21 dezembro 2015

Boas Festas!


Entrámos na reta final do ano civil, quando o ambiente e a disposição nos relembram a cada momento que é a altura das Festas. As Festas por alturas do solstício de inverno (no hemisfério norte) são assinaladas desde a mais remota Antiguidade. O dia do solstício de inverno constitui o máximo do esforço, da privação, da falta de luz e de calor. É o menor dia do ano, é a maior noite do ano. Porque sentiu a Humanidade a necessidade de festejar este tão soturno, breve e desagradável dia? Porque marca o ponto de viragem, porque assinala a ocasião em que finda o tempo de tudo piorar, de cada dia que vem ser um pouco menor que o anterior e cada noite um pouco maior, para tudo começar a melhorar, a paulatinamente, dia a dia, aumentar o tempo em que o Sol nos ilumina e a diminuir o tempo em que a escuridão da noite nos incomoda.

Sempre admirei esta capacidade do bicho-homem de festejar, de assinalar o momento em que o mau é pior, em que se bate no fundo, porque ela significa que a Humanidade tem a importante caraterística de preservar a Esperança e de ver para além do momento. Quando se bate no fundo, daí para a frente é sempre a subir. Quando se atinge o máximo de escuridão, daí em diante a luz continuamente aumenta. O festejo do pior momento é afinal o festejo da noção de que o pior passou, a partir de agora o pior vai sendo cada vez menos mau, cada vez mais facilmente suportável, até que saímos do tempo e do território do pior e passamos a estar na altura do melhor. 

Na Grécia antiga eram as Festas Dionisíacas, nos tempos da antiga Roma estas festividades eram as Saturnálias, na sociedade europeia cerca dos últimos dois mil anos é o Natal. Evoluem as sociedades, sucedem-se os costumes e as crenças, mas o básico continua no âmago dos homens: a celebração por volta do solstício de inverno, chame-se-lhe o que se lhe chamar, é feita. As tribos primitivas refugiavam-se nas suas cavernas, de volta do fogo, reunindo a tribo em torno da prole. Hoje, bem vistas as coisas, não agimos de forma muito diferente...

É chegado o tempo de cada um de nós se dedicar à sua família, de fortalecer os laços com o seus. É um tempo de pausa, que reforça os nossos grupos de gente chegada. As famílias - todo o tipo de famílias, das mais convencionais às mais arrojadas e liberais - reagrupam-se e cada um relembra a si mesmo que, por muito individualista que cada um seja, no fundo, no fundo, somos inapelavelmente todos animais gregários.

E este mergulhar no interior do grupo dos nossos mais próximos revigora-nos para prosseguirmos o nosso caminho, reconforta-nos com o rememorar dos tempos em que éramos meninos, recorda-nos que, façamos nós o que façamos, corramos o risco que corrermos, afastemo-nos o que nos afastarmos, existe sempre uma retaguarda onde somos bem-vindos, onde nos podemos acolher, aonde vale sempre a pena voltar.

As luzes são bonitas, os presentes são agradáveis, as mesas fartas são reconfortantes, as comemorações e as cerimónias dos nossos hábitos e das nossas crenças são aprazíveis, mas, para mim, o essencial é este retorno, esta necessidade, de anualmente superarmos a altura mais fria, mais desagradável, mais negra, do ano junto dos nossos, entre os que nos são queridos. Em conjunto. Juntos. E festejar o facto de juntos superarmos o tempo difícil e rumarmos a melhores dias.

Festas Felizes!

Rui Bandeira 

14 dezembro 2015

O Dever, caminho para a realização (republicação)

O texto que hoje republico por o considerar deveras relevante para tal, viu a "luz" há cerca de 2 anos, em Novembro de 2013, e hoje tal como nessa altura, era e é um texto bastante interessante para ler, reler e fundamentalmente, reter(!).

Rui Bandeira escreve de uma forma bastante simples e de uma forma acessível a quem pouco ou nada sabe sobre a Arte Real, eu inclusive que debito umas tenras linhas de quando a quando, apenas posso afirmar que pouco sei, e mesmo assim já é muito para mim.
Aproveito para fazer aqui o meu  reparo e o agradecimento ao Rui por aquilo que nos ensina e partilha com a sua sabedoria e conhecimentos adquiridos pela sua experiência, tanto maçónica como profana, porque uma não é indiferente à outra... e desejar que assim o continue a fazer por muito tempo.

E como o texto versa o "Dever", aqui ficou também demonstrado por mim um dever que deveria ser natural ao ser humano, a "Gratidão".
Todavia, se agradecer algo a alguém deveria ser natural como afirmei, fazê-lo nem sempre é fácil para quem o faz e também para quem o recebe, pois tal pode ser constrangedor quando se faz algo sem se esperar qualquer tipo de recompensa. E nisso o Rui fá-lo muito bem! Ensina, informa, corrige, debate e partilha o que sabe e conhece sem esperar por qualquer tipo de retribuição. Fá-lo porque considera um dever o fazer e nada mais.

Pondo agora de parte as loas que teço ao Rui, senão em vez de lhe levar um avental terei de lhe levar um babete no próximo encontro (just kidding) - Elogios estes, todos eles atribuídos a quem os merece!- deixo-Vos com o texto que ele escreveu:

"O Dever, caminho para a realização

Os maçons falam muito de Dever. É natural. O aperfeiçoamento individual a que se dedicam implica, inevitavelmente, que identifiquem o que têm a corrigir e definam como fazer a correção, isto é, o que se deve fazer para melhorar.

O caminho do maçom não é uma avenida de direitos, é uma vereda de deveres a cumprir. Mais: um conjunto de deveres que o maçom escolhe cumprir.

Na ética maçónica, em primeiro lugar vem a obrigação, o cumprimento dos deveres - só depois se atenta nos direitos. Porque o caminho é este, não há constrangimentos nem vergonhas na reclamação ou no exercício dos direitos, porque se interiorizou que estes são o reverso correspondente aos deveres que se cumprem. Assim, o cumprimento do dever é preâmbulo do exercício do direito - nunca o oposto.

Esta postura, que é o oposto do facilitismo e do hedonismo tão propalados por certos media comummente referidos de cor-de-rosa, que insidiosamente vão influenciando as mentes mais frágeis ou menos avisadas, é, no entanto, a mais consistente com as caraterísticas da espécie humana - as caraterísticas que nos permitiram evoluir, descer das árvores, deixar de ser meros caçadores-recoletores, nos possibilitaram aprender a produzir o que necessitamos para consumir e até mais do que aquilo que necessitamos, enfim, o que nos fez chegar, como espécie, ao estádio atual (no melhor e no pior...) e nos fará, creio-o firmemente, evoluir sempre mais e mais.

Ao contrário do que se possa levemente pensar, desde a mais tenra infância que o bicho-homem valoriza mais o que deve fazer, o que esforçadamente conquista, o que trabalhosamente obtém, do que aquilo que recebe sem esforço, fonte porventura de prazer imediato, mas arbusto sem raiz sólida para segurar o interesse por muito tempo. Todos aqueles que educam crianças verificam que, ao contrário do que as próprias julgam, elas não apreciam tanto assim - e, no fundo, temem - a liberdade total, a possibilidade de fazerem o que querem, quando querem, como querem. Se isso lhes for temporariamente possibilitado, poderão extasiar-se perante a ausência de limites, mas não tarda muito que procurem o aconchego, a segurança, a certeza das fronteiras, dos limites, das restrições - contra as quais tanto refilam, mas que tão securizantes são. Afinal de contas, quando não há limites, como se pode transgredir? Como se pode forçar barreira inexistente para ir além dela? E o crescimento, a evolução humana, da criança como da espécie, é feito de transgressões, de ultrapassagens de barreiras, de partidas para o incerto apenas possíveis porque se sabe que, se e quando necessário, se pode recuar e voltar para o certo e seguro...

dever é, pois, essencial para a espécie humana. Para o cumprir e, por vezes, para o transgredir, aceitando os riscos e as consequências, mas também buscando o além para lá do horizonte...

Os direitos possibilitam-nos satisfação e conforto, mas são redutores, limitadores, meras pausas agradáveis, obviamente necessárias, mas afinal fatores de simples manutenção, não de conquista ou avanço. Os direitos gozam-se e, ao gozarem-se, fica-se - não se vai, nem se avança. É no cumprimento do dever, com o esforço e o custo que isso necessariamente implica, que se avança, se conquista, se constrói, se vai além.

Gozar os direitos é obviamente bom e agradável. Mas, bem vistas as coisas, cumprir os deveres, ainda que  tal implicando trabalho, custo, esforço, é melhor. Porque no fim do cumprimento do dever acaba por estar sempre um prémio. Por vezes de simples, mas saborosa, satisfação. Outras vezes com vitórias, com prazeres, com ganhos que não se teria se se tivesse mantido no simples gozo dos direitos que já se tinha, sem mais nada fazer. A áurea mediocridade pode ter brilho - mas não deixa de continuar a ser mediocridade...

Os maçons falam muito do Dever, dão atenção aos seus deveres, cumprem os seus deveres. Não por serem masoquistas. Pelo contrário: por entenderem que é assim que conseguem realizar-se. E a realização pessoal é mais do que meio caminho andado para a felicidade...

Rui Bandeira  "


07 dezembro 2015

Verdade



Depois de ter dedicado um texto ao primeiro termo da divisa utilizada pela maçonaria de língua inglesa, Amor fraternal, e um segundo texto dedicado ao segundo termo, Auxílio, encerro o ciclo com algumas considerações sobre o terceiro termo da trilogia, Verdade.

Este tema, já foi soberbamente tratado neste blogue pelo Paulo M., num conjunto de cinco textos que intitulou "Perceção, verdade e tolerância", que facilmente pode ser localizado através do marcador Verdades. Em muito concisa, e por isso grosseira, súmula, no primeiro desses textos, assinala-se a limitação dos nossos sentidos e do nosso cérebro no que toca ao reconhecimento do que designamos por verdade. No segundo, as limitações que a linguagem coloca à transmissão da verdade percecionada. No terceiro, a diferença entre a ciência e a fé, entre o que se sabe ser verdade e o que se crê o seja. No quarto desses textos, refere-se como cada uma das várias religiões possui, não uma, mas a (sua) verdade, a qual é incompatível, pelo menos na sua totalidade, com as igualmente absolutas verdades das demais religiões. Finalmente, no último desses textos, assinala-se que a maçonaria não toma partido entre religiões, até porque "não pretende, ao contrário da Religião, tratar da relação entre o Homem e o seu Criador; apenas trata da relação entre o Homem e o Homem".

Mas então se os nossos sentidos e o nosso cérebro são suscetíveis de ser enganados na determinação da verdade, que Verdade é essa que a Maçonaria enfatiza na sua divisa? Se a nossa linguagem é inevitavelmente imperfeita na transmissão da Verdade, que Verdade transmitem os maçons? Se o que se sabe ser verdade em bom rigor não é completa e absolutamente demonstrável, apenas se pode almejar a concluir que não está demonstrado ser falso, e se há verdades que não são passíveis de serem demonstradas pela razão, qual, afinal, o objeto da Verdade da divisa maçónica? 

A meu ver, a resposta está, não na busca do Absoluto, mas na descoberta do individual. A Verdade Absoluta é inatingível aos humanos, pelo menos neste plano da existência. Pelo método científico, a Humanidade vai-se cada vez mais aproximando da fixação de muitos aspetos da Verdade - mas frequentemente, cada novo avanço num aspeto acaba por impor a conclusão de que o que se tinha por certo noutro aspeto, afinal não é verdadeiro. Muitas "verdades" científicas de ontem está hoje comprovado que afinal não são tão verdadeiras. Quantas verdades científicas hoje indiscutivelmente aceites amanhã se comprovará afinal não serem bem assim? A crença, ou a fé, bem vistas as coisas, não passa de um (necessário?) artifício que nós, imperfeitos humanos, utilizamos para conformarmos a nossa necessidade de atingir a verdade à inevitabilidade da impossibilidade de satisfação dessa necessidade.

A Verdade que importa, a Verdade da divisa, então não estará no inatingível conceito absoluto, mas apenas - e muito é! - em cada um de nós. A Verdade que interessa é a Verdade do que cada um É. Não é isto de pouca monta! Cada um tomar consciência da sua Verdade, do que efetivamente É, despojado de todas as máscaras, artifícios e armaduras que a Vida nos constrange a usar para (sobre)vivermos em Sociedade, não é tarefa simples nem fácil. Os nossos instintos básicos (desde logo o de sobrevivência), combinados com os condicionamentos da nossa educação e aprendizagem, condicionam-nos, desde muito cedo e muito profundamente a escondermos as nossas imperfeições, incapacidades, fraquezas, dos outros. Aprendemos que estas imperfeições, incapacidades, fraquezas, são vulnerabilidades que constituem alvos para os ataques de outrem. Por isso, desde a mais tenra infância vamo-nos condicionando (viciando?) a escondê-las de todos os outros. E acabamos por o fazer tão bem, mas mesmo tão bem, que até o escondemos de nós próprios! Acabamos por fingir para nós próprios sermos algo diferente do que na realidade somos. Essa inconsistência entre a nossa imagem - perante os outros e perante nós próprios - e a nossa verdadeira natureza, mais tarde ou mais cedo paga-se, por vezes com preço elevado. O nosso desconforto com a inconsistência entre o que somos e o que nos obrigamos a mostrar (e a mostrar-nos...) paulatinamente vai pesando, vai-nos limitando, vai-nos afetando, vai-nos desgastando. Alguns sentem-no como um simples cansaço (quão disparatado é classificar de simples o cansaço de nós próprios...), que vamos gerindo com uma férias ou uns momentos de cumplicidade e recolhimento com os nossos entes queridos. Outros vão cada vez gerindo pior a situação e sobrevêm as depressões, as perdas do gosto da vida...

A solução está em perder o receio e adquirir a capacidade de espreitar por debaixo da armadura, por detrás da máscara, ignorando os artifícios, e confrontarmo-nos com o que realmente somos, identificando as nossas forças, mas também as nossas fraquezas, as nossas virtudes e os nossos vícios, os nossos anseios e os nossos medos. Essa audácia permite-nos reconhecermo-nos de novo a nós próprios, como realmente somos e não como mostramos, possibilita-nos a lufada de ar fresco do reencontro com a nossa pureza - a pureza que julgávamos perdida e que, afinal, cada um de nós conserva, só que que subjugada, embrulhada, tapada, escondida, por mil e um artifícios, máscaras, armaduras e desculpas.

Esse trabalho de redescoberta da nossa Verdade é propiciado pela vivência maçónica. E é libertador. Da ganga que insensivelmente fomos acumulando, do peso de tudo o que usamos para nos escondermos. Torna-nos mais livres e mais leves!

Mais: os maçons aprendem não apenas a redescobrir a Verdade que efetivamente são e escondem dentro de si, mas também a partilhar essa Verdade com os seus Irmãos, permitindo-se despojar das suas defesas perante estes - porque sabem que, em Loja e entre as Colunas de seus Irmãos estão seguros e protegidos e livres de ataques. Assim cada um não só pode ver-se como na Verdade é, como também pode ter a noção de como realmente são os seus Irmãos. E essa mútua transparência permite que todos se descubram, afinal, tão profundamente iguais, no fundo das suas incomensuráveis diferenças! Talvez isto permita perceber porque e como se estabelecem os fortes e profundos laços entre os maçons!

A Verdade da divisa é, afinal, a Verdade inerente a cada um, por ele redescoberta e posta em comum com os seus Irmãos.

É na franca exposição da Verdade que cada um é que se possibilita identificar o Auxílio de que cada um carece e do que cada um pode prestar e a todos envolver no Amor Fraternal.

Rui Bandeira

30 novembro 2015

Compromisso (republicação)

O texto que hoje revê a luz é da autoria do Rui Bandeira e assenta naquilo que enquanto alguns possam considerar como deveres ou obrigações conforme do seu ponto de vista e forma de estar, eu, pessoalmente, considero tal como "qualidades". Qualidades essas que acho que devem ser intrínsecas aos maçons.
Desta forma abaixo Vos deixo transcrito o referido texto e que também ele pode ser consultado na sua versão original aqui.

"Compromisso

Porque a Maçonaria é um contínuo exercício de dar e receber entre cada maçom e os seus Irmãos, cada um aperfeiçoando-se através do que obtém do contributo do trabalho dos demais, a condição do sucesso nessa pretendida melhoria de todos pode resumir-se numa palavra: COMPROMISSO.

COMPROMISSO em relação à assiduidade de cada um (pois quem não está, não participa). COMPROMISSO em relação ao cumprimento dos deveres de cada um, designadamente quanto ao pagamento das respetivas quotas (pois a manutenção da estrutura tem custos, que necessariamente têm de ser equitativamente suportados por todos os que a integram). COMPROMISSO em relação ao trabalho, ao estudo individual, em relação à partilha dos resultados do seu esforço.

Uma Loja maçónica potencia, acrescenta, valoriza, através de todo o grupo, a valia individual de cada um. É um fermento que auxilia no crescimento da massa que cada um amassa. Mas o fermento de nada serve se não houver farinha para amassar ou se ninguém se dispuser a executar ou a cooperar na tarefa de fazer a massa...

Uma Loja maçónica vale a soma do valor de cada um dos seus obreiros, acrescentada da mais-valia resultante das sinergias, complementaridades e eficiências geradas pela cooperação no grupo. Mas de nada serve o valor que potencialmente algum elemento possa dar ao grupo. Só importa o que efetivamente dê, transmita, acrescente.

Uma Loja de eminentes pessoas que se juntem apenas dar conta das respetivas eminências mas se não deem ao trabalho de produzir, fazer, compartilhar, pode ser uma eminente Loja - mas está na iminência de ser um completo e absoluto fracasso!

Por seu turno, uma Loja que agrega homens comuns, sem particular engenho, sem especial importância, sem extraordinária inteligência, se estes dedicada e persistentemente trabalharem, partilharem, propuserem projetos, debaterem e executarem alguns, fará sucessivamente pequenas coisas, modestos empreendimentos, pequenas obras - mas o conjunto do que fará terá cada vez mais significado. Cada um sentir-se-á satisfeito com cada pequena conquista e propenso a continuar a ajudar, a colaborar, a propor, a fazer.O esforço de cada um, devidamente coordenado, propicia resultados coletivos visíveis. Essa Loja pode ser de formiguinhas - mas será uma Loja bem mais satisfatória do que a "eminente" Loja de homens eminentes que nada façam além de observarem as suas mútuas "eminências"...

O COMPROMISSO tem de ser persistente, constante. De pouco vale hoje o que se fez de bom há anos atrás. Será uma história bonita, mas é já passado. Serve como exemplo, como inspiração, mas não substitui o trabalho de hoje para lograr a realização de amanhã.

O maçom que se queixa de que a sua Loja nada faz, que as sessões "são sempre a mesma coisa", se só faz essa constatação e nada mais faz para superar aquilo de que se queixa, esse é precisamente um dos culpados da situação que acusa. É estulto queixar-se que "a Loja não tem projeto". O que há a fazer é tomar a iniciativa de fazer, ele próprio, algo que considere valha a pena ser feito - por pequeno, por modesto que seja. E, pelo exemplo e persuasão, levar outros da Loja a também tomarem a iniciativa de fazer pequenas coisas. Ao fim de algum tempo, três, cinco, dez, vinte pequenas coisas feitas já constituem algo que se veja, algo que merece alguma satisfação pelo dever cumprido...

Ou então, em vez de se aguardar, expectante mas indolentemente, que a Loja imagine, descubra, prepare, debata, organize e execute o fantástico, importantíssimo e relevantíssimo projeto que gravará a letras de ouro o nome da Loja nos anais da História Maçónica e quiçá mereça uma nota de rodapé nos manuais do ensino elementar das futuras gerações, talvez seja melhor conceber um pequeno projeto, dar vida a uma ideia cuja forma final ainda nem sequer se saberá qual vai ser, combinar com dois ou três dos seus Irmãos e começarem a executar. Não é necessário que toda a Loja formalmente adote o projeto (mas convirá que não se trate de iniciativa que mereça a discordância da Loja...). Dois ou três começam. Dois ou três ou quatro dão os primeiros passos de algo que é feito em nome da Loja, enquanto elementos da Loja. Se efetivamente a ideia tiver pernas para andar, mais cedo do que mais tarde os demais ajudarão, incentivarão, participarão. E, quando nos damos conta, o projeto é já mesmo o projeto da Loja - não dos dois, três ou quatro que o iniciaram -  e terá condições para ser prosseguido enquanto houver Loja...

Na Loja Mestre Affonso Domingues nunca nos preocupámos em fazer grandes organizações. Tudo o que na nossa Loja se foi fazendo começou da mesma maneira: dois ou três ou quatro conversam e avançam, os outros vão dar uma ajuda e, sem disso nos darmos conta, o que se faz é já de todos, é já da Loja. Foi assim que começaram as ações de doação de sangue - e há mais de dez anos que periodicamente ajudamos neste campo. Por vezes com poucas doações, outras vezes com mais gente a associar-se. Mas faz-se! Quem começou já não está na Loja há muito tempo. Os mais novos nem sequer ouviram falar dele. Mas a semente que lançou germinou e, mais de dez anos passados, uns anos mais, outros anos menos, os frutos continuam. É um contributo modesto, quase apenas umas gotas no oceano das necessidades, sabemo-lo. Mas persistirmos em dar esse contributo modesto e esperamos continuar a fazê-lo por muitos mais anos. É do conjunto de todos os modestos contributos que se satisfazem as necessidades de sangue no País.

Este blogue começou por ideia de um, concretização de outro e imediata adesão de um terceiro. Os três autores iniciais não criaram o "seu" blogue. Criaram um "blogue escrito por maçons da Loja Mestre Affonso Domingues". Oito anos passados, outros se juntaram, mais de 1.300 textos estão à disposição de quem os quiser ler. E espero que continue mesmo quando já nenhum dos mentores iniciais nele escrever...

sítio da Loja  foi criado por iniciativa de um, com a ajuda de outro, foi remodelado e mantido por um terceiro, que conta agora com a ajuda de um quarto e os contributos de todos os obreiros da Loja. Contém já um enorme acervo de textos postos à disposição de qualquer pessoa.

A Loja não gastou um minuto sequer a discutir se criava um sítio na Internet ou se mantinha um blogue. Uns avançaram, outros ajudaram, todos contribuem quando é preciso ou têm disponibilidade. Mas a obra está feita e está à vista de todos. E não é obra do Manuel, do António ou do Joaquim. É obra dos obreiros da Loja Mestre Affonso Domingues. 

Os obreiros da Loja Mestre Affonso Domingues têm um COMPROMISSO com a Loja. É estarem presentes. É tudo livre e lealmente debaterem, sem o mínimo problema, tolerando as posições divergentes, cada um concordando ou discordando quando assim o entender, e todos sermos um grupo unido e solidário. É cada um sentir-se à vontade para arrancar com um projeto, executar uma ideia, pedindo e obtendo, ou obtendo mesmo sem pedir, o apoio e a colaboração de outros obreiros - se valer a pena e for necessário, de toda a Loja.

O COMPROMISSO dos maçons da Loja Mestre Affonso Domingues não é de fazer a mais importante e merecedora de elogios obra que o espírito humano possa conceber, O seu COMPROMISSO é ajudar o seu Irmão a levar a cabo a sua ideia, é avançar com a execução das nossas ideias, sabendo que algum ou alguns dos nossos Irmãos estará ou estarão presentes com a sua ajuda.

O nosso COMPROMISSO na Loja Mestre Affonso Domingues é ir fazendo, em cada momento, o que for preciso para ajudar. Assim fazemos. Às vezes mais, às vezes menos, às vezes muito, às vezes pouco, às vezes bem, às vezes nem tanto assim. Mas, bem vistas as coisas, sempre algo se faz!

Rui Bandeira "

23 novembro 2015

A "Hipótese Deus" (Autor: João Anatalino)



Neste blogue, por regra, publicam-se textos da autoria de Mestres Maçons da Loja Mestre Affonso Domingues. No entanto, ocasionalmente publicam-se também textos de outros autores, quando se entende que, pela sua qualidade e interesse, se justifica essa publicação aqui - desde que, bem entendido, se disponha de autorização para se proceder à mesma, dada por quem dispõe de legitimidade para a dar. O texto que se segue, da autoria de JOÃO ANATALINO, escritor brasileiro, foi originalmente publicado no sítio da Internet deste escritor (http://www.joaoanatalino.recantodasletras.com.br/), e a sua republicação aqui é efetuada ao abrigo da licença Creative Commons que o referido autor concede, no mencionado sítio da Internet. Vale (muito) a pena lê-lo!

 A “HIPÓTESE DEUS”
                          
Não faz muito tempo que os cosmologistas começaram a aceitar a possibilidade de que o universo pode ser uma estrutura perfeitamente planejada e que ele está sendo construído de certo modo. A crença de que ele era estático e igual em toda parte passou a ser substituída pela ideia de um “ser” em constante evolução, onde as leis naturais funcionam como uma espécie de “constituição” reguladora desse processo. 
Nesse sentido, esses cientistas começaram até a considerar a possibilidade da chamada ‘Hipótese Deus”, admitindo finalmente a existência de uma Mente Universal na origem desse planejamento. Essas constatações tem sido facilitada pelos próprios métodos científicos utilizados por esses estudiosos em suas investigações, que mostram, na organização estrutural da matéria física, uma perturbadora semelhança com a organização do próprio universo em sua estrutura cósmica. Com essas coincidências, perfeitamente prováveis por medições científicas, já não é mais possível admitir, de pleno, que o universo seja regido unicamente por leis mecânicas, sem uma Vontade a organizar esse processo, como antes se admitia no meio científico. Laplace, por exemplo, dizia que Deus era uma hipótese perfeitamente desnecessária. Mas quando se olha a estrutura de um átomo e a estrutura de um sistema planetário, não se pode deixar de perceber a estreita semelhança entre as duas. É nesse sentido que a pesquisa da estrutura da íntimo da matéria tem revelado aos cientistas o segredo da constituição do universo, e nele cada vez mais se nota a presença de uma “Vontade” que o governa. 
Hoje se sabe que o universo é constituído de tal modo que é difícil, se não impossível, não pensar em uma ordem natural a gerir o processo da sua formação. Essa constatação é feita pelo fato de que se pode reconhecer, no processo de geração da matéria universal, a existência de três funções que seriam impossíveis de ser encontradas em uma ordem puramente mecanicista: a complexidade, que permite aos elementos componentes da matéria física se organizar em graus de complexidade cada vez maiores; a mutabilidade, que permite a mudança gradativa de suas composições e a perenidade, que admite a mudança de sua estrutura sem, no entanto, eliminar as propriedades particulares de seus componentes. Tudo isso só é possível na existência de um Sistema perfeitamente planejado, como bem o definiu Mallowe.[1]



          


Em um de seus mais interessantes trabalhos, o físico Stephen Hawking situa o início do tempo no momento de nascimento do universo conhecido, momento esse chamado de big-bang.[2] Assim, o tempo, para os cientistas, começou junto com o espaço, e por isso ele sempre é representado por duas linhas que começam em um ponto zero e se alongam na mesma proporção, em setas orientadas em duas dimensões: a dimensão do tempo, que nos faz pensar em eternidade e a dimensão do espaço, que nos faz pensar em infinidade.
       
Quando se começa a especular sobre esse tema, surge a intrigante pergunta: Se foi Deus que fez o universo, o que Ele era e o que fazia antes de começar a fazê-lo? Ele já existia antes disso? Ou Ele “nasceu” junto com o universo? 
     “Há cerca de 15 bilhões de anos”, escreve Hawking, “ todas (as galáxias) teriam estado umas sobre as outras, e a densidade teria sido enorme. Esse estado foi denominado átomo primordial pelo sacerdote católico Georges Lemaiter, o primeiro a investigar a origem do universo que agora chamamos de big-bang.” A partir desse momento, segundo essa tese, o universo, que estava contido nessa região extremamente carregada de energia, tornou-se uma imensa bolha de gás que nunca mais deixou de se expandir.[3]                                            
A Bíblia, ao registrar esse fato não é menos metafórica e misteriosa do que os compêndios científicos que procuram explicar como o universo nasceu. Ela fala que “no início Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia e as trevas cobriam a face do abismo.” E então, do meio ás trevas Deus fez sair a luz. E Deus viu que a luz era boa e por isso a separou das trevas.[4]
O texto bíblico parece sugerir que Deus já existia antes de começar a fazer o universo. Assim, Ele não pode ser o universo, como sustentam os adeptos do panteísmo, que identificam Deus com a sua própria criação, como se esta fosse algo capaz de existir por si própria.[5]
A Bíblia identifica Deus como “o Espírito que movia-se sobre as águas.” Expressão enigmática que nunca pode ser explicada a contento dentro da lógica comum, já que, se o mundo ainda era pura trevas e a terra era informe e vazia, que “águas” eram essas sobre as quais o Espírito de Deus se movia? Pois, ao que parece, elas já existiam antes de Deus separar a luz das trevas. Assim, a Bíblia nos dá uma identificação e uma ideia do que era Deus antes de começar o mundo: Ele era “Espírito”, seja qual for o significado que o cronista bíblico quisesse dar á essa expressão. Mas não responde á segunda pergunta: O que Ele fazia antes de começar o mundo?
Essas especulações se tornaram tão intrigantes que os próprios rabinos israelenses, produtores e comentadores da Bíblia, tiveram que quebrar a cabeça para responder á multiplicidade de perguntas que surgiram a esse respeito. Foi então que nasceu, entre os mestres cabalistas, a chamadaGrande Assembleia Sagrada, que se refere a um grupo de rabinos dedicados ao estudo da personalidade do Ser Supremo, sua natureza e seus atributos. Das especulações produzidas por esse grupo surgiu a chamadaSiphra Dtzenioutha, conhecido como o “Livro do Mistério Oculto”, parte mais misteriosa do Sepher há Zhoar, a bíblia cabalista. [6]

Para responder á intrigante pergunta de quem era Deus e o que fazia antes de começar a fazer o universo físico, esses estudiosos criaram os conceitos de “Existência Negativa” e “Existência Positiva” termos utilizados pelos cultores da Kabbalah mística para designar Deus “antes” e “depois” de fazer o mundo. Nesse sistema, Deus (Ain em hebraico), é visto como uma forma de "energia" que em dado momento expandiu-se para fora de si mesmo, tornando-se o universo material (Ain Sof Aur- אין סוף). Esse termo, na Kabbalah, significa Luz Ilimitada. É a luz que se espalhou pelo nada cósmico, dando origem a tudo que existe. Essa visão mística do nascimento do universo, expressa no Livro do Mistério Oculto (Siphra Dtzenioutha), é definida com a misteriosa frase “antes que o equilíbrio se consolidasse, o semblante não tinha semblante[7].
Aqui está inserta a estranha idéia de que antes de fazer o mundo, ou seja, antes de Deus manifestar-se como existência no mundo das realidades sensíveis, Ele já existia como potência, que embora não manifesta, já continha todos os atributos do universo manifestado. Ele já era todas as coisas, que viviam uma “existência negativa”, na qual a mente humana não pode penetrar justamente porque ela só pode conceber um plano de existência positiva, onde as ações podem ser identificadas e suas causas recenseadas.
Agora, como capturar uma realidade que está além da nossa capacidade de mentalização? Sabemos que ela existe porque suas manifestações emanam para o plano da realidade sensível e é causa de fenômenos observáveis e mensuráveis. Quem sabe definir o que é a eletricidade, por exemplo? Sabemos como ela se manifesta, como atua e até já aprendemos a usá-la para as nossas finalidades, mas o que ela é nenhum cientista, ou filósofo, até agora, ousou afirmar.
“Antes que o equilíbrio se manifestasse, o semblante não tinha semblante” é uma forma metafórica de explicar aquilo que a nossa linguagem não consegue articular num discurso lógico. Então os cabalistas recorrem á metáfora, ou ao símbolo, para dizer que a criação divina já existia antes de existir. Ou seja, antes que o universo adquirisse uma forma, ele já estava na Mente de Deus, como presença sem forma, sem nome, impossível de ser pensado pela mente humana. Era o próprio Caos primordial, no dizer dos filósofos gnósticos, que ao “vazar” para além de si mesmo adquiriu uma organização.  
Deus já era antes de ser o universo. Ou como diz Rosenroth “o universo inteiro é a vestimenta da Divindade: Ele não apenas contém tudo, mas também Ele mesmo é tudo e existe em tudo”. Essa é outra maneira de dizer que Deus, em sua Existência Negativa, é o “Espírito que se move sobre as águas” e na sua “Existência Positiva”, ele é o próprio universo.[8]
Outra visão dessa realidade pode ser posta em forma de analogia, seguida de um símbolo mediato. Os cultores da Kabbalah mística dizem que “Deus é pressão”, e que sua manifestação no mundo das realidades fenomênicas tem a forma de um círculo cujo centro está em toda parte e cuja circunferência está em parte alguma. Sabemos que todo círculo tem um centro e uma circunferência. O centro é o ponto de onde ele emana e a circunferência uma corda que o limita. Dizer que o centro do círculo está em toda parte e que sua circunferência está em parte alguma é falar de um espaço que não começa em ponto algum e não acaba em lugar nenhum, uma dimensão sem início nem fim. Ou como diz MacGregor Mathers, “ O oceano sem limites da luz negativa não procede de um centro, pois não o possui. Ao contrário, é essa luz negativa que concentra um centro, a qual é a primeira das sefiroths, manifestas, Kether, a Coroa.”  [9]

Assim, essa idéia da divindade supre a necessidade que a mente humana tem de situar um início para o universo e imaginar, não um fim para ele, mas uma finalidade. Destarte, a dimensão da Existência Negativa é um momento anterior á qualquer manifestação da Divindade no terreno das realidades positivas, ou seja, um estado latente de potência concentrada em si mesma, que em dado momento cedeu á “pressão” interna da sua própria potencialidade e “gerou a si mesmo”. Figurativamente, o big-bang seria o “parto de Deus”, o qual, simbolicamente poderia ser representado por um ponto dentro do círculo, como o faz Madame Blavatsky em sua cosmogonia da Criação.

                                

                                                        
Em analogia ao conceito bíblico de criação, poderíamos dizer que o big-bang dos cientistas equivale ao momento em que Deus “separou a luz das trevas”, ou seja, o momento em que o Grande Arquiteto do Universo “pensou” o universo, na tradição maçônica.
Essa é a base da formidável arquitetura universal que a inteligência dos sábios rabinos de Israel conceberam e que a sensibilidade mística dos espíritos que não se contentam em viver no estreito território que a linguagem lógica nos obriga a permanecer adotou. Entre estes estão os maçons espiritualistas, que veem na sua Arte muito mais do uma mera prática social derivada de uma tradição que incorpora ideias esotéricas.
 O conceito de que Deus é o Grande Arquiteto do Universo tem sido empregado em muitos sistemas de pensamento e o cristianismo místico o tem adotado em várias de suas manifestações. Ilustrações de Deus como o arquiteto do universo podem ser encontradas nas nossas Bíblias desde os primeiros séculos da Idade Média e tem sido regularmente empregadas pelos doutrinadores cristãos de todas as tendências.

São Tomás de Aquino, um dos mais respeitados filósofos da Igreja Católica, sustentou a existência de um Grande Arquiteto do Universo, que seria a Primeira Causa de todas as coisas. Por seu turno, João Calvino, um dos mais influentes divulgadores da Reforma Protestante, também se refere á Deus como sendo uma espécie de Arquiteto, pois seu trabalho de construção do universo material, o cosmo, e do universo espiritual (a humanidade em sua história moral) assemelha-se á construção de um grande edifício.[10]
Na Maçonaria, o termo Grande Arquiteto do Universo é uma metáfora que, na sua origem, tem inspiração cabalística. Era um termo aplicado á divindade pelos maçons operativos, construtores de catedrais e grandes obras públicas, que viam em Deus o autor dos planos estruturais do edifício cósmico e por analogia, da humanidade. Nesse sentido, o mundo físico e mundo espiritual eram construídos a partir de uma estratégia desenvolvida por Deus, que como se fosse um arquiteto, pensava os planos do universo e seus mestres (os anjos) e pedreiros (os homens) o construíam.
Essa era uma idéia extraída da interpretação cabalística da Bíblia, pois a Kabbalah vê o universo como se fosse um edifício sendo construído em dez etapas de manifestação da potência divina, que é simbolizada na chamada Árvore da Vida, ou Árvore Sefirótica, símbolo de extraordinário conteúdo esotérico, que se presta às mais diversas analogias e ilações, unindo a mística das antigas religiões do oriente com as modernas descobertas da física atômica.
O termo “Grande Arquiteto do Universo” também foi apropriado pela filosofia gnóstica, sistema de pensamento onde o Criador “gera” um casal real (Cristo e Sofia, o primeiro par de eons), a partir do qual a sabedoria (gnosis) é trazida para o mundo. Através da atuação desse “casal cósmico”, nascem os “eons” (anjos, para uns, arquétipos para outros) que orientam os homens em suas ações. Constrói-se assim, o mundo e o homem, com o Grande Arquiteto traçando os planos estruturais e seus agentes trabalhando para executá-los. 
Assim, o Grande Arquiteto do Universo, que os maçons, em sua linguagem simbólica, abreviam para G. '. A.' .D. '. U. '. , é o termo utilizado para representar Deus em seu trabalho de arquitetura cósmica. Os anjos são seus mestres supervisores e os homens seus pedreiros. Fecha-se, dessa forma, o círculo místico que explica a forma maçônica de pensar um começo do universo e abre-se, para todos os temas do seu catecismo, uma justificativa do porque a Arte Real os trata desse modo.
O G.‘.
 A.’. D.’. U.’., portanto, é um símbolo que representa a “Hipótese Deus” dos cientistas, pois somente através dessa ferramenta linguística a mente humana pode conceber realidades que estão fora do alcance da seu alcance lógico.  
Qualquer coisa, para ser entendida, precisa ter um começo. Deus é o começo. Não satisfaz ao maçom pensar nele como um ancião de barbas brancas, semelhante a um velho patriarca bíblico, que procura criar e manter sua família confinada ás tradições de um clã, nem se comunga, na Maçonaria, com a visão – por muitos chamada de científica – que vê a Divindade orientando um processo de criação que se assemelha ao trabalho de um pecuarista selecionando crias para melhorar a sua espécie. Ao contrário, aqui a idéia é a de que aqui estamos como funcionários Dele, construindo alguma coisa que Ele arquitetou. Por isso o maçom é o pedreiro da obra universal e Deus é o Grande Arquiteto do Universo. 
Destarte, para a Maçonaria, a Hipótese Deus já está suficientemente provada. 

 



[1] Eugene Franklin Mallove (1947 – 2004) The Quickening Universe  –St Martins Pr; 1º edition, 1987.
[2] Stephen Hawking- Uma Breve Históriado Tempo- Círculo do Livro, 1988
[3] O universo em uma casca de nóz, citado, pg. 22
[4] Gênesis, 1: 3
[5] O panteísmo é a crença de que Deus é a própria natureza e não se distingue dela como entidade. Nesse sentido, Deus(theos) é o “tudo”(pan), e só existe como um princípio, uma energia, que dá geração a tudo que existe, mas não existe independente desse tudo. Nesse sentido, Deus seria o próprio universo, com suas leis físicas e morais.
[6] Knor Von Rosenroth-  A Kabbalah Revelada- Madras, 2010
[7] Idem, pg. 65                                                                    
[8]  A Kabbalah Revelada, op citado, pg 63
[9] Citado por Dion Fortune- Cabala Mística, pg 36
[10] Institutos da Religião Cristã , 1536.

DO LIVRO KABBALAH PARA MAÇONS- NO PRELO
 

João Anatalino
Publicado neste blogue no uso da licença Creative Commons, constante no sítio da publicação original deste texto, http://www.joaoanatalino.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=5439823.
Rui Bandeira

16 novembro 2015

Um Maçon e a sua religiosidade (republicação)...

Hoje o texto que republico é da autoria de um Mestre Maçom pertencente ao quadro de obreiros da Respeitável Loja que acolhe este blogue e também ele mesmo, um membro do seu painel de autores, e que tem como confissão religiosa, o Islão.
E dado o que se passou nos últimos dias aqui perto em Paris, será interessante recordar o pensamento de um muçulmano, o Alexandre T..
Até porque não se deve nem se pode confundir a "árvore com a floresta"...


Pode um Maçon ser um Homem crente?
Pode um Maçon ser um Homem praticante de uma fé/crença?

Perguntas que muitos fazem, respostas que poucos as conseguem entender, pois por isso mesmo hoje decidi apresentar-vos a visão de um Maçon, face à sua vivência enquanto Maçon e enquanto Muçulmano.

O que diferencia um Maçon Muçulmano de ou outro qualquer Maçon, seja ele Cristão, Judeu, Deísta, Budista e ou apenas crentes no Grande Arquiteto Do Universo.

Deixo-vos a minha opinião suportada por uma vivência de um momento muito especial no que respeita à pratica Religiosa e a Observância Maçónica daqueles que são os princípios da Maçonaria, falo da Liberdade, da Igualdade, do Direito ao Livre Arbítrio, dos Bons Costumes e da Tolerância e Respeito.

O mês de Ramadão de 1435/2014.

- Um mês de Ramadão terminado!
- O dia de Eid al-Fitr comemorado!

E agora, agora vamos a mais um balanço:

Um mês de reflexão, de observação interior e de avaliação dos limites, limites esses que nem sempre julgamos poderem ser atingidos.

Um mês de auto disciplina física e intelectual, um mês onde acima de tudo a mente esteve, tanto quanto possível, apenas fixada no bem, na família, nos amigos, na partilha, no fazer o bem e deixar de lado todas as intenções e pretensões pessoais, ou seja um mês de trabalho individual para melhorar a minha postura, ação e atitude face ao colectivo e à sociedade.

Pois bem, do ponto de vista pessoal e é isso que interessa, pois cada um deve começar o trabalho por si mesmo e nunca pelos outros, digo-vos que o meu Ramadão foi completado a 100%.

No que respeita à convicção de fé/crença essa sai reforçada, olhando à mesma como um processo de evolução e aperfeiçoamento pessoal, no entanto esclareço que neste tema de fé/crença, cada um tem o direito em optar pelo processo/caminho que bem entender, desde que essa seja a sua vontade e opção feita de forma livre e consciente.

Esta minha escolha é mais um processo, adicionado a outros, com o qual me sinto bem e através do qual tenho vindo a reforçar as minhas convicções, enquanto Homem Livre e de Bons Costumes (assim espero ser reconhecido) o qual me tem ajudado a percorrer esta minha caminhada.

O que me torna diferente dos outros, findo o Ramadão?

Bem na verdade NADA!

Exactamente “NADA”, não consigo encontrar nada que me diferencie de todos os Meus Irmãos Maçons, sejam eles Cristãos, Judeus, Deístas, Budistas e ou apenas crentes no Grande Arquiteto Do Universo.

Em nada e em caso algum tenho o direito, ou posso sentir-me diferente, seja para melhor e ou para pior, apenas porque escolhi este ou aquele caminho, reconheço hoje, tal como sempre fiz, todos os Meus Irmãos de igual forma, sem qualquer diferença originada por qualquer Credo, Estatuto Social, Convicção Ideológica, Clubismo Desportivo e ou Opção Filosófica.

Depois desta caminhada chego à conclusão que na minha fé/crença, bem como todos os rituais e práticas executadas, em nada me tornam diferente e têm apenas os seguintes objetivos:

1 Tornar o Homem mais Humilde e menos Egocêntrico, pois a prática de nos dirigirmos ao Grande Arquiteto Do Universo, tem como principal objectivo tornar-nos mais Humildes aquando lidamos com todas as formas de vida, por Ele criadas.

Tornar o Homem totalmente consciente de que esta Caminhada (Vida) é apenas uma etapa de aprendizagem e que por isso mesmo devemos de olhar muito mais para o que está ao nosso lado e não apenas para o reflexo da nossa própria imagem no Espelho, pois quando a Luz se extingue também o nosso reflexo nos abandona e ai só quem está ao nosso lado e DEUS/YHVH/ALLAH, nos pode dar a mão.

3 Tornar o Homem mais consciente daquilo que são as necessidades de todos aqueles que jejuam permanentemente para lá do Ramadão, os quais jejuam infelizmente porque não tem meios para se poder alimentar, vestir e ou ter uma habitação condigna.

4 Tornar o Homem mais “Homem” e menos “Entidade Divina”, POIS neste período todos são elevados à mesma condição, O Rico, O Pobre, O Doutor, O Ignorante, O Inteligente, O sem Curso Superior, O Sacerdote, O Crente, O Homem e A Mulher, todos, mas mesmo todos, são iguais, todos passam pela mesma privação independentemente daquilo que são perante, ou aparentam ser, independentemente dos Rótulos e Medalhas com que se apresentam, ou se possam vir a apresentar no seu dia-a-dia Profano e ou Sagrado.

Por isso findo este processo apenas quero deixar um registo de desejo:

Que O Grande Arquiteto Do Universo nos proteja a todos das Trevas que vamos encontrando ao Longo desta nossa Caminhada (Vida), que a Luz do Sol, direta e ou na Lua refletida, nos Ilumine até que a Meia Noite do nosso Dia chegue e que lá no Oriente Eterno, onde todos nos voltemos a Reconhecer e a Reencontrar, sejamos o reflexo daquilo que aqui fizemos, pois lá seremos apenas mais uma Luz, junto de todas as outras, sem qualquer distinção, diferença e ou diferenciação.

Disse!

Alexandre T.

09 novembro 2015

Jorge Manuel do Carmo Pereira de Almeida (1958-2015), maçom afável



Para alguns de nós era o Jorge Pereira de Almeida. Outros conheciam-no melhor por Manuel do Carmo, parte do seu nome que utilizava enquanto autor e artista plástico. Ele era ambos e ambos eram um só, ele, um maçom afável, que era estimado por todos os elementos da Loja que com ele privaram.

Foi advogado, autor de quinze livros publicados sobre relações internacionais, arte e filosofia (só para referir três: Um Café pelo Aqueduto (Dinalivro), O Método Alternativo (Guimarães Editores), Caixa para Pensar (Verbo), o seu último trabalho editado), empresário, artista plástico. Foi assessor da Presidência do Conselho de Ministros no VII Governo Constitucional, professor de Relações Internacionais no ISLA, assessor na Fundação Oliveira Martins, Presidente da ONG Latin American Studies Institute, e fundador e Presidente da Manuel do Carmo Foundation, organização sem fins lucrativos sedeada em New York com o objetivo de angariar fundos para promover o diálogo entre as culturas europeia e norte-americana.

Foi tudo isso, teve uma vida cheia e produtiva. Mas foi, para nós acima de tudo o mais, um dos nossos, da Loja Mestre Affonso Domingues. 

Infelizmente, os mais novos não tiveram oportunidade de contactar com ele. Há vários anos lidando com sérios problemas de saúde, não lhe era possível comparecer na Loja. Os contactos com ele eram sobretudo telefónicos, sobretudo para ir sabendo como ia ele lutando com as doenças que o afetavam. Apesar da gravidade das suas doenças, manteve sempre uma inesgotável força, força de viver, de lutar contra a doença, de superar e de se superar. E também um assinalável otimismo. Mesmo ao telefone, sentia-se o sorriso que embalava a sua conversa. Esse otimismo manteve-se até ao limite da impossibilidade, até ao momento em que ficou evidente que não venceria a sua luta. Quando isso sucedeu, a sua fibra continuou a revelar-se e sobreveio a apaziguadora resignação, sempre de mãos dadas com a sua proverbial boa disposição. A forma como lidou com as suas doenças, como encarou com naturalidade a perspetiva da sua mais próxima do que longínqua morte, a serenidade (é a palavra certa) com que encarou o fim, estando já muito próximo dele, foi um exemplo para todos nós.

Aliás, hesitei um pouco em o adjetivar como maçom afável ou como maçom sereno. Teve ambas as qualidades. Optei pela primeira qualificação, quer porque foi qualidade que manteve sempre, na saúde e na doença, nos tempos felizes e nas alturas agrestes, quer porque foi talvez a caraterística mais marcante para todos os que com ele privavam.

O Jorge estava bem em qualquer lado, com qualquer pessoa. E sobretudo foi um homem que lidou sempre com os outros com uma extrema amabilidade, sempre atencioso, sempre calmo e sorridente, sempre dando a sensação de que ouvia o que lhe diziam com a máxima atenção, sempre fazendo com que cada um se sentisse como o mais importante para ele, ali e naquele momento. O Jorge não se limitava a ser educado, a ser amável, a ser atencioso. O Jorge era tudo isso e transmitia ainda o gosto de estar a falar com o interlocutor. Mesmo quando porventura discordava dele, isso não impedia que o interlocutor sentisse que era um prazer debater com ele, que as concordâncias ou discordâncias eram menos detalhes, que o importante era estarem juntos e conversarem e trocarem pontos de vista.

À medida que a sua saúde se deteriorava, a nossa preocupação aumentava. O Irmão Hospitaleiro foi visitá-lo e encontrou-o já muito enfraquecido, muito frágil. Tinha a noção que o seu fim neste plano de existência estava próximo. Encarava o facto com serenidade, escudado na sua fé de que a morte não era o fim, mas apenas uma passagem. Mesmo frágil, mesmo fraco, mesmo vendo a morte já tendo virado a esquina e aproximando-se, interessou-se em saber dos demais irmãos da Loja. Ao saber que íamos homenagear o nosso decano (em idade), fez questão lhe oferecer um dos seus últimos trabalhos, e um outro à Loja, confiando-os ao Irmão Hospitaleiro para que os entregasse aos destinatários, e solicitou que o irmão decano que ia ser homenageado lhe autografasse um dos seus (dele, decano) livros. Infelizmente, não foi já possível devolver-lhe o livro autografado... 

O Jorge Pereira de Almeida, o Manuel do Carmo, teve uma vida cheia e bem sucedida. Nós recordá-lo-emos sobretudo pela caraterística que mais nos tocou: como um Irmão extremamente afável, com quem foi sempre um prazer privar e que nos deixa saudades. Voltaremos a encontrar-nos quando trilharmos o mesmo caminho em que ele nos precedeu. E de algo estou certo: o nosso reencontro será agradável, como agradável foi sempre o nosso convívio.

Até ao nosso reencontro, Jorge!

Rui Bandeira  

02 novembro 2015

O Silêncio dos Aprendizes (republicação)

O texto que hoje republico é um texto da autoria do A.Jorge e aborda a sua experiência pessoal em relação ao "silêncio" que é imposto aos Aprendizes. Silêncio este que todos os Maçons alguma vez experimentaram... Para uns, algo difícil, para outros, algo necessário... Cada um com a sua experiência própria.

Aqui fica o texto, que pode ser consultado no seu original aqui e cuja "Caixa de Comentários" originou um debate interessante e esclarecedor.

"O Silêncio dos Aprendizes

Ao escolher este tema presto homenagem ao silêncio dos aprendizes em loja e em particular ao seu significado e objectivos, dado considerar que ele contribuiu decisivamente para a minha aprendizagem e para a minha evolução como pessoa e, espero que, como Maçon.

Nas conversas prévias que tive com os Irmãos Mestres J:. R:. e R:. B:., integradas no meu processo de admissão à Maçonaria, houve desde logo algo que me causou alguma apreensão – como iria eu conviver com o silêncio que se impunha aos aprendizes em Loja. Ter uma opinião para transmitir e não o poder fazer, só poderia ser uma forma sofisticada de praxe ou de tortura, para ver se eu me aguentava....

Sendo normalmente uma pessoa interventiva, o ficar calado significava para mim quase que uma prova de fraqueza ou ignorância, e isso era algo que não estava habituado. No mundo profano, nomeadamente nas esferas empresariais, é normalmente preferível dizer alguma coisa, mesmo que inútil, do que não dizer nada, já que isso parece ser apreciado.

As minhas primeiras sessões em loja foram muito conflitivas – se não podia falar e só podia ouvir, o que é que eu estava ali a fazer? Durante este período, passei por várias fases evolutivas: equacionei ir-me embora, já que não queriam ouvir o que eu tinha para dizer e eu tinha muito para dizer; ponderei os inconvenientes de desrespeitar a regra, rompendo o silêncio; efectuei comparações entre os argumentos que eram utilizados e os que eu utilizaria na mesma situação, etc.. Creio que posso afirmar que a minha permanência na Maçonaria se deve a um acto de teimosia, já que decidi não desistir e ir até ao fim.

Gradualmente, fui começando a alterar a minha atitude perante o silêncio, principalmente a partir do momento em que conclui ser inútil preocupar-me em construir uma argumentação que depois não teria continuidade. Já que não podia falar, talvez existissem outras formas de rentabilizar o tempo que ali passava e a forma mais lógica e imediata parecia ser, ouvir e assimilar o que estava a ser dito. Tal “descoberta” fez-me começar a escutar de forma consciente, o que efectivamente se dizia, o que me conduziu a uma nova descoberta acerca de mim próprio: tinha tendência para só escutar os outros em função da resposta que teria de lhes dar e não por aquilo que tinham para me dizer.

Esta constatação levou-me a começar a tentar escutar os outros de forma desinteressada e sem reservas ou intenções. Foi um processo intencional, lento, com avanços e retrocessos mas extremamente agradável - sentir que começava a descobrir os outros e ver que a atitude destes se alterava gradualmente. De forma tímida no inicio, primeiro nos círculos familiares e depois entre amigos e em ambientes profissionais, foi encorajante ouvir frases como “não sei porquê, mas agora é mais agradável conversar contigo”...

No campo estritamente profissional e nomeadamente nos processos negociais, em que cada argumento antecipado pode constituir uma vantagem para os outros, descobri também que o escutar me permitia analisar melhor a situação e sobretudo preparar melhor a argumentação necessária à consecução de estratégias ganhadoras.

E no entanto toda esta simplicidade parece ser fruto de uma sabedoria milenar que já Hiram utilizava quando formava os seus aprendizes e companheiros, para os preparar para a construção do Templo de Salomão.
Quando o recém iniciado é advertido de que não poderá falar em loja, desde a sua iniciação até à sua passagem a mestre, devendo apenas ouvir e observar, está-se simplesmente a dar continuidade a um dos mais antigos costumes das ordens iniciáticas: o silêncio.

Voltado para si mesmo, calado, numa postura de reflexão e recepção, o Aprendiz Maçon deverá evitar resvalar para uma atitude passiva ou desinteressada. Pelo contrário, todos os seus sentidos devem estar atentos para o que se passa em loja. Ver, ouvir, receber, reflectir e guardar, são as palavras chave deste processo de aprendizagem e evolução interior. Juntar e interligar todas as informações que lhe chegam ao cérebro, estranhas e diferentes das que já conhece, formulando hipóteses e conclusões que lhe permitam uma visão cada vez mais elevada das observações que faz. Esta deve ser a maior preocupação do iniciado.

O ainda candidato é exposto pela primeira vez perante a regra de silêncio quando é introduzido na Câmara de Reflexão, permanecendo sozinho e ladeado por símbolos, palavras e frases, estimulado a pensar e a penetrar no fundo do seu interior. No silêncio da meditação, vai ao encontro de si mesmo, examinando minuciosamente o que lhe vai na alma. É então confrontado com a sigla Vitriol (Visita Interiora Terrae, Retificandoque, Invenies Occultum Lapidem), que na sua tradução para português significa: "desce ao interior da terra, e perseverando na rectidão, poderás encontrar a pedra oculta".

Após toda a cerimónia de iniciação, o candidato profano transforma-se em recipiendário silencioso, o recém iniciado assume o papel do hermetista, ou do alquimista na sua busca incessante da Pedra Filosofal, que uma vez descoberta, o transformará no homem perfeito. Este é o sentido que o maçom busca quando luta para transformar a sua Pedra Bruta na Pedra Cúbica, que poderá utilizar e encaixar perfeitamente na construção do seu novo Templo interior.

O conselho "lege, lege, relege, ora, labora et invenies", que significa lê, lê, relê, ora, trabalha e encontrarás, era dado ao eleito para conhecer e assimilar os mistérios da Alquimia. Hoje, continua sendo este o conselho dado ao iniciado. O maçon afasta lentamente todas as suas paixões, os seus vícios, os seus desejos incontroláveis, para vê-los transformarem-se em virtudes, domínio de si mesmo, tolerância e prudência, alcançadas no silêncio e na introspecção. O iniciado reconhece como fundamentais, as palavras "Vigilância e Perseverança" nas metodologias do seu estágio de observação. Quem fala muito pensa pouco, ligeira e superficialmente, e a Maçonaria quer que seus membros sejam melhores pensadores do que faladores.

Todo este processo pretende, na sua essência, preparar e induzir ao Aprendiz a necessidade da reflexão como método de transformação interna. Embora indirectamente, é possível estabelecer vários paralelismos e interacções com o Catecismo do 1º grau, nomeadamente:
  • Quando o Aprendiz afirma vir “vencer as suas paixões, submeter a sua vontade e realizar novos progressos na Maçonaria”, logo seguido de “Porque um Maçon deve desafiar-se a si próprio e evitar juízos de valor antes de consultar a sabedoria dos irmãos”. O silencio proporciona-lhe um método de progressão e impõe-lhe uma prática de reflexão que o levará a ponderar os seus juízos de valor em função de conhecimentos que deve reconhecer como mais profundos.
  • Na resposta “Antes queria ter a garganta cortada do que revelar os segredos que me foram confiados”, que pressupõe não só dedicação e respeito pela Ordem, mas também a capacidade de responder ou reagir após um processo de interiorização e valoração, que a pratica do silencio poderá ajudar a tornar inconsciente e natural.
  • Na resposta “Porque todas as forças destinadas a desenvolverem-se utilmente no exterior devem primeiro concentrar-se em si mesmas”, em que claramente transparece a necessidade de um trabalho interior prévio em que o silencio pode e deve ser uma peça fundamental.
Se mais não houvesse para aprender na Maçonaria, o ter conhecido o valor do silencio e tudo aquilo que este me proporcionou, já teria valido a pena.
Partindo de um silencio imposto, cujas motivações se fundamentam na sabedoria milenar do grupo e que constitui como que um tirocínio para o recém iniciado, passa-se para uma fase de utilização em termos interiores do silencio, evoluindo finalmente para um estadio de admiração pelo silencio em que a imposição se transforma em voluntariado que assim se transforma em sabedoria, fechando o círculo e preparando o iniciado para novas fases da sua evolução e do seu crescimento interior.

A. Jorge em 27.04.6000"

26 outubro 2015

O Vigésimo Quinto Venerável Mestre


Com a renúncia do Vigésimo Quarto Venerável Mestre, a Loja deparou-se com uma situação inédita para resolver. Já anteriormente ocorrera uma renúncia do Venerável Mestre a meio do mandato, a do Sétimo Venerável Mestre, José Ruah. Então, a Loja designou para lhe suceder o Primeiro Vigilante, que completou o mandato e foi reeleito para exercer um mandato completo. Mas agora esta solução não era possível, pois o Primeiro Vigilante em funções informou que ou completaria o mandato interrompido, ou exerceria o mandato completo que se iniciasse em setembro seguinte, mas não estava disponível para exercer o ofício de Venerável Mestre durante ano e meio.

Analisado o problema e as várias propostas de solução que foram sendo apresentadas, a solução - como frequentemente sucede quando se debate em conjunto, com lealdade, seriedade e espírito de compromisso - acabou por ser uma que ninguém vira à partida, um verdadeiro "ovo de Colombo", uma solução tão evidente, tão lógica, tão à vista que, com alguma perplexidade, alguns de nós se interrogaram como não tinham pensado nisso antes.

Um dos Mestres fundadores da Loja, constando na carta-patente original da Loja como o seu primeiro Primeiro Vigilante, Hélder V., muito pouco tempo depois da fundação da Loja tivera que a abandonar, cumprindo missão, determinada pelo Grão-Mestre Fundador, de trabalhar em outra Loja. Durante mais de duas décadas, trabalhou em várias Lojas, auxiliando-as com a sua experiência e capacidade organizativa. Ao longo desse tempo, por várias vezes visitara a Mestre Affonso Domingues e ia mantendo contacto connosco. Cerca de um ano antes - talvez um pouco menos - regressara formalmente à Loja e reintegrara o seu Quadro de Obreiros. Exercera, por várias vezes e sob a direção de vários Grão-Mestres, diversas funções como Grande Oficial. Possuía a qualidade de Mestre Instalado. Detinha, assim, as condições regulamentarmente exigidas para poder, de imediato, ser eleito Venerável Mestre da Loja. Não se incomodava rigorosamente nada em exercer o ofício por um tempo mais curto do que a normal duração do mandato. Disponibilizou-se para completar o tempo do mandato do Venerável Mestre que renunciara mantendo em funções todo o o Quadro de Oficiais em exercício. Era o elemento ideal para assegurar a condução dos destinos da Loja pelo cerca de um semestre que faltava até a altura normal para um novo Venerável ser eleito e instalado.

Parecia impossível como nenhum de nós se lembrara antes de que tínhamos ali à mão de semear um Venerável Mestre "chave na mão", pronto e disponível para resolver o problema! Corrijo: acho que pelo menos um de nós se lembrou disso - e foi quem lhe deu a cotovelada (virtual) incitando-o a que se chegasse à frente...

Foi assim que, num abrir e fechar de olhos, de repente, todos se aperceberam que aquela era a solução melhor do que todas as outras que estávamos a analisar e, sem prévia combinação, com um consenso imediata e facilmente estabelecido (como nós, na Mestre Affonso Domingues, nos orgulhamos de frequente e quase rotineiramente conseguir) o Hélder, o nosso muito querido amigo e Irmão Hélder foi, por unanimidade, eleito Vigésimo Quinto Venerável Mestre.

O tempo de exercício do seu mandato foi curto - cerca de metade do normal - e não deu para muito fazer. Mas deu para atalhar ao que estava a perfilar-se como o maior problema da Loja: a recuperação do seu equilíbrio financeiro. As tarefas administrativas e financeiras são sempre as primeiras a sofrer em períodos excecionais e a Loja, num período de crise económica que implicava alguma mobilização dos fundos reservados para solidariedade, após um ano em que efetuara diversas iniciativas, mas também gastara algum dinheiro com elas, e meio ano com o Venerável Mestre ausente e com o Primeiro Vigilante a assegurar a gestão corrente estava a necessitar de dar atenção à sua situação financeira.

Hélder V., conhecido de todos pela sua bonomia e boa-disposição, fez questão de demonstrar que "conhaque é conhaque e serviço é serviço" e exerceu o ofício não hesitando em pôr de lado, quando tal entendeu necessário, essa sua bonomia e exercer a sua função com autoridade e exigência.

Foi o Venerável Mestre adequado para repor a Loja e os seus trabalhos no trilho da rotina, após um período de quase "autogestão" que, embora agradável e incentivador da união entre todos os obreiros da Loja, não deixou de ser um período de anormalidade.

Findo o seu breve mandato, a Loja estava de novo em velocidade de cruzeiro e pronta para seguir o seu caminho sob a orientação do seu sucessor.

Sem dúvida que Hélder V. prestou um bom serviço à Loja, corrigindo, na ocasião certa, os desequilíbrios que detetou e repondo o equilíbrio e o rumo da Loja. Indubitavelmente que cumpriu a sua obrigação de a deixar melhor do que a recebera. Com ele, acabou na normalidade um ano que começara em gestão excecional.

Rui Bandeira