25 outubro 2006

MIA COUTO e o mendigo Sexta-Feira

O mendigo Sexta-Feira jogando no Mundial"(...)
O que me inveja não são esses jovens, esses fintabolistas, todos cheios de vigor. O que eu invejo, doutor, é quando o jogador cai no chão e se enrola e rebola a exibir bem alto as suas queixas. A dor dele faz parar o mundo. Um mundo cheio de dores verdadeiras pára perante a dor falsa de um futebolista. As minhas mágoas que são tantas e tão verdadeiras e nenhum árbitro manda parar a vida para me atender, reboladinho que estou por dentro, rasteirado que fui pelos outros. Se a vida fosse um relvado, quantos penalties eu já tinha marcado contra o destino? (...)"
(Mia Couto, in O fio das Missangas)


Mia Couto é um dos nomes enormes da escrita de língua portuguesa e este texto que me chegou via mão amiga, é mais um terrível soco no estômago, só possível por quem tenha experiência deste pugilato da vida.
Diàriamente chegam-nos notícias assustadoras sobre a sensibilidade que os agentes políticos (que têm a responsabilidade de encontrar as soluções) mostram na abordagem aos vários temas reflectidos no texto.

O que vemos como propostas de solução para as inquietações que Mia Couto nos propõe ?

Na parte que toca aos futebolistas vemos o estatuto de excepção, absolutamente imoral, de que gozam e cujos dirigentes defendem com unhas e dentes, mostrando todo o desprezo com que olham para o mundo à volta e todo o embevecimento com que olham para o umbigo próprio.
Podemos pôr em equação a questão do tempo de vida profissional, o facto das situações mais chocantes serem uma minoria no “universo” do número de jogadores em actividade, e mais as razões extraordinárias que um político, dos actuais, apontou esta semana dizendo que “coitados dos jogadores a quem não são ensinados hábitos de poupança e que têm de deixar a escola muito cedo”, considerando a partir daí muito bem que os impostos que eu pago todos os anos com o fruto de muitas, muitas, muitas horas de trabalho sirva para compensar os “coitadinhos dos jogadores de futebol”.
Todas estas razões podem ser equacionadas porque o resultado final da incógnita será sempre a imoralidade total com que são gastos a maior parte dos muitos milhões que se gastam naquela actividade.
E quanto a estes aspectos é preciso que se afirme que a maior parte dos beneficiados são gente mal formada, péssimos desportistas, sem qualquer espécie de respeito pelos companheiros de profissão, que encaram calmamente e impunemente como inimigos a abater.
E não vale a pena contar a estória da “saída da escola” e mais uma centena de razões muito válidas para os defensores desse “status quo”, porque isso não pode justificar a forma como se tratam uns aos outros.
Ao menos isso.
Há uma ou duas semanas cantaram-se umas loas em homenagem a Jorge Costa que abandonou a actividade profissional de futebolista.
Reafirmo a minha opinião de há muitos anos.
Jorge Costa, como vários outros (João Pinto, Petit, Sá Pinto,...) são personagens que nunca deveriam ter pisado um campo desportivo (qualquer que fosse) porque nunca souberam merecer a condição de desportistas.

Outras notícias que nos chegam dão-nos conta do agravamento generalizado das condições de vida para os mais desprotegidos da sociedade.
Sob a capa do aperto financeiro em que o país se encontra estamos a assistir a um verdadeiro assalto aos mais fracos.
As últimas notícias falam dos aumentos dos lucros dos bancos (38%, 46% ...), enquanto o ministro das finanças anuncia que até ao fim do ano os bancos continuarão, legalmente, a não ter de pagar uns tantos milhões de imposto que seriam devidos se a Administração Fiscal tivesse actuado em tempo util.
Por outro lado deixa uma vaga promessa (esta classificação de “vaga” é muito subjectiva, mas é a minha interpretação !) de que a partir do próximo ano começará a aproximação da forma de tributação das “empresas bancos”, ao tipo de tributação das outras empresas (aquelas que não desviam lucros para as Ilhas Cayman ou outras parecidas).
Continua a ser interpretação pessoal mas a minha expectativa é a de que essa aproximação, se alguma vez existir, será feita muito lentamente, muito lentamente, tão lentamente que ao fim de um ano ou dois já ninguém se lembrará nem falará do assunto que de tão lento que evolui ficará definitivamente parado sem ninguém dar por nada, a não ser claro os beneficiados directos.
Dentro do mesmo princípio irão aumentar os descontos sobre os recibos verdes, tal como já aumentaram os descontos para os funcionários do Estado e para os reformados.
Na saúde os utentes passam a comparticipar mais nas despesas em que já comparticipavam e passam a comparticipar em outras onde isso ainda não acontecia.

Usando a pena de Mia Couto, “o que me dói doutor, é não poder haver uma ilha Cayman para cada português receber aí o seu salário, a sua pensão, e assim deixar, legalmente, de pagar impostos cuja utilização tem sido feita em favor dos que não pagam, dos que se consideram merecedores de todas as benesses, legalmente e sempre, sempre com boa-fé já se vê”.

O mendigo Sexta-Feira assinala os penalties contra o destino.
Mas o responsável pela batota do jogo não é o destino.
São homens, e são homens com nome, com identidade, com residência, com localização possível e fácil.
Então porque se não marcam esses penalties ?
Na vida, como no futebol, a maior parte dos árbitros está comprada.
JPSetúbal

3 comentários:

Rui Bandeira disse...

Pois é, está de chuva e a chuva deixa-nos deprimidos...

Mestre Affonso Domingues disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
JPSetúbal disse...

Meu querido RB, apenas agora volto ao tema, não que tenha demorado a ler o Teu comentário mas porque tenho andado sem grande capacidade de concentração para escrever o que quer que seja.

Como sabes agradeço-Te a paciência de leres o que vou “postando” e mais ainda a pachorra de comentares.

Desta vez não confirmo a Tua sugestão.
Nem por causa da chuva, nem por causa de depressão.
Talvez algum abaixamento do nível do optimismo habitual, sem ser propriamente pessimismo, ainda... !
Provavelmente sem dares por isso puseste o dedo na ferida.
Trata-se de algum incómodo, alguma insegurança em relação ao que se prepara, inquietação relativamente à observação do imediato próximo (“imediato” físico, “próximo” temporal !).

Meu querido, todos sabemos que o Sol quando nasce é para todos, e na generalidade até é.

Mas a chuva, meu Irmão, a chuva só vem molhar alguns...
e sempre os mesmos...
e como faz falta a chuva...
e isso perturba-me...

O que está a acontecer na política nacional tem esta curiosidade.
Está quase tudo bem no que se refere a alterações funcionais.
Há muitas dúvidas nos ajustamentos da distribuição da “riqueza”.

Tem havido firmeza na aplicação de mudanças, na Agricultura, na Saúde, na Educação, nas Forças de Segurança.
Nem tanto assim na Justiça e na Banca.
São os calcanhares d’Aquiles da organização do Estado português. Lá, estão os grandes contra-poderes à reorganização do Estado.
E é neste ponto que me assaltam as dúvidas.
E “prontes”, aqui, nesta nossa pedra, tenho dito sobre esta matéria.
Um abração.