A Tradição não é prisão

Numa das últimas sessões, graças a um bom àgape, tive oportunidade de apresentar uma prancha onde falei sobre os hemisférios norte e sul e a culminação do Sol e como isso se transfere para as nossas colunas. Teria lógica os aprendizes e companheiros estarem em posições opostas consoante o hemisferio? Conclusão simples, e pensava eu lógica, tanto aqui como no hemisfério lá de baixo todos nos sentamos nas mesmas posições... Todos não!!!!

Isto quase faz lembrar o Astérix e a nossa poção mágica chamada Ritual:

"Toda a Maçonaria está ocupada pelo rito escocês antigo e aceite… Toda? Não. Um rito, praticado por irredutíveis obreiros brasileiros, continua a dar o mesmo sabor à salada, mas de forma diferente.”


O Irmão Filipe M., visitante de uma Loja brasileira que trabalha no Rito Brasileiro, comentou e esclareceu que no rito dele, os Aprendizes e Companheiros estão em posições invertidas em relação ao que conhecemos no Rito Escocês Antigo e Aceite.

Na altura ficou como uma curiosidade, comentário, mas os nossos  ágapes dão sempre azo a mais, com mais tempo e menos formalidade, a conversa evoluiu, vimos que não era apenas uma diferença pontual, mas sim que exisita ali uma lógica própria, uma forma de organizar o trabalho em Loja. Assim lancei o desafio simples para que o irmão Filipe M, viesse falar um pouco mais sobre o Rito Brasileiro, a partir da sua vivência, numa próxima vez que nos visitasse. 

Desafio Aceite!

A prancha que apresentou valeu a pena, não tanto pelas diferenças em si, mas pela forma como as enquadrou,  até o uso de uma imagem simples onde diz que o Rito Brasileiro é como uma “salada”, não como desordem ou mistura aleatória, mas sim construção. Um rito que foi buscar muito ao REAA, integrou elementos de outros ritos e acabou por formar uma identidade própria, pensada, assumida e consolidada ao longo do tempo. Esta ideia de construção consciente atravessa toda a prancha do Filipe, desde a origem histórica até às diferenças práticas no funcionamento da Loja sua loja.

No meio de toda a prancha, há sempre algo que nos salta à vista,, houve uma ideia que me ficou bastante mais presnte "A de que a tradição não é prisão, é fundamento para evoluir." Eu que sou "pró" tradição, quero clarificar bem o ponto, que tal não me ficou na cabeça como crítica ao rito escocês antigo e aceite, que practico,  e é um rito com o qual me identifico, que valorizo e que, na minha opinião, deve ser preservado precisamente pela consistência e pela força da sua tradição. A sua continuidade é uma das suas maiores riquezas e não é isso que está em causa.

O ponto, para mim, é outro, mais transversal, mais próximo do dia-a-dia profano e até da Loja, todos reconhecemos situações em que algo se faz “porque sempre foi assim”, sem que alguém consiga explicar porquê. Eu próprio escrevi aqui no blog e fiz uma prancha precisamente sobre o ritual, coloquei uma questão que continuo a achar pertinente sobre de onde vem este gesto? Que sentido tem? É ritual? Ou simplesmente foi um erro que se tornou hábito, que virou costume, fez-se tradição e acabou por se adaptar como princípio? Nunca se valeu como norma, muito menos se fundamentou como Lei, Landmark.

Foi uma reflexão prática, não teórica.

E é aqui que a frase ganha verdadeiro sentido, ao menos para mim, a tradição só não é prisão quando é compreendida, quando sabemos distinguir aquilo que é essencial daquilo que apenas herdámos sem questionar. Há uma diferença clara entre preservar e cristalizar, pois preservar implica compreender e manter aquilo que tem valor, enquanto cristalizar é repetir tudo, indiscriminadamente, incluindo aquilo que nunca teve fundamento sólido, mas que, por repetição, ganhou estatuto de tradição.

O que o Rito Brasileiro trouxe, pelo menos na forma como foi apresentado, foi um exemplo dessa consciência. Não uma vontade de mudar por mudar, mas uma capacidade de olhar para a tradição, perceber as suas origens e trabalhar sobre elas, adaptando sem romper e ajustando sem perder identidade. E isto, gostemos mais ou menos das soluções concretas, é um exercício que merece reflexão.

No fim, a principal aprendizagem que retiro não está nas diferenças entre ritos, mas na forma como olhamos para o nosso. Preservar não é repetir, preservar é compreender. E talvez seja aí que a tradição deixa de ser prisão e passa a ser, verdadeiramente, fundamento para evoluir.

João B. M∴M∴

Comentários

Neacir Lacerda disse…
Quero parabenizar o blog, onde são apresentados excelentes trabalhos. Fui iniciado no Rito Brasileiro e posteriormente mudei de oriente e migrei para o REAA. Tenho saudades, lá também colei os graus superiores, indo até o grau 30. Atualmente sou 33 pelo REAA. Sou residente no interior do estado de Minas Gerais. Abraços para todos os irmãos além mar.

Mensagens populares deste blogue

Audi, Vide, Tace

Maçonaria e Filosofia Pitagórica - o SEIS, o SETE, o OITO e o NOVE

Cinco motivos para NÃO SER maçon