18 outubro 2010

Como se pode - ou não - falar de religião em loja


A proibição de discussão religiosa em loja é assunto reiteradamente debatido. Não há, todavia, como o exemplo para ilustrar o princípio. Quando procurava uma ocorrência - real ou fictícia - que não soasse forçada, recebo um simpático cumprimento feito por um leitor aqui num dos comentários: "Que o Senhor lhe conceda discernimento para encontrar a verdade que liberta e está em Cristo Jesus!". Nem de propósito. Este cumprimento, feito sem qualquer dúvida com a melhor das intenções, consubstancia, precisamente, o tipo de discurso que, apesar de socialmente admissível fora de loja, não o é numa loja maçónica.

Mas porque é que um simples cumprimento como este - que até é auspicioso, traduzindo os desejos de que suceda ao seu destinatário uma coisa que o emissor tem por positiva - não é admissível em loja? Vejamos com mais atenção o que se diz. "Que o Senhor"... Até este início insuspeito pode gerar controvérsia; se, por exemplo, se pertencer a uma religião que denomine a Divindade de uma outra forma, é quanto basta para que se sinta a expressão como estranha. Nesse sentido, não é difícil imaginar uma situação em que alguém interprete isto como sinónimo de "que o meu Deus - que não é o teu - te conceda isto e aquilo". "... a verdade que liberta ...", esta sim, é uma  quase certa fonte de discórdia, por causa da sua mais pequena palavra: "a". Referir-se "a" verdade que liberta, especialmente junto de um nome comummente associado a certa religião, implica ser esta verdade algo de único, que não há outra, e que muito menos há várias. Referirmos a existência de um único caminho certo implica que quem não o percorra estará a ir... por caminhos errados - o que é contrário à ideia de que cada um deva sentir ser respeitadas as suas crenças de forma que não haja preponderância de quaisquer outras sobre estas - ou destas sobre quaisquer outras. Isto faz-nos chegar à última parte: "... e está em Cristo Jesus". Se a todas as outras fórmulas se poderia, eventualmente, fazer "vista grossa" quando utilizadas em loja, esta última não é, de todo, passível de ser aceite, por ser indiscutivelmente própria de uma religião, e por isso sentida como estranha por quem professe uma fé diversa.

Cada religião tem uma terminologia própria para referir a(s) divindade(s) a quem presta culto. Forçar seguidores de várias crenças a utilizar a terminologia de uma delas seria algo de muito pouco paritário. Para ultrapassar esta dificuldade, a maçonaria decidiu adotar uma nomenclatura própria, alheia a qualquer crença ou religião - e por isso equidistante de todas estas - para designar a Divindade. Assim, em vez de um dizer Elohim, outro Deus e outro Jesus Cristo; em vez de invocar Allah ou Jeová, Krishna ou Zoroastro, Thor, Zeus - ou a Divindade por qualquer outro nome - os maçons dizem "Grande Arquiteto do Universo". Essa expressão designa não um qualquer "deus maçónico" - pois tal não existe - mas constitui apenas um mesmo nome através do qual  todos os maçons se referem cada um ao seu próprio Deus.

De fora fica também, evidentemente, tudo o que é próprio desta ou daquela religião. Não faria sentido dizer-se "invoquemos Maria, mãe do Grande Arquiteto do Universo", ou "O Grande Arquitecto do Universo é grande, e Mohammed é o seu profeta". Assim, em loja, apenas nos referimos ao "Grande Arquiteto do Universo". As pranchas maçónicas - na maçonaria regular - começam sempre: "À G.·.D.·.G.·.A.·.D.·.U.·. ", uma vez que todo o trabalho é feito "À Glória Do Grande Arquiteto Do Universo". Cada um dedica o trabalho que fez ao Deus da sua predileção, mas todos sob uma "alcunha" comum. Um pouco como cada adepto se refere ao respetivo clube como "o Glorioso"...

Um dos momentos altos de cada sessão é a Cadeia de União. Uma vez formada, um dos irmãos profere uma curta oração, que não deve ser própria de nenhuma religião, e é, as mais das vezes, espontânea. Pode ser algo como: "Agradeçamos ao Grande Arquiteto do Universo a graça de estarmos todos aqui, juntos uma vez mais, e recordemos todos quantos já partiram para o Oriente Eterno". Dificilmente alguém poderá sentir-se posto de parte perante tal fórmula, e é precisamente o que se pretende: fomentar a união, a identificação apesar da diversidade, e o foco naquilo que, de facto, é comum a todos. Não faria sentido, apesar de a esmagadora maioria dos maçons da nossa loja ser cristã, rezar-se um "pai-nosso" na cadeia de união - até porque um dos nossos irmãos é judeu, e sentir-se-ia certamente desconfortável. E mesmo que todos fôssemos cristãos, o princípio é para manter - basta recordar que recebemos frequentemente visitas de irmãos de outras lojas, e nunca sabemos que fé professam...

Esta limitação de expressão pode tornar-se problemática para os seguidores de certas religiões que tenham por princípio o testemunho permanente perante os outros dos valores, princípios e verdades da sua religião - e, no limite, tentar converter os demais para a sua fé, expondo as fraquezas de uma crença e exaltando a outra. Quem sinta essa obrigação não poderá sentir-se bem na maçonaria, pois esta não lho permite.

Apesar de tudo o que disse ser regra apenas vigente em loja e em sessão ritual, o que acaba frequentemente por suceder é - por força do hábito por um lado, pela interiorização dos princípios pelo outro, e por último pela generalização da sua aplicação - desenvolver-se um certo comedimento nas palavras, e acabar por se evitar a utilização de expressões manifestamente próprias de uma ou outra religião, substituindo-as por outras menos passíveis de fazer o nosso interlocutor sentir-se desconfortável. Assim, não posso senão agradecer o cumprimento, e retribuir: "Que o Grande Arquiteto do Universo lhe conceda o discernimento para encontrar - e saber manter - a Luz!"

Paulo M.

P.S.: Tenho, desde que comecei a escrever aqui no blogue, vindo a escrever dois textos por semana. Afazeres diversos impedem-me de manter este ritmo, pelo que irei passar a escrever, no futuro mais próximo, apenas um texto por semana, ao fim de semana. Assim que possa passarei, de novo, a escrever mais.

10 comentários:

Nuno Raimundo disse...

Boas...

ºPaulo escreve os textos que quiseres, quando quiseres.
Eu estarei cá para ler. Sou fã. :)

Quanto ao texto, mais um beloo post saido da tua caneta. :)~

abr...prof...

jpa disse...

Mais um excelente texto.
Que O G:.A:.D:.U:. te ajude nesses afazeres diversos, para que mais cedo aqui te possamos ler varias vezes por semana.
Tal como o Nuno também sou fã.

Cumprimentos
JPA

Diogo disse...

Esta vontade de agradar a todas as religiões parece-me mais uma vontade de não excluir ninguém!

Donde, não é religiosidade que a maçonaria pretende.

É como dizer que o Clube de Futebol preferido é o FCW – Footbaal Club Whatever.

Paulo M. disse...

@Nuno e jpa: Obrigado pelo vosso apreço. Enquanto quiserem ler o que eu vá escrevendo, ir-me-ei esforçando por escrever algo que valha a pena ser lido - uma vezes melhor e outras pior, umas vezes mais e outras menos inspirado, mas a natureza humana é mesmo assim!

@Diogo: Seja bem (re)aparecido! Pelos vistos deve ter andado a ler umas coisas! É que, desta vez, concordo praticamente com tudo o que diz!

De facto, a maçonaria tenta não excluir ninguém - bom, ninguém que não se assuma como ateu, evidentemente. Todas as crenças são igualmente aceites na maçonaria. Não há, propriamente, uma vontade de agradar a todas as religiões - até porque umas quantas rejeitam a maçonaria - mas antes uma vontade de que praticamente qualquer crente se sinta bem entre nós, venha de que quadrante religioso venha.

Quanto ao que a maçonaria pretende, e que a maçonaria não é uma religião, sim, tem toda a razão! A religiosidade é, de facto, um pré-requisito da maçonaria regular, e não o seu objetivo. O objetivo da maçonaria passa pela relação entre os homens, e não pela relação entre estes e o Divino. Disso, sim, tratam as religiões!

Se um grupo de amantes de futebol se conseguir juntar e discutir o jogo, as jogadas, as táticas, sem referir jogadores, treinadores, clubes ou cidades - para não fazer descambar a conversa em bairrismos ou clubismos estéreis - e, para isso, denominar hipotéticas equipas como "FCW1" e "FCW2", por mim tudo justo e perfeito...

Um abraço,
Paulo M.

Nuno Raimundo disse...

boas Paulo...

Sempre que quiseres partilhar algo, mesmo que por mais simples seja, eu estarei cá para Te ler, aprender e comentar.
Pois faço-o com bastante agrado.
( Até pq a tua escrita é de fácil leitura e compreensão, saiem-te naturalmente os textos.)

abr...prof...

José disse...

Caro Paulo;

Gostei deste teu texto...muitas vezes aquilo que é obvio para nós poderá, mesmo não devendo, não o ser para outros no que a este tema diz respeito...dai o obvio dever ser dito, o que nós(eu) muitas vezes esquecemos...este tema é recorrente

José disse...

Caro Paulo M.

Gostei deste teu texto.
Às vezes consideramos alguns assuntos tão obvios para nós que nos esquecemos que o são efectivamente para...nós...mas podem não ser para outros, dai o obvio dever ser dito...!

E mesmo assim há quem não entenda...

Porque os equivocos começam muitas vezes por boas intenções dos intervenientes...

Numa próxima ocasião que surjam discussões sobre este e outros assuntos que tens postado...vou poupar saliva e encaminhar para aqui...

Continua mesmo que seja só uma vez por semana que creio que vale a pena...e por mim falo...

Abraços
José C

Anónimo disse...

Muito bom esse texto tb, o Grande Arquiteto do Universo fez a todos, cada um com a sua crença. Excluir pessoas a mm soaria contraditório com o louvor, ao grande arquiteto universal. Enfim, gosto de vir aqui e comentar os textos de voces. Mas percebo que sou a unica mulher que comenta aqui. Por enquanto voces ainda nao me expulsaram, ao contrario, pelos comentarios me senti bem recebida e acolhida. Mas sei que existem grupos maçons, acredito que a maioria, onde as mulheres nao entram. Por que? Esse é um blog de homens? ( Vi uma foto de uma mulher na adesao ao blog e fiquei mais tranquila)
Um abraço,
Cam

Paulo M. disse...

@Camille: A maçonaria regular - a que a Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues pertence - é, de facto, exclusivamente masculina, essencialmente por razões históricas que poderá encontrar aqui ou aqui.

Todavia, este blogue não é uma loja maçónica, mas de maçons de uma loja maçónica. Além disso, não expulsamos ninguém do blogue, e muito menos por ser mulher. Outras mulheres têm por cá passado e lêem sem deixar nada escrito, outras passam e comentam - enriquecendo o blogue com um diálogo que se pretende frutuoso. Por isso, não se sinta sozinha! Os seus comentários são muito bem vindos!

Um abraço,
Paulo M.

Anónimo disse...

Muito obrigada pela resposta ao meu comentario. Foi exatamente o que pensei. O blog é o blog, nao é uma Loja Maçonica. E tem materias tao interessantes, me pareceu aberto a todos e todas. Que bom, eu estava certa.
Vou continuar lendo com muito interesse o que voces escrevem aqui.
Grata,
Camille