AREIA OU PEDRA ?
Este texto não é novo. É recuperação e atualização de um pequeno escrito de há cerca de 20 anos, mas cuja base, no entanto, é muitíssimo mais antiga, certamente com uns séculos de idade.
Diz uma lenda árabe que dois Amigos viajavam pelo deserto e num determinado momento da viagem, durante uma discussão, um deu uma bofetada no outro. Este, ofendido, mas sem poder fazer nada, escreveu na areia “HOJE, O MEU MELHOR AMIGO DEU-ME UMA ESTALADA.”
Seguiram a caminhada e chegando a um Oásis foram tomar banho. O que levou a estalada, precipitado e magoado, ficou em risco de se afogar. Logo o Amigo correu a atirar-se à água, salvando-o. Ao recuperar-se pegou num canivete e gravou numa pedra “HOJE, O MEU MELHOR AMIGO SALVOU-ME A VIDA”.
Intrigado o Amigo perguntou: - Porque é que depois que te bati escreveste na areia, e agora que te salvei escreveste numa pedra ?
Sorrindo, o outro Amigo respondeu: - Quando um grande Amigo nos ofende, devemos escrever onde o “vento do esquecimento” e o perdão se encarreguem se passar e apagar a lembrança. Por outro lado quando algo de grandioso nos acontece devemos gravar isso na memória e no coração, onde nem o vento possa passar e apagar.
Pequeno intervalo: Uso conscientemente o verbo “orientar”. Poderia ter usado o seu sinónimo, neste caso “nortear”. A questão é que de facto para nós, é do oriente que vem a orientação ! A norte está a aprendizagem. Indispensável, contínua, sempre inacabada, mas recebendo a orientação que a conduzirá pelo percurso maçónico.
A
comunidade maçónica, baseada espiritualmente no Grande Arquiteto Do Universo,
interpreta a Humanidade como uma irmandade de homens com um objetivo comum.
Desde
a Iniciação que o Maçon é ensinado a trabalhar a pedra, não a areia.
O
que aconteceria se o Templo de Salomão tivesse sido construído com areia ? E o
que acontece se a marca do nosso relacionamento tiver a consistência da areia ?
A
mais leve brisa levaria o templo, tal como levará a relação entre humanos se
não cuidarmos do material com que a construímos.
Que
a relação entre os homens, e em especial entre os Maçons, seja construída em
pedra, bem rija, para que perdure pelo tempo, resistindo às chuvas, aos ventos,
às intempéries sejam elas quais forem.
Se
a relação entre os homens não for suficientemente sólida como resistirá ao
primeiro temporal ?
E
há temporais ! Não vale a pena fingir que o “bom tempo” é permanente. Nada é
permanente ! Muito menos o “bom tempo”.
Se
queremos um mundo melhor não há alternativa que não seja agarrarmo-nos às
ferramentas e trabalharmos, conscientemente, persistentemente, a pedra talhando
nela as nossas relações, reproduzindo nela a nossa vontade de mais Liberdade,
maior Igualdade, verdadeira Fraternidade.
A vida, entenda-se a existência humana integrada nas regras sociais definidas/impostas pelas organizações políticas gestoras das sociedades nacionais, encarrega-se de fazer surgir a cada momento dificuldades cuja resolução pede imaginação e frequentemente muito trabalho. Diz um ditado popular que “é nas dificuldades que se conhecem os Amigos”. Pois bem, é nesta evidência que os Maçons se enquadram.
Pequeno
intervalo: Recordemos que o local de trabalho do Maçon é a Humanidade, mas
é na Loja que Ele mantém o estaleiro onde guarda o material, os desenhos, as
ferramentas da obra que, deseja-se, vá erguendo à Sua volta. Mais, é
na Loja que o Maçon encontra os Companheiros-obreiros que o auxiliam na resolução das
dificuldades que a engenharia da vida Lhe propõe permanentemente.
Com
alguma frequência lembramos a Cadeia de União, quiçá o símbolo maior da
Maçonaria.
Temos consciência da força com que apertamos as mãos dos companheiros ao nosso lado ?Será capaz de resistir a um abanão forte ? Será ?
Depende de cada um dos “nós” desta Cadeia. Se cada uma das ligações for em Pedra dura, certamente poderá resistir aos abanões, às tempestades da vida, mantendo a Cadeia unida.
Se
alguma destas ligações, basta apenas uma, tiver sido construída com “areia”, a
cadeia desmanchar-se-á ao primeiro ventinho que se levante.
Este apertar firme das mãos significa disponibilidade mental para sacrifícios por vezes complicados, muitas vezes afastamento de benefícios, frequentemente abandono de vantagens. É no entendimento destas relações que o capital maçónico cresce. É este o investimento que vale a pena. É isto o trabalho na pedra dura, sendo que temos de perceber e estar para isso mentalmente despertos, de que por vezes a pedra é mesmo muito dura.
Perdoar,
aceitar diferenças, ajudar são as atitudes que se espera do Homem “justo e
perfeito”.
É
importante ouvir, mais do que falar;
É
importante perceber, mais do que interpretar;
É
importante fazer, mais do que prometer;
É
importante o “nós”, mais do que o “eu”;
É importante a Verdade !
O mundo está em guerra, qual vendaval, terrível intempérie que se abate sobre muitas regiões do globo, na verdade sobre quase todas as regiões do globo. Quando não são tiros e bombas são a miséria, a discriminação e o abandono,
Os
Maçons têm de sentir o chamamento à primeira linha do combate.
As
guerras têm sido quase sempre fruto de cegueira religiosa.
Das
“guerras das religiões” passámos a um outro estado. O homem “progrediu” para a
“religião das guerras”.
O
“deus” hoje chama-se “guerra” e as bombas, os drones, os carros de combate são
os seus “santos”, cada dia mais “santos”, cada dia fazendo mais e maiores “milagres”,
o que significa cada dia mais mortais.
É
esta a religião que os pregadores atuais espalham pelo mundo. Por todo o mundo,
na expectativa de que um dia, de algumas das suas bombas mais mortíferas saia
um “representante divino” justo e perfeito. Certamente ainda não conseguiram a
bomba tão violenta que justifique tal “milagre”. Mas a esperança mantém-se e as
tentativas são diárias.
A Maçonaria tem a ver com o estado do mundo atual ? Claro que tem !
Por
um lado diagnosticando os “nós” da “cadeia de união” humana que estão construídos com
areia, depois auxiliando ou provocando a sua eliminação e finalmente
reconstruindo esses “nós” com pedra bem dura.
Se a Cadeia de União é o símbolo maior da Fraternidade Maçónica, façamos com que esse seja o objetivo, façamos por aí o nosso caminho, com uma vontade que não quebre nem amoleça.
Talhada na pedra. Não na areia.
Jun/6026
J.Paiva Setúbal (MM)

