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Maçonaria Self-Service

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Dada uma certa vez, durante uma conversa com um Irmão, sugeri que a nossa Loja criasse um repositório digital de trabalhos, documentos e materiais de estudo. A ideia era simples: eu queria organizar o conhecimento que já produzimos e permitir que os Irmãos o consultassem, respeitando, naturalmente, os limites de cada grau e as regras da Obediência. A resposta deste Irmão foi categórica:  "Não existe Maçonaria self-service."  E veio acompanhada de uma segunda afirmação:  "Na Maçonaria só recebes aquilo que te é dado." As palavras me obrigaram a pensar em algo que vai muito além de uma biblioteca digital. Afinal, como é que se aprende na Maçonaria? E quem determina o que um Irmão pode aprender, como e quando?Confesso que, quanto mais penso no assunto, menos me parece que a resposta seja tão simples. Comecei por reconhecer que aquele Irmão tinha um argumento bastante mais sólido do que a expressão  "self-service"  poderia sugerir.  A Maçonaria não é uma unive...

A crise da habitação?

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Há meses que ouvimos falar da crise da habitação em Portugal. Faltam casas, os preços não param de subir, os jovens não conseguem comprar casa e os sucessivos governos anunciam medidas para acelerar a construção. Todos parecem estar de acordo que é preciso construir mais e depressa. Pois bem, eu e a minha esposa resolvemos contribuir para a solução do problema e construir uma casa. Num terreno urbano, aqui perto da capital, com antecedentes de aprovação para construção, sem pedir subsídios, apoios ou qualquer favor ao Estado. Apenas autorização para construir, naturalmente cumprindo as regras. Ingenuidade nossa. Em Dezembro de 2025, depois de termos começado a falar com o departamento urbanistico da camara em Setembro, entregámos o projecto de arquitectura. Seguiram-se notificações, mais pedidos de esclarecimento, novas plantas, desenhos corrigidos, alterações ao alinhamento dos muros, reuniões, mais documentos e, naturalmente, novas submissões. Uma verdadeira epopeia administrativa qu...

Duas Faces do Dever: O Desafio Moral do Líder

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Ouvimos falar muitas vezes de direitos e deveres. Quem defende direitos, defende principalmente a dignidade humana quando esta está colocada em causa ou quando prevemos que possa vir a sê-lo no futuro. Associamos muitas vezes a defesa dos direitos a associações de caráter mais humanista. Os radicais, frequentemente, associam os defensores de direitos a pessoas de certos espectros políticos e a preguiçosos (os tais que não querem trabalhar). No entanto, todos usufruímos dos direitos que foram sendo conquistados ao longo da história da humanidade. Mas não é sobre direitos que pretendo falar hoje. Hoje pretendo falar sobre deveres — aquele chavão que também não está livre de polémica. Os tais radicais de que falei atrás aparecem sempre com uma frase feita a dizer: “Estes gajos só querem é direitos… e os deveres? Também têm de ter deveres; com esses é que eles não se preocupam…”. No entanto, não é sobre esta dicotomia que pretendo falar. Pretendo que o leitor, faça uma reflexão sobre a for...

A Medida do Tempo

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Há lugares que conhecemos muito antes de os visitar. O Egipto é um deles. Desde a escola que nos habituámos a olhar para as pirâmides como uma das maiores realizações da Humanidade, a reconhecer os nomes de alguns faraós e a admirar uma civilização que floresceu nas margens do Nilo há milhares de anos. Crescemos com imagens de templos monumentais, de hieróglifos misteriosos e de túmulos onde a vida e a morte parecem encontrar-se numa mesma narrativa. Mas uma coisa é conhecer o Egipto através dos livros, outra, bastante diferente, é estar diante da Grande Pirâmide de Quéops e tentar compreender o que significou erguê-la há cerca de quatro mil e quinhentos anos. À primeira vista, a grandeza das pirâmides está nas suas dimensões. A quantidade de pedra, o peso dos blocos, a precisão das linhas e a extraordinária resistência ao passar dos séculos impressionam qualquer visitante. Porém, à medida que nos aproximamos, a admiração começa a deslocar-se da obra para aqueles que a construíram. É ...

Dos Devoristas ao Gang do Avental

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Há poucos dias, Paulo Pinto publicou no Observador um artigo intitulado “ Maçonaria: os Devoristas ”, um texto que vale a pena ler porque toca num tema que acompanha a Maçonaria há muito tempo, a relação entre Maçonaria, poder, influência e a suspeita que muitas vezes nasce apenas da condição de alguém ser maçom. O ponto de partida é histórico e leva-nos ao liberalismo português do século XIX, quando a presença de maçons na vida política era relevante e quando a Maçonaria se cruzava naturalmente com muitos dos homens que participaram na construção do Estado liberal, mas talvez seja importante olhar para esse século com os olhos desse século, numa época em que era absolutamente normal políticos, militares, diplomatas, comerciantes ou académicos pertencerem a clubes, sociedades, associações e outros círculos privados de sociabilidade, como o White’s, o Brooks’s, o Athenaeum, o Reform Club ou o Travellers Club. A Maçonaria não era apenas mais um desses clubes, porque tinha uma dimensão in...

Dá-me lume, Jorge

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Já foram quase duas semanas e continuo a dar por mim a ouvir Jorge Palma. Nestes últimos dias talvez mais do que o normal, mas a verdade é que nunca andou longe das minhas playlists. Não sou propriamente um groupie de concertos, nem tenho por hábito andar atrás de músicos de terra em terra. Os que me fizeram fazer alguns quilómetros só para os voltar a ouvir contam-se provavelmente pelos dedos das mãos. Jorge Palma foi um deles. Tive o privilégio de o ver ao vivo mais de um par de vezes, em sítios diferentes, e havia sempre qualquer coisa de Jorge Palma num concerto que não se explica bem. Podia não estar tudo perfeito, bem longe muitas vezes, podia uma música começar de uma maneira e acabar sabe-se lá onde, mas estava lá ele, o piano, aquela voz que parecia já ter vivido umas quantas vidas e, principalmente, as palavras. Obrigado por ler A Partir Pedra! Subscreva gratuitamente para receber novos posts e apoiar o meu trabalho. Não sei se Jorge Palma foi maçom. Não sei se foi ou se não...