01 agosto 2016

Cerimónia de iniciação e Iniciação


Como é sabido, a admissão na Maçonartia ocorre através de uma Cerimónia de Iniciação do interessado. Através dessa Cerimónia, o interessado adquire formalmente a condição de maçom. Mas adquire em que termos? É maçom enquanto continuar a integrar uma Obediência maçónica, ou a aquisição dessa qualidade é vitalícia, isto é, perdura mesmo que a pesoa em causa abandone a Maçonaria ou dela seja expulsa ou excluída?

Os defensores da primeira alternativa consideram que a admissão na Maçonaria pressupõe a aceitação das regras vigentes na mesma, designadamente na Obediência em que ocorre a integração, e  que essas regras, consubstanciadas normalmente em regulamento, estatuto ou equivalente conjunto de normas, estipulam que aquele que abandone a Maçonaria ou dela seja expulso ou excluído perde a qualidade de maçom. Quem estiver abrangido por qualquer destas situações será um ex-maçom.

Os defensores da segunda alternativa contrapõem que esta é uma visão puramente administrativa da questão, írrita porque a Maçonaria não se pode nem deve reduzir a uma estrutura administrativa, antes é uma orgamização iniciática. E o princípio iniciático impõe que quem foi iniciado, iniciado está e nunca deixará de estar, independentemente da sua situação burocrática ou administrativa, da sua ligação ou falta dela a uma estrutura maçónica. Conforme pontua René Guénon, numa citação proporcionada recentemente por um Irmão sabedor:

 "... as organizações iniciáricas diferem profundamente das associações profanas, às quais elas não podem ser assemelhadas ou mesmo comparadas seja de que modo for; quem se retira ou é excluído de uma associação profana não tem mais nenhum laço com ela e volta a ser exatamente o que era antes de fazer parte dela; pelo contrário, a ligação estabelecida com caráter iniciático não depende em nada de contingências tais como uma demissão ou uma exclusão que são de ordem simplesmente "administrativa", como já dissemos, e apenas afetam as relações exteriores; e se estas últimas se situam todas na ordem profana, onde uma associação não tem nada mais a dar aos seus membros, elas são pelo contrário na ordem iniciática, um meio simplesmente acessório, e de todo desnecessário, relativamente às realidades interiores, únicas que verdadeiramente importam." 

E, mais adiante, em nota associada:

 "... exemplo mais simples e mais vulgar no que diz respeito às organizações iniciáticas: é absolutamente inexato falar de um "ex-Maçom", como se faz correntemente; um Maçom demissionário ou mesmo excluído não fazendo mais parte de qualquer Loja nem de nenhuma Obediência não fica menos Maçom por isso; queira-o ele ou não o queira, isso nada altera; e a prova é que, se ele vier depois a ser "reintegrado" não é iniciado de novo..."  (In "Aperçus sur L'Initiation", Editions Traditionnelles, pag. 113 e 114. Paris, 1977)   

Ambas as posições têm aspetos que considero corretos e pontos que não merecem a minha adesão. É para mim claro que uma Inicação não tem o mesmo restrito significado de uma adesão a qualquer associação ou coletividade, automaticamente extinta por vontade do próprio ou da entidade a que se aderiu. Mas também coloco reservas ao entendimento de que uma cerimónia de iniciação "cria" um maçom, que permanecerá maçom até ao dia de sua morte, contra ventos e marés, mesmo que não o queira e ainda que não se comporte como tal. A Iniciação não é uma simples adesão ou inscrição numa agremiação, mas também não tem, a meu ver, qualidades mágicas que transformem alguém para todo o sempre, mesmo que o não queira ou, decididamente, recuse comportar-se como é suposto fazê-lo quem se transforme.

O entendimento de René Guénon, que muitos seguem, na minha modesta opinião insere-se numa tradição e visão religiosa cristã que - quer queiramos, quer não - influencia o pensamento europeu desde há séculos e séculos. Nos seus trechos acima transcritos, onde se escreve "Iniciação" poderia , com as devidas alterações, escrever-se, por exemplo, "batismo" e tirar-se a mesma conclusão... Na tradição religiosa cristã, a integração na comunidade cristã ocorre pelo batismo e perdura até à morte - independentemente de o batizado ser, muitas vezes, um infante destituído ainda da capacidade de formar e expressar qualquer vontade sobre o assunto. E, parafraseando Guénon, também um cristão batizado que se converta a uma outra religião, se porventura se reconveter ao cristianismo não é batizado de novo - sinal de que o batismo cria um cristão para todo o sempre e independentemente de vontades e vicissitudes...

Em matéria religiosa, ainda posso entender que ao batismo se associe essa natureza transformadora indestrutível. Tenho, porém, muita dificuldade em aceitar, sem reservas, idêntica natureza transformadora indestrutível à Cerimónia de Iniciação.

Claro que uma organização iniciática difere profundamente das associações profanas. Claro que a Cerimónia de Iniciação é bem mais e bem mais profunda do que o preenchimento de uma ficha de adesão e uma decisão de aceitação de um novo "associado".

Mas considero errado dizer-se que quem se submeteu a uma Cerimónia de Iniciação maçónica fica automaticamente constituído maçom - e para toda a vida, suceda o que suceder, faça o que fizer, decida o que decidir.

Chamo à colação um exemplo histórico que penso permitirá ilustrar as minhas reservas:

"Num documento da Maçonaria, assinado por Egas Moniz, comprova-se que Agostinho Lourenço terá sido membro de uma loja maçónica, em 1914. As mesmas figuras que comparecem com ele, como o médico Ramon Nonato La Féria, na ocasião de uma cerimónia maçónica, testemunhada pelo jornal O Século, em 1931, serão perseguidas pela polícia que ele dirige, meia dezena de anos depois." (in http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/2016-07-17-O-anjo-negro-de-Salazar).

O sinistro e temível Capitão Agostinho Lourenço, todo-poderoso criador e diretor da PVDE, antecessora da PIDE, foi iniciado maçom! Anos depois disso, maré política virada e influente prócere do regime de Salazar, ilegalizada que foi a Maçonaria, não teve problemas em perseguir os seus antigos Irmãos. Devemos continuar, em nome da via iniciática, a considerar este personagem como continuando a ser maçom, e não um ex-maçom, quando se dedicou, ao serviço do seu senhor político a perseguir os que outrora considerara seus Irmãos? Para mim, não restam quaisquer dúvidas: aquele personagem não passou de, inequivocamente, um infeliz erro de casting...

É, para mim, claro que a Cerimónia de Iniciação não tem artes mágicas para transformar um profano num maçom. Nem todos os que se submetem à Cerimónia de Iniciação são verdadeiramente Iniciados. A Cerimónia de Iniciação (ver, neste blogue, A Iniciação (I) e A Iniciação (II)) é, a meu ver, essencialmente um catalisador que propicia a mudança e transformação daquele que a ela se submete, no sentido de passar de um profano a um vero Iniciado. Mas essa transformação ou é feita no próprio pelo próprio, ou não há Cerimónia que lhe valha...

Asssim, e resumindo, a minha posição sobre este assunto é: um maçom verdadeiramente Iniciado é, sim, um maçom para toda a vida - e não haverá ventos nem marés nem vicissitudes nem vontades que mudem isso, porque, se foi verdadeiramente Iniciado, foi transformado e comportar-se-á em conformidade. Normalmente, não sairá, nem será excluído ou expulso. Se sair de uma Obediência, ou dela for excluído ou mesmo expulso, se foi verdadeiramente Iniciado e transformado, continuarei a considerá-lo como tal - e, se calhar, o problema será da estrutura que o afastou... Mas não basta ter passado por uma Cerimónia de Iniciação para ser verdadeiramente Iniciado. E aqueles que, embora tendo-se submetido a uma Cerimónia de Iniciação, não lograram - porque não quiseram, ou simplesmente porque não foram capazes - transformar-se a si próprios não me merecem o reconhecimento como Iniciados. Saindo, sendo excluídos ou expulsos, são simplesmente ex-maçons e, afinal, impropriamente, assim designados, porque não passaram de erros de casting...

No fundo, no fundo, ambas as posições têm a sua razão. O que importa é distinguir entre simplesmente passar por uma Cerimónia de Iniciação e ser verdadeiramente Iniciado. Aqueles serão ex-maçons, porque no fundo nunca foram maçons. Estes merecem sempre o nosso reconhecimento como tal, porque nunca desmerecerão da transformação que tiveram.

Disse. Não sei se bem, se mal. Mas disse e dito está!

Rui Bandeira

7 comentários:

Marcolino Pereira disse...

Elucidativo!

Gagik disse...

Interessante

Milton Lopes Teixeira disse...

Prezado Rui. Obrigado pelo texto. Penso que a qualidade de Maçom independe mesmo da própria Iniciação, bem sabemos. Mas, talvez, para o iniciado seja suficiente assumir o compromisso uma só vez.

Luis Franco disse...

Muito bem

Luis Franco disse...

Muito bem

César Nascimento disse...

Não nos "tornamos" maçons, somos reconhecidos como tal!

João de Sousa Macia disse...

Saudacoes Rui

Ja a algum tempo procuro informacoes sobre a Maconaria em Mocambique
Sou mocambicano e estou muito interessado em juntar-me a Maconaria. Gostaria de saber como faco?
joaodesousamacia@gmail.com