Atalhos

16 maio 2026

Quando o Templo Ganha Vida

Na última sessão tivemos a oportunidade de fazer algo que não acontece todos os dias, uma instrução de Companheiro. Tivemos também o prazer de a tornar, de alguma forma, diferente do habitual, não pelos temas abordados, porque muitos deles fazem parte naturalmente deste grau, mas pela forma como ganharam vida dentro do Templo. Durante alguns momentos, os símbolos deixaram de existir apenas no ritual e este tornou-se vivo em quadros, em palavras, através das pessoas e dos movimentos e relações que se foram construindo dentro do Templo.

Curiosamente, a noite já vinha trazendo bastante matéria para reflexão antes mesmo da subida ao segundo grau e, às vezes, acontece assim, sem combinar ou prever, temas diferentes acabam por conversar entre si e deixar ideias que provavelmente ninguém tinha planeado.



O Grau de Companheiro representa uma mudança, mesmo que subtil, no percurso maçónico. Enquanto o Aprendiz aprende a trabalhar a pedra e a olhar para si próprio, aprende a reconhecer imperfeições, a utilizar ferramentas e a perceber que a primeira obra a transformar nunca está no exterior, o Companheiro não abandona esse trabalho. Pelo contrário, começa a olhar mais longe. Passa a preocupar-se não apenas com a pedra em si, mas também com a forma como essa pedra se relaciona com todas as restantes na construção do Templo.

Talvez por isso surjam as colunas e os princípios que elas representam. O Aprendiz conhece primeiro três delas. A Força, a Sabedoria e a Beleza, podem parecer conceitos simples à primeira vista, mas talvez sejam mais difíceis de equilibrar do que imaginamos.

A Força é necessária, sem ela nada começa, nada avança e nada se constrói, mas quando cresce sem medida pode levar-nos a empurrar aquilo que ainda precisava apenas de um pouco mais de tempo para amadurecer. Precisa, assim, da Sabedoria, aquela que nos ajuda a reconhecer o momento certo, lembrando-nos que nem todas as portas se abrem pela insistência e que nem todos os caminhos se percorrem à mesma velocidade. Talvez seja aquí que surge a Beleza, não apenas nas palavras escolhidas, nas intenções ou na vontade de fazer algo maior, mas também na forma como as coisas são construídas, no método, na harmonia e até no respeito pelo ritmo natural das etapas. Sem estas três colunas, devidamente equilibradas, dificilmente conseguimos dirigir a nossa construção até ao Oriente Eterno. 

Sim, Três a Dirigem.

Durante este caminho surgem, ou talvez se assumam, outras colunas, como a Simplicidade e a União, talvez porque algumas lições apenas façam sentido quando chega o momento certo de as compreender. A Simplicidade ensina-nos que nem tudo precisa de parecer maior do que é para ter valor e a União recorda-nos que o caminho maçónico nunca foi uma corrida individual, mas uma construção feita em conjunto. São estas cinco coluna que suportam os candelabros do nosso caminho, para que este seja iluminado.

Sim, Cinco a Iluminam.

Podemos também olhar para as artes, como as Sete Artes Liberais, não apenas como conhecimentos antigos ou referências históricas, mas como pequenos lembretes que continuam surpreendentemente actuais.

O Trivium, composto pela Gramática, pela Retórica e pela Lógica, procurava ensinar o Homem a falar, a comunicar e a pensar. A Gramática ajudava a ordenar as palavras, embora a vida vá mostrando que falar bem não transforma automaticamente uma ideia em verdade. A Retórica dava força ao discurso, mas também nos recorda que as palavras conseguem, por vezes, vestir uma pedra bruta com aparência de obra acabada. A Lógica organiza o pensamento, ainda que nem tudo o que pareça coerente esteja verdadeiramente consolidado.

Depois surgia o Quadrivium: Aritmética, Geometria, Música e Astronomia. A Aritmética recorda-nos que nem tudo pode ser reduzido a números. A Geometria revela-nos equilíbrio, proporções e a necessidade de cada elemento ocupar o seu lugar. A Música ensina-nos que a harmonia nasce do respeito pelo compasso e a Astronomia talvez nos deixe a lição mais simples de todas, lembrando-nos que, apesar da importância que damos a nós próprios, continuamos a ser apenas uma pequena parte de algo muito maior.

As Sete Artes Liberais nunca tiveram apenas a missão de ensinar conhecimentos, mas sim o propósito de formar Homens, é com estas artes que o Companheiro inicia verdadeiramente o seu trabalho, não apenas na procura de mais conhecimento, mas na compreensão de que crescer não é o mesmo que acelerar etapas, existe uma diferença entre olhar para o horizonte e acreditar que já o alcançámos.

Muitas construções, e principalmente as da nossa alma, não falham por falta de talento, entusiasmo ou vontade. É natural e saudável existir ambição em querer erguer algo maior e acreditar que as nossas fundações serão um dia suficientemente sólidas para o suportar, mas o risco começa quando há a presunção que essas fundações já estão concluídas, passando a preocupar-nos mais com a fachada e com aquilo que o exterior vê do que com a estrutura que realmente sustenta a obra.

Foi talvez essa a ideia que ficou da sessão de ontem. O Companheiro não é um Homem que chegou ao fim de uma etapa, mas sim um Homem que descobriu que ainda existe muito caminho para percorrer. É precisamente essa descoberta que transforma uma subida de grau num verdadeiro progresso e a verdadeira pertença ao grau em si, o avental é adorno.

No final de tão rica sessão, e até com uma intrução um pouco fora do formato habitual e com "alguma" liberdade ritual, terminou de forma Justa e Perfeita.

João B. M∴M∴

09 maio 2026

A Pedra de Cada Um e o Templo de Todos

Na semana passada estive na PMI Global Summit Lisbon e, no meio de tantas conversas sobre projectos, liderança, tecnologia e impacto, tive também a oportunidade de estar com alguns irmãos que já conhecia. Não houve surpresa nem coincidências místicas, apenas aquele cruzamento natural de pessoas que, apesar de caminhos diferentes, acabam muitas vezes por se encontrar nos mesmos espaços de reflexão e discussão séria.

Curiosamente, um dos temas mais presentes ao longo do evento foi a Sustentabilidade. E admito sem problema nenhum que percebo perfeitamente porque é que tanta gente revira os olhos quando ouve essa palavra. Durante anos o tema foi capturado por extremos, por discursos políticos cansativos e por uma espécie de militância histérica que transformou qualquer conversa séria numa competição para ver quem grita mais que “o mundo está a acabar”, que “a culpa é dos fascistas” e dos “capitalistas”, dos carros, das vacas ou do vizinho que não separa o lixo.  

Aí e tal as metas da europa, carros eléctricos, tudo muito bonito, mas no fim de contas quem os têm é para serem sustentáveis com as carteiras deles, bem mais barato suportar um tesla, do que um carro a gasolina (os preços de hoje em dia nossa senhora!!!). 


No meio deste ruído todo, perdeu-se muitas vezes aquilo que realmente interessa.

Porque sustentabilidade não é apenas emissões, árvores ou reciclagem de papel no azul e plástico no amarelo, isso é uma parte minúscula. Sustentabilidade é também ética, responsabilidade, segurança, prosperidade, impacto social, decisões equilibradas e consciência sobre as consequências daquilo que fazemos. É perceber que crescimento sem princípios destrói, e que idealismo sem realidade também não constrói absolutamente nada.

Talvez por isso este seja um tema muito mais próximo da Maçonaria do que parece à primeira vista.

Quando trabalhamos a nossa pedra, não o fazemos apenas para benefício individual ou para polir o ego espiritual, a pedra de cada um vai inevitavelmente impactar o templo comum de todos. Um homem sem ética afecta os que o rodeiam, um líder irresponsável afecta equipas, famílias e comunidades. Uma sociedade sem sentido de responsabilidade colectiva degrada-se lentamente, mesmo quando continua a parecer funcional por fora.

É precisamente aqui que a conversa se torna verdadeiramente importante, jámais numa lógica partidária ou numa aberração de visão “woke” importada das redes sociais, mas sim numa reflexão séria sobre responsabilidade. Sobre perceber que todas as decisões têm impacto e que maturidade também é conseguir discutir estes temas sem cair em fanatismos, slogans ou guerrilhas ideológicas.

A Maçonaria sempre procurou formar homens melhores, e homens melhores não são apenas homens cultos ou ritualisticamente correctos, longe disso. São homens conscientes do impacto que têm no mundo à sua volta. Homens capazes de construir prosperidade sem destruir tudo pelo caminho. Homens que percebem que ética, responsabilidade e equilíbrio não são modas modernas, mas necessidades permanentes de qualquer sociedade minimamente saudável.

Talvez o erro tenha sido deixar que outros se apropriassem do tema e o transformassem numa caricatura, porque, despido de politiquices e extremismos, aquilo a que hoje chamamos Sustentabilidade é, no fundo, apenas uma versão moderna de algo muito antigo.

A obrigação moral de deixar o templo um pouco melhor do que o encontrámos. 

João B. M∴M∴

02 maio 2026

A sobreposição de monologos

 

 


As redes sociais vieram dar um novo ritmo à vida. Aproximaram pessoas, afastando-as ao mesmo tempo. Parece paradoxal, no entanto, essa aproximação vem do diálogo através das aplicações (apps) que conseguem manter várias pessoas a comunicar à distância; ou seja, passámos a falar de longe, mesmo estando perto.

Esta distância física acaba por ganhar proporções psíquicas, pois o conforto do sofá faz com que haja uma preferência pelo isolamento em detrimento da presença física. O que torna toda esta experiência interessante é que muitas destas interações são altamente distanciadas e desprovidas de empatia. O resultado prático são discussões online acesas, tanto por temas impactantes como por assuntos ditos “sem jeito nenhum”.


Paralelamente a tudo isto, a qualidade de vida melhorou substancialmente nas últimas décadas, o que permitiu que a maioria da população tenha acesso direto a um telemóvel que, por sua vez, dá acesso às redes sociais. O desenvolvimento da sociedade ocidental atingiu um ponto em que o acesso a um smartphone e à internet já é um dado adquirido. A grande maioria da população possui o objeto e o serviço. Se juntarmos a este cenário uma população cada vez mais literada, temos todos os ingredientes para um fenómeno curioso.


População com tecnologia, internet, acesso ilimitado a redes sociais e ausência de presença física. Levamos tudo ao forno e… BUM!


Ficamos com discussões estéreis nas redes sociais, pessoas que dialogam sem se conhecerem e uma falta de empatia crescente. A este cenário apocalíptico acresce a pesquisa rápida, que cria "especialistas instantâneos" em qualquer tema. O conhecimento que outrora demorava décadas a adquirir, hoje parece estar à distância de meia dúzia de cliques.


Neste cenário de ruído constante, existe um pequeno paraíso onde ainda conseguimos dar uma opinião, ouvir e refletir. Neste espaço, procura-se combater as paixões. E o que são estas malditas paixões? As paixões são os impulsos movidos pela reação imediata e não por atos refletidos. Neste sentido, a paixão é algo que deve ser controlado pela racionalidade.


Ao verbalizarmos ou escrevermos uma opinião, devemos fazê-lo de forma refletida, o que raramente acontece no turbilhão das redes sociais. Além disso, a linguagem escrita é muito mais impessoal do que a falada, fazendo com que os erros de interpretação e de entoação ressaltem. Se essa linguagem for movida pela paixão momentânea, pode gerar um ambiente tóxico.


É por isso que em lojas maçónicas fazemos questão da presença física: para podermos olhar nos olhos uns dos outros, sentir a empatia, refletir sobre os assuntos e sobre a nossa própria maneira de estar. Só quem cultiva este meio conhece a diferença.


E tu? Vais querer sair da tua rede social para começar a construir?