20 janeiro 2010

Amigos como os de infância


O grupo de maçons conversava descontraidamente. A reunião formal terminara, a refeição que se lhe seguira também já fora apreciada por todos. A conversa fluía com naturalidade. Embora partindo do tema que iniciara o debate, cada um ia-se afastando dele, ao sabor do curso dos seus pensamentos. Era um grupo de amigos que conversava. Como qualquer outro grupo de amigos. Talvez a mais notável diferença fosse que não havia ruído de fundo de conversas cruzadas. Mesmo em descontração, aquele grupo de maçons praticava a regra de que falava um de cada vez, para todo o grupo, e cada um aguardava a sua vez de dar a sua opinião.

Rapidamente a conversa derivou para o significado que aquele grupo, a Loja, tinha para cada um. O que cada um esperava. Do que cada um pretendia que fosse, que fizesse.

Cada intervenção era diferente da anterior. Mesmo quando concordando com o que já fora dito, acrescentava-se sempre algo de novo, alguma subtileza, uma nuance, um elemento, que tornava diferente o que se declarava similar. Nada de extraordinário naquele grupo. Há muito que era assim e assim se forjara a sua identidade. Os novos que se juntavam aos que já estavam depressa aprendiam como o grupo funcionava. Era através da apresentação sucessiva de opiniões, posições, sugestões, nunca completamente coincidentes, às vezes diversas e aparentemente inconciliáveis, que, lentamente, naturalmente, sem esforço, emergia a síntese que todos acabavam por adotar como a posição comum, por todos aceite e respeitada. Às vezes não era fácil. Às vezes durava mais tempo. Às vezes implicava duas, três, quatro, as conversas que fossem necessárias. Mas, mais tarde ou mais cedo, sempre a tal posição comummente adotada acabava por emergir.

A conversa espraiou-se por um tema que não era novo. Os mais antigos no grupo sabiam que era ciclicamente abordado e renovado. Era natural. O grupo alterava-se, renovava-se, havia sempre novos elementos que nunca tinham abordado a questão. O tema era o que fazer com o grupo. E, como sempre, derivava-se sempre para as expectativas de cada um...

Um preferia o convívio. Outro apreciava mais o ritual. Um terceiro dava muita importância à beneficência. Outro ainda gostava mesmo era da apresentação de trabalhos. Houve mesmo outro que declarou, enfaticamente, que o que buscava era que fossem contraditadas as suas ideias feitas, de forma a poder continuamente testar o seu pensamento e, assim, verificar quando devia mudar de opinião. Um outro ainda, não menos enfaticamente, esclarecia que considerava uma maçada as reuniões em que não aprendia nada novo. Mas, no entanto, logo acrescentava que, mesmo quando sabia que havia reuniões em que não aprendia nada de novo, e que ele ia achar uma maçada, ainda assim gostava de ir e... não sabia como, também essas acabavam por lhe ser úteis.

E assim iam conversando, como alguns deles e outros assim mesmo tinham conversado antes, e outros antes deles... Nada de especialmente novo, pensava o velho maçom, sabendo, esperando que, como sempre, algo de diferente acabasse por surgir, como frequentemente acabava por suceder.

Foi então que um deles, pessoa de palavras não muito complicadas, mais de fazer do que de falar, chegada a sua vez, disse que o que ia dizer tinha-o ouvido a outro membro do grupo, naquele dia não presente, mas que era isso mesmo o que sentia.

E disse então: a Loja é aquele sítio onde podemos ter amigos como os de infância.

O velho maçom recostou-se na cadeira em que se sentava e sorriu interiormente: a síntese daquela noite fora encontrada!

Tinha e tem toda a razão aquele maçom não especialmente dotado para a palavra, mas que expressou a ideia melhor que os melhores oradores. É precisamente isso que é uma Loja maçónica que se preza de o ser: um local onde podemos encontrar amigos como os da infância, um bem precioso de que a vida e as preocupações da idade adulta geralmente nos privam de ir renovando. Amigos como os da infância normalmente só na infância se fazem - e essa é uma das razões por que esse período da vida é recordado frequentemente com nostalgia... Passada a infância, podem fazer-se amigos, fazem-se amigos, mas, em bom rigor, essas novas amizades dificilmente têm a mesma pureza, o mesmo desinteresse, a mesma naturalidade, das amizades de infância.

Mas, lembrou-o com acerto aquele maçom, e já o tinha notado o outro maçom que ele citara, ali, na Loja, descobria-se um local onde, afinal, se podia ter amigos como os de infância.

E esta é parte importante e imprescindível da essência da Maçonaria.

A próxima vez que um profano me perguntar o que faz afinal um grupo de homens adultos reunir-se frequentemente, tirando tempo à sua família, aos seus afazeres, ao seu descanso, já sei finalmente como lhe posso responder, para que entenda: reunimo-nos em Loja, gostamos de o fazer, porque aquele é um local onde podemos ter amigos como os de infância - e isso é raro, muito raro, e precioso!

Rui Bandeira

8 comentários:

Nuno Raimundo disse...

Boas...

A Amizade (livre de interesses) é um dos maiores bens que o Homem pode possuir...


abr...prof...

M. A. disse...

Exmo. G.C.M. da R:.G:.L:.R:.P:. Rui Bandeira, permita-me enquanto mero “profano”, registar que muito me estranha a definição que V. Exa., faz em relação às amizades feitas depois da infância.

Não posso de forma alguma estar de acordo com o que escreve, as amizades, no verdadeiro sentido, que para mim têm, são em tudo idênticas àquelas de que V. Exa., refere que existem no interior de um grupo de Maçons, de uma determinada “Loja”, sejam elas “construídas” na infância e ou na idade adulta, caso contrário não são amizades mas sim contactos e ou conhecidos.

Aquilo que muitas pessoas fazem confusão é exactamente entre a “AMIZADE” e o “CONHECER”.

A um amigo não se agradece uma ajuda, de um amigo recebe-se a ajuda, com a noção de gratidão e retribuísse de igual forma, com maior intensidade e ou não se retribui, caso este nunca necessite dessa ajuda.

A um amigo não se paga um favor com outro favor, porque um amigo quando dá a mão, nos indica uma direcção e ou nos dá algo isso não é um favor é uma ajuda, favores fazemos aos outros.

A um amigo nunca se vira as costas, mesmo que ele, num determinado momento, de contradição e ou desespero, estes esteja de costas voltadas para nós, a um amigo vamos sussurrando o seu nome acompanhado de um “olha estou aqui, quando quiseres podes contar comigo”.

De um amigo nunca se faz a contabilidade do “fiz” e do “recebi”, numa amizade não interessa quanto se faz ou se recebe o que interessa é “fazer”, para que alguém possa “receber”, porque a verdadeira amizade já nos dá muito.

Por tudo isto e muito mais não posso concordar quando escreve, sito, “Passada a infância, podem fazer-se amigos, fazem-se amigos, mas, em bom rigor, essas novas amizades dificilmente têm a mesma pureza, o mesmo desinteresse, a mesma naturalidade, das amizades de infância.”, quando se “constrói” uma amizade mesmo depois da infância esta é sempre “pura”, “desinteressada” e “natural” como todas aquelas amizades “construídas” na infância., pelo menos as minhas.

O grande problema é que muitas das, ditas, relações de amizade são realmente “feitas” e não “construidas”, claro que o mal não é apenas no que se refere às amizades, hoje em dia é quase tudo “feito” e pouco ou nada “construído”.

Uma amizade quando “construída” é sempre no mínimo a dois, e algo que é “construído” a dois é mais difícil de destruir ou deixar ir abaixo, do que aquilo a que muitas vezes se apelida de “amizade”, que muitas vezes é, e essa no verdadeiro sentido da palavra, feita por uma parte (leia-se: pessoa) com o objectivo de obter algo do outro (leia-se: do dito amigo).

Por isso para mim existe uma amizade que é mutualista e vivida em perfeita simbiose e depois existe um acto de parasitismo a que muitos para disfarçar apelidam de “amizade”.

Um bem-haja a todos aqueles que por eles e pelos outros agem de boa fé,

Rui Bandeira disse...

@ Nuno Raimundo:

Totalmente de acordo.

@ M. A.:

Se bem percebi a sua posição, o amigo M.A. entende que todas as verdadeiras amizades são puras e naturais como as da infância e que, se assim não for, não merecem ser consideradas amizades.

Nesse ponto de vista, nada a dizer.

Mas, meu caro M.A., eu sou um pouco mais cético e, comparando as minhas amizades de infância e as construídas (por dois, como faz questão de frisar) na idade adulta, continuo a entender que aquelas são superlativas em pureza e naturalidade. O que - adianto desde já - não me faz desmerecer das amizades geradas na idade adulta. São fortes, são desinteressadas, são... amizades.
Mas os intervenientes da amizade adulta há algo que já perderam em relação à infância: a inocência.


Pensando bem, talvez seja este o termo adequado na diferenciação: as amizades de infância são dotadas de uma inocência (daí a sua pureza e naturalidade especiais) que já não existe na idade adulta e nos sentimentos nesta idade gerados.

Se calhar, o problema não é das amizades, mas de nós próprios que, chegados a adultos, não conseguimos guardar o melhor de quando éramos crianças...

Daí - talvez - a nostalgia que referi da infância...

É difícil definir sentimentos e significados de sentimentos, porque a subjetividade impera e atrapalha. Creio que falamos da mesma coisa, apenas coluzes diferentes, critérios ligeiramente diversos,lembranças e nostalgias únicas para cada um de nós. O que, na minha maneira de ver, quer dizer que nem sequer discordamos: não somos é capazes de dizer as mesmas coisas pelas mesmas palavras.

O que eu queria dizer no texto é que a confiança absoluta, a naturalidade integral, a pureza total dasamizades de infância derivam da nossa própria inocência de então, pelo que as amizades de adulto não são, pelo menos, tanto assim, nem podem ser, porque essa nossa inocência desvaneceu-se com os sucessos da vida. As amizades de adulto podem ser profundas e sérias e bem-intencionadas reciprocamente. Mas não as podemos ver com os mesmos olhos com que recordamos que vimos as de infância - porque os nossos olhos são j+a outros, maiores, mais baços, que já muito mais viram e algum ceticismo ganharam...

O que eu quis acentuar é que as amizades da Loja (pelo menos da Loja que eu conheço - indubitavelmente! - conseguem por nós ser vistas como as de infância, porque a solidariedade, a cumplicidade, a ligação - enfim, a fraternidade - ali gerada é tão forte, tão dinâmica, tão geradora de confiança mútua que nos permitem baixar guardas e proceder com a confiança e a naturalidade com que procedíamos quando éramos crianças.

E isso - repito - é raro. muito raro, e uma grande felicidade!

jpa disse...

Pois é;
Não jogavamos á defesa quando faziamos amizades em criança.
Tenho a sorte de manter algumas amizades de infância, no entanto o relaccionamento é muito mais adulto, e quer queira quer não, mesmo sabendo que os elos dessas amizades são fortes, balizamos as relacções, fruto quer da educação quer da experiencia de vida passada.
Acredito que em Loja se consigam transpôr essas balizas, o que é verdadeiramente notavel.

Bom fim de semana a todos

josé movilha disse...

Há uma transcedência muito grande nessa análise. A difilcudade de percepção é para quem não conhece a câmara. O sítio regular da viagem. Num esplendor de pureza irmanam-se os que se aceitam iguais.
E vem a gesta cumprida de infâncias e mais tarde de universal pudor coloquial; que bem foi encontrado o apôdo: " Amigos como os de infância"; é no regular desbastar da pedra que as falas se asemelham à Távola; cada um como todos. Cadinho de guarda, na observância da presença militada se entende o nome fraternidade amiga.
Há um entendimento para além da letra.
Saudações fraternais,
com um triplice abraço
josé

Diogo disse...

Caro Rui,

Vamos a temas mais fracturantes.

Abraço.

Rui Bandeira disse...

@ Diogo:

Meu caro, temas fraturantes é noutra chafarica. A especialidade desta casa não é a fratura, é a inclusão.

Henrique Tigo disse...

Dos textos mais marcantes que alguma vez li...
TAF
H:.Tigo