12 maio 2008

RITA LEVI MONTALCINI


Como de costume uma Amiga de há muitos anos (que raio de coisa, todas as referências são de há muitos anos… Mas eu tenho tão poucos, como é possível ?) mandou-me em mensagem via net uma entrevista com uma Senhora , de nome Rita Levi, médica e investigadora sobre o funcionamento do conteúdo cerebral.
Acontece tratar-se de alguém que mantém, aos 99 anos, ideias claríssimas sobre o Homem e a Humanidade, sua situação e suas necessidades.
E eu, aproveitador-mor deste reino, trago-a ao A-Partir-Pedra.
Parece-me inegável o interesse desta vida, e as ideias que expressa claramente, indicam um caminho que, a ser seguido, só pode trazer bons resultados ao mundo.
Uma pequena chamada de atenção. Tudo o que Rita Levi refere sobre a evolução e transformação de neurónios só se aplica aos que têm cabeça com neurónios. Um só é pouco para se sentir estas evoluções… Falo por mim naturalmente !

Dra. Rita Levi, que tem 99 anos recebeu o Prémio Nobel de Medicina quando tinha 77 !!! Rita Levi Montalcini, nasceu em Turín, Itália, em 1909, e obteve o título de Medicina na especialidade de Neurocirurgia.
Como na entrevista refere que se considera feia, assim como diz que o corpo enrugou, aproveitei 2 fotos da Wikipédia para poder dizer, “quem a viu e quem a vê”… Só que, meus queridos amigos, não são as fotografias do exterior que valem !Esta entrevista aqui fica, tal qual me chegou, obviamente em “brasilês” e com um pequeno cheirinho do orgulho judeu que teria sido dispensável, embora não faça mal a ninguém.

Eis uma entrevista com a médica no dia 22/12/ 2005

Como vai celebrar seus 100 anos ?
Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é no que faço a cada dia.!

E o que você faz?
Trabalho para dar uma bolsa de estudos às meninas africanas para que estudem e prosperem ... elas e seus países. E continuo investigando, continuo pensando.

Não vai se aposentar?
Jamais! Aposentar-se é destruir cérebros! Muita gente se aposenta e se abandona... E isso mata seu cérebro. E adoece.

E como está seu cérebro?
Igual quando tinha 20 anos! Não noto diferença em ilusões nem em capacidade. Amanhã vôo para um congresso médico.

Mas terá algum limite genético ?
Não. Meu cérebro vai ter um século, mas não conhece a senilidade. O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!

Como você faz isso?
Possuímos grande plasticidade neural: ainda quando morrem neurónios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso é conveniente estimulá-los!

Ajude-me a fazê-lo.
Mantenha seu cérebro com ilusões, activo, faça-o trabalhar e ele nunca se degenerará.

E viverei mais anos?
Viverá melhor os anos que viver, é isso o interessante. A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões....

A sua foi a investigação científica...
Sim, e segue sendo.

Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso...
Sim, em 1942: dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas até que foi reconhecida sua validade e, em 1986, me deram o prémio por isso.

Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?
Desde menina tive o empenho de estudar. Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe... E eu não quis. Fui firme e confessei que queria estudar.

Seu pai ficou magoado?
Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa... Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior...

Vejo que isso foi um estímulo...
Meu estímulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava na África para ajudar a curar a lepra. Desejava ajudar aos que sofrem, esse é meu grande sonho.

E você o tem realizado... com a sua ciência.
E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem. Lutamos contra a enfermidade, a opressão à mulher nos países islâmicos, por exemplo, além de outras coisas...
A religião freia o desenvolvimento cognitivo?
A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando corrigir essa posição.

Existem diferenças entre os cérebros do homem e da mulher?
Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas ao sistema endócrino. Mas, quanto às funções cognitivas, não há diferença alguma.

Por que ainda existem poucas cientistas?
Não é assim! Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.

É verdade?
A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra. Hoje, felizmente, há mais mulheres que homens na investigação científica: as herdeiras de Hipatia!

A sábia Alexandrina do século IV...
Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela. Claro, o mundo tem melhorado algo...

Ninguém tem tentado assassinar você...
Durante o fascismo, Mussolini quis imitar Hitler na perseguição dos judeus. E tive que me ocultar por um tempo. Mas não deixei de investigar: tinha meu laboratório em meu quarto...E descobri a apoptose, que é a morte programada das células!

Por que existe uma alta percentagem de judeus entre cientistas e intelectuais?
A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais: podem proibir tudo, mas não que pensem! E é verdade que há muitos judeus entre os prémios Nobel...

Como você explica a loucura nazista?
Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual. Conduziram emoções, não razões!

Isto está acontecendo agora?
Por que você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o creacionismo e não o evolucionismo?
A ideologia é emoção, é sem razão?
A razão é filha da imperfeição. Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos. Nós, não. E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores éticos: discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana!

Você nunca se casou ou teve filhos?
Não. Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que decidi dedicar-lhe todo meu tempo, minha vida!

Lograremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson, a demência senil?
Curar... O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.

Qual é hoje seu grande sonho?
Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.

Quando deixou de sentir-se feia?
Ainda estou consciente de minhas limitações!

O que tem sido o melhor da sua vida?
Ajudar aos demais.

O que você faria hoje se tivesse 20 anos?
....Mas eu estou fazendo!!!!


Depois disto só resta mesmo… trabalhar !

Além de que é 2ª feira… repararam ? Vá… boa semana e bom trabalho.

JPSetúbal

09 maio 2008

PIRILAMPO MÁGICO 2008

É HOJE !!! É HOJE !!!

Pois é assim, é hoje, sexta-feira dia 9, que é lançada a campanha do Pirilampo Mágico 2008.
Como habitualmente Maio é o mês do Pirilampo, e até ao fim do mês todos terão oportunidade de adquirir um lindo e fôfo bonequinho verde-alface por módicos 2 euros e adicionalmente um pino por 1 euro.
São os preços que duram há anos, resistindo à inflação, às alterações de taxas, às alterações do défice, à crise do sub-prime e mais a todas as crises e alterações complicadas que o ambiente financeiro mundial vai sofrendo.
É assim, o Pirilampo é bem mais resistente do que o seu ar fragil e fôfo deixa adivinhar...
Não percam tempo, adquiram já o Vosso Pirilampo de 2008, neste ano de "Europeu", dedicado ao desporto.

As CERCI´s e os seus utentes, crianças diminuidas física e psiquicamente, agradecerão a V. ajuda.
Serão para elas os 2 euros que gastarem na aquisição de cada "bonequinho".

JPSetúbal

08 maio 2008

Mestre e Aprendiz

Costumo invocar com frequência a noção de que o Mestre maçon deve considerar-se um eterno Aprendiz, se quer ser digno de ser considerado Mestre.

Também me relembro com frequência que ser maçon é um percurso de auto-aperfeiçoamento, sempre dinâmico, sempre inacabado, sempre em execução. Um dos marcos desse caminho é o maçon, o homem livre e de bons costumes, poder convictamente considerar-se Mestre de si mesmo, capaz de dominar suas paixões, seus vícios, domar seu temperamento, desbastar sua personalidade, no sentido do equilíbrio, da justeza. Enfim, conseguir EFECTIVAMENTE nortear sua vida e suas acções e realizações dentro do espaço delimitado por três características indispensáveis para que cada obra humana tenha valia digna desse nome: a Sabedoria, a Força e a Beleza. Que cada nossa decisão, cada realização nossa, consiga simultaneamente ser sabedora, porque justa e certa e equilibrada e prudente, forte, porque durável e susceptível de naturalmente se impor e prosseguir seus objectivos e bela, porque agradável aos demais, não é empresa fácil, se a queremos realizar bem, mas é extremamente gratificante, quando se alcança.

Ser maçon é, portanto, ser sempre Aprendiz, porque em cada momento devemos melhorar, mais bem compreender e fazer, sempre devemos estudar e especular e experimentar, para em cada dia sermos um pouco, um grão que seja, melhores do que o anterior. Mas é também ser Mestre, porque a aprendizagem não é um mero exercício intelectual, é um meio para utilizarmos e dominarmos e integrarmos o que aprendemos, com valia para nós próprios e para os demais, que podem beneficiar do que aprendemos e da transmissão do nosso conhecimento.

Esta dualidade Aprendiz - Mestre é, por natureza, dinâmica. Aprendemos e do que aprendemos somos Mestres e, sendo-o, verificamos que mais temos a aprender, e vemos como, e de novo mais aprendemos, e de mais somos Mestres e assim sucessivamente, numa eterna sucessão do ciclo tese-antítese-síntese que é nova tese. Esta relação entre aprendizagem e utilização do que se aprendeu necessita, porém, de ser equilibrada - de pouco vale aprender, aprender e aprender, se nada se utiliza, se aplica, se usa; não muito vale fazer e refazer e repetir o que um dia se aprendeu,em eterna e rotineira execução, sem perspectivas nem evolução. Por isso, em Maçonaria se preza o equilíbrio e se atende ao valor da dualidade, como factor de progresso, de evolução.

Em bom rigor, o maçon não É aprendiz, não É Mestre. O maçon FAZ-SE Aprendiz e, com isso, TORNA-SE Mestre. Não se compreende efectivamente a natureza da Maçonaria se dela apenas se retém uma imagem estática. A Maçonaria e os seus ensinamentos são essencialmente dinâmicos e é esse dinamismo, essa perpétua evolução, esse incessante movimento intelectual que é indispensável entender, se se quer perceber o que é a Maçonaria. Cada ponto de chegada é um novo ponto de partida. Sempre. Com a especificidade de que cada maçon não tem necessariamente de partir dos SEUS pontos de chegada. Pode beneficiar dos que seus Irmãos obtiveram para, a partir deles, integrar os seus próprios conhecimentos e de tudo beneficiar para prosseguir sua demanda.

É também por isso que a maçonaria orgulhosamente se reclama da Tradição. Da Tradição de seus ancestrais, dos Mestres que antes de nós fizeram suas demandas e chegaram a suas conclusões. Que abriram e aplainaram os caminhos que hoje confortavelmente percorremos sem dificuldade, permitindo que nos aventuremos no desbaste de novos percursos que, se bem trabalharmos, um dia serão rápidas estradas, facilmente atravessadas pelos vindouros até às fronteiras de seus desconhecidos novos percursos. Por isso, para um maçon é natural ir ao passado rever o que aí se descobriu, para integrar com o que hoje está à nossa disposição e poder construir o que amanhã se descobrirá. Por isso, o Passado, o Presente e o Futuro se unem e tocam e associam para mais um pouco se avançar. Por isso, nós, maçons, valorizamos o Passado, a Tradição, os Ritos e os Conhecimentos que herdámos de nossos antecessores, tanto como valorizamos o nosso esforço de Hoje e como aspiramos a que seja valorizado o que procuramos construir para o Futuro. Que um dia será Presente e logo Passado... Dinâmica, não estática...

Os Aprendizes de antanho são para nós Mestres que nos ajudam a aprender e a sermos, por nosso turno, Mestres. Mas também os Mestres Aprendizes de agora mutuamente se influenciam. Por isso, mais do que dizer-se apenas que cada Mestre maçon, sendo-o, é simultaneamente um Aprendiz, pode e deve dizer-se ainda que cada maçon é também e sempre um Aprendiz de alguém e Mestre de algum outro Aprendiz.

Portanto, e resumindo: cada Mestre maçon é simultaneamente Mestre de si próprio e eterno Aprendiz, Aprendiz dos ensinamentos dos seus antecessores e Mestre dos vindouros e ainda Aprendiz de alguém e Mestre de algum outro Aprendiz - porventura também Mestre e, portanto, com as mesmas características...

Uma das coisas que eu gosto na Maçonaria é esta sua simplicidade!

Rui Bandeira

07 maio 2008

Inês: balanço

A campanha a favor da Inês foi lançada aqui no blogue em 8 de Abril. Para além de pequenas referências nos rodapés dos textos publicados, desde então, durante o mês de Abril, dedicámos à campanha um segundo texto em 14 de Abril e ainda um terceiro em 22 de Abril, neste indicando que a campanha duraria até ao final do mês. É tempo de balanço.

Os donativos recebidos em resultado da campanha atingiram o montante de 250,00 euros, montante que será entregue aos pais da Inês no final do corrente mês, conjuntamente com o resultado da recolha de fundos que a Loja Mestre Affonso Domingues está internamente a efectuar.

O montante de 250,00 euros obtido através da campanha aqui no blogue não é muito nem pouco, isto é, não supera nem defrauda as expectativas. Associado a outros montantes recolhidos, dará certamente um alívio e permitirá um pequeno desafogo à Inês e sua família.

Devo, no entanto, confessar que a forma como se atingiu este montante me deixa algo desiludido e com um leve amargor na boca. Não seria assim se tivesse verificado que este montante fora atingido, por exemplo, com 25 donativos de 10 euros. Aliás, por várias vezes que, quer nos textos principais, quer nos textos de rodapé, se frisou que nenhuma quantia era demasiado pequena...

Porém, o que sucedeu é que o montante obtido resultou de 2 - dois - donativos!

Entre 8 e 30 de Abril, o contador de visitas ao blogue registou 3.937 visitas ao blogue. Destas, admito que metade sejam ocasionais e de internautas não propriamente particularmente interessados nestas coisas da maçonaria, do aperfeiçoamento pessoal e da solidariedade - não será por acaso que o artigo presentemente mais lido do blogue é o dedicado ao sítio das tatuagens maçónicas e que a etiqueta "curiosidades" seja a terceira mais procurada (apesar de, no corrente ano, nenhum texto ter sido marcado com essa etiqueta). Por outro lado, cerca de dois terços das visitas a este blogue são provenientes do Brasil. Quer pela distância, geradora de distanciamento, quer pelos custos das transferências bancárias internacionais, desde o início que admiti que dificilmente seria possível que a Inês recebesse muitos donativos vindos dessa proveniência. Mas ainda admiti que um ou dois pudesse passar essa barreira de dificuldade e desmotivação... Assim, das putativas 1.968 visitas de pessoas especificamente interessadas nos temas deste blogue, admiti que só um terço constituísse o "mercado alvo" do apelo, ou seja 656.

Dado que muitas dessas visitas são - felizmente! - efectuadas por visitantes regulares, calculo que não será exagerado admitir que pelo menos 66 pessoas interessadas, próximas e persistentes visitaram o blogue no decorrer da campanha. Destes, admito que metade tenha efectuado donativos para a Inês através de outros meios, designadamente nas recolhas de fundos a que se procedeu em várias Lojas.

Mesmo assim, resta um universo de 33 pessoas interessadas, próximas, persistentes e solidárias.

Pois bem, destas consegui que os princípios de solidariedade fossem transformados em acto prático por duas. Falhei esse objectivo com 31.

Tratando-se de pessoas interessadas, próximas, persistentes e solidárias, se não foram tocadas ao ponto de passarem à prática os seus princípios e sentimentos, a culpa só pode ter sido minha e da minha incapacidade de as motivar.

Daí o amargor da minha boca. Porque o reconhecimento da nossa própria incompetência deixa-nos esse amargor.

Só me restam duas coisas a fazer: uma, procurar conseguir ser melhor, mais competente, mais impressivo para a próxima; a outra, pedir desculpa à Inês, à sua família e aos leitores deste blogue pela minha incompetência!

Rui Bandeira

06 maio 2008

A tigela e o exemplo


Ontem, afazeres profissionais impediram-me de publicar aqui no blogue. Um julgamento no Tribunal Arbitral prolongou-se de manhã até à noite. Mas há males que vêm por bem...

Hoje, na minha caixa de correio tinha uma mensagem de um leitor do blogue que, muito oportunamente, me enviou um vídeo que pontua e complementa com precisão o texto A tigela de madeira. Este texto, na versão em que circula na Rede, procura unicamente chamar a atenção para o tratamento que se deve dar aos nossos maiores. A intervenção da criança é simplesmente o catalisador que desperta a consciência dos adultos que desconsideravam o idoso, levando-os ao arrependimento e ao atalhar de atitudes que conduz ao final feliz e harmonioso.

Eu optei por deixar a reacção à frase da criança à imaginação do leitor, parando o texto no seu ponto mais forte, e por acentuar, não apenas o dever de bem tratar os nossos ascendentes, mas também - quiçá sobretudo - o facto de os nossos actos constituírem um exemplo para os nossos filhos. As nossas escolhas, as nossas atitudes em relação aos nossos maiores reflectem-se não só perante estes mas também perante aqueles que temos o dever de educar. O leitor que me enviou este vídeo interpretou na perfeição a minha intenção. O vídeo complementa e ilustra com muito a propósito a mensagem que pretendi transmitir.

Não tenhamos ilusões: muito do que os nossos filhos são e serão resulta do que nos vêem fazer, não do que lhes dizemos que deve ser feito...

Portanto, e repetindo as legendas finais do vídeo, não se esqueçam: As crianças vêem. As crianças fazem. Torna a tua influência positiva.



Rui Bandeira

02 maio 2008

A tigela de madeira


Como tenho ultimamente feito à sexta-feira, deixo aqui hoje mais uma pequena história merecedora de reflexão. É mais uma das que recebi por correio electrónico e de que desconheço a autoria. Como habitualmente, o texto publicado é editado por mim. Hoje, a edição é significativa, já que lhe retiro todo o final, aparentemente feliz, em que os que erraram se arrependem, mudam de atitude e todos, a partir daí, vivem felizes para sempre. Para a reflexão que se pretende suscitar, é perfeitamente desnecessário. Como verão, é muito mais interessante parar na frase mais forte…


Um homem já de avançada idade e marcado pelo desgaste da vida foi viver com os seus filho, nora e neto, este de quatro anos de idade. A avançada idade do homem causava que as suas mãos fossem já muito trémulas, a sua visão cansada e limitada, os seus passos vacilantes.


Como é usual, a família comia reunida á mesa. Mas o tremor das mãos do avô e a sua dificuldade de visão tornavam-lhe difícil o manuseio dos talheres. Se o almoço eram ervilhas, elas caíam da colher para a toalha de mesa, a cadeira e o chão. Se bebia um pouco de leite, era certo e sabido que entornava parte dele. O filho e a nora depressa ficaram fartos de tanta confusão.


- Temos de fazer alguma coisa com o meu pai. Já não aguento mais tento leite entornado, tanto barulho de comer com a boca aberta, tanta comida espalhada pelo chão!


Então o filho e a nora decidiram colocar uma pequena mesa num canto da cozinha e que o velho passasse a ali fazer as suas refeições, enquanto o resto da família descansadamente comia, feliz e contente, na mesa de refeições.


Porque o idoso senhor já anteriormente quebrara um ou dois pratos, arranjaram-lhe uma tigela de madeira e passaram a pôr-lhe ali a comida.


E assim o velhote passou a comer ao canto da cozinha, de uma tigela de madeira. Por vezes, uma lágrima de desgosto e de humilhação humedecia o seu rosto. Mas ali continuava sozinho, procurando controlar o tremor das suas mãos o melhor que podia, pois, mesmo assim, sempre que deixava algo cair ao cão, ásperas palavras de censura lhe eram dirigidas.


O menino de 4 anos de idade assistia a tudo em silêncio. Como todas as crianças daquela idade, observava e aprendia.


Um dia, o pai da criança encontrou-o concentrado a manusear um pedaço de madeira e perguntou-lhe o que estava a fazer. Então o menino. Com um cândido sorriso próprio da idade, respondeu-lhe, orgulhoso do que aprendera e da decisão que tomara:


- Estou a fazer uma tigela, para tu e a mãe comerem quando eu crescer e vocês forem mais velhos…!


Diz o povo, na sua ancestral sabedoria: Filho és, pai serás, como fizeres, assim acharás.


O ritmo acelerado da vida actual torna, por vezes, algumas pessoas impacientes para com as limitações dos mais idosos. Muitas vezes, há a tentação de optar pelo mais fácil, de afastar, de esconder. Mas, para além do respeito, carinho e consideração que os nossos ascendentes nos devem merecer, não nos devemos esquecer que um dia seremos nós os limitados, os doentes, os fracos e que quem cuidará de nós serão aqueles que hoje crescem aprendendo com o nosso exemplo e que, em silêncio vêem, absorvem e – que ninguém tenha disso dúvidas! – guardam na sua memória os gestos e atitudes e opções que nos vêem executar, ter e fazer.


Honrar os nossos ascendentes, tratá-los com consideração, amor e carinho é um dever básico. Como filhos e como pais. Porque o melhor ensinamento que damos aos nossos filhos é o nosso exemplo.


Rui Bandeira

01 maio 2008

Mais uma estória... velha.



Cá venho eu com uma estória velha.

Conheço-a há muitos anos.

Acho que ainda era míudo quando ma contaram (ou a li ?) e foi mais uma das "lendas" que me ficaram bem gravadas.
Há 2 dias um Amigo (também antigo, do tempo dos tiros) recordou-a e eu apanhei-a na "net".

Não pensei muito na relação, mas há qualquer coisa entre esta estória e este dia.
Cá a "posto", não para encher a data mas tão sómente porque, lenda ou não lenda, vale a pena mantê-la na mesa de cabeceira da vida para a irmos recordando de quando em quando, não a deixando cair no esquecimento total.

Como de costume... enquanto há vida, há esperança. Pode ser que os homens algum dia consigam fazer "a vida universal" que a Humanidade precisa.


"Mais uma estória... velha"
Ricardinho não aguentou o cheiro bom do pão e falou:
- Pai, tô com fome!!!
O pai, Agenor , sem ter um tostão no bolso, caminhando desde muito cedo em busca de um trabalho, olha com os olhos marejados para o filho e pede mais um pouco de paciência...
- Mas pai, desde ontem não comemos nada, eu tô com muita fome, pai!!!
Envergonhado, triste e humilhado em seu coração de pai, Agenor pede para o filho aguardar na calçada enquanto entra na padaria a sua frente. Ao entrar dirige-se a um homem no balcão:
- Meu senhor, estou com meu filho de apenas 6 anos na porta, com muita fome, não tenho nenhum tostão, pois saí cedo para buscar um emprego e nada encontrei. Eu lhe peço que em nome de Jesus me forneça um pão para que eu possa matar a fome desse menino. Em troca posso varrer o chão de seu estabelecimento, lavar os pratos e copos, ou outro serviço que o senhor precisar!!!
Amaro , o dono da padaria estranha aquele homem de semblante calmo e sofrido, pedir comida em troca de trabalho e pede para que ele chame o filho...
Agenor pega o filho pela mão e apresenta-o a Amaro, que imediatamente pede que os dois se sentem junto ao balcão, onde manda servir dois pratos de comida do famoso PF (Prato Feito) - arroz, feijão, bife e ovo...
Para Ricardinho era um sonho, comer após tantas horas na rua...
Para Agenor , uma dor a mais, já que comer aquela comida maravilhosa fazia-o lembrar-se da esposa e mais dois filhos que ficaram em casa apenas com um punhado de fubá...
Grossas lágrimas desciam dos seus olhos já na primeira garfada...
A satisfação de ver seu filho devorando aquele prato simples como se fosse um manjar dos deuses, e a lembrança de sua pequena família em casa, foi demais para seu coração tão cansado de mais de 2 anos de desemprego, humilhações e necessidades...
Amaro se aproxima de Agenor e percebendo a sua emoção, brinca para relaxar:
- Ô Maria!!! Sua comida deve estar muito ruim... Olha o meu amigo está até chorando de tristeza desse bife, será que é sola de sapato?!?!
Imediatamente, Agenor sorri e diz que nunca comeu comida tão apetitosa, e que agradecia a Deus por ter esse prazer...
Amaro pede então que ele sossegue seu coração, que almoçasse em paz e depois conversariam sobre trabalho...
Mais confiante, Agenor enxuga as lágrimas e começa a almoçar, já que sua fome já estava nas costas...
Após o almoço, Amaro convida Agenor para uma conversa nos fundos da padaria, onde havia um pequeno escritório... Agenor conta então que há mais de 2 anos havia perdido o emprego e desde então, sem uma especialidade profissional, sem estudos, ele estava vivendo de pequenos "biscates aqui e acolá", mas que há 2 meses não recebia nada...
Amaro resolve então contratar Agenor para serviços gerais na padaria, e penalizado, faz para o homem uma cesta básica com alimentos para pelo menos 15 dias...
Agenor com lágrimas nos olhos agradece a confiança daquele homem e marca para o dia seguinte seu início no trabalho...
Ao chegar em casa com toda aquela "fartura", Agenor é um novo homem - sentia esperanças, sentia que sua vida iria tomar novo impulso... Deus estava lhe abrindo mais do que uma porta, era toda uma esperança de dias melhores... No dia seguinte, às 5 da manhã, Agenor estava na porta da padaria ansioso para iniciar seu novo trabalho...
Amaro chega logo em seguida e sorri para aquele homem que nem ele sabia porque estava ajudando... Tinham a mesma idade, 32 anos, e histórias diferentes, mas algo dentro dele chamava-o para ajudar aquela pessoa... E, ele não se enganou - durante um ano, Agenor foi o mais dedicado trabalhador daquele estabelecimento, sempre honesto e extremamente zeloso com seus deveres... Um dia, Amaro chama Agenor para uma conversa e fala da escola que abriu vagas para a alfabetização de adultos um quarteirão acima da padaria, e que ele fazia questão que Agenor fosse estudar...
Agenor nunca esqueceu seu primeiro dia de aula: a mão trémula nas primeiras letras e a emoção da primeira carta...
Doze anos se passaram desde aquele primeiro dia de aula... Vamos encontrar o Dr. Agenor Baptista de Medeiros, advogado, abrindo seu escritório para seu cliente, e depois outro, e depois mais outro... Ao meio dia ele desce para um café na padaria do amigo Amaro, que fica impressionado em ver o "antigo funcionário" tão elegante em seu primeiro terno...
Mais dez anos se passam, e agora o Dr. Agenor Baptista, já com uma clientela que mistura os mais necessitados que não podem pagar, e os mais abastados que o pagam muito bem, resolve criar uma Instituição que oferece aos desvalidos da sorte, que andam pelas ruas, pessoas desempregadas e carentes de todos os tipos, um prato de comida diariamente na hora do almoço... Mais de 200 refeições são servidas diariamente naquele lugar que é administrado pelo seu filho, o agora nutricionista Ricardo Baptista...
Tudo mudou, tudo passou, mas a amizade daqueles dois homens, Amaro e Agenor impressionava a todos que conheciam um pouco da história de cada um...
Contam que aos 82 anos os dois faleceram no mesmo dia, quase que a mesma hora, morrendo placidamente com um sorriso de dever cumprido...
Ricardinho, o filho mandou gravar na frente da "Casa do Caminho", que seu pai fundou com tanto carinho:
- "Um dia eu tive fome, e você me alimentou. Um dia eu estava sem esperanças e você me deu um caminho. Um dia acordei sozinho, e você me deu Deus, e isso não tem preço. Que Deus habite em seu coração e alimente sua alma. E, que te sobre o pão da misericórdia para estender a quem precisar!!!"

Vejam só que há coisas tramadas.

Então não é que para além da relação com o dia, dá-me a ideia que também conheço este Agenor ?
Ou será que não se chama Agenor ?
Ummmm, bem, vou ficar a matutar a ver se me lembro do nome. Mas acho que conheço, sim...

Bom 1º de Maio para todos. Abração.

JPSetúbal