21 março 2026

Maçonaria: um ato de rebeldia num mundo indiferente

 A Maçonaria vive de momentos. Ao longo da sua história passou por bons e maus momentos. Na atualidade não podemos dizer que esteja propriamente a passar um mau bocado, mas já vimos dias melhores. O mundo é cada vez menos empático, individualista e cruel. Esta falta de empatia e gosto cada vez maior pela individualidade faz com que se pense menos no coletivo e mais no eu individual. É verdade que, para o coletivo funcionar, é necessário que, em primeiro lugar, estejamos bem connosco próprios. No entanto, após a passagem do nível EU temos de desenvolver os nossos esforços para aperfeiçoar o NÓS como sociedade. Foi assim que a sociedade se desenvolveu até ao nível que conhecemos atualmente.


Por outro lado, a Maçonaria, ao longa da sua história, não tem feito pelo abono positivo da sua imagem. Basta olhar para os inúmeros exemplos de boatos que existem à sua volta e desinformação.

É pelas razões atrás descritas que é compreensível que o número de iniciações tenha reduzido drasticamente, não só em Portugal, mas também no resto do mundo.

Por que razão escolheria um homem livre integrar uma ordem iniciática, tantas vezes alvo de desinformação e preconceito? A resposta reside na urgência de encontrar um sentido coletivo num tempo que nos empurra para o isolamento. Não será a fraternidade e a constante procura pelo aperfeiçoamento da pedra bruta, uma máscara para esconder uma conspiração?

Procurarei responder a estas perguntas e a outras nos próximos parágrafos.


Quem são os maçons?

Por muito irreal que possa parecer a resposta, os maçons são pessoas normais, que fazem uma vida normal e que têm famílias (não sendo obrigatoriamente casados e com filhos). E, por mais fantástico que pareça, a grande maioria deles não entra em conspirações. O maçon não está restringido a uma ou outra profissão. Pode até nem ter uma profissão fixa. Esta ultima característica é aquela que faz com que nós maçons acreditemos na igualdade entre as pessoas porque, tanto se senta ao meu lado um grande empresário como o mais modesto trabalhador de uma fábrica ou funcionário público. Dentro do templo somos todos iguais e a nossa palavra não vale menos do que a do outro irmão. Isto é fantástico. De repente temos um sitio, um nicho onde nos podemos sentir como parte de um grupo em que podemos fazer uso da liberdade de expressão e sermos amplamente compreendidos. Podemos falar sem sermos ostracisados, mas também podemos ouvir sem ostracisar. E veja-se, sem nos zangarmos uns com os outros. Num mundo em que a qualquer momento podemos ser “cancelados”, a maçonaria é o ultimo reduto da civilidade e da liberdade de expressão.


O indivíduo - A transformação da pedra bruta em pedra cubica

Não é novo para ninguém que, nas lojas maçónicas, se procura o aperfeiçoamento da pedra bruta, do EU individual e imperfeito, em pedra cubica. Este é um dos grandes chavões da maçonaria. A base está aqui. Mas, sejamos pragmáticos, não precisamos de um grupo de homens, quase como se fosse um gentlemans club do séc. XVIII, que se juntam a discutir temas filosóficos e a fazer alguma filantropia, para que uma pessoa se possa aperfeiçoar. Conheço inúmeros casos de pessoas boas que fazem filantropia sem serem maçons. O primeiro passo é querer que essa transformação aconteça, e o segundo é traçar o caminho para que se faça essa magia. E o caminho pode ser feito sozinho. Mas… há sempre um senão… Com certeza que o leitor deste artigo já ouviu falar no ditado: “se fores sozinho vais mais rápido, se fores acompanhado vais mais longe”. É exatamente nisto que o maçom trabalha. É no aperfeiçoamento através das ideias coletivas numa tertúlia de grupo. Nesta tertúlia aparecem sempre ideias novas, e algumas interpretações que nunca tínhamos pensado, levando-nos, muitas vezes, a refazer algumas ideias pré-concebidas sobre determinado tema. E é assim que tudo começa, vamo-nos aperfeiçoando uns aos outros e assim chegarmos mais longe.


A Loja - a mini sociedade

Mas, nada é possível sozinho, como vimos atrás. É aqui que entra o trabalho da loja. A loja é o conjunto de pessoas que o sustenta e compõe. Tem uma organização própria e que e que garante que cada evento programado, cada instrução aos aprendizes é bem executada e apreendida. Cada mestre tem uma função e é essa função que faz com que os projetos se executem de forma justa e perfeita, como uma pedra cubica que é para ser colocada em determinado local de um templo. É essa pedra que todos talhamos em conjunto na loja que faz com que o templo que estamos a construir não caia. Na instrução o conselho do mestre é uma mentoria para o aperfeiçoamento não só do aprendiz mas também dos Companheiros e dos restantes Mestres.


A globalidade - a saída para o mundo profano

Agora vem a parte mais difícil de compreender, talvez. É através do que se pratica na loja (que não são rituais satânicos nem nada que se pareça) que a seguir transpomos para o nosso dia-a-dia e tentamos ser o exemplo para quem contacta connosco. Não temos a pretensão de mudar o mundo de um dia para o outro, mas temos a certeza de que, ao mudarmos a nós próprios, alteramos o nosso meio social. É este o nosso legado.


Em jeito de conclusão

Ninguém é obrigado a ser maçom. Só o é quem acha que consegue tal legado. Nem tem mal nenhum não querer ser. Se o leitor alguma vez quiser entrar para esta augusta ordem, terá de “deixar os metais à porta do templo”, ou seja, tem de despejar a arrogância e os vícios para poder aprimorar a sua própria pessoa e assim ser um exemplo para quem está à sua volta. Aqui não somos um perfil, um cargo ou número, na maçonaria cada um é um Homem em busca de luz. Num mundo cada vez mais individualista, esta é uma sociedade que procura aprimorar em grupo, um grupo muito maior, a Humanidade. É isto que me faz ser maçom, e é por isso que TU que estás a ler este artigo e ainda não és, devias pensar em ser. Nos dias que correm, ser Maçom é um ato de rebeldia perante a indiferença do mundo moderno.


12 março 2026


 AS PERTENÇAS EXCLUSIVAS...

“Num tempo em que tudo parece exigir alinhamentos rígidos e pertenças exclusivas, talvez devêssemos olhar para cima e aprender com o céu, pois ele apenas cumpre o seu percurso. A questão é saber se nós fazemos o mesmo ou se continuamos a confundir o nosso ponto de vista com a verdade absoluta.”

Começo pelo fim…

Este primeiro parágrafo é reprodução do último do texto aqui em baixo (2 andares abaixo deste prédio) da autoria do J.B.

Peguei nele porque nele está parte da grande questão da Humanidade, considerando que a existência do homem teima em reger-se por “números", sejam distâncias, sejam horas, sejam capacidades individuais, ir mais longe, ir mais depressa, saltar mais alto mas também a dimensão da sala ou saldo da conta bancária.

Tudo números.

E nada que não sejam “milhões”, “biliões”,… zeros, muitos zeros à direita.

No futebol como na política, na economia como no clima, na miséria como na riqueza.

Números pornográficos são “pertenças exclusivas” de uns tantos, poucos, muito poucos cujo divertimento maior são guerras inexplicáveis para todos. É aqui que os números são maiores, com maior número de zeros à direita, por vezes tantos que se torna difícil verbalizá-los.

Jornais, revistas, televisão fazem questão de deixar bem à vista os pertences exclusivos gigantescos, quanto mais gigantescos melhor, para suposta glória de quem os possui ou de quem os consome. 

Quanto custou o teu iate versus quanto custou o meu jacto…

J.B. aconselha, sugere, que se olhe para cima para aprender com o céu. 

Conselho sagaz. Decisão inteligente.

Em muitos locais do planeta, deste planeta, é verdadeiramente muito importante olhar para o céu ! Não pelas razões a que J.B. se refere mas porque os drones, os foguetes, os misseis “viajam” em permanência sobre “nós” rumo à nossa auto destruição e a ansiedade resultante da expectativa do último momento nos obriga a fazê-lo !

“Num tempo em que tudo parece exigir alinhamentos rígidos e pertenças exclusivas…”

Maçonaria é tudo menos pertença exclusiva. 

Maçonaria sabiamente deixa os “metais” à porta do Templo

Há razões fortes que justificam o recato.

É que não vale a pena. A vaidade não é boa conselheira ! 

Um Maçon vaidoso com os seus metais não cumpre a condição de Maçon.

O Princípio pelo qual em Maçonaria se deixam os metais à porta do templo tem a ver com a possibilidade de utilização comunitária.

As capacidades de alguém que se disponha a ser recebido Maçon devem ser consideradas ao serviço dos Irmãos, se necessário.

E não apenas as capacidades financeiras, direi que nem são essas as mais importantes.

Um técnico, um médico, um advogado,… têm muito mais a partilhar na ajuda aos seus Irmãos do que simplesmente a disponibilidade bancária.

Mais ainda me parece que o apoio em conhecimento é bem mais valioso do que o apoio em metais. 

A Cadeia de União une capacidades Humanas, não une capacidades financeiras. 

O Maçon está, deve estar, em permanente Cadeia de União. As pertenças exclusivas devem ser reduzidas, aqui, à expressão mais simples.

Para além de tudo o mais há que perceber o quanto tem de ridículo a busca incessante de riquezas materiais, em ansiedade permanente, em disputas constantes, em guerras ! Não vale a pena !

Há algum tempo, alguns anos já, trouxe à Loja um trabalho feito a partir de uma visita a Auchwitz.

Esse trabalho tinha uma intenção que procurei ficasse bem clara. Queria fazer a força possível, ao meu nível, para acabar com os chamados “senhores da guerra”.

Hoje, quando me lembro desse trabalho e dessa intenção sinto uma imensa frustração.

Não só os “senhores da guerra” não acabaram como se multiplicaram.

A minha vaidade intelectual não chegava ao ponto de me considerar capaz de influenciar os “governantes” mundiais nem de alterar as suas decisões absurdas. Mas ao menos que pudesse deixar uma sementinha entre os Homens livres e de bons costumes que me acompanhavam na apresentação. Não sei se alguma coisa ficou para além da frustração que agora sinto.

Estou a pôr em paralelo 2 níveis muito diferentes de capacidade de decisão. Mas meus II:. não escondo que me dói não ter qualquer poder para alterar a cegueira que a vaidade, a ganância e a estupidez dos homens mais ricos do planeta os leva aos morticínios a que assistimos diariamente. E não é ao morticínio próprio. É o morticínio de outros ...

E claramente por razões de vaidade desmesurada, de ganância sem limites, de completa desumanidade.

E nada disso, nada disso, vale a pena. É tudo uma questão de escala, de números, de dimensão !

Apetece-me dizer, ponham-se no vosso lugarzinho e vivam a vida.

Como diz J.B., “olhemos para cima” e tentemos aprender alguma coisa.

Como de costume deixo-vos um vídeo que apanhei por aí… 

Reparem que para confirmar tudo isto basta mesmo olhar para cima. É suficiente. Com os olhos abertos !!!

 

 O resto... não vale a pena !

"A vida é um contrato a prazo. Andamos todos a recibo verde." (Mário Zambujal - passou hoje ao Oriente Eterno)


J.Paiva Setúbal (MM:.) - março 6026


07 março 2026

Onde foi parar o meu Salmo 133?



Quando troquei os pampas do Rio Grande do Sul pela margem do Tejo e passei a frequentar as colunas da Mestre Affonso Domingues, trazia comigo um "vício" de ouvido. Na minha Loja mãe, da GLMERGS, no Rio Grande do Sul, a abertura do Livro da Lei tinha um ritmo quase musical: "Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união". Era o sinal de que a egrégora estava selada. Por isso, confesso que nas minhas primeiras sessões em Portugal, o silêncio desse momento me causou uma certa "ausência". Aqui, o Livro abre-se solenemente, mas as palavras do Rei Davi não ecoam pelo Templo. Ficamos com o peso do silêncio e o foco na Luz que emana das páginas abertas.

Para quem, como eu, se formou na escola das Grandes Lojas brasileiras, esse silêncio parece uma omissão. Mas a história explica o desencontro. O REAA, na sua matriz original francesa, não previa a leitura deste salmo. Se no Brasil hoje respiramos o Salmo 133, devemos isso a uma "manobra diplomática" de 1927. Mário Béhring, ao fundar as nossas Grandes Lojas, buscava o reconhecimento da Maçonaria norte-americana. Para agradar aos irmãos dos EUA, ele importou elementos das Blue Lodges (o Rito de York americano), onde o Salmo 133 é soberano. Criou-se um hibridismo que deu certo e se tornou a alma do rito no Brasil, mas que nos afastou da sobriedade continental que Portugal preserva com tanto rigor. Esta não é a única diferença, mas ficamos por aqui com a análise.

E por que Davi faz tanta falta para mim? Porque o Salmo 133 é visceral. Ele não se perde em abstrações; fala de óleo escorrendo pela barba e de orvalho fresco. O "óleo precioso" de Aarão simboliza a consagração, aquela harmonia que desce do espírito para o corpo da Loja. Já o "orvalho de Hermon"( uma montanha gélida ao norte que irriga os montes áridos de Sião, ao sul ) é a metáfora perfeita da bênção que traz vida onde a pedra era seca. É um hino à fraternidade prática, ao prazer quase físico de estar entre iguais.

Aqui em Portugal, o ritual é mais direto, sem os adereços da escola romântica da maçonaria brasileira, talvez mais focado na busca intelectual e espiritual da Luz, sem os  penduricalhos sonoros que Béhring costurou no Brasil. Não há erro nisso, apenas uma genealogia diferente. Mas, para este mestre que ainda guarda o sotaque gaúcho, o Salmo 133 continua a ser aquela nota que, mesmo não sendo lida, ainda ressoa no fundo do ouvido. Se o ritual na RLMAD nos oferece o silêncio, que saibamos preenchê-lo com a vivência desse orvalho, garantindo que a nossa união mantenha a oficina fértil. 


Fábio Serrano, M∴ M∴