24 abril 2017

Respeitável Loja Comércio e Artes, n.º 99


Algo que é inerente à vida maçónica é a visita a outras Lojas. Por essa forma, o obreiro pode apreender as semelhanças e diferenças que existem entre a Loja que visita e a sua própria Loja e rapidamente se apercebe que, mesmo com diferenças, apesar das variantes, é a mesma Maçonaria que se pratica. Podem os rituais ser diferentes, podem as palavras e os gestos e movimentos ser diversos, pode a prática e a forma de execução ser dissemelhante, mas o espírito e o propósito são exatamente os mesmos.

Só raramente visito outras Lojas. Mais raramente do que gostaria e muito mais do que deveria. Mas recentemente - um dia não são dias... - tive oportunidade de, aproveitando uma deslocação e estada no Porto, visitar a Respeitável Loja Comércio e Artes, n.º 99. Esta Loja tabalha no Rito Adonhiramita, um rito que nasceu em França em meados do século XVIII, foi introduzido em Portugal no século XIX e daqui migrou para o Brasil, onde adquiriu assinalável expansão. Entretanto, caiu em desuso em Portugal, até que há alguns anos, fez o percurso inverso e, do Brasil, reintroduziu-se em Portugal, sendo agora um dos cinco ritos e rituais praticados pela GLLP/GLRP (os outros quatro são o Rito Escocês Antigo e Aceite, o Rito Escocês Retificado, o Rito de York e o Ritual de Emulação).

O Rito Adonhiramita tem evidentes diferenças em relação àquele que se pratica na Loja Mestre Affonso Domingues, o Rito Escocês Antigo e Aceite. Mas a ideia, o propósito, o objetivo, são exatamente os mesmos. Assistir à execução do Rito Adonhiramita pelos Irmãos da Respeitável Loja Comércio e Artes, n.º 99, foi uma agradável suspresa. O rito é bonito e apelativo. Foi muito bem executado por todos os Oficiais, com um justo destaque para o Irmão que executou o ofício de Mestre de Cerimónias. Não era o Oficial titular, mas não se notou...

Em menos de duas horas de trabalhos - que passaram depressa... - foram apresentados dois trabalhos por dois Irmãos Aprendizes e uma Prancha Traçada por um Irmão Mestre. Todos os trabalhos mostraram qualidade acima da média, revelando-se claramente que a Loja está a trabalhar muito bem, a formar convenientemente os seus Aprendizes e todos os seus obreiros.

A Respeitável Loja Comércio e Artes, n.º 99, é uma Loja recente e, portanto, ainda com um pequeno número de obreiros. Mas vê-se ali muita qualidade e sente-se espírito de união. Auguro um muito agradável futuro a esta Loja. Repetindo aqui o que tive oportunidade de referir na sessão da Loja, acho justificado fazer a esta Loja o maior elogio que eu lhe poderia fazer: estar nesta Respeitável Loja Comércio e Artes, n.º 99, assistir aos seus trabalhos, ver a correção e o empenho de todos, sentir a exemplar união ali existente, transportou-me à minha Loja Mestre Affonso Domigues, nº 5, de há vinte e cinco anos atrás. Estou, pois, certo, que esta nova Loja fará um percurso, terá uma evolução, pelo menos tão agradável como foi a da minha Loja. A qualidade está lá. O espírito de união também. A capacidade, idem!

Após os trabalhos, tive o gosto de acompanhar os Irmãos no ágape, de são e agradável convívio. Mais uma vez, senti-me em casa...

Agradeço ao Venerável Mestre  e a todos os Irmãos da Respeitável Loja Comércio e Artes, n.º 99, a excelente receção que fizeram o favor de me proporcionar. Espero vir a ter oportunidade de repetir a visita. Reitero o convite que a todos fiz de que, quando possam, venham visitar a Loja Mestre Affonso Domingues. Sobretudo, recomendo a todos os Irmãos da GLLP/GLRP que visitem esta Loja. Asseguro-vos que não darão o vosso tempo por perdido. Encontrarão um Ritual interessante, muito bem executado, trabalhos empenhados e de qualidade, uma atmosfera de comunhão e amizade entre todos. Em suma, Maçonaria no seu melhor!

Rui Bandeira 

17 abril 2017

Os senadores


Esta é uma denominação ou classificação que não existe em Maçonaria. Coloquialmente, é uma expressão que, na nossa Loja, é usada para referir os elementos mais antigos dela. Dir-se-ia que é uma expressão desnecessária, que pode muito bem referir-se o mesmo grupo simplesmente como Mestres Instalados. Mas, em bom rigor, nem todos os Mestre Instalados são senadores da Loja e pode muito bem haver senadores da Loja que não são Mestres Instalados. 

Mestres Instalados são os Mestres da Loja que exerceram o ofício de Venerável Mestre e é aquele que, no momento, tem a responsabilidade de dirigir a Loja. A designação resulta de a tomada de posse, digamos assim, do ofício de Venerável Mestre se realizar através de uma cerimónia em que o eleito para exercer a função é instalado no assento onde toma lugar o Venerável Mestre, designado por Cadeira de Salomão. Mestres Instalados são, portanto, elementos experientes da Loja, que exerceram vários ofícios da Loja antes de serem eleitos para o de Venerável Mestre e, em consequência, terem sido instalados na Cadeira de Salomão. Mas o conceito coloquial de senadores que é usado na nossa Loja é ligeiramente diferente.

Para nós, um senador da Loja é um elemento que, pela sua antiguidade e pela sua assiduidade adquiriu uma noção de como é a Loja, como ela funciona, como ela reage, das suas virtudes e dos seus defeitos, que é reconhecida pelos demais, que, por isso mesmo, dão especial atenção aos seus conselhos e propostas para resolução de qualquer problema ou definição do rumo da Loja.

Nem todos os Mestres Instalados são reconhecidos pelos demais como senadores da Loja, porque, por vicissitudes várias, reduziram ou interromperam, durante algum tempo, a sua assiduidade na Loja, com inevitável reflexo na diminuição do seu profundo conhecimento dela e da sua evolução. 

Mas também haverá senadores da Loja que vão sendo reconhecidos como tal, apesar de não terem (ainda) exercido o ofício de Venerável Mestre. São assíduos, são participativos, conhecem a Loja a fundo. Só não exerceram (ainda) o ofício de Venerável Mestre porque tal anda não se proporcionou. E repare-se que tive o cuidado de não utilizar o conceito de Mestre... É que, por exemplo, na nossa Loja existe um Aprendiz que, por vontade própria, permanece nesse grau há vários anos, não aceitando passar ao grau seguinte... Como na nossa Loja (e deve suceder em todas as Lojas) o respeito pela individualidade dos seus obreiros é total, não há nenhum problema nisso. Periodicamente, pergunta-se a esse Irmão se é tempo de seguir adiante. Ele tem vindo sempre a responder que não. Respeita-se a sua opção e decisão. Claro que, ao fim de significativo tempo, já se brinca um pouco com isso, mas não deixa de se respeitar a opção deste nosso Aprendiz. Um dia destes, ainda criamos, só para ele, a figura de Aprendiz-Mor...! E suspeito que tempo virá em que, mesmo Aprendiz - se persistir em nesse grau permanecer - outro dia destes este "Aprendiz-Mor" adquire, por direito próprio, o estatuto de senador da Loja...

Os senadores da Loja, por tão bem a conhecerem, podem fazer-lhe muito bem, mas também podem causar-lhe grave dano. 

Serão benéficos para a Loja se derem o seu conselho, formularem a sua opinião, mas resistirem à tentação de procurarem impor os seus pontos de vista. Ao contrário do que sucede na vida militar, a antiguidade não é posto. E também não constitui garantia de se estar certo, de se ter razão. E, mesmo quando está certo, o senador deve sempre ter presente que os mais novos têm direito ao erro, que porventura até necessitarão de cometer erros, de suportar as consequências deles e de os superar. Tal como sucedeu com o senador, que seguramente não foi infalível e evidentemente que cometeu a sua quota-parte de erros.

Serão perniciosos para a Loja os senadores que, por convencimento ou falta de cautela, se derem demasiada importância a si próprios, à sua experiência, ao seu conhecimento da Loja, e insistirem em tentar impor os seus pontos de vista, as suas ideias, e busquem conduzir a Loja pelos caminhos que lhes suscitem os seus amores e os seus temores. Porque isso é arrogar-se ser dono da Loja e isso a Loja não lho permite. Com ou sem experiência. Mesmo conhecendo e respeitando toda a assiduidade e dedicação.

No fundo, a questão é sempre a mesma: o principal princípio que impera na Loja é a essencial Igualdade entre todos. Podem uns iguais atentar com especial atenção em iguais mais antigos e mais experientes. Nunca - e fazem muito bem! - aceitarão anular-se ou prestar injustificada vassalagem ao senador só porque o é. Tal como um maçom só o é porque é reconhecido como tal pelos seus Irmãos, a influência do senador na Loja é apenas aquela que os seus Irmãos lhe reconheçam.

É assim que deve ser . E, senador ou não, se porventura algum dia alguém se esquecer disto, corre o risco de falar, falar, falar, convencido de que convencerá os demais a seguirem o caminho que as suas palavras iluminam e, quando se der conta, verificar que está, afinal a falar sozinho...

Rui Bandeira

10 abril 2017

O obreiro e o Grande Oficial


Sempre que um obreiro de uma Loja é eleito ou designado Grande Oficial é uma satisfação para essa sua Loja e os que a integram. Para além do mais, é um reconhecimento do valor do obreiro e esse resulta também do trabalho da Loja. Mas, assim sendo, devem ambos, obreiro e Loja, estar cientes que esta situação implica a necessidade de alguns ajustamentos, seja em termos de disponibilidade do obreiro em relação à Loja, seja sobretudo em termos de relacionamento entre o novel Grande Oficial e os demais elementos da sua Loja.

Quanto às consequências para a disponibilidade do obreiro em relação à sua Loja, dependem as mesmas do tipo de ofício  que o Grande Oficial vai desempenhar. Haverá poucos constrangimentos se se tratar de um ofício com atividade essencialmente ritual e exercida em sessões de Grande Loja. Nesse caso, o obreiro poderá manter a sua disponibilidade praticamente total para a sua Loja, pois apenas estará impedido no decurso das sessões rituais de Grande Loja e terá só que compatibilizar as suas tarefas em Loja com o estudo e preparação da sua intervenção ou atuação enquanto Grande Oficial. Já se o ofício na Grande Loja for de natureza administrativa ou implicar alguma dedicação de tempo, inevitavelmente que a participação e colaboração na Loja do Grande Oficial que assumiu esse tipo de responsabilidade se ressentirá. 

Esta necessidade de afetação de tempo ao cumprimento de ofício de Grande Oficial deve sempre estar presente no espírito do obreiro, de modo a que este salvaguarde o justo equilíbrio entre a sua disponibilidade e o cumprimento das suas obrigações e o seu desempenho, quer perante a Grande Loja, quer perante a Loja. Tocar demasiados instrumentos em simultâneo faz com que nenhum seja executado com a devida qualidade... Assim, o obreiro deve estar sempre consciente das limitações decorrentes do exercício de ofício em Grande Loja em relação à sua Loja e necessita de utilizar, mais frequentemente do que desejaria, a palavra "não". Não aceitar tarefas que, por colidirem com o ofício em Grande Loja ou com o tempo que precisa de lhe dedicar, não poderá vir a cumprir com qualidade e eficiência é imposição de bom senso. Por sua vez, a Loja e os seus responsáveis deverão ter sempre presente a limitação que impenda sobre o obreiro, resistindo à tentação de o procurar convencer a "dar um jeitinho". Quer se queira, quer não, a qualidade, o acerto ou a eficiência na execução da tarefa será sempre afetada. Ou então fica afetado o cabal desempenho ds obrigações enquanto Grande Oficial...  Pode a acumulação insensata eventualmente ser suportada, sem grande problema, durante algum tempo, com esforço acrescido do obreiro Grande Oficial. Mas, para além da injustiça que constitui a sobrecarga infligida ao obreiro, sempre se aumenta o risco de, mais tarde ou mais cedo, ele vir a falhar em algo que não falharia, não fosse essa sobrecarga.

No entanto, por muito importante que seja - e é! - a consideração da disponibilidade, a questão essencial respeita ao relacionamento entre a Loja e o seu obreiro Grande Oficial. Isto de ser Grande Oficial tem agarradas algumas implicações que propiciam desvios do correto relacionamento entre a Loja e o seu obreiro Grande Oficial. Afinal todos somos humanos e nenhum de nós é perfeito... O Grande Oficial usa um avental todo bonito, todo cheio de arrebiques e dourados (e também carote, diga-se em abono da verdade...). O Grande Oficial tem direito a tomar lugar no Oriente, ladeando o Venerável Mestre e, quando presente, o próprio Grão-Mestre. O Grande Oficial, naturalmente, é credor da cortesia de saudação específica. Tudo isso propicia a sensação de "importância", de "poder", de "autoridade", de diferença entre o Grande Oficial e os demais obreiros da Loja. Pode propiciar tudo isso, mas a Loja ou o Grande Oficial que porventura caírem numa dessas armadilhas estão a precisar de uma reciclagem sobre o seu entendimento do que é a Maçonaria e do que é ser maçom! 

A este respeito e para evitar dissabores e erros, é importante que a Loja e o Grande Oficial tenham sempre presentes dois princípios, que, sendo-o, por natureza são inegociáveis: (1) ser Oficial da Loja ou ser Grande Oficial, não é uma honra, é um serviço; (2) todos os maçons, desde o mais recente Aprendiz ao Grão-Mestre, passando por todos os obreiros que, com discrição, procuram cada dia ser um pouco melhores do que eram na véspera, são essencialmente iguais.

Ser Oficial de Loja ou ser Grande Oficial não é uma honra, não é um privilégio, não é um título. Ser Oficia de Loja ou ser Grande Oficial é, simplesmente, assegurar um ofício, uma tarefa. O Oficial de Loja não é comparável ao Capitão ou Major de uma Companhia ou Batalhão, Ser Grande Oficial não tem, em bom rigor, nada a ver com ser General de um Exército. O termo "Oficial" não tem nada a ver com nomenclatura militar. Em Maçonaria, Oficial é o que assegura um ofício, o que cumpre uma tarefa. Tão só!

Em Loja, todos, rigorosamente todos, são essencialmente iguais e como iguais são e só podem ser tratados. Eventuais deferências são devidas à função, não ao que a exerce. O Grande Oficial não tem nem mais um pingo de importância por o ser. É exatamente como era até ao momento em que começou a exercer o ofício e como será depois de o deixar de exercer. Não tem assim importância acrescida em relação aos demais obreiros. Continua a ser mais um entre todos e é assim que deve ser e que se deve sentir confortável. A sua palavra tem o mesmo peso que tinha antes de ser Grande Oficial, tem a mesma importância do que a de qualquer outro Mestre da Loja.

O obreiro pode ser Grande Oficial. Mas na sua Loja é apenas - e tanto é! - mais um igual entre iguais. Na sua Loja, o Grande Oficial pode usar um avental todo apinocado, pode sentar-se no Oriente, pode tudo isso. Mas continua a ser, a dever comportar-se e a ser tratado da única forma que faz sentido sê-lo na sua Loja: como um Irmão, mais um do grupo, mais um entre todos. E muito isso é! E sobretudo é o que interessa!

O obreiro pode ser Grande Oficial. Mas, antes de tudo, acima de tudo, mais importante do que tudo, continua a ser um obreiro da sua Loja.   

Rui Bandeira

03 abril 2017

Lição prática de Maçonaria


Um maçom português está na Alemanha. Outros maçons portugueses vão à Alemanha visitar uma Loja local. Tertulia-se. A conversa faz-se em torno de um tema cujo ponto de situação atual suscita dúvidas. Esse maçom português comunica por mensagem de correio eletrónico com um experiente e sabedor maçom residente no norte de Portugal. Por acaso, o tema em causa não é assunto em que o maçom residente no norte de Portugal seja especialmente versado. Para não dar uma resposta errada ou incompleta, remete a questão a outro maçom, também já com alguma experiência, que reside em Lisboa.

Por coincidência, esse maçom residente em Lisboa tinha recentemente ultimado um texto sobre o tema, que considerou que esclarecia as dúvidas suscitadas na teruliana conversa. Envia esse texto ao maçom do norte de Portugal. Por sua vez, o maçom do norte de Portugal envia o dito texto ao maçom que está na Alemanha, que por sua vez o circula pelos outros elementos que tiveram a tertuliana conversa onde surgiram as dúvidas.

Entretanto, o maçom do norte de Portugal acha que o tal texto pode ser interessante para outros maçons e, com a prévia anuência para tal do maçom de Lisboa, faz circular o dito texto pela sua lista de contactos maçons.

Sucede que, no tal texto, o maçom de Lisboa escrevia, a dado passo, que havia uma pequena parte do assunto que não podia melhor desenvolver, porque não lograra encontrar um documento essencial para tal.

Um dos maçons da lista de contactos do maçom do norte de Portugal, por fortuna, tinha a tradução em castelhano desse documento que o maçom de Lisboa não conseguira encontrar. Logo tomou a iniciativa de enviar essa tradução em castelhano para o maçom de Lisboa, que pode assim aperfeiçoar o seu escrito com o desenvolvimento que faltava.

Tudo isto se passou em não mais de 24 horas. De todos os intervenientes, o maçom residente em Lisboa apenas conhece pessoalmente o maçom que reside no norte de Portugal. Uma conversa gerou uma dúvida e, de uma normalíssima diligência para esclarecimento dessa dúvida, gerou-se, em muito pouco tempo, uma cadeia de eventos em que vários elementos se ajudaram a melhor esclarecer todos sobre o assunto em causa. Essa cadeia de eventos permitiu, designadamente, que aquele que ajudou acabasse, afinal, por ser também ajudado.

Materialmente, ninguém ganhou nada com isto - afinal, uma banal cadeia de eventos do quotidiano. Mas, no final, todo um conjunto de pesoas ficou a saber mais um pouco, designadamente em relação ao tema que gerou a dúvida.

A Fraternidade é isto. Permite que Irmãos que se encontram a centenas e milhares de quilómetros uns dos outros e que, na sua maior parte, nem sequer se conhecem pessoalmente, naturalmente cooperem entre si, se auxiliem e cada um aprenda um pouco com o que os demais lhe proporcionam.

Assim são os elos da cadeia de União que une os maçons, que funcionam para as pequenas coisas (como esta que descrevi) e possibilitam, quiçá, grandes realizações. Porque são as pequenas coisas que cimentam os alicerces das grandes edificações. Por isso a Maçonaria é uma Fraternidade que completa este ano trezentos anos, está bem e recomenda-se e prepara-se para os próximos trezentos. 

Rui Bandeira

27 março 2017

Comunicação do Grão-Mestre por ocasião do equinócio da primavera


Queridos Irmãos em todos os vossos graus e qualidades, a todos saúdo: sede bem-vindos à casa dos valores, à casa dos irmãos, à nossa casa. 

Hoje celebramos em Grande Loja o equinócio de Primavera. O vocábulo “equinócio” forma-se a partir de duas palavras latinas: ‘aequus’ que significa ‘igual’ e ‘nox’ que significa noite. Estamos, portanto, numa data, em que a inclinação da terra e os raios da luz do sol, garantem igual duração dos dias e das noites. 

Igual e permanente durabilidade também deve ter para o maçom, o brilho dos vértices do triângulo rectângulo em que assentam os princípios que sempre nortearam a nossa Augusta Ordem: Liberdade, Igualde, Fraternidade: liberdade de consciência e liberdade de pensamento, que permitam a todo o ser humano a aventura de conhecer-se e construir-se; a tolerância e a compaixão fraternal para com o semelhante, o respeito pela dignidade humana sem olhar a credos, classes sociais, raças, género, orientação sexual ou outro tipo de ideias ou ideais. 

Em 2017 a maçonaria moderna celebrará o seu terceiro centenário: a Maçonaria mundial completa 300 anos desde que se atreveu a sonhar e lutar por um ideal de Humanidade, suportado por princípios simples, mas fundadores: o direito de pensar e o dever de tolerar. 

Lamentavelmente, neste início conturbado de terceiro milénio, o mundo e a humanidade ainda está muito longe de ser um lugar que aceite e pratique pacificamente estes ideais simples e fundadores, perpetrando-se ainda muitas formas de obscurantismo: fundamentalismos religiosos, totalitarismos políticos, pensamentos únicos e outras ameaças. 

O velho mundo Europeu e o novo mundo Americano, criadores e resguardos da democracia e dos valores: por vezes cambaleiam, vacilam, duvidam do caminho! Nós maçons, nunca podemos cambalear, vacilar, duvidar: os valores são as nossas únicas grandes luzes, que permanentemente devem aclarar o nosso caminho. 

A este propósito, no dia 27 de Fevereiro último, pela primeira vez na história, um Presidente francês, neste caso François Hollande, visitou o Museu da Franco-Maçonaria em Paris. O objectivo foi simples e claro: reconhecer e enaltecer a contribuição positiva e fundamental que teve a Maçonaria francesa para a história da França, para a história dos países latinos e de maneira universal para a história da Europa, do mundo livre, democrático e progressista.

No seu discurso, François Hollande referiu-se à Maçonaria como grande impulsora do fim do colonialismo, da concessão da nacionalidade francesa aos judeus, da autorização dos sindicatos, do direito de associação, da liberdade de imprensa, da laicidade do Estado francês, do ideal de liberdade dos Estados Unidos ou ainda da fundação da Sociedade das Nações como ponte entre os povos. 

Respiguei algumas passagens do seu discurso que gostaria hoje de partilhar aqui com todos os meus irmãos, para que ouçais e mediteis, para que vos enchais de orgulho e continueis a dar as mãos aos valores em inabalável cadeia de união. 

"No nosso tempo, a Maçonaria é uma bússola muito valiosa, uma luz que ajuda a compreender os problemas para lhes dar respostas. A Maçonaria não se baseia num dogma fechado, mas sim numa visão aberta, é um método e não apenas uma finalidade de propósito. Hoje não diria que as batalhas são as mesmas, mas ao fim de três séculos, são os mesmos valores que precisamos promover, que precisamos organizar, que precisamos defender até atingir o âmago das nossas sociedades que, entretanto, mudaram e evoluíram. 

A Liberdade em primeiro lugar, a liberdade contra o obscurantismo, contra o fanatismo, contra o fundamentalismo, a liberdade absoluta de consciência, contra os dogmas, a liberdade de pensamento contra aqueles que procuram censurar. [...] 

A Igualdade, que no passado serviu para garantir a igualdade política entre todos os cidadãos, independentemente da sua origem ou das suas condições; nos nossos dias, deve servir para impulsionar outras formas de igualdade. [...] 

E a declaração da vontade de caminharmos juntos, de solidariedade anónima, um valor excepcional de fraternidade que implica caminhar com todos os demais. [...] Não podemos defender a liberdade se contradizemos a igualdade; não podemos defender a igualdade, se mitigamos a fraternidade". 

"Enganam-se os perversos que associam a maçonaria a forças secretas, tal um poder oculto por trás de todos os acontecimentos; é bem mais simples: muitos maçons têm desempenhado um papel importante em nome de uma ética que os predispõe à acção, uma vez que seus valores os conduzem ao progresso. 

Foi a vontade de alguns espíritos brilhantes para associar a razão científica dos sábios, ao ideal humanista dos filósofos à aspiração e transcendência dos artistas que forjou o vosso ideário e a vossa vontade. Numa França, naquele tempo ainda dominada pela monarquia absoluta e a religião do estado, as lojas foram à vez um refúgio de tolerância e uma escola de democracia". 

"Muitos maçons foram, ao mesmo tempo, criadores de grandes textos da Revolução, mas igualmente vítimas do desenrolar dos acontecimentos: das purgas do Terror, da regulação do Império, da repressão da Restauração, […]

Esta é a memória dolorosa da Maçonaria francesa, sempre perseguida pelas ditaduras, […] sempre que houve sombras escuras a pairar na história, os maçons foram perseguidos e ainda continuam a ser. […] e a história sombria de todos aqueles que quiseram questionar-vos sobre o que sois, e que sempre cultivaram as mesmas calúnias, os mesmos fantasmas em nome de uma conspiração que não perde, infelizmente, a sua validade. Basta clicar na Internet, e imediatamente ver ressurgir os conspiradores, e todos aqueles que pensam que os maçons andam neste mundo sempre a preparar não sei muito bem que tipo complô. É desconcertante, mas, infelizmente, propagado, cultivado e difundido." 

Meus irmãos: armai-vos das vossas espadas: continuam profanos à porta do tempo, vociferando calúnias contra nós, desejando apenas a nossa morte e a morte dos valores universais da maçonaria. 

E era esta a mensagem simples que neste equinócio queria partilhar convosco, através da força da palavra e dos valores, e deles imbuídos, continuaremos o nosso caminho, humildemente, harmoniosamente, assumindo a plenitude universal da Maçonaria, para continuar a consolidação e edificação da nossa Augusta Ordem, a bem da Humanidade, à Glória do Grande Arquitecto do Universo. 

Julio Meirinhos 
Grão-Mestre

Publicado por Rui Bandeira

20 março 2017

"Veneráveis e Veneralatos..."


Tal como o Rui Bandeira sabiamente explanou nos seus últimos dois textos e que se reportavam à vida interna das Lojas maçónicas, também é de fulcral relevância salientar o contributo que os Veneráveis Mestres (VM) ("presidentes da Loja")  têm em relação à vida interna destas Lojas.

A própria dinâmica da Loja depende grande parte da dinâmica imprimida pelo seu Venerável Mestre bem como pela sua forma de gerir os "destinos" da Loja.

Uma larga maioria não consegue separar -  e isto não é crítica sequer - o mundo profano do mundo iniciático, ou seja, por defeito profissional, muitos nas suas vidas laborais gerem e dirigem pessoas, logo tenderão a agir na Maçonaria da mesma forma que o fazem no mundo profano. Sendo também, por isso mesmo, mais fácil para estes tomar a seu cargo os destinos de uma Loja e a gerir o que lá se passa no seu interior. Mas não releguemos também que a sua forma de agir e estar perante a Sociedade, a sua Educação e Formação Académica também auxiliam e muito o seu (bom!) desempenho, nomeadamente na forma de lidar com a Loja e os seus membros.

Não existem manuais de sobrevivência para um "VM", existirão sim pequenos guias ou opúsculos que algumas Lojas ou Obediências tenham escrito para facilitarem um pouco a vida de quem durante um ano (em média) terá a responsabilidade de gerir a Loja, mas o essencial para a gestão da Loja será a sua vivência e praxis maçónica. Sendo que uns serão mais "ritualistas" e outros mais "administrativos" no cumprimento das suas funções. 

- Cada um como cada qual... - 

Mas não obstante, esta diferenciação da forma de gerir e de estar, pois a cada identidade corresponderá uma forma de gerir, permite a vantagem mesmo que uma Loja tenha uma prática de trabalho homogénea, esta será sempre um pouco diferente de ano para ano, possibilitando aos seus membros não ficarem reféns de um certo marasmo que não lhes possibilite evoluir, seja maçónicamente quer pessoalmente.

Outra das vantagens que diferentes abordagens ou estilos de gestão permite, é que pelo facto de a presidência da Loja ser quase sempre anual e dependente de sufrágio pelos Mestres que compõem a assembleia da Loja,  impedirá, por certo(!), determinadas formas gestionais de cariz ditatorial prolongadas no tempo; resultando que se um dado "VM" desempenhar mal ou de forma nefasta o seu cargo, a Loja somente terá de o "aturar"  um ano - ou menos ! -, mas possibilitando a alguém que desempenhou um bom ofício, que soube conviver bem com as responsabilidades que lhe estavam inerentes, e que num bom português eu possa dizer que tenha levado a Loja a "bom porto", deixando saudades e inclusive "fazendo escola", criando assim alguns seguidores que queiram prosseguir nessa forma de (bem) gerir.

- E cada Loja é uma Loja, tal como cada maçom é diferente do seu semelhante -.

Cada Loja tem a sua identidade própria, podendo ser parecida ou não com as outras de uma mesma Obediência, até porque cada Loja é formada por gente que também pode ser diferente entre si. A heterogenia dos seus membros é uma das grandes qualidades que a Ordem Maçónica se pode orgulhar e enaltecer.

Mas por outro lado, e porque nem tudo "são rosas...", nem sempre corre tudo bem ou como deveria ocorrer, dado existirem, por vezes, Lojas que não deveriam estar sequer em funcionamento dado que o que se passa no seu seio ser tudo menos maçónico, e quase sempre com a conivência do seu "VM". - mesmo que ele não seja o responsável por tais actos, a Loja depende dele e ele será sempre a pessoa que dará a cara pela Loja! - E por causa disto é que um "VM" tem de ter características naturais de um Homem bom, Livre e com bons costumes,  - soa a "beato" mas é assim que tem de ser - para que tais situações menos nobres não ofusquem a Luz que deve resultar da Maçonaria e emanar na sociedade à sua volta.

Ser "VM" nao é tarefa fácil, não é "bater malhete" como se queira... Existem determinadas regras a cumprir e a fazer por cumprir!
Logo, ser investido nas funções de Venerável Mestre não poder ser encarado de forma singela, mas antes como uma demanda tanto pessoal como colectiva. Pessoal porque tal é desempenhado através de um labor próprio e que depende intrinsecamente de si mesmo, e colectivo porque é feito a bem da Loja e da Obediência em geral.

Não é fácil esta tarefa, tal como salientei. E uma parte importante deste trabalho também e que não pode ser esquecida é o apoio que os obreiros da Loja dão ao seu "VM", auxiliando-o na condução dos "trabalhos", promovendo iniciativas em prol da Loja, produzindo Trabalhos/Pranchas  e debatendo respeitosamente a vida interna da Loja. 
Apenas uma Loja com obreiros activos e cujo "VM" seja alguém que possibilite a troca de ideias efectivas, terá um bom prenúncio na sua existência, pois as boas decisões nunca estão sozinhas e muitas das vezes para serem correctamente aplicadas dependerão daqueles que, por sinal, as terão de cumprir...

E por isto que anteriormente afirmei é que considero que uma Loja não é do seu Venerável Mestre, mas sim, que o Venerável Mestre é que é da Loja!
E quem não interiorizar isto, ou não sabe ao que se propõe ou não estará bem na Maçonaria...

Mas nem sempre quem já foi "VM" quis despir o seu cargo, isto é, são mestres que embora já não detenham essas funções, mas que mesmo assim desejam e insistem em o a continuar a o ser... Obstaculizando de forma premente o trabalho que o "VM" em exercício possa fazer. Condicionando este com atitudes ou ideias suas e acicatando os demais obreiros contra o desempenho do seu "VM"; considerando eu isto como uma forma de rebelião que não deveria ter lugar num espaço onde a fraternidade deveria ser um dos seus pilares fundamentais.
Mas pior que isto, serão aqueles que nunca cumpriram tal ofício mas que acham que o desempenharam ou que detêm o direito de o vir a ocupar de forma unilateral, condicionando activamente o desempenho que o "VM" deverá levar a seu cargo...

Enfim, há de tudo um pouco...infelizmente!

Até existem aqueles, sendo mestres ou não, que se acham a "voz da razão" e assim se acharem os "donos da Loja", bloqueando tudo (ou quase...) aquilo a que se propusera a fazer o seu "VM". E esta forma de inquinar uma Loja não deveria ser aceite pelos seus membros e muito menos ser feita com a complacência de um "VM", pois foi ele o eleito para a direcção da Loja e mais ninguém. Uma coisa é um "VM"  aconselhar-se, outra diferente, é deixar outros executarem o seu trabalho.

E é por isto que amíude existem cisões e/ou "abatimentos de colunas" de Lojas com "adormecimentos" ou transferências de membros para outras Lojas, porque já não é possível a convivência entre si. Deixando eu à reflexão para os demais esta situação que é deveras importante para a sobrevivência de uma Loja.

Um "VM" que saiba desempenhar bem o seu cargo nunca permitirá que aconteça o que eu referi e saberá, ou pelo menos tentará, gerir os egos e diferenças de opinião que existem no seio da sua Loja. Essa sim, será talvez a maior dificuldade que poderá encontrar durante o seu veneralato, pois as questões rituais ou administrativas, quando não são graves, são facilmente tratadas ou ultrapassadas. E regra geral são as Admissões de profanos com as suas Iniciações,os "aumentos de salários/graus", gestão corrente da tesouraria da Loja e pouco mais. Aqui sim, um "VM" pode pelas suas qualidades pessoais fazer diferente dos restantes que passam por essa função; a tal "dinâmica" que abordei.

Felizmente que a Respeitável Loja a que pertencem os Mestres "escritores" neste blogue conta nas suas colunas com gente com conhecimentos suficientes para fazer prosperar a Loja. Apoiando-se nos seus membros mais antigos que com a sua experiência e sabedoria corrigem qualquer "desvio administrativo" ou erro ritual que possa surgir, bem como nos seus membros mais recentes, gente pronta a "arregaçar as mangas" e por-se a trabalhar, assim os deixem. 
É somente devido a esta conflexão de "ideias e vontades", convergindo numa acção perseverante e regular, é que uma Loja tem um bom futuro assegurado.
Não basta viver à sombra de feitos do passado, e esta Loja os tem feito; há que criar sempre novas dinâmicas e formas de gerir e a Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues nº5 conta já no seu historial de mais de 25 anos de trabalho ininterrupto com gente capaz de o fazer por mais 25 anos e até mais... E gente que pela sua forma de estar, pela sua sensibilidade pessoal  e apoiada nos vastos conhecimentos de alguns dos seus Irmãos, podem ser "herdeiros naturais" da linha de sucessão criada à vários anos  na Loja e que ainda hoje em dia se utilliza.

E concluindo um texto que já vai longo, um Venerável Mestre como sendo alguém com a responsabilidade da gestão anual da Loja, nunca poderá pensar a curto prazo, apenas na gestão corrente, mas sempre com um pensamento a médio/longo prazo, para que a Loja não divirja nos seus destinos, não se preocupando em deixar um "legado pessoal" mas sim, algo sustentado pelo tempo. E por isso mesmo, deve ser alguém com vontade de trabalhar e com "espírito diligente" e rigoroso, sendo meticuloso e disciplinado no que faz, devendo ser o melhor "relações públicas" da sua Loja, pois ele é que dará a cara por ela; não devendo ter um perfil autocrático, mas antes um elevado sentido fraterno. 
Em suma, ser alguém que goste de trabalhar e que o faça pelos outros, não esperando qualquer tipo de encómios à sua pessoa.  

- Somente tendo uma postura humilde perante os seus pares, pode um "VM" ser exaltado pelos demais, e isto se assim o tiver de ser... - 

Para além disso, terá de ser alguém capaz de estabelecer pontes entre os Irmãos que tenham divergências ou contendas entre si, sendo um bom ouvinte e confidente, para além de ter a capacidade em aconselhar os obreiros naquilo que necessitem do seu "VM", e que saiba agir com a "parcimónia" necessária ao seu cargo, sem impulsos ou afins... pois terá de ter a ponderação necessária a cada decisão que tenha de tomar ou que venha a ter de aplicar em relação às funções a si designadas como representante da Loja na Obediência onde esta se encontra filiada. E chegando ao final do seu veneralato, ter a capacidade de fazer um auto-exame de consciência e reflectir no que se propôs a fazer, no que fez e no que poderia ter feito e extrair de aí as suas próprias conclusões, por forma a que quando se sentar no Oriente ao lado do próximo "VM", poder ser ele, também, uma "voz" de e em auxilio a este, porque a função de Past-Venerável ou Mestre Instalado não é mais que isso, uma voz em auxilio do novo Venerável Mestre. 
E como "VM" reconhecer que recebeu a Loja com um determinado funcionamento, em determinado momento, e que entregou ao seu substituto na "cadeira de Salomão" uma Loja que deverá ser mais coesa e mais forte do que aquela que terá recebido do seu antecessor, - esta é a sua obrigação! - o que nem sempre é simples de ser feito. 
Não deixando nunca de ter sempre presente a noção de que por qual forma pretenderá  ser (re)conhecido no final do seu ano de trabalho, se por ter sido "Venerável" ou pelo seu "Veneralato"...

13 março 2017

A crise da Loja

Li já há algum tempo que um maçom americano, académico, efetuou um estudo sobre a Maçonaria europeia e as suas Lojas, tendo concluído, além do mais, que as Lojas maçónicas europeias, independentemente da respetivas Obediências e ritos praticados, tinham tendência a atravessar crises significativas a intervalos entre cerca de 25 a 35 anos. Mais  concluía o dito investigador que essas crises que assolavam as Lojas europeias ou não eram superadas e a Loja abatia colunas, ou eram superadas e a Loja reforçava-se na sua solidez.

Não recordo já quem foi esse académico maçom e porventura haverá razão para esse esquecimento, pois, com todo o respeito pelo trabalho de investigação, tratamento de dados e análise que terá tido, estas suas conclusões não se me afiguram serem estrondosa novidade nem incrível descoberta, antes puro e simples senso comum. O que, no entanto, não retira valor ao trabalho efetuado, pois, pelo menos, tem a virtude de alertar para a questão. O facto de algo ser de senso comum não significa que se esteja atento a isso...

Para mim, é pura questão  de senso comum que, ocorrendo uma crise numa Loja (e já agora, em qualquer organização social humana...), das duas, uma: ou a crise não é superada e a Loja (a estrutura social) chega ao seu fim, não tendo mais condições para prosseguir a sua atividade, ou é superada e essa superação resulta num reforço da solidez da Loja (estrutura social). Já há muito que diz o Povo, na sua proverbial e secular sabedoria, que o que não mata, engorda!

Quanto ao estabelecimento da existência de crises em ciclos de 25 a 35 anos, bem vistas as coisas também não é fator de grande admiração, sendo mesmo evidente a causa de tal: a transição geracional.

Que existe uma relação de simbiose ente a Loja e os respetivos obreiros, geradora de modificações na Loja e em cada um dos obreiros, já o tinha mencionado no texto O outro termo da equação. Que as opções organizativas e de funcionamento de Loja determinam a sua evolução, também o mencionei no texto Da diferente evolução das Lojas. Resta consignar que um importante fator na evolução das Lojas é a transição de gerações.

A caraterística diferenciadora da transição geracional em relação aos outros fatores de evolução de uma Loja é que, enquanto os demais decorrem em harmoniosa, lenta e mesmo impercetível, ou quase, mudança, aquela propicia ou impõe uma potencial abrupta correção  do paradigma da Loja.

A Loja consolida-se num grupo, mais homogéneo ou heterogéneo, também em termos de idades. Cria os seus hábitos, as suas rotinas. Estabelece os seus princípios e fixa os seus objetivos. Qualquer problema é resolvido tendo em conta esses princípios, hábitos, rotinas e objetivos. O padrão é harmonioso e durável. Até ao momento em que porventura deixa de o ser... O que mudou? Em bom rigor, nada. Ou, se preferirmos, tudo! O fator de mudança, de possível estabelecimento de crise, de fixação de patamar a ser superado, de mudança a ser efetuada de forma mais abrupta do que se estava habituado é bem conhecido de todos nós. Tão bem conhecido, que até nos esquecemos dele: a passagem do tempo!

Num dado período, os problemas são resolvidos de determinada forma e tudo vai bem. Mas, 25 a 35 anos passados, de repente verifica-se que os problemas de agora são diferentes dos de antes, que a forma de lidar e trabalhar da Loja, que antes foi eficaz, que ao longo do tempo foi satisfatória, agora já não satisfaz. Porventura os problemas são os mesmos ou de idêntica natureza, mas agora apresentam-se de forma diferente ou necessitam de uma diferente rapidez na sua resolução. Ou a simples evolução do mundo e do ambiente social, e das tecnologias, e da sociedade, tornam obsoletamente ineficaz o que antes fora remédio acertado. 

Em dado  momento, com surpresa, a Loja apercebe-se que os seus hábitos, as suas rotinas, as suas formas de lidar com as situações não obtêm já os mesmos resultados positivos de anteriormente. No entanto, a evolução desde há anos e anos foi harmoniosa. Muitos dos que ajudaram a estabelecer as rotinas, os hábitos, os procedimentos, continuam a ser preciosos e respeitados elementos da Loja. Os que se lhes foram juntando integraram-se harmoniosamente e foram dando a sua contribuição para a paulatina, normal e expectável evolução da Loja. Nem sequer se pode, honestamente, dizer que se faz agora como se fazia há 25 ou 35 anos. Mudanças e evoluções naturais foram ocorrendo. Os mais novos integraram-se no que os mais antigos construíram. Os mais antigos foram evoluindo com os mais novos. Como se explica que se descubra agora um desfasamento? 

A resposta está na paulatina e imperturbável passagem do tempo e na erosão que esta causa nas pessoas e nas estruturas. Aqueles que há 25 ou 35 anos foram os pilares da Loja hoje já não o são, já deram o lugar na primeira fila a outros. Onde antes decidiam e assumiam responsabilidades, agora assistem e limitam-se a aconselhar. E, se não for assim, se o poder de decisão e de execução ainda neles reside, então o problema da Loja é bem pior! 

Agora a Loja é dirigida por outra geração de homens bons que pretendem tornar-se melhores. Utilizam as regras e os procedimentos que encontraram, que aprenderam, que, aqui e ali, foram sendo naturalmente modificadas. Mas não são as suas regras. São as que receberam. Adaptaram-se a elas. Mas, em maior ou menor medida, a evolução delas não logrou acompanhar a diferença que a sua geração faz em relação à anterior, em sintonia com a evolução da Sociedade, do mundo e da técnica. Agora são eles que dirigem, mas o volante e o assento não estão ergonomicamente adaptados a si - ainda estão feitos à imagem e semelhança da geração anterior.

O problema é que a geração anterior ainda aí anda. E é respeitável e respeitada. Afinal, tem muito mais anos disto do que a atual. E criou e manteve as regras que serviram a Loja durante muitos anos. E pensa e defende que o que antes foi bom para a Loja não há razão para não continuar a ser bom agora.

O dilema é que agora a responsabilidade é de outra geração. Que respeita e considera os mais antigos. Que compreende as regras que estabeleceram e em que se integraram. Mas que não se sente já confortável nelas. Sobretudo que vê não terem elas a mesma eficácia que tinham. Que concluiu que alguma coisa tem de mudar para que a Loja possa continuar a ser essencialmente a mesma auspiciosa realidade em que, gostosamente, entraram.

Que periodicamente esta questão se ponha na Loja não é nada de admirar. É a vida a decorrer. Simplesmente. Por muito cordata e harmoniosamente que se tenha processado a evolução, chega sempre um momento que não basta evoluir, que há um degrau a vencer, uma mudança a fazer, em que a evolução em tudo não chega, em que se tem de inventar e fazer diferente e novo. E em que convivem elementos que criaram o que há e a quem lhes custa que se mude o que com eles resultou com novos obreiros que veem que há mudanças a fazer e têm a tendência de mudar tudo, por vezes pondo desnecessariamente em causa algo que vem de trás.

A crise necessariamente que chega quando ocorre a transição geracional. Para a resolver satisfatoriamente é imperioso que uns aceitem que nem tudo o que com eles funcionou bem continua a ser suscetível de bem continuar a funcionar e que os outros interiorizem que nem tudo o que vem de trás está obsoleto e ultrapassado, que mudar não é fazer tábua rasa do que existe, antes aproveitar do que há o que é útil que continue, modificar o que convenha ser modificado e introduzir de novo o que seja útil que de novo se acrescente.

Com Sabedoria na atuação, Firmeza, que é Força, nas escolhas e Elegância, que é Beleza, no trato, a Loja consciente do desafio enfrenta-o, muda o que tem a mudar, conserva o que tem a conservar, honra os mais antigos pelo que fizeram e continua a beneficiar da sua experiência e prossegue nas novas bases que os novos tempos, os novos hábitos, as diferentes circunstâncias aconselham.

A Loja que o não souber fazer inevitavelmente que definha, declina, progressivamente vê as suas colunas minadas até ao momento em que elas abatem. A Loja que souber reconhecer a sua crise e as suas causas e lograr efetuar as mudanças necessárias, sem ser contra ninguém, mas com todos colaborando no essencial, essa, sim, fortalece-se e prossegue galhardamente... por mais 25 ou 35 anos, até se voltar a pôr em causa e se reformular de novo.

O académico Irmão americano estabeleceu isto. Mas - digam-me lá! - bem vistas as coisas é ou não questão de simples bom senso?

Rui Bandeira

06 março 2017

Da diferente evolução das Lojas


Um aspeto que é importante na vivência maçónica é a visitação, isto é, a comparência, assistência e, se o desejar, intervenção de um maçom de uma Loja em sessão de outra Loja. Ao visitar outra Loja, ainda que da mesma Obediência e cidade, embora ambas trabalhando no mesmo rito e utilizando precisamente o mesmo ritual, o maçom apercebe-se de discretas diferenças entre o que a Loja visitada faz e o que a Loja que integra pratica. Se esse maçom continuar a visitar a mesma Loja em várias sessões, aperceber-se-á inevitavelmente que existem diferenças de cultura entre ambas as Lojas, a visitada e a sua. Diferenças porventura ao nível da forma de debater as questões, ou da tomada de decisões, ou ao nível da instrução dos Aprendizes e Companheiros, ou da autonomia dos Oficiais do Quadro, ou ao nível de um sem-fim de aspetos. Reconhece a Loja que visita como uma Loja maçónica similar à sua. Verifica que, na essência, são da mesma natureza e prosseguem a mesma finalidade. Mas a forma como o fazem, como traçam e seguem os respetivos caminhos, são diferentes. Em suma, facilmente verifica em cada uma é diferente em relação à outra naquilo que comummente os maçons designam como o projeto da Loja.  

Fazer essa verificação, adquirir essa noção, é intrinsecamente bom para o maçom. Verifica assim diretamente que não há uma única maneira de fazer as coisas, que se pode agir corretamente de variadas formas, aprende que a sua Loja, por ser a sua, não é a detentora do segredo da perfeição na atuação maçónica. 

Mas afinal como se processa o mecanismo que faz com que grupos de pessoas partilhando os mesmos objetivos, prosseguindo os mesmos propósitos, utilizando o mesmo método, acabem por acumular diferenças, umas mais subtis, outras mais evidentes, ao ponto de ser possível detetar verdadeiras diferenças na cultura de cada Loja?

A resposta é simples: a causa está em nós, em cada um de nós e em todos os integrantes de cada Loja. Cada um de nós é diferente, dentro da nossa essencial igualdade. O conjunto de maçons de cada Loja necessariamente que é diferente do de outra Loja. Essas diferenças vão-se traduzir em posturas, escolhas, hábitos, relações com leves ou mais acentuadas diferenças. O conjunto de caraterísticas dos elementos de uma Loja, das respetivas interações, práticas e hábitos individuais e coletivos, formas de trabalhar, de preparar, de organizar, de executar, vai estabelecer o quadro de cultura de cada Loja.

Um hipotético exemplo: duas Lojas, da mesma Obediência, trabalhando o mesmo rito, reunindo na mesma cidade, estabeleceram duas práticas diferentes em relação a um aspeto rotineiro da Loja. Uma apenas admite a inquéritos para Iniciação e, se aprovados, a provas de Iniciação, elementos que sejam conhecidos e das relações dos obreiros da Loja; a outra admite iniciar candidatos que tenham manifestado o propósito de serem iniciados maçons em contacto com a Loja, ainda que não sendo pessoas das relações de nenhum dos obreiros dela, embota tenha estabelecido um mais completo e cauteloso processo de análise, de forma a proteger-se de mal-intencionados, arrivistas e oportunistas.

A primeira Loja ganhará em coesão o que perde em diversidade. Tendencialmente, cresce e evolui em segurança, sem grandes surpresas nem clamorosos erros de casting, mantendo um conjunto de obreiros com caraterísticas, posturas, origens e estatutos sociais semelhantes e semelhantes formas de ver a vida. Mantém-se um grupo de amigos que se alarga. Tem tendência a fechar-se na sua zona de conforto. O que fizerem fazem bem, em conjunto, mas terão pouca apetência para inovar e arriscar.

A outra, porque aceita e integra estranhos aos seus elementos, arrisca muito mais. Ganha em diversidade, mas tem que construir mais laboriosamente a coesão que conseguir criar. Está sujeita a mais erros de casting, mas aprende a lidar com eles e a superá-los sem dificuldades de maior. Progressivamente vai alargando as origens sociais e profissionais dos seus elementos. Tem uma maior diversidade de pensamentos e de posturas em relação à vida e a todos os seus aspetos, opções políticas e religiosas incluídas. Tem tendência a arriscar, a atirar-se para fora de pé. Por vezes terá agradáveis sucessos. Outras suportará falhanços. Facilmente terá dois, três ou quatro projetos em preparação ou execução, divididos por vários grupos de obreiros da Loja. Convive muito bem com a diferença. Aprende a tirar partido dela. Terá períodos muito gratificantes e períodos de desorientação, pois o seu potencial criativo está no mesmo plano que o seu potencial de desorganização. Será tudo menos aborrecida, mas pagará o preço de ser por vezes inconsequente.

Vejamos outro exemplo: uma Loja definiu uma linha de sucessão para a sua liderança e segue-a, não tendo lutas eleitorais. Outra, pelo contrário, pratica a democracia pura e dura, periodicamente se confrontando candidaturas e efetuando escolhas. 

A primeira tem a vantagem de poder programar a prazo mais dilatado. Não gasta tempo nem energias a sanar diferenças nem diferendos com origem em pugnas eleitorais. Mantém uma certa continuidade no estilo da sua liderança. A transição geracional é mais suave, mas muito mais prolongada. Quem chega tem de esperar pela sua vez. A evolução da Loja tem tendência a ser lenta, reproduzindo esta os hábitos consolidados. Ganha em estabilidade o que perde em capacidade de adaptação rápida às mudanças.

A outra está mais sujeita a conflitos, a cisões, a perdas de tempo com a gestão e ultrapassagem das sequelas dos confrontos eleitorais. Tem tendência a súbitas mudanças de estilo de liderança. Faz fáceis, rápidas e, mesmo, abruptas transições geracionais. Chama à liderança os elementos que mais se destacam. A evolução da Loja tende a ser rápida, com mudanças frequentes de hábitos, estilos e posturas. Ganha em capacidade de adaptação o que perde em estabilidade.

E muitas outras variantes existem, combinando-se e recombinando-se, de forma a gerar verdadeiras idiossincrasias típicas de cada Loja.

Cada Loja é diferente, funciona de forma diferente e evolui de forma diferente. Cada Loja comporta-se e efetivamente é uma uma família diferente das demais. Mas, tal como as famílias biológicas educam as suas crianças e jovens e fazem deles adultos válidos, tendo cada família a sua individualidade própria, com as respetivas tradições, os seus hábitos e as suas formas de lidar com as situações, assim também cada Loja ajuda à melhoria de cada um dos seus obreiros, segundo as tradições que estabeleceu, os hábitos que criou e a sua respetiva forma de trabalhar.

Rui Bandeira

20 fevereiro 2017

O outro termo da equação


A afirmação de que o que se busca na Maçonaria é o aperfeiçoamento individual através da interação com a Loja transcrita para linguagem matemática seria qualquer coisa como Maçom + Loja = Aperfeiçoamento.

O primeiro termo da equação, o Maçom, é abundantemente tratado nos escritos, nos seus mais variados aspetos. É natural: os maçons que escrevem sobre Maçonaria integram eles próprios o primeiro termo da equação, conhecem-no literalmente por dentro e por fora, é mais fácil escrever sobre o que se conhece, analisar o que o próprio sente, definir os objetivos que o próprio anseia.

Mas, para que a equação funcione, exista realmente, é indispensável a presença e o efeito do seu segundo termo: a Loja. É a Loja que é o ponto de confluência de todos os obreiros, onde todos levam as suas idiossincrasias pessoais, mas também os seus esforços, preocupações e anseios. É no confronto de tudo aquilo que se junta e partilha na Loja que cada um escolhe e retira os materiais e as ferramentas que utilizará no seu próprio desbaste. Ser maçom só faz plenamente sentido se e quando integrado em Loja. Aí, sim, o método disponível para ao aperfeiçoamento individual concretiza-se. Maçom e Loja completam-se e mutuamente se influenciam.

Há muita matéria escrita sobre o primeiro termo da equação, o maçom. Sobre o segundo termo dessa equação, a Loja, os elementos disponíveis são muito menos. Não é só por ser mais fácil escrever sobre o maçom do que sobre a Loja. É também porque, se bem virmos a coisa, a relação entre o maçom e a Loja é similar ao que, dizem os entendidos no assunto, sucede no âmbito da física quântica: o observador, pelo simples facto de observar o fenómeno, altera esse fenómeno. 

Efetivamente, o maçom integra-se numa Loja. É influenciado por ela, mas também ele próprio a influencia. O simples facto de o maçom observar, analisar, efetuar juízo crítico sobre a sua Loja, faz com que, seja a sua análise melhor ou pior, seja o resultado dela mais ou menos agradável, altere a perceção que dela tinha. E, ao tal suceder, inevitavelmente que se modifica, quiçá impercetivelmente, a sua relação com a Loja e, assim, a forma como a Loja o influencia, mas também a sua própria influência sobre a Loja. O simples facto de observar a Loja resulta na modificação da Loja observada, tal como na modificação do próprio observador. Mudanças insignificantes, impercetíveis, talvez. Mas estão lá, ficam lá, interagem com outras subtis modificações. Assim evolui o maçom. Assim evolui a Loja. Assim evoluem ambos.

Esta relação mutuamente influenciadora entre o maçom e a sua Loja deve alertar-nos para a necessidade de não nos concentrarmos apenas no primeiro termo da equação, o maçom, isto é, nós - apesar de ser esse, de sermos nós, o objetivo principal -, mas também não descurar a atenção no segundo termo da equação, a Loja.

Não nos enganemos: a Loja não são as paredes dentro das quais nos reunimos. Não são os adereços que nos rodeiam. Não é o mero ambiente que criamos. Nem o conjunto de lições que aprendemos. A Loja é, somos, o conjunto de maçons que nela se integram. A Loja não é ELA. A Loja é NÓS.  A Loja, sendo algo diverso de nós, é algo de que nós fazemos parte, que nós influenciamos e que nos influencia.

O maçom deseja aperfeiçoar-se. É meritório. Ao fazê-lo, está a cuidar de si. Mas o maçom sabe que a sua tarefa só plenamente se executa se em consonância, em interação, com sua Loja. Assim sendo, o mínimo de bom senso manda que também se preocupe com a sua Loja, com o bom estado dela. E, repito, o que aqui menos importa são as paredes, a decoração ou os artefactos. O que importa, a essência da Loja, são os seus obreiros. Um a um. Todos. O conjunto de todos. A influência de cada um sobre cada um e sobre todos e a influência de todos sobre cada um.

Observar, estudar, a dinâmica da Loja, procurar determinar o estado dela, as correções que nela porventura haja a fazer, o contributo que relevantemente a ela possamos dar, é tarefa que o maçom não deve, não pode descurar. É uma tarefa ciclópica, eu sei! Parece, muitas vezes, uma tarefa impossível, de tal forma se nos afiguram insignificantes os resultados que a nossa ação individual é suscetível de obter, também o sei. Mas a colmeia vive e cresce graças ao aparentemente insignificante resultado do trabalho de cada uma das suas abelhas...

O maçom que aprendeu a sê-lo não esquece que tem de zelar pelos dois termos da equação. Porque o resultado individual depende do coletivo. Porque o coletivo depende do individual, mas também influencia o individual. Ao zelar pelo bom estado da sua Loja, o maçom está simultaneamente a melhorar-se a si próprio. Ao melhorar-se a si próprio, está a contribuir para a melhoria da sua Loja.

Bem vistas as coisas, sim, a relação entre o maçom e a sua Loja é como a física quântica: parece muito difícil, aparenta ser muito inacessível, mostra-se muito esotérica, mas o que é preciso é afinal apenas trabalho e bom senso!

Rui Bandeira 

13 fevereiro 2017

A pedra bruta (republicação)...

Para a habitual publicação das "segundas-feiras" irá rever a luz um texto em forma de alegoria que o Paulo M. publicou aqui no  "A Partir Pedra", e que pode ser consultado no seu original aqui, que aborda a "Pedra Bruta", conceito maçónico este que os nossos habituais leitores já deverão ter depreendido que é um tema que me é muito caro. 

E como para o maçom o processo da sua transformação, inicialmente sendo ele uma simples "pedra bruta" ( o seu Eu, com os defeitos e vícios adquiridos ao longo da sua vida) para se tornar numa "pedra polida" (sendo este um estádio mais avançado, evoluído de si mesmo) ser deveras importante, dado que o aprimoramento moral - o seu auto-aperfeiçoamento ! - é necessário para uma conduta social, profissional, inclusive familiar(!) exemplar; já para não falar (passe o pleonasmo) de que essa evolução ser também  necessária também no seio da Maçonaria, porque apenas reconhecendo aqueles que são livres e mesmo de bons costumes, é possível também esta Augusta Ordem progredir...

Por isso é tão relevante este conceito tão singelo, e para alguns estranho, de "Pedra Bruta" e do trabalho que deve o maçom  fazer neste desbaste contínuo desta sua "pedra", e que me aprazeria dizer que é mesmo um trabalho  necessário ser efectuado quase que diariamente, senão o risco de estagnação e de pouca ou nenhuma evolução pessoal conseguirá ser concretizado, contrariando de certa forma, aquilo a que o maçom se propôs a fazer no dia em que sentiu a necessidade de dar um passo no sentido de evoluir e crescer...

Assim e depois deste pequeno "apontamento" inicial passarei à transcrição do texto que escolhi para esta semana:
"A pedra bruta

 O aprendiz tivera recentemente a sua primeira lição sobre a pedra bruta e a pedra polida. Foi-lhe explicada a base, o essencial, o ponto de partida do significado desses símbolos, que depois interiorizaria e desenvolveria por si mesmo. Aprendeu, então, que a pedra é cada um de nós; que o nosso trabalho consiste em "aparar" as nossas asperezas de modo a atingirmos um estado de maior perfeição - ou de polimento - para que, por fim, juntos, formemos essa sublime construção, esse supremo templo que o Homem edifica, a partir de si mesmo, à Glória do seu Criador.

Várias noites seguidas o aprendiz adormeceu sobre o assunto, e sonhou com pedras de todos os feitios. Sonhou com enormes e antigos rochedos cobertos de um musgo ancestral; sonhou com areia fina, outrora parte de imponentes escarpas e agora reduzida a pó; sonhou com mós de moinho, com as pedras dos muros das aldeias da sua infância, com a calçada da cidade, com esquinas de prédios, com gravilha, com os seixos rolados que lançava fora quando abria um buraco no quintal e cuja forma traía um longo percurso de leito de rio e de enxurradas de Outono.

Num dos seus sonhos, o seu olhar recaiu sobre um calhau quase em bruto, semi-enterrado, com um dos lados mais plano - o mais batido pela intempérie - e o resto, por ter passado a maior parte do tempo oculto debaixo da terra, ainda cheio de rugosidades e imperfeições. Algo de familiar lhe chamara a atenção para com aquela pedra, pelo que a fixou com atenção. Logo acordou, mas aquele calhau, mais áspero de uns lados, mais liso de outro, não lhe saía da cabeça.

Só dias depois, ao fazer uma introspeção sobre as suas fraquezas e as suas forças, se reconheceu, não sem algum embaraço, na pedra com que sonhara. O seu lado mais polido - aquele, afinal, em que mais tempo investira, e que era aquele que lhe punha o pão na mesa - estava, não obstante, rachado e eivado de sulcos aqui, mas ali ainda com sinais de pouco trabalho e pouca perseverança que traíam a rugosidade original. Do resto nem valia a pena falar; precisava de tudo.

Inspirou fundo e quase desistiu; a tarefa era árdua, e não sabia sequer por onde começá-la. Apercebeu-se, então, que nem sequer sabia onde queria chegar, pelo que não fazia sentido meter-se, antes disso, ao caminho. O que deveria fazer dessa pedra que era ele mesmo?

Inquieto, procurou junto de um dos seus Mestres orientações quanto ao que deveria fazer. Este, à guisa de resposta, mostrou-lhe dois muros, igualmente sólidos e compactos: um, formado por pedras de forma paralelepipédica, cada um com as suas 6 faces laboriosamente aparadas; outro, formado por pedras irregulares mas firmemente encaixadas umas nas outras, em que apenas uma ou duas faces - as exteriores - tinham sido polidas, mas essas, oh, como brilhavam!

Mais baralhado ainda, perguntou ao Mestre que pedra deveria ser, e o que deveria fazer para o atingir. Deveria ir aparando, nas várias faces, as rugosidades maiores, esperando que, ao fim de muitas passagens, a forma se fosse compondo? Ou deveria investir numa ou duas das faces e ignorar as restantes? Ou, pelo contrário, deveria trabalhar todas, mas dando forte preponderância a uma ou duas, e limitando-se a atingir os mínimos nas remanescentes?

Respondeu-lhe o Mestre que não tinha resposta para lhe dar. Que cada um deveria aparelhar a sua pedra da forma que entendesse ser a mais perfeita, e que o Grande Arquiteto saberia usá-la, como ficasse, na construção do Templo. Umas, mais toscas, seriam usadas como enchimento, sem o qual as paredes não teriam consistência para se suster; outras, mais ornamentadas, seriam colocadas em lugar de destaque, mas seriam eventualmente mais frágeis; outras ainda, robustas e fortes, aparadas de forma milimétrica mas sem quaisquer adornos, tornar-se-iam nas pedras que susteriam os vãos e as abóbadas. Algumas pedras, pela sua própria natureza, nunca poderiam servir para certos fins; mas todas conseguiriam tornar-se úteis para alguma coisa, e tanto mais úteis quanto mais trabalho tivesse sido despendido nas mesmas.

O Aprendiz olhou então, longamente, a sua pedra, inspecionou minuciosamente a face mais polida - mas imperfeita - bem como as outras, rugosas e ásperas, e lançou-se ao trabalho.

.·.

Anos mais tarde, já o Aprendiz chegara, por sua vez, a Mestre, tendo a oportunidade de ir apreciando os trabalhos dos Aprendizes e Companheiros da sua Loja, e o quanto eram diferentes uns dos outros. Enquanto uns se esforçavam mais por distribuir o seu esforço por várias faces - obtendo belas peças geométricas que formavam um todo harmonioso, em que nenhuma face sobressaía das demais - outros persistiam em trabalhar a mesma face até que esta brilhasse como um espelho, ofuscando as imperfeições que haviam ficado por trabalhar nas restantes, e que podiam, mesmo, ser vistas como uma promessa de aperfeiçoamento futuro. Em todas elas o Mestre teve oportunidade de aprender algo de novo. E apercebeu-se, então, de que o seu  Mestre tivera razão, pois que de nenhuma poderia dizer, com segurança, que fosse melhor do que as outras.

Paulo M. "

06 fevereiro 2017

O sentido da vida


Todo o ser humano, mais tarde ou mais cedo, mais ou menos frequentemente, se interroga sobre o sentido da vida. As religiões resultam, em última análise, dessa primordial interrogação, procurando cada uma delas dar resposta à mesma. 

Confrontado com a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o indivíduo tem, basicamente, uma de três reações. Ou aceita essa doutrina, ou a rejeita ou aceita elementos, ainda que modificando-os, dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo.

Se o indivíduo aceita a doutrina da crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, o seu problema está resolvido: o sentido da sua vida contém-se nos princípios dessa doutrina, cumpre, ou procura cumprir, os preceitos dessa religião e busca a Salvação ou a Evolução que a doutrina da sua religião preconiza. Sabe qual é o seu lugar e a sua função no mundo e na vida. Não precisa de se questionar mais.

Se o indivíduo rejeita a crença religiosa que a sua cultura lhe disponibiliza, das duas, uma: ou fá-lo porque se identifica com outra doutrina religiosa, a que se converte, ou, pura e simplesmente não crê. Na primeira hipótese, o seu problema de responder à interrogação primordial sobre o sentido da vida fica resolvido, em termos semelhantes à situação anterior. 

Se a rejeição da crença religiosa ocorre porque, pura e simplesmente, não crê, o seu problema fica também resolvido, mas com outra resposta: não existe qualquer sentido na vida, a vida, como o Universo, resulta de uma combinação de fatores físicos e químicos, tudo se resume ao mundo material, onde se nasce, vive-se o melhor que se pode e um belo dia morre-se e nada de nada resta, para além do que se enterra ou é cremado, para dar lugar a outros que, sucessivamente, nascerão, viverão e morrerão, sem que deles nada reste também, para além do que se enterra ou é cremado, até que um dia uma qualquer combinação de fatores físicos e químicos a tudo ponha fim - do começo ao final nada faz sentido, tudo sucede, sucedeu e sucederá por acaso, por mecânica combinação de uma miríade de fatores físicos e químicos.

Se o indivíduo, confrontado com a crença religiosa da sua cultura, aceita, ainda que modificando-os, elementos dessa tradição, mas busca ir mais além e mais fundo, esse é o que mais longa e persistentemente se debate com a interrogação sobre o sentido da vida. A resposta institucional não o satisfaz, a opção no ateísmo materialista também não. Esse rejeita que tudo sucedeu por acaso, por mera consequência de fatores físicos e químicos e que a vida não tenha sentido. Esse considera que existe, sim, um sentido na vida, ainda que ele o desconheça, mas entende que existe um Propósito, um Objetivo, na existência do Universo e, principalmente, da Vida. O que materialmente vê e sente é apenas uma parte do quadro da Vida. Acredita que outros planos de existência ocorrem, que a passagem por este plano material tem um propósito, simplesmente não se satisfaz plenamente com as respostas dadas pela religião da sua cultura - nem com as respostas dadas pelas demais religiões.

Esse, ou se conforma com o desconhecimento e vive segundo os preceitos da sociedade em que se insere, ainda que porventura os não aceitando plenamente, ou busca, por si, com a sua Razão, resposta ou caminhos para resposta suscetível de o satisfazer. É crente, mas não se identifica com nenhuma religião em concreto. É crente porque a sua Razão o conduz a que o seja, mas, por isso mesmo, procura as respostas por si mesmo. É o que se denomina de deísta.

Há ainda os que - talvez a maioria - vão evoluindo ao longo da sua vida, em resultado do seu crescimento, das suas experiências, dos seus encontros e desencontros com pessoas, ideias e ideais. O mesmo indivíduo pode, ao longo da sua vida, passar por mais do que um - no limite, até por todos - dos estádios acima referidos.

Cada um é como cada qual. A pergunta - qual o sentido da vida? - é a mesma, impõe-se a todos, mas cada um dá-lhe a resposta que entende ou que pode dar e, se muda os termos dessa resposta, uma ou várias vezes, é porque a sua natureza o impele a assim fazer.

Muitos, a maioria, interrogam-se sobre o sentido da vida na solidão do diálogo consigo próprio ou podem apenas obter as respostas institucionalizadas da sua tradição religiosa. Outros confrontam a sua interrogação com as similares interrogações de outrem, e daí resultam apostasias, conversões, mas também lutas, por vezes ferozes, ou indiferenças perante as diferenças.

Há uns quantos, porém, que têm a possibilidade de colocar essa interrogação em conjunto com outros, sem confrontos, com aceitação das respostas de cada um, com partilha de pontos de vista e de experiências, pondo todos em comum o que cada um tem, de forma a que cada um retire do todo posto em comum o que necessite para ir mais além e mais fundo, na sua busca pessoal de resposta à interrogação primordial que o venha a satisfazer.

Esses são os maçons!

Rui Bandeira 

30 janeiro 2017

"Arte Royal"...


Na publicação de hoje, trago para Vossa leitura algo um pouco diferente do que é habitualmente publicado por cá, ou seja, hoje "verá aqui a Luz" um pequeno poema de minha autoria.
"Arte Royal"

Era de noite...
e debaixo de uma acácia que me era conhecida
eu repousava.
Reparei que na abóbada celestial flamejava uma estrela,
e que por ser tão bela, certamente que, seria obra de um sapiente geómetra. 
Que com a força do seu punho a cinzelou e no céu a estabeleceu...

É nestes momentos, de rara nostalgia, e vislumbrando a natureza que me rodeia,
que sinto que quase não sei ler nem escrever,
e que dificilmente conseguirei soletrar o quer que seja...
Ou não fossem as palavras que ficam, por vezes, por dizer, 
serem tantas como as espigas dos nossos campos;
e que por isso, por vezes, me parece que a carne se me desprega dos ossos...

Depois, acordei e vi que a luz me inundava o quarto
e que tudo tinha sido um mero sonho.
Um sonho bom...