Onde foi parar o meu Salmo 133?
Quando troquei os pampas do Rio Grande do Sul pela margem do Tejo e passei a frequentar as colunas da Mestre Affonso Domingues, trazia comigo um "vício" de ouvido. Na minha Loja mãe, da GLMERGS, no Rio Grande do Sul, a abertura do Livro da Lei tinha um ritmo quase musical: "Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união". Era o sinal de que a egrégora estava selada. Por isso, confesso que nas minhas primeiras sessões em Portugal, o silêncio desse momento me causou uma certa "ausência". Aqui, o Livro abre-se solenemente, mas as palavras do Rei Davi não ecoam pelo Templo. Ficamos com o peso do silêncio e o foco na Luz que emana das páginas abertas.
Para quem, como eu, se formou na escola das Grandes Lojas brasileiras, esse silêncio parece uma omissão. Mas a história explica o desencontro. O REAA, na sua matriz original francesa, não previa a leitura deste salmo. Se no Brasil hoje respiramos o Salmo 133, devemos isso a uma "manobra diplomática" de 1927. Mário Béhring, ao fundar as nossas Grandes Lojas, buscava o reconhecimento da Maçonaria norte-americana. Para agradar aos irmãos dos EUA, ele importou elementos das Blue Lodges (o Rito de York americano), onde o Salmo 133 é soberano. Criou-se um hibridismo que deu certo e se tornou a alma do rito no Brasil, mas que nos afastou da sobriedade continental que Portugal preserva com tanto rigor. Esta não é a única diferença, mas ficamos por aqui com a análise.
E por que Davi faz tanta falta para mim? Porque o Salmo 133 é visceral. Ele não se perde em abstrações; fala de óleo escorrendo pela barba e de orvalho fresco. O "óleo precioso" de Aarão simboliza a consagração, aquela harmonia que desce do espírito para o corpo da Loja. Já o "orvalho de Hermon"( uma montanha gélida ao norte que irriga os montes áridos de Sião, ao sul ) é a metáfora perfeita da bênção que traz vida onde a pedra era seca. É um hino à fraternidade prática, ao prazer quase físico de estar entre iguais.
Aqui em Portugal, o ritual é mais direto, sem os adereços da escola romântica da maçonaria brasileira, talvez mais focado na busca intelectual e espiritual da Luz, sem os penduricalhos sonoros que Béhring costurou no Brasil. Não há erro nisso, apenas uma genealogia diferente. Mas, para este mestre que ainda guarda o sotaque gaúcho, o Salmo 133 continua a ser aquela nota que, mesmo não sendo lida, ainda ressoa no fundo do ouvido. Se o ritual na RLMAD nos oferece o silêncio, que saibamos preenchê-lo com a vivência desse orvalho, garantindo que a nossa união mantenha a oficina fértil.
Fábio Serrano, M∴ M∴
