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28 fevereiro 2026

O Sol não muda. Nós é que mudamos de hemisfério.

Na quarta-feira, depois da sessão, durante o nosso ágape, surgiu uma conversa curiosa sobre algo do dia a dia que raramente notamos. Em Portugal o Sol culmina a Sul, no Brasil culmina a Norte. É um facto. Esta constatação levou-nos a uma pergunta que começou por ser quase técnica, mas que rapidamente se tornou maçónica. Se o ponto mais alto do Sol muda de lado conforme o hemisfério, será que também o seu significado simbólico muda? Será que aquilo que para nós, em Portugal, representa plenitude, “lá em baixo” representa sombra? Onde se sentam os irmãos Aprendizes no Brasil? No Sul?

Não foi uma pergunta de resposta imediata. Temos a sorte de ter irmãos brasileiros na Loja, mas talvez o mais interessante nem tenha sido a resposta, foi termos parado para pensar nela.



Desde tempos imemoriais que o homem organiza o seu espaço segundo o movimento do Sol. Templos megalíticos alinhados com solstícios, cidades orientadas pelo nascer da Luz, civilizações que estruturaram o calendário a partir do arco solar. Estive no fim do ano em Malta e tive a oportunidade de visitar Ħaġar Qim, impressionante. Nota-se que o Sol nunca foi apenas uma estrela, foi, e é, referência, medida, orientação. Também os nossos grandes navegadores portugueses, “Que da Ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados, passaram ainda além da Taprobana”, aprenderam a ler o céu. Ao meio-dia, quando o Sol atingia o ponto máximo, mediam a sua altura para determinar a latitude e saber onde estavam no imenso oceano. Não perguntavam onde estava o Sol, mas sim qual era a sua posição em relação ao Sol.

O Sol nasce no Oriente para principiar o dia e esconde no Ocidente para terminar o dia, em qualquer templo ou lugar do planeta. O início e o fim são universais. O que muda é o arco que Sol percorre no céu, enquanto no hemisfério Norte culmina a Sul, no hemisfério Sul inclina-se para Norte. Talvez a vida funcione assim, todos começamos por um momento de despertar e todos caminhamos inevitavelmente para um limite comum, mas o percurso entre esses dois pontos é moldado pela latitude da nossa história, pela cultura que nos envolve, pelas circunstâncias que nos desafiam e pelas sombras que trazemos. Quando o Sol atinge o seu ponto mais alto, as sombras não desaparecem, tornam-se apenas mais curtas e recolhem-se sob os nossos pés.

A maturidade não elimina a imperfeição, ensina apenas a colocá-la na sua justa proporção.

Talvez a pergunta que verdadeiramente importa não seja onde culmina o Sol, mas onde culmina a nossa consciência, não é saber se a Luz está a Norte ou a Sul, mas perceber se estamos dispostos a ajustar a nossa posição quando descobrimos que o mundo é maior do que o nosso horizonte habitual. É confortável acreditar que o nosso lado do céu é o centro, mas o crescimento começa precisamente quando aceitamos que o mesmo Sol pode ser visto de ângulos diferentes sem deixar de ser o mesmo.

Num tempo em que tudo parece exigir alinhamentos rígidos e pertenças exclusivas, talvez devêssemos olhar para cima e aprender com o céu, pois ele  apenas cumpre o seu percurso. A questão é saber se nós fazemos o mesmo ou se continuamos a confundir o nosso ponto de vista com a verdade absoluta.

João B. M∴M∴

12 fevereiro 2014

Sol e Lua


Na parede (ou junto ou perto desta) do lado oposto à entrada do espaço de reunião de uma Loja maçónica são visíveis representações do Sol e da Lua, aquele do lado direito de quem entra, esta do lado oposto.

O Sol, estrela sem a qual não seria possível a existência de vida no nosso planeta, desde a mais remota Antiguidade que foi associada pela Humanidade à Vida, à Criação. As religiões primitivas divinizavam o Sol. O mesmo se verificou no Egito, na Suméria e noutras regiões das civilizações da Idade do Bronze e subsequentes, prévias às mais elaboradas crenças greco-romanas e ao Monoteísmo.  

O Sol sempre foi associado ao princípio ativo, ao masculino, ao poder criador.

Por outro lado, a Lua é associada ao princípio passivo, ao feminino, à fecundidade.

A colocação destes símbolos no espaço das reuniões maçónicas não tem nada a ver com crenças pagãs ou religiosidades primitivas, mas insere-se na mesma linha da simbologia do pavimento mosaico: a chamada da atenção para a dualidade, especificamente, no caso, para a polaridade.

O Sol e a Lua simbolizam o dia e a noite, a luz direta e a luz reflexa, a ação e a reflexão, o trabalho ou atividade e o descanso, o dinâmico e o estático, a crueza da forte luz solar e a placidez da suave luz lunar, a ação e a reação. São símbolos que nos recordam que nada é tão simples e direto como possa parecer á primeira vista, que a aparência exterior que brilha como a luz solar encobre a natureza interior que se vislumbra como a pálida luz da Lua. 

Os dois símbolos recordam-nos que há tempo de agir e tempo de refletir. Há tempo de fazer e tempo de descansar. Há tempo de aprender e tempo de ensinar. Há ação e contemplação. Há dia e há noite. Há verso e há reverso. Todas estas dualidades integram a Realidade, afinal constituem a Realidade.

O Sol e a Lua dão-nos a noção do dinamismo da Vida, da Criação, do Real, da interação entre duas polaridades que se atraem e que se repelem, que mutuamente se influenciam. Dois princípios, duas forças, dois elementos, dois fatores, que ambos existem, ambos são reais, mas ambos são incompletos, completando-se apenas mediante a sua mútua influência. Tal como já o Pavimento Mosaico perspetivara, a Criação, a Vida, o Real, não são estáticos, não são simples, não são básicos. São dinâmicos, são complexos, são evolutivos. 

Ao meditar sobre a relação entre estes dois símbolos, o maçom deve adquirir a noção de que se não deve limitar a um único aspeto da realidade, a um único tema de estudos. A espiritualidade é importante, mas não menos importante é a materialidade. Espírito e matéria não se opõem - completam-se. Tal como o Sol e a Lua não se digladiam, repartem entre si o dia e a noite. E um dia completo, um ciclo de vinte e quatro horas, compõe-se de dia e de noite, do reino do Sol e do tempo da Lua. Assim também o Homem completo não dedica apenas a sua atenção aos assuntos do espírito, também se dedica aos negócios da vida real e quotidiana, material. Tão incompleto é aquele que apenas se importa com o material, o dinheiro, o poder social, o ter, ignorando a vida espiritual, o aperfeiçoamento moral, o interior de si mesmo, o ser, como aqueloutro que navega nas regiões etéreas do esoterismo, ignorando, ou fazendo por ignorar, que a Vida é esforço e trabalho e pó e carne e esforço e ação e construção.

O Sol e a Lua simbolizam opostos, mas opostos que mutuamente se influenciam e se completam. Assim deve o maçom gerir a sua vida: estudar mas também aplicar, contemplar sem deixar de trabalhar, imaginar mas também executar, fazer e descansar, ter o que necessita para Ser, mas Ser sempre acima do mero Ter.

Rui Bandeira