22 setembro 2016

1717? 1721? Por enquanto, ainda 1717...


O tema começou a chamar a atenção quando o Irmão Chris Hodapp, no seu blogue Freemasosns for Dummies, informou que, na Conferência sobre a História da Maçonaria que a Loja Quatuor Coronati, n.º 2076, o Queen's College e a Universidade de Cambridge organizaram, dedicada ao 300.º aniversário da fundação da Primeira Grande Loja de Inglaterra, em 1717, o prestigiado historiador Andrew Prescott, professor da Universidade Glasgow (que, além do mais foi o fundador e Diretor, entre 2000 e 2007, do Centro de Investigação sobre a Maçonaria na Universidade de Sheffield) e a historiadora Susan Mitchell Sommers, professora de História do St. Vincent College, apresentaram uma comunicação na qual terão reportado a descoberta, na parte de trás de um dos Livros de Atas da Loja Antiguidade, n.º 2, uma ata referente à criação da Grande Loja de Londres e Westminster (a primeira Grande Loja) em 1721, na qual, designadamente se refere como Grão-Mestre fundador John Montagu, o 2.º Duque de Montagu.

Este documento porá em crise a versão, até agora indisputadamente aceite, relatada por James Anderson, na edição de 1738 das Constituições dos Maçons, de que a fundação da primeira Grande Loja ocorreu no dia de São João de 1717, sendo seu primeiro Grão-Mestre Anthony Sayer. Este documento também, similarmente, poria em crise que George Payne e John Teophilus Desaguliers tivessem antecedido no ofício de Grão-Mestre, entre 1717 e 1721, Lord Montagu.

A Loja Antiguidade, n.º 2, é tida como sucessora da Loja que reunia na taverna The Goose and the Giridon, uma das quatro Lojas fundadoras da Primeira Grande Loja.

Na edição n.º 2176 do JB News, o Irmão Kennyo Ismail retoma o tema, sob o título O embuste da fundação da Grande Loja Unida de Inglaterra, repetindo a informação de Chris Hodapp e afirmando que sempre duvidara do acerto da data de 1717, por falta de "um documento com registro público da época, ou mesmo uma notícia reproduzida em um dos jornais londrinos".

Com todo o respeito pelo entendimento do Irmão Kennyo Ismail - de cujas posições raramente discordo -, este seu argumento não é válido, pela simples razão de que também se aplica a 1721... Com efeito, também nenhum registo público ou notícia de jornal existe sobre a fundação da Primeira Grande Loja em 1721... 

Não quero com isto dizer que a descoberta da ata relatada por Prescott e Sommers não venha a conduzir a uma revisão da data até agora aceite como sendo a da fundação da Primeira Grande Loja. A História faz-se em função de documentos e não se pode nem deve ignorar um novo documento descoberto.

Mas, se estou perfeitamente disponível para a revisão da data da referida fundação, acho que é ainda prematuro fazê-lo.

Não basta um relato de uma comunicação dando conta da descoberta de um documento. Aliás, essa comunicação ainda nem sequer está publicada: só será publicada em 2017, juntamente com as demais comunicações da Conferência.

Temos primeiro que ler essa comunicação, para podermos verificar se o que os seus autores declaram é efetivamente aquilo que o relato, em segunda mão, afirma. Mas, mais, os historiadores terão que verificar e analisar o documento descoberto, designadamente para se assegurar da sua autenticidade. E, concluindo-se que o documento é autêntico, os historiadores terão ainda de se assegurar da sua veracidade. Isto é, nesta questão estamos ainda no início do que pode ser um longo caminho e de ponto de chegada ainda incerto.

Será a dita ata autêntica ou forjada? Para já, desconfio do facto de estar na parte de trás de um dos livros de atas da Loja Antiguidade, n.º 2... Um documento na parte de trás de um livro de atas faz desconfiar que tenha sido elaborado depois dos que estão registados nas folhas do livro... Depois, é de desconfiar que num livro de atas com perto de 300 anos só agora alguém descobrisse tão importante documento... 

Há ainda dados que têm de ser considerados e analisados, para se poder com alguma segurança concluir, se for caso disso, da autenticidade do documento. Por exemplo, William Preston foi o Venerável Mestre da Loja Antiguidade, n.º 2, que a conduziu na secessão desta, ou de parte dos membros desta Loja, da Grande Loja dos Modernos (a Primeira Grande Loja), em 1779, integrando a Grand Lodge of All England at York, secessão esta que durou até 1790, tendo então cessado com a reunificação da Loja Antiguidade, n.º 2, sob a égide da Grande Loja dos Modernos. A causa desta secessão foi a expulsão de Preston, acusado de ter liderado uma procissão maçónica não autorizada pela Grande Loja. Na ocasião, Preston invocou a senioridade da Loja Antiguidade, uma das quatro Lojas fundadoras da Primeira Grande Loja, enquanto sucessora da Loja que reunia em The Goose and the Giridon, Em face do documento agora surgido, se autêntico, o normal seria que Preston invocasse, não a senioridade da Loja Antiguidade enquanto sucessora da Loja que reunia em The Goose and the Giridon, mas sim essa senioridade em nome próprio, em 1721... 

Mas, mesmo que estabelecida seja a autenticidade do documento, haverá ainda que verificar da sua veracidade. Sendo autêntico o documento, isso só prova que alguém, na época, escreveu o que nele está. Resta saber se o que está escrito é verdade!

Várias dúvidas terão de ser afastadas e para isso é indispensável conhecer o teor exato do texto. Por exemplo, não sucederá que o responsável pela escrita do texto considerasse que só com o início da liderança de Montagu, o primeiro de uma longa lista de nobres que dirigiram a Primeira Grande Loja e a Grande Loja Unida de Inglaterra até aos dias de hoje, é que verdadeiramente se podia considerar fundada a Grande Loja? Que as lideranças anteriores, entre 1717 e 1721, de simples plebeus, mais não foram do que trabalhos preparatórios para uma vera fundação, que só se podia considerar realizada sob a égide de um membro da nobreza? 

Uma outra interrogação me assalta ainda: em 1738 (aquando da publicação da edição das Constituições de Anderson que relata a fundação da Primeira Grande Loja), ainda certamente eram vivos muitos elementos que viveram a fundação da Primeira Grande Loja. Afinal, só tinham ainda passado 21 anos - ou 17 anos... Se Anderson falsificou a fundação da Primeira Grande Loja, ao ponto de a antecipar em quatro anos e inventar três Grão-Mestres antes de Montagu (ainda com a particularidade de um deles - George Payne - ter exercido o ofício por duas vezes, não consecutivas, pormenor que não lembraria ao Diabo inventar...), será que nenhum dos contemporâneos ainda existentes da fundação nada diria, nem escreveria, nem ao menos faria qualquer referência na sua Loja, que ficasse registada em ata?

Até pode ser que a data da fundação da Grande Loja tenha de ser revista e que a lista dos seus Grão-Mestres tenha de ser amputada de três elementos (incluindo Desaguliers). Mas, para já, o que sabemos, na minha opinião, ainda não permite essa conclusão. Ainda há que ler, que estudar o documento, que analisar, enfim, que fazer o trabalho que os historiadores fazem, antes de se chegar a uma conclusão definitiva. Que pode alterar a data até agora aceite ou manter essa data como a correta...

Aguardemos com paciência, que também deve ser uma virtude cultivada pelos maçons!

Rui Bandeira

19 setembro 2016

Sobre Esoterismos (republicação)

Hoje republico um texto da autoria do José Ruah dos idos de 2007, texto este em que o seu autor aborda "esoterismos "vários...
Foi, à época, a sua resposta a um comentador e leitor habitual do blogue, o "simple", e feita de uma forma interessante e lúdica.
Ficam nas linhas abaixo transcritas o referido texto para ser consultado:

" Sobre Esoterismos

Falei num post prévio da linha esotérica, e o nosso leitor Simple que lê todas as letrinhas que escrevemos neste blog não deixou passar essa referencia em branco e questionou sobre.

O esoterismo está em minha opinião no feitio de cada um.

Eu sou cartesiano, racionalista, e sigo linhas de pensamento lógicas sendo também um pouco Maniqueísta. É a minha formação, é a minha forma de ser na sociedade civil, sou assim em casa com a família.

De vez em quando, se a situação o exige visto a minha capa de politico e passo a admitir alguns tons de cinzento e situações menos lógicas.

Acredito que a Maçonaria tem origens definidas e que com os landmarks, os regulamentos, os rituais, a prática se pode muito bem responder a toda e qualquer questão que se levante.

Mas hoje estou aqui para falar de Esoterismo. Sendo este um tema de grande importância na Maçonaria, decidi contudo fazer uma abordagem ligeira, ou talvez não.

Creio que o esoterismo se pode dividir em categorias (cá está a minha faceta lógica) e a melhor maneira que encontrei de as explicar foi com a apresentação de exemplos. Uns são totalmente inventados para este efeito, outros são reais. Temos então as seguintes categorias (classificação é minha e inventada agora mas se estivesse em publico diria “ segundo uma antiga tradição … [juntando em voz baixa e para o lado “que acabo de inventar” ] ) de esoterismo:


Esohisterismo
Enoterismo
Esoterismo Complexo
Esoterismo Simples
Esoterismo Super Simples


EsoHisterismo

1) A Razão pela qual numa loja existe o pavimento mosaico advém do cosmos e da superposiçao da Lua em Marte, com uma incidência de Vénus as 10h34min do dia 23 de Março do ano de 1658, como é evidente para qualquer mortal.

2) Mozart foi iniciado em 14 de Dezembro de 1784.
José Ruah (eu próprio) foi Iniciado em 14 de Dezembro de 1991

Se repararmos nos anos e aplicarmos a regra dos 9 fora, temos que:
1784 = 2
1991 = 2

Mozart tinha 28 anos quando foi iniciado
José Ruah 27

Pela mesma regra

28 = 1
27 = 0
(o que é uma absoluta verdade)

Mozart demorou exactamente 1 mês a chegar a Mestre.
José Ruah demorou exactamente 9 meses a chegar a Mestre.

Novamente
1= 1
9 = 0

Mozart foi organista da sua Loja
José Ruah é organista suplente da sua Loja

Mozart compunha magistralmente e tocava ainda melhor ( tal qual indicam os 1 acima)
José Ruah também (campainhas de portas e Cds conforme querem dizer os 0 acima)

Mozart morre exactamente 200 anos e 9 dias antes da iniciação de José Ruah. Como 0 9 equivale a Zero podemos dizer que a Iniciação de José Ruah aparece na celebração dos 200 anos do falecimento de Mozart.

Logo e tendo em conta esta demonstração, José Ruah é seguramente uma nova forma de Mozart.


Enoterismo

É uma corrente intermitente, com uma correlação positiva aos Ágapes, ou mais propriamente ao fim dos mesmos.
Revela-se na verborreia e na capacidade inventiva que proporciona o ENO (ou produto similar – do grego e significa vinho) propelido pelos canhões bem carregados que são presença imprescindível nos ágapes.

De entre estes posso destacar o J e o B que têm um valor esotérico importante e um potencial enotérico de aproximadamente 40º/vol.

Poderia aqui citar umas quantas destas “ pérolas” mas os leitores poderão imaginá-las.


Esoterismo Complexo

1) Visão Crística / Messiânica transpondo rituais religiosos para cima dos rituais Maçónicos, e pensando que com isso vão conseguir definir novos arquétipos e encontrar o Santo Graal.

2) Tentativa de basear a Maçonaria na Cabala, usando para tal aquilo que se convencionou ser a Cabala Cristã, que é uma adaptação da Cabala Judaica (a original).
A estes eu costumo fazer apenas uma só pergunta: “ O meu irmão é então um entendido em Hebraico antigo e Aramaico? “, a resposta é invariavelmente não.
Temos que perceber o que é a Cabala, e saber que ela só pode ser interpretada na sua língua original pois assenta na construção frásica de uma língua e numa tradução numérica de um alfabeto específico.
Atente-se que nas línguas latinas o alfabeto contem vogais e consoantes e começa por A, B, C, …

Em hebraico o alfabeto só tem consoantes, tem várias letras com o mesmo som mas com valores gramaticais e numéricos diferentes e começa por Alef, Bet, Guimel (A, B, G) tal como o grego (alfa, beta, gama).

Traduzindo para números

Alef = A = 1
Bet = B = 2
Guimel = G = 3

Mas a letra G no alfabeto latino é a 7ª letra e A é uma vogal e Alef uma Consoante.

É fácil de depreender que quaisquer traduções e adaptações têm muito do dedo de quem traduziu, suprindo a impossibilidade de tradução de um sem número de conceitos. E estas traduções feitas por gente do Clero em épocas remotas, tinham por objectivo demonstrar determinadas verdades que careciam de demonstração.


Esoterismo Simples

1) Os que tendo lido os escritos de Jean Baptiste Willermoz, e René Guenon, partem do princípio que a Maçonaria começou e acabou nos dizeres destes, seguramente sabedores e cultos, escritores.

2) Os que por serem profundamente, e convictamente espirituais, se preparam para o ritual e quase entram numa fase de pré transe ou tentam uma espécie de elevação da alma durante as sessões.


Esoterismo Super Simples
Os que genuinamente fazem pesquisa nas mais variadas fontes e que produzem conhecimento sobre prováveis origens das coisas e que permitem aos demais poderem enriquecer-se com este conhecimento.
Não podemos esquecer que mesmo os mais racionais como eu também acreditam/aceitam algumas coisas como sejam, a origem esotérica da Maçonaria associada à construção de Templo de Jerusalém sob a égide do Rei Salomão e a “expertise” do Mestre Hiram entre outras.


Ora com estas linhas/classificações todas é fácil de perceber que numa Grande Loja temos gente para todos os gostos, e por isso temos Lojas para vários gostos.

Eu seria muito infeliz numa Loja puramente esotérica onde se discute a génese da vírgula na 3ª página do ritual linha 23. Tentando-se saber se advém de uma conjuntura cósmica, ou de uma interpretação cabalística. Para mim vem seguramente de uma necessidade gramatical ou de um erro de redacção do autor.

Outros seriam muito infelizes em lojas onde se discutam coisas práticas como o que vamos fazer para interagir com a sociedade de que forma e com que dinheiro. Porque estes assuntos têm pouco a ver com a noção transcendental de Willermoz, e seguramente não contribuem para a elevação do espírito.

Na generalidade gostamos todos da vertente enotérica, uns porque a praticam outros porque se riem até não poder mais com o que ouvem.

Tentando concluir.

Numa Grande Loja existem (coexistem) irmãos com inúmeras tendências esotéricas. Naturalmente acontece a agregação dos Irmãos da mesma tendência, normalmente as mais extremas) formando assim uma Loja com um determinado perfil.

No entanto a generalidade das Lojas têm um pouco de tudo, pois dessa forma consegue-se um contrapeso que permite um equilíbrio ideal ao desenvolvimento.

É contudo necessário perceber que estamos a falar de pessoas, e por muito que se queira (até eu que quero fazer passar-me por 100% racionalista) cada uma delas tem um pouco de cada coisa.

Diz o povo que “ De Sábios e Loucos todos temos um pouco”, e na Maçonaria isto também é verdade.

No entanto a experiência diz-me que só existe o caminho para o Esoterismo. Ou seja os racionais podem ficar um pouco esotéricos, os esotéricos super simples só evoluem para simples e daí para complexos. Não há na história nenhum que tenha feito o caminho ao contrário ou seja de Esotérico para Racional.

Devo portanto concluir que o estádio de elevação espiritual atingido pelo esoterismo deve ser muito bom, porque os que vão não voltam mais, eu cá como ainda não fui não posso dizer muito mais sobre o assunto.

Como podem já ver só esta conclusão em si tem valor esotérico, concluo portanto que já devo começar a ficar “contaminado”.

Provavelmente este não é o texto mais explicativo sobre o esoterismo, mas foi o que saiu.

Ainda me diverti a calcular a comparação com o Mozart, e posso desde já garantir que os factos são todos verdadeiros, quer a data de iniciação, quer o tempo entre graus, quer a idade, quer os 200 anos e 9 dias.

Dizem os mais esotéricos que não há coincidências. Dizem os deterministas e logo mais racionais que tudo está determinado.

Não restam então quaisquer dúvidas que os extremos se tocam e que na verdade entre os mais racionais e os mais esotéricos não há grandes diferenças.

Como diria Fernando Pessa – “ E esta hein !!!”

José Ruah"

12 setembro 2016

O Malhete


Termino hoje uma pequena série dedicada a referenciar blogues dedicados à temática da Maçonaria, aos quais, aqui no A Partir Pedrareconhecemos qualidade e interesse. Para nós, blogues de qualidade de temática idêntica à nossa não são concorrência nem ameaça. São blogues irmãos, todos difundindo um ideal comum e fonte de ensinamentos e inspiração.

Não poderia, por consequência, deixar esquecido o blogue (é assim que eu escrevo, por ser esta a palavra portuguesa que corresponde ao termo da língua inglesa blog) O Malhete, cuja qualidade e difusão no meio maçónico devem ser realçadas.

O blogue O Malhete está associado ao jornal eletrónica O Malhete, Informativo Maçônico Online, filiado à ABIM, Associação Brasileira de Imprensa Maçônica. Este jornal eletrónico é de publicação mensal e ampla e gratuita difusão. Muitos dos textos do blogue são também publicados no jornal eletrónico.

Ambos, blogue e jornal eletrónico, são editados pelo Irmão Luiz Sérgio de Freitas Castro. de Linhares, Espírito Santo.

Ttata-se de um blogue que contém uma mescla de textos informativos e de divulgação, designadamente relativamente a ativida maçónica, e textos de estudo e análise.

Luiz Sérgio Castro recolhe e publica textos de vários conhecidos e apreciados Irmãos que se dedicam à escrita sobre temas maónicos. A título de exemplo, e sem desprimor para os que injustamente não mencione, uma rápida resenha do blogue permite-nos encontrar textos de João Anatalino, Kennio Ismail, Barbosa Nunes e Hercule Spoladore.

Também são neste blogue republicados textos recolhidos em outros blogues. Numa também sumária busca, encontram-se textos anteriormente publicados em O Ponto dentro do Círculo, No Esquadro, MS Maçom e também no A Partir Pedra. Também o informativo diário JB News serviu de fonte para publicação neste blogue.

Este blogue é assim a modos que uma compilação do que, segundo o critério do seu responsável, de melhor se escreve sobre maçonaria em língua portuguesa, para além da vertente informativa que decorre da sua associação ao jornal eletrónico com o mesmo nome.

Consulta-se com prazer e proveito e é um dos blogues que periodicamente espreito. Gosto nele ainda particularmente da sua divisa. Consultar este blogue é relembrá-la. Tê-la sempre presente ajuda a ter os pés assentes na terra e a cabeça no sítio: Se extinguirmos a vaidade, a Maçonaria será perfeita

E como aos meus Irmãos desejo que possam ter pelo menos tanto como eu, aqui deixo a referência ao O Malhete.

Rui Bandeira   

05 setembro 2016

Porque são secretos os rituais maçónicos (republicação)...

Na republicação textual de hoje, publico um texto do Paulo M. que aborda a questão do secretismo dos rituais maçónicos na qual dá uma opinião simples e facilmente compreensível por quem não" anda nestas andanças", mas consentânea na sua plenitude e com a qual eu concordo também.

O seu original foi publicado neste blogue à cerca de seis anos e quanto a mim mantém, e manterá, a sua atualidade por vários anos; aliás há coisas que são (quase) imutáveis e esta posição que o autor toma sobre este assunto em específico é de forma clara uma delas.
Sendo assim e findo este intróito passarei à republicação do texto nas linhas abaixo escritas...

"Porque são secretos os rituais maçónicos

Como se disse já, a Maçonaria tem apenas três tipos de segredos: os rituais, os meios de reconhecimento e a identidade dos seus membros. Debrucemo-nos hoje sobre os rituais.
Recordo claramente o "ritual" de início de cada dia de escola: entrávamos todos em fila, ordeiramente e em silêncio, colocávamo-nos em locais pré-determinados, respondíamos à chamada, preparávamos os instrumentos de trabalho (a caneta e o caderno diário) e escrevíamos o local e a data do dia, seguidos do sumário; depois disso, cada um tinha procedimentos a seguir - se, por exemplo, pretendia falar, tinha que levantar o braço - bem como tinha variadas limitações à sua ação - não podíamos levantar-nos sem autorização, por exemplo.

Identicamente, os rituais maçónicos determinam e regulam uma série de acontecimentos que sucedem durante uma reunião (a que os maçons chamam "sessão"), no sentido de conferir alguma ordem aos trabalhos - precisamente do mesmo modo que numa sala de aula. Assim, fazem parte dos rituais procedimentos meramente administrativos como o são a chamada ou a leitura da ata da sessão anterior. Estes procedimentos nada têm de secreto, e poderia dizer-se que só não se referem por não o merecerem, de tão enfadonhos que são...

Por outro lado, os rituais também são uma espécie de "peças de teatro", no sentido em que há vários "atores" com "falas" e ações bem definidas e pré-determinadas. Estas ações são um pouco mais elaboradas do que é costume noutras circunstâncias do nosso dia-a-dia, e muito do que se diz e faz é simbólico. O simbolismo, em si, não é oculto; já o significado que lhe é atribuído em determinado contexto pode sê-lo. Há coisas que estão à vista desde o primeiro dia em que se entra num templo maçónico e que nunca são explicadas, antes sendo deixadas - como tantas outras - à interpretação e interiorização de cada um. De outras é dada uma explicação em determinado contexto, como na cerimónia de Iniciação - em que se passa de Profano a Aprendiz - na passagem de Aprendiz a Companheiro, ou na de Companheiro a Mestre. Esses "rituais secretos" nada têm de interessante para quem esteja fora do contexto. Imaginem um músico a assistir a uma secretíssima reunião de alta finança num banco; ou uma pessoa como eu, avessa a futebol, a assistir às secretíssimas reuniões do Mourinho com a sua equipa em vésperas de um grande jogo... Para essas pessoas, pouca ou nenhuma valia teria esse conhecimento.

Então porquê o secretismo? Por uma razão: porque, para aqueles a quem interessa, há um momento certo para se saber. E porque é que há esse "momento certo", e não se pode saber logo? Procurei um bom paralelismo que o explicasse, e creio que o encontrei: imaginem-se a ler um bom livro policial, daqueles bem elaborados; ou a ver um bom filme de suspense. Agora imaginem que alguém chega, e vos diz: "Ah, conheço, já vi, foi o mordomo na biblioteca com o candelabro." Pior: imaginem que vo-lo dizem mesmo antes de iniciarem o livro ou o filme. Acham que irão retirar o mesmo prazer, ler com o mesmo empenho, analisar com o mesmo estímulo? Claro que não. A experiência ficou arruinada pelo conhecimento prévio. O mesmo se passa com os rituais maçónicos. Por isso se recomenda a quem pretenda ingressar a Maçonaria que não leia, não procure, não se informe. Mas, se o fizer, apenas a si mesmo se prejudica - na mesma medida de alguém que, sorrateiramente, ludibriando-se a si mesmo, ardendo de curiosidade, fosse ler as últimas páginas do tal romance policial.

Por isso, e se não pretendem alguma vez ser admitidos na Maçonaria - ou se pretendem mas querem garantir que a experiência fique irremediavelmente arruinada - então basta procurarem que, com o auxílio do nosso "amigo" Google, terão, com alguma diligência e arte, acesso a dezenas de versões de rituais maçónicos de diversas épocas, locais e obediências.

Encontrarão também, se as procurarem, partituras de obras musicais famosas, e mesmo vídeos das mesmas. Mas - ah! - só quem já cantou num coro ou tocou numa orquestra sabe o quão diferente é estar de fora a ver, ou participar de dentro. Tentem que vos expliquem a diferença, e serão unânimes: "não dá para explicar, tens que viver a experiência para a compreenderes". Com um ritual maçónico - já o adivinharam - passa-se o mesmo. Não se explica, não se revela, não se estuda - vive-se, ou não se entende.

Paulo M."


29 agosto 2016

Arte Real - Trabalhos Maçônicos


O blogue Arte Real - Trabalhos Maçônicos é administrado pelo Irmão Paulo Edgar Melo, Mestre Instalado da Augusta e Respeitável Loja Simbólica Cedros do Líbano, n.º 1688 do Grande Oriente do Brasil, que trabalha no Rito Escocês Antigo e Aceite, ao Oriente do Rio de Janeiro. 

Este blogue foi, assumidamente, criado "para divulgar trabalhos Maçônicos de Irmãos". Publica, assim, textos de diversas proveniências e inéditos (não anteriormente publicados) de maçons que chegam ao conhecimento do seu administrador.

Publica-se há cinco anos (desde julho de 2011), com assinalável regularidade - 1.451 textos até à data de elaboração deste texto, à média de 290 textos por ano, ou seja, mais de cinco textos por semana, em média.

Com esta frequência e quantidade de textos, naturalmente que nem sempre há ópera, mas a qualidade média dos textos é muito interessante e a variedade dos temas abordados muito rica.

Como é natural, essencialmente os textos publicados são originários de maçons brasileiros, mas o admnistrador do blogue, de quando em vez, também divulga alguns textos originalmente publicados aqui no A Partir Pedra.

Os textos dedicados a questões rituais permitem avaliar as especificades da ritualística brasileira, o que é particularmente interessante e instrutivo para os europeus que sigam o blogue.

É um blogue interessante de visitar e de espreitar. Por vezes - com agradável frequência - deparamos com textos muito interessantes de ler, analisar e sobretudo meditar sobre eles. Outras vezes encontramos textos mais simples, o que não é de admirar, por se tratar de blogue que publica muitas pranchas de maçons de vários graus e destinadas à leitura em vários graus, por regra no grau de Aprendiz.

É um bom blogue de divulgação, que regularmente publica algumas pérolas merecedoras de especial atenção.  

O trabalho de recolha e publicação do Irmão Paulo Edgar Melo é merecedor de encómios.

É um blogue que, com gosto e interesse, acompanho regularmente e que recomendo seja acompanhado por quem se interessa pela Arte Real.

Rui Bandeira

22 agosto 2016

A Santificação do Homem (republicação)

O texto de hoje, ou a sua republicação, foi escrito pelo José Ruah em 2009 e onde aborda o Judaísmo, a sua religião, e reproduz uma comunicação que apresentou  no colóquio " Turres Veteras X - a Historia do Sagrado e do Profano".
O texto original pode ser consultado aqui.

Uma pequena menção do autor:  "O Texto foi escrito para ser lido e por isso perdoarão alguma incorrecção. As citações são extraidas do Livro " Torá" editado recentemente pela editora Sefer do Brasil e consequentemente estão escritas em português do lado de lá."

"A Santificação do Homem

Quando me foi lançado este desafio, de vir aqui falar sobre o Sagrado e o Profano do ponto de vista do judaísmo, aceitei sem saber bem o que iria dizer sobre o tema.

É importante lembrar que não sou Rabino nem estudioso de matérias religiosas pelo que corro o sério risco de vos apresentar algo que fique muito aquém das expectativas, mas é a minha visão do assunto.

O judaísmo enquanto religião e forma de vida visa sempre a santificação do homem numa perspectiva de o tornar mais próximo de Deus.

A religião judaica prescreve mandamentos e regras que se integralmente cumpridas representarão o respeito máximo por Deus e pela sua Santidade, e que não cumpridas farão do homem um profano que ao contrario do seu irmão cumpridor, no dia do julgamento poderá ser considerado como indigno de se manter vivo.

Todavia o homem está sempre a tempo de se arrepender e retornar ao caminho da santidade com isso glorificar Deus. Este arrependimento, que pode surgir a qualquer altura, está muito associado com o dia do Kipur. Dia de penitencia e arrependimento e também o dia em que cada judeu se apresenta perante Deus e lhe apresenta contas do que fez, esperando que o seu nome seja inscrito por Deus no Livro da Vida e que o seu arrependimento seja aceite.

Neste sentido e de forma a realçar a importância do percurso do homem, de cada homem, no sentido a elevação espiritual decidi ir buscar exactamente os trechos da Torá que explicam e regulamentam o dia de Kipur e de lá extrair o que me pareceu fundamental para ilustrar a perspectiva judaica sobre o sagrado e o profano, do ponto de vista do homem.

Uma breve explicação prévia, a Torá é composta por 5 livros (Bereshit – Génesis, Shemot – Êxodo, Vaycrá -Levitico, Bamidbar – Números e Devarim – Deutronomio) e constitui a lei fundamental do judaísmo, a lei dada por Deus a Moisés no deserto. Nestes livros poderemos encontrar desde a criação do Mundo aos preceitos alimentares e regulamentos familiares. Estes livros são lidos em capítulos semanais de maneira a que num período de um ano todos os livros tenham sido integralmente lidos e se recomece.

Estes são os livros de base do que se convencionou chamar de Bíblia.

Para ilustrar o tema de hoje escolhi algumas passagens e respectivos comentários, que penso poderão ajudar a explicar o que o judaísmo pensa e preconiza. Estas passagens estão incluídas no capítulo que regula o Dia de Kipur.


“... E tomarás os dois cabritos e os farás ficar diante do Eterno à porta da tenda da reunião. E lançará Aarão sobre os dois cabritos, sortes, uma para o Eterno e outra para Azazel. E aproximará Aarão o cabrito sobre o qual caiu a sorte para o Eterno e o oferecerá como oferta de pecado. E o cabrito sobre o qual caiu a sorte para Azazel colocar-se-á vivo diante do Eterno, para expiar por meio dele, para envia-lo para Azazel no deserto.


E colocará Aarão suas duas mãos sobre a cabeça do cabrito vivo, e manifestará sobre ele todas as iniquidades dos filhos de Israel, todos os seu delitos e todos os seus pecados, e os porá sobre a cabeça do cabrito e o enviará, por mão de um homem designado para isso para o deserto. E levará o cabrito todas as iniquidades à terra desabitada e deixará o cabrito ir pelo deserto… “

Vaikrá (Levitico) 16: 7 a 10 e 21 a 22

Sobre este trecho da Torá o Rabino Mendel Diesendruck, que na década de 50 do sec. XX foi Rabino em Lisboa escreve o seguinte:


“ Sortes: os nossos exegetas interpretam esta cerimónia de sortear os cabritos como indicação simbólica para os dois diferentes elementos humanos e a sua maneira distinta de encarar os problemas da vida. Um encarna com o seu estilo de viver e pela pureza das suas acções e pensamentos aquela máxima gravada em muitas sinagogas com letras douradas por cima da Arca Sagrada, Shiviti Hashem Lenegdi Tamid (Tenho o Eterno sempre à minha presença), ou seja tudo o que eu faço e pretendo fazer é orientado e guiado por uma única motivação: Viver sempre dentro das prescrições da Torá, amar a Deus, o meu povo e a humanidade inteira; e para concretizar este meu ideal sublime não receio qualquer sacrifício.

Este elemento humano que representa pela nobreza do seu carácter a perfeição da criação Divina é o símbolo de “ para o Eterno” .

Mas existe também um elemento radicalmente oposto. É aquele ser humano cuja vida é claramente profana, cujos interesses nesta vida são de um materialismo vil, uma abjecção grosseira; o tipo de ser humano cujo maior ideal é o seu próprio ego, para o qual o meio ambiente não existe, porque ele é incapaz de dar algo de si.

Este tipo de homem vive na auto ilusão de ser um elemento útil à sociedade mas quem for capaz de deitar um olho para dentro da sua alma vazia e pobre, verificará facilmente que ele, coitadinho, não é mais que um bode isolado num deserto. Pois nós todos sabemos muito bem que existem não apenas desertos geográficos, mas também – e o que é mais lamentável – desertos espirituais, intelectuais, assim como existem climas que não dependem somente das condições atmosféricas, mas sim do calor das nossas almas e dos sentimentos de nossos corações. Este segundo elemento também não se importa em fazer toda a espécie de sacrifícios para alcançar o seu fim, mas é o fim próprio que distingue estes dois carácteres.

Enquanto para o primeiro o alvo é “ para o Eterno “ , a meta do segundo é orientada “ para Azazel “.
A cerimónia de sortear os bodes, oficiada no dia mais sagrado e pelo homem mais sagrado (o sumo-sacerdote) é talvez a mais bela e mais significativa demonstração de que o acaso pode ser um factor decisivo quando se trata de carneiros inocentes, mas nunca em relação ao homem responsável pelos seus actos. “

Mais à frente pode ler-se na Torá:

“… E falou o Eterno a Moisés dizendo: “ Fala a toda a congregação dos filhos de Israel, e lhes dirás: Santos sereis, pois santo sou EU o Eterno vosso Deus….” …”
Vaikrá (Levitico) 19: 1 e 2


A este propósito o Rabino Mendel Diesendruck escreveu o seguinte:

“Santos Sereis: Segundo Rashi (comentador mais importante da Torá) isto significa – “ afastai-vos de toda a espécie de imoralidade e da transgressão” – “

O Rabino Diesendruck retoma escrevendo:

“ O Judaísmo não conhece nenhum outro “santo” além de Deus. Em que consiste então a substancialidade de Deus? No “ser diferente”, no “ser fora” de toda a natureza e por isso na liberdade. A opinião que Deus Sive Natura é uma flagrante negação da doutrina básica do judaísmo. Fora da natureza é o reino da liberdade. “Santo” significa livre no grau mais transcendental. O homem nunca é fora da natureza; para o ser o humano só pode prevalecer sempre a “aspiração à santidade “, aspiração cujo objectivo é livrar suas acções de tudo o que é terrestre, material, fútil, mesquinho e profano, uma aspiração a que os seus sentimentos e desejos sejam determinados o máximo possível pela sua consciência divino-espiritual…”

O comentário é concluído com a seguinte afirmação:

“ Ser criado à imagem de Deus não é um facto consumado, mas sim uma elevada missão, uma potencialidade em constante desenvolvimento. “

Na mesma edição da Torá que utilizei e a propósito da mesma passagem os editores juntam o seguinte comentário:

“ Santos sereis: O homem não precisa de executar nenhum acto fora do comum ou feito extraordinário para ser santo. Em todas as esferas da vida o “fazer” e o “não fazer” de cada indivíduo é que o tornam santo. A singularidade do povo de Israel está no facto de que a vida e a santidade não são dois domínios separados. Quem deseja ser santo não precisa de se afastar da natureza, da vida, retirar-se da sociedade para ir viver no deserto, fechar-se asceticamente dentro de muros ou ir viver isolado para a floresta. Todos nós podemos ser “ um reino de sacerdotes e um povo santo” (Êxodo 19:6), e isso não se dará pelo afastamento ou renúncia da vida, mas sim através da santificação da vida, de acordo com o conselho: “ Reconhece-O em todos os teus caminhos” (Provérbios 3:6).”

Como podemos perceber destes comentários e do que atrás foi dito, no judaísmo é dado um especial enfoque ao homem como o decisor da santidade.

O Judaísmo preconiza valores e preceitos que permitem, se seguidos, ao homem tornar-se mais puro e mais santo, pois aproximam-no de Deus.

O homem tem a capacidade de progredir no caminho da sacralização por acção do seu livre arbítrio e vontade, cumprindo os mandamentos e preceitos e assim aproximando-se do seu Criador, à imagem do qual foi feito.

Este tema é no fundo uma das bases da sacralização pois podemos interpretar que o ter sido feito à imagem e semelhança quer dizer que lhe foi concedido raciocínio e poder de decisão.

Consequentemente o homem, ao contrário dos animais que agem por instinto, pode separar o bem do mal e pode escolher ser mais “santo” fazendo sobressair a centelha Divina que lhe foi incutida, ou por outro lado decidir uma vida mais profana.

É todavia importante perceber e diferenciar esta santificação do homem na religião judaica, da santificação / beatificação na religião Cristã. No judaísmo a Santificação é interior e exclusiva de quem segue o caminho dos mandamentos e será apenas reconhecida por Deus. Não existirá em caso algum a veneração de um homem por parte de outros homens.

Concluo com uma incerteza e uma certeza. A incerteza de vos ter trazido algo de utilidade, a certeza de ter aprendido com este trabalho e desta forma ter progredido um ínfimo passo no meu melhoramento.

Todavia se porventura a minha incerteza se tornar certeza então tenho que agradecer-vos pela oportunidade que me deram de dar mais um pequeno passo, neste caminho que todos deveremos levar no sentido da santidade.

Apenas com o trabalho interior de cada um independentemente da religião que seguimos poderemos de forma afirmativa progredir. A nossa progressão individual terá seguramente como consequência a progressão dos nossos semelhantes em direcção a um futuro que esperamos melhor.


José Ruah"

15 agosto 2016

O Ponto Dentro do Círculo


Por aqui no blogue A Partir Pedra não se cultivam tiques exclusivistas ou manias de superioridade. Aqui escreve-se sobre Maçonaria, procurando-se que o que publicamos seja útil a maçons e a não maçons. Mas não somos os únicos a fazê-lo e não temos pretensões a ser a última Coca Cola do deserto. Vamos seguindo, com agrado e interesse, outros blogues e espaços nas redes sociais também dedicados ao tema da Maçonaria. Hoje  é tempo de destacar um blogue brasileiro, já com mais de um ano de existência - os primeiros textos remontam a março de 2015 - que se vem impondo com a marca da qualidade, o blogue O Ponto Dentro do Círculo (https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/).

O autor deste blogue é Luiz Marcelo Viegas, Mestre Maçom da Augusta e Respeitável Loja Simbólica Pioneiros de Ibirité, n.º 273, jurisdicionada à Grande Loja Maçônica de Minas Gerais e trabalhando ao Oriente de Ibirité, Minas Gerais, Brasil. Este Irmão é ainda membro da Escola Maçônica Mestre António Augusto Alves D'Almeida, a qual trabalha sob os auspícios da referida Grande Loja Maçônica de Minas Gerais.

Ao contrário do que fazemos aqui no A Partir Pedra, em que privilegiamos a escrita e publicação de textos próprios, Luiz Marcelo Viegas publica essencialmente textos alheios, que seleciona com evidente cuidado e competência. A qualidade dos textos publicados no O Ponto Dentro do Círculo é notável. Maçons e profanos que se interessam pela Maçonaria têm neste blogue um acervo de grande interesse, que vale a pena consultar e explorar. Tal como sucede no A Partir Pedra, na faixa da direita do  O Ponto Dentro do Círculo está organizada uma tábua de tópicos (Categorias) em que se agrupam os textos publicados, o que muito facilita a busca por temas.

Este não é um blogue para se "dar uma vista de olhos" ou para, de vez em quando, se "espreitar". Este blogue, pela qualidade, profundidade e, por vezes, extensão dos textos ali publicados, é um blogue para se frequentar com tempo, com calma, muita atenção e reflexão. Quem assim fizer, certamente tirará grande proveito e muito aprenderá. Por mim, que estou sempre procurando aprender, estou na fase de ler integralmente este blogue, tendo começado no primeiro texto, de 2 de março de 2015 (As Lágrimas dos Anjos) e indo por aí fora, até chegar ao texto mais recente. Tem-se muito de interessante para ler, já que este blogue vai com mais de 530 textos publicados, na altura em que elaboro este texto...

Para além do blogue propriamente dito, e aproveitando as disponibilidades técnicas do Wordpress, no endereço do O Ponto Dentro do Círculo  dispõe-se ainda, designadamente, no espaço Biblioteca, de sugestões de leitura de livros com interesse para os maçons, e, no espaço JB News, de ligações para o diário maçónico editado pelo Irmão Jerônimo Borges, de Florianópolis, Santa Catarina, com o mesmo título.

É com todo o gosto que aqui vivamente se recomenda a frequente consulta e atenta leitura do excelente blogue O Ponto Dentro do Círculo.

Rui Bandeira

08 agosto 2016

"O Ramo da Acácia" (republicação)

Hoje trago-Vos um texto "antigo" de 2007 saído da mão do José Ruah que aborda um dos símbolos mais importantes da Maçonaria, a Acácia.
No texto que abaixo republico e que pode ser consultado no seu original aqui, o José dá a sua opinião sobre esta madeira e a sua simbologia na Maçonaria.

"O Ramo de Acácia"

Quem me conhece sabe que não sou dado a grandes explicações simbólicas, nem tão pouco tenho seguido a via do esoterismo.

Acredito que as coisas têm um fundamento e que esse fundamento poderá ser encontrado na História, nos Usos e Costumes, ou em Livros Sagrados.

O que fazemos com as coisas pode derivar da interpretação dada, tenha ela sido a mais correcta ou não, ou simplesmente diferente.

Hoje decidi pegar na Acácia.

A Maçonaria elegeu como um dos seus símbolos a Acácia, outros, e apenas a título de exemplo, são o Esquadro e o Compasso.

Porquê a Acácia e não o Cedro? Sabemos pela tradição e pela História que estas madeiras foram usadas no Templo de Salomão, base simbólica da Maçonaria Especulativa tal como a conhecemos actualmente.

Aliás o Cedro é muito mais mencionado como material de construção do Templo que a Acácia, mas não é utilizado na simbologia Maçónica.

E a Acácia, ou mais propriamente o Ramo de Acácia (Inglês: Sprig; Francês: Rameau) passou a ser claramente um símbolo.

As primeiras referências à Acácia aparecem no Antigo Testamento no Livro do Êxodo. Aqui Deus determina que será esta a madeira e não outra a que será utilizada para a construção da Arca a Aliança onde estão depositadas as Tábuas da Lei, bem como para a construção da mesa Para os Pães da Preposição e outros objectos de culto utilizados naquele que foi na verdade o primeiro Templo.

Não um templo de pedra como o que o rei Salomão constrói ( ou manda construir), mas um templo móvel que era erguido nos acampamentos do Povo Judeu.

A estrutura deste Templo Móvel é depois emulada por Salomão para a construção do Templo em Jerusalém, respeitando as proporções e os compartimentos. Nesse Templo foi depositada a Arca da Aliança e os demais objectos de culto.

Ora o Templo era revestido a cedro, mas os Objectos de Culto em Acácia.

O termo hebraico é Shittah e pensa-se que referencia a espécie de Acácia hoje conhecida por Nilotica ou Seyal. Sendo que na região também existem a Albida, Tortilis e Iraqensis.

Mas esta referência é à madeira de Acácia. Todavia como já disse antes o Símbolo é o Ramo de Acácia.

E as referencias ao Ramo de Acácia aparecem também relacionadas com os Hebreus, mas não com o Templo.
De entre as tribos do Povo Judeu uma originou a linhagem dos Sacerdotes. Primeiro no Templo móvel e depois no Templo de Jerusalém. Ora por uma questão religiosa estes Sacerdotes não podiam aproximar-se de cadáveres humanos e por consequência das respectivas campas.

Na altura os cemitérios não estavam tão organizados como actualmente e os defuntos eram inumados nos terrenos fora das cidades mas muitas vezes sem critérios de localização. Ora isto representava um problema para os Sacerdotes pois para cumprirem os preceitos religiosos tinham que saber onde estavam essas campas.

Como sabemos a Acácia é considerada em muitos sítios uma praga, pois precisa de poucos recursos para viver e em caso de incêndio é a primeira planta a aparecer, não deixando que as espécies autóctones voltem e assim causando desequilíbrios ambientais.

Esta característica seguramente levou a que as campas passassem a ser marcadas com um Ramo de Acácia para assim serem facilmente reconhecidas pelos Sacerdotes.

Daqui à Lenda de Hiram é um passo, pois a lenda situa no espaço e no tempo a estória da morte de Hiram , espaço e tempo que são os que acabo de referir , Jerusalém na época da construção do templo.

Na Lenda Hiram é assassinado e o seu cadáver enterrado fora da cidade para encobrir o crime. Todavia a regra mandava marcar a sepultura com um Ramo de Acácia.

Temos aqui a ligação.

Hoje o ramo de acácia continua a ser usado como símbolo, sendo que e tanto quanto consegui perceber é o Ramo da Acácia Nilotica ou Seyal, ou eventualmente o da Acácia Robinia.

Ficam aqui as imagens de cada um deles e cada um de vós que tire as conclusões.
Acacia Nilotica
Acacia Robinia
JoseSR

01 agosto 2016

Cerimónia de iniciação e Iniciação


Como é sabido, a admissão na Maçonartia ocorre através de uma Cerimónia de Iniciação do interessado. Através dessa Cerimónia, o interessado adquire formalmente a condição de maçom. Mas adquire em que termos? É maçom enquanto continuar a integrar uma Obediência maçónica, ou a aquisição dessa qualidade é vitalícia, isto é, perdura mesmo que a pesoa em causa abandone a Maçonaria ou dela seja expulsa ou excluída?

Os defensores da primeira alternativa consideram que a admissão na Maçonaria pressupõe a aceitação das regras vigentes na mesma, designadamente na Obediência em que ocorre a integração, e  que essas regras, consubstanciadas normalmente em regulamento, estatuto ou equivalente conjunto de normas, estipulam que aquele que abandone a Maçonaria ou dela seja expulso ou excluído perde a qualidade de maçom. Quem estiver abrangido por qualquer destas situações será um ex-maçom.

Os defensores da segunda alternativa contrapõem que esta é uma visão puramente administrativa da questão, írrita porque a Maçonaria não se pode nem deve reduzir a uma estrutura administrativa, antes é uma orgamização iniciática. E o princípio iniciático impõe que quem foi iniciado, iniciado está e nunca deixará de estar, independentemente da sua situação burocrática ou administrativa, da sua ligação ou falta dela a uma estrutura maçónica. Conforme pontua René Guénon, numa citação proporcionada recentemente por um Irmão sabedor:

 "... as organizações iniciáricas diferem profundamente das associações profanas, às quais elas não podem ser assemelhadas ou mesmo comparadas seja de que modo for; quem se retira ou é excluído de uma associação profana não tem mais nenhum laço com ela e volta a ser exatamente o que era antes de fazer parte dela; pelo contrário, a ligação estabelecida com caráter iniciático não depende em nada de contingências tais como uma demissão ou uma exclusão que são de ordem simplesmente "administrativa", como já dissemos, e apenas afetam as relações exteriores; e se estas últimas se situam todas na ordem profana, onde uma associação não tem nada mais a dar aos seus membros, elas são pelo contrário na ordem iniciática, um meio simplesmente acessório, e de todo desnecessário, relativamente às realidades interiores, únicas que verdadeiramente importam." 

E, mais adiante, em nota associada:

 "... exemplo mais simples e mais vulgar no que diz respeito às organizações iniciáticas: é absolutamente inexato falar de um "ex-Maçom", como se faz correntemente; um Maçom demissionário ou mesmo excluído não fazendo mais parte de qualquer Loja nem de nenhuma Obediência não fica menos Maçom por isso; queira-o ele ou não o queira, isso nada altera; e a prova é que, se ele vier depois a ser "reintegrado" não é iniciado de novo..."  (In "Aperçus sur L'Initiation", Editions Traditionnelles, pag. 113 e 114. Paris, 1977)   

Ambas as posições têm aspetos que considero corretos e pontos que não merecem a minha adesão. É para mim claro que uma Inicação não tem o mesmo restrito significado de uma adesão a qualquer associação ou coletividade, automaticamente extinta por vontade do próprio ou da entidade a que se aderiu. Mas também coloco reservas ao entendimento de que uma cerimónia de iniciação "cria" um maçom, que permanecerá maçom até ao dia de sua morte, contra ventos e marés, mesmo que não o queira e ainda que não se comporte como tal. A Iniciação não é uma simples adesão ou inscrição numa agremiação, mas também não tem, a meu ver, qualidades mágicas que transformem alguém para todo o sempre, mesmo que o não queira ou, decididamente, recuse comportar-se como é suposto fazê-lo quem se transforme.

O entendimento de René Guénon, que muitos seguem, na minha modesta opinião insere-se numa tradição e visão religiosa cristã que - quer queiramos, quer não - influencia o pensamento europeu desde há séculos e séculos. Nos seus trechos acima transcritos, onde se escreve "Iniciação" poderia , com as devidas alterações, escrever-se, por exemplo, "batismo" e tirar-se a mesma conclusão... Na tradição religiosa cristã, a integração na comunidade cristã ocorre pelo batismo e perdura até à morte - independentemente de o batizado ser, muitas vezes, um infante destituído ainda da capacidade de formar e expressar qualquer vontade sobre o assunto. E, parafraseando Guénon, também um cristão batizado que se converta a uma outra religião, se porventura se reconveter ao cristianismo não é batizado de novo - sinal de que o batismo cria um cristão para todo o sempre e independentemente de vontades e vicissitudes...

Em matéria religiosa, ainda posso entender que ao batismo se associe essa natureza transformadora indestrutível. Tenho, porém, muita dificuldade em aceitar, sem reservas, idêntica natureza transformadora indestrutível à Cerimónia de Iniciação.

Claro que uma organização iniciática difere profundamente das associações profanas. Claro que a Cerimónia de Iniciação é bem mais e bem mais profunda do que o preenchimento de uma ficha de adesão e uma decisão de aceitação de um novo "associado".

Mas considero errado dizer-se que quem se submeteu a uma Cerimónia de Iniciação maçónica fica automaticamente constituído maçom - e para toda a vida, suceda o que suceder, faça o que fizer, decida o que decidir.

Chamo à colação um exemplo histórico que penso permitirá ilustrar as minhas reservas:

"Num documento da Maçonaria, assinado por Egas Moniz, comprova-se que Agostinho Lourenço terá sido membro de uma loja maçónica, em 1914. As mesmas figuras que comparecem com ele, como o médico Ramon Nonato La Féria, na ocasião de uma cerimónia maçónica, testemunhada pelo jornal O Século, em 1931, serão perseguidas pela polícia que ele dirige, meia dezena de anos depois." (in http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/2016-07-17-O-anjo-negro-de-Salazar).

O sinistro e temível Capitão Agostinho Lourenço, todo-poderoso criador e diretor da PVDE, antecessora da PIDE, foi iniciado maçom! Anos depois disso, maré política virada e influente prócere do regime de Salazar, ilegalizada que foi a Maçonaria, não teve problemas em perseguir os seus antigos Irmãos. Devemos continuar, em nome da via iniciática, a considerar este personagem como continuando a ser maçom, e não um ex-maçom, quando se dedicou, ao serviço do seu senhor político a perseguir os que outrora considerara seus Irmãos? Para mim, não restam quaisquer dúvidas: aquele personagem não passou de, inequivocamente, um infeliz erro de casting...

É, para mim, claro que a Cerimónia de Iniciação não tem artes mágicas para transformar um profano num maçom. Nem todos os que se submetem à Cerimónia de Iniciação são verdadeiramente Iniciados. A Cerimónia de Iniciação (ver, neste blogue, A Iniciação (I) e A Iniciação (II)) é, a meu ver, essencialmente um catalisador que propicia a mudança e transformação daquele que a ela se submete, no sentido de passar de um profano a um vero Iniciado. Mas essa transformação ou é feita no próprio pelo próprio, ou não há Cerimónia que lhe valha...

Asssim, e resumindo, a minha posição sobre este assunto é: um maçom verdadeiramente Iniciado é, sim, um maçom para toda a vida - e não haverá ventos nem marés nem vicissitudes nem vontades que mudem isso, porque, se foi verdadeiramente Iniciado, foi transformado e comportar-se-á em conformidade. Normalmente, não sairá, nem será excluído ou expulso. Se sair de uma Obediência, ou dela for excluído ou mesmo expulso, se foi verdadeiramente Iniciado e transformado, continuarei a considerá-lo como tal - e, se calhar, o problema será da estrutura que o afastou... Mas não basta ter passado por uma Cerimónia de Iniciação para ser verdadeiramente Iniciado. E aqueles que, embora tendo-se submetido a uma Cerimónia de Iniciação, não lograram - porque não quiseram, ou simplesmente porque não foram capazes - transformar-se a si próprios não me merecem o reconhecimento como Iniciados. Saindo, sendo excluídos ou expulsos, são simplesmente ex-maçons e, afinal, impropriamente, assim designados, porque não passaram de erros de casting...

No fundo, no fundo, ambas as posições têm a sua razão. O que importa é distinguir entre simplesmente passar por uma Cerimónia de Iniciação e ser verdadeiramente Iniciado. Aqueles serão ex-maçons, porque no fundo nunca foram maçons. Estes merecem sempre o nosso reconhecimento como tal, porque nunca desmerecerão da transformação que tiveram.

Disse. Não sei se bem, se mal. Mas disse e dito está!

Rui Bandeira