É 25 de ABRIL

Liberdade querida e suspirada



Liberdade querida e suspirada,
Que o Despotismo acérrimo condena;
Liberdade, a meus olhos mais serena,
Que o sereno clarão da madrugada!
Atende à minha voz, que geme e brada
Por ver-te, por gozar-te a face amena;
Liberdade gentil, desterra a pena
Em que esta alma infeliz jaz sepultada;
Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,
Vem, oh consolação da humanidade,
Cujo semblante mais que os astros brilha;
Vem, solta-me o grilhão da adversidade;
Dos céus descende, pois dos Céus és filha,
Mãe dos prazeres, doce Liberdade!
Bocage




Depois do “post” do Rui fica muito pouco para dizer sobre o significado desta data.
Eu tenho mais 15 anos do que o Rui, o que significa que passei sob aquele regime mais 15 anos do que Ele, tendo-me dado a oportunidade, que dispensaria gratamente, de viver algumas situações que a geração dele já não chegou a sentir, felizmente.
O “Dia do Estudante”, a “greve da fome” na Cantina Universitária, as corridas pelo Jardim Botânico de Lisboa quando as “bestas” a cavalo assaltavam a Faculdade de Ciências, os comunicados dos estudantes coordenados entre as Academias de Lisboa, Porto e Coimbra… (1960/1962)
Claro, a censura, bicho medonho que capou um povo durante dezenas de anos, a guerra, a miséria generalizada transformada, por milagre de Fátima, em bênção divina para ganhar o Céu…, a prisão (que eu não cheguei a ter) e a mordaça, o medo, o medo, o medo, constante, presente em toda a parte, a cada esquina de cada rua, de cada canto deste País.
Falam os defensores do “Estado Novo” (Estado Novo… ?) nas reservas de ouro que Portugal então acumulou.
Pois…, e para quê ? Para utilizar onde ? E com quem ? Como ?
A dupla negra do Sec. XX português Salazar/Cardeal Cerejeira amordaçou um povo, mantendo o isolamento de Portugal relativamente a tudo o que se passava fora das fronteiras do País, filtrando toda a informação publicada, mantendo a ignorância e o atraso do desenvolvimento cultural.
O lema era “ninguém quer o que não sabe que existe” ! e isso fez com que passassem 50 anos praticamente sem consequências na nossa cultura como povo.
A máscara do desenvolvimento industrial serviu para enquadrar milhares de trabalhadores em fábricas, facilitando o controlo das suas vidas e ocupações.
A riqueza, sob a forma dos ordenados que eram pagos nas fábricas, era distribuída “o quanto baste” para o sustento diário curto, muito curto, dando a ilusão que se vivia quando de facto apenas se sobrevivia.
A RTP passa actualmente uma série exemplar na construção, apresentação e verdade histórica, de António Barreto, “Portugal um Retrato Social”, a não perder por razão alguma.





Ontem (dia 24) saltou-me no correio a notícia do lançamento de um livro, “Bocage Maçon” de Jorge Morais.
Bocage foi um dos maiores génios portugueses do Sec. XVIII (morreu em 1805) e foi também ele um excluído da ditadura de então (a tradição de ditaduras vem de longe !), esteve preso, foi perseguido pela Inquisição (hoje é a Congregação para a Doutrina da Fé da qual Ratzinger foi Prefeito), torturado, agredido e finalmente espoliado de tudo acabou morrendo na miséria.
Entretanto foram encontrados elementos, há documentos maçónicos, processos judiciais e muita correspondência da época, que permitem a conclusão de que José Maria Barbosa du Bocage foi Maçon, iniciado (1795/1797) na Loja Fortaleza (fundadora do Grande Oriente Lusitano que mais tarde sofreu a cisão que deu origem à “Grande Loja Legal de Portugal/Grande Loja Regular de Portugal”).
Bocage na Sua Iniciação tomou o cognome maçónico de “Lucrécio”, obrigatório ainda hoje na obediência do GOL mas que a “GLLP/GLRP” não utiliza.
Esta condição de Maçon foi uma das razões que o levaram à prisão e ao sofrimento.

. . .
“Por outro lado, nesta fase da sua vida, Bocage, para além da poesia lírica, compôs poemas de carácter satírico contemplando pessoas do regime, tipos sociais e o clero, facto que não agradou obviamente ao poder. Poemas como "Liberdade, onde estás? Quem de demora?", "Liberdade querida e suspirada", "Pavorosa Ilusão da Eternidade" ou um outro em que faz explicitamente o louvor de Napoleão, paradigma da revolução francesa, e a crítica do Papa conduziram-no à prisão, por crime de lesa-majestade. No Limoeiro, vivendo em condições infra-humanas, moveu as suas influências e beneficiou da amizade do ministro José de Seabra da Silva e da sua popularidade. Três meses mais tarde, era entregue à Inquisição, já sem o poder discricionário que outrora tivera, sob a acusação de impiedade. Dos cárceres da Inquisição passou para o Mosteiro de S. Bento, como comprova o respectivo "Dietário", referente a 1798”
. . .
“Porém, a saga de Bocage com a Inquisição reacendeu-se em 1802, tendo sido aberto novo processo por denúncia feita por Maria Theodora Severiana Lobo que o acusava de pertencer à Maçonaria.
Por falta de provas e provavelmente devido à saúde fragilizada do escritor, o referido processo, que pode ser consultado na Torre do Tombo, foi arquivado. Um último aspecto é digno de menção: a censura perseguiu Bocage durante toda a sua vida.
Muitos versos foram cortados, outros ostensivamente alterados, poemas houve que só postumamente viram a luz do dia. Compreende-se plenamente o seu anseio desesperado: ‘Liberdade, onde estás? Quem te demora?’ ”
(Informação pesquisada na NET em
http://purl.pt/1276/1/liberdade.html)




Hoje, 25 de Abril de 2007, recordo Bocage, não como boémio, sacrílego, desregrado, mas como Homem espiritual e culturalmente desenvolvido (andou pelo Brasil e pela Índia), cidadão interessado, pertenceu à Marinha e foi Ministro.
Crítico mordaz do seu tempo e dos políticos que atraiçoavam o País, não lhes perdoava os jogos de interesses nem as jogadas palacianas.
A sua poesia tanto podia sair sarcástica, irreverente, como libertária ou romântica.
O seu génio permitia-lhe tudo isso.


“Aos sócios da Nova Arcádia” dirigiu-se-lhes um dia clamando:

Vós, Ó Franças, Semedos, Quintanilhas,
Macedos, e outras pestes condenadas;
Vós, de cujas buzinas penduradas
Tremem de Jove as melindrosas filhas:
Vós néscios, que mamais das vis quadrilhas
Do baixo vulgo insonsas gargalhadas,
Por versos maus, por trovas aleijadas,
De que engenhais as vossas maravilhas.


JPSetúbal


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Audi, Vide, Tace

Maçonaria e Filosofia Pitagórica - o SEIS, o SETE, o OITO e o NOVE

Cinco motivos para NÃO SER maçon