25 janeiro 2016

Penso, logo...


É do conhecimento comum a frase de Descartes

Cogito ergo sum

Também é comum que esta frase apareça traduzida para português como

Penso, logo existo

Porém, como diz um também muito citado provérbio italiano, "traduttore, traditore"... Traduzir sum por existo é gramaticalmente correto, mas não é a única opção. Talvez mesmo não seja a melhor. Com efeito, uma pedra não pensa, mas existe. Indubitavelmente que existe. Podemos vê-la, pegar-lhe, arremessá-la, trabalhá-la ou simplesmente ignorá-la. Mas existe - não pensando. Logo, existir não é consequência de pensar.

No meu entendimento, a melhor tradução para português da célebre frase é a mais simples e direta:

Penso, logo sou

Com esta tradução, o significado da frase enriquece-se em vários sentidos. Se, ao contrário de existir, ser é uma consequência de pensar, então ser é bem mais do que meramente existir. Logo, eu, que penso, não me limito a existir (como qualquer pedra...), mas realmente sou. Por outro lado, se sou na medida em que penso, quanto mais penso, mais sou. e quanto melhor penso, melhor sou.

(A contrario sensu, aquelas cabecinhas loucas que não pensam, ou melhor, mal pensam e pensam mal e pouco, naturalmente  podem ser pouco, apesar de - como a pedra... - indubitavelmente existirem...).

Ser é bem mais do que meramente existir. Uma pedra existe. Um animal existe. Mas só o ser dotado de pensamento racional realmente é. Logo, se sou porque penso, também sou o que penso. O que eu sou não é o que mostro, o que faço, o que digo. Tudo isso integra apenas a imagem que os demais têm de mim. Realmente, o que sou é o que penso, não o que mostro, ou digo, ou faço.

Sendo assim, se o que mostro, digo e faço é diferente do que penso, ou sou dissimulado, ou sou mentiroso, ou sou hipócrita, ou sou tudo isso junto. Hipócrita, se finjo ser diferente do que sou. Mentiroso se digo, faço ou mostro algo diverso ao que realmente sou (penso). Dissimulado se não mostro, faço e digo tudo o que penso. Enfim, ninguém é perfeito...

A hipocrisia é sempre um mal, algo de errado. O hipócrita tem o propósito de enganar os demais, de mostrar uma imagem propositadamente diferente do que realmente é (pensa).

A mentira é normalmente um mal, mas pode pontualmente ser bem-intencionada (a mentira piedosa...) e, afinal, um bem. Pode mentir-se de forma bem-intencionada e com isso atingir-se um bem, que não se atingiria com a verdade, ou mesmo a verdade causar um mal que é evitado com a bem-intencionada mentira.

Já a dissimulação tem uma medida que é inevitável - medida em que é socialmente aceite -, que se pode designar por reserva. A vida em sociedade implica uma certa reserva, um setor de nós que é só nosso, que não expomos aos demais. É até socialmente imprescindível que esse setor de reserva individual exista, porque condição de salvaguarda do relacionamento saudável entre indivíduos. 

Portanto, sou o que penso, e devo mostrar, fazer e dizer o que sou, exceto na restrita matéria da reserva da minha privacidade que é socialmente aceite (até mesmo imprescindível) que eu guarde.

A reserva de privacidade é uma defesa, mas também é um ónus, um fardo. Aquilo que guardo para mim pesa-me a mim e, não podendo partilhá-lo, também não posso partilhar o  fardo. 

É por isso que, sendo socialmente aceite (e necessário) que eu mantenha um certo nível de reserva em relação ao que penso, ao que sou, também é natural e socialmente pacífico que o nível de reserva que eu mantenho seja diferenciado. Assim, é normal que eu mostre menos de mim aos estranhos do que aos meus conhecidos, menos aos meus conhecidos do que aos meus amigos, menos aos meus amigos do que aos meus familiares próximos e finalmente que mesmo estes não tenham acesso à totalidade de mim, 

A extensão variável da reserva sobre mim é por mim determinada, em função do nível de intimidade e, assim, de confiança do laço que me une a alguém. 

(É por isso que a traição à confiança depositada por parte dos mais próximos é bem mais dolorosa - e quiçá acarreta mais graves consequências - do que idêntica ação levada a cabo por quem nos é mais distante).

Em resumo: sou o que penso, não o que mostro, faço ou digo. Mas devo mostrar, fazer e dizer em consonância com o que penso em tudo o que não contenda com a reserva sobre mim que é socialmente aceite (e útil) que guarde. E essa reserva é tanto menor quanto mais próximos de mim estiverem aqueles a quem mostro, digo ou faço.

Rui Bandeira  

18 janeiro 2016

Almoço-Convívio de Solstício de Inverno 6015...

Teve lugar durante este fim-de-semana o habitual almoço/convívio de obreiros do quadro da Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues e seus familiares referente ao Solstício de Inverno, numa localidade a oriente de Palmela.

Num dia frio de inverno, mas bastante ensolarado (a Luz "fazia-se notar" e bem!) sentiu-se o calor humano que desponta e emana das relações fraternais e de amizade que se existe entre os convivas.

Maçonaria também é isto, confraternizar, consolidar relacionamentos e afetos.

Quem participou neste ágape fraternal e familiar saiu dele, talvez, mais "rico", mais "experiente" e quiçá mais "sabedor", só os participantes o saberão. Mas é certo e sabido que certamente saíram de lá contentes e satisfeitos tal a harmonia e a felicidade que pairava no ar, mas principalmente pela amizade que se fazia questão em sentir.
Caras que não se viam há algum tempo e abraços que já não se davam por os seus intervenientes não se cruzarem por diversos motivos, foram possíveis serem finalmente trocados, conversas adiadas foram efetuadas, a saudade de uns e a presença de outros foi amplamente reforçada neste encontro.

Enfim, apenas posso afirmar, em jeito de conclusão, que tudo decorreu de forma justa e perfeita e que melhor este evento não poderia ter sido, ficando aqui expresso o meu agradecimento aos manos encarregados pela organização do evento. 
Só posso questionar: Para quando outro?!

Os maçons e os filhos (atualização)


Como recordou o Nuno, corria o "longínquo" ano de 2007 quando o profano Simple, já na altura candidato à admissão na Loja Mestre Affonso Domingues, teve esta dúvida de como e quando revelar às suas filhas a sua condição de maçom. Ao longo desses anos, as filhas foram crescendo, e estando presentes em alguns almoços com uma data de "tios" que só viam de vez em quando.

Como bem disse o Rui Bandeira, preocupavam-se mais com a presença dos "primos" de idades parecidas com as delas - se bem que, ao longo do tempo, tivessem conhecido melhor um ou outro "tio", e mesmo manifestado saudades de o rever.

Foram-se também apercebendo de que em certas quartas-feiras o pai saía antes da hora do jantar, e quando voltava já tudo dormia. E faziam perguntas: "Onde é que vai a esta hora? A algum sítio chique?" - pois ia de fato... que entretanto já não usava diariamente. Lá lhes respondia que ia trabalhar, doutras vezes que tinha uma reunião - as perguntas tinham respostas preparadas havia anos.

A mais velha quis, a certa altura, saber mais, e vendo que estava preparada para perceber alguma coisa, lá expliquei - teria ela uns 11 ou 12 anos - que o Iluminismo (que ela estava a estudar na escola) ainda tinha seguidores, e que havia uma antiga organização de pessoas que perpetuavam ainda hoje os seus princípios.

Contei-lhe dos construtores de catedrais e dos "engenheiros" da altura. Contei-lhe das guerras religiosas. Contei-lhe que uns quantos acharam que podiam fazer a diferença e promover uma sociedade mais fraterna e mais tolerante. E que o pai pertencia a essa organização, e como se chamava. Ficou fascinada, foi procurar mais coisas à Internet, e fizemos disso um nosso pequeno segredo.

Ao longo do tempo fui-lhes explicando - a ambas - porque ajo desta ou daquela forma, e como é que isso encaixa nestes ou naqueles princípios. A mais velha "encaixa", claramente, o que ouve nos princípios que ouviu antes. A mais nova apreende, mas ainda não sabe o contexto todo. Coisas de ser a mais nova!!!

Então deixei-a crescer até que atingisse a maturidade necessária. Há tempos, estava eu a sair, e lá perguntou: "Reunião do quê?" "Reunião de uma associação de que o pai faz parte", respondi. "Um destes dias explico-te o que é." A mais velha piscou-me o olho, e assim ficámos. Um dia destes - ou talvez antes num destes serões de inverno, ao fim de semana - vou sentar-me com a mais nova. Tenho uma história de coisas antigas para lhe contar...

Paulo M.

11 janeiro 2016

Os maçons e os filhos (republicação)

O texto que é republicado hoje é datado do "longínquo"  ano de 2007 e foi escrito pelo Rui Bandeira e teve como principal motivador uma questão colocada por um leitor de blogue e que pode ser consultado no seu original aqui.

Este texto é de alguma forma relevante porque aborda um assunto pelo qual todos os maçons passam, a sua relação com os seus filhos e com a sua própria condição maçónica.
Esta é sem dúvida algo com que muitos se debatem internamente e que também se aconselham com os seus irmãos que vivem a mesma situação. Naturalmente que cada um vive a sua vida à sua maneira, mas neste ponto, quase todos o sentem mais ou menos da mesma forma.

Como e quando se deve informar um filho ou familiar sobre a vida maçónica de alguém?

O Rui emite a sua opinião, com a qual eu concordo também, e que abaixo transcrevo:

"O simple colocou a questão que se segue: 


Contaram-me o caso de um maçom que toda a vida ocultou a sua condição à família, e de quem só durante o velório os filhos e os netos souberam, por uns senhores que nunca tinham visto mas que mostraram conhecer muito bem o falecido, que o pai de uns e avô de outros fora maçom a vida toda...
A minha questão - que não é, certamente, nem nova nem original - é esta: como consegue um maçom manter oculta dos profanos a sua condição, e ao mesmo tempo envolver a família nesses eventos, se tiver filhos ainda pequenos - e naturalmente pouco sensibilizados para a discrição? Recorre-se à grande Instituição que são as baby-sitters?!

A partir de que idade é comum revelar-se à respectiva prole a condição de maçon - especialmente quando se preveja um anátema por parte da família alargada caso tal fosse conhecido?
Ah, e não vale responder "cada pai sabe dos seus"... até aí já eu discorri. :)

Nos termos e condições que o simple coloca, a questão é irrespondível, precisamente porque a única resposta correta é a que ele não quer que lhe seja dada: "cada pai sabe dos seus"...

Mas o desafio foi feito e, mal ou bem, merece resposta. Como todos os problemas de difícil resolução, a melhor abordagem é a sua divisão em pequenas questões, de resposta mais acessível. No final, teremos a resposta possível.

O ponto de partida é o caso - hipotético, lendário ou real - de um maçom que escondeu de sua família chegada essa condição, a ponto de seus filhos e netos só no seu velório virem a ter conhecimento dessa faceta do seu parente, através, retira-se do texto, de maçons que ao velório compareceram.

A situação de partida, nos termos em que está colocada, se bem que não impossível, afigura-se-me de difícil verificação, a não ser que se refira a um indivíduo com um núcleo familiar atípico e com um relacionamento atípico com esse núcleo familiar. Só por notável ausência de intimidade ou por presença de inesperada distância entre ascendente e descendentes se pode entender o absoluto desconhecimento, ao ponto da surpresa, de que o ascendente "fora maçom a vida toda". Porque ser maçom é ter e viver e transmitir princípios. Se um maçom não vive segundo os princípios inerentes à condição de maçom, só de nome poderá sê-lo - mas seguramente não será "maçom a vida toda", pela simples razão de que nem a vida como maçom viveu! Se um maçom não educa os seus filhos nesses princípios, ou é mau maçom ou péssimo educador! Se os filhos de um maçom não são capazes de reconhecer no comportamento de seu pai a aplicação dos princípios de um maçom, ou estavam muito distantes do seu progenitor ao ponto de não o conhecerem verdadeiramente, ou não foram educados por um verdadeiro maçom. Este deve distinguir-se perante os que o rodeiam pelo seu comportamento. E, mesmo que não diga que é maçom, se e quando os que o rodeiam vierem a saber que o é ou o foi, mau será se esse conhecimento não vier a confirmar o juízo que fazem da pessoa - seria sinal de que não fora digno de usar o avental que um dia lhe foi imposto...

A situação descrita, a não ser assim, só podia ocorrer num quadro de - para mim - impensável distância entre um homem e sua família mais chegada. Teria implicado a vivência em dois mundos estanques e absolutamente sem pontos de contacto. Isso não é vida real, é argumento de filme da guerra fria... Aliás, pelo menos um ponto de contacto entre esses dois mundos, um dos quais ignorava o outro, necessariamente tinha que haver: um amigo ou conhecido da família (a quem esta informou do óbito...) teria de ser maçom não menos discreto que o falecido, pois só assim poderia dar conhecimento aos maçons que compareceram no velório do passamento do Irmão...

E, das duas, uma: ou esse amigo ou conhecido levou a sua discrição ao ponto de não comparecer ao velório ou de aí comparecer separado dos maçons que se identificaram como tal, anónimo e secreto, ou, ao fim de tantos anos quebrou abrupta e incompreensivelmente a sua discrição...

Tal como a questão foi contada ao simple, parece-me, pois, mais um mito urbano, no caso, o mito do secretismo absoluto da Maçonaria, que só os anti-maçons alimentam. Contra este mito, em ambiente democrático, no século XXI, devemos combater, mostrando que discrição não é secretismo, esclarecendo e divulgando os nossos princípios.

Com este ponto de partida, pergunta simple como consegue um maçom manter oculta dos profanos a sua condição, e ao mesmo tempo envolver a família nesses eventos. Estando assente que "profano" é todo aquele que não é maçom e que, portanto, a família do maçom necessariamente que inclui profanos, a resposta a esta questão é simples: NÃO CONSEGUE. Ou mantém oculta da sua família a sua condição de maçom, ou não envolve a família nos eventos da Maçonaria... Ser e não ser não pode ser, já na Antiguidade dizia Sócrates, o filósofo...

Comer o bolo e continuar com o bolo não é possível, digo na atualidade eu, despretensioso escrevinhador... Com filhos pequenos ou grandes, discretos ou indiscretos, a dualidade secretismo/envolvimento simplesmente não é possível e, portanto, não é um problema.

Pergunta ainda o simple a partir de que idade é comum revelar-se à respectiva prole a condição de maçom. A resposta depende, a meu ver, mais do pai do que dos filhos... Depende essencialmente de como o pai vive a sua condição de maçom, do seu grau de envolvimento com a Ordem, do seu relacionamento mais próximo ou mais distante com a sua prole, da sua forma de educar, do seu conceito de transmissão dos seus valores - e também das circunstâncias e das oportunidades.

Eu diria que, mais do que cada um sabe dos seus, a resposta correcta é cada um sabe de si... Porque a resposta a essa questão só pode ser dada a cada um por si mesmo, o melhor que posso fazer é contar como é que eu fiz. Sempre eduquei as minhas filhas segundo dois princípios: os valores passam-se primeiro pelo exemplo e só depois pela palavra; as informações devem ser dadas quando quem as recebe está preparado para as receber.

Assim sendo, sempre me comportei como eu próprio, com os meus valores, os meus amigos, os meus Irmãos. A minha filha mais nova nasceu já eu era Mestre Maçom. Desde o berço que conhece os meus Irmãos, e de entre estes, que lida mais assiduamente com aqueles com quem estabeleci mais apertados laços da amizade, que me acompanha nas viagens que a Loja organiza para serem efetuadas pelos maçons e suas famílias, que me acompanha aos jantares brancos. Em toda a sua vida viu, com naturalidade, que havia dias em que o seu pai não estava em casa, porque "ia à reunião". E, durante vários anos, a bebé cresceu, a menininha medrou, sem se preocupar em catalogar os amigos do pai, sem estranhar almoços e jantares em grupo, mais interessada em saber que outras crianças estariam presentes.

Muitas vezes me viu sair e me perguntou "vais à reunião?" e eu confirmei que sim, sem que houvesse a necessidade de acrescentar que reunião era aquela onde eu ia. Um dia, finalmente, perguntou de que era a reunião a que eu ia. E eu respondi que era da Loja. E, não muito tempo depois, tendo percebido que a Loja de que eu falava, não era uma loja de se ir comprar coisas, um belo dia lá me perguntou de que era essa Loja. E eu respondi que era da Maçonaria. E passaram mais uns tempos até que perguntou o que é que se fazia na Maçonaria - e eu respondi e esclareci...

No fundo, educar é transmitir aos nossos filhos os nossos Valores. e isso não se faz escondendo esses valores deles, ou dando a noção de que esses Valores são para ser vividos clandestinamente. Pelo menos, quando se vive em Liberdade! Mas também temos que ter a noção de quando é que a criança está preparada para receber e processar uma determinada informação. Não faz sentido dar uma conferência sobre "Simbolismo, Esoterismo, Moralidade e Axiologia da Visão Imanente ao Entendimento do Universo, Criação, Criador e Criaturas na Maçonaria Contemporânea" a uma criança (nem sequer a certos adultos, diga-se de passagem)... Convém antes responder ao que é perguntado, certificando-nos do que é efetivamente perguntado, não vendo nós complexos problemas em questões, por vezes muito simples e básicas, que são o objeto, naquele momento, do interesse da criança.

Rui Bandeira"

04 janeiro 2016

Da importância do acaso na descoberta do sentido da vida


Certo dia, estando a conduzir liguei o rádio do automóvel (naquele preciso momento, não em outro qualquer). O rádio estava ligado numa determinada estação emissora (não em outra qualquer). Estava a ser transmitida uma determinada música (não outra qualquer), que me agradou muito e me reforçou a boa-disposição e abriu o sorriso.

Eu ia tratar de um assunto complicado e algo delicado num Tribunal, para o que necessitava que um funcionário judicial (sempre assoberbado de trabalho) me desse assistência, gastando razoável tempo e algum esforço. Ainda por cima, o tal assunto era desagradável para o dito funcionário, pelo que antecipava alguma má-vontade dele em auxiliar-me.

Mas eu estava tão bem-disposto com a música que por acaso ouvira, na estação de rádio que por acaso estava sintonizada no momento em que, por acaso, decidi ligar o rádio do meu automóvel, que me dirigi ao dito funcionário com um largo sorriso nos lábios, o cumprimentei alegremente, disse uma piada que também o fez sorrir e... quando lhe disse ao que ia, em vez da antecipada má reação, vi que a minha boa-disposição o contagiara e, com toda a amabilidade e todo o zelo, auxiliou-me no trabalho que eu ia fazer.

Isso reforçou a minha boa-disposição e, quando alguém seguidamente me pediu algo, não só me prontifiquei a corresponder ao pedido, como o fiz com gosto e prazer. Muitas vezes, depois disso, aquele a quem, naquela ocasião, auxiliei, retribuiu...

A boa-disposição manteve-se e, no final desse dia, ao fazer o balanço do que nele ocorrera, verifiquei que a minha boa-disposição influenciara todos aqueles com quem eu tinha interagido, que os meus sorrisos geraram muitos outros sorrisos de volta, que congregara muitas boas-vontades e que se gerara um ciclo virtuoso que levara a que tudo corresse bem e que a satisfação e boa-disposição imperassem, em mim e em todos com quem contactara.

Nesse dia, comprovei que, tal como o mal conduz ao mal, o bem gera o bem. E consolidou-se-me a noção de que tratar bem o próximo, ser simpático e empático, não só faz com que o próximo reaja no mesmo sentido, como aumenta o nosso bem-estar, a nossa boa-disposição. Em suma, que se recebe o que se dá - e exponencialmente mais.

A chave da felicidade é contribuir para a felicidade de quem nos rodeia. Poucas coisas nos aquecem mais o coração do que um sorriso feliz de uma criança. Mas, se bem pensarmos, também a constatação de um momento de felicidade num adulto influi positivamente em nós. Assim sendo, não faz sentido que ignoremos as necessidades do próximo. Pelo contrário, faz muito mais sentido ajudar o próximo a ter momentos de felicidade - porque isso nos fará duplamente felizes a nós próprios: felizes por vermos o próximo feliz, felizes porque o próximo, por sua vez, nos há de retribuir. Há quem chame a isto karma. Eu chamo-lhe, simplesmente... bom-senso.

O bem gera o bem. O belo conduz ao belo. Pelo contrário, do mal só virá mal, o abjeto só gera abjeção. E a indiferença, essa, é estéril.

O verdadeiro sentido da vida está em sermos felizes. E sermos felizes implica fazermos feliz quem nos rodeia. Logo, o verdadeiro sentido da vida está em gerar a felicidade em torno de nós e, assim, ganharmos também a nossa felicidade.

Este é, pelo menos, o meu sentido da minha vida. Serve para mim. Está certo para mim.

Mas, afinal, qual a importância do acaso na minha descoberta do meu sentido da minha vida? Para ser completamente verdadeiro... NENHUMA! Não cheguei a esta noção porque uma bela manhã liguei o rádio e ouvi uma música que me agradou. Se assim fosse, teria de concluir que, se tivesse ouvido uma música que me fosse muito desagradável, isso viria a fazer de mim um patife da pior espécie...

O caráter gera-se e aperfeiçoa-se. Mais do que consequência de uma música ouvida ao acaso, aquilo que sou e que penso resulta de toda a minha vivência, dos princípios em que acredito e procuro seguir. E muita importância nisso tem a minha condição de maçom e a vivência com os meus Irmãos, em Loja e fora dela. 

Então porque intitulei este texto "Da importância do acaso na descoberta do sentido da vida"? Porque é um título muito mais apelativo do que se simplesmente escrevesse "O sentido da vida", ou algo semelhante. Provavelmente, haverá muito boa gente que só leu este texto até aqui porque aquele título suscitou a sua curiosidade... Considere-se, pois, este título uma piada, um piscar de olho meu na tentativa de ajudar quem ler este texto a ter um momento de felicidade - e, já agora, a motivá-lo para dar felicidade aos que o rodeiam.

Façam o favor de ser felizes. Para isso, a melhor forma é... espalhar Felicidade. E verão que, no final, a vossa vida teve muito mais significado do que simplesmente viver uma vidinha de procurar ter...

Rui Bandeira

28 dezembro 2015

Maçons, "livres-pensadores"...


Aqui há uns tempos em conversa com um amigo sobre determinado tema, disse-lhe eu isto: “eu apenas te mostro o mapa, caberá a ti escolheres o caminho”. E de facto esta é a realidade em que temos de viver. Ou seja, nós somos as nossas “escolhas”, nós somos as “decisões” que tomamos e as ações que decidimos praticar.

Por mais que uns nos digam para irmos para a “esquerda” , outros para a “direita” e alguns inclusive nos digam para seguir pelo “meio”, a decisão final sairá de nós próprios, da nossa vontade, independentemente das indicações e dos conselhos que recebamos e que possam nos auxiliar na decisão a tomar.

Se decidirmos agir de certa maneira, coincidindo ou não com o que a generalidade ou somente com o que alguns considerem sobre tal , foi a nossa mente que o decidiu. 
Assim, todos nós na nossa Vida somos  - e seremos sempre - responsáveis por aquilo que decidirmos, sejam ações ou palavras e até mesmo pelos mais simples pensamentos.
- Fomos nós que os criamos/produzimos, logo somos nós responsáveis por eles, por inerência-.
Por mais influências que recebamos externamente, é o nosso íntimo, o nosso “Soi”, que irá efetuar a escolha do que concretamente iremos fazer.

Será a mais correta?!
Será a mais eficaz?!
Será a mais proveitosa?!

O que sabemos é que é a nossa decisão e apenas isso. Foi o que optámos por decidir. E que tal decisão seja sempre tomada em consciência com os princípios que advoguemos e com os quais nos sintamos devidamente identificados.
-Sejamos honestos, íntegros e coerentes nas nossas decisões!-

Os maçons, “livres-pensadores” como orgulhosamente se assumem, devem ter bem a noção de tal. Não bastará assumir algo ou determinada coisa para depois não se praticar isso na realidade.
É sempre esperado que um maçom use o seu bom senso e os seus bons costumes para decidir, se possível sempre, da melhor forma possível face às situações que a vida lhe apresenta.
-Tem o dever de agir dessa forma!-

O que poderá acontecer, e muitas vezes é inevitável tal, é que nem sempre as decisões tomadas possam ser as melhores ou mais corretas, uma vez que o maçom, tal como outro ser humano qualquer, também erra, mas como maçom tem a obrigação de aprender com esse erro e evitá-lo no seu futuro.
E aqui assumo que os maçons também erram, infelizmente algumas vezes e talvez, digo eu, vezes demais. Mas como o maçom é alguém que busca evoluir espiritualmente, ele também estará susceptível de efetuar mudanças no seu comportamento; logo também as suas decisões serão influenciadas pelas mudanças/”transformações” que sofrer e as suas atitudes se revelarão melhor no seu comportamento e carácter. Tudo isto em prol do seu auto-aperfeiçoamento enquanto ser humano. 
Isso será o tal “polimento”, o tal “burilamento da pedra bruta” que na Maçonaria tanto se fala.

Os vícios ou erros comportamentais que possam ter existido na sua conduta no passado, deverão ficar aí mesmo, no passado. E “como de passado apenas vivem os museus” (como é usual se afirmar), no momento da Iniciação, no momento em que o recém neófito encontra a sua primeira centelha da Luz, nasce como uma nova pessoa, um “novo Homem”, e como tal terá acesso a “ferramentas sociais e espirituais” que poderá utilizar para melhor atingir o seu “nirvana”, por assim dizer. 

O que interessa por vezes não é o mapa mas o caminho que se seguiu, mesmo para o nosso auto-aperfeiçoamento, o que importa é que decidimos livremente as decisões que tomámos e que escolhemos sempre, mediante o que a vida nos vai apresentando e mediante as condições que temos, mas que foram  as melhores decisões que considerámos que podíamos e/ou devíamos tomar ou ter tomado. Isso sim, é o mais importante nisto tudo.

Este caminho que seguimos é feito sozinho (somos nós que o temos que fazer) mas não é solitário (pois outros o fazem também) e temos ter a consciência e a noção disto.
Se olharmos para o lado veremos alguém a viver as mesmas situações ou outras, com decisões tomadas semelhantes ou completamente diferentes daquelas que, se fosse connosco, tomaríamos. A vida é isto mesmo, cheia de imponderáveis e é essa uma das mais valias de viver, a cada passo dado, a cada momento, nunca sabemos o que se seguirá, apenas o podemos tentar prever e nada mais.

O que concluindo posso afirmar é que independentemente das decisões e escolhas que tomemos, somos nós que o deveremos fazer e não outrem. E por elas nos responsabilizarmos. São estas decisões que nos definem como pessoas!
A  grande diferença que temos em relação aos restantes seres vivos é a nossa “massa cinzenta” e que é devido a ela que pudemos livremente pensar.
É altura de a começarmos a valorizar mais e principalmente em a começar a usar de uma forma correta e eficiente.
E posto isto, porque não… pensar?!

21 dezembro 2015

Boas Festas!


Entrámos na reta final do ano civil, quando o ambiente e a disposição nos relembram a cada momento que é a altura das Festas. As Festas por alturas do solstício de inverno (no hemisfério norte) são assinaladas desde a mais remota Antiguidade. O dia do solstício de inverno constitui o máximo do esforço, da privação, da falta de luz e de calor. É o menor dia do ano, é a maior noite do ano. Porque sentiu a Humanidade a necessidade de festejar este tão soturno, breve e desagradável dia? Porque marca o ponto de viragem, porque assinala a ocasião em que finda o tempo de tudo piorar, de cada dia que vem ser um pouco menor que o anterior e cada noite um pouco maior, para tudo começar a melhorar, a paulatinamente, dia a dia, aumentar o tempo em que o Sol nos ilumina e a diminuir o tempo em que a escuridão da noite nos incomoda.

Sempre admirei esta capacidade do bicho-homem de festejar, de assinalar o momento em que o mau é pior, em que se bate no fundo, porque ela significa que a Humanidade tem a importante caraterística de preservar a Esperança e de ver para além do momento. Quando se bate no fundo, daí para a frente é sempre a subir. Quando se atinge o máximo de escuridão, daí em diante a luz continuamente aumenta. O festejo do pior momento é afinal o festejo da noção de que o pior passou, a partir de agora o pior vai sendo cada vez menos mau, cada vez mais facilmente suportável, até que saímos do tempo e do território do pior e passamos a estar na altura do melhor. 

Na Grécia antiga eram as Festas Dionisíacas, nos tempos da antiga Roma estas festividades eram as Saturnálias, na sociedade europeia cerca dos últimos dois mil anos é o Natal. Evoluem as sociedades, sucedem-se os costumes e as crenças, mas o básico continua no âmago dos homens: a celebração por volta do solstício de inverno, chame-se-lhe o que se lhe chamar, é feita. As tribos primitivas refugiavam-se nas suas cavernas, de volta do fogo, reunindo a tribo em torno da prole. Hoje, bem vistas as coisas, não agimos de forma muito diferente...

É chegado o tempo de cada um de nós se dedicar à sua família, de fortalecer os laços com o seus. É um tempo de pausa, que reforça os nossos grupos de gente chegada. As famílias - todo o tipo de famílias, das mais convencionais às mais arrojadas e liberais - reagrupam-se e cada um relembra a si mesmo que, por muito individualista que cada um seja, no fundo, no fundo, somos inapelavelmente todos animais gregários.

E este mergulhar no interior do grupo dos nossos mais próximos revigora-nos para prosseguirmos o nosso caminho, reconforta-nos com o rememorar dos tempos em que éramos meninos, recorda-nos que, façamos nós o que façamos, corramos o risco que corrermos, afastemo-nos o que nos afastarmos, existe sempre uma retaguarda onde somos bem-vindos, onde nos podemos acolher, aonde vale sempre a pena voltar.

As luzes são bonitas, os presentes são agradáveis, as mesas fartas são reconfortantes, as comemorações e as cerimónias dos nossos hábitos e das nossas crenças são aprazíveis, mas, para mim, o essencial é este retorno, esta necessidade, de anualmente superarmos a altura mais fria, mais desagradável, mais negra, do ano junto dos nossos, entre os que nos são queridos. Em conjunto. Juntos. E festejar o facto de juntos superarmos o tempo difícil e rumarmos a melhores dias.

Festas Felizes!

Rui Bandeira