29 maio 2011

Perceção, verdade e tolerância - III


Como vimos, a interpretação direta dos sentidos pode ser muito enganadora. A razão permite-nos, contudo, interpretar aquilo de que nos apercebemos do mundo, e construir acerca do mesmo conjeturas que o tornem mais previsível - aquilo a que chamamos normalmente as "leis da física". Ora, em grego, "φύσης" ("físis") quer dizer, simplesmente, "natureza". As "leis da física" não são senão... as "leis da natureza"!!!

Em ciência as palavras têm significados precisos. "Teoria", "lei" e "hipótese" não significam a mesma coisa. Por exemplo, fora da ciência, pode-se que algo é "apenas uma teoria", ou seja, é pressuposto de que pode ou não ser verdade. Em ciência, uma teoria é uma explicação que é geralmente aceite como sendo  verdadeira.


Uma "hipótese" é uma suposição feita com base na observação. Normalmente, uma hipótese pode ser apoiada ou refutada através da experimentação ou observação. Pode provar-se que uma hipótese é falsa,  mas não pode provar-se que é verdadeira.

Uma "teoria científica" resume uma hipótese ou conjunto de hipóteses que tenham vindo a ser suportadas por   repetidos testes. Uma teoria é válida enquanto não haja uma prova que a refute. Basicamente, se se acumula provas que apoiem uma hipótese, então, a hipótese pode passar a ser aceite enquanto uma boa explicação para um certo fenómeno. Pode dizer-se que uma teoria é uma hipótese cuja veracidade é aceite.

Uma "lei" generaliza um conjunto de observações. No momento em que é elaborada, não há exceções que a refutem. As leis científicas explicam as coisas, mas não as descrevem. Uma forma de distinguir uma lei de uma teoria é questionando se a sua descrição nos dá os meios de explicar "porquê". Por exemplo: através da Lei da Gravidade de Newton podemos prever o comportamento de um objeto que cai, mas não podemos explicar por que é que ele cai.

Como se pode ver, não há "prova" ou absoluta "verdade" na ciência. O mais próximo que temos são factos, que são observações razoavelmente inquestionáveis desde que efetuadas em condições controladas e passíveis de ser reproduzidas. Todavia, em ciência, não se pode demonstrar que nada é verdadeiro, só se pode demonstrar que é falso. Não há "prova" na ciência.


A ideia de que era possível explicar-se os fenómenos naturais apenas com base na observação e interpretação da natureza não foi do agrado de todos. Alguns acreditavam - e muitos acreditam ainda - que o mundo não é passível de ser entendido sem se ter em conta alguma intervenção divina, uma centelha sobrenatural, ou pelo menos algo transcendente e espiritual.

É aqui que entram em campo outras verdades: as chamadas "verdades reveladas" ou, simplesmente, a "fé". A fé é, por definição, contrária à constatação. A partir do momento que algo possa ser demonstrado deixa de ser passível de ser acreditado. A fé só é necessária se não tivermos meios de comprovar aquilo em que acreditamos.

Eu não "acredito" que há uma árvore em frente da minha casa; eu "sei" e "constato" que ela existe, seja através do tacto, seja através da visão, e da troca de experiências com a minha família e vizinhos. No entanto, se me disserem que "há um ninho em cima da árvore" e eu não o tiver visto, passa isso a ser matéria de fé: acredito em quem mo disse. Porém, se for ver a árvore e estiver lá o ninho, deixo de acreditar, e passo a constatar. E se não houver ninho nenhum, constatarei na mesma que... não devia ter acreditado.

Há, todavia, muitas "verdades" mais difíceis de comprovar. Será que o Homem foi mesmo à Lua? Há ainda hoje quem não acredite... como há quem creia que a Terra não é esférica. A estes últimos bastaria uma viagem de avião para se lhes comprovar o errados que estão. Quanto à Lua, seria mais difícil, mas não impossível: aquilo em que acreditam - ou o que refutam - é do âmbito da realidade material.

Mas como se prova a veracidade - ou falsidade - da declaração de alguém que diz ter visto um fantasma? Falado com um espírito? Recebido uma mensagem do Além? Como se refuta - ou prova - que há vida para além da morte? Como se faz prova da existência de Deus - ou do seu contrário? Como se distingue um iluminado de um alienado, um burlão de um profeta, ou um místico de um doente mental?

Como se prova ou refuta uma verdade que não é passível de ser demonstrada pela razão? Todos passámos já por estas questões. A este respeito a Maçonaria tem uma resposta clara: não se prova, não se refuta, e, acima de tudo, não se discute.

Paulo M.

Fontes

25 maio 2011

Maçonaria e Filosofia Pitagórica - o CINCO

A partir do ponto do UM e da linha do DOIS emergiu a superfície do triângulo regular do TRÊS e depois o volume da pirâmide quadrangular, de base quadrada, do QUATRO. Com a pêntade, acima representada, os pitagóricos representaram o CINCO. O CINCO não é representado por uma forma geométrica regular clássica, antes por uma forma complexa (uma estrela de cinco pontas inscrita num pentágono regular, por sua vez inscrito num círculo, o qual está inscrito na vesica piscis). A representação gráfica do CINCO abandona a sequência lógica que verificámos anteriormente. Do ponto nasceu a reta, desta a superfície e desta o volume. Mas a pêntade, ou pentagrama estrelado, não parte de nenhum ponto central, nem da reta da díade ou do triângulo da tríade e muito menos da pirâmide da tétrade. A pêntade quebra com a sequência lógica. No entanto, olhando para o símbolo, temos uma sensação de harmonia, de que este símbolo evolui logicamente dos anteriores, embora nos escape essa lógica...

A resposta a esta perplexidade encontra-se se não esquecermos e tivermos presente que os pitagóricos encaram os números como a essência de tudo o que existe. O UM (a mónade, o ponto) é a essência do Princípio Criador; o DOIS (a díade, a linha) é a essência da atividade concretizadora do Princípio Criador; o TRÊS (a tríade, o triângulo regular, a superfície) a essência do resultado da união do Principio Criador e da sua atividade, a Criação; o QUATRO (a tétrade, o quadrado, o volume da pirâmide quadrangular de base quadrada) é a essência do resultado do ato da Criação, o Universo. O CINCO (a pêntade, o pentagrama estrelado) é a essência de quê? Basta pensarmos um pouco para vermos claramente a sequência lógica, o que se segue: a Vida!

A Vida é complexa, ilógica, imprevisível; no entanto, profundamente lógica e harmónica. É bela como o pentagrama estrelado, complexa como a sua emergência geométrica, livre, nascendo fora dos cânones antecedentes, singularmente harmónica como a imagem da pêntade.

O CINCO pitagórico simboliza a VIDA, passo seguinte após a Criação do Universo.

Na Natureza, o pentagrama estrelado aparece por toda a parte: repare-se na estrela-do-mar; na disposição das sementes no interior de uma maçã. O valor CINCO aparece também com frequência na Natureza, desde as simples cinco pétalas de uma flor à quantidade de dedos que temos em cada mão e em cada pé e ao número dos nossos sentidos.

Na Antiguidade, a pêntade era reverenciada e a sua construção geométrica mantida secreta (o hábito do secretismo vem de longe...). Os pitagóricos usaram a pêntade como um sinal secreto para se reconhecerem uns aos outros (onde é que eu também já vi isto...?). A construção desta forma geométrica foi mantida secreta e oralmente transmitida muito depois de a Escola Pitagórica ter desaparecido: as guildas de artesãos que usavam o seu simbolismo nas catedrais góticas não escreviam acerca dela. O método de construção do pentagrama estrelado só veio a ser publicamente revelado a artistas e filósofos pelo professor de Leonardo da Vinci, Luca Pacioli, no seu livro Divina proportione.

A Maçonaria herdou diretamente esta simbologia da pêntade e aplica-a particularmente no grau de Companheiro, o tempo em que o maçom se deve especialmente dedicar ao estudo da Natureza e sua leis, de tudo o que é construído, de tudo o que o homem aprendeu. Em Maçonaria, o CINCO é assim associado ao Companheiro maçom.

Fonte:

O Código Secreto, Priya Hemenway, ed. Evergreen, 2010.

Rui Bandeira

22 maio 2011

Perceção, verdade e tolerância - II


Como vimos, os nossos sentidos ficam postos em causa, não podendo ser considerados fonte inquestionável de verdade. Não podem ser a única fonte de validação daquilo que tomamos por certo, nem nos permitem, por sim mesmos, saber se aquilo de que estamos convictos é, de facto, verdade. Mas o que é a verdade? Haverá uma verdade, ou muitas verdades? Dizem algumas filosofias orientais que "A verdade é uma, as perceções são muitas". Mas poderemos nós saber qual é a "verdade verdadeira"?

O conceito de "verdade" não é universal, ainda hoje sendo debatido. Os pensadores da antiguidade clássica, como Sócrates, Platão e Aristóteles, consideravam ser a "verdade" a correspondência entre ideias (ou pensamentos) e coisas (ou objetos). Se a ideia correspondia à coisa, a ideia era verdadeira. A perceção da essência da coisa não era questionada; confiava-se nos sentidos. Este pensamento foi o dominante até ao século XIII, em que Tomás de Aquino afirmava ser "a verdade é a (ad)equação entre as coisas e o intelecto", e que "Um juízo é verdadeiro quanto está conforme com uma realidade exterior". A verdade era atingida, nesta perspetiva, sempre que se fazia corresponder à realidade objetiva uma representação em pensamentos, palavras ou outros símbolos.

Todavia, a expressão verbal não é inteiramente inequívoca. As línguas não são absolutamente tradutíveis entre si; há conceitos que se perdem sempre que se procura exprimir certa ideia numa língua distinta que   não possua, no que concerne certa palavra, o mesmo campo semântico.  Essas palavras "difíceis" são aquelas que, por essa mesma razão, tendem a surgir na sua expressão original nos textos traduzidos. A razão é simples: conceitos subtis ou extremamente complexos podem carecer de uma extrema precisão para que sejam adequadamente expressos, transmitidos e entendidos, e a linguagem pode ser - e frequentemente é - um obstáculo a esse processo.


O Universo era ainda visto como algo de abarcável pela mente humana, como algo de belo, coerente e consistente; como um enorme relógio tiquetaqueando com persistência a sua quase infinita complexidade, mas sempre confinado a certas regras, a certa regularidade, a certa previsibilidade. A própria mente humana era vista como um maravilhoso micro-cosmo, pois que se era capaz de abarcar o Universo, devia ser ela mesma imensamente complexa. Conhecer a verdade consistia, assim, apenas na questão de se construir um sistema lógico-matemático formalmente coerente e consistente com o qual se estabelecesse uma correspondência com o Universo físico.

Note-se que está implícita uma premissa ainda nunca provada, em nenhum lado demonstrada: que o Universo físico se rege por leis matematicamente exprimíveis. O que nos parece hoje claro e evidente foi absolutamente revolucionário no seu tempo, e constituiu a base da Ciência: que a Natureza não é caprichosa, nem as suas forças decorrem dos caprichos dos deuses do Panteão, mas antes é passível de ser medida, racionalizada, entendida, prevista e reproduzida de acordo com regras (muitas vezes simples) numéricas, quantitativas, objetivas. É esta uma das mais fantásticas coincidências, e vista por muitos cientistas crentes como a verdadeira "marca do Criador": o termos um mundo que podemos descobrir, entender, e mesmo inferir sem nunca ter visto, por haver esta correspondência entre a Matemática e a Física, que funciona nos dois sentidos: há descobertas da física que obrigam à criação de novas linguagens matemáticas para as poder exprimir; e sucede descobrir-se que o que se julgava serem puras elucubrações da matemática pura conhecidas há décadas explica na perfeição uma qualquer nova descoberta do mundo da física.

Esta correspondência é, porém, frágil. Por um lado, não há nenhuma "prova" de que o mundo se reja sempre por leis matematicamente exprimíveis. Por outro lado, a matemática e a lógica - antes consideradas edifícios inexpugnáveis de racionalidade e consistência - vieram a revelar - de forma demonstrável - que algumas verdades matemáticas seriam sempre indemonstráveis, não deixando de ser verdadeiras; e que havia paradoxos - verdadeiro anátema num sistema lógico - que não podiam ser ultrapassados. Não sabemos, ainda, as consequências que estas descobertas matemáticas virão a refletir na física, mas é fascinante imaginar que aparentes incongruências físicas se venham a descobrir nos locais onde descobrimos as incongruências matemáticas.


Recapitulemos então: os nossos sentidos, para além de incompletos, são imperfeitos. A nossa visão só se apercebe de um estreitíssimo espetro eletromagnético a que chamamos "luz visível"; só conseguimos aperceber-nos de certos sons cuja intensidade ultrapasse um certo limiar; e há muitas coisas no mundo de que não nos apercebemos de todo. Por outro lado, o nosso cérebro pode interpretar de forma inadequada os estímulos que recebe nos nossos órgãos sensoriais. As ilusões de ótica são um exemplo clássico, bem como o exemplo do efeito McGurk. A razão na sua manifestação mais objetiva - a matemática e a lógica - vêm a revelar-se igualmente incapazes de constituir sistemas absolutamente coerentes e à prova de quaisquer ataques. Por fim, quando queremos transmitir aquilo de que nos inteirámos sobre o mundo que nos rodeia, não somos capazes de o fazer senão através de meios igualmente imperfeitos e passíveis de introdução de novas imprecisões, novas discrepâncias e novos erros, decorrentes do recurso a linguagens e a símbolos.

Cientes destas limitações, surgem novas ideias em torno do conceito de verdade. Surge, por exemplo, a ideia de que a "verdade" é algo de construído, decorrente de cada contexto histórico, social e cultural, refletindo somente as convenções interpretativas dominantes em cada um desses contextos. Ou a ideia de que a verdade é passível de plebiscito ou a consenso, correspondendo a visão "verdadeira" àquela com que todos - ou aqueles que estão em maioria - concordam. Esta interpretação levou a que chegasse a haver tentativas de decretar novos valores para o "pi" e para a raiz quadrada de 2 - felizmente postas de parte.

Hoje em dia a "verdade", numa perspetiva quer pragmática quer científica, é considerada algo de incompleto, parcial e falível. É um limite para que se tende, algo de que nos conseguimos aproximar, mas sempre sob escrutínio, continuamente posta em causa, e passível de vir a ser contrariada e substituída por uma "verdade mais verdadeira". Perdida pelo caminho fica a inocência da busca da "verdade objetiva", da "verdade absoluta", e a ilusão de se poder conhecer as coisas tais como elas são.

Paulo M.

Fontes:
http://en.wikipedia.org/wiki/Truth

18 maio 2011

Maçonaria e Filosofia Pitagórica - o QUATRO


A representação gráfica do QUATRO, a tétrade, a forma geométrica que, segundo os pitagóricos, representa este número, obtém-se pela forma ilustrada pela imagem que encima este texto.

Recordemos que o UM (que determina o ponto) e o DOIS (que determina a linha) são facetas do Princípio Criador, aquele estático, potencial, este dinâmico, a concretização da potência original, e que os pitagóricos entendiam que estes dois números eram os progenitores de todos os demais números básicos (até DEZ). O "filho" primogénito era o TRÊS, que determina o triângulo equilátero, primeiro polígono regular. O QUATRO determina o quadrado.

A forma mais simples de o desenhar, partindo doa intersecção dos dois círculos (a vesica piscis) é traçar uma linha horizontal unindo os centros dos dois círculos (figura do DOIS) e uma linha vertical ligando os dois pontos de interseção dos dois círculos. Seguidamente, com centro no ponto de interseção destas duas linhas, traça~se um círculo unindo os dois centros dos dois círculos iniciais. Finalmente, ligam-se os quatro pontos de interseção entre o círculo menor e as linhas horizontal e vertical previamente traçadas, desenhando-se um quadrado perfeito, inscrito nesse círculo menor.

QUATRO é o primeiro número formado, quer pela adição, quer pela multiplicação de iguais (DOIS mais DOIS e também DOIS vezes DOIS). Assim, os pitagóricos consideravam o QUATRO o primeiro número par e o primeiro número "feminino". O quadrado de lado par, segundo eles, representava a Justiça, pois é o primeiro número divisível de qualquer maneira em partes iguais (Quatro é igual a DOIS mais DOIS e também a UM mais Um mais Um mais UM).

Mas, se observarmos com atenção a imagem, vemos que o quadrado, combinado com os dois segmentos de reta que o cruzam diagonalmente, nos dão a perceção de volume, figurando uma pirâmide triangular. O QUATRO, para os pitagóricos, prossegue a evolução dos conceitos geométricos, espelho da Criação: ponto, linha, superfície, agora volume. Neste sentido, o QUATRO pitagórico representa o Universo resultante do ato criador, que tudo conteve, contém e irá conter.

Em termos de Maçonaria, não conheço qualquer referência particular ao número QUATRO. Porventura pela complexidade doa sua representação gráfica, pela reduzida relevância do quadrado na simbologia maçónica ou pela simbologia "feminina"atribuída pelos pitagóricos ao QUATRO, este valor não mereceu particular interesse na Maçonaria.

Na minha opinião, este facto (que se repetirá em relação a outros dos números básicos dos pitagóricos) não afasta - e, mesmo, corrobora - a tese que venho explanando de que os ensinamentos maçónicos, no que toca aos números, derivam e são uma corruptela da filosofia pitagórica. Mas reconheço que, à míngua de comprovação documental histórica, esta tese vale o que vale. Pode ser bene trovata, mas não tenho meios nem conhecimentos bastantes para poder provar ser vera...

Fonte:

O Código Secreto, Priya Hemenway, ed. Evergreen, 2010.

Rui Bandeira

15 maio 2011

Perceção, verdade e tolerância - I


Como sabemos nós que os nossos sentidos não nos mentem? Como podemos validar se a nossa perceção dos acontecimentos e do mundo é igual à dos outros perante a mesma realidade? Poderemos confiar nas conclusões que decorrem daquilo que os nossos sentidos nos indicam? Em caso de discrepância de interpretação, poderemos saber onde está a verdade? Haverá uma verdade absoluta e objetiva, ou tudo é relativo e subjetivo? E o que é que isto tem que ver com Maçonaria?

O mundo - a realidade que nos é exterior - não pode ser diretamente apercebido pelo nosso cérebro. Este tem que valer-se dos nossos sentidos para se aperceber das características das coisas. Dizem os empiristas que é "ver para crer". Mas será assim? Lá porque eu vejo o céu e digo que é azul, e a pessoa ao meu lado também o vê e diz que é azul, como posso eu saber que a perceção que ela tem da cor é a mesma que a minha? Como sei que ela não vê o céu vermelho, ou verde - e lhe chama "azul" porque aprendeu que aquela cor se chama "azul"? De facto, é algo de muito difícil - para não dizer impossível - de se aferir.

Os nossos sentidos são as janelas que o nosso cérebro tem para o mundo. Através dos sentidos temos a perceção de como o mundo é. Mas será que os nossos sentidos nos dizem a verdade, ou será que nos enganam? Como podemos saber se algo é verdadeiro? Será o céu verdadeiramente azul?

A perceção não pode ser dissociada da interpretação. Não  somo capazes de "ver" apenas, sem interpretar o que vemos, e o que fixamos não é senão a interpretação que fazemos daquilo de que nos apercebemos. Não somos máquinas de filmar; não é assim que funciona o nosso cérebro. Os nossos sentidos não são confiáveis enquanto fonte de verdade. Vejamos um exemplo. Se virmos alguém dizer "ba - ba - ba" e olharmos para a sua boca, um dos sentidos reforça o outro. O nosso cérebro "ouve" o "ba - ba - ba". Mas se, a certa altura, a imagem passar a ser a de uma pessoa que diz "fa - fa - fa", e o som se mantiver? O que acontece?

Sem experimentar, podemos especular que ouviremos "ba - ba - ba" e notaremos que a pessoa está a fazer um movimento de boca que não corresponde ao som que ouvimos. Mas não é isso que acontece. Incrivelmente, passamos a ouvir "fa - fa - fa". E, se fecharmos os olhos, ouvimos "ba - ba - ba". Não acreditam? Vejam aqui.

Imaginemo-nos em tribunal a testemunhar o que ouvimos. "Mas ouviu mesmo o réu dizer fa-fa-fa?", e juraremos, por tudo o que é mais sagrado, que sim, e o nosso testemunho condená-lo-á. Mas onde fica a verdade no meio de tudo isto? Perguntemos a uma centena de pessoas que assistiram ao acontecimento. Todas dirão: "Sim, ele disse fa-fa-fa." Todas, menos uma. Será um mentiroso? Não, apenas um cego, cujo cérebro não foi iludido pela inconsistência entre os dois sentidos. Na sua limitação, apercebeu-se da realidade melhor do que aqueles que julgavam ver a luz.

Paulo M.

Fontes:
http://donn.wordpress.com/2003/10/07/truth/
http://www.youtube.com/watch?v=G-lN8vWm3m0
http://taoism.about.com/b/2009/08/24/truth-perception.htm

11 maio 2011

Maçonaria e Filosofia Pitagórica - o TRÊS

Os filósofos pitagóricos representavam o TRÊS através da figura acima, denominada tríade. Esta figura é, aliás a que resulta da demonstração geométrica da primeira proposição de Euclides (construir um triângulo equilátero dado um segmento de reta para seu lado; a demonstração, identificando cada um dos vértices do triângulo, respetivamente, por A, B e C, é: construímos as circunferências de raio AB e de centros em A e B. Seja C o ponto de intersecção das duas circunferências. Desenhamos os segmentos de recta AC e BC. O triângulo ABC é equilátero. Sendo A o centro da circunferência que contém B e C, AB=AC. Sendo B o centro da circunferência que contém A e C, BC=BA. Portanto, podemos concluir que AC=BC. Os três segmentos de recta são iguais, logo o triângulo é equilátero).

Considerando os pitagóricos o UM e o DOIS como os progenitores de todos os restantes números, atribuíam ao TRÊS a condição de primogénito, o número mais velho. A sua forma geométrica, o triângulo equilátero, o primeiro dos polígonos é a forma inicial que emerge da vesica piscis; é a primeira de muitas. O UM determina o ponto; o DOIS a linha; o TRÊS o primeiro polígono regular.

O TRÊS é o único número igual à soma dos termos anteriores a ele (TRÊS é igual à soma de UM mais DOIS). É também o único número que, somado, aos seus anteriores, dá um resultado igual à sua multiplicação pelos números anteriores (UM mais DOIS mais TRÊS dá um resultado igual a UM vezes DOIS vezes TRÊS).

O TRÊS significa equilíbrio, harmonia. O Princípio Criador em potência (o UM) e a concretização dessa potência (o DOIS) geram a harmonia e equilíbrio do TRÊS, pois que, como os dois centros dos dois círculos da díade simultaneamente se repelem e atraem, o terceiro ponto, reconciliador das duas forças opostas, ocorre no local superior onde os dois círculos se intercetam. A tríade, assim, constitui uma relação entre opostos que os une e os traz para um novo nível. Daí o seu significado de harmonia, que nos transmite, aliás, uma importante lição de vida: não é possível qualquer resolução duradoura de um conflito entre dois opostos sem um terceiro fator neutro, que equilibre, arbitre e, por essa via, transforme o conflito em relação estabilizada. A escolha do terceiro elemento significa a diferença entre a resolução e a perpetuação do conflito, consoante este seja efetivamente mediador e equilibrador ou não.

As três linhas do triângulo equilátero são iguais, ou seja, são as "três como um", ou seja, são uma tri-unidade, de onde deriva a palavra trindade. Os antigos deuses da religião hindu são chamados trimurti, em sânscrito "um todo que tem três formas". A religião cristã enfatiza a Trindade Divina. Um antigo símbolo cristão (o Olho da Providência) é constituído por
um triângulo inscrito num esplendor.

Resumindo, o TRÊS é o resultado, em equilíbrio e harmonia, da união do UM com o DOIS, a forma de resolução harmónica do conflito entre a potência e a ação do Princípio Criador, o resultado dessa resolução harmoniosa: a Criação. O TRÊS, primogénito do UM e do DOIS, constitui assim o primeiro resultado do Criador e da sua ação, a primeva Criação, o equilíbrio e a harmonia primordiais.

Em Maçonaria, e particularmente no Rito Escocês Antigo e Aceite, ensina-se, relativamente ao TRÊS, que simboliza o ser, a realidade e a verdade - ou seja, o produto da Criação - e que o binário se devolve à unidade por meio do TRÊS - isto é, ele é o ponto de harmonia, reconciliação e equilíbrio entre o UM e o DOIS. Mais uma vez, qualquer discípulo de Pitágoras poderia ter escrito isto...

Fontes:

Rito Escocês Antigo e Aceite, Ritual de Aprendiz, GLLP/GLRP, junho de 6007
O Código Secreto, Priya Hemenway, ed. Evergreen, 2010.

Rui Bandeira

09 maio 2011

No coração de Cracóvia



Cracóvia é a segunda maior e uma das mais antigas cidades da Polónia. A sua universidade - a segunda mais antiga da Europa central - data de 1364. Nessa altura era a capital do Reino da Polónia, atraindo artesãos, comerciantes e guildas à medida que as artes e as ciências iam florescendo. Porém, em 1572, Sigismundo II morre sem deixar descendência. O trono polaco passa para as mãos de Henrique III de França, e Cracóvia vai passando, nos séculos seguintes, pelas mãos de várias das suas potências vizinhas. Em 1596, Sigismundo III - da casa Sueca de Vasa - passa a capital da Polónia de Cracóvia para Varsóvia, o que decorreu do declínio que foi minando o prestígio da cidade.

Após a Primeira Guerra Mundial, com a emergência da Segunda República Polaca, Cracóvia vê restabelecido o seu papel de centro académico e cultural. Porém, logo em 1939 é de novo invadida, desta vez pela Alemanha Nazi. Felizmente, Cracóvia passou relativamente incólume pela Segunda Guerra, ficando então sob o controlo do regime político da União Soviética. Em 1978 a Unesco elevou Cracóvia à categoria de Património Mundial. No mesmo ano Karol Wojtyła - Cardeal e Arcebispo de Cracóvia - era, com o nome de João Paulo II, eleito enquanto primeiro Papa eslavo, e o primeiro não italiano em 455 anos. Onze anos depois, com a queda do Bloco de Leste, cessava o regime comunista na Polónia. Não obstante a sua história atribulada, Cracóvia soube manter a sua identidade e riqueza culturais, que podem ser apreciadas hoje por visitantes de todo o mundo.

Um dos marcos turísticos da cidade é o Sukiennice - o mercado dos tecidos - implantado bem no centro da praça principal de Cracóvia. No século XV o Mercado de Tecidos era fonte de artigos exóticos vindos do Oriente: seda, especiarias, couros e cera. Por sua vez, Cracóvia exportava tecidos, chumbo e sal. Porém, quando, em 1870, sob o domínio Austro-Húngaro, foram traçados os planos para o restauro arquitetónico do Sukiennice, o centro histórico de Cracóvia estava decrépito. Não obstante, o Sukiennice foi reconstruído, no que constituiu um dos maiores motivos de orgulho nessa época. O Mercado - que em tempos idos chegou a ser local de bailes de gala - recebeu inúmeros convidados distintos ao longo dos séculos, e é ainda usado para receber monarcas e dignatários, como sucedeu em 2002 com o Imperador Akihito do Japão e o Príncipe Carlos de Inglaterra.

Foi, precisamente, no meio do Sukiennice - verdadeiro "umbigo" da cidade - que, em 2007 foi colocada uma placa comemorativa dos 750 anos de Cracóvia, e que tive a oportunidade de fotografar recentemente. Absolutamente desconcertante foi constatar que os motivos principais da placa são... um esquadro e um compasso, como se pode ver. Desconcertante, até recordar que o que estava a ser comemorado era, literalmente, a obra arquitetónica que me rodeava, e que os instrumentos em causa eram evocativos da arquitetura e construção civil, pois claro.

Paulo M.

04 maio 2011

Maçonaria e Filosofia Pitagórica - o DOIS

No texto anterior, deixei a interrogação: O Um é Único e Singular. Sendo assim, e uma vez que Um é o princípio que tudo origina, como é que Um se torna muitos?

Segundo a Filosofia Pitagórica, o UM transforma-se em DOIS refletindo-se a si próprio e separando-se, original e reflexo, através do movimento ilustrado pela imagem acima. Note-se que, com esse movimento, o centro do círculo define uma linha reta. Atente-se na ligação, que os pitagóricos faziam, da essência dos números à Geometria. Através da essência do UM apreendemos o ponto. Com a essência do DOIS deparamos com a linha reta.

À figura acima reproduzida, e que, para os pitagóricos, correspondia à representação gráfica do DOIS, chamavam estes a díade e esta representava o princípio da dualidade ou da diversidade. Essencial à díade era a polaridade, que ocorre em toda a parte e que está na origem da nossa noção de separação um do outro, da natureza e da nossa própria divindade.

A díade ilustra a divisão, logo, a separação da unidade, mas os seus polos opostos (os centros de cada um dos círculos) atraem-se um ao outro, numa tentativa de se fundirem e regressarem à unidade. A díade simultaneamente divide e une, repele e atrai. A díade é o meio de passagem entre o UM e muitos. Se o UM é o Princípio Criador estático, o DOIS ilustra a dinâmica da criação. Se nada existia, como criar a partir do nada? Utilizando o único "material" disponível: o próprio Criador, que se divide e separa, Dele próprio criando o Tudo. A Criação é o reflexo do Criador. O DOIS representa a ação do Criador a ponte, a ligação entre este e o que foi criado. O DOIS é assim a representação da dualidade que em tudo no Universo existe, a dupla natureza do criado que provém do Criador, Dele separado, mas para Ele sempre irremediavelmente atraído.

O UM é o Princípio Criador e simboliza o Masculino, a força ativa que gera a Criação. O DOIS simboliza o Feminino, a força passiva resultante do ato de criação e simultaneamente condição indispensável a esta e à vida. Note-se que, na imagem gerada pela sobreposição dos dois círculos, o espaço comum destes tem a forma de uma vulva. O DOIS é assim também associado à fertilidade e ao Feminino Divino.

O UM é a Força Criadora em potência; o DOIS é o ato concretizador dessa potência. O UM é imóvel; o DOIS é movimento. O UM é absoluto, o DOIS é relativo. O UM é o Tudo sincrético; o DOIS é o Tudo analítico, dotado de diversidade. É através do DOIS que o UM gera os demais números. Assim, para os pitagóricos, o UM e o DOIS eram considerados os pais de todos os outros números.

A imagem que simboliza o DOIS pitagórico não é exclusiva destes. Esta forma de dois círculos que se sobrepõem aparece desde tempos imemoriais. É também designada por vesica piscis (bexiga de peixe, em latim). Na Índia chamam-lhe mandorla (amêndoa). Esta imagem aparece em várias civilizações antigas da Mesopotâmia, África e Ásia, sempre associada ao processo da Criação.

A Maçonaria, mais especificamente o Rito Escocês Antigo e Aceite, ensina, relativamente ao número DOIS, que a razão humana divide e confina artificialmente o que é UM e não tem limites. Assim, a unidade é repartida entre dois extremos, aos quais só as palavras prestam uma certa aparência de realidade.

O conceito abstrato de DOIS dos pitagóricos, enquanto manifestação atual (em ato) do Princípio Criador, dualidade fecunda que da potência do UM gera o Tudo, que, assim, se reveste das características da dualidade e da polaridade (dia/noite; bem/mal; masculino/feminino; luz/escuridão; branco/negro; repouso/movimento) evolui, na conceção maçónica, no meu entender, e tal como sucedeu com o UM para uma corruptela mais concreta: a perceção humana da Criação; a separação artificial, imprescindível à compreensão pelo Homem do Incompreensível Mistério da Criação, em contraposição ao ilimitado e total UM; a dualidade como degradação, separação, divisão artificial do que é real, mas incompreensivelmente, único e uno.

Afigura-se-me, pois, que, tal como sucedeu em relação ao UM, a interpretação maçónica do DOIS é uma corruptela, uma simplificação, uma visão parcial e limitada, do ensinamento pitagórico, decorrente das alterações, perdas, usuras do tempo, decorridas desde o tempo dos pitagóricos e o século XVIII. Mas o princípio de base está lá: os pitagóricos viam o UM e o DOIS como os pais de todos os números; os maçons vêem-nos como geradores do número que se lhes segue.

Fontes:

Rito Escocês Antigo e Aceite, Ritual de Aprendiz, GLLP/GLRP, junho de 6007
O Código Secreto, Priya Hemenway, ed. Evergreen, 2010.

Rui Bandeira

01 maio 2011

O café: motor do Iluminismo



"Forte é o rei que tudo destrói, mais forte a mulher que tudo obtém, e ainda mais forte o vinho que afoga a razão."
Humberto Eco, em "A Ilha do Dia Anterior"


Desde há séculos que o Homem consome bebidas alcoólicas. A análise química de recipientes de cerâmica encontrados em povoações do Neolítico na China indicam que o consumo de bebidas fermentadas (neste caso, uma bebida à base de arroz, mel e fruta) já é velho de pelo menos 9000 anos. Há receitas de bebidas alcoólicas em placas de barro, e a arte Mesopotâmica mostra-nos indivíduos a beber de grandes potes por palhinhas.

Textos sumérios e egípcios de há quatro mil anos descrevem as propriedades medicinais do álcool, e os textos Hindus ayurvédicos descrevem quer os benefícios das bebidas alcoólicas quer as consequências do seu abuso. Na Grécia Clássica consumia-se vinho ao pequeno-almoço, e este fazia parte da dieta da maioria dos cidadãos de Roma no século I antes da nossa era.

Na Europa medieval toda a família bebia cerveja - os homens uma cerveja mais forte, as crianças uma mais fraca, e as mulheres uma de graduação intermédia. Também se consumia cidra e vinho de bagaço, sendo o vinho de uva reservado às classes mais altas. Em suma: a humanidade alcoolizava-se havia milénios, e a Europa da Idade Média acordava ébria e deitava-se embriagada. O torpor do álcool, transversal a toda a sociedade, obnubilava mesmo as mentes mais brilhantes.

Mas do Islão veio o grande redentor, quando os Turcos, após o falhado cerco a Viena de 1529, deixaram para trás alguns sacos de café. Rapidamente as sua propriedades foram conhecidas: "seca os humores frios, dispersa os gases, fortalece o fígado, é o remédio soberano para hidropsia e sarna, restaura o coração, alivia dor de barriga. O seu vapor é, de facto, recomendado para fluxões dos olhos, zumbido nos ouvidos, catarro, reumatismo, ou nariz pesado."

Foi assim que o café substituiu, em certa medida, a cerveja e o vinho, nos hábitos alimentares europeus. O dia passou a começar com um estimulante de baixas calorias, em vez de um entorpecedor calórico, o que produziu um novo paradigma de Homem: os corpos rotundos e maciços que podemos ver nas pinturas do século XVII - consequência do consumo excessivo de bebidas fermentadas - tornaram-se mais esbeltos e ágeis; as pessoas tornaram-se sóbrias e sérias; e o pensamento, a inteligência e razão - por fim libertos do seu etílico véu  - passaram a ser valorizados.


O consumo do café rapidamente se tornou num hábito cada vez mais vulgarizado e, com o vício da cafeína, começou a procura frenética de fontes desta maravilhosa droga, o que originou o aparecimento de comércio externo em larga escala, com todas as inerentes consequências para o desenvolvimento social.


O café, por outro lado, mantinha as pessoas suficientemente sóbrias para darem asas à criatividade e inventarem toda uma gama de pequenos melhoramentos do seu bem-estar diário, concedendo ao cidadão comum uma comodidade como nunca antes tinha experimentado.

Pode, por tudo isto, dizer-se que a paixão da civilização ocidental pelo café foi um dos verdadeiros motores do Iluminismo - e bem sabemos que só este criou as condições para o surgimento da Maçonaria Especulativa. Foi graças ao café que, finalmente de olhos bem abertos, do meio-dia à meia-noite, o Homem pôde iniciar o trabalho para o seu melhoramento, em busca de mais Luz e Sabedoria.


Paulo M.


Fontes: 
http://www.stephenhicks.org/2010/01/18/coffee-and-the-enlightenment/
http://solohq.solopassion.com/Articles/Cresswell/Making_the_Genius_Quicker_A_Complete_Hiftory_of_Man_According_to_Hif_Divers_Delightf_%28Part_Two%29.shtml
http://en.wikipedia.org/wiki/Alcoholic_beverage