24 janeiro 2026

O estoque encalhou. É hora de pormos a maçonaria nos saldos?


Tenho refletido muito sobre uma provocação que o meu querido irmão JR me fez recentemente: a de que, a cada dia que passa, a Maçonaria se torna um "produto" menos vendável. Não porque a qualidade da nossa "mercadoria" moral tenha decaído, mas porque o mercado onde operamos sofreu um choque tectónico. A verdade inconveniente é que já não competimos apenas com outras ordens discretas ou clubes de serviço; competimos ferozmente pelo "novo petróleo" dos tempos modernos: a atenção e o tempo dos homens. E nessa economia de escassez, onde a atenção é a moeda mais valiosa e volátil, o nosso modelo de "negócio"exige um investimento temporal altíssimo com retorno difuso e diferido: tudo que está tecnicamente em falência para as novas gerações. 

O cenário é de uma clareza brutal quando olhamos para os "ladrões de tempo" que nos cercam, começando pela colonização digital do nosso lazer. Vivemos na era do entretenimento de "atrito zero", onde o streaming já ultrapassou a televisão linear, capturando 60% do tempo de visualização e impondo uma cultura de binge-watching que normalizou o consumo de blocos de três ou quatro horas de conteúdo de uma assentada. Competimos contra algoritmos desenhados por engenheiros comportamentais para gerar dopamina a cada 15 segundos, enquanto nós oferecemos sessões de leitura de atas e arquiteturas que exigem um tipo de paciência cognitiva que está em vias de extinção. O homem que chega a casa exausto tem à sua disposição, por um valor irrisório, um catálogo infinito de gratificação imediata; convencê-lo a vestir um fato e sair para uma reunião lenta e protocolar tornou-se uma tarefa hercúlea.

Ao mesmo, enfrentamos a tirania da obsolescência profissional, que transformou o tempo livre em tempo de sobrevivência. O conhecimento que garantia uma carreira estável de trinta anos evaporou-se. Alguns dados recentes indicam que a "meia-vida" de uma competência técnica caiu para uns assustadores dois anos e meio. Isto significa que um profissional que não estude continuamente perde metade do seu valor de mercado em menos de três anos. O "terceiro turno" da noite, que outrora pertencia à Loja, foi canibalizado pela necessidade urgente de reskilling e certificações. Para a classe média instruída que historicamente preencheu as nossas Colunas, a escolha entre estudar um ritual do século XVIII ou fazer um curso que garante a manutenção do emprego pende, racionalmente, para a sobrevivência económica.

Mas o maior "ladrão" é, talvez, o mais nobre de todos, tornando a nossa competição moralmente complexa: a paternidade. A figura do pai provedor e ausente é uma relíquia sociológica; hoje, o imperativo é a "paternidade intensiva". As estatísticas são inequívocas: desde 1965, o tempo que os pais dedicam aos cuidados diretos dos filhos mais do que triplicou. E se focarmos no perfil demográfico típico da Maçonaria, homens com formação superior, esse investimento ultrapassa agora as 10 horas semanais de interação focada. O homem moderno não quer apenas "estar"; quer participar, educar e brincar. Quando a Maçonaria o obriga a escolher entre ser um irmão assíduo ou um pai presente, coloca-se numa posição de desvantagem ética onde a Ordem sairá invariavelmente derrotada.

Podemos ainda incluir na lista de ladrões um bónus: o futebol que se industrializou ao ponto de ocupar todo o calendário social. O futebol deixou de ser um passatempo de fim de semana para se tornar uma novela contínua, com a elite a jogar quase 90 partidas por ano e os adeptos a dedicarem mais de 20 horas semanais a consumir, discutir e viver a sua "tribo". O sentimento de pertença, a catarse coletiva e a identidade de grupo que a Maçonaria vendia como exclusivos são agora entregues pelo desporto de forma mais visceral, frequente e com barreiras de entrada muito menores. O adepto encontra no estádio ou no grupo de WhatsApp a comunidade que nós prometemos, mas sem a exigência do estudo ou do silêncio.

É neste cenário inóspito que tentamos vender o nosso "estoque" com um argumento comercial que beira o absurdo: "pagas uma joia cara, para algo que não sabes o que é, que vai competir com a tua sobrevivência profissional e com os teus filhos, e ainda ficas meses ou anos só a escutar". Não surpreende que a retenção seja o nosso calcanhar de Aquiles, com dados a mostrarem que quase 20% dos iniciados abandonam a Ordem nos primeiros três anos (UGLE, 20222). O "cliente" entra, experimenta o produto, compara o custo de oportunidade com a sua vida lá fora e percebe que a conta não fecha. O problema não é o preço da joia ou das quotas; colocar a Maçonaria nos "saldos" financeiros não resolverá nada.

O nosso "estoque encalhou" porque o mundo mudou as regras do comércio de tempo e nós continuamos a operar com a lógica de uma mercearia antiga num mundo de e-commerce instantâneo. O desafio não é cosmético, é existencial. Enquanto não compreendermos que estamos a pedir o ativo mais valioso e escasso do século XXI — tempo — em troca de uma experiência que muitas vezes falha em entregar valor percetível imediato, continuaremos a ver as nossas Colunas a esvaziar. Não por falta de homens bons, mas porque os homens bons estão ocupados a serem bons pais, bons profissionais e a sobreviverem à voracidade de um mundo que não dorme.

Fábio Serrano, MM

Fontes:
  • Samba TV – "U.S. State of Streaming Report" (Outubro 2025).
  • IBM SkillsBuild / World Economic Forum (Future of Jobs Report).
  • Institute for Family Studies (2024) / Pew Research Center.
  • Football Fever Report (AO.com / OnePoll).
  • United Grand Lodge of England (UGLE) – Strategy 2022 and Beyond.


17 janeiro 2026

 


Dia 17 de Janeiro de 2026 em Portugal

 Pois bem reflitamos então um pouco acerca do dia de hoje.

Liberdade, Igualdade, Fraternidade !

Quando o calendário é feito no início do ano constatamos que todos os dias serão previsivelmente iguais. Muda-se o número do dia no mês e o nome do dia na semana. E é tudo.

Dia a dia, semana a semana, mês a mês durante 12 meses.

Acontece depois que cada dia toma uma personalidade própria. A Natureza encarrega-se de pôr diferenças em cada dia que vamos vivendo.

Chuva hoje, vento amanhã, calor e sol a seguir…

O Homem trata de dar uma ajuda a diferenciar cada dia de cada dia.

Hoje um tratado, amanhã uma doença, guerra a seguir… mais uns discursos, umas promessas, um salvamento, um nascimento, uma morte…

Os dias que nasceram todos iguais acabam todos diferentes. É o espelho da nossa própria existência.

A “Mãe Natureza” encarrega-se de distribuir “qualidades” conforme Lhe vai apetecendo (é uma simplificação conveniente para o momento) tornando-nos diferentes, todos, por mais iguais que quiséssemos ser.

Só que no final voltamos à igualdade.

A mais absoluta igualdade. Finalmente todos iguais, apetece-me dizer…

Estamos, como pus no título, a 17/01/2026, em Portugal !

Então, sendo que é assim, reflitamos !!!

Não encontro melhor do que recorrer a 2 extraordinários cérebros “nacionais”. Sem eles saberem pedi-lhes ajuda, também sem eles autorizarem usei o seu pensamento para o trazer até aqui para me ajudar a refletir…



J.Paiva Setúbal (MM:.) - 17/01/2026

 

Educação, o que é ?

A influência da Maçonaria na Sociedade é um dos seus objetivos. Uma das suas tarefas mais importantes deve ser a de transmitir à sociedade o enriquecimento interno, pessoal e espiritual que pretendemos obter na nossa vivência maçónica.

A intervenção social é uma das obrigações principais da Maçonaria unindo todos os homens, toda a Humanidade na procura da Felicidade, da Paz, da Alegria, da Liberdade.

É obrigação do Maçon dar testemunho de interesse pelo aperfeiçoamento da Fraternidade Humana.

Hoje dedico aqui algumas linhas à Educação a partir de um evento em que estive há algum tempo, talvez 2 anos (?), mas cuja atualidade é evidente.

Na televisão, nos jornais, nas redes sociais, em todos os suportes de informação onde é possível falar de Educação encontramos um consenso bem generalizado, de facto só contrariado sistematicamente pelos órgãos do governo em funções no momento, seja que governo for, e o consenso é claro, a Educação em Portugal vai mal ou a Educação em Portugal está pior…

A definição de “Educação” que nos interessa aqui é a componente escolar.

De facto, o que se entende por Educação é um conjunto de variáveis nas quais se inclui o “ensino escolar”, mas esse é apenas e só apenas, um dos componentes da Educação, quiçá não o mais importante. Mas é exatamente esse o componente mais referido e vulgarmente o único, que é avaliado quando se fala de Educação.

A Escola não é o único fornecedor de Educação, nem sequer o principal, mas é o mais em evidência por maior facilidade de localização física.

A escola é aquilo, está ali… O professor é aquele, está ali também…  É muito fácil encontrar um e outro.

Neste curto pensamento é exatamente a este componente da Educação que me refiro e é a este apenas, porque é o mais atacado, direi que, na maior parte das vezes, injustiçado.

A escola não funciona, o professor é mau…

Não se faz referência, ou raramente se faz referência, à qualidade do aluno e principalmente à qualidade dos Pais (Encarregados de Educação) do aluno. E no entanto, a meu ver, é a estes que cabe a componente mais importante do conjunto que é a Educação.

Neste meu interesse momentâneo quero dar visibilidade, a que consigo dar, a alguém que sabe do assunto e que muito tem pensado e escrito sobre o tema, com a visão muito clara de que não há “ensinar” sem haver “aprender”.

É esta dicotomia que é tratada na escola sendo claro que Professor e Aluno são, devem ser, uma unidade e não elementos separados do “eu ensino” e “tu aprendes se quiseres”. Se o aluno não aprender o professor também não ensina. Não há um sem o outro.

Esta tem sido uma das preocupações do Professor Jorge Rio Cardoso, plasmada no conjunto da sua obra “Bora Lá…”. É um conjunto de livros pensado para a Escola, para os Alunos e para os Pais (Encarregados de Educação).

Estivemos no lançamento de um desses livros e registamos o que foi dito pelos intervenientes. Divido convosco o final da lição dada na altura pelo professor J.R.C.

(Chamo a atenção para a qualidade da imagem cuja recolha ficou muito deficiente. Mesmo assim resolvi pô-la porque o que de facto interessa aqui são as palavras. E essas são bem percetíveis).

J.Paiva Setúbal (MM:.)

10 janeiro 2026

A Arteriosclerose de uma loja



Antes de tudo, convém assentar uma pedra angular: não escrevo estas linhas para defender o abandono do ritual ou a negligência dos nossos regulamentos. Pelo contrário, sou um fervoroso defensor de que a forma protege o conteúdo. O ritual é a moldura que permite à Loja operar num tempo e espaço sagrados, distintos do profano. Eu não proponho a anarquia, mas a vitalidade. Não questiono a regra, mas o "preciosismo cego" que, sob o pretexto de zelar pela perfeição, acaba por assassinar o espírito real da fraternidade.

Na medicina, a arteriosclerose refere-se ao endurecimento das artérias. As paredes, que deveriam ser flexíveis para permitir a circulação do sangue, tornam-se rígidas, estreitas e, eventualmente, bloqueiam o fluxo, levando à morte do tecido ou à falha do órgão. Na Loja, enfrentamos um risco semelhante. Quando o foco de uma sessão se desvia do aprimoramento moral e do calor da fraternidade para uma discussão vazia sobre a vírgula de uma ata ou o alinhamento preciso de um objeto que não afeta o andamento dos trabalhos ou a prática da verdadeira Maçonaria, estamos a sofrer de uma arteriosclerose ritualística.

O ritual deve ser uma ferramenta de trabalho, não uma mordaça. Se um Irmão comete um deslize formal, o ambiente de harmonia deveria permitir integrar e corrigir com discrição ou explicar pedagogicamente por que fazemos as coisas de determinada maneira. Muitas vezes, o que defendemos como regra máxima é apenas uma tradição oral que se fixou numa memória de trabalho local. Castigar um Irmão por algo que sequer está escrito é contraproducente e gera uma desarmonia que nos afasta do verdadeiro propósito da reunião.

Nós não nos reunimos para prestar culto à burocracia; reunimo-nos para nos tornarmos homens melhores. Se a sessão termina e os Irmãos saem mais exaustos do que inspirados, se saem mais distantes uns dos outros devido a picuices formais, então falhámos na nossa principal tarefa. O rigor é essencial, mas deve ser imbuído de humanidade. As nossas veias maçónicas precisam de ser flexíveis o bastante para aceitar as imperfeições humanas, permitindo que a fraternidade flua sem obstáculos. Assim, ao soar o malhete de encerramento, garantiremos que cada um saia do Templo mais justo e feliz do que quando entrou.


Fábio Serrano, M∴ M∴



01 janeiro 2026


1 DE JANEIRO

É um dia especial.

Marca o início de mais um ano solar e para muitos a retoma de tarefas ou do percurso para objetivos novos ou ainda não cumpridos ou, pura e simplesmente, a estreia de roupa nova.

Para mim marca sobretudo a memória de um grande Amigo e para a R:.L:. Mestre Affonso Domingues a memória de um Maçon exemplar.

É o Aniversário do Luís Miguel Rosa Dias e seria cumprido de forma bem mais festiva se fossemos suficientemente afortunados para o termos ainda connosco.

Lembrei-me de homenagear a sua memória com a publicação de um pequeno vídeo que teve a sua participação, ainda que não apareça nele.

Porque o vídeo que Vos trago o proporciona, aproveito a recordar também outro Querido Irmão, também já no Oriente Eterno.

O nosso querido e saudoso João Pinheiro, aqui trazido por sua Filha, a Teresa Brum Pinheiro.

A Teresa, além da sua vida profissional mantem uma segunda atividade (ou será a primeira ?) cantando o Fado. É fadista e que fadista…

É um excerto da atuação da Teresa durante o lançamento do livro “A Filha do Papa” do Luís Miguel Rocha (Março2013) onde estivemos como TVL.

A Teresa também compõe e neste fado juntam-se a música da Teresa e a letra do Luís Miguel (aqui, como nos seus outros escritos assinado como Miguel Roza).

Com esta ligeiríssima homenagem deixo a todos votos de excelente 6026.

J.Paiva Setúbal

25 dezembro 2025

Um Bom Natal

O Natal é, antes de tudo, uma pausa. Um momento em que a luz volta a ganhar espaço, mesmo quando os dias ainda são curtos.

É tempo de recolhimento, de silêncio útil, de olhar para dentro e perceber o que ficou por trabalhar, o que foi bem talhado e o que ainda pede paciência, método e tempo. Nenhuma obra se faz de um dia para o outro, e as mais importantes raramente se veem à primeira vista.

Que este Natal seja simples. Com poucos excessos e principalmente, com sentido.

Que haja luz suficiente para orientar o caminho, firmeza bastante para continuar a trabalhar e humildade para reconhecer que todos estamos ainda em construção.

Aos que caminham connosco, aos que vieram antes e aos que virão depois, desejo um Natal sereno, consciente e verdadeiro.

Boas Festas. 



22 dezembro 2025

                                                            DIA DE NATAL
 


Na verdade este poema desta minha querida Amiga Paula Nunes foi apresentado há já alguns anos numa emissão da TVL na rubrica "Um Poema e um café", espaço que apresentavamos regularmente com a participação de alguns dos Amigos que connosco quiseram colaborar. A Paula Nunes foi uma das principais e mais assíduas colaboradoras dizendo maravilhosamente palavras de outros mas dizendo também as suas próprias palavras como é o caso deste "Dia de Natal".
Aqui Vos deixo este presentinho da Paula.