08 fevereiro 2016

Contradição fundamental


A Maçonaria regular só admite no seu seio crentes. Deixa, porém, ao critério de cada um a crença concreta que cada um professa, nada lhe importando a forma como cada um vive a sua crença. as obrigações que respeita (ou infringe...), a forma como se organiza (ou não) a estrutura que porventura enquadre a prática da religião professada, nem sequer a designação que cada um atribui à divindade que concebe e em que crê. Por isso, adotou uma forma de se referir à Divindade por cada um venerada, que é independente da designação utilizada em qualquer religião e que pretende seja reconhecida por cada crente como referindo-se à Divindade da crença que professa: Grande Arquiteto do Universo.

Assim, para a Maçonaria, um maçom pode perfeitamente, sem problemas ou reservas, ser católico, batista, anabatista, mórmon, pentecostal, evangélico, luterano, calvinista, testemunha de Jeová, muçulmano, judeu, hindu, ou o que quer que seja. A sua crença é do seu foro íntimo e é com ela que se junta aos demais maçons para que, em auxílio mútuo, cada um se aperfeiçoe pessoal, ética, moral e espiritualmente.

No sentido inverso, no entanto, as coisas não se processam de forma tão simples e clara. 

No âmbito da religião católica, é conhecido que repetidas vezes vários Papas emitiram documentos de condenação da Maçonaria, tendo mesmo, durante largo tempo, o Código de Direito Canónico punido com a excomunhão o católico que a ela aderisse. Hoje, não é já assim, mas o último documento proveniente da Cúria Romana continua a não ser particularmente simpático para a Maçonaria: 

Permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas.  Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.

(excerto da Declaração sobre a Maçonaria de 26 de novembro de 1983 do então Prefeito da Congregação Para a Doutrina da Fé, Cardeal Ratzinger).

No âmbito da religião islâmica, também se conhecem posições de responsáveis nada lisonjeiras para a Maçonaria:

Dado que a Maçonaria se envolve em atividades perigosas e é um grande perigo, com objetivos perversos, o Sínodo Jurisdicional determina que a Maçonaria é uma organização perigosa e destrutiva. Todo o muçulmano, que se filiar nela, conhecendo a verdade dos seus objetivos, é um infiel ao Islão.

(excerto final do parecer de 15 de julho de 1978 do Colégio Islâmico Jurisdicional).

No campo das crenças cristãs resultantes da Reforma, também não é difícil encontrar posições contrárias à maçonaria:

A COMISSÃO FAZ A SEGUINTE PROPOSTA:
1) - QUE SEJA REAFIRMADA A POSIÇÃO DA ASSOCIAÇÃO CONTRÁRIA A MAÇONARIA E OUTRAS SOCIEDADES SECRETAS;
(...)
4) - QUE A AIBRB FAÇA UM APELO COM BASE NO AMOR CRISTÃO, AOS CRENTES FILIADOS À MAÇONARIA, PARA QUE, POR AMOR A CRISTO E AO TRABALHO DE DEUS QUE NOS FOI CONFIADO, AFASTEM-SE DE TAL SOCIEDADE.

(excertos de proposta aprovada na 12.ª Assembleia da Associação das Igrejas Batistas Regulares do Brasil).

Não é de estranhar que existam posições antimaçónicas em vários setores ou hierarquias - normalmente os mais integristas, ortodoxos ou fundamentalistas - de várias confissões religiosas, se tivermos em atenção a contradição fundamental entre a Maçonaria e as religiões.

Cada religião, e particularmente nas religiões monoteístas, considera que o seu caminho, a sua doutrina, a observância dos seus preceitos é que conduz à Salvação. Portanto todos os que se posicionam no exterior do seu caminho, da sua doutrina, dos seus preceitos, estão destinados à Perdição.  

Já para a Maçonaria, a questão não se põe nestes termos. Cada um é livre de seguir o seu caminho, de professar a sua religião, de seguir os preceitos dela e todos são considerados iguais e aptos para serem bons e se tornarem melhores. A Maçonaria (o maçom) não concebe que o mesmo Criador, chame-se-Lhe Deus, Allah, Jeovah, Krishna, Manitu, ou o que se Lhe chamar, conceba, admita, queira, que os que O veneram por um nome sejam salvos e os que O conhecem por outro se percam, que os que seguem preceitos de uma Tradição religiosa recebam eterna recompensa e os que tiveram a desdita de nascer e viver num ambiente com diversa Tradição religiosa eternamente sejam punidos. 

Para a Maçonaria, o que importa é o comportamento, a postura ética, o reconhecimento do Transcendente e do Divino, não o cumprimento específico de normas, de práticas, de posturas, quantas vezes decorrentes de diversos ambientes, de diferentes culturas, de separações feitas pelos homens daquilo que o Criador fez igual.

Para a Maçonaria não há caminhos certos nem errados. O caminho de cada um é o certo para ele, se estiver de boa-fé e for perseverante nos seus propósitos.

A contradição fundamental entre a Maçonaria e as diferentes hierarquias religiosas está na Tolerância, que é inerente à Maçonaria e que os integristas, os ortodoxos e os fundamentalistas não aceitam. Tão simples como isto!

Rui Bandeira

4 comentários:

Jocelino Neto disse...

Estimado Ir.*. Rui Bandeira, há muito não comento neste blog. Não por não ter dúvidas (qual caminho de aprendizado, em que a investigação é fundamental, não é composto por inúmeros questionamentos?) mas por me colocar em um processo mais apurado de reflexão e durante este, ver as sombras que povoavam minha mente serem brandidas pela Luz (mesmo que em réstia). Entretanto - e pondo fim a este preâmbulo - a questão da "divindade", como representação de valor absoluto (considero este conceito o elemento essencial que serve de prerrogativa para a definição de um caminho único para a salvação, verdade,etc), me é ainda motivo de indagação.

É justo (tendo como premissa o princípio da igualdade por direito), solicitar a um Ir.*. que não professa quaisquer sistemas de crença (um Deísta por exemplo), realizar quaisquer votos sobre o "volume da lei sagrada"? Entendo que, para este que não reconhece qualquer compêndio editado (leia-se manipulado ao sabor dos interesses e circunstâncias) mas que exercita o aperfeiçoamento moral e ético por meio da prática das virtudes (laicas), este ato não fere quaisquer convicções pessoais (seria incoerente, apesar de possível, caso ocorresse), mas é justo solicitar que este aceite a "crença" da maioria por razões práticas?

Agradeço-lhe desde já sua atenção e lhe envio um sincero T.*.F.*.A.*.

Rui Bandeira disse...

@ Jocelino Neto:

Na minha opinião, é justo, mas não nos termos e pelas razões em que colocas a questão.

Em qualquer culto religioso, o respetivo VLS é obviamente essencial e a assunção pelo crente de compromissos sobre esse VLS é uma assunção dele perante a Divindade em que crê.

Numa Loja maçónica, não se presta culto. Trabalha-se à Glória do Grande Arquiteto do Universo, de forma a que todos se possam juntar e mutuamente acomodar nas suas diferenças de crenças.

Na Loja maçónica, o VLS que ali se encontra é essencialmente um símbolo, uma representação arquetípica da ligação e respeito de cada um pelos princípios da sua crença. Nesse sentido, é indiferente que Livro está na ocasião aberto na função de VLS. Não é a matéria que interessa, não é aquele particular aglomerado de folhas impressas que conta. Aquele particular VLS ali presente ali, perante todos, representa todos os VVLLSS de todas as religiões, todos os princípios religiosos, morais e éticos de todas as crenças.

Assim, um deísta (como eu seu) não deve ter qualquer problema ou dúvida em assumir o compromisso com a Divindade com quem crê ser-lhe possível ligar-se diretamente, sem a mediação de igrejas ou demiurgos apondo a sua mão sobre qualquer VLS. Esse objeto material é o símbolo precisamente da possibilidade de ligação em que crê.

Digo-te mesmo mais, sem receio de me estar a atirar para fora de pé: para os que compreendem efetivamente o que é a Maçonaria e ser maçom, é perfeitamente não problemático que um cristão preste compromisso sobre o Corão, um muçulmano sobre a Torah e um judeu sobre a Bíblia. Não é o objeto material que, para qualquer deles, conta. O que conta é o SEU compromisso perante a SUA Divindade sobre a representação dos princípios da sua crença. O que conta é a dimensão espiritual, não a material.

No limite, se uma Loja maçónica estiver para reunir e não tiver à sua disposição um qualquer VLS, pode o Irmão Experto ou o Diácno (consoante os ritos) desenhar a giz no solo um livro aberto e, para a Loja, para os que ali estiverem reunidos, aquela representação, aquele símbolo, é tão VLS como o mais rico e mais bem encadernado volume...

É por isso que a Maçonaria é a primeira Instituição verdadeiramente Ecuménica dos tempos modernos...

TFA.

Jocelino Neto disse...

"No limite, se uma Loja maçónica estiver para reunir e não tiver à sua disposição um qualquer VLS, pode o Irmão Experto ou o Diácno (consoante os ritos) desenhar a giz no solo um livro aberto e, para a Loja, para os que ali estiverem reunidos, aquela representação, aquele símbolo, é tão VLS como o mais rico e mais bem encadernado volume...

É por isso que a Maçonaria é a primeira Instituição verdadeiramente Ecuménica dos tempos modernos..."

Diante deste preciso arremate Ir.*. Rui Bandeira, só me resta agradecer por mais este ensinamento J.*. e P.*.

T.*.F.*.A.*.

Glauco Sales disse...

Perfeitas e esclarecedoras as explanações. Pergunta extremamente pertinente e resposta digna de uma instrução em loja. Um T.'. F.'. A.'. Em nome da L.'. Conciliação Bragantina N 1047.