Mostrar mensagens com a etiqueta idade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta idade. Mostrar todas as mensagens

08 janeiro 2015

Os olhos azuis




Apesar da baixa temperatura na rua, reinava a boa disposição: acabara mais um dia de trabalho. Trocávamos as últimas despedidas, quando notámos uns olhos azuis que, confrangedoramente mudos, procuravam os nossos.

Aproximara-se, sem que notássemos, um vulto de casaco grosso - à moda antiga - na postura destruída de quem já viu melhores dias. Não o envolvia, porém a antecipada nuvem de álcool e tabaco, e muito menos o incontornável e penetrante cheiro da rua. De pé, a um metro de nós, interpelava-nos com o olhar, mas a boca não se abria, qual mola teimosamente contida, presa sabe-se lá em quê, mas desesperada por se libertar.

- Boa tarde, posso ajudá-lo?

E os olhos azuis, impotentes e embaraçados perante os vários segundos de imobilidade a que aquela boca se votou até que, a custo, lá acabou por deixar escapar qualquer coisa:

- Queria apanhar o autocarro para...

"O autocarro para". E a boca, entreaberta, como quem aguardava ordens; os olhos, suplicantes, imploravam pela palavra que faltava. "Queria apanhar o autocarro para".

- Para...? - ainda tentei.
- O autocarro... Para...

E de novo aqueles olhos azuis, sempre aqueles olhos azuis, fitando-nos aflitivamente, ora a um, ora ao outro. Quase se via a chama mortiça debatendo-se em vão, ansiando por espalhar luz e calor, mas mais não logrando que evitar apagar-se.

- Quer ir para casa?
- Sim.
- E sabe onde é a sua casa? - perguntou o meu colega.

De novo. a custo, balbuciante, tentou responder - mas sem sucesso.

- Aaaa... em...

Não havia dúvidas. Tínhamos, perante nós, uma criança perdida, presa no corpo de um octogenário. E aqueles olhos, sempre aqueles olhos, frágeis e desvalidos, surpreendidos como um balão que se esvazia e, mirrado e reduzido a uma massa informe, tenta, não obstante - e evidentemente sem êxito - manter a compostura e a forma que teve outrora.

- Em Loures.

Ah. Lembrou-se.

- Mas como é que veio parar aqui?
- Estive com o meu filho, mas o autocarro teve um acidente... bateu num... num ligeiro... ainda esperei uma hora, mas eles não arrancavam... tive que vir a pé...

- Disse que mora em Loures? Mora com alguém?

De novo, uma pausa, e depois a resposta, titubeante e aos arranques:

- A minha mulher morreu. A minha filha não me atende, está em Coimbra. É médica, a minha filha.
- Mas mora com alguém?
- Estive com o meu filho... ele está desempregado há quase um ano...
- Tem o contacto da sua filha ou do seu filho? Tem telemóvel?
- Não... Só tenho aqui 5 euros para o táxi...
- E tem identificação consigo?

Sem uma palavra, entregou-me a carteira - de plástico, com três documentos e um recibo da farmácia, sem hesitação, sem defesa, sem reserva.

- Venha connosco, que eu levo-o a casa.

Após uma troca de murmúrios com quem me acompanhava, acabei antes por levá-lo à esquadra mais próxima onde, após ter feito uma breve descrição da situação a um dos agentes, o entreguei em mãos experientes que o acolheram com prontidão.

...


Essa noite custou-me adormecer. Aqueles confundidos olhos azuis não me largavam, testemunho implacável da minha própria mortalidade, da indignidade da doença, e da velhice que, inflexível, nos rouba aos poucos e aos bocados. E eu, mais dado a fazer que a remoer, dei por mim acossado e impotente em face quer do que vi quer do que me espera - do que nos espera a todos - não obstante vivermos, tantas vezes, como se não morrêssemos nunca.

Acabei por fazer as pazes com o sono, depois de ter, difusamente e entre bocejos, aceite que o que é inevitável não deve aterrorizar-nos, mas antes, pelo contrário, impelir-nos a aproveitar melhor cada um dos nossos dias.

Estamos no início de um novo ano. Faço votos de que cada um de nós saiba e consiga - ou, pelo menos, tente - agir no sentido de aproveitar cada um desses dias de modo a não se arrepender nem do que fez nem do que deixou por fazer, e que tenhamos a fortuna de não darmos por nós a vaguear, perdidos, à mercê de quem nos estenda a mão - mas que, se tal acontecer, possamos encontrar, no nosso caminho, uma mão amiga.

Paulo M.

14 setembro 2011

O Tempo, a Idade e a Maçonaria - III



Ninguém se torna maçon sozinho, antes é iniciado por quem já passou por idêntica cerimónia, numa cadeia que remonta às difusas origens da maçonaria. É necessário que alguns vão chegando, pois que todos vão partindo um pouco a cada dia que passa. E se a diferença de idades permite que a cada um aproveite o contacto com gerações diferentes da sua de uma forma fraternal que dificilmente se vê neste mundo, não cessa, por outro lado, de nos fazer recordar, serenamente, que a todos espera o mesmo destino.

Onde o jovem recorre à força, o homem maduro usa da astúcia, e o velho da delicadeza. Um sorve, de um trago só, o que lhe puserem à frente; o outro só bebe se valer a pena; o último aprendeu a saborear, gota a gota, o fundinho da última garrafa da sua bebida favorita, que já não se faz mais. Onde um vê defeitos, outro vê diferenças de feitio, e o último sorri sozinho, com saudades das idiossincrasias de um irmão que partiu.

Cada um, no seu caminho, pisa onde escolhe pisar, na certeza de que se olhar para onde puseram os pés aqueles que o antecederam, descobrirá com mais facilidade onde se encontram as poças e as pedras. É esse saber - que não se ensina, mas que se aprende pela observação - que se encontra no coração da maçonaria.

Ser maçon é querer aperfeiçoar-se, tornar-se melhor, ser bom. A maçonaria não ensina nem explica porquê ou para quê. Não promete nada em troca desse melhoramento - e muito menos oferece qualquer salvação eterna. Isso é assunto para a religião, a crença e/ou a fé de cada um. Cada um terá as suas razões, os seus objetivos, e a sua visão para o querer ser melhor; a maçonaria apenas facilita os meios para o conseguir.

O maçon sabe que o seu trabalho só acaba na sua morte. Sabe que este mundo lhe nega a perfeição, e que esta lhe é inatingível. Não obstante, não cessa de procurar aproximar-se sempre um pouco mais. Sabe que o seu tempo é finito mas é todo aquele que terá, assim como sabe também que o seu caminho é aquele que tiver percorrido, e o seu destino o lugar onde acabar por parar. Dono do seu percurso, senhor do seu tempo, mestre da sua vida, cada maçon pule a sua pedra, busca a sua Luz, ruma ao seu Oriente, até que a partida para o Oriente Eterno o liberte por fim.

Paulo M.

05 setembro 2011

O Tempo, a Idade e a Maçonaria - II



Mais do que uma idade certa, há uma maturidade certa para se ser iniciado. Muitos nunca atingem essa maturidade: nascem, vivem e morrem sem nunca perder um segundo com as "grandes questões", tal a azáfama com que passam por esta existência. Outros atingem-na, encontram as sua próprias respostas, e deixa, a partir de certo ponto, de fazer sentido procurarem outro método de aperfeiçoamento, pois já encontraram o seu próprio método, chegaram às suas próprias conclusões, traçaram o seu próprio caminho.

Cada maçon tem a sua própria história, o seu próprio ritmo, o seu próprio percurso. Uns chegam mais cedo, outros mais tarde. Uns caminham mais depressa, outros mais devagar. Outros ainda levam mais tempo numa fase, e noutra disparam a correr. Ou ao contrário.

Temos entre nós quem tenha sido iniciado aos vinte e poucos anos, e quem o tenha sido já depois de ser avô. Temos quem tenha sido aprendiz ou companheiro durante bastantes anos, e quem ao fim de menos de dois anos já fosse mestre. Temos quem tenha ficado pouco tempo, quem tenha ficado alguns anos, e quem ainda cá esteja. Por tudo isto, encontra-se numa loja uma grande diversidade de idades, maturidades e sensibilidades. A todos une, porém, a vontade de se tornarem pessoas melhores, e de o fazerem juntos, e aprendendo uns com os outros.

Os aprendizes mais jovens podem aproximar-se mais facilmente de mestres mais próximos da sua idade, até estarem mais à vontade com os mais velhos. Os aprendizes mais velhos terão porventura maior afinidade, pelo menos inicialmente, com os maçons mais maduros. Com o passar do tempo, à medida que aquelas caras vão adquirindo nomes, aos nomes se vão juntando feitios, e os feitios, as caras e os nomes se tornam pessoas que vamos conhecendo e distinguindo das demais, os aprendizes vão-se apercebendo com quem podem aprender melhor o quê, e acabam por aprender com todos - com uns mais do que com outros, mas isso também faz parte...

Chegado a companheiro, o maçon conhecerá já razoavelmente a maioria dos irmãos da sua loja, e estes a ele. Terá, para além disso, passado pela experiência de ter "irmãos mais novos", iniciados depois dele. Esses irmãos mais novos podem ser até mais velhos em idade, o que torna tudo muito mais interessante. E quando se chega a mestre, percebe-se por fim que todos têm alguma coisa a aprender com cada um dos demais.

Os mestres mais novos encontram nos mais velhos a experiência de quem já passou por muitas situações difíceis, tomou muitas decisões - algumas mais certas que outras - e tem, enfim, a sabedoria que só a idade, a experiência e as dificuldades proporcionam. Por seu lado, os mestres mais velhos encontram nos mais novos a possibilidade de reviver e questionar o seu próprio percurso, de tornar de novo novas as suas velhas dúvidas e questões, e a possibilidade de passarem para outros aquilo que receberam dos que os antecederam. Uns e outros partilham da alegria de estarem juntos, de serem diferentes, e de terem algo a aprender uns com os outros.

Sem sangue novo, uma loja está condenada, mais ano menos ano, a abater colunas: não há quem ensinar e, à medida que os mestres forem passando ao Oriente Eterno, a loja vai ficando mais pequena, até deixar de se poder manter. Por outro lado, sem o "sangue velho" - e muitas começaram assim - a loja pode até existir, mas é uma loja sem raízes nem memória, que só adquirirá com o decorrer dos anos.

Diz-se que em maçonaria nada se ensina, e tudo se aprende. É, por isso, um privilégio poder-se aprender com quem cá está há mais tempo.

Paulo M.

12 julho 2011

O Tempo, a Idade e a Maçonaria - I




São condições mais ou menos universais (mas cada Obediência segue regras ligeiramente distintas) de admissão na maçonaria a maioridade e a independência económica; um menor não pode ser maçon, bem como o não pode ser alguém que não tenha meios de sustento. Na GLLP a idade mínima de admissão é de 21 anos, podendo admitir-se candidatos mais novos desde que maiores de 18 anos e apenas em casos excecionais que carecem sempre de autorização especial. Não há, todavia, uma idade superior limite; basta que, como se disse, se seja economicamente independente - pois pertencer à maçonaria acarreta alguns custos fixos - e que se esteja em posse das faculdades mentais.

O limite inferior de idade é compreensível. Mesmo os 21 anos são uma idade muito tenra para se ingressar... Mais do que a idade, é imprescindível a capacidade de ouvir (pois só ouvindo se aprende), a abertura para se admitir estar errado (pois só se aprende se se admitir ou o erro ou a ignorância...) e a capacidade de aceitar que o outro possa ter ideias contrárias às nossas (pois a maçonaria cultiva a tolerância face à diversidade). Quando se é muito novo é difícil ouvir-se os outros, pois um jovem sabe sempre tudo. Admitir-se o erro, então, é coisa ainda mais difícil. Já a infinita curiosidade dos mais novos torna mais fácil o diálogo entre fações opostas, ideias contraditórias, crenças antagónicas.

É à medida que se amadurece que vai surgindo a capacidade de se ver o silêncio não como um açaimo doloroso que se removeria se se pudesse, mas antes como um refúgio, um reduto, um pequeno Éden dentro de nós que podemos defender com um simples sorriso. As amarguras da vida vão-nos mostrando que somos, afinal, pequenos, imperfeitos e efémeros; o ímpeto da invencibilidade da juventude dá lugar a um estado de espírito mais sereno e de maior aceitação das próprias limitações. Todavia, a experiência acumulada acaba por estabelecer o preconceito, dificultando o diálogo.

Como em tantas outras coisas, in medio virtus. Se se for muito novo quando se ingresse a maçonaria, corre-se o risco de não ter ainda atingido a maturidade necessária a que esta possa ser proveitosa e, quando esse momento acabe por chegar, perdeu-se já a novidade, e a oportunidade de fazer a diferença. Sem por outro lado, se pretender ingressar a maçonaria já numa idade avançada, há que acautelar se, de facto, há ainda capacidade - e, acima de tudo, vontade - de aprender coisas novas, de mudar comportamentos, de apurar ideias. É que, quando se entra na maçonaria, entra-se para aprender, e não para ensinar.

A este respeito aprendi na Loja Mestre Affonso Domingues três lições complementares. A primeira passou-se comigo mesmo. Quando entrei, notei uma certa frieza - a roçar a hostilidade - da parte de alguns irmãos da loja. Eu queria aprender, avançar, saber mais, engolir inteiro - e obrigavam-me a estar quieto, a esperar, a mastigar aos bocadinhos e de novo o que já tinha comido antes. Explicaram-me depois que tinha havido algumas más experiências com algumas admissões - os chamados "erros de casting" - de que, mais tarde, a loja se veio a arrepender, e que eu fazia lembrar um ou dois desses. Daí o facto de alguns membros me estarem a dar um "tratamento de choque" para separar logo o trigo do joio desde o princípio. Se tivesse unhas, tocaria guitarra, mesmo com os dedos pisados; se não as tivesse, que seguisse o meu caminho, mas quanto mais cedo isso ficasse claro para todos, melhor.

A segunda deu-se quando assisti à leitura de pranchas de aprendiz. Apesar de ir avisado, foi confrangedor ouvir, dos mestres presentes, as críticas implacáveis, demolidoras e quase a roçar o cruel. É certo que as pranchas não estariam um primor - afinal de contas, eram o primeiro trabalho apresentado à Loja de cada um dos que as elaborara - mas tamanha crítica pareceu-me exagerada. Porém, como disse, tinham-me avisado de que "era da praxe", e assim o tomei. Quando vim a apresentar a minha primeira prancha estava já à espera do que sucederia, e não o estranhei. Não deixou, contudo, de ser algo doloroso ouvir as farpas certeiras que expunham perante todos os mais ínfimos erros do trabalho que tantas noites me levara a elaborar. Aprendi, nessa altura, a confiar; a confiar no juízo dos que me criticavam, pois que o faziam com seriedade e precisão; a confiar que não tomariam as minhas falhas por vulnerabilidades por onde me atacassem; mas, acima de tudo, a confiar na intenção puramente fraterna de quem aponta um erro a um irmão e fica com o coração a transbordar de alegria quando o vê corrigir-se. 

A terceira lição foi mais triste. Pouco tempo depois de iniciado, um aprendiz - por sinal, apadrinhado por um dos mais históricos membros da loja - viria a revelar-se de difícil integração. A sua idade - mais de sessenta anos - não o facilitou, como não o facilitou o facto de ter já bastante conhecimento prévio da maçonaria por via de familiares próximos. Talvez por ser um homem assertivo, de convicções fortes, ideias arrumadas e palavras duras e incisivas, a loja não conseguiu "abalar-lhe os alicerces" da forma pretendida: dando-lhe a oportunidade de se ver a si mesmo e ao mundo de outra forma, mas sem o fazer sentir-se ameaçado nem pessoalmente atacado. Fiquei triste por vê-lo deixar de aparecer, mas acima de tudo doeu-me vê-lo afastar-se magoado. E tudo porque haviam sido criadas expetativas de parte a parte que se viam, no fim, goradas.

De cada aprendiz espera-se que dê o máximo de si mesmo; a loja lá estará para lhe atravessar tantos obstáculos quantos os que ache que ele consegue - e quer - ultrapassar. Uns terão mais capacidade do que outros; uns poderão não ter ainda a pujança que lhes permita correr com os maiores, sem o desconto de serem um "junior"; outros poderão não ter já a força para correr o suficiente que lhes permita atingir os "mínimos olímpicos". A vida é cheia de surpresas, e as portas não se fecham por excesso de décadas de vida; há sempre quem ludibrie as estatísticas. No entanto, sabemos que há uma idade ideal para tudo. É que, como o atletismo, assim é a maçonaria; do mesmo modo que há corridas para seniores, também temos maçons com mais de 80 anos; contudo, esses raramente terão começado a correr tarde; são, antes, atletas que começaram a correr na idade certa, e que ainda não pararam...

Paulo M.