05 fevereiro 2007

A Regularidade Maçónica

No seu texto Breve análise do Blogue, JoséSR sugeriu aos visitantes do mesmo que, no espaço para comentários, indicassem assuntos que gostassem de ver aqui tratados. Escriba não se fez rogado e escreveu: Gostaria de por aqui ver abordada e participada pelos internautas, a questão da regularidade. É com enorme tristeza e pesar que constato o que no nosso país se passa neste dominio. Instado a esclarecer a razão da tristeza, acrescentou: o que me deixa triste é a maioria das obediências deste país, não todas, proibam, a palavra é esta, o contacto entre maçons de outras obediências que não a sua. Não faz para mim sentido, de todo, que me possa reunir institucionalmente com um irmão australiano e não o possa fazer com um de coimbra. A Maçonaria é só uma, uma questão administrativa não devia servir para dividir irmãos que almejam apenas trabalhar em conjunto, há luz de um Ideal Maior.

A prioridade no desenvolvimento cabia ao JoséSR, já que o assunto fora suscitado em comentário a um texto seu. Porém, o JoséSR não terá tido ainda disponibilidade para o fazer. Como não é conveniente deixar passar mais tempo sem desenvolver o assunto proposto, sob pena de o Escriba ficar defraudado na sua expectativa, avanço já eu.

Uma advertência, porém, não quero deixar de formular, talvez desnecessariamente: todas as opiniões que neste blogue deixo consignadas vinculam-me apenas a mim, maçon livre de uma Loja livre, e a mais ninguém, pois sou porta-voz apenas de mim mesmo.

Escriba levantou, não uma, mas três questões diferentes: a Regularidade, o Reconhecimento e o Relacionamento das e entre as Obediências Maçónicas. Interligar-se-ão, influenciar-se-ão, sem dúvida. Mas são questões diferentes e assim devem ser tratadas. Hoje, tratarei apenas da primeira.

Denomina-se de Maçonaria Regular a Maçonaria que segue os princípios da Maçonaria Inglesa, especificamente da Grande Loja Unida de Inglaterra (UGLE). Tais princípios estão definidos nos doze Landmarks já neste blogue apresentados e comentados. Deles se retira estarmos perante uma Maçonaria deísta (é elemento essencial a crença num Ente Criador), independente de e aceitando todas as religiões, com o objectivo do aperfeiçoamento moral e espiritual dos seus membros através do método maçónico e da interacção individual com o grupo em que se está inserido e só mediatamente influenciando a Sociedade, através do exemplo dos maçons, isto é, sem intervenção política directa e organizada. Em Portugal, esta tendência está corporizada na Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal (GLLP / GLRP). Outras organizações de menor expressão, originadas de cisões desta Obediência se reclamam do mesmo ideário.

À falta de melhor designação, designa-se por Maçonaria Liberal (evito aqui o adjectivo de Irregular, que pode ser interpretado como tendo uma carga negativa) a tendência que prossegue o ideário desenvolvido pelo Grand Orient de France desde a época da Revolução Francesa, assente sobretudo na trilogia de princípios Liberdade-Igualdade-Fraternidade, na promoção da Democracia e das Ideias Democráticas. Esta tendência não considera essencial a crença num Criador, admitindo agnósticos e ateus. Busca o aperfeiçoamento da Sociedade através da acção dos seus membros, que devem, para tal, aperfeiçoar-se moralmente. Não rejeita, antes favorece, a intervenção política. Em Portugal, esta opção é a seguida pelo Grande Oriente Lusitano (GOL).

Estas duas correntes são realidades e organizações diferentes e com diferentes propósitos. É certo que em muito os respectivos caminhos são comuns (o método de evolução, o tipo de organização, as raízes simbólicas, a proactividade pelo aperfeiçoamento). Mas também de forma não despicienda tais caminhos divergem: enquanto uma baseia todo o seu ideário na crença num Criador, como base e enquadramento para o aperfeiçoamento dos seus membros, objectivo essencial buscado (sendo tudo o resto, incluindo a evolução da Sociedade uma consequência mediata), a outra prescinde dessa crença (mas não a hostiliza, aceitando sem problema crentes e, tal como a Maçonaria Regular, integrando a tolerância perante as várias opções religiosas no seu ideário) e prossegue o aperfeiçoamento dos seus membros como meio para atingir o objectivo essencial, a transformação da Sociedade, a sua evolução e aperfeiçoamento, de acordo com a matriz democrática.

Ambas as tendências são igualmente respeitáveis. Têm - repito - muito em comum, quer na forma, quer na substância. Têm, no entanto, princípios essenciais diferentes e objectivos diversos. São, pois, realidades diversas, embora em muito semelhantes. Percorrem e partilham o mesmo caminho, ao longo de grande parte da jornada. Mas querem chegar a pontos diferentes. Ambas são romeiras. Só varia o destino de romagem.

No meu ponto de vista, não é melhor nem pior uma do que outra. São, simplesmente, diferentes. Ambos os caminhos são louváveis. Um convirá mais a uns; o outro a outros.

Não há, assim, uma mera questão administrativa a dividir Irmãos. Reconhecer as diferenças, assumir a diferente natureza destas duas grandes tendências, admitir que não há UMA Maçonaria, antes DOIS tipos de Maçonaria - e que não há mal nenhum nisso! - é, no meu entendimento, essencial para que os elementos de cada uma das tendências viva proveitosamente aquela em que está inserido e se relacione fraternalmente com a outra.

Eu insiro-me na Maçonaria Regular, prossigo e aceito os seus princípios. É este o meu caminho, o que se adequa a mim. à minha mentalidade, à minha maneira de ser, de pensar, de reagir. Outros inserem-se noutra tendência maçónica. O seu caminho é igualmente meritório e, porventura, para a mentalidade, a maneira de ser, de pensar e de reagir de quem o trilha, será mais profícuo.

Se os maçons, de qualquer tendência, souberem assumir a sua própria individualidade e as dos demais, se aplicarem a si próprios e aos demais maçons, qualquer que seja a sua tendência, os princípios que professam, ser maçon Regular ou Liberal não será nunca um factor de divisão, antes e tão só o que é: um adjectivo caracterizador da forma que escolheu para procurar ser melhor e ajudar a Sociedade a ser melhor.

Rui Bandeira

7 comentários:

Jose Ruah disse...

Simpatico da tua parte.
De facto o tempo tem sido escasso, mas o texto estava basicamente escrito e em fase de revisão.

Se nao te tivesses apressado, hoje ao fim do dia eu teria conseguido coloca-lo.

mas sendo assim....

Rui Bandeira disse...

Coloca-o na mesma!
A minha visão é a minha visão. A tua é a tua.

Nuno Raimundo disse...

Agradecia a publicação do mesmo, pois na minha condição de profano, muito me apraz o estudo e a forma com a propria Maçonaria se organiza; logo é sempre interessante saber e ver qual a posição e opinião dos vários Maçons. Bem Haja!!
Obs: O vosso Blog é bastante interessante, pois trata das questões maçónicas de uma forma, que qualquer Não Iniciado pode "tentar" compreender melhor do que se trata a "Arte Real".

O marreta disse...

Caro josesr, se possivel coloque o seu texto, esta temática não está esgotada, nem de perto nem de longe.

Unknown disse...

Vamos lá a colocar textos e a comentar os mesmos, esta questão, que me é muito cara, precisa de ser dirimida.

memorias disse...

..."Outras organizações de menor expressão, originadas de cisões desta Obediência se reclamam do mesmo ideário".
Não, meu Ir.: - não é assim, por muito que to tenham dito.
A GLLP, (que não pode, legalmente, usar a designação GLRP), é que é uma cisão da Grande Loja Regular de Portugal, tal como o são a GLNP e a GLTP.
Esta é que é a verdade. Juridicamente suportada. O uso da sigla GLRP, por vocês mantido, pode e tem permitido manter reconhecimentos internacionais por parte de algumas Obediências mais distraídas. Mas queiramos ou não é uma usurpação de nome e como tal uma fraude, para não dizer um crime.
Desse facto estão todas a ser informadas, e com novos elementos- nomeadamente o que N de Carvalho fez no caso Moderna, a ver se finalmente pomos um pouco de normalidade (e regularidade) na Maçonaria Regular.
É que vocês tiveram uma sucessão irregular, quando o dito Nandim, impossibilitado de passar o malhete por ser arguido em vários processos judiciais, foi por vocês - e bem - afastado do cargo de GM. Para a sucessão, tiveram de chamar alguém de Londres.
Por muito menos, nós seríamos enxovalhados...

Rui Bandeira disse...

@ memorias:

1. Meu Irmão: vejo que te integras na GLRP da Casa do Sino. Defendes a tua dama com galhardia. Admiro-te por isso. Permite que não concorde. Permite que concordemos em discordar, mantendo-nos serenos e respeitadores das mútuas posições.
Na altura da cisão, já eu era obreiro da Loja Mestre Affonso Domingues e sei bem o que se passou. Houve os que ocuparam a Casa do Sino e declararam destituir o Grão-Mestre eleito e empossado e os que, gostando ou não desse Grão-Mestre, tendo ou não votado nele, entenderam que essa não era a forma legítima de proceder. Uns seguiram um caminho; outros seguiram outro. Quanto ao que chamas "usurpação de nome", esclareço a minha posição no texto que publico no blogue em 9/5/2007.
Quanto ao "afastamento" de LNC do cargo de Grão-Mestre, estás mal informado: LNC terminou normalmente o seu mandato e foi normalmente eleito e empossado o seu sucessor. O facto de na sua posse (como na dos dois Grão-Mestres que sucederam ao sucessor de LNC) ter estado presente, ao mais alto nível, representação da UGLE, isso só prova que a UGLE reconhece a inteira Regularidade da GLLP/GLRP.
És sempre bem-vindo a comentar neste blogue. São bem-vindas as tuas informações sobre a tua GLRP e as suas posições. Peço-te apenas que não estragues a valia das tuas opiniões conspurcando-as com (desnecessária)agressividade para com a Obediência em que escolhi estar inserido. Isso não valoriza, antes desvaloriza, a tua posição!