11 abril 2026

Roma, la bella Roma

Nesta Páscoa fui a Roma passar uns dias com a família., não foi uma daquelas viagens pensada ao detalhe, com tudo marcado e a seguir um horário rígido. Claro que tivemos que marcar algumas coisas como o Museu do Vaticano ou o Coliseu, caso não o tivéssemos, nãp entraríamos. Mas o resto do tempo foi ao sabor do momento, assim como Roma pede. Já lá estive diversas vezes, mas desta quis mostrar a cidade à minha filha, com tempo. E posso dizer que há qualquer coisa de especial em voltar a um sítio que já conhecemos, mas vê-lo pelos olhos de quem o está a descobrir pela primeira vez.

Quando fomos à Basílica de São Pedro tivemos a sorte, ou privilégio, de ver o Papa, certo que o vimos ao longe, mas há algo....não sei, não se explica. A Basílica, linda e imponente mas o Coliseu foi o que pôs um brilho nos olhos da minha filha!!! Também caminhámos pelo Fórum Romano e pelo Monte Palatino, descemos às Catacumbas de São Calisto e às Catacumbas de São Sebastião, passámos pela Via Appia Antica, parámos na Fontana di Trevi e deixámo-nos ficar na Piazza Navona a ver a vida a passar. 

Mas no Vaticano, tivemos a sorte de só conseguir bilhetes com guia para o Museu, num espaço daqueles, onde tudo parece demais, alguém que nos ajude a olhar faz toda a diferença. Lembro-me de parar na Escola de Atenas, de Raphael, e ficar ali um bocado mais do que o esperado, aquela ordem, aquele equilíbrio entre tantos pensamentos diferentes… não se explica bem, sente-se. E depois a Capela Sistina, entra-se, olha-se para cima e, sem dar por isso, ficamos em silêncio. Acho eu que não é só a pintura de Michelangelo, mas o seu todo, como se tudo ali estivesse organizado para nos fazer percorrer uma história.

Pelo meio das nossas voltas, entrávamos em igrejas como quem entra para descansar, umas cheias, outras quase vazias, algumas grandiosas, outras tão simples que quase passam despercebidas. E, curiosamente, foi aí que a viagem me tocou mais. Uma igreja onde parámos por acaso, perto do hotel,  a Santa Maria degli Angeli e dei Martiri.

Por fora não chama a atenção, e lá dentro também não é daquelas que nos cai em cima com ouro e pintura. Depois de pesquisar descobri que foi construída por Michelangelo aproveitando as antigas Termas de Diocleciano, e talvez se note pois há ali uma escala diferente, mais aberta, mais limpa, quase crua. Não é uma igreja que impressione, é uma igreja que nos deixa bem.



Por lá e sem pressa, reparei numa linha no chão, nada estranho à primeira vista, atravessa a nave, mas no meio e em cima da linha um pouco de luz solar. Alto! Isto foi pensado sem dúvida, comecei a olhar vi numers na linha e logo tive que apanhar o telemóvel e pesquisar o que estava realmente a ver. Googlando percebi,  que no século XVIII, durante o papado de Clemente XI, o astrónomo Francesco Bianchini construiu ali uma meridiana, um instrumento a sério, não algo decorativo.

Um pequeno orifício deixa entrar um feixe de luz que, ao meio-dia, toca essa linha. E como é lógico esse ponto não é estático, pois ao longo do ano, desloca-se com precisão, seguramente de esquadro e compasso. Nos solstícios vai aos extremos, nos equinócios marca pontos exactos, e pelo caminho cruza os signos do zodíaco desenhados no chão. Foi algo feito não para enfeitar, mas sim para para medir. Para provar. Para alinhar o tempo da terra com o movimento do céu. Engraçado, e momento wikipedia, o próprio Bianchini estava ligado aos grandes nomes da ciência da época, incluindo Isaac Newton, que o propôs como Membro da Royal Society em 1713. Mais engraçado, é que "O Magnânimo" , o português Rei Dom João V, foi um dos seus grandes patronos, tendo este não só nomeado um dos "mares" de Vénus em seu nome, como também dedicado a obra da sua vida, o livro Hesperi et Phosphori (1728), sobre o planeta Vénus em sua honra.


Há ligações que vêm de muito longe até de outros tempos, de outras pessoas, de outras intenções… e que, sem darmos por isso, ainda hoje se cruzam connosco. Aquilo que para muitos é apenas um risco no chão, para mim acabou por ser muito mais do que isso. 

Há coisas que, vistas com pressa, parecem pequenas. Mas, quando paramos um pouco…crescem. E, às vezes, é nessas que encontramos mais sentido.

João B. M∴M∴

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