27 março 2007

Deus e o Mal

Uma das definições de Maçonaria que ouvi é que a Maçonaria é um sistema de moralidade, velado por alegorias e desvendado por símbolos.

Não é apenas isso, mas também é isso.

O texto que vou seguidamente publicar é uma adaptação minha baseada numa daquelas apresentações de diapositivos que, meio lamechas, circulam pela Rede, envoltas em música suave e com fundos de paisagena aprazíveis. Mas esta, em particular, é mais do que isso, é uma forma de mostrar que Razão e Fé não são incompatíveis. São alegorias como esta que os maçons utilizam para reflectir. A Alegoria vela a moralidade, que é desvendada pelos símbolos. Isto também é Maçonaria.

Deus e o Mal

Um professor universitário desafiou os seus alunos com esta pergunta:

- Deus criou tudo o que existe?

Um aluno respondeu, afoitamente:

- Sim, Ele tudo criou.

- Tem a certeza que Deus criou tudo? - insistiu o professor.

- Sim senhor! - respondeu o jovem.

O professor, então, concluiu:

- Se Deus criou tudo, então Deus criou também o Mal, pois o Mal existe. E, assumindo que nós nos revelamos em nossas obras, então Deus é mau...

O jovem ficou calado em face de tal resposta e o professor gozava mais um triunfo da sua Lógica, que demonstrava mais uma vez que a Fé era um mito.

Então, outro estudante levantou a mão e perguntou:

- Posso fazer uma pergunta, professor?

- Claro que sim! - respondeu este.

Então o segundo jovem perguntou:

- Professor, existe o frio?

- Que pergunta é essa? Claro que sim! Ou, por acaso, nunca sentiu frio?

O jovem respondeu: - Na realidade, professor, o frio não existe! Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, na realidade é a ausência de calor. Todo o corpo ou objecto é susceptível de estudo, quando possui ou transmite energia. O calor é que faz com que este corpo tenha ou transmita energia. O zero absoluto é a ausência total e absoluta de calor, todos os corpos ficam inertes, incapazes de reagir, mas o frio não existe realmente. Nós criámos essa definição para descrever o que sentimos quando nos falta o calor.

E o jovem prosseguiu: - Mas permita-me ainda uma outra pergunta. E a escuridão, existe?

O professor, intrigado, respondeu: - Existe, claro que existe.

O aluno retorquiu: Está de novo errado, professor, a escuridão também não existe. A escuridão, na realidade, é apenas a ausência de luz. A luz pode ser estudada, a escuridão, não. Até existe o prisma de Nichols, para decompor a luz branca nas várias cores de que a mesma é composta, com os seus diferentes comprimentos de onda. A escuridão, não. Um simples raio de luz atravessa as trevas e ilumina a superfície onde termina. Como se pode saber quão escuro está um espaço determinado? Com base na quantidade de luz presente nesse espaço, não é assim? Escuridão é, pois, apenas uma definição que o Homem desenvolveu para descrever o que acontece quando não há luz!

Finalmente, o jovem perguntou. - Diga-me então agora , professor, ainda pensa que o Mal existe?

O professor respondeu, ainda insistindo: - Claro que sim, claro que existe, bem vemos os crimes e a violência em todo o Mundo, tudo isso é o Mal!

Retorquiu então o estudante: O Mal não existe, senhor. Pelo menos, não existe por si mesmo. O Mal é simplesmente a ausência de Deus, tal como o frio é a ausência de calor e a escuridão a ausência de luz. O Mal é uma definição que o Homem criou para descrever essa ausência de Deus! Deus não criou o Mal. O Mal não é como a Fé, ou como o Amor, que existem, como existem o calor e a luz. O Mal é o resultado de a Humanidade não ter Deus presente em seus corações. É dessa ausência que surge o Mal, como o frio surge da ausência de calor e a escuridão da falta de luz.

Pela primeira vez, o professor compreendeu que a Razão e a Lógica não são antagónicas da Fé e que aquelas, sabiamente aplicadas, afinal justificam esta.

E assim se provou que Deus não criou o Mal e também que a existência do Bem prova a existência de Deus, como o Calor prova haver energia e a Luz prova existir a cor.

Que o Grande Arquitecto do Universo permaneça em nossos corações!

Rui Bandeira

8 comentários:

Vilaça disse...

Parabéns.Bela prancha!
Um TFA do Carlos

Filipe Madrugo G. disse...

Atrever-me-ia a afirmar, que o Bem é...
Repetição será dar os parabéns pela prancha, mas quando ela é justa, perfeita e bela, que fazer mais senão repetir elogios?
Citando Abraham Lincoln “ Quando pratico o bem, sinto-me bem; quando pratico o mal, sinto-me mal. Eis a minha religião.”
Como alerta hoje António Barreto, no retrato social de “um Portugal”, nem sempre as sociedades evoluem para melhor... Ora dizer isto, bastará per si para reafirmar pela incontável vez nesta casa, que Arte Real no papel da Evolução, do Progresso e do Conhecimento não é aliada, é sim uma irmã do mesmo sangue, é sim fruto de uma e da mesma matriz.
Não querendo mais recuperar o “concurso” recente da RTP, valerá recordar antes um outro concurso de Bem maior, o das sete maravilhas de Portugal, e para isso o nosso grande Mosteiro dos Jerónimos, passado meio século do tratado de Roma. Recordemos pois as Mãos de Deus, no par de mãos esculpidas nos dois pilares sustendo a capela mortuária de Vasco da Gama. Brancas, pálidas e polidas, de tanto afago das mãos humanas. Para uns a geometria do 515, para outros os pilares de onde começa todo o mosteiro... Tempo e espaço juntos...Segundoa tradição, enquanto houver pilares belos e equilibrados, sustentando as abóbodas do mosteiro, haverá Portugal...
Falta cumprir-se Portugal? Pois cumpra-se para e no Bem do Grande Arquitecto...

Obrigado por este blog

José disse...

A ideia segundo a qual o mal é uma ausência não resiste à lógica e, pior, à existência.

A ideia do mal como "ausência de ser", mais "recentemente", vem da escolástica, de Tomás de Aquino,e, mais atrás ainda, de Stº Agostinho.

O mal como ausência, como potência e não como acto, tem que se reconduzir, no limite, como em Aristóteles, ao acto puro.

Já a prova existencial contra a ieia do mal como ausência é, ainda, mais forte: é o Holocausto. Só gente louca, se bem intencionada, dirá que o Holocausto é o mal como ausência.

Veja-se Hans Jonas e o seu "O conceito de Deus depois de Auschwitz" ou, mais carnalmente, o recentíssimo "As Benevolentes", de Jonathan Littell.

Incrível como tanto tempo depois de S. Tomás ainda se toma como bom e acriticamente o seu fraco argumento quanto à natureza do Mal (o mal como ausência)!

Lamento dizê-lo, mas só uma degenerescência beata do pensamento pode justificar esssa atitude.

Rui Bandeira disse...

@ josé:

Escolástico é o método de ensino que se vale dos ensinamentos de autores tidos como clássicos e irrefutáveis para concluir que o que afirmam é necessariamente correcto.
Afirmar que a noção do mal como ausência do bem é errada porque vem de santo Agostinho ou de S. Tomás de Aquino é uma outra forma de escolástica. Se quiser, uma "escolástica inversa", postulando que os ensinamentos dos autores que não nos agradam, por esse facto só podem estar errados...
O Holocausto não constitui qualquer prova existencial contra o mal como ausência do Bem.
Os nazis "gozavam" dessa característica da ausência do Bem. Por isso é que tão facilmente fizeram o Mal e tanto Mal. O Holocausto é, portanto, consequência da ausência do Bem.
Tem todo o direito de não gostar do pensamento de S. Tomás de Aquino. No meu entender, não o refuta só dizendo que é mau ou que não gosta.
E muito menos apodando de "gente louca ou mal intencionada" quem pensa como não gosta e de "degenerescência beata do pensamento" aquele que não condiz com o seu.
Os tempos da Inquisição e o do lápis azul, felizmente, já lá vão e a discordância com o pensamento alheio deve ser expressa, não adjectivando pejorativamente esse pensamento, mas substantivando as objecções, de forma lógica e tão coerente quanto possível.
ver-me-á sempre discordar do que eu entendo discordar, não me verá nunca adjectivar apoucando-o o pensamento divergente do meu ou o seu autor.
Até porque, parafraseando o texto com que não concorda, adjectivar em vez de discutir a substância é ausência de discussão, ou seja, má discussão...

José disse...

Caro Rui,
Esclareçamos as coisas:

1. Quanto a:
"A ideia do mal como "ausência de ser", mais "recentemente", vem da escolástica, de Tomás de Aquino,e, mais atrás ainda, de Stº Agostinho."

"Escolástica" não é aqui utilizado em sentido adjectivo, mas meramente designativo, ou substantivo. A "escolástica" era chamada assim porque os seus nomes maiores eram considerados os "doctores scholastici", referindo-se ao essencial dos ensinamentos desenvolvidos nas escolas medievais. Ora, o maior dos nomes das escolástica foi, é, S. Tomás de Aquino, para quem "Nehum ser é, como tal, considerado mau, mas enquanto tem alguma deficiência" - Suma Teológica (Quest. V, Art. III).

E a ideia ficou.

2. Quanto ao mal como ausência:

O mal como ausência parte de uma impossível incompletude do ser, que o tornaria, por si mesmo, impensável. O mal é, então, o impensável, o não-ser. Ou seja, o mal não é.

A solução é, simplesmente, infantil (i.e., mete a cabeça na areia e recusa olhar a verdade de frente - para que não fique ofendido com a adjectivação).

Em face do mal salva-se a ideia de perfeição (de ser, do divino teísta) postulando que, afinal, o mal não existe ou "existe" (!) como não-existência, como não-ser.

A isto chama-se uma falácia: primeiro define-se o ser como perfeição, concluindo-se, então, como o mal é uma imperfeição, que o mal não pode existir como ser. Assim, o mal não é um ser mas um não-ser, uma ausência. Isto é um erro lógico.

Caro Rui, isto são argumentos.

Mas o argumento maior é o argumento existencial: o Holocausto. Eu se fosse Judeu dificilmente poderia conversar consigo após essa consideração de que o Holocausto é a ausência de bem. Não, caro Rui. O Holocausto é a prova material, existencial e não simplesmete lógica ou argumentativa, de que o mal é algo positivo. Dizer o contrário é, simplesmente, arrepiante.

Dizer o contrário é assustador, simplesmente assustador. E pense Fale com os seus amigos judeus sobre o assunto, com aqueles que sejam livres pensadores e não simplesmente engajados à ortodoxia rabínica.

Repito o que lhe disse antes:

Leia Hans Jonas e o seu "O conceito de Deus depois de Auschwitz" ou, mais carnalmente, o recentíssimo "As Benevolentes", de Jonathan Littell. Se após estas eleituras ainda continuar com a mesma opinião então ... já não saberei que lhe dizer.

3. Por último, sempre quero dizer-lhe o seguinte:

Claro que estamos, por definição, num espaço livre. Mas a liberdade exige, nos nossos espaços (pelo menos no meu) saber aquilo que se diz e não falar de cor, repetindo acritica e de modo mal informado o politicamente correcto, só porque soa bem ou é melosamente suave. É isso a beatice, essa disposição mental para a melopeia rápida e simples, e Livre, mas beata. Mesmo que não seja isso que nos define essencialmente.

Rui Bandeira disse...

@ josé:
1. O facto de a ideia do mal como "ausência de ser" remontar a Santo Agostinho e S. Tomás de Aquino não a faz, por sis ó, certs ou errada. Pode gostar ou não gostar do seu pensamento, mas a discussão de uma ideia faz-se em relação a essa ideia, não em relação aos seus autores.
2. Classifica o mal como ausência como uma ideia infantil. Lamento, mas isso não prova nada, não argumenta nada, não demonstra nada. Permita-me o trocadilho: etiquetar ideias, chamá-las de infantis, só porque se não concorda com elas... é uma forma infantil de discutir idias!
3. É evidente que o Crente, ao entender o Criador como perfeito e o mal como imperfeição, ou seja, ausência do bem, parte do postulado da crença!
Mas, meu caro, das duas, uma: ou se é crente ou se não é. Claro que, para quem não for crente, é-lhe intolerável a noção de partida e então tende a partir do raciocínio inverso: o mal existe; se existe mal e existe Deus, Deus criou o mal; Deus, se existisse, seria perfeito e não criaria o mal; porque o mal existe, Deus não existe.
Para qualquer dos postulados, o ponto de partida é fundamental e é uma questão de convicção individual.
Então, meu caro, assentemos que convicções não se discutem, aceitam-se, toleram-se. é o que os maçons fazem.
Nunca concordaremos sobre esta questão, porque as nossas convicções são incompatíveis e elas enformam os nossos respectivos pensamentos.
Não haverá nunca argumento meu que o convença que eu estou certo e o josé errado. Não haverá nunca argumento do josé que me convença que o josé está certo e eu errado.
Para si, S. Tomás de Aquino e Santo Agostinho estão errados e Hans Jonas e Jonathan Littel estão certos, porque é isso que corresponde à sua convicção. Para mim, sucede exactamente o opsto, porque é esse oposto que corresponde à minha convicção.
Assi sendo só temos de reconhecer esta situação e respeitar a posição do outro.
Quanto ao Holocausto, repito, não prova nada, não prova que o mal existe constitutivamente. prova que, naqueles tempo e lugares e horrores o Bem estava totalmente ausente e só por isso sucedeu o que sucedeu. Não concorda comigo, não pode concordar, é óbvio. Mas sso acontece porque estamos a discutir na base de convicções íntimas diferentes e partimos e partiremos sempre de pressupostos diferentes e incompatíveis.
Garanto-lhe: nunca eu tentarei convencê-lo que Deus existe (além do mais, porque seria uma inutilidade: ou essa asserção é íntima e pessoalmente aceite, ou nunca o será pp tentativa de racionalização exteriormente induzida).
asseguro-lhe: é igualmente inútil que me procure convencer que Deus não existe.
O mal como ausência ou o mal como existência são simples corolários lógicos de cada uma das convicções.
E nunca conseguiremos integrar os corolários quando as premissas são opostas, incompatíveis e inconciliáveis1
Por isso, meu caro josé, a quem reconheço um espírito brilhante, convicções fortes e cultura superior, que cada um conserve, se for esse o seu desejo, as suas convicções e que respeite as convicções do outro. É simples. É o que nós fazemos em Maçonaria...
3. Duas notas finais: esteja descansado que os meus amigos judeus e livres pensadores não têm qualquer problema com a minha concepção do Criador. Afinal eles ambém crêem no Deus único e Perfeito... Há quem seja mais papista que o Papa. Não queira o amigo josé ser mais judeu que os judeus...
E, por favor, neste ou em qualquer outro debate que tenhamos, evite qualificar pejorativamente as ideias dos outros. Diga-me sinceramente: que vantagem traz para a discussão, o que é que esclarece, dizer que "Mas a liberdade exige, nos nossos espaços (pelo menos no meu) saber aquilo que se diz e não falar de cor, repetindo acritica e de modo mal informado o politicamente correcto, só porque soa bem ou é melosamente suave. É isso a beatice, essa disposição mental para a melopeia rápida e simples, e Livre, mas beata"?
Esse conjunto de adjectivos dirigidos ad hominem provam alguma coisa do seu entendimento? Não! Esclarecem alguma coisa? Nada! Apenas poderiam levar um interlocutor menos calmo a responder com outros adjectivos, igualmente deagradáveis, também ad hominem, estragando uma troca de ideias que, por não ser consensual pode e deve ser agradável e estimulante.
O josé vale muito mais do que isso!

José disse...

Toucher! Porém...

wowow disse...

Não interessa se o mal é ausência ou essência. Se for ausência, então porque Deus não a preenche? Ele não ama seus filhos? Esta é a pergunta que me fez descrer na Igreja (e depois se seguiram muitas outras que me mostraram as várias contradições da religião). Não é ruim acreditar em uma religião, só é ruim segui-la cegamente.