23 janeiro 2013

Regras Gerais dos Maçons de 1723 - XXXVI


Mas se o Irmão que o Grão-Mestre em exercício nomear como o seu sucessor, ou o que a maioria da Grande Loja escolha através do voto, estiver, por doença ou outro motivo qualquer, ausente dessa grande festividade, este não poderá ser proclamado o novo Grão-Mestre, a não ser que o antigo Grão-Mestre, ou alguns dos Mestres e Vigilantes da Grande Loja possam assegurar, por sua honra de Irmãos, que esta dita pessoa, nomeada ou escolhida, prontamente aceitará o dito cargo; e nesse caso o antigo Grão-Mestre deverá atuar como seu procurador, e, então, nomear o seu Vice Grão-Mestre e Vigilantes em seu nome, e em seu nome também, receber as usuais honras, homenagens e congratulações. 

Nos recuados tempos do século XVIII, as comunicações não eram tão fáceis e rápidas como na atualidade. As reuniões magnas não ocorriam com a frequência e naturalidade que hoje verificamos existirem. A festividade anual dos maçons era preparada com meses de antecedência. Cada um tinha de organizar a sua vida de forma a poder estar nela presente. Era pois importante que o que de essencial houvesse para tratar fosse tratado. Daí que a Regra XXXVI impusesse que o novo Grão-Mestre estivesse presente, para que, após declarar a sua aceitação do ofício, fosse logo empossado e designasse o seu Vice Grão-Mestre e os Grandes Vigilantes.

Se assim não ocorresse, das duas, uma: ou alguém, por sua honra, assegurava - obviamente com conhecimento de causa - que o designado aceitava desempenhar o ofício, ou teria de se efetuar nova designação. O que não se admitia era o risco de o designado não presente vir, quando tivesse conhecimento da designação, a recusar o exercício da função, pois tal obrigava a que a Grande Loja vivesse numa situação de exceção, sem o dirigente máximo em funções durante um ano, salvo se ocorresse uma Assembleia extraordinária para efetuar designação que superasse a recusa - o que não era fácil, na época.

Hoje em dia as comunicações são muito mais fáceis e expeditas. A eleição para Grão-Mestre de um maçom porventura não presente não é grande problema, pois facilmente com ele se comunica e se obtém a sua aceitação ou recusa. E, se qualquer percalço houver, não é grande problema a realização de nova reunião para o superar.

Atualmente é comum que a eleição do Grão-Mestre e a sua posse ocorram em datas diferentes, e até com algum desfasamento temporal. Na GLLP/GLRP, em regra entre a eleição do Grão-Mestre e a sua posse decorrem cerca de três meses, período de tempo que é aproveitado para comunicar às restantes Obediências maçónicas mutuamente reconhecidas essa eleição e a data prevista para a posse, permitindo que as demais Potências Maçónicas organizem a sua representação na cerimónia de posse.

A posse do Grão-Mestre, a exemplo do que se passa com idêntica cerimónia em relação ao Venerável Mestre da Loja, é usualmente designada por instalação. Instalação aonde? Naquilo que os maçons designam por Cadeira de Salomão. Ou seja, o Grão-Mestre, tal como o Venerável Mestre da Loja, toma assento na Cadeira de Salomão. Mais do que a peça de mobiliário física - mais ou menos bonita, trabalhada ou confortável -, o que se pretende simbolizar com esta expressão é que, quer o Grão-Mestre da Obediência, quer o Venerável Mestre da Loja, devem exercer os seus ofícios com a sensatez e a sabedoria que vulgarmente se consideram terem sido atributos do rei Salomão. É afinal isso que se espera de um dirigente. Mais do que heroísmos, grandes feitos ou ousadas realizações, essencialmente Sensatez, Sabedoria, Equilíbrio. Com o uso dessas qualidades, os trabalhos individuais e coletivos podem decorrer na desejada Harmonia.

No século XVIII, o Grão-Mestre era assistido por um Vice Grão-Mestre e dois Grandes Vigilantes. O crescimento das instituições maçónicas obrigou a uma maior complexidade da sua estrutura hoje. Além daqueles Grandes Oficiais, o Grão-Mestre designa o Grande Secretário - que zela por toda a estrutura burocrática da Grande Loja -, o Grande Tesoureiro . que assegura a administração económica e financeira -, os Grandes Inspetores - que auxiliam o Grão-Mestre na verificação, harmonia e melhoria do funcionamento das Lojas, tendo em atenção os respetivos ritos -, o Grande Correio-Mor - o responsável pela estrutura de comunicação da Grande Loja -, o Grande Hospitaleiro - que dirige e coordena a atividade de beneficência - e vários outros Grandes Oficiais responsáveis por ofícios rituais e de administração de uma estrutura com dimensão nacional de coordenação e apoio de dezenas (em Portugal), centenas (em alguns Estados do Brasil) ou milhares (em Inglaterra) de Lojas.

A Maçonaria também se carateriza por uma harmónica integração entre a Tradição e a Evolução, prosseguindo hoje essencialmente os mesmos propósitos de há trezentos anos, mas utilizando os meios atualmente disponíveis. 

Fonte:

Constituição de Anderson, 1723, Introdução, Comentário e Notas de Cipriano de Oliveira, Edições Cosmos, 2011, página 144. 

Rui Bandeira

16 janeiro 2013

Regras Gerais dos Maçons de 1723 - XXXV


Logo que o último Grão-Mestre seja novamente empossado, ou então o escolhido, deverá nomear o seu Vice Grão-Mestre, podendo ser o anterior ou um novo, o qual deverá ser declarado, saudado e empossado como acima indicado. 
O Grão-Mestre nomeará os novos Grandes Vigilantes, e se forem unanimemente aprovados pela Grande Loja, devem ser declarados, saudados e empossados como acima indicado; mas se assim não o for, devem ser escolhidos pelo voto, do mesmo modo que o Grão-Mestre; assim como os Vigilantes das Lojas também devem ser escolhidos pelo voto em cada Loja, se os seus membros também não concordarem com a nomeação feita pelo seu Mestre. 

Definidas, nas regras anteriores, as várias variantes para a designação do Grão-Mestre, esta regra postula que. logo após a sua posse, o Grão-Mestre que inicia ou reinicia o seu mandato deve designar o seu Vice Grão-Mestre e os dois Grandes Vigilantes. 

Em 1723, o Vice Grão-Mestre era livremente escolhido pelo Grão-Mestre, enquanto que os Grandes Vigilantes dependiam de proposta do Grão-Mestre, aprovada unanimemente pela Assembleia ou, no caso de não aprovação do proposto pelo Grão-Mestre, de eleição segundo o mesmo sistema que, na regra XXXIV, se postulou para Grão-Mestre: um misto de eleição e sorteio, pelo qual cada elemento da Assembleia escrevia o nome do seu preferido num papel e, reunidos todos os papeis dos votos, um deles era retirado à sorte, e assim designado para o ofício. 

Esta Regra XXXV elucida-nos ainda da determinação de que os Vigilantes das Lojas deveriam ser escolhidos pelo mesmo sistema: designação pelo Venerável Mestre da Loja e concordância unânime dos Mestres da Loja, ou então escolha através do misto de eleição e sorteio referido.

É esta última parte da Regra que se me afigura mais interessante, porque ilustra uma notável evolução organizativa da maçonaria, na transição da Maçonaria Operativa para a Especulativa. Não nos esqueçamos que a Constituição de Anderson de 1723 foi aprovada escassos seis anos após a instituição da Grande Loja de Londres e Westminster, em 1717, data convencionada para o início da Maçonaria Especulativa. É que anteriormente, em todo o tempo hoje designado como o da Maçonaria Operativa, a regra era a da absoluta independência de cada Loja em relação às restantes e a qualquer estrutura de coordenação, no que aos seus assuntos internos dizia respeito. Podia haver uniformidade ritual, critérios comuns de acesso às Lojas, de formação dos novos elementos, etc., mas a organização interna de cada Loja só a ela mesmo dizia respeito e era impensável que outra qualquer Loja ou qualquer estrutura de Lojas interferisse nela. 

A instituição da Grande Loja de Londres e Westminster em 1717, em bom rigor, não marca o fim da Maçonaria Operativa e o início da Maçonaria Especulativa. Essa data é apenas uma data de transição convencionada. O processo de evolução, de transformação da Maçonaria Operativa para a moderna Maçonaria Especulativa processou-se ao longo de mais de um século - naturalmente, com avanços e recuos, com saltos qualitativos inesperados, com transições não previstas, sem planificação, enfim, como todos os processos sociais naturalmente ocorrem. O que a instituição da Grande Loja de Londres e Westminster em 1717 marca é algo de diferente: a transferência do centro do poder organizativo das Lojas para a Grande Loja, a substituição da atomização pela coordenação, o enquadramento da livre diferença com possibilidades de anárquico afastamento de conceitos, práticas, posturas, através de introdução de normas organizativas tendencialmente uniformizadoras, não obstante respeitadoras do espaço essencial de liberdade e diferenciação das Lojas, mas procurando-se o controle das forças centrífugas.

Com a introdução da Grande Loja de Londres e Westminster, a Maçonaria entrou num período - de que verdadeiramente ainda não saiu - de busca de equilíbrio entre a independência e liberdade das Lojas e de sujeição à coordenação de uma estrutura superior que as enquadra e agrega.  

Com a regra XXXV da Constituição de Anderson de 1723, os Vigilantes das Lojas deixaram de ser nomeados como cada Loja entendesse dever nomeá-los. Porventura aqui seriam designados pelo Venerável, ali eleitos pelo conjunto de Mestres, acolá escolhidos através de um qualquer outro sistema intermédio. Com aquela Regra, ficou determinado que todos eram designados pela forma ali constante. Com a criação da Grande Loja de Londres e Westminster e a Constituição de Anderson, concretizava-se uma transferência parcial de soberania das Lojas para a Grande Loja, de que esta Regra era um dos indicadores.

Hoje em dia, mais do que falarmos de diferenças de organização ou de métodos entre Lojas, falamos de diferenças entre Obediências. A prática instituída em cada Obediência tende a ser uniformizada em todas as Lojas da mesma. É assim que a designação dos Oficiais de Loja pode variar entre a simples escolha pelo Venerável Mestre, a proposta por ele e a eleição em Loja ou a eleição pelo coletivo, consoante se instituiu em cada Obediência. Na GLLP/GLRP, o Tesoureiro da Loja é, tal como o Venerável Mestre, eleito pelos Mestres da Loja, em escrutínio secreto e eleição por voto maioritário. Os demais Oficiais do Quadro da Loja - incluindo os Vigilantes - são livremente escolhidos pelo Venerável Mestre eleito.

Esta uniformização, porém, não exclui e saudável existência de práticas diferentes pelas diversas Lojas, algumas vindo a adquirir a natureza de integrantes da Tradição da Loja, do seu ADN, tão importantes para aquela Loja como o estrito cumprimento do regulamentado. Por exemplo, é comum e banal que haja candidaturas concorrentes ao ofício de Venerável Mestre. Isso é, no entanto, embora possível, impensável na Loja Mestre Affonso Domingues, por ser inerente à sua própria identidade a ausência dessa pugna eleitoral, a assunção do princípio de que, salvo circunstancionalismo especial - sempre suscetível de ocorrer e que já ocorreu -, em cada ano o Primeiro Vigilante do ano anterior é eleito Venerável Mestre e designa como seu Primeiro Vigilante o Segundo Vigilante do ano anterior. É um princípio da Loja tão arreigado que, mais do que isso, a candidatura  a Venerável Mestre do Primeiro Vigilante do ano anterior é apresentada por todos os Mestres presentes na sessão de Loja em que tal formalidade deva ser realizada. E as (poucas) exceções a esta regra não escrita mas escrupulosamente cumprida são registadas e por todos vistas como isso mesmo: exceções, anormalidades, curiosidades a registar, não exemplos a seguir. E esta opção moldou indubitavelmente o espírito da Loja Mestre Affonso Domingues, é uma das suas caraterísticas quase que intrínsecas, evitando que se perca tempo e energias em confrontos entre obreiros da Loja e estando todos cientes de que, a cada um querendo, trabalhando, persistindo, o seu tempo de dirigir a Loja como seu Venerável Mestre chegará, com a mesma naturalidade com que, um ano depois, chegará a altura de ceder o exercício do ofício a outro, que se preparou durante um ano para o exercer o melhor possível...

Fonte:

Constituição de Anderson, 1723, Introdução, Comentário e Notas de Cipriano de Oliveira, Edições Cosmos, 2011, página 144. 

Rui Bandeira

09 janeiro 2013

Regras Gerais dos Maçons de 1723 - XXXIV


Mas se a nomeação não for unanimemente aprovada, o Grão-Mestre deve ser imediatamente escolhido através do voto. Todos os Mestres e Vigilantes escreverão o nome de seu escolhido, bem assim como o Grão-Mestre. E o nome que o Grão-Mestre primeiro retirar, casual ou aleatoriamente, será o Grão-Mestre no ano seguinte. Se este estiver presente, deverá ser proclamado e saudado como acima indicado, e consequentemente empossado pelo último Grão-Mestre de acordo com o Costume. 

Esta Regra XXXIV permite-nos perceber como o conceito de "escolha pelo voto" evoluiu desde o início do século XVIII até agora. 

Relembremos que o século XVIII - muitas vezes referido pelo "século das Luzes", aquele em que triunfou o Iluminismo - foi um tempo de transição da aquisição do conhecimento pela via escolástica para a obtenção do saber pela via da Razão. Anteriormente, a "verdade" tinha origem divina e era revelada pelas Escrituras e pelos "doutores" que as interpretavam. Galileu necessitou, para evitar a tortura e, quiçá, a morte na fogueira, de abjurar a sua descoberta de que era a Terra que se movia em torno do Sol e não o contrário, como escolasticamente estava "estabelecido". Na esteira de Descartes e de Spinoza, de Immanuel Kant, de Rousseau, dos enciclopedistas e dos filósofos ingleses, a sociedade europeia recomeçou a caminhada que interrompera após a Antiguidade Clássica (e breve e localizadamente retomara no tempo do Al-Andaluz islâmico) no sentido da primazia da Razão e do triunfo da Ciência Experimental.

Este percurso teve inevitáveis reflexos na organização social. Com a primazia da Razão, decaiu o Direito Divino de governar em que se baseava a organização política monárquica, retomou-se a noção de Democracia, criada nas cidades-Estado gregas da Antiguidade, particularmente na brilhante Atenas de Sólon e Péricles e dos grandes pensadores Aristóteles, Sócrates e Platão - que a origem do Poder não era divina, mas residia no Povo.

Mas no início do século XVIII ainda o velho e o novo se digladiavam, se misturavam, mutuamente se influenciavam. Entre o direito divino de governar, o Poder "pela escolha de Deus", e o Poder originário do Povo muitas mentes se interrogavam, muitas inclinações se balançavam, muitos avanços e retrocessos existiam. Como em tudo na realidade na vida, não houve uma fronteira, um momento definido em que, como que por artes mágicas, o novo conceito substituísse o antigo. Ambos coexistiam, primeiro o antigo sobrepondo-se ao novo, depois havendo uma equivalência e, progressivamente, o novo ganhando vantagem e paulatinamente destronando o antigo - e neste processo, coexistindo, influenciando-se mutuamente, surgindo inesperados híbridos entre o antigo e o novo, como só a fantástica imaginação humana é capaz de produzir.

Esta Regra XXXIV precisamente constitui um desses híbridos!

Recorde-se, antes do mais, os antecedentes: (1) em reunião privada, os representantes das Lojas deliberavam sobre a continuidade do Grão-Mestre em funções, deliberação esta que tinha de assentar na unanimidade; (2) na hipótese afirmativa e ocorrendo aceitação do Grão-Mestre em funções, estava o assunto encerrado; (3) não havendo unanimidade quanto à continuidade do Grão-Mestre em funções ou não aceitando este a sua continuidade, o Grão-Mestre em funções nomeava, propunha, um sucessor; (4) sendo o proposto aprovado por unanimidade, ficava a questão resolvida; (5) não havendo aprovação unânime do proposto, então aplicava-se a Regra XXXIV.

E em que consiste a regra XXXIV? Na escolha do novo Grão-Mestre pelo voto. Aparentemente, a utilização do método democrático como hoje o concebemos. Mas, na realidade, não exatamente assim.

É que hoje concebemos a escolha pelo voto como a escolha resultante da maioria dos votos expressos, um critério objetivo, em que a aleatoriedade não tem lugar.

Mas o sistema indicado na regra XXXIV contém um elemento de decisiva aleatoriedade, algo perturbadora para as nossas conceções modernas: o escolhido não era o que tinha maior votos - era aquele que era sorteado de entre todos os votos expressos! 

Se é verdade que se, num universo de, digamos, 100 votantes, 99 votarem em João e 1 em José, as probabilidades de ser sorteado como vencedor João é esmagadora, o certo é que pode suceder que seja o único e solitário voto em José que é, "casual ou aleatoriamente", o retirado. E se, dos 100, 60 tiverem escolhido João e 40 José, embora haja mais probabilidades de João ser o sorteado, são muito significativas as probabilidades de sair José...

No entanto, a Regra enfaticamente afirma que "o Grão-Mestre deve ser imediatamente escolhido através do voto"...

Este é um evidente produto híbrido das duas conceções então ainda em luta: o dirigente, o líder, aquele que exerce o Poder, resulta da decisão divina ou provém da escolha humana. 

Os maçons do início do século XVIII não acreditavam já (ou não acreditavam maioritariamente) na conceção da designação por direito divino; mas, inclinando-se para a Modernidade, para a escolha pelo Povo, pelo universo de votantes, pela conceção democrática do Poder, ainda não estavam em condições de utilizar exclusivamente esta (ou ainda tinham no seu seio um número não negligenciável de seguidores do "pensamento antigo") e de deixar a escolha totalmente à decisão maioritária.

Daí a solução híbrida: cada um expressava a sua vontade, sendo expectável que a maioria das vontades expressas viesse a redundar na escolha; mas deixando intervir um decisivo elemento de aleatoriedade através do sorteio entre os votos expressos... A aleatoriedade introduzida correspondia, afinal, ao fator da intervenção divina: se Deus, o Grande Arquiteto do Universo, entendesse que a escolha da maioria dos votantes era errada e não deveria subsistir, então a sua Divina Vontade faria com que a Fortuna levasse a que fosse sorteado o nome daquele que deveria exercer a função!

Este curioso híbrido, esta engenhosa mistura entre a designação por direito divino e a escolha por decisão do universo de votantes, espelha que se estava numa fase de transição entre duas conceções civilizacionais da organização social. É um sistema curioso, engenhoso e que não encontrei em mais nenhum lado, em mais nenhuma instituição, em mais nenhum outro tempo. É uma solução que foi um típico produto de uma época concreta e das específicas condições existentes.

E, vista a cerca de trezentos anos de distância, tem a virtude de nos dar dois alertas: (1) a Maçonaria, prezando a Tradição, não se deve deixar envolver pelo Imobilismo; o que é antigo deve ser preservado, mas deve sê-lo na exata medida e com as alterações que se impuserem, em face da evolução da Sociedade, dos tempos, das conceções morais e sociais; (2) devemos sempre procurar estar em sintonia com o tempo em que estamos, atentos às evoluções, mas nem mantendo o Antigo só por manter, nem o trocando de ânimo leve pelo que se apresenta como novo, sem sabermos se é realmente novo e, sobretudo, se é acertado e adequado; o Antigo tanto pode apodrecer, como manter, preservar e aumentar de Qualidade; o Novo pode ser evolução - e deve então ser bem-vindo - como pode ser mera aparência desta mas real involução ou simples irrelevância - e nesse caso deve ser descartado e recusado; o Novo de hoje pode substituir o Antigo de ontem, pode fundir-se com o Antigo e transformá-lo ou, pura e simplesmente, pode não ter virtualidade em face do Antigo, experimentado e estabelecido. 

Como em tudo na Vida, impõe-se usar o Bom Senso - uma Virtude que o Criador nos concedeu mas que cabe a nós Humanos efetivamente praticar e usar, sem receio, neste caso, de abusar!

Fonte:

Constituição de Anderson, 1723, Introdução, Comentário e Notas de Cipriano de Oliveira, Edições Cosmos, 2011, página 144. 


Rui Bandeira

03 janeiro 2013

Pelos olhos dos meus irmãos



Os três rapazes olhavam alternadamente, de soslaio, uns para os outros, depois para os próprios sapatos, para os dedos das mãos, e para as paredes do quarto, sem saber o que dizer mais. Todos estudantes, partilhavam um apartamento próximo da faculdade que frequentavam - os três, e mais o Sandro. Este último não estava presente - e era dele que se falava, sem se chegar a nenhuma conclusão pois, se todos sabiam o que quereriam dizer-lhe, não faziam ideia de como dizê-lo. 

O Sandro, sempre despistado, parecia viver noutro mundo, sempre ruminando um cigarro de enrolar - quantas vezes apagado. Desleixado consigo mesmo, fazia a barba de quando em quando, para logo a deixar crescer - não por ato de vontade, mas por inércia ou desleixo. Mas o pior era o cheiro: quer ele quer o seu quarto empestavam todo o apartamento com um misto de suor e tabaco frios com roupa de cama usada semanas a fio, tudo agravado pela absoluta ausência de desodorizante.

Se o Sandro fosse um pulha, um inútil, um egoísta, seria fácil dizer-lhe cara a cara que deixasse de ser porco, ou que o queriam dali para fora. Mas não era assim. Excelente aluno - apesar de sempre distraído, parecia que sorvia o conhecimento do ar - era-lhe reconhecida a enorme disponibilidade - e mesmo entusiasmo - para explicar, a qualquer colega que lho pedisse, os pontos mais densos da matéria, e isto até que este de facto a apreendesse. Por tudo isto, e por muito mais, todos tinham o Sandro por um tipo às direitas a quem nenhum deles queria melindrar. Mas a "tal questão" tinha, forçosamente, que ser abordada.

As indiretas não pareciam fazer efeito: "Então, Sandro, que te aconteceu? Estás todo transpirado! Toma um duche, que te ficas a sentir melhor..." "Deixa estar, estou a apanhar aqui um ventinho à janela e já seca..." Chegaram a fazer um "regulamento" do apartamento, referindo que os quartos tinham que estar limpos; o Sandro apanhou as coisas que tinha espalhadas pelo chão, enfiou tudo dentro do guarda-fatos - sapatos, roupa suja, livros, enfim... - aspirou sumariamente, despejou os cinzeiros, e apareceu, todo sorridente, a dizer que do quarto dele não havia nada a apontar! Foi depois disto que se reuniram os três, sem saber o que fazer ou o que dizer, e acabaram por ficar de pensar como abordar o assunto.

O Chico lá ganhou coragem e, apanhando-se sozinho com o Sandro, foi direto à questão: que  o odor do quarto dele incomodava todos os restantes ocupantes do apartamento, e que para resolver o problema ele precisava de passar a lavar a roupa com mais regularidade, bem como de tomar banho e usar desodorizante diariamente. O Sandro ficou branco; nunca se apercebera de nada. Pouco habituado a gerir essas questões - em casa dos pais era sempre a mãe quem tratava da roupa e o mandava tomar banho quando entendia que estava a precisar - não se apercebia, sequer, do próprio odor corporal. "Eu... eu não costumo usar desodorizante... e no banho passo-me só por água e uso um pouco de sabonete... e não tenho roupa suficiente para estar a usar roupa limpa todos os dias... nem tenho onde a lavar cá... só quando vou a casa, e muitos fins de semana tenho que ficar cá..."

Foi a vez do Chico ficar atrapalhado, mas por pouco tempo. Prometendo manter a questão entre os dois, colocou à disposição do Sandro o seu champô e uma lata de desodorizante, emprestou-lhe toalhas lavadas e uma muda de roupa, passou a levar para casa dos seus próprios pais a roupa do Sandro sempre que este não podia ir a casa dos seus. Além disso, assim como quem não quer a coisa, foi-lhe deixando de uma vez umas cuecas ("ficam-me apertadas mas na loja não aceitam trocas de roupa interior"), de outra umas camisolas interiores ("a minha avó mandou-me tantas que não me cabem na gaveta") e ia zelando por que nunca faltassem os produtos de higiene pessoal.

A vergonha inicial (de um e de outro...) fora difícil de superar mas, tendo tomado consciência do problema, o Sandro endereçou-o o melhor que sabia. O quarto - se bem que desarrumado - já não cheirava a nada de diferente dos restantes, pois até passara a fumar na varanda. Fez algumas economias, e comprou roupa em quantidade suficiente para que nunca lhe faltasse uma muda de roupa limpa, e deixou de precisar de recorrer à boa vontade do amigo. Ao fim de umas semanas parecia outra pessoa, para grande estupefação dos outros dois, que não perceberam de onde tinha vindo a mudança. O Chico, satisfeito com os resultados, nunca mais tocou no assunto, e o Sandro ficou-lhe para sempre reconhecido - por isso, e por todo o resto.

//

Não há homens perfeitos, e os que se esforçam por ser melhores e se aperfeiçoar só conseguem fazê-lo sozinhos até certo ponto. É certo que o caminho é o de cada um, e o paradigma de perfeição aquele que cada um tenha estipulado para si mesmo. Cada homem é senhor do seu destino, pelo que não é legítimo que um imponha a outro os seus próprios padrões de perfeição interior. Isso não significa, contudo, que não haja mérito na interação com os demais. Pelo contrário. É que, se há limitação que nos caracteriza a esse nível,  é a impossibilidade de nos vermos a nós mesmos como os outros nos vêem; incapazes de apreciar, quantas vezes, os nossos próprios defeitos, não nos apercebemos da sua natureza, da sua dimensão, ou até da sua mera existência.

Poder contar com alguém que, fraternalmente, no-los faça notar - especialmente quando se trate de questões íntimas, melindrosas, ou de difícil abordagem - é, nestas circunstâncias, de enorme valia. Ter a certeza de que essa ajuda é desinteressada, construtiva e bem intencionada é essencial para que seja tida na devida conta. E é assim entre os maçons: cada um procurando tornar-se melhor sabendo que esse aperfeiçoamento é um trabalho individual cujos parâmetros cabe a cada um definir, mas ao mesmo tempo disponível para ajudar os irmãos e para aceitar a sua ajuda naquilo que não é capaz de atingir por si mesmo.

Já a sabedoria para discernir em que circunstâncias se deve oferecer a mão, e em que circunstâncias se deve guardar silêncio em respeito por uma opção diferente da nossa, é algo que só se vai aprendendo com o passar do tempo...

Paulo M.

02 janeiro 2013

Mesmo que seja duro, Feliz 2013!


Há pouco mais de um ano, comecei o último texto de 2011 que publiquei aqui no blogue assim:

Segundo as notícias que chegam a Portugal, o Brasil vive um bom período, o otimismo medra na mesma proporção do desenvolvimento, espera-se que o ano de 2012 seja melhor do que o de 2011. Que assim seja!

Não sei se no Brasil se pressente que 2013 será melhor do que 2012, mas creio que se confia que, pelo menos, não será pior. Por mim, repito o que desejei o ano passado: Que assim seja!

No mesmo texto, quanto a Portugal, aos portugueses e aos que neste país vivem, escrevi então que "neste velho Portugal, cada vez mais velho, demograficamente falando, o panorama é bem mais sombrio: a seguir a um mau ano de 2011 espera-se um pior ano de 2012, o pessimismo está instalado em proporção superior à percentagem de queda do Produto Interno Bruto. Por estas bandas, os tradicionais, nesta época, votos de Feliz Ano Novo soam a esperança vã, palavras ocas, simulacro de boa disposição."

Não é agradável, neste caso, reconhecer-se que a previsão acertou e, pior, que se prolonga para 2013, que todos preveem ainda pior que 2012. Por isso, se mantêm válidas as considerações que a propósito teci o ano passado:

Os tempos europeus e lusitanos de agora são tempos de pouco TER. Não são, porém, tempos perdidos ou improdutivos para aqueles que se preocupam essencialmente, não com o TER, mas com o SER. São tempos que nos mostram e ensinam a diferença entre o que é verdadeiramente essencial e o que, afinal, é apenas simplesmente confortável. São tempos que nos alertam para a precariedade do TER e que nos mostram a perenidade do SER. Que - com dureza mas também com clareza - nos ensinam que o que possuímos, o que amealhamos, os rendimentos que obtemos, estão à mercê dos desvarios de anónimos financeiros, dos apetites de insaciáveis banqueiros, das debilidades dos políticos a que entregamos os nossos destinos, dos conceitos dos teóricos económicos da moda e do acefalismo cinzento dos burocratas que a todos estes enquadram. Mas são também tempos que nos relembram que o nosso verdadeiro tesouro é aquilo que SOMOS, o que aprendemos, o que melhorámos, as capacidades que adquirimos, a nossa força, tenacidade, confiança em nós, o conjunto das capacidades que laboriosamente adquirimos ao longo da nossa existência e que é com o que cada um verdadeiramente É que resiste e ultrapassa e vence a falta ou diminuição do que TEM, que reconstrói sobre os destroços do que caiu, que avança e deixa para trás o deserto da penúria. Enfim, aquele que se concentra no que É sente menos falta do que não TEM.

O essencial é SER, não TER. Os tempos de crise servem para que o homem sábio o relembre e possa não o esquecer nas épocas de prosperidade.

Esta é a Sabedoria que desejo que todos os meus conterrâneos consigam ter para a cada um ajudar a superar este tempo duro enquanto não chega tempo mais aprazível (que é importante que, apesar de tudo, cada um saiba que acabará por chegar).

Mas o acentuar e o prologar da dureza do tempo que se atravessa fez-me compreender que não basta essa Sabedoria, também é e necessário que cada um convoque e mantenha o máximo que puder da sua Força para resistir ao embate e, sobretudo, para persistir no que tiver de fazer para ultrapassar o mau momento.

É necessária Força de discernimento para distinguir entre o que nos é essencial - e preservá-lo - e o que, apesar de confortável, nos é afinal meramente acessório, e de que, se assim tiver que ser, se prescindirá. É necessário ter a Força de caráter para, se assim for necessário fazer, fazê-lo sem demasiado azedume, sem nenhuma perda de amor-próprio, sem sofrimento excessivo, ainda que aquilo de que se for obrigado a prescindir fosse tido por adquirido e garantido.

Em tempos negros, quando a borrasca nos cai em cima sem dó nem piedade, é importante não cair no desespero, que tolhe e incapacita a necessária reação à inclemência do tempo que corre. Para isso, é imprescindível valorizar  e apreciar todas as nesgas de luz, todos os momentos de calmaria, todos os apontamentos de cor, todos os pedaços de calor, que conseguirmos lobrigar, utilizar cada um desses momentos de reconforto como suplemento de energia para resistir, persistir, prosseguir, até que dia chegue em que a luz suplante a treva, a calmaria domine a borrasca, a cor esconda o cinzento, o calor expulse o frio. É assim indispensável preservar e apreciar toda a Beleza que conseguirmos encontrar, em cada momento, em cada tarefa, em cada riso de criança, em cada gesto, em cada coisa. Saber descortinar e apreciar a Beleza no meio da dificuldade, da penosidade, da dureza, é vitamina que suplementa e exponencia a indispensável energia de que necessitamos para superar esta hora do lobo  que estamos vivendo.
  
Que todos consigam prescindir sem demasiado esforço do supérfluo e preservar o verdadeiramente essencial. Que àqueles que já veem o essencial a ser atacado não falte a indispensável solidariedade que lhes permita resistir e ultrapassar a sua situação. Que àqueles que mantiverem o privilégio de manter barca que os proteja do furor destas vagas alterosas, que a tantos e cada vez mais fustiga, não lhes falte o sentido de solidariedade, a predisposição para ajudar, o ânimo para partilhar o que lhes sobra com quem está a necessitar.

Se assim for, então todos conseguiremos vir a ver o horizonte a clarear, encontrar novos caminhos desimpedidos, reconstruir o que se tiver perdido ou destruído. E a superação das dificuldades ter-nos-á tornado um pouco mais fortes, capazes e resistentes - em suma, melhores. Se assim for, apesar dos pesares, ao olhar para trás poderemos dizer que as dificuldades afinal não nos impediram de conseguir ter o que a todos desejo: UM FELIZ ANO DE 2013!

Rui Bandeira

26 dezembro 2012

Um trecho de Albert Pike, a propósito de Maçonaria, Crise e Sociedade


Um leitor deste blogue, em comentário ao texto Regras Gerais dos Maçons de 1723 - XXX, expressou a sua insatisfação pelo facto de, em tempos de crise em Portugal e na Europa, não ver aqui comentário à mesma. Seguiu-se uma troca de comentários em que penso ter explicado a posição dos maçons que aqui escrevem sobre o assunto.

Mas, ao documentar-me sobre as respostas a dar, recordei uma passagem de Morals and Dogma, de Albert Pike, que julgo interessante para se ver como a Maçonaria já desde há muito tempo que sabe muito bem como cada um dos maçons deve intervir na Sociedade.

Os teóricos da conspiração costumam muito citar Pike e a sua obra Morals and Dogma para elocubrarem sobre o pretenso projeto da Maçonaria de dominar a Humanidade e criar a Nova Ordem Mundial (seja lá o que isso for). Mas não se dão ao cuidado de ler Pike e Morals and Dogma...

Este excerto que aqui transcrevo ilustra bem, creio, a postura dos maçons perante a Sociedade. E, quanto à presente Crise, destaquei e sublinhei uma passagem. Para bom entendedor...

Por muito negro que seja o momento, a tormenta há de passar e este Povo há de ressurgir mais forte e mais capaz de superar as adversidades!

Que assim seja!

Eis o excerto:

Mas o grande mandamento da Maçonaria é: “Dou-vos um novo mandamento: Amareis uns aos outros! Aquele que disser estar na luz e odeia seu irmão, ainda estará na escuridão”.
Estas são as obrigações morais de um Maçom. Porém, também será obrigação da Maçonaria ajudar a elevar o nível moral e intelectual da sociedade; cunhando conhecimento, trazendo ideias à circulação e fazendo crescer a mente da juventude; e colocando a raça humana em harmonia com seu destino, gradualmente, mediante ensinamento de axiomas e pela promulgação de leis positivas.
É desse dever e trabalho que o Iniciado é aprendiz. Não deve imaginar que não pode afetar nada, e com isso desiludir-se e permanecer inerte. Está nisso, assim como está na vida diária de alguém. Muitas grandes obras são executadas nas pequenas lutas da vida. Existe, nos dizem, bravura determinada porém invisível, que se defende passo a passo, na escuridão, contra a invasão fatal da necessidade e da baixeza. Existem triunfos nobres e misteriosos, que os olhos não vêem, que não têm recompensas renomadas e que não recebem a saudação de fanfarras de trompetes.
A vida, o infortúnio, o isolamento, o abandono, a pobreza, são campos de batalha que têm seus heróis – heróis obscuros, mas algumas vezes maiores do que aqueles que ficam famosos. O Maçom deve lutar da mesma maneira e com a mesma bravura contra aquelas invasões da necessidade e da baixeza que atingem as nações assim como às pessoas. O Maçom deve enfrentá-las também, passo a passo, mesmo no escuro, e protestar contra o erro e a insensatez; contra a usurpação e contra a invasão dessa hidra, a Tirania.
Não há eloquência mais soberana do que a verdade indignada. É mais difícil para um povo manter do que conseguir sua liberdade. Sempre são necessários os Protestos da Verdade. O direito deve continuamente protestar contra o Facto. Existe, verdadeiramente, Eternidade no Direito.
O Maçom deve ser um sacerdote e um guerreiro desse Direito. Se o seu país tiver roubadas as suas liberdades, não deve desesperar. O protesto do Direito contra o Facto persiste para sempre.
O roubo de um povo nunca prescreve. O reclamo de seus direitos nunca é barrado. Varsóvia não pode mais ser tártara do que Veneza teutónica. Um povo pode resistir à usurpação militar, Estados subjugados ajoelham-se a Estados e usam a canga sob a pressão da necessidade; mas, quando a necessidade desaparece e se o povo estiver preparado para a liberdade, o país submerso virá à tona e reaparecerá e a Tirania será julgada pela História por ter assassinado suas vítimas.
Seja lá o que ocorrer, devemos ter Fé na Justiça e na Sabedoria soberana de Deus, Esperança no Futuro e benevolência Afetuosa para com os que erram. Deus torna Sua vontade visível às pessoas através de acontecimentos; um texto obscuro, escrito numa linguagem misteriosa. As pessoas traduzem-na imediata, rápida e incorretamente, com muitos erros, omissões e interpretações falhas. A nossa visão do arco do grande círculo é tão curta! Poucas mentes compreendem o idioma Divino. Os mais sagazes, os mais calmos, os mais profundos, decifram hieróglifos lentamente; e, quando voltam com seu texto, talvez a necessidade já se tenha ido há tempo; já existem vinte traduções – a maioria é incorreta e, é claro, são as mais aceites e populares.
De cada tradução nasce um partido; de cada interpretação falha, uma fação. Cada partido acredita ou finge que detém o único texto verdadeiro; e cada fação acredita ou finge que apenas ela possui a Luz. Além disso, fações são gente cega que aponta apenas para frente, e erros são projéteis excelentes, atingindo habilmente e com toda a violência que salta de argumentos falsos, onde quer que um desejo de lógica naqueles que defendem o direito os faça vulneráveis como uma falha numa couraça.
Portanto, muitas vezes seremos derrotados ao combater o erro diante do povo. Antaeus resistiu a Hércules por longo tempo, e as cabeças da Hidra cresceram tão rapidamente quanto foram cortadas. É um absurdo dizer-se que o Erro, ferido, agoniza em dor e morre no meio dos seus adoradores. A Verdade conquista lentamente. Há uma vitalidade surpreendente no Erro.
A Verdade, realmente, na maioria das vezes, atira por sobre as cabeças das massas; ou, se um erro estiver prostrado por um momento, levantar-se-á num instante, vigoroso como nunca. Não morrerá quando o cérebro tiver sido arrancado; e os erros mais estúpidos e irracionais serão os mais duradouros.

A Crise há de ser superada. A Sociedade é e será o que cada um de nós e todos em conjunto delas fizermos. Que cada um aprimore a sua Sabedoria, melhore a sua Força e em tudo o que faça ponha Beleza para que do melhor de nós resulte uma Sociedade melhor, antes, durante e depois de qualquer crise!

Rui Bandeira 

19 dezembro 2012

Regras Gerais dos Maçons de 1723 - XXXIII


Mas se os Mestres e os Vigilantes, na dita reunião particular antes do jantar ou no dia anterior, não desejarem a continuação do atual Grão-Mestre, ou este, quando desejado não tenha consentido, então o último Grão-Mestre deve nomear seu sucessor para o ano seguinte, o que, se aprovado por unanimidade pela Grande Loja, e se ali presente, deve ser proclamado, saudado e declarado o novo Grão-Mestre como atrás dito, e imediatamente empossado pelo último Grão-Mestre de acordo com o Costume. 

As Regras anteriores postulavam o que se fazia quando a assembleia de representantes das Lojas desejava a continuação em funções do Grão-Mestre em exercício e este acedia a continuar.

Esta Regra regula a situação em que, ou a assembleia de representantes das Lojas não queria a continuidade do Grão-Mestre em exercício, ou este não aceitava continuar em funções.

A regra para a escolha do sucessor era assim de que o Grão-Mestre em fim de mandato tinha o poder de propor o seu sucessor, o qual, sendo unanimemente aceite, seria de imediato (pressupõe-se: na sessão pública após o jantar) por ele empossado como novo Grão-Mestre. Se a proposta do Grão-Mestre cessante não fosse sufragada por unanimidade, então a Regra subsequente regularia a questão.

Esta Regra dá plena aplicação a um princípio essencial da organização maçónica: a conjugação da Igualdade essencial de todos com o exercício do Poder por quem nele o mesmo é delegado.

O Grão-Mestre é o maçom a quem é delegado o poder de dirigir a Fraternidade. Deve exercê-lo com plenitude até ao momento em que cessa as suas funções e esse momento é o da posse do seu sucessor. Uma das atribuições do Grão-Mestre é proceder à escolha dos mais capazes, em cada momento, para o exercício dos ofícios. O dele incluído! A Fraternidade achou que era melhor a sua não continuidade, ou ele próprio assim o decidiu. Mas continua em funções até o seu sucessor ser empossado e, portanto, continua a ser sua obrigação propor para lhe suceder aquele que considerar ser o melhor para tal. Se a sua proposta merecer a aprovação unânime da assembleia, está o assunto decidido - e passa-se adiante!

Esta Regra é, acima de tudo, de um bom-senso desarmante! Realmente, quem melhor para sugerir, indicar, propor, para o exercício de uma função do que aquele que a está a exercer e, portanto, a conhece e conhece os requisitos necessários para a preencher? E que sabe quem está dentro dos assuntos e tem capacidade para assegurar a direção da Fraternidade? É, pois, puro bom-senso determinar que o titular do ofício proponha o seu sucessor.

Mas a soberania está na Fraternidade e é exercida pelos representantes das Lojas! Consequentemente, a escolha feita não passa de uma mera proposta, que tem de ser sufragada por unanimidade. Verificado esse consenso, ótimo! Inexistindo o mesmo, de outra forma se resolverá a questão. 

É claro que esta Regra só é satisfatoriamente exequível perante um número razoável de representantes de Lojas, portanto no quadro de um número limitado de Lojas. Quanto maior for o universo de decisores, mais difícil é a obtenção de unanimidade. A realidade e o crescimento da Fraternidade impuseram que, modernamente, a escolha do Grão-Mestre se faça pelo normal processo eleitoral.

Mas lá que a opinião do Grão-Mestre em funções, desde que o seu mandato tenha sido satisfatoriamente exercido, continua a ter um peso importante na eleição do seu sucessor, lá isso continua...

Fonte:

Constituição de Anderson, 1723, Introdução, Comentário e Notas de Cipriano de Oliveira, Edições Cosmos, 2011, página 144. 

Rui Bandeira