Bem comum e liberdades individuais
Li hoje uma notícia sobre um "motoqueiro" de 55 anos que, de cima da sua Harley, protestava contra a lei que passava a obrigar ao uso do capacete. Enquanto o fazia teve que fazer uma travagem brusca, foi lançado sobre o guiador, caiu de cabeça e, como não usava capacete... morreu.
Uma vez mais se me colocou esta questão: até onde pode, ou deve, a sociedade regular as liberdades individuais? Dever-se-á deixar ao juízo (ou falta dele...) de cada um o uso de capacete? E se o motoqueiro for um pai de família, que depende dele para o seu sustento? E se for uma pessoa com um cancro em fase terminal? E se do acidente decorrerem custos de tratamento enormes, pagos por todos os contribuintes - muitos dos quais até teriam votado a obrigatoriedade do uso do capacete?
O consumo de drogas deve ser liberalizado? E a condução sob a influência de drogas? E conduzir zangado? Se uma Testemunha de Jeová (religião que proíbe as transfusões de sangue) se apresentar inconsciente num hospital em consequência de um acidente, deverá o médico de serviço deixá-la morrer por falta de uma transfusão, ou salvar-lhe a vida recorrendo a algo que a sua religião proíbe, quando não haja tratamento alternativo? E se a pessoa estiver consciente e recusar a transfusão? E se for o filho pequenino dessa pessoa que esteja doente, e ela peça aos médicos que antes deixem o filho morrer do que lhe dêem uma transfusão?
Até que ponto podemos ou devemos sacrificar o indivíduo ao bem comum? Ou o bem comum ao indivíduo? Há séculos que estas questões se discutem. E há séculos que ficam sem resposta - ou pelo menos sem uma resposta categórica, uma vez que recebem respostas diferentes, cada uma fundamentada sobre distintas premissas. Não é, porém, por se saber a priori que não há uma resposta universal que deve deixar de se discutir estas questões. É importante que cada um tenha as suas próprias respostas, mesmo que estas sejam diferentes das daqueles que o rodeiam. E se não é essencial que todos afinem pelo mesmo diapasão, é desejável que todos tenham consciência da diversidade de respostas, e de que há pelo menos alguma legitimidade nessa diversidade.
Assim sucede - ou deve suceder - numa loja maçónica. Não é importante que todos pensem igual; pelo contrário, é bom que pensem diferente, para que todos tenham a oportunidade de aprender, desde cedo, o respeito pelas ideias com que não se identificam.
Paulo M.

Comentários
É através de uma sã oposição de opostos que frui num debate, que se pode chegar a conclusões que servirão ambas as partes intervenientes.
Não se trata de convencer ou submeter outrém; antes sim ,de tolerar e aceitar opinião contrária à opinião pessoal.
E nesse aspeto a Maçonaria tem um claro papel na mudança de mentalidades que desde o chamado "Século das Luzes" até aos tempos contemporâneos em que vivemos.
Graças à sua ação na "mudança" de mentalidades, se pode hoje em dia fazer e debater as questões que o Paulo fez. As respostas só o tempo as poderá as dar...
TAF
Existe uma Lei regente. Podemos não concordar, mas temos que cumprir.
Cumprimentos
JPa
Quando a lei é injusta, ou errada, deve mudar-se - sempre dentro das regras da democracia e no respeito do ordenamento jurídico do país.
Um abraço,
Paulo M.
Aceitar opiniões e de suma importância, claro respeitando a de cada um o livre arbítrio.
Abraços
D.Lucas Barbosa
Se algo estiver errado peço, com todo o agrado que me corrijam.