27 abril 2007

Mais Lojas Baden-Powell

No texto Baden-Powell e a Maçonaria, além de fazer constar algumas informações sobre o criador do Movimento Escotista, referenciei a existência de diversas Lojas Maçónicas que adoptaram como sua designação o nome desse profano ilustre.

Recebi ontem uma simpática mensagem de correio electrónica, enviada pelo Irmão HSM, Mestre Instalado da Respeitável Loja Baden-Powell, n.º 185 da Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, informando-me da existência desta Loja, fundada em 4 de Novembro de 2004 e com sede no Oriente de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Esta Loja conta actualmente com 42 obreiros.

Informou também o mesmo Irmão que no Brasil existem ainda mais duas Lojas com o nome Baden-Powell, uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo.

Ao referenciar, no mencionado texto, diversas Lojas com a denominação de Baden-Powell, não tive a pretensão de recensear todas as que existiam. Limitei-me a dar conta do que encontrara em pesquisa na Rede. A achega agora trazida pelo Irmão HSM permite-me agora completar um pouco mais essa informação.

Com gratidão, aqui deixo os meus agradecimentos ao Irmão HSM, também com a menção de que espero que, sempre que tenha informação que julgue útil ou interessante ser publicada aqui no A Partir Pedra, não hesite em transmitir-ma, pois será sempre uma mais-valia para nós divulgar tudo o que importe aos maçons e aos profanos que se interessam pela Maçonaria e temas maçónicos.

Igual desejo expresso aos demais visitantes deste blogue, particularmente aos oriundos do Brasil. Não colocamos aqui mais informação sobre a Maçonaria Brasileira apenas por nosso desconhecimento. Mas estamos sempre atentos e desejosos de, na medida do possível, ir colmatando essa falta, pois estamos cientes - e muito satisfeitos com isso!- de que mais de metade das visitas a este blogue têm origem no Brasil. Na verdade, presentemente, o total de visitas oriundas do Brasil já supera as oriundas de Portugal em 50 % e os acessos através do Google.br triplicam os vindos através do Google.pt! Estamos pois, conscientes de que, sendo este blogue escrito por maçons de uma Loja Regular portuguesa, a Loja Mestre Affonso Domingues, não é já (seria talvez melhor ir adaptando para a sintaxe do português do Brasil: não é mais...) um blogue apenas destinado aos maçons e profanos portugueses, antes é um blogue para os maçons e profanos interessados de língua portuguesa. E cada vez mais, com a ajuda de todos, procuraremos corresponder a isso.

Para já, eu continuarei a procurar corresponder a partir de quarta-feira, pois, até lá, aproveito fim de semana, ponte e feriado para mais umas profanas mini-férias...

Rui Bandeira

26 abril 2007

Visita à Sinagoga "Portas da Esperança"

Ontem, quarta quarta-feira do mês, seria normalmente dia - ou melhor, noite - de sessão da Loja Mestre Affonso Domingues. Sendo também o dia de ontem feriado comemorativo do Dia da Liberdade, entendeu o Venerável Mestre, com o acordo geral da Loja, que se deveria, porém, organizar um programa especial alternativo. Ficou assim aprazada para ontem uma visita que há muito estava projectada, a visita à Sinagoga da Comunidade Israelita de Lisboa, aberta a todos os membros da Loja, famíliares e amigos.

Assim, ao fim da tarde deslocámo-nos à Rua Alexandre Herculano, n.º 59, em Lisboa, local onde se encontra a Casa de Oração, Centro de Estudo e local de reunião da Comunidade Israelita de Lisboa, tendo sido recebidos por um membro da referida Comunidade, que nos proporcionou uma visita guiada e uma interessante sessão de esclarecimento sobre a sinagoga e sobre alguns aspectos da religião judaica.

Quanto às instalações, centro da nossa curiosidade, a sinagoga impressiona sobretudo pela sua sobriedade. Trata-se de um edifício essencialmente funcional, manifestamente projectado e edificado para servir o objectivo do culto religioso judaico, confortável mas não luxuoso, agradável mas sem ostentação.

A Sinagoga "Portas da Esperança" (Shaaré Tikvá, em transliteração do hebraico) foi projectada pelo Arquitecto Ventura Terra, que contou com a colaboração do historiador Joaquim Bensaúde, quanto às normas sobre construção religiosa. Foi inaugurada em 18 de Maio de 1904, com a presença do Grão-Rabino de Gibraltar.

O edifício apresenta a particularidade - resultante de imposição legal na época então vigente, relativamente a qualquer local de culto dedicado a qualquer religião que não a católica - de não ter a fachada virada e dando directamente para a rua. Aliás, a discrição da implantação da sinagoga é notória: quantos se deram conta, ao passar pela movimentada Rua Alexandre Herculano, em Lisboa, que ali existe uma sinagoga? Acede-se às instalações entrando por um discreto portão que dá acesso a um pátio interior e daí então se entra no edifício, orientado de Poente para Nascente.

Para entrar na sinagoga, todos os homens devem ter a cabeça coberta por um chapéu ou por um solidéu. As mulheres podem entrar de cabeça descoberta. A explicação que o nosso guia nos deu - e que muito agradou às senhoras...- foi que os homens devem cobrir a cabeça no local sagrado em sinal de humildade, por serem imperfeitos e, logo, impuros, necessidade inexistente em relação às mulheres. Assim se confirma a explicação feminina do facto de, segundo o Génesis, Deus ter criado primeiro Adão e só depois Eva: faz-se sempre um esboço antes da obra-prima...

O local especificamente destinado ao culto é um amplo salão rectangular, rodeado por duas galerias. Segundo nos informou o nosso guia, salvo em cerimónias específicas, os homens ficam no salão e as mulheres nas galerias. Ao centro da sala fica o espaço de onde o ou os oficiantes dirigem as orações, sempre virados para Oriente. Na parede Oriental (virada a Jerusalém), no topo do salão, pode ver-se uma espécie de portada em duas portas (as portas da Arca Sagrada), em cada uma delas estando gravados, em hebraico, cinco dos Dez Mandamentos revelados pelo Criador a Abraão.

Dentro da Arca Sagrada guardam-se os livros da Tora (o Pentateuco, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento), todos escritos à pena, símbolo a símbolo, em hebraico, em peles, que são enroladas em suportes de madeira e revestidas de mantilhas.

Em frente à Arca da Aliança está pendurada uma lâmpada (Ner Tamid - visível em ambas as fotos), uma lamparina a azeite onde está permanentemente acesa uma luz, em memória do Candelabro do Templo de Jerusalém e evocando a presença contínua do Criador.

Quer a visita, quer os esclarecimentos prestados pelo nosso guia, foram elucidativos da forma de prestar culto ao Criador que é prosseguida pelos praticantes da religião judaica, reforçando no espírito dos membros da Loja Mestre Affonso Domingues um princípio que é constituinte do nosso entendimento: não importa como o Criador é cultuado; seja-o através da Tradição Judaica, de qualquer das variantes Cristãs, dos princípios do Islamismo ou de qualquer outra religião, o que interesa é que é sempre ao mesmo e único Criador que os fiéis de qualquer religião se dirigem.

Os nossoa agradecimentos à Comunidade Israelita de Lisboa, pela simpática recepção e pelos preciosos esclarecimentos prestados. Para quem estiver interessado em visitar esta sinagoga, informa-se que visitas guiadas podem ser efectuadas mediante marcação através do fax (351) 213931139. As imagens que ilustram este texto foram retiradas do sítio na Rede da Comunidade Israelita de Lisboa, mais especificamente daqui.

Rui Bandeira

25 abril 2007

É 25 de ABRIL

Liberdade querida e suspirada



Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!
Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;
Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;
Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!
Bocage




Depois do “post” do Rui fica muito pouco para dizer sobre o significado desta data.
Eu tenho mais 15 anos do que o Rui, o que significa que passei sob aquele regime mais 15 anos do que Ele, tendo-me dado a oportunidade, que dispensaria gratamente, de viver algumas situações que a geração dele já não chegou a sentir, felizmente.
O “Dia do Estudante”, a “greve da fome” na Cantina Universitária, as corridas pelo Jardim Botânico de Lisboa quando as “bestas” a cavalo assaltavam a Faculdade de Ciências, os comunicados dos estudantes coordenados entre as Academias de Lisboa, Porto e Coimbra… (1960/1962)
Claro, a censura, bicho medonho que capou um povo durante dezenas de anos, a guerra, a miséria generalizada transformada, por milagre de Fátima, em bênção divina para ganhar o Céu…, a prisão (que eu não cheguei a ter) e a mordaça, o medo, o medo, o medo, constante, presente em toda a parte, a cada esquina de cada rua, de cada canto deste País.
Falam os defensores do “Estado Novo” (Estado Novo… ?) nas reservas de ouro que Portugal então acumulou.
Pois…, e para quê ? Para utilizar onde ? E com quem ? Como ?
A dupla negra do Sec. XX português Salazar/Cardeal Cerejeira amordaçou um povo, mantendo o isolamento de Portugal relativamente a tudo o que se passava fora das fronteiras do País, filtrando toda a informação publicada, mantendo a ignorância e o atraso do desenvolvimento cultural.
O lema era “ninguém quer o que não sabe que existe” ! e isso fez com que passassem 50 anos praticamente sem consequências na nossa cultura como povo.
A máscara do desenvolvimento industrial serviu para enquadrar milhares de trabalhadores em fábricas, facilitando o controlo das suas vidas e ocupações.
A riqueza, sob a forma dos ordenados que eram pagos nas fábricas, era distribuída “o quanto baste” para o sustento diário curto, muito curto, dando a ilusão que se vivia quando de facto apenas se sobrevivia.
A RTP passa actualmente uma série exemplar na construção, apresentação e verdade histórica, de António Barreto, “Portugal um Retrato Social”, a não perder por razão alguma.





Ontem (dia 24) saltou-me no correio a notícia do lançamento de um livro, “Bocage Maçon” de Jorge Morais.
Bocage foi um dos maiores génios portugueses do Sec. XVIII (morreu em 1805) e foi também ele um excluído da ditadura de então (a tradição de ditaduras vem de longe !), esteve preso, foi perseguido pela Inquisição (hoje é a Congregação para a Doutrina da Fé da qual Ratzinger foi Prefeito), torturado, agredido e finalmente espoliado de tudo acabou morrendo na miséria.
Entretanto foram encontrados elementos, há documentos maçónicos, processos judiciais e muita correspondência da época, que permitem a conclusão de que José Maria Barbosa du Bocage foi Maçon, iniciado (1795/1797) na Loja Fortaleza (fundadora do Grande Oriente Lusitano que mais tarde sofreu a cisão que deu origem à “Grande Loja Legal de Portugal/Grande Loja Regular de Portugal”).
Bocage na Sua Iniciação tomou o cognome maçónico de “Lucrécio”, obrigatório ainda hoje na obediência do GOL mas que a “GLLP/GLRP” não utiliza.
Esta condição de Maçon foi uma das razões que o levaram à prisão e ao sofrimento.

. . .
“Por outro lado, nesta fase da sua vida, Bocage, para além da poesia lírica, compôs poemas de carácter satírico contemplando pessoas do regime, tipos sociais e o clero, facto que não agradou obviamente ao poder. Poemas como "Liberdade, onde estás? Quem de demora?", "Liberdade querida e suspirada", "Pavorosa Ilusão da Eternidade" ou um outro em que faz explicitamente o louvor de Napoleão, paradigma da revolução francesa, e a crítica do Papa conduziram-no à prisão, por crime de lesa-majestade. No Limoeiro, vivendo em condições infra-humanas, moveu as suas influências e beneficiou da amizade do ministro José de Seabra da Silva e da sua popularidade. Três meses mais tarde, era entregue à Inquisição, já sem o poder discricionário que outrora tivera, sob a acusação de impiedade. Dos cárceres da Inquisição passou para o Mosteiro de S. Bento, como comprova o respectivo "Dietário", referente a 1798”
. . .
“Porém, a saga de Bocage com a Inquisição reacendeu-se em 1802, tendo sido aberto novo processo por denúncia feita por Maria Theodora Severiana Lobo que o acusava de pertencer à Maçonaria.
Por falta de provas e provavelmente devido à saúde fragilizada do escritor, o referido processo, que pode ser consultado na Torre do Tombo, foi arquivado. Um último aspecto é digno de menção: a censura perseguiu Bocage durante toda a sua vida.
Muitos versos foram cortados, outros ostensivamente alterados, poemas houve que só postumamente viram a luz do dia. Compreende-se plenamente o seu anseio desesperado: ‘Liberdade, onde estás? Quem te demora?’ ”
(Informação pesquisada na NET em
http://purl.pt/1276/1/liberdade.html)




Hoje, 25 de Abril de 2007, recordo Bocage, não como boémio, sacrílego, desregrado, mas como Homem espiritual e culturalmente desenvolvido (andou pelo Brasil e pela Índia), cidadão interessado, pertenceu à Marinha e foi Ministro.
Crítico mordaz do seu tempo e dos políticos que atraiçoavam o País, não lhes perdoava os jogos de interesses nem as jogadas palacianas.
A sua poesia tanto podia sair sarcástica, irreverente, como libertária ou romântica.
O seu génio permitia-lhe tudo isso.


“Aos sócios da Nova Arcádia” dirigiu-se-lhes um dia clamando:

Vós, Ó Franças, Semedos, Quintanilhas,
Macedos, e outras pestes condenadas;
Vós, de cujas buzinas penduradas
Tremem de Jove as melindrosas filhas:
Vós néscios, que mamais das vis quadrilhas
Do baixo vulgo insonsas gargalhadas,
Por versos maus, por trovas aleijadas,
De que engenhais as vossas maravilhas.


JPSetúbal


24 abril 2007

Memória do último dia sem Liberdade

Faz hoje trinta e três anos que vivi o último dia de Ditadura, o último dia sem Liberdade.

Vivi dezoito anos, oito meses e três dias em Ditadura. Bem menos do que meu Pai. Bem mais, felizmente, do que todos aqueles, o presente e o futuro desta terra, que nem um dia de falta de Liberdade suportaram. Talvez estes não tenham a noção da felicidade que têm: ninguém apreciará, certamente, mais a faculdade de ver do que o cego de nascença que foi curado da sua cegueira... Talvez só aprecie verdadeiramente a Liberdade, a singela Liberdade a transparente Liberdade, a invisível Liberdade, a "inútil" Liberdade quem viveu dela privado.

Eu vivi (só) dezoito anos, oito meses e três dias em Ditadura e tive a sorte de, na maior parte desse tempo, não me aperceber disso, embalado na Inocência da Infância e distraído pelos fulgores da Adolescência. Mas, sempre que a Razão se sobrepôs à Distracção a falta de Liberdade atingiu-me como ao asmático a falta de ar o afecta. É isso: fui um "asmático da Liberdade": tive a sorte de conseguir esquecer muitas vezes a minha insuficiência de Liberdade, mas quando a crise me atingia, atingia forte e feio! E, para mim, cada um dos dias desses dezoito anos, oito meses e três dias foi um dia a mais!

A todos aqueles que têm a ventura de não ter vivido nesse período, deixo as três palavras que a minha memória regista da Ditadura: Medo, Vergonha e Humilhação.

Medo que vi inúmeras vezes nos olhos de meu Pai. Medo que fazia que meu Pai, mesmo no aconchego do lar, sempre que desabafava e lhe escapava alguma palavra ou frase contra o Regime, assustadamente baixava a voz e inquietamente olhava em redor (na sua própria casa...), porque "as paredes tinham ouvidos" e a PIDE estava em todo o lado... Medo que fez meu Pai ter acções hoje tão inauditas como esta: naquele tempo, as "eleições" não eram nada como agora naturalmente ocorre; nem sequer se punha a "cruzinha" num boletim de voto: cada candidatura, a oficial e as pontualmente toleradas, enviava para casa de cada "chefe de família" (só esse podia votar...) um boletim com a sua lista de candidatos; o voto traduzia-se na colocação na urna do boletim da lista escolhida; recordo-me bem do cuidado que meu Pai teve, em 1969, de, antes de sair de casa, colocar num dos bolsos a lista da Situação (A "União Nacional" ou a "Acção Nacional Popular", e no outro a da Oposição. E, depois de voltar, apressadamente, ter ido QUEIMAR a lista da Situação, para que nenhuns restos indiciassem que se tinha atrevido a votar na Oposição...

Vergonha que eu senti ao ser obrigado a usar a farda da "Mocidade Portuguesa". Naquele tempo, não se podia frequentar o Liceu sem, obrigatoriamente, ter de pertencer àquela imitação de pacotilha da Juventude Hitleriana... A vergonha que eu sentia de ter de usar aquela ridícula camisa verde, aqueles patéticos calções caqui, aquele ofensivo cinto com a fivela em forma de "S" (de Salazar, pois claro...)!! Como eu desejava que chovesse a potes nos dias em que eu tinha de ir para a "Bufa" (como nós chamávamos àquela aberração), só para poder tapar com a gabardina aquela farda que me envergonhava!

Humilhação que senti quando, entrado para a Faculdade de Direito de Lisboa, tive de suportar os "famosos" GORILAS, os "contínuos" recrutados pelas suas especiais qualificações de possuírem músculos na proporção inversa em que possuíam miolos e cuja principal função era reprimirem brutalmente qualquer tentativa de manifestação de rebeldia que a "estudantada" ousasse ter. A Humilhação de ver diariamente as minhas Colegas serem objecto de grosseiros piropos oriundos daquelas minúsculas mentes, sem poder pôr devidamente na ordem aqueles brutamontes, sacos ambulantes de esteróides anabolizantes, que ainda por cima andavam sempre aos pares...

Hoje faz trinta e três anos que vivi o meu último dia sem Liberdade. Amanhã, como nos últimos trinta e três anos, no mesmo dia, não escrevo. Saio, passeio, respiro, sobretudo respiro e gozo a Liberdade, que sei apreciar por ter havido tempos em que a não tive. Para mim, amanhã é e será sempre assim:


Rui Bandeira

23 abril 2007

Diálogo (III)

- Antes de passar o teu pedido, tenho de te informar sobre questões materiais...

- Questões materiais? Então a Maçonaria não trata do aperfeiçoamento moral e espiritual?


- Claro que sim, mas isso não impede que, como qualquer organização, não tenha de se preocupar com aquilo com que se compram os melões...


- Já estou a ver o filme! Como já estou convencido a comprar a ideia, agora é altura de falar do preço... Tens a certeza que não foste vendedor de automóveis em outra incarnação?

- Nem acredito em reincarnações! Deixa-te de piadinhas e ouve, para saberes como as coisas se passam.

- Sou todo ouvidos!

- Se fores admitido à iniciação, coisa de que me permito duvidar se continuas com essas piadinhas secas...


- Diz o roto ao nu! Continua, continua...

- Se fores admitido à iniciação, o custo de adesão será de 600,00 euros (Nota: Montante em vigor na Loja Mestre Affonso Domingues desde julho de 2014).


- É carote...

- Na realidade, estás a pagar o avental, a medalha da Loja e outro material que irás receber, além de uma contribuição para os custos gerais. Meu caro, a Maçonaria não se senta à mesa do Orçamento, somos nós que pagamos tudo o que é necessário...

- E já pensaram em deslocalizar para a China o fabrico dos aventais, para os terem mais baratos?

- Ainda não nos tinha ocorrido... O teu espírito empreendedor ainda nos vai ser útil... Adiante! Quanto à quota, são 25,00 euros por mês (Nota: montante em vigor na Loja Mestre Affonso Domingues desde abril de 2012).


- É mais caro do que a quota do Benfica...

- Por enquanto... Mas também não se perdem campeonatos... Repito: todas as despesas, quer da Grande Loja, quer da Loja, são exclusivamente suportadas pelos seus membros. Há que pagar aos funcionários, custear as instalações, telecomunicações, água, electricidade, adquirir materiais, custear viagens, enfim, todas as despesas inerentes ao funcionamento de uma estrutura de alguma dimensão.

- Percebo tudo isso e sei que os custos de funcionamento de qualquer estrutura são elevados. Mas o certo é que, com essas obrigações financeiras, certamente existem interessados que deixam de o ser por não terem condições materiais...

- Infelizmente os custos são o que são. Mas, em casos de necessidade, existem mecanismos que permitem analisar a situação de cada um e diminuir ou até mesmo isentar durante algum tempo o pagamento das quotas, justificando-se tal medida. Mas é verdade que existe a necessidade de um esforço financeiro que, não sendo incomportável, para muitos é importante. Bem gostaríamos que esse esforço fosse menor, mas a realidade é o que é. Por isso mesmo consideramos fundamental informar os interessados das obrigações financeiras que deverão cumprir. A Maçonaria é, para nós, importante, mas à frente de tudo está a família de cada um e só se não prejudicar a estabilidade económica de sua família é que cada um deverá decidir entrar para a Maçonaria. Ser homem de bem é, antes do mais, assegurar o bem-estar dos seus! O resto, mesmo a Maçonaria, só vem depois!

(Nota: Os montantes mencionados no texto foram atualizados para os valores em vigor após deliberações da Loja em maio de 2012, com efeitos a partir de abril de 2012, e em julho de 2014, em função dos compromissos financeiros resultantes da aquisição de instalações para sede da Grande Loja)

Rui Bandeira

20 abril 2007

Carlo Collodi, o maçon que criou Pinóquio

Carlo Collodi não era o seu verdadeiro nome, antes um pseudónimo usado por Carlo Lorenzini. Mas foi por Carlo Collodi que ficou mundialmente conhecido.

Nasceu em Florença em 24/11/1826 e aí passou ao Oriente Eterno em 26/10/1890. Foi jornalista, escritor e combatente voluntário na Guerra de Independência de Itália, entre 1848 e 1860.

Publicou as obras "Gli amici di casa" e "Un romanzo in vapore. Da Firenze a Livorno. Guida storico-umoristica", por volta de 1856. O seu primeiro livro infantil foi publicado em 1876 e intitulou-se "Raconti delle fate". Em 1877 escreveu "Giannettino" e no ano seguinte " Minuzzolo". Em 1881, inicia a publicação de um periódico virado para o público infantil, o "Giornale per i bambini". Foi nesse peródico que originalmente foi publicada, em curtos capítulos, a "Storia di un burattino" (História de um Boneco), o primeiro título do que veio a ser o livro mundialmente conhecido por "Aventuras de Pinóquio", a sua obra-prima. Em 1887, publica ainda "Storie allegre".

A condição de maçon de Carlo Collodi, apesar de não estar confirmada por nenhum documento oficial, é indisputadamente reconhecida. Aldo Molla, profano que, em Itália, é geralmente reconhecido como o historiador ofical da Maçonaria, manifesta essa certeza. Vários elementos biográficos de Carlo Collodi parecem confirmá-la: a criação em 1848 de um jornal chamado "Il Lampione", que, como ele dizia, devia "iluminar todos aqueles que vagueavam nas trevas"; a participação na Guerra da Independência integrado nos voluntários toscanos, em 1848, e a sua, também voluntária, integração no exército piemontês em 1859; a sua extrema proximidade ao reconhecido maçon Mazzini, de quem se declarava "discípulo apaixonado".

Os princípios caros à Maçonaria expressos na trilogia Liberdade - Igualdade - Fraternidade estão expressos nas "Aventuras de Pinóquio": a Liberdade, porque Pinóquio é um ser livre e que ama a Liberdade; a Igualdade, porque a única aspiração de Pinóquio é ser igual aos outros e porque nenhuma personagem é superior às demais, nem em importância, nem em nível social; a Fraternidade, porque este é o sentimento principal que faz agir as personagens nas diferentes situações.

Os elementos para elaborar este texto foram recolhidos aqui e ali.

Rui Bandeira

19 abril 2007

Diálogo (II)

- Explica-me cá uma coisa! Eu conheço um maçon...

- Pelo menos...

- Já percebi a insinuação... Isso vê-se depois, agora deixa-me continuar. Eu conheço um maçon e pude pedir-lhe para entrar na Maçonaria. Mas como faria se não conhecesse? Mesmo considerando-me de bons costumes e querendo aperfeiçoar-me, seguindo o método maçónico, como tu dizes, não tinha hipótese, não tinha a quem pedir...

- Dizes tu, que às vezes dizes sem pensar e não pensas no que dizes...

- Estás sempre a deitar abaixo... Com amigos destes não preciso de inimigos...

- Claro que, mesmo sem conhecer um maçon, um verdadeiro interessado na Maçonaria tem a quem pedir. Então nos dias de hoje! A Maçonaria tem existência legal e sede. Pode enviar uma carta. Mais simples ainda, pode enviar um fax ou uma mensagem de correio electrónico.No sítio da GLLP / GLRP existe uma página de contactos disponíveis para todos. Os sítios das Lojas também costumam disponibilizar pelo menos um endereço de correio electrónico, como sucede, por exemplo, no sítio da Loja Mestre Affonso Domingues. E até mesmo quase todos aqueles tipos que escrevem umas coisas no blogue A Partir Pedra têm também nos seus perfis um endereço de correio electrónico. Queres mais hipóteses de contacto ainda?

-Queres tu então dizer que basta um fulano mandar uma mensagem de correio electrónico e já está, por aqui me sirvo? E estive eu mais de um ano à espera que tu me convidasses... e depois disseste que não havia convite para ninguém, eu que pedisse se quisesse...

- Calma aí, que eu não disse que era assim tão simples...

- Eu logo vi, tu usas sempre a técnica do vendedor, primeiro parece tudo fácil, as complicações vêm depois...

- Tu é que complicas, assim sempre a interromper... Obviamente que alguém que não seja conhecido de nenhum maçon e que contacte declarando o seu desejo de ser admitido maçon, no mínimo tem de ter a Virtude da Paciência. Eu não disse que era rápido... Fácil, barato e que dá milhões só o Euroditos... É evidente que, nessas circunstâncias, é preciso averiguar primeiro de quem se trata, se se trata de uma pessoa digna ou de um qualquer oportunista, quais os seus princípios, se os seus propósitos são sérios, etc.. Só após nos certificarmos disso se poderá avançar.

- E como é que se certificam
?

- Normalmente, são designados alguns elementos que, muito discretamente, procuram saber quem é e como é realmente a pessoa e, utilizando a expressão que já várias vezes usámos nas nossas conversas, se é realmente um homem livre e de bons costumes. Só adquirindo-se essa certeza para além de qualquer dúvida é que se contacta o interessado, apresentando-se-lhe um rosto, alguém a quem, se continuar interessado, possa então pedir a sua adesão. Este processo, no fundo, de conhecimento mínimo da pessoa pode levar muito tempo. E só para chegar ao ponto em que tu agora estás... Se tu te queixas que estiveste mais de um ano à espera, imagina no caso deste suposto interessado. Mas tudo o que tem interesse na vida custa a ser obtido...

- Já entendi! Quem não conhecer um maçon, pode-se oferecer, mas vocês primeiro armam-se em detectives e só se ficarem satisfeitos é que contactam a pessoa.

- Nem mais!

- Estou mesmo a ver, uns fulanos a fazerem perguntas na vizinhança, e tal... E se o fulano tiver o azar de ter a alcunha de Pinóquio, está feito: nem sabe porque nunca foi contactado...

- Pois aí é que te enganas! Eu interessar-me-ia por conhecer mais profundamente essa pessoa!

- Porquê? Agora interessas-te por mentirosos?

- Nada disso, meu caro! Pensa um pouco. Nunca reparaste que a história infantil do Pinóquio não é mais do que uma alegoria do que deve fazer o maçon?

- Essa agora! Dizes então que o maçon deve mentir até lhe crescer o nariz?

- Nada disso. Em primeiro lugar, é ao contrário: o nariz crescia-lhe porque mentia; em segundo lugar, isso é apenas o elemento burlesco para chamar a atenção das crianças para a história. O cerne da história é outro. Trata de um boneco de pau que, com o auxílio de uma fada e de um grilo (que personifica a sua consciência), luta contra os seus defeitos, de forma a tornar-se digno de se tornar um rapaz de carne e osso. Certo?

- Certo.

- O boneco de pau é o maçon que luta para dominar seus vícios e suas paixões (o gato e o raposo). Nessa luta tem o auxílio do grilo (os seus Irmãos) e da fada (a Maçonaria). Com trabalho, com esforço, com avanços e recuos, aprende como os seus defeitos (mentir) e os prazeres materiais (faltar à escola, ir divertir-se para o Parque de Diversões) afinal amarram e limitam o Homem (transformam-no em burro...) e que só a noção do cumprimento dos seus deveres (o trabalho maçónico) permitirá que esteja em condições (o aperfeiçoamento) de vir a ser um verdadeiro menino de carne e osso (ver a Luz).

- Livra, que tu até nas histórias infantis vês Maçonaria...

Rui Bandeira