato do cumprimento dos nossos deveres para com a sociedade e para com a nossa família sem interesse pessoal. A ética da Maçonaria é, por outro lado, uma ética de trabalho, não pondo nenhum obstáculo ao esforço na busca da verdade, nem reconhecendo outro limite nessa busca senão o da razão.

Esse "sistema de moralidade" não é apresentado de uma vez; os princípios vão sendo apresentados de forma progressiva, e vão sendo desvendados novos "segredos" através de histórias alegóricas - que mais não são do que pontos de partida para a reflexão sobre potenciais imperfeições da nossa existência com o fim do auto-aperfeiçoamento. Por outro lado, as alegorias não são apresentadas de forma inequívoca, tendo cada um a liberdade de retirar delas os ensinamentos que lhe sejam mais proveitosos, o que é rigorosamente respeitado e promovido. Os símbolos, do mesmo modo, não têm significados universais, podendo ser interpretados por cada um da forma que entenda. A par de todo o aperfeiçoamento moral e espiritual, promove-se um saber diversificado, muito para além da especialização profissional que é a norma do nosso tempo. Cada um é, por exemplo, incentivado a apresentar oralmente trabalhos que tenha escrito e que podem ser sobre qualquer tema que possa interessar os obreiros da Loja, o que, promove para além do conteúdo apresentado, a prática da Retórica e da Gramática. Enquanto tudo isto sucede, vai cada um aprendendo a respeitar a posição alheia, mesmo que com ela não concorde; a calar um reparo se do mesmo não resulte senão a quebra da harmonia; a exercer a sua Liberdade dentro dos limites que a Igualdade e a Fraternidade impõem.

Mas então, porque continua a Maçonaria a manter "segredos" já revelados? Porque é que se continua a imitar uma profissão extinta, e a perpetuar lendas e símbolos de outros tempos? Por outras palavras, porque é que a Maçonaria é o que é, e porque é que, na Maçonaria, se faz o que se faz, e do modo que se faz? A resposta não poderia ser mais simples: porque funciona. De facto, o passar dos séculos tem demonstrado ter a Maçonaria uma metodologia eficaz de propagação dos princípios que esta acarinha e representa.

Por outro lado, pode dizer-se ser o seu "tradicionalismo" uma das causas da sua longevidade e, contrariamente a tantas associações que aparecem e desaparecem num curto espaço de tempo, a Maçonaria não tenciona deixar de existir de um dia para o outro. De facto, é inegável que nas sociedades atuais, como no século XVII, grassa a ignorância e a mediocridade, prevalece o fundamentalismo e o preconceito, e o oportunismo sobrepõe-se à retidão de princípios. Os propósitos da Maçonaria estão ainda longe de se ter concretizado, e longe de se ter esgotado os motivos da sua existência. Por esta razão, enquanto houver Homens com o firme propósito de se melhorar, de aprender a viver em proximidade com perspetivas diferentes das suas e de praticar a virtude e o bem, haverá lugar para que, por seu intermédio, a Maçonaria torne o mundo num lugar mais justo e mais perfeito.

Paulo M.

6 comentários:

Nuno Raimundo disse...

Boas Paulo...
Gostei bastante desta série ( espero por mais), mas em particular, apreciei o que li no 2º Parágrafo do post. :)

Posto desta forma, as "coisas" parecem simples, se calhar tão simples que podem suscitar as habituais dúvidas.
Porque se alogo é tão simples, então é porque é mesmo complicado. ;)

abr...prof...

M. A. disse...

Estimado e respeitável Paulo M.;

Apenas e tão-somente uns pequenos comentários de um “profano”:

Obrigado pelo seu trabalho (prancha), quer pela investigação, quer pela respectiva documentação anexa;

Obrigado pela sua disponibilidade e capacidade de partilha;

Gostei do todo, mesmo que esse todo, tenha sido repartido em partes, para que aqueles que se julgam conhecedores de tudo, pudessem, de facto, adquirir conhecimento, caso assim o quisessem, um pouco de cada vez.

Porque, de acordo com a minha forma de ver, o todo de uma só vez, seria sem duvida muito pouco para aqueles que de muito se julgam sabedores.

Para mim, mero profano e caminhante, limitado no seu saber (dai a minha busca diária e continua, do conhecimento), o todo, que foi bem repartido, foi sem dúvida muito conhecimento disponibilizado, para quem dele queira retirar aquilo que lhe convir e for capaz.

Por isso e só por isso obrigado pela sua capacidade de partilha.

“Faz pelos outros aquilo que um dia, sem pedires e ou teres que demonstrar necessidade, gostavas que os outros fizessem por ti.”.

Este é o meu lema! - Pois “sem fazer aos outros”, seja o que for, está este pais cheio, porque é bem mais fácil não fazer e apenas se dedicar a criticar aquilo que os outros fazem, do que fazer seja o que for, nem que seja abrir bem os olhos e começar a pensar um pouco de forma racional, educada e acima de tudo cordial, para que quando criticarmos, questionarmos e ou comentarmos, estarmos cientes da nossa razão e fundamentados no verdadeiro conhecimento, com base em alicerces sólidos e não apenas ancorados a pântanos de areias movediças, que a partir da sua falsa sensação de terreno firme levam muitos a afundar-se no seu interior.

Bem-haja quem esta de bem e por bem para com os outros e para consigo próprio.

M.A.

Jorge Bird disse...

Caro Paulo M.

Excelente. Obridado pela partilha. Que o malho e o cinzel continuem a partir pedra com a mestria e precisão demonstradas. Esta pedra bruta agradece.
Abç.
Bird

Adson Lins Santos disse...

Que o Senhor lhe conceda discernimento para encontrar a verdade que liberta e está em Cristo Jesus!

candido disse...

Viva Paulo:
Gostei muito dos trabalhos apresentados, e este, por se tratar de um epilogo, obrigou-me a reler todos os anteriores para "saborear o bolo" e relembrar os seus ingredientes. Muito obrigado pela sintese que conseguiu, muito obrigado pela investigação que fez e muito obrigado pela forma como soube defender os seus pontos de vista e a sua interpretação dos factos que apresentou. Tudo isto sem BEATICE ou FACCIOSISMO !
Aproveito para agradecer a todos os participantes, sem excepção, que deram um grande contributo para a clarificação desta "historia em capitulos", tal como eu sinti a leitura destes artigos.
Mas, Paulo, Tecnologia Avançada pode adivinhar-se que este epilogo seja o prefacio para demonstrar a força que a Tecnologia e o Conhecimento tem tido no desmontar de crenças na justificação de fenomenos sobrenaturais, e até ir mais além, para lembrar um artigo do Rui Bandeira "serei crente", para ver, como passados apenas dois anos as descobertas do infinitamente grande e do infinitamente pequeno têm tido avanços substanciais.Mas isto é outro desafio, ou "provocação"!.
Mais uma vês obrigado a si e a todos que intervieram nesta série e que muito me ensinaram.
Abrs a todos.

Paulo M. disse...

@Nuno Raimundo, M.A., Jorge Bird, candido e todos os outros:

Obrigado a todos pelos vossos comentários. Sem eles este trabalho teria sido, sem dúvida, mais pobre, pois foi sendo escrito à medida que ia sendo publicado, e assim pude i-lo ajustando à medida dos reparos que ia recebendo e das questões que iam sendo colocadas.

Espero ter, com estes textos, colocado em contexto adequado as respostas a muitas das perguntas que foram sendo colocadas. É que, sem contexto, uma resposta, por mais correta que possa ser, nunca pode ser inteiramente esclarecedora...

Continuo disponível a que coloquem as questões que entendam pertinentes, e a que responderei na medida do que saiba e possa.

@candido:
Quanto ao facto de a maçonaria dever ou não "desmontar de crenças na justificação de fenomenos sobrenaturais", é um bom tema que terei todo o gosto em tratar proximamente.

Um abraço,
Paulo M.